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25 de junho de 2026

Contornos provisórios

Sobre o Líbano.

Nasser Elamine




Ao longo da guerra entre os EUA/Israel e o Irã, o Líbano revelou-se o obstáculo mais difícil de superar para um acordo duradouro. Durante todo o conflito, o país foi o principal palco de disputa entre Israel e Irã pela definição de suas posições na ordem regional. Após a entrada do Hezbollah na guerra, em 2 de março, Israel iniciou uma incursão aérea e terrestre brutal no sul do Líbano, que deixou mais de 4.000 mortos e provocou o deslocamento de mais de um milhão de pessoas — quase um quinto da população. A campanha israelense concentrou-se na destruição de infraestrutura civil e na expansão de sua ocupação: a chamada "zona de segurança", cuja extensão é estimada atualmente em cerca de 608 quilômetros quadrados.

Netanyahu considera a vitória no Líbano necessária para impedir que o Irã reconstrua o Hezbollah e, ​​com isso, restaure um pilar fundamental de sua capacidade de dissuasão. Teerã, por sua vez, insistiu que a interrupção da ofensiva contra o Líbano fosse uma condição para encerrar a guerra regional. Isso parecia ter sido ratificado com a assinatura do Memorando de Entendimento em 14 de junho, encerrando oficialmente os combates em todas as frentes. No entanto, os ataques israelenses continuaram até que um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah fosse acordado em 19 de junho — sob a supervisão de Teerã, Washington e Doha —, o qual permanece em vigor até o momento em que este texto é escrito.

Netanyahu, que passou décadas pressionando administrações dos EUA a se unirem a Israel em um ataque ao Irã, certamente sabia que dispunha de uma janela de oportunidade restrita para desferir um golpe decisivo antes que surgissem conflitos de interesse. Trump vinha sofrendo crescente pressão interna para encerrar uma guerra que abalou os mercados globais, elevou os preços dos combustíveis e desgastou seus índices de aprovação. Tensões no próprio Líbano complicaram ainda mais a situação. A coalizão de Nawaf Salam, que assumiu o poder em fevereiro de 2025, fez do desarmamento do Hezbollah o ponto central de seu programa. Sob orientação do presidente Joseph Aoun, o governo iniciou negociações diretas com Israel na tentativa de contornar a influência iraniana e garantir o apoio dos EUA. O Hezbollah, por sua vez, entrou na guerra buscando a retirada israelense do sul e a restauração de seu prestígio interno e regional; o desarmamento não era uma concessão que o grupo estivesse disposto a considerar.

O Memorando de Entendimento acordado em Islamabad foi amplamente visto em Israel como um fracasso histórico. Isso ocorre não apenas porque o acordo impôs restrições significativas às operações militares israelenses no Líbano e expôs a crescente divergência entre Washington e Tel Aviv. Ele também simboliza a falha de Israel em consolidar as conquistas dos últimos três anos e em converter a dominância militar em vantagem política. Antes de fevereiro, Israel vinha avançando na remodelação do Oriente Médio como sua própria esfera de influência — o núcleo estratégico do conceito de "Grande Israel" — e projetando poder sem encontrar resistência; seu alcance estendia-se muito além do Levante, com ataques ao Ansarullah no Iêmen, bombardeios ao Catar e a deflagração de hostilidades contra o Irã em junho de 2025, culminando em um ataque dos EUA a instalações nucleares iranianas. A República Islâmica forçou Israel a suportar golpes severos e a recorrer aos sistemas de defesa antimísseis dos EUA e da Europa durante a "Guerra dos Doze Dias"; contudo, saiu do conflito aparentemente mais frágil do que nunca. A região parecia estar entrando em uma era de hegemonia israelense, o que implicaria liberdade de ação em toda a região, normalização de relações com os Estados árabes e, futuramente, uma redução da dependência financeira e militar em relação aos EUA.

