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15 de fevereiro de 2024

Capitalismo é incompatível com democracia, diz italiana que pesquisa austeridade

Clara Mattei afirma que políticas de redução do Estado são espinha dorsal das economias modernas contra trabalhadores

Uirá Machado

Folha de S.Paulo

Celebrado por figurões como Thomas Piketty e Martin Wolf, o livro "A Ordem do Capital" propõe uma nova maneira de enxergar as políticas de austeridade adotadas por diferentes países.

Não como uma exceção impopular e dolorosa usada só para reduzir o déficit orçamentário em momentos de maior desequilíbrio nas contas públicas, mas como "o sustentáculo do capitalismo moderno", segundo a italiana Clara Mattei.

A italiana Clara Mattei no Festival Costituzione, na Itália, em maio de 2023 - Divulgação/Festival Costituzione

No livro, a pesquisadora volta à década de 1920 para mostrar como a austeridade surgiu depois da Primeira Guerra Mundial em países como Inglaterra e Itália, quando trabalhadores organizados cobravam mais direitos sociais.

Para Mattei, a austeridade foi naquela época —e continua sendo hoje— "uma reação antidemocrática às ameaças de mudança social vindas de baixo para cima". Daí o subtítulo da obra: "Como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo".

Em entrevista à Folha, ela diz que "as decisões econômicas são em grande parte decisões políticas", mas que o "capitalismo é incompatível com a democracia no sentido de participação das pessoas nas decisões econômicas".

Em seu livro, a sra. afirma que os programas de austeridade devem ser vistos não como exceção, mas como o sustentáculo do capitalismo moderno. Qual o ganho analítico dessa perspectiva?
Minha definição tem a vantagem de ser uma definição política, na qual fica claro quem ganha e quem perde com as políticas de austeridade. Essa definição tenta ir além da ideia de que a austeridade seja apenas a redução do tamanho do Estado.

Falar em "menos Estado" é uma maneira muito ideológica de entender a história do capitalismo e nossa situação econômica atual. O ponto não é ver se o Estado gasta menos, mas onde o Estado gasta. Porque austeridade não significa menos Estado, mas Estado gastando a favor das elites em detrimento da maioria da população.

A trindade de políticas de austeridade —fiscal, monetária e industrial— tem o objetivo de enfraquecer os sindicatos e manter os trabalhadores sob controle. E isso enquanto o Estado gasta muito dinheiro no complexo industrial militar, por exemplo, ou subsidiando e desonerando investimentos privados em energia verde, ou resgatando bancos.

Sua pesquisa volta aos anos 1920 para detectar as origens da austeridade na Inglaterra e na Itália. O que explica o surgimento desse receituário?
A austeridade não é um produto da exceção do sistema neoliberal. O que tento mostrar é como, na verdade, a austeridade é funcional e estrutural para o capitalismo. Ela é particularmente útil quando as pessoas querem um sistema econômico alternativo, querem mais direitos sociais. Aí a austeridade é muito importante para a elite, a fim de preservar o status quo.

Após a Primeira Guerra Mundial [1914-1918], isso ficou muito claro, porque foi um momento em que, no coração do capitalismo, os cidadãos estavam exigindo sociedades pós-capitalistas, rompendo com as relações salariais, rompendo com a propriedade privada dos meios de produção em favor da democracia econômica. Ou seja, as pessoas queriam a participação dos trabalhadores no processo de produção e distribuição. Foi aí que a austeridade nasceu.

O subtítulo do livro faz uma ligação forte entre austeridade e fascismo, mas a Inglaterra não teve um governo fascista. É possível generalizar a conexão?
A questão é mostrar que Mussolini se tornou tão poderoso porque ele era muito bom em implementar a austeridade, exatamente as mesmas políticas que os liberais na Itália, nos Estados Unidos e no Reino Unido estavam patrocinando.

A capacidade de subjugar os trabalhadores, de fazê-los aceitar salários mais baixos e parar com as greves; a capacidade de privatizar, de cortar gastos sociais e revalorizar a lira: tudo isso fez de Mussolini quem ele se tornou, um ditador fascista que permaneceu no governo por mais de 20 anos.

