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21 de dezembro de 2022

PEC fortalece Lira e evidencia dependência de Lula do centrão

Auxiliares do petista reconhecem falhas na articulação e que placar obtido não representa a base do novo governo

Thiago Resende


Como alertavam aliados do PT, Arthur Lira (PP-AL) sai fortalecido no balanço final das negociações da PEC da Gastança. A dez dias de tomar posse, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já teve uma amostra de sua fragilidade política na Câmara.

Sem apoio de parte da base de Lira, Lula teria dificuldade para conseguir aprovar –mesmo que por um ano– a proposta que viabiliza promessas eleitorais, como a ampliação do Bolsa Família e do salário mínimo.

Arthur Lira (dir.), presidente da Câmara, e Lula, presidente eleito, durante encontro em Brasília - Sergio Lima - 9.nov.22/AFP

Uma PEC de um ano era o receio de conselheiros de Lula, mas foi o prazo possível para um governo ainda em construção. O cenário agora é que, no primeiro ano do mandato, o presidente eleito enfrente uma nova batalha no Congresso para garantir dinheiro no Orçamento de 2024.

Lira aproveitou o vácuo no desarranjo político de Lula o fato de a esquerda ter uma bancada insuficiente –pouco mais de 100 das 513 cadeiras– para consolidar a força de sua reeleição ao comando da Câmara. O PT teve então que pular no barco, anunciou apoio a Lira, quando ainda nem tinha sinais claros de que a PEC solucionaria os problemas do novo governo.

Auxiliares de Lula reconhecem que os 331 votos obtidos na Câmara para aprovar a proposta não é a base política do presidente eleito. O novo governo tem consciência de que precisará procurar o PP, o Republicanos e uma parte do PL. Esses três partidos eram o núcleo duro da base do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Antes de ter um conjunto de alianças partidárias minimamente sólidas, Lula foi obrigado a assumir o risco de tentar aprovar uma medida que dependia de 308 votos na Câmara –palanque do centrão e de forte influência de Lira.

Mas partidos que negociam espaço no novo governo não entregaram todos os votos. Na União Brasil, por exemplo, foram 39 votos a favor da PEC, e 12 deputados se posicionaram contra a proposta. A sigla tem negociado ministérios e cargos de indicação política com Lula.

Também houve traições no PSD. Foram sete votos contrários da legenda que quer indicar ministros e conta com o apoio do PT para reconduzir Rodrigo Pacheco (PSD-MG) à presidência do Senado.

No primeiro teste político de Lula na Câmara, o petista aprovou a PEC com uma margem de 23 votos. Ele precisou de deputados do PP, de Lira e Ciro Nogueira (atual ministro da Casa Civil), e do PL, de Bolsonaro, para aprovar a PEC.

Parte desse apoio veio de aliados do presidente da Câmara. O PP deu 38 votos –mais da metade da bancada.

Entre eles, o líder do partido, André Fufuca (MA), o líder do governo Bolsonaro na Casa, Ricardo Barros (PR), além do voto de Lira, que não é obrigado a votar nesse tipo de projeto.

O PL deu dez votos a favor da proposta, inclusive de Flávia Arruda (DF), ex-ministra de Bolsonaro após indicação de Lira, e de Wellington Roberto (PB). Os dois são próximos do presidente da Câmara.

O Republicanos decidiu, às vésperas da votação, se posicionar contra a proposta. O partido encampava a redução do prazo da PEC para um ano. Lula cedeu e, mesmo assim, a bancada do Republicanos, que promete ser independente no novo governo, passou a atuar como oposição.

A jogada surpreendeu articuladores políticos de Lula e serviu para mostrar o peso da sigla, que terá 41 votos na próxima legislatura.

Diante do recado, auxiliares de Lula retomaram a articulação com o partido, que tinha sido interrompida. O presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), foi procurado inclusive pelo futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). Ambos os lados querem deixar a porta aberta para negociações políticas.

O placar da PEC expõe as falhas na construção da base do novo presidente no Congresso e indica que o petista precisará manter o diálogo com Lira e partidos do centrão para conseguir governar.

Nas negociações da PEC, Lira tentou emplacar aliados do PP e da União Brasil em ministérios de Lula. O plano falhou.

Apesar da derrota, o presidente da Câmara ainda tem muito capital político para barganhar. O grupo dele tem o controle da Casa.

Além disso, quando o cenário parecia ser de enfraquecimento de Lira, ele fez acordos para conseguir contornar os reveses com decisões do STF (Supremo Tribunal Federal), especialmente a do fim das emendas de relator.