No Líbano, por sua vez, o Hezbollah fora forçado a recuar após sofrer uma derrota devastadora pelas mãos de Israel no final de 2024, a qual eliminou a maior parte da alta cúpula militar do grupo, incluindo Hassan Nasrallah e seu segundo no comando, Hashem Safieddine. Enfraquecido, o grupo concordou com um cessar-fogo em novembro que permitiu a Israel manter presença militar ao norte da "Linha Azul", aguardando uma retirada gradual; nos quinze meses seguintes, as Forças de Defesa de Israel (FDI) realizaram uma série de ataques que deixaram pelo menos 500 libaneses mortos. Paralelamente, o governo Salam instruiu o exército libanês a desmantelar a infraestrutura do Hezbollah ao sul do rio Litani. Partindo da premissa de que a queda de Assad na Síria representava o fim da influência regional do Irã, o governo alinhou-se aos EUA; enviados americanos tornaram-se presenças frequentes em Beirute. O gabinete de Salam (com exceção dos ministros xiitas), juntamente com a maioria da classe política libanesa, passou a isolar politicamente o Hezbollah, responsabilizando-o integralmente pela destruição e ocupação do sul do Líbano por parte de Israel.

No entanto, o Hezbollah passou o último ano reconstruindo suas capacidades militares, reorganizando sua estrutura de liderança e voltando sua estratégia de combate para táticas de guerrilha. O objetivo não era mais manter posições contra um adversário tecnicamente superior, mas sim dificultar o estabelecimento de bases por parte de Israel. Drones guiados por cabos de fibra óptica — inspirados em desenvolvimentos na Ucrânia — ofereceram um meio de escapar dos dispositivos de guerra eletrônica e de interferência de sinal (jamming), avaliados em bilhões de dólares, das forças israelenses.

Israel intensificou sua ofensiva à medida que as negociações entre EUA e Irã avançavam. Incomodado com a notícia de um cessar-fogo em 8 de abril e ciente de que o tempo estava se esgotando, Israel lançou uma ofensiva brutal contra 150 locais no Líbano, matando 303 pessoas e ferindo outras 1.105. Em 14 de abril, Washington sediou as primeiras negociações diretas entre Israel e o Líbano, com o objetivo de desvincular as frentes iraniana e libanesa. Um cessar-fogo entrou em vigor alguns dias depois, mas, na prática, limitou-se a excluir Beirute dos ataques — uma situação que Israel aproveitou para impor uma nova dinâmica no campo de batalha: qualquer ataque a seus assentamentos no norte provocaria um ataque à capital libanesa; o Irã prometeu atacar o norte de Israel em resposta. Apesar do cessar-fogo formal, no final de maio, Israel bombardeou infraestruturas no sul do Líbano e realizou incursões terrestres ao norte da "zona de segurança". Frustrado com os ataques de drones do Hezbollah, que haviam matado pelo menos 11 soldados israelenses, Israel tentou, em 7 de junho, desafiar o Irã (testando se Teerã estava blefando) ao atacar um prédio nos subúrbios ao sul de Beirute, matando duas pessoas. O Irã retaliou imediatamente, minando as já frágeis negociações entre Líbano e Israel e reforçando a unidade das frentes de combate.

As ambições regionais de Israel foram efetivamente interrompidas por enquanto. Sua aposta de que o regime iraniano e o Hezbollah cederiam sob a pressão do conflito e da crescente oposição interna não se concretizou. Em vez disso, o Irã emergiu em uma posição estratégica mais forte, a qual agora tenta capitalizar nas negociações na Suíça. A inclusão do Líbano no Memorando de Entendimento (MOU) — segundo o qual os signatários devem "garantir" a soberania e a integridade territorial do país — é um indicador do poder de barganha de Teerã. No entanto, a redação do documento não chega a exigir explicitamente uma retirada israelense. Netanyahu deixou claro que Israel não tem intenção de se retirar de sua "zona de segurança" antes de ter "garantido a segurança" de seus assentamentos no norte. As Forças de Defesa de Israel (FDI) continuaram a realizar ataques após o acordo de Islamabad, deslocando habitantes do sul que haviam começado a retornar às suas aldeias e matando dezenas de civis. O Irã, plenamente ciente da capacidade de Israel de minar a diplomacia, respondeu primeiro adiando as negociações com os EUA previstas para 19 de junho e, em seguida, fechando o Estreito de Ormuz quando Israel violou outro cessar-fogo acordado em 20 de junho. Poucas horas depois, Tel Aviv finalmente concordou com mais um cessar-fogo.

