1 de abril de 2009

O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história

O feminismo e o neoliberalismo compartilham uma afinidade secreta? Nancy Fraser sobre a cooptação da política de gênero pelo “novo espírito” do capitalismo pós-fordista e a subordinação de sua crítica radical a uma agenda do Banco Mundial. Uma mudança neokeynesiana pode oferecer perspectivas para a renovação feminista socialista?

Nancy Fraser

New Left Review


Tradução / Gostaria de voltar o olhar para a segunda onda do feminismo. Não a uma ou outra corrente ativista, nem a esta ou aquela tendência de teorização feminista; tampouco a uma ou outra fatia geográfica do movimento, nem a um determinado estrato sociológico de mulheres. Quero, ao contrário, tentar analisar a segunda onda do feminismo no seu conjunto, como um monumental fenômeno social que marcou uma época. Recordando quase quarenta anos de ativismo feminista, quero arriscar uma avaliação geral da trajetória e da importância histórica do movimento. Espero também que olhar para trás nos ajude a olhar para o futuro. Reconstruindo o caminho percorrido, espero lançar luz sobre os desafios que enfrentamos hoje – em uma época de forte crise econômica, incerteza social e realinhamento político[3].

Vou, portanto, falar sobre os amplos contornos e o significado geral da segunda onda do feminismo. Narrativa histórica e análise sócio-teórica em partes iguais, meu relato gira em torno de três pontos sucessivos, cada um dos quais situa a segunda onda do feminismo em relação a um momento específico da história do capitalismo. O primeiro ponto se refere aos primórdios do movimento no contexto que denominarei “capitalismo organizado pelo Estado”. Neste artigo, me proponho a rastrear o surgimento da segunda onda do feminismo a partir da nova esquerda antiimperialista, como um questionamento radical ao androcentrismo que permeia as sociedades capitalistas lideradas pelo Estado no pós-guerra. Conceituando esta fase, identificarei a promessa emancipatória fundamental do movimento com seu sentimento expandido de injustiça e sua crítica estrutural da sociedade. O segundo ponto se refere ao processo da evolução do feminismo no contexto social drasticamente mudado do crescente neoliberalismo. A este respeito, proponho não apenas traçar os sucessos extraordinários do movimento, mas também a perturbadora convergência de alguns de seus ideais com as exigências de uma nova forma emergente do capitalismo: pós-fordista, “desorganizada”, transnacional. Ao conceituar esta fase, perguntarei se a segunda onda do feminismo forneceu inconscientemente um ingrediente fundamental do que Luc Boltanski e Ève Chiapello (2005) chamam de “o novo espírito do capitalismo”. O terceiro ponto faz referência a uma possível reorientação do feminismo no atual contexto de crise capitalista e realinhamento político estadunidense, que poderia marcar os primórdios do neoliberalismo a uma nova forma de organização social. A este respeito, proponho examinar as perspectivas para reativar a promessa emancipatória do feminismo em um mundo que foi golpeado pelas crises gêmeas do capital financeiro e da hegemonia dos Estados Unidos, e que agora espera o desdobramento da presidência de Barack Obama.

Em geral, portanto, proponho situar a trajetória da segunda onda feminista em relação à recente história do capitalismo. Deste modo, espero ajudar a recuperar a teorização feminista socialista que me inspirou pela primeira vez há décadas e que ainda parece oferecer nossa melhor esperança para esclarecer as perspectivas de justiça de gênero na atualidade. Entretanto, meu objetivo não é reciclar teorias de sistemas duais obsoletos, mas, ao contrário, integrar o melhor das recentes teorias feministas com o melhor das recentes teorias críticas do capitalismo.

Para esclarecer a lógica atrás desta abordagem, deixe-me explicar meu descontentamento com o que talvez seja a visão mais amplamente mantida da segunda onda do feminismo. É dito frequentemente que o sucesso relativo do movimento em transformar cultura permanece em nítido contraste com seu relativo fracasso para transformar instituições. Esta avaliação tem duplo sentido: por um lado, os ideais feministas de igualdade de gênero, tão controversos nas décadas anteriores, agora se acomodam diretamente no mainstream social; por outro lado, eles ainda têm que ser compreendidos na prática. Assim, as críticas feministas de, por exemplo, assédio sexual, tráfico sexual e desigualdade salarial, que pareciam revolucionárias não faz muito tempo, são princípios amplamente apoiados hoje; contudo esta mudança drástica de comportamento no nível das atitudes não tem de forma alguma eliminado essas práticas. E, assim, frequentemente se argumenta: a segunda onda do feminismo tem provocado uma notável revolução cultural, mas a vasta mudança nas mentalités (contudo) não tem se transformado em mudança estrutural, institucional.