O capitalismo é bastante incompatível com a democracia no sentido de participação das pessoas nas decisões econômicas e na distribuição de recursos.

Claro que o capitalismo é compatível com a democracia eleitoral, mas isso é superficial. No capitalismo contemporâneo, você pode se tornar fascista para apoiar as prioridades da economia. Foi o que aconteceu na Itália sob Mussolini, no Chile sob Pinochet e é o que está acontecendo agora na Argentina com Milei.

Em outros países não é tão diferente, se você olhar para a necessidade de proteger as decisões econômicas da interferência das pessoas. E isso é feito com a independência do Banco Central, com a ideia de colocar orçamentos equilibrados na Constituição, com mecanismos técnicos que têm o mesmo efeito de desdemocratizar a economia.

Há uma tensão entre capitalismo e democracia. Os governos fascistas, obviamente, são antidemocráticos. Mas o que é generalizável é que as supostas democracias liberais também têm tendências antidemocráticas que se associam muito mais ao fascismo do que se costumava pensar.

Ilustração (esq.) publicada no semanário La Tribuna Illustrata, em 1933, retrata Benito Mussolini em passeio de moto com apoiadores; Foto (dir.) de Jair Bolsonaro durante passeio com motociclistas no Rio de Janeiro - Reprodução e André Borges - 23.mai.21/AFP

Que lições podem ser tiradas em relação à extrema direita hoje?
Os governos de extrema direita são muito bons em implementar a austeridade e, por esse motivo, ganham a confiança do mercado e são vistos com bons olhos pelos tecnocratas internacionalmente.

Mas o contexto agora é muito diferente. Quando Mussolini chegou ao poder, ele estava lá explicitamente para esmagar quem estava se mobilizando. Hoje, as pessoas votam em governos de extrema direita porque foram desempoderadas por um século de políticas de austeridade.

O sucesso da austeridade está em nos individualizar, nos tornar muito precários, nos tornar muito inseguros, para que não sintamos que estamos unidos como trabalhadores. A razão pela qual esses governos de extrema direita chegam ao poder é porque, em última instância, representam a expressão da insatisfação com o atual sistema econômico, que as pessoas entendem como um sistema a favor dos ricos e poderosos.

O problema é que as pessoas votam na direita, mas a direita é melhor em implementar a austeridade.

No Brasil, políticas de austeridade não são exclusivas de governos de direita. Por que isso acontece?
Essa é outra lição muito importante que podemos tirar do estudo histórico: infelizmente, a austeridade atravessa as linhas partidárias. É a expressão do falso pluralismo na economia que nossas democracias eleitorais apresentam. Elas nos dão a impressão de que, se votarmos em Lula em vez de Bolsonaro, teremos uma completa mudança nas políticas econômicas, mas é mais complicado do que isso.

Sob o capitalismo, a prioridade de qualquer governo, de direita ou de esquerda, é garantir os fundamentos para a acumulação de capital, o que significa não perturbar os investidores privados.

Então não podemos pensar que votamos uma vez a cada quatro anos e nosso trabalho está feito, porque existem pressões muito fortes vindas do mercado. Se o povo brasileiro, como qualquer outro povo, quiser uma mudança social séria, precisa lutar por isso.

Se você olhar historicamente, perceberá que há muito mais potencial para sistemas econômicos alternativos do que estamos acostumados a pensar, porque o objetivo principal dos economistas no poder é nos dizer que não há alternativa possível.

As alternativas existem, mas, para obtê-las, não basta eleger alguém que diga que fará algo diferente. Precisamos de uma participação maior do povo na economia.

Mas como escapar da lógica que comanda a economia em escala global hoje em dia?
A mensagem principal que emerge do livro é que as decisões econômicas são em grande parte decisões políticas, no sentido de que não há nada que seja uma necessidade técnica. São decisões políticas que acontecem dentro de um sistema que funciona sob pressões específicas.