Israel agora planeja aproveitar as negociações em curso com o governo libanês para legitimar sua presença no sul. Eles concordaram em estabelecer "zonas-piloto" onde o exército libanês, sob supervisão dos EUA, ficará encarregado de desmantelar a infraestrutura militar do Hezbollah — embora as forças armadas libanesas, mal equipadas e pouco preparadas, não consigam fazê-lo sem pelo menos um acordo implícito do próprio grupo. No entanto, os planos de Israel podem ser complicados por um mecanismo de prevenção de conflitos acordado entre o Irã e os EUA no último fim de semana, que supostamente inclui a participação do Catar e do Paquistão, mas não de Israel. Os detalhes de como tal mecanismo funcionaria na prática ainda não foram revelados, mas espera-se que Israel tenha de informar o grupo de monitoramento sobre qualquer possível atividade militar. É provável que o país rejeite essa estrutura e pressione os EUA para que não avancem com ela, ao mesmo tempo em que busca, potencialmente, arranjos alternativos com o governo libanês.

Nos próximos meses, Israel buscará qualquer oportunidade para minar o processo de negociação entre EUA e Irã e retomar as operações. Netanyahu enfrenta uma perda acentuada de popularidade entre os eleitores israelenses; a maioria deles acredita, segundo relatos, que ele não deveria concorrer nas próximas eleições gerais. A sociedade israelense vê qualquer retirada do Líbano como uma derrota; 92% acreditam que o Irã venceu a guerra, enquanto 72% não acreditam nas afirmações do primeiro-ministro de que Israel obteve ganhos significativos e eliminou uma ameaça existencial. Como indica um relatório de inteligência dos EUA, tal pressão pode muito bem levar Netanyahu a reativar a frente libanesa.

Se isso acontecer, o próximo alvo de Israel provavelmente será Ali al-Taher, uma cadeia de colinas que se estende até as encostas ocidentais de Jabal Amel, no sul do Líbano, onde ocorreram confrontos violentos nos dias que antecederam o cessar-fogo. (As Forças de Defesa de Israel divulgaram recentemente um mapa que situa a área dentro de sua zona de segurança.) O controle dessas colinas estratégicas daria ao exército israelense uma posição vantajosa sobre a cidade de Nabatieh e as terras altas de Iqlim al-Tuffah, onde Israel afirma que o Hezbollah mantém uma grande base operacional e uma infraestrutura militar profunda. A destruição dessa infraestrutura, segundo fontes israelenses, privaria o grupo da capacidade de resistir às forças terrestres de Israel. Netanyahu e outros membros de seu gabinete podem avaliar que garantir o controle de Ali al-Taher lhes permitiria apresentar a Trump um plano suficientemente convincente para derrotar o Hezbollah de forma decisiva. Tal desfecho enfraqueceria substancialmente a posição de negociação do Irã e, possivelmente, o forçaria a fazer concessões dolorosas que Trump poderia então alardear como uma vitória absoluta.

O Hezbollah, por sua vez, compreende que um fim duradouro para a guerra depende da percepção americana de que o grupo permanece militarmente invicto e de que o Irã mantenha o máximo poder de barganha durante as negociações. É por isso que o grupo tem reagido a todas as violações israelenses do cessar-fogo, ao mesmo tempo em que demonstra abertura para um acordo de segurança mútua — um acordo que sinalize disposição para recuar para o norte do rio Litani. O governo libanês, por sua vez, adotou um tom mais conciliador em relação ao Hezbollah. Provavelmente, o governo aceitou o fato — possivelmente sob orientação árabe — de que o destino da frente libanesa será decidido nas negociações entre Irã e EUA na Suíça, e não nas conversas paralelas com os israelenses.

O governo libanês tem sido amplamente criticado por iniciar negociações com Israel sem uma estratégia clara. No entanto, essa iniciativa nunca teve como foco o que Beirute poderia oferecer ou exigir de seu vizinho. Ela representou um ato de alinhamento político com os EUA, baseado no cálculo de que o Irã seria derrotado de forma abrangente ou que, pelo menos, sua capacidade de influenciar os desdobramentos regionais seria drasticamente reduzida. Ainda assim, as negociações poderiam ser benéficas para o Líbano no sentido limitado de permitir que Israel fizesse concessões potencialmente apresentáveis ​​como resultado de negociações entre dois "Estados soberanos", em vez de ordens transmitidas de Trump para Netanyahu ou consequências de uma guerra fracassada. Por sua vez, os negociadores libaneses podem tentar tirar proveito da posição central do país no acordo entre o Irã e os EUA para insistir no fim da ocupação israelense do sul, ao mesmo tempo em que restabelecem relações diplomáticas com Teerã, no âmbito de uma reconfiguração regional mais ampla.

