11 de janeiro de 2001

As maravilhas de Walter Benjamin

J. M. Coetzee


January 11, 2001 issue

Resenhas:

Selected Writings, Volume 1: 1913-1926 Edmund Jephcott, Harry Zohn, and others.
by Walter Benjamin, edited by Marcus Bullock, edited by Michael W. Jennings. Translated from the German by Rodney Livingstone, Stanley Corngold,

Selected Writings,Volume 2: 1927-1934
by Walter Benjamin, edited by Michael W. Jennings, edited by Howard Eiland, edited by Gary Smith. Translated from the German by Rodney Livingstone and others.

The Arcades Project
by Walter Benjamin, Translated from the German and French by Howard Eiland and Kevin McLaughlin

I

A história já é tão conhecida que quase não precisa ser contada. O cenário é a fronteira franco-espanhola, em 1940. Fugindo da França ocupada, Walter Benjamin apresenta-se para a esposa de um certo Fittko, que conhecera num campo de detenção. Soube, diz ele, que Frau Fittko poderia guiá-lo com seus companheiros na travessia dos Pireneus para a Espanha neutra. Ela o leva em uma caminhada para fazer o reconhecimento das melhores rotas; ele carrega uma pasta pesada. A pasta é mesmo necessária? — pergunta ela. Contém um manuscrito, ele responde. "Não posso correr o risco de perder isto. Precisa ser salvo. É mais importante do que eu". 

No dia seguinte atravessam as montanhas, Benjamin parando a cada poucos minutos por causa do coração fraco. Na fronteira, são detidos. Os papéis não estão em ordem, diz a polícia espanhola; têm de voltar para a França. Em desespero, Benjamin toma uma overdose de morfina. A polícia faz um inventário dos pertences do morto. No inventário não há nenhum registro de um manuscrito. 

O que havia na pasta e como desapareceu, só podemos especular. Gershom Scholem, amigo de Benjamin, sugeriu que era a última revisão do inacabado Passagen-Werk [Trabalho das passagens], conhecido em inglês como Arcades project. ("Para grandes escritores", escreveu Benjamin, "uma obra terminada pesa menos que aqueles fragmentos em que trabalharam a vida inteira".) O esforço heróico, embora inútil, de salvar seu manuscrito das fogueiras do fascismo, levando-o a salvo para a Espanha e em seguida para os Estados Unidos, torna Benjamin um ícone do scholar para o nosso tempo. 

A história tem uma virada feliz. Uma cópia do manuscrito deixada em Paris fora escondida na Bibliotèque Nationale por George Bataille, amigo de Benjamin. Recuperado depois da guerra, foi publicado em 1982 em sua forma original, isto é, em alemão e com enormes trechos em francês. Agora temos a magnum opus de Benjamin em tradução integral para o inglês, e estamos ao menos em posição de fazer a pergunta: por que tanto interesse por um tratado sobre compras na França do século XIX? 

Benjamin nasceu em 1892, em Berlim, numa família judia assimilada. O pai era um bem-sucedido leiloeiro de arte que expandiu suas atividades para o ramo de investimento em propriedades; para a maioria dos padrões, os Benjamin eram abastados. Aos 12 anos, depois de uma infância doentia e cercada de cuidados, Benjamin foi enviado para um colégio interno progressista no campo, onde sofreu a influência de um de seus diretores, Gustav Wyneken. Após deixar a escola, militou por muito tempo no movimento juvenil antiautoritário de retorno à natureza liderado por Wyneken, e só o deixou quando este declarou apoio à I Guerra Mundial. 

Em 1912 Benjamin matriculou-se na Universidade de Freiburg como estudante de filologia. Ao concluir que o ambiente intelectual não lhe apetecia, lançou-se no ativismo pela reforma educacional. Quando a guerra eclodiu, furtou-se ao serviço militar primeiro fingindo um problema de saúde e depois mudando-se para a Suíça neutra. Ali ficou até 1920, lendo filosofia e trabalhando em uma dissertação de doutoramento para a Universidade de Berna. Sua esposa reclamava que eles não tinham vida social. 

Benjamin tinha atração por universidades assim como Kafka por companhias de seguro, observou seu amigo Theodor Adorno. Apesar dos escrúpulos, Benjamin cumpriu todos os passos exigidos para obter a Habilitation (doutorado superior) que lhe permitiria tornar-se professor, e em 1925 submeteu à Universidade de Frankfurt sua dissertação sobre o drama barroco alemão. Surpreendentemente, a dissertação não foi aceita: ficava entre as cadeiras de literatura e filosofia, e Benjamin não contava com um orientador preparado para encaminhar o seu caso. Fracassados seus planos acadêmicos, Benjamin lançou-se numa carreira de tradutor, radialista e jornalista free-lance. Uma das suas encomendas foi a tradução de À Ia recherche de Proust; três dos sete volumes foram terminados. 

Em 1924 Benjamin visitou Capri, na época o reduto de férias favorito dos intelectuais alemães. Lá conheceu Asja Lacis, diretora de teatro da Letônia e comunista engajada. O encontro foi decisivo. "Toda vez que experimentei um grande amor, passei por uma transformação tão fundamental que assombrava a mim mesmo", escreveu em retrospecto. "Um amor genuíno me faz ficar parecido com a mulher que eu amo." Nesse caso, a transformação implicou uma mudança de rumo político. "Para pessoas progressistas em seu juízo perfeito, o caminho do pensamento leva a Moscou, não à Palestina", disse-lhe Lacis incisivamente. Todos os traços de idealismo do seu pensamento, para não falar do seu flerte com o sionismo, tiveram de ser abandonados. Seu amigo do peito Scholem já havia emigrado para a Palestina e esperava que ele o seguisse. Benjamin achou uma desculpa para não ir; ficou dando desculpas até o fim. 

Em 1926 Benjamin viajou a Moscou para um encontro com Lacis. Ela não o recebeu calorosamente (estava envolvida com outro homem). Em seu registro da visita Benjamin revolve o seu infeliz estado de espírito, bem como se pergunta se deveria ou não se filiar ao Partido Comunista e submeter-se à sua linha. Dois anos depois eles se reuniram brevemente em Berlim: viviam juntos e freqüentavam as reuniões da Liga dos Escritores Revolucionários-Proletários. A ligação precipitou a ação de divórcio em que Benjamin se comportou com notável mesquinharia para com sua mulher. 

Na viagem a Moscou, Benjamin manteve um diário que depois revisou para publicação. Ele não falava russo. Em vez de recorrer a intérpretes, tentou ler Moscou a partir de fora — o que depois designaria como seu "método fisiognômico" —, esquivando-se de abstração ou julgamento e apresentando a cidade de uma tal forma que "toda factualidade já é teoria" (a frase é de Goethe). Algumas das proposições de Benjamin sobre a experiência "histórico-mundial" que ele vê em curso na União Soviética hoje parecem ingênuas. Mesmo assim, permanece o seu olhar afiado. Muitos dos novos moscovitas ainda são camponeses — observa — vivendo vidas de aldeia em ritmos de aldeia; a distinção de classes pode ter sido abolida, mas dentro do Partido está se engendrando um novo sistema de castas. Uma cena num mercado de rua capta o status degradado da religião: um ícone à venda flanqueado por retratos de Lênin "como um prisioneiro entre dois policiais". 

Embora Asja Lacis seja uma constante presença de fundo no "Diário de Moscou" e Benjamin insinue que suas relações sexuais eram problemáticas, dá-se ali pouca idéia da pessoa física de Lacis. Como escritor, Benjamin não tinha o dom de evocar as pessoas. Nos escritos de Lacis temos uma impressão muito mais viva do próprio Benjamin: seus óculos como pequenos refletores, suas mãos desajeitadas. Pelo resto de sua vida Benjamin se intitulou como um comunista ou um companheiro de viagem. Mas quão profundo terá sido o seu caso com o comunismo? 

Durante anos depois de conhecer Lacis, Benjamin repetiria sentenças marxistas sem ter lido Marx — "a burguesia [...] está condenada ao declínio em razão de contradições internas que se tornarão fatais à medida que se desenvolverem". "Burguesa" tornou-se o seu anátema para uma mentalidade — materialista, acomodada, egoísta, pudica e acima de tudo autocomplacente — à qual ele era visceralmente hostil. Proclamar-se comunista era um ato de se postar, moral e historicamente, contra a burguesia e sua própria origem burguesa. "Uma coisa [...] jamais poderá ser consertada: ter deixado de fugir de meus pais", escreve Benjamin em Rua de mão única, a coleção de anotações de diário, relatos de sonhos, aforismos, mini-ensaios e mordazes observações sobre a Alemanha de Weimar com a qual se deu a conhecer em 1928 como um intelectual free-lance. Não ter fugido de casa cedo o bastante significava que ele estava condenado a fugir de Emil e Paula Benjamin pelo resto da vida: ao reagir contra a prontidão de seus pais em se assimilar à classe média alemã, ele se igualava a muitos judeus germanófonos de sua geração, inclusive Kafka. O que incomodava os amigos de Benjamin em seu marxismo era que parecia haver nele algo de forçado ou meramente reativo. 

As primeiras incursões de Benjamin pelo discurso da esquerda são deprimentes de se ler. Há um deslize para o que só se pode chamar de estupidez voluntária quando ele tece rapsódias sobre Lênin (cujas cartas têm "a melodiosidade da grande épica", diz em um texto não incluído nos Selected writings da Harvard) ou recita os execráveis eufemismos do Partido: 

O comunismo não é radical. Portanto, não tem intenção de simplesmente abolir as relações familiares. Ele meramente põe à prova essas relações para determinar sua capacidade de mudança. Ele pergunta a si mesmo: a família pode ser desmantelada de modo que seus componentes possam ser socialmente refuncionalizados?

Essas palavras vêm de uma resenha de uma peça de Brecht, que Benjamin conheceu por intermédio de Lacis e cujo "pensamento rude", despido de amenidades burguesas, atraiu Benjamin por algum tempo. "Esta rua se chama Asja Lacis em honra daquela que como um engenheiro a abriu através do autor", diz a dedicatória de Rua de mão única. A comparação tem um intento elogioso. O engenheiro é o homem ou mulher do futuro, aquele que, impaciente com palavrório e provido de conhecimento prático, age, e age decisivamente para transformar a paisagem (Stálin também admirava os engenheiros: para ele os escritores deviam se tornar engenheiros das almas humanas, no sentido de tomar como tarefa sua "refuncionalizar" a humanidade de dentro para fora). 

Um dos textos mais conhecidos de Benjamin, "O autor como produtor" (1934), demonstra muito claramente a influência de Brecht. Em questão, a velha ladainha da estética marxista: o que é mais importante, forma ou conteúdo? Benjamin propugna que uma obra literária será "politicamente correta somente se for também literariamente correta". "O autor como produtor" é uma defesa da ala esquerdista da vanguarda modernista, tipificada para Benjamin pelos surrealistas, contra a linha do Partido em matéria de literatura, com seu pendor para histórias realistas facilmente compreensíveis e com acentuada propensão progressista. Para defender sua causa, Benjamin se sente obrigado a apelar mais uma vez para o glamour da engenharia: o escritor, como o engenheiro, é um especialista técnico e deveria ter voz em questões técnicas. 

Discutir nesse nível tão tosco não era fácil para Benjamin. Sua fidelidade ao Partido não lhe causava nenhum mal-estar num momento em que a perseguição de artistas por Stálin estava a pleno vapor? (A própria Asja Lacis viria a se tornar uma das vítimas de Stálin, passando anos num campo de trabalho.) Um breve texto do mesmo ano pode fornecer uma pista. Ali Benjamin zomba dos intelectuais que "fazem de ponto de honra ser inteiramente eles mesmos em todas as questões", recusando-se a entender que para ser bem-sucedidos têm de apresentar faces diferentes para públicos diferentes. São, diz ele, como um açougueiro que se recusa a cortar uma carcaça, insistindo em vendê-la inteira. 

Como ler esse texto? Benjamin está ironicamente louvando a antiquada integridade intelectual? Está confessando veladamente que ele, Walter Benjamin, não é o que parece ser? Está fazendo uma colocação prática, mesmo que amarga, sobre a vida do escritor de aluguel? Uma carta a Scholem (a quem no entanto ele nem sempre conta toda a verdade) sugere a última leitura. Ali Benjamin defende seu comunismo como "a óbvia, razoável tentativa de um homem que está completamente ou quase completamente privado de quaisquer meios de produção de proclamar seu direito a eles". Em outras palavras, ele segue o Partido pela mesma razão que move qualquer proletário: porque é de seu interesse material. 

II

Na época em que os nazistas chegaram ao poder, muitos dos companheiros de Benjamin, inclusive Brecht, constataram o inevitável e fugiram. Benjamin, que de qualquer forma há muito se sentia deslocado na Alemanha e passava temporadas na França ou em Ibiza sempre que podia, logo os acompanhou (seu irmão mais novo, Georg, foi menos prudente: preso por atividades políticas em 1934, pereceu em Mauthausen em 1942). Ele se estabeleceu em Paris, onde levou uma existência precária colaborando para jornais alemães (sob pseudônimos que soavam arianos: Detlef Holz, K. A. Stempflinger) e do contrário vivendo de doações. Com a eclosão da guerra ele se viu detido como estrangeiro inimigo. Solto graças a instâncias do PEN francês, imediatamente fez arranjos para fugir para os Estados Unidos, partindo assim em sua viagem fatal rumo à fronteira espanhola. 