Você pode ir contra essas pressões, mas terá de arcar com as consequências. Essa mudança não acontecerá suavemente. Se você quiser realmente subverter o Estado capitalista de dentro, você precisa entender que não vai ser fácil.

RAIO-X

Clara E. Mattei, 35

Formada em filosofia, mestre na mesma disciplina e doutora em economia, é professora associada do Departamento de Economia da New School for Social Research (Nova York)

A ORDEM DO CAPITAL - COMO ECONOMISTAS INVENTARAM A AUSTERIDADE E ABRIRAM CAMINHO PARA O FASCISMO

Preço R$ 97 (488 págs.) Autoria Clara E. Mattei Editora Boitempo Tradução Heci Regina Candiani

13 de outubro de 2023

Esquerda perde monopólio das ruas, vê direita sair do armário e vive paradoxo da ordem

Disputa com bolsonarismo empurrou campo progressista para papel de defesa do sistema

Uirá Machado 


A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foi dividida ao meio no dia 17 de abril de 2016. De um lado ficou quem pedia o impeachment de Dilma Rousseff (PT); do outro cerraram fileiras os defensores da presidente.

Seria uma cena impensável poucos anos antes. Desde as lutas pela redemocratização, na década de 1980, as ruas do Brasil conheciam apenas um protagonista nas manifestações políticas e sociais: a esquerda.

Manifestantes a favor e contra o impeachment de Dilma se dividem na Esplanada dos Ministérios durante votação na Câmara - Diego Padgurschi-17.abr.16/Folhapress

"A direita estava dentro do armário, por conta da associação com o período autoritário da ditadura", diz a cientista política Lilian Sendretti, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

A esquerda, por sua vez, ocupava o espaço público na campanha das Diretas Já, nos protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso e em inúmeras manifestações por direitos sociais.

Mas as Jornadas de Junho de 2013 e o "fora, Dilma" mostraram que as ruas não tinham dono. Diversos grupos de direita entraram na disputa pelo espaço; alguns o fizeram num marco democrático, enquanto outros, extremistas, ergueram a bandeira da intervenção militar.

Muitos pareciam ter perdido a vergonha da memória da ditadura, em uma inversão do sentido histórico que ganhou impulso com Jair Bolsonaro (PL). Para Sendretti, esses momentos consolidaram um processo que começou antes.

"Desde o primeiro governo Lula, grupos antiesquerdistas, digamos assim, começaram a ocupar as ruas, mesmo que de maneira tímida", afirma a pesquisadora, referindo-se sobretudo a atos na esteira do mensalão.

Embora essas mobilizações tivessem densidade inferior às da esquerda, elas indicavam certa efervescência no campo da direita. De acordo com a pesquisa de Sendretti, o ponto de ebulição chegou depois da reeleição de Dilma.

"A partir de 2015, a dinâmica da mobilização de rua se alterou, e o campo progressista passou a ter o seu protagonismo mais ameaçado", afirma a cientista política. "A direita, pela primeira vez desde a redemocratização, tem um protagonismo nas ruas."

A imagem da Esplanada dos Ministérios dividida ilustra o ponto de Sendretti de duas formas: por mostrar a direita de igual para igual na disputa do espaço público e por lembrar que a esquerda pode ter perdido o monopólio das ruas, mas não as abandonou.

Tanto que, pelos registros da pesquisadora, só em 2022 a direita (extremista) volta a mobilizar mais protestos que a esquerda. Nos demais anos, há lavadas progressistas –como em 2018, com mais de 4 manifestações para cada 1 conservadora— e vitórias apertadas, com em 2019 a 2021.

Para o cientista político João Feres Júnior, que é professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), alguns fatores explicam esse quadro dos últimos dez anos, caracterizado pela retração da esquerda e expansão da direita. A começar pelos recursos.

"A esquerda perdeu muitos recursos de mobilização com o enfraquecimento dos sindicatos devido ao fim do imposto sindical obrigatório", diz ele. Antes disso, os sindicatos já se debilitavam com a precarização do mundo do trabalho.