No momento, a unidade das frentes se mantém, e com ela, uma frágil dissuasão mútua entre Israel, de um lado, e o Irã e o Hezbollah, de outro. No entanto, isso não constitui uma base para um equilíbrio de longo prazo. O desfecho do conflito no Líbano só poderá ser vislumbrado quando os contornos de uma nova ordem de segurança regional começarem a se definir. Nesse ínterim, qualquer trégua nos combates poderá ser breve.

12 de agosto de 2024

A segunda guerra de Israel

Enquanto a guerra de Israel em Gaza infligiu sofrimento imensurável aos palestinos, seu conflito com o Hezbollah representa uma ameaça existencial à região. Apesar disso, Israel está ativamente cortejando uma guerra mais ampla.

Nasser Elamine

Jacobin

Soldados israelenses e veículos blindados se reúnem perto da cidade de Beita, na Cisjordânia, em 12 de julho de 2024. (Wahaj Bani Moufleh / Middle East Images / AFP via Getty Images)

Tradução / As próximas semanas serão cruciais para determinar se a atual guerra regional no Oriente Médio aumentará em intensidade. Israel concordou em retomar as negociações de cessar-fogo em 15 de agosto, pouco mais de duas semanas após assassinar Ismail Haniyeh, líder político e principal negociador do Hamas, em Teerã, e Fuad Shukr, um dos membros fundadores da ala armada do Hezbollah, em Beirute. Tanto o Irã quanto o Hezbollah prometeram responder aos ataques de Israel.

Temendo uma escalada, os Estados Unidos, o Catar e o Egito emitiram uma declaração pressionando por uma nova rodada de negociações depois que diplomatas ocidentais supostamente defenderam um possível acordo abrangente para encerrar a guerra em Gaza. O acordo incluiria um cessar-fogo, uma retirada israelense de Gaza e uma troca de prisioneiros entre Israel e as facções de resistência palestinas. O acordo também priorizaria as necessidades humanitárias ao aumentar a ajuda a Gaza e desenvolver um plano robusto para a reconstrução da infraestrutura devastada por anos de conflito.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu respondeu à declaração dos EUA-Catar-Egito confirmando que continuará as negociações em 15 de agosto. Yahya Sinwar, que substituiu Haniyeh como presidente do gabinete político do Hamas, pediu aos mediadores que propusessem um plano para forçar Israel a implementar o acordo ao qual a organização, com base nas propostas do presidente Joe Biden, concordou no final de maio. Rodadas adicionais de negociações, disseram os representantes do Hamas, “darão ao ocupante tempo para continuar perpetuando a guerra de genocídio contra nosso povo”. Não está claro se o grupo enviará seus representantes para as negociações em 15 de agosto. No entanto, está claro que o Hamas não acredita mais que Israel esteja seriamente interessado em acabar com a guerra.

Assim como Biden, Kamala Harris fez declarações críticas às ações de Israel e até pediu um cessar-fogo imediato. Mas ela evitou aplicar qualquer pressão séria sobre o governo de Netanyahu, ao qual os Estados Unidos concordaram em enviar um adicional de $3,5 bilhões em ajuda militar para ser gasto em equipamentos fabricados nos EUA.

Nos meses imediatamente após 7 de outubro, Netanyahu experienciou uma queda significativa no apoio. No entanto, pesquisas mais recentes mostram que ele é mais popular do que Benny Gantz, que renunciou ao governo em meados de junho em oposição à recusa de Netanyahu em aceitar o acordo proposto por Biden no final de maio, que teria garantido um cessar-fogo e a liberação de reféns israelenses. A obstinação de Netanyahu parece ter lhe dado, em vez de tirado, apoio entre o público israelense. Nessas condições, parece haver pouca razão para esperar que esta rodada de negociações seja diferente das anteriores, que foram consistentemente obstruídas por Israel.

Desde junho, Israel sinalizou que a guerra em Gaza logo entraria em uma “fase menos intensa”, caracterizada por ataques direcionados com o objetivo de impedir que o Hamas se reagrupasse. No entanto, apesar dos contínuos massacres de Israel, incluindo um recente ataque a uma escola abrigando deslocados em Gaza que ceifou mais de cem vidas palestinas, as operações do Hamas contra soldados israelenses dentro da faixa de Gaza persistiram. A nomeação de Sinwar — que, ao contrário de Haniyeh, está localizado em Gaza em vez de no Catar — como chefe do gabinete político do Hamas e arquiteto dos ataques de 7 de outubro envia uma mensagem clara de que o movimento está preparado para continuar a luta, se Israel se recusar a aceitar um cessar-fogo.