Os insights mais agudos de Benjamin sobre o fascismo, esse inimigo que o privou de um lar e de uma carreira e que acabou por matá-lo, dizem respeito ao expediente por ele usado para vender-se ao povo alemão: transformar-se a si próprio em teatro. Esses insights estão mais plenamente expressos em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade tecnológica" (para usar o título preferido pelos tradutores dos Selected writings), de 1936, mas são prenunciados numa resenha de 1930 sobre a coletânea Guerra e guerreiros, organizada por Ernst Jünger. É lugarcomum observar que os comícios de Hitler em Nuremberg, com sua combinação de declamação, música hipnótica, coreografia de massa e iluminação dramática, encontraram seu modelo nas produções de Wagner em Bayreuth. O que é original em Benjamin é a sua proposição de que a política como teatro grandioso, mais que como debate, não era apenas uma armadilha do fascismo, mas fascismo em essência. 

Nos filmes de Leni Riefensthal, assim como nos documentários de atualidades exibidos em todos os cinemas do país, as massas alemãs recebiam imagens de si mesmas conforme seus líderes determinavam que fossem. O fascismo usou o poder da arte do passado — o que Benjamin chama de "arte aurática" — somado ao poder multiplicador das novas mídias pós-auráticas, o cinema sobretudo, para criar seus novos cidadãos fascistas. Para os alemães comuns, a única identidade à mostra, aquela que olhava de volta para eles da tela, era a identidade fascista em uniforme fascista e com posturas fascistas de dominação ou obediência. 

A análise de Benjamin sobre o fascismo como teatro suscita muitas questões. O cerne do fascismo alemão de fato residiria antes na política como espetáculo do que no ressentimento e nas aspirações de revide histórico? Se Nuremberg era política estetizada, por que não o seriam igualmente as extravanganzas e os julgamentos-espetáculo do 1° de Maio de Stálin? Se a marca do fascismo foi a supressão da divisa entre política e mídia, onde estaria o elemento fascista na política midiática das democracias ocidentais? Não haveria diversas modalidades de política estética? 

O conceito-chave que Benjamin inventa (embora no seu diário insinue que na verdade foi idéia original da livreira e editora Adrienne Monnier) para descrever o que acontece com a obra de arte na era de sua reprodutibilidade tecnológica (principalmente a era da câmera: Benjamin tem pouco a dizer acerca dos processos de impressão) é o da perda da aura. Até meados do século XIX, diz ele, persistia uma relação propriamente intersubjetiva entre a obra de arte e seu espectador: o espectador olhava e a obra de arte, por assim dizer, olhava de volta. "Perceber a aura de um fenômeno [significa] investi-lo da capacidade de nos olhar de volta." Há assim algo de mágico na aura, derivado de elos remotos, ora evanescentes, entre arte e ritual religioso. 

Benjamin fala pela primeira vez em aura na sua "Pequena história da fotografia" (1931), em que tenta explicar por que (a seus olhos) os primeiríssimos retratos fotográficos — incunábulos da fotografia, por assim dizer — têm aura, ao passo que as fotografias da geração posterior a perderam. Em "A obra de arte" a noção de aura é um tanto temerariamente estendida das velhas fotografias para as obras de arte em geral. O fim da aura, diz Benjamin, será mais que compensado pelas capacidades emancipatórias das novas tecnologias de reprodução. O cinema substituirá a arte aurática. 

Até mesmo os amigos de Benjamin achavam difícil apreender a aura. Brecht, a quem Benjamin expusera o conceito durante longas visitas à sua casa na Dinamarca, escreve o seguinte em seu diário: 

[Benjamin] diz: quando você sente o olhar de alguém pousar em você, mesmo às suas costas, você reage (!). A expectativa de que tudo o que você olha está olhando para você cria a aura [...]. Tudo muito místico, apesar das atitudes antimísticas dele. E assim que a abordagem materialista da história é adaptada! Isso é um tanto chocante. 

Outros amigos não foram mais encorajadores. 

Ao longo dos anos 1930 Benjamin se empenhou para desenvolver uma definição plausivelmente materialista de aura e perda de aura. O filme é pós-aurático, diz ele, porque a câmera, sendo um instrumento, não pode ver (uma asserção questionável: os atores certamente reagem à câmera como se ela estivesse olhando para eles). Numa revisão posterior, Benjamin sugere que o fim da aura pode ser fixado no momento da história em que as multidões urbanas ficam tão densas que as pessoas — os passantes — não mais retribuem o olhar alheio. No Trabalho das passagens ele insere a perda da aura num processo histórico mais amplo: a propagação de uma desencantada conscientização de que a unicidade, inclusive a da obra de arte tradicional, converteu-se numa mercadoria como outra qualquer. Aponta nessa direção a indústria da moda, dedicada à fabricação de trabalhos manuais únicos — "criações" — destinados à reprodução em massa. 

Benjamin não estava especialmente interessado no romance como gênero. Como evidenciado pelos relatos pessoais incluídos no segundo volume dos Selected writings, ele não tinha talento como escritor de narrativas. Seus escritos autobiográficos são construídos a partir de momentos intensos e descontínuos. Seus dois ensaios sobre Kafka tratamno mais como um parabolista e professor de sabedoria do que como um escritor. Mas a hostilidade mais insistente de Benjamin era reservada para a história narrativa: "A história se decompõe em imagens, não em narrativas", escreveu. A história narrativa impõe causalidade e determinação a partir de fora, e as coisas deveriam ter uma chance de falar por si mesmas. 

"Infância em Berlim por volta de 1900", a obra autobiográfica mais interessante de Benjamin, inédita durante sua vida, aparecerá no terceiro volume dos Selected writings. O que temos no volume 2 é a anterior "Crônica berlinense", também escrita à sombra de Proust. Apesar do título, esse texto não é construído cronologicamente, mas como uma montagem de fragmentos do passado intercalados com reflexões sobre a natureza da autobiografia, de modo que se trata mais das vicissitudes da memória do que de eventos reais da sua infância. Benjamin usa uma metáfora arqueológica para explicar sua oposição à autobiografia como a narrativa de uma vida. O autobiógrafo deveria pensar em si mesmo como um escavador, diz ele, cavando mais e mais fundo nos mesmos poucos lugares em busca das ruínas enterradas do passado. 

Além do "Diário de Moscou" e da "Crônica berlinense", os dois volumes em pauta contêm algumas outras peças autobiográficas: um relato mais propriamente literário sobre ficar esperando uma amante que não aparece, registros de experiências com haxixe, transcrições de sonhos, fragmentos de diário (Benjamin estava preocupado com o suicídio em 1931 e 1932) e um diário de Paris trabalhado para publicação, que inclui uma excursão a um bordel masculino freqüentado por Proust. Entre as revelações mais surpreendentes, uma admiração por Hemingway ("uma lição de como pensar direito por escrever correto") e uma antipatia por Flaubert (arquitetônico demais). 

Os fundamentos da filosofia da linguagem de Benjamin foram estabelecidos no começo de sua carreira. No ensaio-chave "Sobre a linguagem enquanto tal e sobre a linguagem do homem" (1916) ele argumenta que a palavra não é um mero signo, um substituto para algo, mas o nome de uma Idéia. Em "A tarefa do tradutor" (1921) ele tenta dar corpo à sua idéia da Idéia recorrendo ao exemplo de Mallarmé e a uma linguagem poética libertada de sua função comunicativa. Não fica claro como um conceito de linguagem simbolista poderia jamais ser reconciliado com o posterior materialismo histórico de Benjamin, mas ele sustentou que uma ponte podia ser construída, "por mais forçada e problemática que essa ponte pudesse ser". Em seus ensaios literários dos anos 1930 ele dá uma idéia sobre com o quê tal ponte poderia se parecer. Em Proust, em Kafka, nos surrealistas, a palavra, diz ele, recua da significação no sentido "burguês" e retoma seu elementar poder gestual. Assim, n'O castelo os dois ajudantes do agrimensor K. projetam seus estados fetais entrelaçando os membros sempre que podem e se embolando um com o outro. O gesto é "a forma suprema em que a verdade pode nos aparecer numa era desprovida de doutrina teológica". 

No tempo de Adão, a palavra e o gesto de nomear eram a mesma coisa. Desde então a linguagem sofreu uma longa queda, da qual Babel foi apenas um estágio. A tarefa da teologia é recuperar a palavra, em todo o seu poder mimético originário, dos textos sagrados em que ela foi preservada. A tarefa da crítica não é essencialmente diferente, pois linguagens decaídas ainda podem, na totalidade de suas intenções, nos apontar para a linguagem pura. Daí o paradoxo de "A tarefa do tradutor": uma tradução é superior a seu original, no sentido de que remete à linguagem anterior a Babel. 

Benjamin escreveu diversos textos sobre astrologia, os quais constituem importantes apêndices a seus escritos sobre a filosofia da linguagem. A ciência astrológica que temos hoje, diz ele, é uma versão degenerada de um corpo de conhecimento de tempos remotos, quando a faculdade mimética, sendo muito mais vigorosa, permitia correspondências realmente imitativas entre as vidas dos seres humanos e os movimentos das estrelas. Hoje só as crianças preservam e aplicam um poder mimético comparável. 

Em ensaios datados de 1933 Benjamin esboça uma teoria da linguagem baseada na mimese. A linguagem adâmica era onomatopaica, diz ele. Sinônimos de línguas diferentes, embora possam não soar ou parecer semelhantes (a teoria pretende funcionar tanto para a linguagem escrita quanto para a falada), têm semelhanças "não-sensoriais" com o que significam, conforme sempre o reconheceram teorias da linguagem "místicas" ou "teológicas". Embora superficialmente diferentes, as palavras pain, Brot e xleb são semelhantes num nível mais profundo ao corporificarem a Idéia de pão. (Persuadir-nos de que essa proposição não é tão vã quanto parece demanda o máximo das capacidades de Benjamin.) A linguagem, que constitui o desenvolvimento supremo da faculdade mimética, carrega consigo um arquivo dessas semelhanças não-sensoriais. A leitura tem o potencial de se tornar uma espécie de experiência onírica que dá acesso a um inconsciente humano comum, o lugar da linguagem e das Idéias. 

A abordagem de Benjamin acerca da linguagem está em total descompasso com a ciência lingüística do século XX, mas lhe propicia um majestoso acesso ao mundo do mito e da fábula, particularmente ao primevo, quase pré-humano, "mundo pantanoso" de Kafka, conforme ele o concebe. Uma intensiva leitura de Kafka iria deixar marcas indeléveis nos últimos — e pessimistas — escritos de Benjamin. 

III 

A história do Trabalho das passagens é mais ou menos a seguinte. No final dos anos 1920 Benjamin concebeu uma obra inspirada nas passagens de Paris, que trataria da experiência urbana. Seria uma versão da história da Bela Adormecida, um conto de fadas dialético narrado surrealisticamente por meio de uma montagem de textos fragmentários: como o beijo do príncipe, a obra despertaria as massas européias para a verdade de suas vidas sob o capitalismo. Ao se preparar para redigir o que imaginava como algo em torno de cinqüenta páginas, Benjamin começou a copiar citações de suas leituras sob títulos como Tédio, Moda, Poeira. Mas à medida que ele as articulava ao texto as páginas se dilatavam cada vez mais com novas citações e notas. Ele discutiu seus problemas com Adorno e Horkheimer, que o convenceram de que não podia escrever sobre o capitalismo sem um domínio adequado de Marx. A idéia da Bela Adormecida perdeu o brilho. 

Em 1934 Benjamin tinha um novo plano, filosoficamente mais ambicioso: usando o mesmo método de montagem, remeteria a superestrutura cultural da França do século XIX às mercadorias e seu poder de se tornar fetiches. Uma vez que suas notas se avolumavam, passou a dispô-las num complexo sistema de arquivo baseado em 36 "convolutas" (do alemão Konvolut: maço, dossiê) com palavras-chave e referências cruzadas. Sob o título "Paris, capital do século XIX" redigiu um résumé do material que havia reunido, o qual submeteu a Adorno (à época Benjamin recebia um estipêndio — e portanto estava em alguma medida devedor — do Instituto de Pesquisa Social, que Adorno e Horkheimer haviam transferido de Frankfurt para Nova York). Recebeu dele uma crítica tão severa que resolveu deixar de lado o projeto por um tempo e extrair da sua massa de materiais um livro sobre Baudelaire. Adorno leu parte do livro e mais uma vez foi crítico: os fatos eram deixados a falar por si mesmos, disse-lhe — não havia teoria suficiente. Benjamin fez várias revisões, que tiveram uma recepção mais cálida. Baudelaire era figura central para o projeto das Passagens porque n'As flores do mal ele pela primeira vez teria revelado a cidade moderna como um assunto para poesia. (Benjamin parece não ter lido Wordsworth, que cinqüenta anos antes de 

Baudelaire escrevera sobre como era fazer parte de uma multidão de rua, bombardeado por olhares de todos os lados, aturdido com anúncios.) Contudo, Baudelaire expressara sua experiência da cidade em alegoria, um modo literário fora de moda desde o período barroco. Em "O cisne", por exemplo, ele alegoriza o poeta como um nobre pássaro patinando comicamente no chão pavimentado do mercado, incapaz de abrir as asas e levantar vôo. Por que Baudelaire optou pelo modo alegórico? Benjamin usa O capital de Marx para responder à sua própria pergunta. 