"Não podemos esquecer que os sindicatos foram a espinha dorsal dos movimentos sociais que empurraram a pauta da democracia nas ruas do final da década de 1970 até o malfadado junho de 2013", afirma.

Além disso, tendo vencido eleições em sequência, o PT, principal partido da esquerda brasileira, carregou parte da militância para a máquina administrativa, tirando vigor dos movimentos.

A direita, por sua vez, aproveitou a janela de oportunidade e atraiu um conjunto de forças sociais e políticas que tinham em comum o sentimento antipetista: elites empresariais, religiosas e do sistema de Justiça, grupos ultraliberais, parte dos políticos e da imprensa.

Daí partiram, segundo Feres Júnior, os recursos necessários às passeatas pelo impeachment de Dilma e às mobilizações subsequentes até a eleição de Bolsonaro.

"Uma vez eleito, Bolsonaro inaugurou uma fase 2.0 da mobilização da extrema direita, pois pôde usar os recursos estatais para promovê-la, ao passo que continuou a contar com boa parte dos apoiadores da coalizão que se juntou para retirar o PT do poder", afirma.

De acordo com o professor da Uerj, a correlação de forças muda novamente no terceiro governo Lula, mas não é fácil antecipar a resultante.

De um lado, a direita perdeu recursos estatais e se retraiu depois da intentona golpista de 8 de janeiro; de outro, os canais de comunicação do bolsonarismo –objeto de pesquisa contínua de Feres Júnior— não deixaram de disseminar desinformação.

Quanto à esquerda, o problema de recursos dos sindicatos não se resolveu, ao passo que o PT no poder voltou a representar um fator de desmobilização relativa.

O cientista político Rudá Ricci acrescenta camadas ao problema da esquerda. Não se trata apenas de perder espaço nas ruas; para ele, existem também derrotas no campo dos valores.

"A esquerda tinha a hegemonia cultural do país, mesmo durante a ditadura. Valores religiosos, teatro, música, artes plásticas, cinema, mundo acadêmico, enfim, a produção cultural mais valorizada apresentava fortes traços de esquerda", diz Ricci, presidente do Instituto Cultiva.

Ele considera que mudanças como a dispersão da força de trabalho em aplicativos e outras modalidades de empreendedorismo atingiram em cheio as bases teóricas e sociais que fundamentavam a ação da esquerda.

O trabalho assalariado não atrai mais o jovem; valores como esforço próprio, a defesa da família e da ordem, associados ao liberalismo e ao individualismo, tornaram-se mais relevantes na periferia, fechando as portas para um discurso voltado ao coletivo.

Além disso, houve uma espécie de inversão de papéis entre esquerda e direita nos últimos anos.

"A ampla coalizão lulista aproxima o PT de algo como um ‘partido da ordem’, fiador do equilíbrio de forças. O PT, em certa medida, se tornou o principal garantidor do pacto estabelecido com a Nova República", diz Ricci.

Isso num dos países mais desiguais do mundo, em que frustrações continuam se acumulando.

"O que resta? O esforço pessoal e a revolta. Quem canaliza a revolta nos últimos tempos é a extrema direita", afirma o cientista político, para quem "a esquerda precisa se reinventar".

Ou, na visão de Jonas Medeiros, pesquisador do Cebrap, a esquerda precisa resgatar certas atitudes que a caracterizavam até um passado recente e que, na disputa com o bolsonarismo, caíram no colo da extrema direita. A situação, contudo, envolve paradoxos e contrassensos.

Seguindo os ensinamentos de Olavo de Carvalho (1947-2022), a candidatura Bolsonaro se apresentou como antissistêmica: "Mas seu objetivo era legitimar posições sociais bastante dominantes nas relações de gênero e sexualidade, étnico-raciais e até geracionais", diz Medeiros.

De acordo com o pesquisador, a extrema direita empurrou a esquerda para a posição de defensora da ordem ao atacar a democracia e o sistema desenhado na Constituição de 1988, que institucionalizou direitos inéditos para grupos historicamente excluídos.