O Irã, que insiste em seu direito de defender sua soberania, após o assassinato de Haniyeh em Teerã, também indicou sua potencial disposição de reduzir sua resposta se isso contribuir para o fim do ataque de Israel contra o povo palestino. O recém-empossado presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, disse ao seu correspondente francês que os Estados Unidos e a Europa devem pressionar Israel a aceitar uma trégua em Gaza para reduzir as tensões. Mas ainda não se sabe se uma resposta militar iraniana ocorrerá e, em caso afirmativo, qual seria o seu alcance. O Irã passou os dias seguintes ao assassinato de Haniyeh em extensas conversas com aliados, parceiros e mediadores diplomáticos, possivelmente negociando os contornos aceitáveis de uma resposta que reestabeleça a dissuasão com Israel sem arriscar uma escalada regional.

O Hezbollah também manteve segredo sobre os detalhes quanto ao prazo, alcance e intensidade de sua resposta antecipada ao assassinato de Shukr. A mídia está repleta de especulações, alimentadas em parte pelo secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, que em seu último discurso confirmou que uma resposta era iminente. No entanto, um jornal libanês próximo ao Hezbollah relatou que o grupo pode mirar em Tel Aviv como parte de sua resposta. Mas Nasrallah deliberadamente manteve seus comentários vagos, deixando incerto se a resposta seria um esforço coordenado envolvendo outras facções dentro do eixo de resistência ou uma operação solo pelo Hezbollah. A incerteza em torno das ações do Hezbollah, enfatizou Nasrallah, é em si um componente da resposta do grupo.

No entanto, enquanto Irã e Hezbollah escolhem cuidadosamente o que acreditam ser o momento e o alvo corretos para seus ataques de retaliação, nenhum deles decidirá, em última instância, se a guerra se expandirá. Em contraste com o Irã e o Hezbollah, Israel não só tem o potencial, mas também o interesse em expandir a guerra em curso. É por isso que os Estados Unidos estão supostamente pressionando Israel preventivamente para “limitar sua resposta” antes mesmo de Teerã e Hezbollah terem feito um movimento.

Pelo menos em suas declarações públicas, os Estados Unidos não parecem preocupados com a possibilidade de uma guerra entre Irã e Israel. A Vice-secretária de imprensa do Pentágono, Sabrina Singh, disse recentemente em uma conferência à imprensa sem câmeras que, embora os Estados Unidos tenham deslocado ativos militares para a região “para projetar uma mensagem de dissuasão”, o Pentágono não acredita que uma expansão da guerra seja “iminente”.

Mas isso não significa necessariamente que essas projeções se aplicam à situação entre Líbano e Israel. Embora um grande ataque iraniano a Israel possa ajudar a restabelecer a dissuasão mútua entre os dois, não se entende necessariamente que um ataque do Hezbollah, que está em guerra com Israel desde 8 de outubro, teria o mesmo efeito.

Os objetivos de Israel em relação ao Irã não mudaram desde antes de 7 de outubro. Israel busca minar qualquer progresso que Teerã possa fazer na normalização das relações com o Ocidente e impedir um acordo nuclear semelhante ao negociado por Barack Obama e rescindido por Donald Trump, que levantaria as sanções dos EUA em troca da desistência do desenvolvimento de um programa de armas nucleares. Esses são objetivos concretos que podem ser realizados sem um agravamento para uma conflagração direta.

Para o Hezbollah, as apostas são diferentes. Nos poucos dias que se seguiram ao ataque do Hamas em 7 de outubro, o gabinete israelense considerou seriamente realizar um ataque preventivo ao Líbano. Logo após os ataques do Hamas e de outros membros da resistência palestina a Israel, as Forças de Defesa de Israel (IDF) despacharam três divisões — uma divisão contém entre dez mil e vinte e cinco mil tropas — para a fronteira norte, temendo a perspectiva de uma invasão em uma segunda frente. O comandante de uma divisão relatou que, se o Hezbollah tivesse escolhido invadir, “teríamos conseguido detê-los apenas em Haifa”, a vinte e seis milhas ao sul da fronteira libanesa. De acordo com algumas fontes, foi apenas uma intervenção de última hora da administração Biden que impediu o ataque preventivo de Israel.