A promoção do valor de mercado a única medida de riqueza, diz Marx, reduz a mercadoria a nada mais do que um signo — o signo do valor pelo qual será vendida. Sob o reinado do mercado as coisas têm a ver com seu valor real tão arbitrariamente quanto, por exemplo, uma caveira tem a ver com a sujeição do homem ao tempo na emblemática barroca. Emblemas assim fazem uma inesperada reaparição no palco histórico na forma de mercadorias, que sob o capitalismo não são mais o que parecem, mas, como advertiu Marx, sobejam "em sutilezas metafísicas e amenidades teológicas". A alegoria, argumenta Benjamin, é o modo exatamente certo para uma era de mercadorias. 

Enquanto trabalhava no jamais terminado livro sobre Baudelaire, Benjamin continuava tomando notas para o projeto das Passagens e a acrescentar novas convolutas. Os papéis recuperados do seu esconderijo na Bibliothèque Nationale depois da guerra somavam cerca de novecentas páginas de extratos, sobretudo de autores do século XIX mas também de contemporâneos de Benjamin, agrupados sob títulos e com comentários intercalados, além de uma variedade de planos e sinopses. Esse material foi publicado em 1982 na Alemanha como Passagen-Werk, com edição de Rolf Tiedemann. O Arcades project da Harvard usa o texto de Tiedemann mas omite muito de seu material de fundo e seu aparato crítico. Traduz todo o francês para o inglês e acrescenta notas de apoio, além de uma profusão de ilustrações. É um belo livro e um triunfo de engenhosidade tipográfica no trato com as complexas referências cruzadas de Benjamin. 

A história do Trabalho das passagens — uma história de procrastinações e falsas largadas, de perambulações por labirintos arquivísticos na busca de exaustividade tão característica do temperamento colecionador, de fundamentações teóricas movediças, de crítica exercida precipitadamente e, em termos gerais, de um Benjamin que não sabia aonde queria chegar — denota que o livro que nos restou é radicalmente incompleto: incompletamente concebido e dificilmente composto em qualquer acepção convencional. Tiedemann o compara aos materiais de construção de uma casa. Na hipotética casa terminada esses materiais teriam sido juntados pelo pensamento de Benjamin. Retemos boa parte desse pensamento na forma das interpolações de Benjamin, mas nem sempre podemos ver como o pensamento encaixa ou abrange os materiais. Sob tais condições, diz Tiedemann, talvez tivesse sido melhor publicar apenas as palavras de Benjamin, deixando de fora as citações. Mas a intenção de Benjamin, por mais utópica que fosse, era que em algum ponto o seu comentário seria discretamente removido, deixando o material citado sustentar todo o peso da estrutura. 

As passagens de Paris, diz um guia de 1852, 

são bulevares internos [...], corredores com teto de vidro e painéis de mármore que se estendem por quarteirões inteiros de edifícios [...]. Ladeando ambos os lados [...] estão as lojas mais elegantes, de forma que uma tal passagem é uma cidade, um mundo em miniatura.

A arquitetura aérea de vidro e aço logo foi imitada em outras cidades do Ocidente. O auge das passagens se estendeu até o final do século, quando foram eclipsadas pelas lojas de departamentos. O livro das Passagens nunca foi pensado como uma história econômica (embora parte de sua ambição fosse funcionar como corretivo para toda a disci- plina da história econômica). Um esboço inicial sugere algo muito mais parecido com "Infância em Berlim": 

Sabia-se de lugares na Grécia antiga onde o percurso conduzia ao mundo inferior. Nossa existência em vigília é igualmente uma terra que, em certos pontos ocultos, conduz ao mundo inferior — uma terra repleta de lugares inconspícuos de onde brotam os sonhos. O dia inteiro, sem nada suspeitar, passamos por eles, mas tão logo vem o sono nos vemos ansiosamente tateando o caminho de volta para nos perder em seus escuros corredores. Durante o dia, o labirinto de moradas urbanas parece com a consciência; as passagens [...] fluem despercebidas para as ruas. A noite, porém, sob a tenebrosa massa das casas, sua escuridão carregada projeta-se como uma ameaça e o pedestre noturno passa depressa — a menos porém que o tenhamos imbuído de ousadia para enveredar pelo caminho estreito. 

Dois livros serviram de modelo a Benjamin: Un paysan de Paris [Um camponês de Paris], de Louis Aragon, com seu afetuoso tributo à Passage de l'Opéra, e Spazieren in Berlin [Passeando em Berlim], de Franz Hessel, que enfoca a Kaisersgalerie e seu poder de evocar a sensação de uma era passada. Em seu livro Benjamin tentaria captar a "fantasmagórica" experiência do parisiense vagando entre vitrines de mercadorias, uma experiência ainda recuperável em seus dias, quando "as passagens pontilham a paisagem metropolitana como cavernas que contêm os restos fossilizados de um monstro desaparecido: o consumidor da era pré-industrial do capitalismo, o último dinossauro da Europa". 

A grande inovação do Trabalho das passagens estaria em sua forma. Funcionaria sobre o princípio da montagem, justapondo fragmentos textuais do passado e do presente na expectativa de que eles, faiscando entre si, iluminassem uns aos outros. Assim, por exemplo, se o item 2.1 da convoluta L, que se refere à abertura de um museu de arte no Palácio de Versalhes em 1837, for lido em conjunção com o item 2.4 da convoluta A, que delineia a transição das passagens para as lojas de departamentos, então a analogia "o museu está para a loja de departamentos como a obra de arte para a mercadoria" idealmente irá lampejar na mente do leitor. 

Segundo Max Weber, o que marca o mundo moderno é a perda de crença, o desencantamento. Benjamin tem um ângulo diferente: o capitalismo pôs as pessoas para dormir, e elas só despertarão de seu encantamento coletivo quando forem levadas a entender o que lhes aconteceu. A inscrição da convoluta N vem de Marx: "A reforma da consciência consiste tão-somente em [...] despertar o mundo de seu sonho sobre si mesmo". Os sonhos da era capitalista estão corporificados nas mercadorias. Estas, em seu conjunto, constituem uma fantasmagoria, constantemente mudando de forma de acordo com as marés da moda e oferecidas a multidões de idólatras encantados como a corporificação de seus desejos mais profundos. A fantasmagoria sempre esconde as suas origens (que residem no trabalho alienado). A fantasmagoria em Benjamin é, assim, um pouco como a ideologia em Marx — um tecido de mentiras públicas sustentadas pelo poder do capital —, mas está mais para o trabalho do sonho freudiano operando em âmbito coletivo, social. 

"Não preciso dizer nada. Apenas mostrar" — diz Benjamin. E em outro ponto: "As idéias estão para os objetos como as constelações estão para as estrelas". Se o mosaico de citações é construído corretamente deve emergir um padrão, um padrão que é mais que a soma de suas partes mas não pode existir independentemente delas: essa é a essência da nova forma de composição materialista histórica que Benjamin acreditava estar praticando. O que desalentava Adorno quanto ao projeto era a fé de Benjamin em que uma mera assemblage de objetos (no caso, citações descontextualizadas) pudesse falar por si mesma: Benjamin estava "na encruzilhada entre magia e positivismo", escreveu ele em 1935. Adorno teve a oportunidade de ver todo o corpus das Passagens em 1948, e mais uma vez expressou dúvidas sobre a densidade da sua teorização. 

A reação de Benjamin a críticas desse tipo foi inventar a noção de imagem dialética, e para isso voltou-se à emblemática do barroco — idéias representadas por imagens — e à alegoria baudelairiana — a interação de idéias substituída pela interação de objetos emblemáticos. A alegoria, sugeriu ele, poderia assumir o papel do pensamento abstrato. Os objetos e figuras que habitam as passagens — jogadores, prostitutas, espelhos, poeira, figuras de cera, bonecas mecânicas — são (para Benjamin) emblemas, e suas interações geram significados que não precisam da intromissão da teoria. Na mesma linha, fragmentos de textos tomados do passado e colocados no campo carregado do presente histórico são capazes de se comportar à maneira dos elementos de uma imagem surrealista, interagindo espontaneamente para fornecer energia política. ("Os eventos que cercam o historiador e nos quais ele toma parte", escreveu Benjamin, "fundamentariam sua representação como um texto escrito com tinta invisível.") Assim é que os fragmentos constituem a imagem dialética, movimento dialético momentaneamente congelado, aberto à inspeção, "dialética em suspenso". "Apenas imagens dialéticas são imagens genuínas." 

Não é preciso dizer mais sobre a teoria, engenhosa como é, à qual apela o livro profundamente antiteórico de Benjamin. Mas para o leitor não convencido pela teoria, o leitor para quem as imagens dialéticas nunca ganham vida como deveriam, o leitor talvez não receptivo à narrativa mestra sobre o longo sono do capitalismo seguido pela aurora do socialismo, o que o Trabalho das passagens tem a oferecer? A mais breve das listas incluiria o seguinte: um rico tesouro de informações curiosas sobre Paris, uma profusão de citações intencionalmente provocantes, a coleta de uma mente aguda e idiossincrática passando sua rede de pescar por milhares de livros, observações sucintas, polidas a um alto grau de lustro aforístico, sobre uma série de assuntos caros ao autor (exemplo: "A prostituição pode ter pretensões a ser considerada 'trabalho' no momento que o trabalho se torna prostituição") e lampejos de Benjamin brincando com uma nova maneira de ver a si mesmo — como colecionador de "palavras-chave num dicionário secreto", compilador de uma "enciclopédia mágica". Inesperadamente, esse leitor esotérico de uma cidade alegórica parece próximo de seu contemporâneo Jorge Luis Borges, fabulista de um universo reescrito. 

Aos olhos de hoje, a magnum opus de Benjamin tem um curioso parentesco com outra grande ruína da literatura do século XX, os Cantos de Ezra Pound. Ambas as obras são resultado de anos de leitura babélica. Ambas são construídas a partir de fragmentos e citações e filiam-se à estética de imagem e montagem do alto-modemismo. Ambas têm ambições econômicas e economistas como figuras norteadoras (Marx num caso, Gesell e Douglas no outro). Ambos os autores investiram em corpos de conhecimento antigos cuja relevância para seus tempos superestimaram. Nenhum dos dois sabia quando parar. E ambos foram tragados pelo monstro do fascismo — Benjamin, tragicamente; Pound, vergonhosamente. 

O destino dos Cantos tem sido o de um punhado de excertos reunidos em antologias, o resto sendo placidamente ignorado. O destino das Passagens pode bem ser semelhante. Pode-se prever uma edição condensada para estudantes, extraída sobretudo das convolutas B ("Moda"), H ("O colecionador"), I ("O interior"), J ("Baudelaire"), K ("Cidade de sonho"), N ("Da teoria do conhecimento") e Y ("Fotografia"), na qual as citações serão reduzidas a um mínimo e a maior parte do texto sobrevivente será do próprio Benjamin. E isso não seria de todo mau. 

IV 

É ampla a gama de interesses representada pelos Selected writings de Benjamin. Além dos textos aqui comentados, há uma seleção de seus precoces e diligentemente idealistas escritos sobre educação; numerosos ensaios de crítica literária, incluindo dois textos longos sobre Goethe, uma interpretação d'As afinidades eletivas e um magistral panorama da carreira do poeta; excursões por vários tópicos de filosofia (lógica, metafísica, estética, filosofia da linguagem, filosofia da história); ensaios sobre pedagogia, sobre livros infantis, sobre brinquedos; um cativante texto pessoal sobre o hábito de colecionar livros; uma variedade de peças de viagem e investidas na ficção. O ensaio sobre as Afinidades eletivas se destaca como uma performance particularmente estranha: uma ária prolongada, em prosa supersutil e apurada, sobre o amor e a beleza, o mito e o destino, levada a um alto tom de intensidade pelas semelhanças secretas que Benjamin viu entre a trama do romance e a tragicômica relação erótica a quatro em que ele e sua mulher estavam envolvidos. 

As traduções são excelentes, e entre os vários tradutores merece ser destacado Rodney Livingstone, por sua discreta eficiência em lidar com as mudanças de estilo e tom que marcam a evolução de Benjamin como escritor. As notas explicativas estão próximas do mesmo alto padrão, mas não chegam lá. As informações sobre as figuras relacionadas a/por Benjamin por vezes estão ultrapassadas (como no caso de Robert Walser) ou incorretas: as datas referentes a Karl Korsch (que foi expulso do Partido Comunista Alemão por suas opiniões independentes e a quem Benjamin recorre copiosamente na sua interpretação de Marx) são dadas como 1892-1939 quando na verdade são 1886-1961. Há erros de grego e latim. 

Algumas práticas gerais dos editores e tradutores também são questionáveis aqui. Benjamin tinha o hábito de escrever parágrafos de páginas inteiras: certamente, o tradutor deveria se sentir livre para fracioná-los. Aqui e ali são incluídas duas versões do mesmo texto sem que se esclareça por quê. Para textos em alemão citados por Benjamin usam-se traduções já existentes mesmo quando estas estão claramente abaixo do padrão.