Ao longo de 35 anos, governos do PT, entre outros, aprofundaram essas conquistas, então faz sentido defender o sistema. Limitar-se a isso, contudo, imobiliza a esquerda diante de transformações que, para Medeiros, ela deveria promover.

"Enquanto as ações e reações da esquerda apenas reproduzirem essa configuração do debate público no qual a esquerda defende a ordem e a direita é subversiva, transgressiva e insurgente, me parece que estaremos todos presos a esta estrutura paradoxal", diz ele.

"Não vejo como a esquerda possa contribuir para pensar um futuro pós-neoliberal que esteja à altura dos desafios das crescentes desigualdades sociais, da crise da democracia e da emergência climática se ela permanecer presa a essa posição de 'esquerda da ordem'", afirma Medeiros.

11 de janeiro de 2023

Ataque golpista desata dois nós jurídicos para Lula

Depois de vandalismo, ficou mais fácil desmontar acampamentos bolsonaristas e gritar "sem anistia"

Uirá Machado

Folha de S.Paulo

Os ataques golpistas praticados por apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) no domingo (8) desataram dois nós jurídicos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O primeiro era o impasse entre os ministros Flávio Dino (Justiça) e José Múcio Monteiro (Defesa), que divergiam sobre como lidar com as manifestações antidemocráticas em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília.

Enquanto o lado de Dino pedia a rápida desmobilização do acampamento até o dia 1º, Múcio defendia uma solução pactuada, sem incluir necessariamente a retirada compulsória dos manifestantes.

Golpistas invadem a Esplanada dos Ministérios, em Brasília - Evaristo Sa/AFP

O segundo nó apareceu com clareza após o discurso de Lula em sua posse no dia 1º, quando o petista, logo após negar impulso revanchista contra o grupo político de seu antecessor, indicou que erros não passarão impunes.

Não demorou para o general Hamilton Mourão, que foi vice-presidente de Bolsonaro, dizer que o governo Lula chegou com espírito de revanche e sem entender que venceu a eleição por margem muito apertada de votos.

É provável que, sem a truculência criminosa dos bolsonaristas em Brasília, essas duas discussões continuassem vivas até hoje; diante do cenário de terra arrasada na praça dos Três Poderes, contudo, ficou muito mais fácil perceber quem tinha razão em cada uma delas.

Entre Dino e Múcio, deu Dino. Mas a posição de Múcio não era indefensável. Do ponto de vista jurídico, pode-se muito bem sustentar que protestos em frente aos quartéis fazem parte da democracia, como disse o ministro da Defesa.

A Constituição, afinal, garante a liberdade de manifestação do pensamento e de reunião, desde que sem armas, e apenas pedir um golpe de Estado dificilmente constituirá crime, por mais reprovável que seja esse desejo.

No Código Penal, os crimes contra as instituições democráticas demandam algo mais concreto: a tentativa de abolir o Estado democrático de Direito ou de depor o governo legalmente constituído, mediante violência ou grave ameaça.

Antes de domingo, era até fácil argumentar que nada disso estava em curso, embora o artefato explosivo no aeroporto de Brasília e as caravanas de ônibus rumo ao Distrito Federal fossem sinais eloquentes de uma escalada.

Na ausência de provas palpáveis, o uso de força contra os acampamentos bolsonaristas poderia servir de reforço para quem acha que os inimigos da democracia são o PT e os tribunais superiores brasileiros.

Tudo isso mudou depois que a horda bolsonarista avançou pela Esplanada dos Ministérios. Depois de domingo, já não há mais como oferecer o benefício da dúvida ao movimento que contesta a eleição de Lula, pois os crimes se tornaram concretos.

Tampouco há como ignorar a articulação por trás desse golpismo. Não por acaso, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, falou em "possível organização criminosa que tem por um de seus fins desestabilizar as instituições republicanas".