O presidente da Câmara usou a própria PEC de Lula para distribuir milhões de reais para todos os parlamentares. Isso se deu pelas chamadas emendas individuais.

Elas são impositivas. Isso significa que Lula não poderá usar como moeda de troca. Os deputados terão R$ 32 milhões garantidos em emenda –mesmo aqueles que não votarem com o novo governo.

Na divisão da verba das emendas de relator, aliados de Lira deixaram uma brecha para que, em negociação com o novo governo, possam continuar com influência sobre a metade dos recursos que, pelo acordo, vai virar orçamento de custeio e investimento de ministérios.

A ideia é manter essa metade do dinheiro nas ações e projetos dos ministérios que já receberiam recursos das emendas de relator, quando elas ainda existiam.

O apetite dos parlamentares por emendas não cessou após a decisão do STF. Caberá a Lula ajustar a articulação política diante de um Congresso mais empoderado do que 20 anos atrás.

19 de dezembro de 2022

PT tenta aprovar PEC em meio a mal-estar com Congresso

Proposta enfrenta empecilhos na Câmara; análise do texto está marcada para esta terça (20)

Julia Chaib, Nathalia Garcia, Thiago Resende, Cézar Feitoza, Danielle Brant e João Gabriel


Aliados do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentam nesta terça-feira (20) aprovar a PEC (proposta de emenda à Constituição) da Gastança mesmo com dificuldades para um texto de consenso e em meio a mal-estar com parlamentares gerado por decisões do STF (Supremo Tribunal Federal).

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), marcou para as 9h o início da sessão de votação. Petistas querem que a proposta seja analisada logo, mas tentam buscar um entendimento sobre os termos da PEC antes que ela vá efetivamente a voto.

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao lado do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), durante cerimônia de diplomação do petista. - Evaristo Sá -12.dez.22/AFP

A matéria será analisada depois de o STF ter resolvido, nesta segunda-feira (19), por seis votos a cinco, declarar inconstitucionais as emendas de relator. A decisão causou atrito entre a nova gestão e o centrão, que tem nas emendas seu principal capital eleitoral.

No dia anterior, o ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo, concedeu uma liminar que retira as despesas com o Bolsa Família do teto de gastos, permitindo que Lula possa assegurar o pagamento de R$ 600 aos beneficiados sem que precise alterar a Constituição.

A proposta de Orçamento de 2023 enviada pelo governo Jair Bolsonaro (PL) ao Congresso Nacional previa um benefício médio de R$ 405. Para cumprir a promessa de manutenção do adicional de R$ 200, o montante necessário é estimado em R$ 52 bilhões.

Mesmo com essa possibilidade, petistas dizem que o melhor é aprovar a PEC, que garante recursos não apenas para o Bolsa Família, mas expande o teto gastos para que outros programas, como o Minha Casa, Minha Vida, sejam retomados. São necessários pelo menos 308 votos, o que equivale a 60% da Câmara, para alterar a Constituição.

O futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reuniria-se com Lula na noite desta segunda para debater a articulação em torno da proposta, uma vez que o prognóstico de aprovação na Câmara, que já não era bom, ficou pior depois das determinações do Supremo.

Ambas as decisões da corte foram lidas por integrantes de partidos de centro e deputados próximos de Lira como uma interferência indevida do STF nas atribuições do Parlamento. Mais do que isso, o próprio presidente da Câmara e aliados avaliam que Lula teve influência no voto de Ricardo Lewandowski, que garantiu a inconstitucionalidade das emendas de relator, por mais que petistas neguem interferência.

Por isso, a avaliação entre parlamentares do centrão é que Lula confrontou Lira e parte do Parlamento e que isso dificulta ainda mais a possibilidade de aprovação da PEC. O clima era descrito na tarde desta segunda como "horroroso" por pessoas próximas do presidente da Câmara.

As negociações em torno da PEC, que eleva o teto e libera R$ 168 bilhões em despesas ao novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), patinam desde a semana passada.

A expectativa em torno do julgamento sobre as emendas de relator e a demora de Lula em repartir os ministérios entre partidos aliados já estavam travando a tramitação da proposta.

O PT gostaria de aprovar o texto que saiu do Senado Federal, que amplia o teto de gastos em R$ 145 bilhões e autoriza outros R$ 23 bilhões em investimentos fora do limite de despesas, em caso de arrecadação de receitas extraordinárias, por um prazo de dois anos, entre outros itens.