V

Quem foi Walter Benjamin? Um filósofo? Um crítico? Um historiador? Um mero "escritor"? A melhor resposta talvez seja a de Hannah Arendt: ele foi um dos "inclassificáveis [...], cuja obra não se encaixa na ordem existente nem introduz um novo gênero". 

Sua peculiar abordagem — chegar a um assunto não diretamente, mas por um ângulo, movendo-se gradativamente de um sumário perfeitamente formulado para o próximo — é tão imediatamente reconhecível quanto inimitável, apoiada em agudeza de intelecto, em uma erudição levemente desgastada e num estilo de prosa que, depois que ele desistiu de se ver como o Professor Doutor Benjamin, se tornou uma maravilha de acuidade e concisão.

Na base de seu projeto de chegar à verdade dos nossos tempos há um ideal que ele encontrou expresso em Goethe: estabelecer os fatos de tal forma que eles sejam sua própria teoria. O livro das Passagens, seja qual for nosso veredicto sobre ele — ruína, fracasso, projeto impossível —, sugere um novo modo de interpretar uma civilização, tomando por material seus refugos em vez de suas obras de arte, escrevendo a história a partir de baixo em vez de por cima. E seu apelo (nas "Teses sobre o conceito de história") por uma história centrada no sofrimento dos vencidos em vez de nas conquistas dos vencedores é profético do modo como a escrita da história começou a pensar em si mesma em nossos tempos.

JM Coetzee é professor pesquisador da Universidade de Adelaide. É autor de dezessete obras de ficção, além de inúmeras obras de crítica e tradução. Ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2003. (Setembro de 2019)

14 de outubro de 2000

Palestinos sob sítio

Edward Said coloca a Palestina no mapa

Edward Said

Vol. 22 No. 24 · 14 December 2000

Tradução / [Este artigo faz referência a diversos mapas. O Mapa Um mostra a situação em Hebron hoje, com a cidade árabe dominada por assentamentos israelenses. O Mapa Dois segue a seqüência das transferências israelenses do território da Cisjordânia para a autonomia palestina entre 1994 e 1999. O Mapa Três oferece um quadro detalhado da Cisjordânia após o segundo envio de tropas israelenses no início de 2000. A situação demográfica atual de Jerusalém Oriental anexada pode ser vista no Mapa Quatro. O Mapa Cinco detalha as expropriações de terra na mesma parte da cidade, entre 1967 e 1999. Todos os mapas foram fornecidos pela Foundation for Middle East Peace, de Washington.]

Em 29 de setembro, um dia após Ariel Sharon, protegido por cerca de mil policiais e soldados israelenses, marchar para dentro do Haram al-Sharif (o “Santuário Nobre”), de Jerusalém, num gesto planejado para asseverar seu direito de, como israelense, visitar o local sagrado muçulmano, iniciou-se uma conflagração que continua quando escrevo estas linhas no final de novembro de 2000. O próprio Sharon não se arrepende e culpa a Autoridade Palestina por “incitação deliberada” contra Israel “como uma democracia forte” cujo “caráter judeu e democrático” os palestinos querem mudar. Ele foi ao Haram al-Sharif, escreveu no Wall Street Journal alguns dias depois, “para inspecionar e certificar-se de que todos têm liberdade de culto e livre acesso ao Monte do Templo”, mas não mencionou a sua enorme comitiva armada ou o fato de que a área foi isolada antes, durante e após a sua visita, o que dificilmente garante a liberdade de acesso. Também se esqueceu de dizer algo sobre a conseqüência de sua visita: no dia 29, o exército israelense matou oito palestinos a tiros. O que todos ignoraram, ademais, é que os habitantes originais de um lugar sob ocupação militar - o que Jerusalém Oriental tem sido desde que foi anexada por Israel em 1967 - têm o direito, pela lei internacional, a resistir por qualquer meio possível. Além disso, dois dos mais antigos e maiores santuários muçulmanos do mundo, que remontam a 1.500 anos atrás, foram, na suposição de arqueólogos, construídos no local do Monte do Templo – uma convergência de lugares religiosos que uma visita provocadora de um general israelense extremista nunca iria ajudar a resolver. Um general, vale a pena lembrar, que desempenhou um papel em várias atrocidades que remontam à década de 1950, e incluem Sabra, Chatila, Qibya e Gaza.2

Segundo a União de Comitês de Ajuda Médica Palestina, até o início de novembro de 2000, 170 pessoas haviam sido mortas e 6 mil, feridas; estes números não incluem 14 mortes de israelenses (oito delas soldados) e um número ligeiramente maior de feridos. Entre os palestinos mortos havia pelo menos 22 com menos de 15 anos e, segundo a organização israelense B’tselem, 13 palestinos cidadãos de Israel, mortos pela polícia israelense em manifestações dentro de Israel. Tanto a Anistia Internacional quanto a organização Human Rights Watch condenaram severamente Israel pelo emprego desproporcional da força contra civis; a Anistia publicou um relatório detalhando a intimidação, tortura e detenção ilegal de crianças árabes em Israel e Jerusalém. Parte da imprensa israelense foi consideravelmente mais informativa e direta em seus relatos e comentários sobre o que está acontecendo do que a mídia européia e dos Estados Unidos. Escrevendo no Ha’aretz em 12 de novembro, Gideon Levy observou com alarme que dos poucos membros árabes do Knesset (o parlamento israelense) a maioria foi punida por se opor à política de Israel para os palestinos: alguns foram substituídos nas comissões parlamentares, outros estão sendo julgados, e outros estão sendo interrogados pela polícia. Tudo isso, conclui, faz parte do “processo de demonização e deslegitimação que está sendo movido contra os palestinos dentro de Israel, assim como contra aqueles nos Territórios Ocupados”.

“A vida normal”, tal como existia para palestinos que vivem na Cisjordânia ocupada e na Faixa de Gaza, é agora impossível. Mesmo os mais ou menos 300 palestinos aos quais foi permitida liberdade de movimento e outros privilégios VIP, nos termos do processo de paz, já perderam essas vantagens, e, a exemplo dos mais ou menos três milhões restantes que agüentam o duplo peso da vida sob a Autoridade Palestina e o regime de ocupação israelense – sem mencionar a brutalidade dos milhares de colonos israelenses, alguns dos quais agem como “vigilantes” aterrorizando vilarejos e grandes cidades palestinas como Hebron – estão sujeitos a bloqueios, cercos e estradas com barricadas impossibilitando o deslocamento. Até Yasser Arafat tem de pedir permissão para deixar ou entrar na Cisjordânia ou Gaza, onde seu aeroporto é aberto e fechado à vontade pelos israelenses, e seu quartel tem sido bombardeado punitivamente por mísseis disparados por helicópteros. Quanto à circulação de mercadorias para dentro e fora dos territórios, está paralisada. Segundo o Escritório de Coordenação Especial das Nações Unidas nos Territórios Ocupados, o comércio com Israel representa 79,8% das transações dos palestinos; o comércio com a Jordânia, que vem em seguida, responde por 2,39%. O fato deste percentual ser tão baixo é atribuível diretamente ao controle israelense sobre a fronteira entre a Palestina e a Jordânia (além das fronteiras com a Síria, o Líbano e o Egito). Com o fechamento da fronteira com Israel, portanto, a economia palestina vem perdendo US$ 19,5 milhões por dia em média, o que equivale a três vezes a ajuda total recebida de fontes doadoras durante os primeiros seis meses do ano. Para uma população que continua a depender da economia israelense – graças a acordos econômicos firmados pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Oslo – isso significa um duro golpe. O que não diminuiu foi o ritmo de construção de assentamentos israelenses. Ao contrário, de acordo com o abalizado Relatório sobre os Assentamentos Israelenses em Territórios Ocupados (RISOT, em inglês), quase dobraram nos últimos anos. O Relatório acrescenta que “1.924 unidades de assentamentos foram iniciadas” desde o começo do regime “pró-paz” de Ehud Barak, em julho de 1999 – e existe, além disso, o programa em andamento de construção de estradas e de expropriação de propriedades para este fim, além da degradação da terra agrícola palestina, tanto pelo Exército quanto pelos colonos. O Centro Palestino de Direitos Humanos, com sede em Gaza, documentou “as limpezas” de olivais e cultivos de legumes pelo Exército Israelense (ou, como prefere ser conhecido, a Força de Defesa Israelense) perto da fronteira de Rafah, por exemplo, e em ambos os lados do bloco de assentamento de Gush Katif. Gush Katif é uma área de Gaza – cerca de 40% – ocupada por alguns milhares de colonos que podem regar seus jardins e encher suas piscinas, enquanto 1 milhão de habitantes palestinos da Faixa (800 mil deles são refugiados da ex-Palestina) vivem numa zona ressecada e sem água. De fato, Israel controla todo o abastecimento d’água dos Territórios Ocupados e reserva 80% dela para o uso pessoal de seus cidadãos judeus, racionando o resto entre a população palestina: esta questão nunca foi seriamente debatida durante o processo de paz de Oslo.

Qual o significado deste alardeado processo de paz? O que se alcançou? E, se é que foi um processo de paz, por que a condição miserável dos palestinos e o número de mortos aumentaram muito mais do que antes da assinatura dos Acordos de Oslo, em setembro de 1993? Por que, como observou o New York Times em 5 de novembro, a “paisagem palestina encontra-se agora decorada com as ruínas de projetos baseados na integração pacífica”? O que significa falar de paz se tropas e colonos israelenses ainda estão presentes em números tão grandes? Segundo o já citado Relatório RISOT, 110 mil judeus viviam em assentamentos ilegais em Gaza e na Cisjordânia antes dos Acordos de Oslo; de lá para cá, o número cresceu para 195 mil, uma cifra que não inclui os judeus – mais de 150 mil – que fixaram residência na Jerusalém Oriental árabe. O mundo foi iludido ou a retórica da “paz” foi na essência um gigantesco embuste?

Algumas das respostas a essas questões acham-se enterradas em maços de documentos assinados pelas duas partes sob os auspícios dos Estados Unidos, que só foram lidos pelo reduzido grupo de pessoas que os negociaram. Outras são simplesmente ignoradas pela mídia e governos que, é o que parece agora, se dedicaram a promover políticas desastrosas de informação, investimento e cumprimento da lei, independentemente dos horrores que aconteciam na prática. Poucos, entre os quais me incluo, tentaram relatar o que estava acontecendo, desde a rendição inicial dos palestinos, em Oslo, até o presente, mas, em comparação com a mídia convencional e os governos, para não falar dos relatórios e recomendações sobre a situação divulgados por grandes agências de financiamento, como o Banco Mundial, a União Européia e muitas fundações privadas – notadamente a Fundação Ford – que cooperam com a impostura, nossas vozes tiveram um efeito desprezível, exceto tristemente como profecia.

Os distúrbios das últimas semanas não se limitaram à Palestina e Israel. As demonstrações de sentimento antiamericano e antiisraelense nos mundos árabe e islâmico são comparáveis às de 1967. Manifestações de rua furiosas ocorrem diariamente em Cairo, Damasco, Casablanca, Túnis, Beirute, Bagdá e no Kuwait. Milhões de pessoas expressaram seu apoio à Intifada al-Aqsa, como ficou conhecida, assim como seu repúdio ao comportamento submisso de seu governos. A Cúpula árabe realizada em Cairo, em outubro, produziu as costumeiras denúncias grandiloqüentes de Israel e alguns dólares a mais para a Autoridade de Arafat, mas sequer o menor protesto diplomático – a retirada de embaixadores – foi feito por qualquer dos participantes. No dia posterior à Cúpula, o Abdullah da Jordânia, que estudou nos Estados Unidos e cujo conhecimento da língua árabe consta como tendo progredido até o nível de escola secundária, voou para Washington para assinar um acordo comercial com os Estados Unidos, o principal apoio de Israel. Após seis semanas de turbulência, Mubarak relutantemente retirou seu embaixador de Tel Aviv, mas ele depende grandemente dos US$ 2 bilhões de dólares que o Egito recebe de ajuda anual dos Estados Unidos e é improvável que vá muito além disso. A exemplo de outros líderes no mundo árabe, ele também precisa dos Estados Unidos para protegê-lo de seu povo. Enquanto isso, a raiva, humilhação e frustração árabes continuam a crescer, ou porque seus regimes são tão antidemocráticos e impopulares, ou porque as questões básicas – emprego, renda, nutrição, saúde, educação, infraestrutura – caíram abaixo de níveis toleráveis. Apelos em prol do Islã e as expressões generalizadas de indignação funcionam como substitutos de um sentido de cidadania e democracia participativa. Isso é um mau presságio para o futuro, tanto dos árabes, quanto de Israel.