Daí por que, em poucos dias, estavam desmontados o acampamento no Distrito Federal e os 34 focos golpistas em São Paulo, estado governado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A necessidade de punir quem destruiu prédios públicos em Brasília ajuda a demarcar a diferença entre revanchismo e aplicação da lei –o segundo nó jurídico de Lula. Quem, em sã consciência, passaria a mão na cabeça desse grupo?

Basta ver o que aconteceu na segunda-feira (9), quando centenas de representantes da sociedade civil se reuniram na Faculdade de Direito da USP para defender a democracia.

Um dos oradores do evento, o advogado Oscar Vilhena Vieira, professor da FGV e colunista da Folha, afirmou: "Temos que defender as nossas instituições. Aqueles que cometeram esses delitos têm que ser punidos. (...) Aplicar a lei não é revanchismo. É simplesmente um direito do povo soberano".

Há um evidente ponto de contato entre essa declaração e o que disse Lula em sua posse: "Não carregamos nenhum ânimo de revanche contra os que tentaram subjugar a nação a seus desígnios pessoais e ideológicos, mas vamos garantir o primado da lei".

O grito "sem anistia", que a princípio cobrava punições a Bolsonaro e seu entorno por alegados crimes nos últimos quatro anos, ganhou um reforço com os vândalos de domingo, pelo menos no que diz respeito aos crimes contra as instituições democráticas.

Se um ministro do STF fala em possível organização criminosa da qual faria parte, entre outros, Anderson Torres, que foi ministro da Justiça de Bolsonaro, como defender que apenas os vândalos dominicais sejam investigados, processados e punidos?

9 de julho de 2022

Quem foi Harriet Martineau, a pouco conhecida fundadora da sociologia

Livro apresenta 16 nomes, entre mulheres e não ocidentais, que deveriam ser incluídos no cânone da disciplina

Uirá Machado
Na Folha desde 2004, é formado em direito e em filosofia na USP, foi editor de Tendências / Debates, Opinião, Ilustríssima e Núcleo de Cidades, além de secretário-assistente de Redação.

Folha de S.Paulo

[RESUMO] A britânica Harriet Martineau publicou em 1837 e 1838 dois livros que lançaram as bases das ciências sociais, mas sua contribuição acabou preterida ao longo da história e hoje é pouco conhecida mesmo nos meios acadêmicos. Em livro recém-lançado, professor da FGV apresenta Martineau e outros 15 pesquisadores, entre mulheres e homens não brancos e não ocidentais, que, pelo impacto e qualidade de seus trabalhos, merecem um lugar no cânone da disciplina.

*

No começo dos anos 1980, quando cursava ciências sociais na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Celso Castro foi apresentado aos autores considerados fundamentais para quem quisesse se aventurar naquela disciplina. Não é difícil imaginar que todos eram homens brancos nascidos nos Estados Unidos ou na Europa.

Castro conheceu pensadores como o alemão Karl Marx (1818-1883), o francês Émile Durkheim (1858-1917) e o alemão Max Weber (1864-1920), apontados como pais fundadores daquela que viria a ser sua área de pesquisa.

Essa trinca, no entanto, nunca foi unânime. O francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) não teria lugar entre os pioneiros, já que seu volumoso "Da Democracia na América", cujas duas partes saíram em 1835 e 1840, é um clássico da ciência política?

E o que dizer do também francês Auguste Comte (1798-1857), que lançou mão da palavra sociologia ainda em 1839 para designar uma nova ciência? Segundo ensinou na 47ª lição de seu "Curso de Filosofia Positiva", à sociologia caberia analisar as leis fundamentais específicas aos fenômenos sociais.

Harriet Martineau, socióloga britânica que foi contemporânea de Comte e Tocqueville - Divulgação

Quase meio século depois, Durkheim afirmou em seu curso de ciências sociais que Comte tinha apenas empregado a palavra e indicado o propósito da sociologia, sem, contudo, ter criado de fato uma nova área do conhecimento.

A crer nessa linha de argumentação, o marco inaugural da sociologia poderia ser a publicação de "As Regras do Método Sociológico", de 1895, livro no qual Durkheim defende que os fatos sociais devem ser tratados como coisas.