O medo de repetir o 7 de outubro pelo norte, junto com a vulnerabilidade dos assentamentos do norte de Israel ao Hezbollah, que forçou mais de setenta mil israelenses a evacuar, continua a influenciar os cálculos de Israel. Se Israel conseguir alcançar seus objetivos declarados — derrotar o Hamas e normalizar as relações com os estados árabes —, terá que lidar com a presença de uma organização militar massiva, altamente treinada e fortemente armada em suas fronteiras. É por isso que Israel considera a guerra com o Hezbollah inevitável, se não iminente.

Além disso, não está claro se o Irã se envolveria necessariamente se Israel escalasse sua guerra com o Líbano. A liderança do Hezbollah mencionou antes que não precisariam do envolvimento iraniano se tal guerra ocorresse. Isso pode significar que Netanyahu ainda pode estar planejando aproveitar a oportunidade para direcionar os recursos de seu exército para o Líbano e afastá-los de Gaza, como estava planejando em junho, sem necessariamente arriscar uma guerra total com o Irã.

Embora Israel tenha sistematicamente atacado a liderança militar do Hezbollah por meio de assassinatos direcionados nos últimos dez meses, o que provavelmente enfraqueceu as capacidades estratégicas do grupo, esses ataques não afetaram o arsenal massivo do Hezbollah, nem os milhares de combatentes altamente treinados que ele pode mobilizar. Da mesma forma, esses assassinatos pouco influenciaram a crise interna de refugiados no norte de Israel e, em vez disso, expuseram as limitações do sistema de defesa Iron Dome. Enquanto a guerra levou ao deslocamento interno de cerca de noventa e oito mil residentes dos vilarejos e cidades da fronteira sul libanesa, Israel teve que evacuar noventa mil de seus cidadãos dos assentamentos do norte.

Itzhak Brik, um general de divisão israelense aposentado, descreveu uma potencial guerra com o Líbano como “suicídio coletivo”. Ele aponta que o Iron Dome tem falhado em interceptar veículos aéreos não tripulados (UAVs), foguetes e mísseis há meses, pedindo ao governo israelense que reconheça que as IDF não estão preparadas para dezenas de mísseis diários, quanto mais para os milhares estimados que possam atingir Israel diariamente se uma guerra total ocorrer. Israel estima que o Hezbollah tenha entre cento e cinquenta mil e duzentos mil mísseis e foguetes, enquanto as fontes iranianas estimam quase um milhão. O valor real seguramente está em algum lugar entre os dois.

Não há dúvida de que o Líbano sofreria uma destruição devastadora, especialmente no sul, no Vale do Beqaa e nos subúrbios sul de Beirute, se engajar em uma guerra em grande escala com Israel. No entanto, o que seria diferente desta vez é que Israel sofreria um grau semelhante de devastação.

Colaborador

Nasser Elamine é editor do departamento de relações exteriores do Al-Quds Al-Arabi.

6 de fevereiro de 2024

Assimetrias

Perspectiva estratégica do Hezbollah.

Nasser Elamine


Saliba Douaihy, Untitled (Abstract)

À medida que o ataque de Israel a Gaza entra no seu quinto mês, ainda não está claro se irá evoluir para um conflito regional em grande escala. Entre os fatores decisivos está o Hezbollah, um dos intervenientes não estatais mais fortemente armados do mundo e, possivelmente, o mais qualificado na guerra urbana e alpina. Até agora, o grupo tem-se abstido de tomar medidas de escalada, com o objetivo de impedir o envolvimento libanês na guerra, ao mesmo tempo que desvia parcialmente as FDI com ataques limitados do norte. Em vez de visar infra-estruturas vitais israelenses, conduziu centenas de operações destinadas a postos militares avançados, forçando Israel a criar uma zona tampão interna, evacuando cidadãos dos colonatos do norte. Mais de 170 combatentes do Hezbollah foram mortos até agora; mas o partido, que tem cerca de 50 mil a 100 mil combatentes treinados, pode lidar com tais perdas.