Nos círculos ligados a relações internacionais durante os últimos 25 anos, o comentário é que a causa da Palestina morreu, o pan-arabismo é uma miragem, e os líderes árabes, a maioria desacreditados, aceitaram Israel e os Estados Unidos como parceiros, e no processo de se livrar de seu nacionalismo, conformaram-se à panacéia da desregulamentação numa economia global, cujo primeiro profeta no mundo árabe foi Anwar al- Sadat e cujo influente propagandista foi o colunista do New York Times e especialista em Oriente Médio, Thomas Friedman. Em outubro último, após sete anos elogiando em suas colunas o processo de paz acertado em Oslo, Friedman viu-se em Ramallah sitiado pelo Exército Israelense (e sob fogo). “A propaganda israelense de que os palestinos na maioria das vezes têm governo próprio na Cisjordânia é pura besteira,” anunciou. “É verdade que os palestinos controlam suas próprias cidades, mas os israelenses controlam todas as estradas que ligam essas cidades entre si e, portanto, todos os seus movimentos. O confisco israelense de terra palestina para mais assentamentos prossegue até hoje, sete anos depois de Oslo.” Conclui que apenas “um Estado Palestino em Gaza e na Cisjordânia” pode trazer a paz, mas nada diz sobre o tipo de Estado que seria. Nem fala nada sobre o fim da ocupação militar, mas isso tampouco fazem os documentos de Oslo. Por que Friedman nunca discutiu isso nos milhares de centímetros que publicou desde setembro de 1993, e por que mesmo agora ele nada diz que os eventos de hoje são o desfecho lógico de Oslo desafia o senso comum, mas isso é típico da falta de sinceridade que cerca o assunto.

O otimismo daqueles que se encarregaram de assegurar que a miséria dos palestinos fosse mantida afastada do noticiário parece ter desaparecido numa nuvem de poeira juntamente com a “paz” que os Estados Unidos e Israel se empenharam tanto em consolidar em seus próprios interesses estreitos. Ao mesmo tempo, a velha estrutura que sobreviveu à Guerra Fria está esfarelando lentamente com o envelhecimento das lideranças árabes, sem sucessores viáveis à vista. Mubarak até se recusou a nomear um vicepresidente, Arafat não tem nenhum sucessor claro; nas repúblicas Ba’ath “socialistas democráticas” do Iraque e Síria, assim como no Reino da Jordânia, os filhos assumiram – ou assumirão – no lugar dos pais, cobrindo o processo de autocracia dinástica com um remendo de legitimidade.

No entanto, chegou-se a um ponto crítico, e para isso a Intifada palestina é um sinal significativo. Pois ela é não apenas uma rebelião anticolonial do tipo visto periodicamente em Setif, Sharpeville, Soweto e em outros lugares, mas também mais um exemplo do descontentamento geral com a ordem pós-Guerra Fria (econômica e política) demonstrada nos eventos de Seattle e Praga. A maioria dos muçulmanos do mundo vê o levante como parte de um quadro mais amplo que inclui Sarajevo, Mogadício, Bagdá sob as sanções comandadas pelos Estados Unidos, e Chechênia. O que deve estar claro para todo governante, inclusive Clinton e Barak, é que o período de estabilidade garantido pela dominação tripartite de Israel, Estados Unidos e regimes árabes locais acha-se agora ameaçado por forças populares de magnitude incerta, direção desconhecida, e visão não nítida. Qualquer que seja a forma que assumam futuramente, será de uma cultura não oficial dos despossuídos, silenciados e desprezados. Muito provavelmente, também, trará em si as distorções de anos de política oficial do passado.

Enquanto isso, é correto dizer que a maioria das pessoas que ouvem frases como “as partes estão negociando,” ou “vamos voltar à mesa de negociação,” ou “você é meu parceiro de paz,” supuseram que exista paridade entre palestinos e israelenses e que, graças às corajosas almas de cada lado que se encontraram secretamente em Oslo, as duas partes finalmente estiveram acertando as questões que as “dividem”, como se cada uma tivesse um pedaço de terra, um território onde pudesse estar de frente para a outra. Isso é seriamente – na verdade, maliciosamente – enganador. Com efeito, a desproporção entre os dois antagonistas é imensa, em termos do território que controlam e das armas de que dispõem. O noticiário tendencioso oculta a extensão da disparidade. Considere o seguinte: citando um levantamento de editoriais publicados na grande imprensa americana, feito pela Liga de Anti-Difamação, o Ha’aretz de 25 de outubro constatou “uma tendência de apoio” a Israel, com 19 jornais expressando solidariedade a Israel em 67 editoriais, 17 fazendo uma “análise equilibrada”, e apenas nove “manifestando crítica aos líderes israelenses (particularmente Ariel Sharon), a quem acusavam de responsabilidade pela conflagração”. Em novembro, o relatório da Fairness and Accuracy in Reporting (Noticiário Imparcial e Exato) registrou que, das 99 notícias sobre a Intifada transmitidas pelas três maiores redes dos Estados Unidos, entre 28 de setembro e 2 de novembro, apenas quatro faziam referência aos “Territórios Ocupados”. O mesmo relatório chamou atenção para frases como “Israel (...) novamente se sente isolada e sitiada”, “os soldados israelenses sob ataque diário”, e, num confronto onde seus soldados foram obrigados a recuar, “os israelenses cederam território à violência palestina.” Fórmulas altamente parciais desse tipo são inseridas em comentários dos noticiários das redes, obscurecendo os fatos da ocupação e desequilíbrio militar: as Forças de Defesa de Israel têm usado tanques, helicópteros de ataque Cobra e Apache, mísseis, morteiros e metralhadoras pesadas, fornecidos pelos americanos e britânicos; os palestinos não possuem nada disso.

O New York Times só publicou um artigo de opinião de um palestino ou um árabe (e acontece de o autor apoiar os acordos de Oslo) numa avalanche de comentários editoriais favoráveis às posições dos Estados Unidos e Israel; o Wall Street Journal não publicou nenhum artigo nessa linha; nem o Washington Post. Em 12 de novembro, um dos mais populares programas de televisão dos Estados Unidos, o Sessenta Minutos da CBS, transmitiu uma seqüência que parecia planejada para deixar o Exército Israelense “provar” que o assassinato de Mohammad al-Dura, de 12 anos, símbolo do sofrimento palestino, foi orquestrado pela Autoridade Palestina. Foi dito que a Autoridade teria plantado o pai do menino na frente das posições das armas israelenses e levado para uma posição próxima a equipe de TV francesa que gravou o assassinato - tudo para provar um argumento ideológico.

A deturpação fez com que se tornasse quase impossível o público americano entender a base geográfica dos eventos, e este é um dos mais geográficos dos litígios. Não se pode esperar que ninguém acompanhe e, mais importante, retenha um quadro cumulativamente preciso das disposições ocultas que prevalecem em condições práticas, resultado de negociações, a maioria delas secretas, entre Israel e uma equipe palestina desorganizada, pré-moderna e tragicamente incompetente, sob o domínio de Arafat. Numa hora decisiva, as resoluções específicas - 242 e 338 - do Conselho de Segurança das Nações Unidas são agora esquecidas, tendo sido marginalizadas por Israel e pelos Estados Unidos. Ambas as resoluções estipulam inequivocamente que a terra adquirida por Israel como resultado da guerra de 1967 deve ser devolvida em troca da paz. O processo de Oslo começou jogando efetivamente essas resoluções na lata de lixo - e, por isso, foi muito mais fácil, após o fracasso da Cúpula de Camp David, em julho último, alegar, como o fizeram Clinton e Barak, que os palestinos eram os culpados pelo impasse, e não os israelenses, cuja posição continua sendo a de que os territórios conquistados em 1967 não devem ser devolvidos. A imprensa americana mencionou seguidamente a oferta “generosa” de Israel e a vontade de Barak em ceder parte de Jerusalém Oriental e algo entre 90 e 94% da Cisjordânia aos palestinos. Mas ninguém na imprensa americana ou européia definiu exatamente o que seria “cedido” ou de qual território da Cisjordânia ele estava “oferecendo” 90%. Toda a história era uma quimérica tolice, conforme Tanya Reinhart mostrou no Yediot Aharanot, o maior diário de Israel. Na matéria “A Farsa de Camp David” (13 de julho), ela informa que foram oferecidos 50% da Cisjordânia aos palestinos em cantões separados; 10% seriam anexados por Israel e nada menos do que 40% seriam deixados “para discussão”, para usar o eufemismo que designa a continuação do controle israelense. Se você anexa 10%, não desmonta nem interrompe os assentamentos (como fez Barak), recusase repetidamente a voltar às linhas de 1967 ou a devolver Jerusalém Oriental, decidindo, ao mesmo tempo, reter áreas inteiras como o Vale do Jordão, e assim cercar completamente os territórios palestinos de modo que eles não tenham fronteira com nenhum Estado a não ser com Israel, além de reter as estradas de “desvio”, de triste fama, e suas áreas adjacentes, os famosos “90%” caem rapidamente para algo entre 50-60%, cuja maior parte só vai ser discutida no futuro muito distante. Afinal de contas, mesmo o último envio de tropas israelenses, acertado nos encontros de Wye River Plantation, em 1998, e reconfirmado em Sharm el Sheikh, em 1999, ainda não aconteceu. É oportuno repetir que Israel é o único Estado do mundo sem fronteiras oficialmente declaradas. E se olharmos para os 50-60% em termos da antiga Palestina, veremos que correspondem a cerca de 12% da terra de onde os palestinos foram expulsos em 1948. Os israelenses falam em “ceder” esses territórios. Mas eles foram tomados por conquista e, num sentido estrito, a oferta de Barak só significaria que eles estariam sendo devolvidos, de modo algum na sua totalidade.

Para começar, alguns fatos. Em 1948 Israel tomou a maior parte do que era a Palestina histórica ou sob mandato, destruindo e despovoando 531 vilarejos árabes no processo. Dois terços da população foram expulsos: eles são os quatro milhões de refugiados de hoje. A Cisjordânia e Gaza, no entanto, ficaram com a Jordânia e o Egito, respectivamente. Ambos foram posteriormente perdidos para Israel, em 1967, e permanecem sob o seu controle até hoje, exceto algumas áreas que funcionam sob uma “autonomia” palestina altamente limitada – o tamanho e os contornos dessas áreas foram decididos unilateralmente por Israel, conforme especifica o processo de Oslo. Poucos percebem que, mesmo nos termos dos acordos de Oslo, as áreas palestinas com esta autonomia ou auto-governo não gozam de soberania: ela só pode ser decidida como parte das Negociações da Situação Final. Em outras palavras, Israel pegou 78% da Palestina em 1948 e os 22% restantes em 1967. Só esses 22% estão em questão agora, e eles excluem Jerusalém Ocidental (dos 19 mil dunams, os judeus possuíam 4.830 e os árabes, 11.190, o resto era terra do Estado), tudo cedido antecipadamente por Arafat a Israel em Camp David.3

Qual terra, então, Israel já devolveu até agora? É impossível detalhar isso de qualquer maneira direta – propositalmente impossível. É parte do gênio maligno de Oslo que mesmo as “concessões” de Israel foram tão fortemente oneradas com condições, qualificações e vinculações – tal como uma das propriedades fisicamente inatingíveis e interminavelmente adiadas de um romance de Jane Austen – que os palestinos não conseguem sentir que gozam de qualquer aparência de auto-determinação. Por outro lado, elas podem ser classificadas como concessões, possibilitando a qualquer um (inclusive à liderança palestina) dizer que certas áreas de terra estavam agora (na maioria) sob controle palestino. É o mapa geográfico do processo de paz que mostra, da maneira mais dramática, as distorções que vêm se acumulando e foram sistematicamente disfarçadas pelo discurso calculado de paz e negociações bilaterais. Ironicamente, em nenhuma das dezenas de notícias publicadas ou veiculadas desde o começo da crise atual foi fornecido um mapa para ajudar a explicar porque o conflito atingiu tamanha intensidade.

A estratégia dos acordos de Oslo foi redividir e subdividir um território palestino já dividido em três subzonas, A, B e C, de formas inteiramente planejadas e controladas pelo lado israelense, pois, conforme venho sublinhando há vários anos, os palestinos não tinham nenhum mapa, até recentemente. Eles não tinham nenhum mapa detalhado em Oslo; inacreditavelmente, tampouco havia nenhum indivíduo na equipe de negociação com suficiente familiaridade com a geografia dos Territórios Ocupados para contestar decisões ou apresentar planos alternativos. Daí as bizarras providências para subdividir Hebron após o massacre de 29 palestinos em 1994, na mesquita de Horahimi, por Baruch Goldstein – medidas tomadas para “proteger” os colonos, não os palestinos. O Mapa Um mostra como o núcleo da cidade árabe (120 mil habitantes) – 20% dela, de fato – está sob o controle de mais ou menos 400 colonos judeus, cerca de 0,03% do total, protegido pelo Exército Israelense.