Deputados próximos de Lira dizem que Elmar Nascimento (União Brasil-BA), relator da medida na Câmara, comprometeu-se com aliados de partido do centrão, como Republicanos e PP, a reduzir o prazo de validade da medida para um ano —algo a que o PT resiste.

O presidente da Câmara disse a pessoas próximas que é possível chegar a um meio-termo na proposta, como aprová-la com um ano de validade, mas com o valor de R$ 145 bilhões —inferior ao aprovado no Senado, mas superior aos R$ 80 bilhões que uma parte dos deputados querem colocar como teto.

IDEIA É CHEGAR A UM ENTENDIMENTO PARA VOTAR PROPOSTA NESTA TERÇA

De acordo com o senador eleito Wellington Dias (PT-PI), o ideal é aprovar a proposta nesta terça, mas é preciso chegar a um entendimento.

Dias elogiou a decisão de Gilmar por abrir "a porta do Orçamento aos mais pobres", mas afirmou que "o reconhecimento e a decisão do presidente Lula, como ele disse desde o início, é encontrar na política uma alternativa".

"A PEC que já está na Câmara é mais completa. Além de colocar os pobres no Orçamento, o pagamento do Bolsa Família, serviços essenciais para a população, o funcionamento de um conjunto de órgãos, também trata de investimentos", disse.

O futuro ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), também disse que a determinação da corte não enfraquece a ideia de aprovação da PEC, mas pelo contrário, a fortalece.

"O plano A, B e C é a aprovação da PEC", disse. Segundo Costa, não é preciso medir forças com o Congresso, mas "haver diálogo".

PEC CONTINUA SENDO O PLANO A DO GOVERNO, DIZ HADDAD

Segundo Haddad, a PEC continua sendo prioridade no governo Lula. "Sempre jogo no plano A, que é o plano que dá robustez, indica um caminho, vamos tomar medidas logo no começo do ano para resolver o rombo que foi herdado desse governo", disse.

No domingo, o ministro Gilmar Mendes atendeu parcialmente a um pedido apresentado pelo partido Rede Sustentabilidade e disse ser "juridicamente possível" o uso de crédito extraordinário para a manutenção do Bolsa Família.

Isso abre espaço para que Lula edite uma medida provisória ainda em janeiro para garantir o pagamento no valor atual de R$ 600 do Auxílio Brasil, que será rebatizado. Alguns petistas defendem que o presidente eleito acione este mecanismo no lugar de insistir na aprovação da PEC em meio aos diversos impasses em torno da proposta.

Lula, porém, resiste, já que quer garantir também recursos para outros programas.

DECISÃO DE GILMAR DÁ ALÍVIO PARCIAL PARA O NOVO GOVERNO

A decisão de Gilmar Mendes, na prática, dá um alívio parcial ao governo eleito, pois não consegue abrir espaço no Orçamento para a ampliação dos investimentos públicos —outra promessa de campanha de Lula.

No início desta segunda, aliados do petista chegaram a avaliar que, pela decisão do ministro do STF, todos os gastos do Bolsa Família (quase R$ 160 bilhões) ficariam fora do teto de gastos.

Porém, o partido passou a analisar a decisão com mais detalhamento e uma ala entende que isso valeria para R$ 52 bilhões, valor para elevar o benefício médio de R$ 405 (que já está previsto no projeto de Orçamento) para R$ 600.

HÁ DÚVIDA SE DECISÃO FURA TETO PARA BENEFÍCIO ADICIONAL DE R$ 150

Por isso, a Rede Sustentabilidade pretende pedir ao STF um esclarecimento. A ideia é saber se a decisão também permite usar recursos fora do teto para bancar o benefício adicional de R$ 150 por criança de até seis anos, que foi prometido por Lula na campanha.

O receio de aliados de Lula é que um possível adiamento da votação da PEC possa prejudicar a aprovação do Orçamento de 2023.

Após sair de reunião com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o relator do Orçamento, senador Marcelo Castro (MDB-PI), afirmou que está otimista com aprovação da medida.

"Eu não trabalho com essa hipótese [de PEC não ser votada pelos deputados]. Seria um desastre tão grande para o país se a Câmara fizesse isso", disse.

Castro afirmou que somente com a aprovação da emenda constitucional será possível recompor o orçamento de saúde e habitação.

"Será que alguém vai achar que é normal, pela primeira vez na história, não termos recursos para a habitação popular? Nós não temos. Só com a PEC que estamos recompondo essa rubrica", completou.

Caso haja alterações no mérito da proposta, a PEC teria que passar por nova votação no Senado, ainda nesta semana. O Congresso entra oficialmente em recesso nesta sexta-feira (23).

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