Contudo, existem elementos da liderança política e militar israelense que parecem determinados a provocar um grande confronto com o Hezbollah. Seus motivos são bastante claros. Em primeiro lugar, os membros do gabinete israelense, juntamente com o comando das FDI e a Mossad, sabem que a sua melhor hipótese de permanecer no poder é prolongar os combates - e não hesitam em sacrificar os seus próprios civis para o conseguir. Em segundo lugar, é possível que, se Israel continuar a cometer assassinatos em massa sem atingir nenhum dos seus objetivos de guerra declarados, possa ficar mais isolado na cena internacional; considerando que se o Hezbollah começasse a atacar cidades israelenses e a atacar civis, o governo de Netanyahu poderia reviver a fantasia de um Estado democrático em perigo e reunir as “forças da civilização” para a sua causa. E terceiro, existe o receio de que o Hezbollah possa algum dia lançar a sua própria “Inundação de Al Aqsa” através da fronteira norte de Israel - levando políticos seniores, incluindo Gantz, Gallant e Ben-Gvir, a apelar a um ataque preventivo.

Israel tem, portanto, feito repetidas tentativas de provocar o seu vizinho: visando civis no Sul do Líbano e lançando ataques em outras partes do país. Os comandantes do Hezbollah e do Hamas, incluindo Wissam Al-Tawil e Saleh Al-Arouri, foram assassinados em solo libanês, e Netanyahu ameaçou “transformar Beirute e o sul do Líbano em Gaza”. Mas o Hezbollah continua empenhado em uma guerra de baixa intensidade e até agora recusou-se a responder com um grande ataque. O que explica esta decisão estratégica? Não é apenas o medo de mais destruição que impede a escalada; é uma consciência de que isto não iria necessariamente promover os objetivos do grupo, nem os do Eixo da Resistência.

Para compreender o cálculo do Hezbollah, precisamos considerar a posição do Líbano na região. Desde que Obama anunciou o “pivô para a Ásia” em 2009, os EUA têm tentado estabelecer uma nova arquitetura de segurança no Oriente Médio que lhe permitiria minimizar o envolvimento direto em guerras por procuração e concentrar-se na contenção da China. Como parte deste processo, a hegemonia procurou normalizar as relações entre Israel e o mundo árabe, culminando nos Acordos de Abraham de 2020. Ao mesmo tempo, o Irã e a Arábia Saudita começaram a procurar a distensão - na esperança de reorientar as suas economias, atrair investimento interno e forjar laços com os países vizinhos, reduzindo ao mesmo tempo os seus respetivos papéis nos conflitos regionais. No ano passado, os dois Estados chegaram a um acordo bilateral em Pequim, cujos detalhes permanecem obscuros, mas que parecem envolver um compromisso quando se trata de nações onde ambos exercem influência, como o Iêmen e o Líbano. Alguns analistas argumentaram que Mohammed bin Salman está agora pronto para cooperar com o Hezbollah e aceitar o seu estatuto como potência política e militar dominante no Líbano. Pode até ser do interesse dos sauditas ter uma forte força de dissuasão na fronteira de Israel, especialmente uma força pela qual não têm responsabilidade financeira ou política.

Dada a contínua miséria econômica do Líbano, esta poderia ser uma potencial tábua de salvação. A espiral descendente do país começou em 2019, depois dos estados do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, terem cortado a ajuda e desinvestidos nos seus setores imobiliário e financeiro. Desafiar a hegemonia do Hezbollah foi citado como motivo, embora a decisão também tenha surgido depois de as ramificações da crise financeira de 2008 terem finalmente chegado ao Golfo, forçando os seus líderes a reestruturar os seus planos de investimento estrangeiro. Agora, a classe política libanesa, incluindo elementos poderosos do Hezbollah, acredita que os acordos entre a Arábia Saudita e o Irã - que até agora perduraram após 7 de Outubro - poderiam permitir-lhes voltar no tempo até antes do colapso de 2019. O seu objetivo é reviver o modelo rentista que foi estabelecido no período pós-Mandato e consolidado sob Rafiq Al-Hariri na década de 1990: um setor financeiro dominante que sustenta o Estado central através de empréstimos regulares, e um mercado imobiliário dependente de influxos de investidores do Golfo e expatriados libaneses. Esperam também que o sistema financeiro libanês possa agora servir como mediador para o investimento do Golfo e do Irã na reconstrução da Síria.