O Mapa Dois mostra o primeiro de uma série planejada de recuos israelenses feitos em áreas largamente separadas, ou seja, não contíguas. Gaza é separada de Jericó por quilômetros e quilômetros de terra controlada por israelenses, mas ambas pertencem à área autônoma A, que, na Cisjordânia, limitava-se a 1,1% do território. O componente de Gaza da área A é muito maior principalmente porque, com sua terra árida e superpovoada com massas rebeldes, Gaza sempre foi considerada um peso para a ocupação israelense, que se contentava em se livrar de toda a terra, menos a terra agrícola de primeira em seu coração, os vários assentamentos, retidos até agora por Israel juntamente com o porto, as fronteiras, entradas e saídas. Os Mapas Dois, Três e Quatro (o mapa quatro foi apresentado por Israel como um mapa ideal de retirada na cúpula de Camp David, embora anunciado antes) mostram o ritmo de passo de tartaruga em que se permitiu a desafortunada Autoridade Palestina assumir o controle dos grandes centros populacionais (Área A); na Área B, Israel deixou a Autoridade policiar as principais áreas de vilarejos, perto de onde os assentamentos estavam constantemente em construção. Apesar das patrulhas conjuntas de oficiais palestinos e israelenses, Israel mantinha em suas mãos toda a segurança real da Área B. Na Área C, manteve todo o território para si, 60% da Cisjordânia, para construir mais assentamentos, abrir mais estradas e estabelecer áreas militares, todas elas – nas palavras de Jeff Halper - destinadas a montar uma matriz de controle da qual os palestinos nunca se veriam livres.4

Uma olhada em qualquer um dos mapas revela, não apenas que as várias partes da Área A são separadas umas das outras, mas que são cercadas pela Área B e, mais importante, pela Área C. Em outras palavras, os bloqueios e cercos que transformaram as áreas palestinas em pontos sitiados no mapa vêm sendo planejados há muito tempo e, pior ainda, a Autoridade Palestina conspirou para isso: aprovou todos os documentos relevantes desde 1994. Em outubro, Amira Hass, correspondente do Ha’aretz nos territórios palestinos, escreveu que em 1993 os dois lados “acertaram um período de cinco anos para a conclusão do novo envio de tropas e as negociações num acordo final. A liderança palestina concordou, repetidamente, em prorrogar o seu período de experiência, diante da perspectiva dos ataques terroristas do Hamas e das eleições israelenses. A ‘estratégia de paz’ e a tática de gradualismo adotada pela liderança foi, a princípio, apoiada pela maioria do público palestino, que anseia por normalidade” – e, penso, pelo fim real da ocupação, que, vale repetir, não foi mencionado em nenhum dos documentos de Oslo.

Prossegue a correspondente: “a Fatah (a principal facção da OLP) era a espinha dorsal do apoio à idéia de liberação gradual do jugo da ocupação militar. Seus integrantes eram os que vigiavam a oposição palestina, detinham suspeitos cujos nomes eram dados a eles por Israel, prendiam os que assinavam manifestos afirmando que Israel não pretendia renunciar a sua dominação sobre a nação palestina. A vantagem pessoal obtida por alguns desses integrantes da Fatah não basta para explicar o seu apoio ao processo: por muito tempo, eles acreditavam real e verdadeiramente que este era o caminho para a independência”.

Quando escreve “vantagem” Hass quer dizer os privilégios VIP que mencionei antes. Mas, conforme a correspondente salienta, estes homens eram também membros da “nação palestina”, com esposas, filhos e parentes que sofriam as conseqüências da ocupação israelense, e estavam fadados, em algum momento, a se perguntar se o apoio ao processo de paz não significava também apoio à ocupação. Conclui Hass: 

“Passados mais de sete anos, Israel detém controle administrativo e da segurança de 61,2% da Cisjordânia e cerca de 20% da Faixa de Gaza (Área C), e controle da segurança de outros 26,8% da Cisjordânia (Área B).”

Este controle é o que permitiu a Israel dobrar o número de colonos em 10 anos, ampliar os assentamentos, continuar sua política discriminatória  de reduzir quotas de água para 3 milhões de palestinos, impedir o desenvolvimento palestino na maior parte da área da Cisjordânia, e isolar uma nação inteira em áreas restritas, presa numa rede de estradas de desvio reservadas apenas aos judeus. Durante estes dias de restrição interna rigorosa de movimentos na Cisjordânia, pode-se ver como cada estrada foi cuidadosamente planejada para 200 mil judeus terem liberdade de movimento e cerca de 3 milhões de palestinos ficarem trancados em seus bantustões até se submeterem às demandas israelenses.

Ao que se deve acrescentar, a título de esclarecimento, que as principais vias aqüíferas para o abastecimento de água de Israel ficam na Cisjordânia; que a “nação inteira” exclui os 4 milhões de refugiados a quem é categoricamente negado o direito de retorno, muito embora qualquer judeu de qualquer lugar ainda desfrute do direito absoluto de “retorno” a qualquer momento; que a restrição de movimento é tão severa em Gaza quanto na Cisjordânia; e que os 200 mil judeus em Gaza e na Cisjordânia que gozam de liberdade de movimento, citados pela correspondente Hass, não incluem os 150 mil novos habitantes israelenses-judeus que foram trazidos para “judaizar” Jerusalém Oriental.

A Autoridade Palestina está presa num mecanismo espantosamente engenhoso, se bem que infrutífero a longo prazo, de comitês de segurança compostos pelo Mossad, a CIA e os serviços de segurança palestinos. Ao mesmo tempo, Israel e os membros do alto escalão da Autoridade Palestina operam monopólios lucrativos em materiais de construção, tabaco, petróleo etc (os lucros são depositados em bancos israelenses). Não apenas os palestinos estão sujeitos à intimidação pelas tropas israelenses, mas seus próprios homens participam deste abuso de seus direitos, ao lado de odiadas agências não palestinas. Estes comitês de segurança, em grande parte secretos, também possuem um mandato para censurar qualquer coisa que possa ser interpretada como “incitação” contra Israel. É claro que os palestinos não possuem tal direito contra incitações americanas ou israelenses.

O ritmo lento desse processo em curso é justificado pelos Estados Unidos e Israel como salvaguarda da segurança do segundo; nada se fala sobre a segurança palestina. Claramente, devemos concluir, conforme sempre estipulado pelo discurso sionista, que a própria existência dos palestinos, não importa quão confinados ou destituídos de poder estejam, constitui uma ameaça racial e religiosa à segurança de Israel. O que é mais extraordinário é que, em meio a tanta surpreendente unanimidade, no auge da crise atual, Danny Rabinowitz, antropólogo israelense, falou corajosamente no Ha’aretz (17 de outubro) do “pecado original” de Israel ao destruir a Palestina em 1948, o que, com poucas exceções, os israelenses preferiram ou negar ou esquecer completamente.

Se a geografia da Cisjordânia foi alterada em proveito de Israel, a de Jerusalém foi mudada inteiramente. A anexação de Jerusalém Oriental, em 1967, acrescentou 70 quilômetros quadrados ao Estado de Israel; outros 54 quilômetros quadrados foram surrupiados da Cisjordânia e acrescentados à área metropolitana, administrada por muito tempo pelo prefeito Teddy Kollek, o preferido dos liberais ocidentais, que, com seu vice, Meron Benvenisti, foi responsável pela demolição de centenas de casas palestinas em Haret al-Maghariba, para dar lugar à imensa praça em frente ao Muro da Lamentação.5 Desde 1967, Jerusalém Oriental foi sistematicamente judaizada, suas fronteiras, inflacionadas, com a implantação de enormes projetos habitacionais e novas estradas e desvios construídos de modo a fazer com que o retorno seja virtual e inequivocamente impossível e, para a população árabe intimidada e declinante da cidade, transformada em tudo, menos habitável. Como disse o vice-prefeito Abraham Kehila em julho de 1993, “Eu quero que os palestinos abram os olhos para a realidade e compreendam que a unificação de Jerusalém sob a soberania de Israel é irreversível.” (Ver o Mapa Cinco.) Recentes disparos de armas leves contra o novo assentamento de Gilo, em Jerusalém, provenientes do vilarejo palestino vizinho de Beit Jala, teve cobertura total da mídia, mas ninguém mencionou que Gilo foi construída em terra confiscada de Beit Jala. Poucos palestinos esquecerão seu passado tão facilmente.

A cúpula de Camp David em julho fracassou porque Israel e os Estados Unidos apresentaram todas as medidas territoriais que vim discutindo aqui – apenas ligeiramente modificadas para devolver aos palestinos duas “áreas naturais”, eufemismo para deserto, de modo a aumentar a sua parte da área total – como a base para a solução final do conflito palestino-israelense. As reparações foram, com efeito, rejeitadas pelos israelenses, embora essa idéia não seja inteiramente estranha a muitos judeus. Não vi nenhuma menção na mídia ocidental de uma extensa matéria sobre Camp David escrita por Akram Haniyeh, chefe de redação do diário Al-Ayyam, de Ramallah, e um fiel seguidor da Fatah que, desde sua deportação pelos israelenses em 1987, tem estado próximo a Arafat. Haniyeh deixa claro que, do ponto de vista palestino, Clinton simplesmente reforçou a posição israelense, e que, para salvar sua carreira, Barak queria uma conclusão rápida para questões críticas, como os refugiados e Jerusalém, assim como uma declaração formal de Arafat de fim definitivo do conflito. (Desde então Barak convocou eleições antecipadas como meio de afastar uma derrota parlamentar total.) O relato envolvente de Haniyeh sobre o que aconteceu deve sair logo em tradução inglesa na revista Journal of Palestine Studies, de Washington. Mostra que a posição israelense “sem precedentes” sobre Jerusalém foi na verdade talhada para a direita israelense – em outras palavras, que Israel reteria soberania definitiva até sobre a mesquita al- Aqsa. “A posição israelense,” diz Haniyeh, “era ‘faturar’ tudo” – e não dar nada em troca. Israel teria a “assinatura de ouro” de Arafat, o reconhecimento final e “a preciosa promessa de ‘fim do conflito’”. Tudo isso sem uma devolução completa do território ocupado, um reconhecimento de soberania total ou um reconhecimento da questão dos refugiados.

Desde 1967 os Estados Unidos desembolsaram mais de US$ 200 bilhões de dólares em ajuda financeira e militar incondicional a Israel, enquanto ofereciam apoio político geral que permitia a Israel fazer o que quisesse. A Grã-Bretanha, cuja política externa é uma cópia carbono da de Washington, também fornece equipamentos militares que vão diretamente para Cisjordânia e Gaza, para facilitar o assassinato de palestinos. Nenhum Estado recebeu tanta ajuda externa quanto Israel e nenhum Estado (afora os próprios Estados Unidos) desafiou a comunidade internacional em tantas questões por tanto tempo. Se Al Gore se tornar presidente, essa política permaneceria inalterada.6 Gore é intransigentemente pró-Israel e um associado próximo de Martin Peretz, o principal defensor nos Estados Unidos da posição de Israel pela rejeição e com retórica anti-árabe, e dono da publicação New Republic. Pelo menos George W. Bush fez um esforço durante a campanha para tratar de preocupações árabe-americanas, mas, a exemplo da maioria dos ex-presidentes republicanos, ele seria apenas ligeiramente menos pró-Israel do que Gore.

Por sete anos, Arafat vinha assinando acordos do processo de paz com Israel. Pretendia-se obviamente que Camp David fosse o último. Ele rejeitou, sem dúvida, porque percebera a monstruosidade que já havia assinado (eu gostaria de pensar que seus pesadelos são feitos de viagens intermináveis pelos desvios da Área C); sem dúvida, também, porque estava ciente de quanta popularidade havia perdido. Esqueça a corrupção, o despotismo, o desemprego em disparada, agora de até 25%, a pobreza absoluta da maioria do seu povo: ele finalmente compreendeu que, tendo sido mantido vivo por Israel e pelos Estados Unidos, seria jogado de volta para seu povo sem Haram al-Sharif e sem um Estado verdadeiro, ou mesmo a perspectiva de um Estado viável. Os jovens palestinos se cansaram e, a despeito dos débeis esforços de Arafat de controlá-los, ocuparam as ruas para jogar pedras e usar estilingues contra os Merkavas e Cobras dos israelenses.

Os fatos de que Israel dependia no passado, a ignorância, cumplicidade ou preguiça de jornalistas fora de Israel, são agora contrabalançados pelo volume fantástico de informações alternativas disponíveis na Internet. Ciberativistas e hackers abriram um vasto e novo reservatório de material que qualquer um com um mínimo de instrução pode explorar. Há relatos não apenas de jornalistas da imprensa britânica (não existe nenhum equivalente na mídia do “sistema” dos Estados Unidos), mas também da imprensa israelense e árabe com sede na Europa; existem pesquisas realizadas por pesquisadores individuais e informações compiladas em arquivos, organizações internacionais e agências das Nações Unidas, assim como de coletivos de ONGs na Palestina, Israel, Europa, Austrália e América do Norte. Aqui, como em muitos outros casos, a informação confiável é o maior inimigo da opressão e da injustiça.

O aspecto mais desmoralizante do conflito sionista-palestino é a oposição quase total entre os pontos de vista israelense e palestino convencionais. Fomos despossuídos e desenraizados em 1948, eles pensam que conquistaram a independência e que os meios foram justos. Lembramos que a terra que deixamos e os territórios que tentamos liberar da ocupação militar fazem todos parte de nosso patrimônio nacional; eles pensam que é deles por decreto bíblico e filiação da diáspora. Hoje, por qualquer padrão concebível, somos as vítimas da violência; eles pensam que eles são as vítimas. Não há simplesmente nenhum terreno comum, nenhuma narrativa comum, nenhuma área possível para a reconciliação sincera. Nossas reivindicações são mutuamente exclusivas. Mesmo a noção de uma vida comum compartilhada no mesmo pedaço de terra é impensável. Cada um de nós pensa em separação, talvez em isolar e esquecer o outro.