Há algo a ser dito a respeito desta visão, que acertadamente registra a ampla aceitação de hoje das ideias feministas. Mas a tese de “falha institucional com sucesso cultural” não ajuda muito a iluminar a significação histórica e as futuras perspectivas da segunda onda do feminismo. Postular que as instituições ficaram defasadas em relação à cultura, como se uma pudesse mudar enquanto a outra não, sugere que apenas precisamos fazer a primeira alcançar a última a fim de tornar reais as esperanças feministas. O efeito é obscurecer uma possibilidade mais complexa, perturbadora: que a difusão de atitudes culturais nascidas da segunda onda foi parte integrante de outra transformação social, inesperada e não intencional pelas ativistas feministas – uma transformação na organização social do capitalismo do pós-guerra. Esta possibilidade pode ser formulada mais nitidamente: as mudanças culturais impulsionadas pela segunda onda, saudáveis em si próprias, serviram para legitimar uma transformação estrutural da sociedade capitalista que avança diretamente contra as visões feministas de uma sociedade justa.

Neste ensaio, meu objetivo é explorar esta possibilidade perturbadora. Minha hipótese pode ser declarada assim: o que foi verdadeiramente novo sobre a segunda onda foi o modo pelo qual ela entrelaçou, em uma crítica ao capitalismo androcêntrico organizado pelo Estado, três dimensões analiticamente distintas de injustiça de gênero: econômica, cultural e política. Sujeitando o capitalismo organizado pelo Estado a um exame multifacetado e abrangente no qual essas três perspectivas se misturaram livremente, as feministas geraram uma crítica que foi simultaneamente ramificada e sistemática. Porém, nas décadas seguintes, as três dimensões de injustiça tornaram-se separadas, tanto entre si, quanto da crítica ao capitalismo. Com a fragmentação da crítica feminista vieram a incorporação seletiva e a recuperação parcial de algumas de suas tendências. Separadas umas das outras e da crítica social que as tinha integrado, as esperanças da segunda onda foram recrutadas a serviço de um projeto que estava profundamente em conflito com a nossa ampla visão holística de uma sociedade justa. Em um bom exemplo da perspicácia da história, desejos utópicos acharam uma segunda vida como correntes de sentimento que legitimaram a transição para uma nova forma de capitalismo: pós-fordista, transnacional, neoliberal.

No que se segue, proponho elaborar esta hipótese em três etapas, as quais correspondem aos três pontos do esquema mencionado anteriormente. Em uma primeira etapa, reconstruirei a crítica da segunda onda feminista ao capitalismo androcêntrico organizado pelo Estado em relação à integração com as três perspectivas sobre justiça – redistribuição, reconhecimento e representação. Em uma segunda etapa, esboçarei a desintegração desta constelação e o recrutamento seletivo de algumas de suas tendências para legitimar o capitalismo neoliberal. Em uma terceira etapa, esboçarei as perspectivas para recuperar a promessa emancipatória do feminismo no presente momento de crise econômica e abertura política.

O feminismo e o capitalismo organizado pelo Estado

Permitam-me começar situando o surgimento da segunda onda do feminismo no contexto do capitalismo organizado pelo Estado. Por “capitalismo organizado pelo Estado”, quero dizer a formação social hegemônica na era do pós-guerra, uma formação social na qual os estados exerceram um papel ativo em conduzir as suas economias nacionais4. Estamos mais familiarizados com a forma tomada pelo capitalismo organizado pelo Estado nos Estados de Bem-estar Social do que foi então chamado de Primeiro Mundo, que usou ferramentas Keynesianas para suavizar os ciclos de crescimento e queda endêmicos ao capitalismo. Baseando-se nas experiências da Depressão e planejamento de tempos de guerra, estes Estados implementaram várias formas de dirigismo, incluindo investimento infra-estrutural, política industrial, tributação redistributiva, provisão social, regulamento empresarial, nacionalização de algumas indústrias-chave e desmercantilização de bens públicos. Embora fossem os mais ricos e poderosos Estados da OCDE5 que eram capazes de “organizar” o capitalismo com mais êxito nas décadas posteriores a 1945, uma variante do capitalismo organizado pelo Estado poderia também ser encontrada no que foi então denominado o Terceiro Mundo. Em ex-colônias empobrecidas, os “Estados desenvolvimentistas” recém independentes buscaram usar suas capacidades mais limitadas para iniciar o crescimento econômico nacional por meio de políticas de substituição de importação, investimento infra-estrutural, nacionalização de indústrias-chave e gastos públicos em educação.6