Essa foi a história que Celso Castro aprendeu, assim como os demais estudantes que vieram antes ou depois dele, em um ciclo que se retroalimenta: professores ensinam esses autores, alunos os estudam e, quando se tornam professores, voltam a indicá-los para seus próprios alunos.

Como uma serpente que morde o próprio rabo, ninguém tinha a boca livre para perguntar: onde estão as mulheres, onde estão as pessoas não brancas e os pensadores não ocidentais?

Talvez venha à mente a hipótese de que o mundo do século 19 era ainda mais excludente que o de hoje, de modo que apenas homens brancos ocidentais teriam condições materiais de se dedicar a uma carreira acadêmica e produzir conteúdo digno de nota. Opressão gerando mais opressão.

Essa explicação funciona para boa parte dos casos, mas não para todos. Quem duvidar pode tirar a prova com o livro "Além do Cânone: para Ampliar e Diversificar as Ciências Sociais". Na obra, ele apresenta 16 pensadores e pensadoras que fogem ao estereótipo dessa tradição ocidental, muitos dos quais o próprio Castro desconhecia.

"Não tenho vergonha alguma de reconhecer isso. Foram meses intensos de descoberta e de aprendizado que me fizeram ver, 40 anos depois de ter iniciado o meu curso de graduação, a enorme dimensão da minha ignorância em relação às possibilidades que as ciências sociais podem nos oferecer como instrumento de conhecimento da realidade social", diz.

"Em décadas recentes, ampliou-se a ‘descoberta’ e inclusão de autoras, de não brancos e não ocidentais, mas principalmente em disciplinas mais especializadas, de pós-graduação etc. O que não se ampliou até hoje foi o cânone", afirma Castro, que é professor da FGV, onde dirige o CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) e a Escola de Relações Internacionais.

Sua proposta é justamente essa: ampliar o cânone, não substituí-lo. Há bons motivos para que os clássicos sejam considerados clássicos, mas não há boa justificativa para que mulheres e negros, por exemplo, fiquem sempre alocados em nichos, como feminista, decolonial ou do Sul. Por que não poderiam pertencer à "grande tradição"?

"Acho necessário e importante inserir essas autoras e autores que estão no livro não para manter um ‘equilíbrio’, uma ‘cota’, ou por razões de afirmação identitária em relação ao cânone tradicional, mas sim porque são muito bons e porque nos ajudam a entender melhor a realidade social", afirma Castro.

Seu livro, mais uma vez, serve de prova. Após a apresentação de cada um dos 16 pensadores, Castro inclui trechos de seus textos, boa parte dos quais inéditos no Brasil. Assim, o leitor pode julgar por conta própria o pioneirismo, o impacto e a qualidade de intelectuais que bem poderiam pleitear um lugar entre os pioneiros das ciências sociais.

MÃE FUNDADORA DA SOCIOLOGIA

O caso da britânica Harriet Martineau (1802-1876) é o mais intrigante, e não por acaso Castro inicia a coletânea com ela.

Sua capacidade acadêmica salta aos olhos de diferentes maneiras. Como tradutora, verteu para o inglês o "Curso de Filosofia Positiva", de Comte, mas se deu a liberdade de reduzir a obra a 25% de seu tamanho original. Saiu-se tão bem nessa tarefa que o próprio Comte quis que a versão de Martineau fosse traduzida para o francês.

Antes disso, Martineau fez uma viagem de dois anos aos EUA, onde foi conhecer o funcionamento das instituições republicanas. Conversou com inúmeras pessoas e visitou diversos lugares para escrever os dois volumes de "Society in America" (sociedade na América), no qual ainda defendeu os direitos das mulheres e o fim da escravidão.

Data de publicação: 1837, mesma época em que Tocqueville trazia a lume o seu estudo sobre as instituições americanas.