A maior pressão moral para mudar é sobre os israelenses, cujas ações militares e imprudente estratégia de paz derivam de uma preponderância da força do seu lado, e uma falta de vontade de ver que estão acumulando anos de ressentimento e ódio por parte dos muçulmanos e árabes. Daqui a 10 anos haverá paridade demográfica entre árabes e judeus na Palestina histórica: o que acontecerá então? Os envios de tanques, os bloqueios de estradas e as demolições de casas poderão continuar como antes? Não faria sentido um grupo de historiadores e intelectuais respeitados, compostos igualmente de palestinos e israelenses, realizar uma série de encontros para tentar acordar um pouquinho de verdade sobre este conflito, para ver se as fontes conhecidas podem orientar os dois lados para concordar sobre um conjunto de fatos – quem tirou o que de quem, quem fez o que com quem, e assim por diante – que, por sua vez, podem apontar uma saída do impasse atual? Talvez seja muito cedo para uma Comissão de Verdade e Reconciliação, mas algo como um Comitê de Verdade Histórica e Justiça Política seria apropriado.

Está claro para todos que o velho esquema de Oslo, que tantos danos causou, não é mais viável (uma recente pesquisa de opinião pública, conduzida pela Universidade Bir Zeit, mostra que apenas 3% da população palestina quer voltar às velhas negociações) e que a equipe de negociação palestina liderada por Arafat não pode mais centralizar o poder, muito menos a nação. Todos sentem que estão fartos: a ocupação durou tempo demais, as conversações de paz se arrastaram com poucos resultados, a meta, se era a independência, não parece mais próxima (agradeça a Rabin, Peres e seus equivalentes palestinos por este fracasso), e o sofrimento do povo comum foi maior do que o suportável. Daí o arremesso de pedras nas ruas, mais outra atividade inútil, com suas próprias conseqüência trágicas. A única esperança é continuar tentando confiar numa idéia de coexistência entre dois povos numa mesma terra. No momento, no entanto, os palestinos estão precisando desesperadamente de orientação e, sobretudo, proteção física. O plano de Barak de punir, conter e sufocá-los já apresentou resultados calamitosos, mas não consegue submetê-los, como ele e seus mentores americanos supõem. Por que é que os israelenses não percebem - como alguns já perceberam - que uma política de brutalidade contra árabes numa parte do mundo contendo 300 milhões de árabes e 1,2 bilhão de muçulmanos não tornará o Estado judeu mais seguro?

Notas

2 Gostaria de agradecer a Shifra Stern, Ali Abunimah, Andrew Rubin, Mostapha Barghuti, Ibrahim Abu-Lughod, Linda Butler, Sara Roy, Raji Sourani, Noam Chomsky e Jeffrey Aronson pela ajuda neste
artigo. O livro Reflections on Exile (Reflexões sobre o Exílio) deve sair no ano que vem pela Granta, no Reino Unido, e pela Harvard, nos Estados Unidos

3 Estes dados foram extraídos do livro Salim Tamari (org.), Jerusalem 1948: The Arab neighbourhoods and their fate in the war, Institute of Jerusalem Studies, 1998.

4 Halper escreveu os estudos mais impressionantes sobre o planejamento territorial israelense durante o processo de Oslo; ver, por exemplo, seu estudo da rodovia trans-Israel “The road to apartheid”, News from Within, mai. 2000, e “The 94 per cent solution: a matrix of control”, Middle East Report, n. 216, 2000. O geógrafo holandês Jan de Jong, autor de dois dos mapas reproduzidos aqui, também fez um trabalho importante nessa área.

5 Um relato ponderado da era dourada de Kollek é o de Amir Cheshin, Bill Hutman e Avi Melamed. Separate and unequal: The inside story of Israeli rule in East Jerusalem, Nova York, Harvard, 1999.

1 de junho de 2000

Meu encontro com Sartre

Edward Said

London Review of Books

Vol. 22 No. 11 · 1 June 2000

Após ter sido um dos mais célebres intelectuais do nosso tempo, Jean-Paul Sartre, nos últimos anos, foi praticamente esquecido, até recentemente. Pouco depois de sua morte, em 1980, denunciava-se sua cegueira em relação aos gulags soviéticos e questionava-se mesmo o otimismo, o voluntarismo, a energia pura erigida em nome de seu existencialismo humanista. Toda a carreira de Sartre foi chocante, tanto para os chamados “novos filósofos”, cujos talentos medíocres não dispunham senão do ardor de seu anticomunismo para atrair alguma atenção, como para os pós-estruturalistas que, com raras exceções, soçobravam em um narcisismo moroso visando esfolar o populismo de Sartre e suas corajosas tomadas de posição políticas. A imensa abrangência da obra de Sartre — romancista, ensaísta, dramaturgo, biógrafo, filósofo, intelectual político, homem engajado — parecia então mais afastar do que ganhar leitores. Caíram no esquecimento suas corajosas posições políticas sobre as guerras da Argélia e do Vietnã, seu trabalho em favor dos imigrantes, sua aparição como maoísta quando da revolta estudantil de Paris, em 1968, assim como a amplitude e a distinção extraordinárias de sua obra literária (que lhe fizeram ganhar e recusar o Nobel de Literatura). Ele era então uma ex-celebridade caluniada, salvo no mundo anglo-saxão, onde jamais havia sido levado a sério como filósofo e onde sempre havia merecido certa condescendência, como romancista e biógrafo ocasional, bastante insuficiente do ponto de vista do anticomunismo, bem menos chique e sedutor que um Albert Camus, cujo talento porém era menor.

Depois, como ocorre freqüentemente na França, a moda começou a ser invertida. Nos últimos anos, surgiram diversas obras consagradas a Sartre, que acabou se tornando, talvez de modo passageiro, um tema de conversação, e mesmo de estudo e reflexão. Devo dizer que minha geração sempre o considerou como um dos heróis intelectuais do século, alguém cuja profundidade e dons intelectuais pareciam estar a serviço de todas as causas progressistas de nosso tempo. Não achávamos que era infalível, nem o tomávamos por profeta. Mas admirávamos os esforços que fazia para compreender uma situação, e assegurar, se preciso, seu apoio a uma causa, sem condescendência nem subterfúgios. Ele podia se enganar, era freqüentemente suscetível de erros ou exageros, mas sempre foi um pensador importante. Um leitor do meu gênero considerava digno de interesse tudo o que ele escrevia, ou quase tudo, por sua audácia única, sua liberdade — incluindo aí a de ser tagarela — e sua generosidade de espírito.

Com exceção de um caso particular, que eu gostaria de evocar aqui. Eu estava animado pela publicação de dois artigos, tão fascinantes como deprimentes, sobre sua viagem ao Egito, nos primeiros meses de 1967, os quais pudemos ler recentemente no suplemento literário do jornal egípcio Al Ahram. [1] Minha própria experiência não passou de um episódio menor numa existência verdadeiramente plena de grandeza, mas o que ela comporta de elementos irônicos e pungentes justifica sua lembrança.


Era o início de janeiro de 1979 e eu estava em minha casa, em Nova York, preparando um seminário. A campainha de minha porta tocou, anunciando a chegada de um telegrama. Ao abri-lo, observei com prazer que vinha de Paris: “O senhor é convidado pela revista Les Temps Modernes a participar de um seminário sobre a paz no Oriente Médio, que será realizado em Paris nos dias 13 e 14 de março deste ano. Por favor, queira confirmar sua presença. Assinado: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre”. Primeiro pensei que se tratava de uma brincadeira. Para alguém como eu, não era exatamente normal receber tal convite de figuras tão legendárias. Era como se recebesse um convite de Cosima e Richard Wagner para Bayreuth, ou de T.S. Eliot e Virgina Woolf para passar uma tarde nos escritórios da revista Criterion. [2] Foram precisos dois dias para verificar, junto a alguns amigos em Paris e Nova York, que o telegrama era autêntico, mas bem menos para manifestar meu acordo incondicional (considerando que as “modalidades”, para empregar o eufemismo francês que designa os custos de viagem, ficavam por conta de Les Temps Modernes, a célebre revista que Sartre havia fundado depois da Segunda Guerra). Algumas semanas mais tarde, eu partia para Paris.


Les Temps modernes desempenhou um papel extraordinário na vida intelectual francesa, e mais tarde europeia e até do Terceiro Mundo. Sartre reuniu ao seu redor um conjunto notável de mentes — nem todas concordando com ele — que incluía Beauvoir, é claro, seu grande oposto Raymond Aron, o eminente filósofo e colega de classe da École Normale Maurice Merleau-Ponty (que deixou o periódico alguns anos depois) e Michel Leiris, etnógrafo, africanista e teórico das touradas. Não houve uma questão importante que Sartre e seu círculo não tenham assumido, incluindo a guerra árabe-israelense de 1967, que resultou em uma edição monumentalmente grande de Les Temps modernes — por sua vez, o assunto de um ensaio brilhante de I.F. Stone. Isso por si só deu à minha viagem a Paris um precedente digno de nota.


À minha chegada, encontrei em meu modesto hotel do Quartier Latin um bilhete breve e misterioso: “Por razões de segurança”, dizia a mensagem, “as reuniões ocorrerão no apartamento de Michel Foucault.” De posse do endereço, na manhã do dia seguinte dirigi-me à residência de Foucault e, quando cheguei, já fervilhava de gente. Mas Sartre ainda não tinha chegado. Não houve ninguém para explicar as misteriosas razões de segurança que haviam provocado a mudança de endereço, mesmo que, em razão deste fato, tenha sido criado um clima de conspiração totalmente desnecessário que perdurou durante todas as nossas discussões. Simone de Beauvoir já estava lá, com seu famoso turbante, concedendo, a quem quisesse ouvir, uma pequena conferência sobre a viagem que ia fazer a Teerã com Kate Millet, onde pretendiam se manifestar contra o chador (vestimenta utilizada pelas mulheres muçulmanas). O contexto chocou-me por sua condescendente estupidez e, apesar de meu desejo de saber o que ela tinha a dizer, percebi que estava particularmente imbuída de si mesma e particularmente inacessível a qualquer conversa naquele momento. De resto, ela partiu cerca de uma hora depois (um pouco antes da chegada de Sartre) e eu não a vi nunca mais.


Michel Foucault estava presente, mas ele me fez compreender rapidamente que não tinha nada a dizer sobre o tema do seminário, e que ia se retirar logo — como fazia todos os dias — para seu trabalho de pesquisa na Biblioteca Nacional. Eu estava feliz por meu livro Beginnings [3] aparecer com destaque em sua biblioteca, onde se amontoavam uma multidão de livros, papéis e revistas. Conversamos amavelmente, mas só bem mais tarde (quase uma década após sua morte, em 1984, para ser sincero) fui me dar conta das razões pelas quais Michel Foucault mostrou-se tão reticente em falar comigo sobre a situação política do Oriente Médio. Em suas biografias, Didier Eribon e David Macey revelaram que, em 1967, ela dava aulas na Tunísia e que foi obrigado a deixar rapidamente este país, em circunstâncias pouco normais, após a guerra de junho. Segundo a versão de Foucault, sua partida voluntária deveu-se ao horror das perseguições anti-semitas da época, freqüentes nas grandes cidades árabes após a derrota na guerra contra os israelenses. Um de seus colegas tunisianos me explicou, na década de 80, que ele tinha sido expulso. Jamais fiquei sabendo qual a versão certa. Na época do seminário parisiense, Foucault me contou que estava acabando de regressar de uma viagem ao Irã, para onde tinha ido como enviado especial do jornal italiano Corriere Della Serra. “Muito excitante, muito estranho, louco”. Lembro-me bem de tê-lo ouvido falar deste modo de seus primeiros dias na República islâmica. Um pouco depois da aparição de seus artigos, ele tratou rapidamente de manter distância. Para terminar, ao final da década de 80, Gilles Deleuze confidenciou-me que ele e Foucault, antes muito próximos, tinham rompido relações devido a divergências sobre a questão palestina. Foucault defendeu Israel, Deleuze os palestinos.


O apartamento de Foucault, se bem que vasto e extremamente confortável, era radicalmente branco e austero, o reflexo exato do filósofo solitário e do pensador rigoroso, que parecia viver só. Entre os palestinos e judeus israelenses presentes, só reconheci Ibrahim Dakkak, que tornou-se mais tarde um bom amigo de Jerusalém, Nafez Nazzal, professor em Bir Zeit, que eu tinha conhecido superficialmente nos Estados Unidos, e Yehoshofat Harkabi, o principal especialista israelense em “mentalidade árabe”, que em outros tempos tinha sido um agente do serviço secreto militar de Israel, e que Golda Meir demitiu por ter colocado, por engano, o exército em estado de alerta. Três anos mais tarde, passei um ano com ele em Stanford realizando estudos aprofundados em ciências do comportamento. Ambos estávamos sobrecarregados de cursos e acabamos não desenvolvendo a menor relação. Éramos sempre polidos, jamais cordiais. Em Paris, ele parecia estar em processo de mudança de pensamento, o que acabaria por transformá-lo no mais influente mensageiro de paz de Israel, defendendo abertamente a necessidade de um Estado palestino, considerado como uma vantagem estratégica para Israel. Os demais participantes eram essencialmente judeus israelenses ou franceses. Representavam toda a gama de tendências, da mais religiosa à mais laica, sendo todos porém, de um modo ou de outro, pró-sionistas. Um deles, Elie Ben Gal, aparentemente era um velho conhecido de Sartre: tinha sido, segundo nos disseram, seu guia por ocasião de uma recente viagem a Israel.