Com o acordo entre a Arábia Saudita e o Irã em vigor e tendo passado os efeitos da crise financeira, as barreiras ao investimento no Líbano poderiam ser removidas e a legitimidade do Hezbollah poderia ser reconhecida em toda a região. Além disso, se o Irã espera reduzir o seu envolvimento em conflitos regionais e estabelecer parcerias econômicas duradouras com antigos rivais, então poderá querer que o Hezbollah faça o mesmo: reduzindo a sua atividade militar no Líbano e na Síria e concentrando-se, em vez disso, na recuperação econômica e na “boa governança'. Deveríamos abster-nos de fazer declarações categóricas sobre a relação entre o Irã e o Hezbollah, uma vez que os seus contornos não são claros e este último dificilmente pode ser descrito como um simples proxy. Mas a perspectiva da política externa de Teerã parece, prima facie, alinhar-se com a abordagem do Hezbollah em relação a Gaza nos últimos meses.

Também parece estar de acordo com os interesses de Washington, que está ansioso por evitar que a guerra engolfe o Oriente Médio, e que alegadamente tem feito esforços diplomáticos para convencer o Hezbollah a continuar a sua política de contenção. Embora os detalhes permaneçam pouco claros e não corroborados, os relatórios das autoridades iranianas e dos meios de comunicação afiliados ao Hezbollah sugerem que a Casa Branca ofereceu ao Hezbollah um novo “acordo para toda a região”, desde que não expanda a guerra. Habib Fayad, um jornalista libanês (e irmão de um deputado do Hezbollah), argumentou que os americanos aceitariam ceder o controle do Líbano ao Hezbollah, com a condição de o partido se comprometer a nunca lançar uma incursão em Israel ao estilo de 7 de Outubro.

No entanto, este suposto acordo também pode criar um dilema para o Hezbollah. Anteriormente, o grupo conseguiu fugir à responsabilização pela crise econômica libanesa, uma vez que não tem ligações aos setores bancário e imobiliário. Poderia usar o seu estatuto de movimento militar transnacional para se distanciar dos partidos políticos nacionais do Líbano, odiados pela sua má gestão e corrupção. Se o Hezbollah aceitasse esta oferta americana, alguns dos seus quadros temem que isso assinalasse a sua lenta transformação em algo mais parecido com um partido governamental convencional: integrado no establishment, minado da sua energia insurgente. Se seguirá esse caminho permanece incerto. O grupo é composto por políticos, a maioria dos quais não tem antecedentes militares e podem ser favoráveis a essa “normalização”, e por uma facção militante - mais fortemente representada na liderança - que está relutante em ser cooptada.

A situação atual parece, portanto, ser de profunda assimetria. Israel, naufragando no campo de batalha e desacreditando-se internacionalmente, está sob pressão para estabelecer algum tipo de fim de jogo para a sua guerra. O Hezbollah, entretanto, não tem restrições de tempo real. À medida que os combates se arrastam, acredita que pode renovar a sua credibilidade - que foi prejudicada durante a guerra civil síria e os protestos de 2019 no Líbano - estabelecendo um equilíbrio entre a solidariedade armada com a Palestina e a preocupação com a segurança libanesa. Isto não quer dizer que o Hezbollah esteja apenas instrumentalizando o conflito; a sua dedicação à causa palestiniana é genuína e não deve ser subestimada. A questão é que Israel e o Eixo da Resistência estão operando em dois prazos diferentes, um mais urgente que o outro.

Ainda assim, a política do Hezbollah poderá ainda ser revertida se a guerra regional for considerada necessária ou inevitável. Hassan Nasrallah afirmou repetidamente que, nestas circunstâncias, as suas forças se envolveriam sem limites ou restrições - o que, segundo alguns comentadores libaneses, poderia significar atacar alvos estratégicos israelenses, incluindo fábricas de nitrato de amônio, além de centrais petroquímicas e energéticas, em uma tentativa de reparar o significativo desequilíbrio militar entre os dois lados.

Se o Hezbollah está atualmente seguindo uma estratégia de não escalada e afirmando a sua vontade de negociar com Israel na condição de um cessar-fogo, é porque está confiante de que pode consolidar o seu poder tanto no Líbano como em toda a região. Por outras palavras, o Hezbollah ainda tem algo a perder ao entrar em uma guerra em grande escala. Mas se o Hezbollah acreditar que este tipo de guerra - que poderá devastar o Líbano, danificar a infra-estrutura militar do partido e comprometê-lo politicamente - é inevitável, então não terá nada a perder. Nesse caso, Israel pode acabar com uma presença poderosa na sua fronteira norte: fortemente armada e já não interessada em contenção.

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