Martineau, contudo, não se limitou ao relato empírico após sua viagem. Ela também produziu um livro teórico no qual discorre sobre a metodologia da pesquisa. Trata-se de "How to Observe Morals and Manners" (como observar a moral e os costumes), de 1838. Portanto, muito antes de Durkheim e antes mesmo de Comte empregar a palavra "sociologia" em seu curso na França. Ainda assim, quem sempre apareceu em lugar de honra nas ciências sociais são Tocqueville e Comte, seus contemporâneos.

Em "Além do Cânone", Castro corrige a falha. Ele escreve: "Com os dois livros mencionados —uma obra de análise baseada em investigação empírica e um manual sobre como se deve realizar a pesquisa de campo—, podemos considerar que as ciências sociais foram fundadas por Harriet Martineau em 1837-1838".

Castro não está sozinho. A socióloga Fernanda H. C. Alcântara, professora da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), considera o apagamento de Martineau uma injustiça histórica.

"Não existe um motivo para que Martineau não tenha o seu reconhecimento como fundadora da sociologia. Ela não foi apenas mais uma pessoa que participou do processo. Em 1838, ela já falava da necessidade de sistematizar os estudos da ciência da sociedade e escreveu um livro a esse respeito", diz.

A fim de divulgar a obra de Martineau e garantir o ingresso dela na agenda das ciências sociais no Brasil, Alcântara se dispôs a traduzir por conta própria alguns livros da pioneira britânica.

Em 2021, saiu "Como Observar: Morais e Costumes", disponível para compra no blog da autora. Em julho deste ano, terá à mão o primeiro volume de "Sociedade na América", que ela pretende publicar em quatro partes, em vez das duas originais, mantendo intervalo de três a quatro meses entre cada uma delas.

Alcântara afirma que Martineau teve elevado reconhecimento no século 19, mas depois, sem que fique nítido por qual motivo específico, ela passou a ser negligenciada.

"O processo de construção do cânone foi um movimento sobretudo de exclusão e de suposta criação de uma identidade para a nova ciência, que já nem era tão nova assim. Vários autores e autoras foram apagados da história da sociologia nesse processo", diz a socióloga. "Embora façamos sempre essa associação entre o cânone e a fundação da sociologia, existe entre esses dois elementos ao menos meio século de diferença."

Dentro dessas escolhas políticas para formação do cânone, não há de ser coincidência que a britânica tenha ficado de fora. "Trata-se de uma visão muito diferente quanto aos elementos que constituem a sociedade, com destaque para o fato de que Martineau não excluiu da análise as mulheres e os escravos. Suas contribuições consideram a possibilidade de objetividade, sem negligenciar todas as possíveis formas de interferência no processo de produção do conhecimento", afirma Alcântara.

Celso Castro celebra o empenho de Alcântara em passar o trabalho de Martineau para o português. "É importantíssimo que sejam feitas mais traduções, pois de outro modo o acesso a estudantes de graduação ficará muito limitado", diz.

"Espero que o ‘Além do Cânone’ ajude a formar cientistas sociais em uma perspectiva mais ampla, diversa e colorida que aquela que presidiu minha formação. E, mais importante, que desperte nos seus leitores o mesmo sentimento que tive: paixão pelo mundo, vasto mundo, das ciências sociais", afirma Castro.

O seu livro de fato permite uma degustação bastante saborosa de outros pensadores em geral não considerados entre os clássicos. São intelectuais do Haiti e do México, da Índia e do Japão, do Irã, da Turquia e da antiga Rodésia do Sul; são homens e mulheres, brancos e não brancos.

Compõem um quadro muito mais abrangente e diversificado das ciências sociais e da sociedade que aquele no qual só aparecem os mesmos de sempre.

Dada a qualidade dos trechos selecionados em "Além do Cânone", resta esperar que mais pesquisadores se proponham a traduzi-los para o português, de forma que possam ser apreciados não como aperitivo, mas como prato principal.

ALÉM DO CÂNONE: PARA AMPLIAR E DIVERSIFICAR AS CIÊNCIAS SOCIAIS

Preço R$ 66 (320 págs.); R$ 47 (ebook) Editora FGV Organização Celso Castro

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