Quando o grande homem fez enfim sua aparição, bem depois da hora prevista, tive a oportunidade de ver a que ponto ele parecia velho e frágil. Lembro-me com toda clareza de minha impressão imediata: Sartre estava sempre acompanhado, sustentado e apoiado por uma pequena corte, sobre a qual ele se apoiava totalmente, e para a qual ele constituía a principal atividade. Faziam parte dela sua filha adotiva, de origem argelina, creio, que também desempenhava a função de sua agente literária. Havia também Pierre Victor, um ex-maoísta, co-editor com Sartre de La Cause du peuple, e que era contudo um judeu profundamente religioso, provavelmente ortodoxo. Fiquei estupefato quando soube mais tarde, de um dos membros da redação, que era um judeu egípcio chamado Benny Levy, e irmão de Adel Rafat, que formava com Baghat El-Nadi a dupla conhecida pelo nome Mahmud Hussein. É sob este nome que os dois trabalhavam na Unesco e que escreveram La lutte des classes en Egypte, um ensaio célebre publicado por Maspero. Victor não tinha aparentemente nada de egípcio; fazia o tipo intelectual rive gauche. Em terceiro lugar vinha Helena von Bulow, que, trilingüe, trabalhava na revista e fazia traduções para Sartre. Fiquei um pouco surpreso e decepcionado quando percebi que, apesar de suas estadas na Alemanha, de seus escritos sobre Heidegger, sobre Faulkner e Dos Passos, Sartre não conhecia nem o alemão nem o inglês. Amável e elegante, Helena von Bullow permaneceu ao lado de Sartre durante os dois dias do seminário, sussurrando-lhe na orelha uma tradução simultânea. Com exceção de um palestino de Viena que só falava árabe e alemão, nosso debate ocorreu em inglês. Não saberei jamais o quanto Sartre compreendeu do que estava sendo dito, mas foi profundamente desconcertante (para mim e outros presentes) vê-lo permanecer absolutamente silencioso durante todo o primeiro dia. Michel Contat, seu biógrafo, também estava presente, mas não participou da discussão.

De acordo com o estilo francês, o almoço — que em outro contexto não teria levado mais de uma hora — revelou-se uma operação complexa. Ocorreu num restaurante pouco afastado da casa de Foucault. Com a chegada dos participantes em táxis separados, por causa da chuva, mais a sucessão de quatro pratos e depois o retorno do grupo, esse importante evento acabou durando cerca de três horas e meia. Deste modo, no primeiro dia, nossas discussões sobre a paz duraram relativamente pouco. Os temas da discussão foram expostos por Victor, que apresentou-os sem ter consultado ninguém, até onde sei. Desde o início, senti que ele fazia a lei, aproveitando sua relação privilegiada com Sartre (com quem, às vezes, trocava algumas palavras em voz baixa) e exibindo uma auto-confiança arrogante. Segundo ele, devíamos discutir: 1) O valor do tratado de paz entre Egito e Israel (era a época de Camp David); 2) A paz entre Israel e o mundo árabe em geral, e 3) as condições de uma possível coexistência entre Israel e o mundo árabe. Nenhum dos árabes me parecia satisfeito. Eu, por meu lado, lamentava que se escamoteasse a questão palestina. Dakkak não recebeu qualquer satisfação e, ao final do primeiro dia, foi embora. Alguém tinha lhe assegurado que haveria intelectuais egípcios presentes. Quando ele não viu ninguém chegar, percebeu que tinha pouca coisa a fazer ali.

Ao longo desse primeiro dia, fui descobrindo pouco a pouco que o seminário tinha sido precedido de uma grande negociação, e que a participação do mundo árabe — pelo pouco número de representantes lá — estava comprometida por todas estas negociações precedentes. Lamentei não ter participado dessas negociações. Era muita ingenuidade de minha parte ter pretendido vir a Paris para discutir a preparação do seminário com Sartre, eu me dizia. Ele fez questão da participação de Emmanuel Levinas, mas este não foi mais visto que os egípcios. Todas as discussões eram registradas e posteriormente foram publicadas numa edição especial de Les Temps Modernes (setembro de 1979). Achei que foi bem insatisfatório. Estávamos cobrindo um terreno mais ou menos familiar, sem nenhum encontro real de mentes.


Simone de Beauvoir tinha se revelado uma grande decepção. Após uma hora de dissertação dogmática sobre o Islã e o uso do véu, ela partiu. Considerando as circunstâncias, não lamentei sua ausência. Mais tarde, tive a convicção que ela teria insuflado vida ao debate. Quanto à presença de Sartre, ou melhor, o que restou dela, foi estranhamente passiva, muito pouco impressionante, desprovida de paixão. Durante horas, ele não disse absolutamente nada. No almoço, ficou sentado do outro lado da mesa, com ar aborrecido, totalmente fechado. Tentei, em vão, iniciar uma conversa. Talvez estivesse um pouco surdo, mas não estou certo disso. Seja como for, ele me pareceu um fantasma do que tinha sido, e sua proverbial feiúra, seu cachimbo, suas roupas neutras e sem forma pareceram-me mais acessórios em uma cena deserta. Durante o almoço e na sessão da tarde, me dei conta de que Pierre Victor desempenhava o papel de chefe da gare e, entre os trens, figurava o próprio Sartre. Independentemente de suas misteriosas conversações na mesa, ele e Victor levantavam-se de vez em quando. Victor conduzia o velho homem, de passo vacilante, para um canto da sala, falava-lhe rapidamente, obtendo aqui e ali um balanço de cabeça, e ambos retornavam à mesa. Na época, eu era muito atuante na política palestina. Em 1977, tornei-me membro do Conselho Nacional Palestino, e por ocasião de minhas numerosas viagens a Beirute (durante a guerra civil no Líbano), para visitar minha mãe, eu via regularmente Arafat e a maioria dos líderes de então. Pensava que seria um grande êxito conseguir uma declaração de Sartre favorável aos palestinos, num momento tão crucial de nossa rivalidade mortal com Israel.

Cada participante tinha algo a dizer, se bem que fosse impossível desenvolver uma argumentação, mesmo que eu tivesse visto claramente que o verdadeiro tema do encontro era a consolidação de Israel (o que hoje se conhece por “normalização”), e não a situação dos palestinos ou dos árabes. Eu me encontrava exatamente na mesma posição da maioria dos árabes diante de mim. Com as melhores intenções, tínhamos acreditado que poderíamos tentar convencer um intelectual de primeira linha (como Sartre ou outros de sua importância), na esperança de que ele pudesse se tornar um novo Arnold Toynbee ou um Sean McBride — o que ocorre raramente. Se depositei esta esperança em Sartre é porque eu não podia simplesmente esquecer sua posição a respeito da Argélia, o que, considerando que se tratava de um território francês, devia ter sido bem mais difícil de defender que uma posição crítica em relação à Israel. Evidentemente eu estava enganado.

No desenrolar de algumas discussões fechadas e vãs, interrompi sem vergonha os debates e insisti que se ouvisse Sartre imediatamente, o que provocou consternação entre seus apoiadores satélites. Numa dessas ocasiões, a sessão foi suspensa, enquanto eles deliberavam em clima de catástrofe. A maioria dos participantes, devo dizer, partilhava comigo a sensação de farsa ou tragédia, pois o próprio Sartre parecia não tomar nenhum partido nestas deliberações que diziam respeito justamente à sua participação. Afinal, fomos chamados à mesa por um Pierre Victor visivelmente irritado, que, com toda afetação pomposa de um senador romano, anunciou em tom solene: “Amanhã, Sartre falará”. E então nos retiramos todos, para nos reencontrarmos na manhã seguinte a fim de escutar o grande homem.

No dia seguinte, Sartre tinha algo a nos oferecer: um texto datilografado de duas páginas que, no essencial — o que escrevo se baseia unicamente numa velha lembrança de vinte anos — recorria às piores banalidades para louvar a coragem de Sadat. Eu não consigo me lembrar bem das palavras para evocar os palestinos, os territórios ocupados ou seu passado trágico. Não houve, tenho certeza, nenhuma referência ao colonialismo israelense, comparável sob muitos aspectos às práticas francesas na Argélia. Era tão instrutivo quanto um despacho da agência Reuters, escrito obviamente por Victor, para apresentar um Sartre que ele parecia ter inteiramente sob seu domínio. Fiquei completamente abalado ao ver que este herói intelectual tinha sucumbido em seus últimos anos a um mentor tão reacionário e que, a propósito da Palestina, uma questão que assumia aos meus olhos uma urgência moral e política — no mesmo plano que Argélia e Vietnã —, o velho partidário dos oprimidos não encontrasse algo além das palavras mais convencionais para elogiar um líder egípcio já grandemente célebre. Durante o resto do dia, Sartre voltou ao seu silêncio, e o resto dos participantes continuou como antes. Pelo resto do dia, Sartre retomou seu silêncio, e os procedimentos continuaram como antes. Lembrei-me de uma história apócrifa na qual vinte anos antes Sartre havia viajado para Roma para encontrar Fanon (então morrendo de leucemia) e o repreendeu sobre os dramas da Argélia por (foi alegado) 16 horas ininterruptas, até que Simone o fez desistir. Aquele Sartre se foi para sempre.


Na transcrição do seminário publicado alguns meses mais tarde, a intervenção de Sartre — e este é um ponto interessante — foi reescrita e reduzida. Por que razão, não posso imaginar e na verdade nem quero saber. Sei somente que, mesmo se ainda tivesse o número de Les Temps Modernes onde aparecemos todos, não seria capaz de reler mais do que algumas linhas, sob pena de não ver ali nada além de discursos vazios. Fui escutar Sartre em Paris no mesmo espírito do convite que lhe tinha sido feito para ir ao Egito, onde intelectuais árabes queriam vê-lo e conversar com ele — com um resultado idêntico, mesmo que meu encontro tenha sido marcado, para não dizer maculado, pela presença de um intermediário, o pouco sedutor Pierre Victor, que, depois, desapareceu, parece-me, numa obscuridade perfeitamente justificada. Fiquei reduzido, como Fabrice em Waterloo, ao fracasso e à decepção.

Um último detalhe. Há alguns meses, participei do programa de televisão de Bernard Pivot, Bouillon de culture, retransmitido nos Estados Unidos pouco depois de sua difusão na França. O programa era dedicado a Sartre, sua lenta reabilitação póstuma, seu recente retorno ao primeiro plano, apesar da crítica persistente aos seus pecados políticos. Bernard Henry-Lévy — difícil encontrar alguém, tanto do ponto de vista das qualidades intelectuais como da coragem política, tão diferente de Sartre — estava lá para assegurar a promoção do ensaio aparentemente favorável que ele tinha escrito sobre o velho filósofo. (Confesso que não li o ensaio e que não tenho a menor intenção de fazê-lo.) Sartre não era tão mau afinal de contas, concedeu BHL, pois pode-se encontrar nele posições constantemente admiráveis e politicamente corretas. BHL pretendia, assim, fazer um contraponto ao que considerava ser uma crítica fundada, aquele de Sartre sempre se ter enganado a respeito do comunismo. “Por exemplo”, assinalou BHL, “suas posições sobre Israel eram perfeitas: ele jamais transigiu sobre suas posições quanto a Israel, manifestando sempre seu total apoio ao Estado judeu.”

Sartre efetivamente permaneceu sempre constante em seu filo-sionismo fundamental. Medo de passar por anti-semita, sentimento de culpa diante do Holocausto, recusa em se permitir uma percepção profunda dos palestinos como vítimas em luta contra a injustiça de Israel, ou qualquer outra razão? Jamais saberei a resposta. Tudo o que sei é que, em sua velhice, não era quase nada diferente do que tinha sido antes: a mesma fonte amarga de decepção para qualquer árabe (exceção feita aos argelinos) que admirasse justificadamente suas outras posições e sua obra. Bertrand Russell certamente fez melhor: em seus últimos anos, quando foi orientado e, segundo alguns, totalmente manipulado por meu camarada de classe de Princeton e velho amigo Ralph Schoenman, ele assumiu efetivamente posições razoavelmente críticas da política de Israel em relação aos árabes. Por quê os grandes homens, em sua velhice, sucumbem tanto aos artifícios de um jovem aprendiz, a um tipo de rigidez que os encerra em uma convicção política inatingível? É um pensamento desmoralizante, mas há um pouco disso no caso de Sartre. À exceção da Argélia, a justeza da causa árabe não lhe provocou jamais uma grande impressão, talvez por causa de Israel, ou então pelo fato de uma ausência elementar de simpatia, ligada a razões culturais ou eventualmente religiosas, não sei. Neste domínio, ele era radicalmente diferente de seu ídolo, Jean Genet, seu velho amigo, que celebrou sua estranha paixão pelos palestinos permanecendo longo tempo entre eles e também escrevendo o extraordinário Quatre heures à Sabra et Chatila e Le Captif amoureux.

Um ano após nosso breve e decepcionante encontro em Paris, Sartre morreu. Lembro-me vividamente de quanto lamentei sua morte.

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