Em geral, então, utilizo esta expressão para referir aos Estados de Bem-estar Social da OCDE e aos Estados desenvolvimentistas ex-coloniais do período pós-guerra. Afinal das contas, foi nestes países que a segunda onda do feminismo primeiramente irrompeu no início da década de 1970. Para explicar o que exatamente provocou a explosão, deixe-me observar quatro características definidoras da cultura política do capitalismo organizado pelo Estado:

Economicismo. Por definição, o capitalismo organizado pelo Estado envolveu o uso do poder político público para regular (e em alguns casos, substituir) os mercados econômicos. Esta foi em grande parte uma questão de gestão da crise no interesse do capital. Todavia, os Estados em questão derivaram muito de sua legitimidade política de suas pretensões em promover inclusão, igualdade social e solidariedade entre classes. No entanto, estes ideais foram interpretados de um modo economicista e classecêntrico. Na cultura política do capitalismo organizado pelo Estado, as questões sociais foram estruturadas principalmente em termos distributivos, como assuntos relativos à distribuição equitativa de bens divisíveis, especialmente renda e empregos, enquanto as divisões sociais foram vistas principalmente pelo prisma de classe. Assim, a injustiça social perfeita era a distribuição econômica injusta, e sua expressão paradigmática era a desigualdade de classes. O efeito deste imaginário classecêntrico e economicista era marginalizar, se não completamente obscurecer, outras dimensões, locais e eixos de injustiça.

Androcentrismo. Seguiu-se que a cultura política do capitalismo organizado pelo Estado visualizava o cidadão de tipo ideal como um trabalhador masculino pertencente à maioria étnica – chefe e homem de família. Foi amplamente suposto, também, que o salário deste trabalhador deveria ser o principal, se não o exclusivo, sustento econômico de sua família, enquanto quaisquer salários ganhos pela sua esposa deveriam ser meramente suplementares. Profundamente marcada pelo gênero, esta construção “salário família” serviu tanto como um ideal social, conotando modernidade e mobilidade ascendente, quanto à base para política estatal em matéria de emprego, bem-estar social e desenvolvimento. Certamente, o ideal iludiu a maioria das famílias, pois o salário de um homem raramente era por si só suficiente para sustentar os filhos e uma esposa sem emprego. E dado como certo também, a indústria fordista para a qual o ideal estava ligado logo seria tolhida por um florescente setor de serviços de baixos-salários. Mas nas décadas de 1950 e 1960, o ideal de salário família serviu ainda para definir normas de gênero e para disciplinar aqueles que as infringiriam, reforçando a autoridade dos homens em assuntos domésticos e canalizando aspirações ao consumo doméstico privatizado. Igualmente importante, por valorizar o trabalho assalariado, a cultura política do capitalismo organizado pelo Estado obscureceu a importância social do trabalho não-assalariado de atenção à família e do trabalho reprodutivo. Institucionalizando compreensões androcêntricas de família e trabalho, naturalizou injustiças de gênero e as removeu da contestação política.

Estatismo. O capitalismo organizado pelo Estado, também foi estatista, difundido com um ethos tecnocrático, gerencial. Confiando em peritos profissionais para planejar políticas, e em organizações burocráticas para implementá-las, os Estados de bem-estar social e desenvolvimentistas trataram aqueles a cujo serviço supostamente estavam mais como clientes, consumidores e contribuintes do que como cidadãos ativos. O resultado foi uma cultura despolitizada, que tratava questões de justiça como assuntos técnicos, que deviam ser solucionados mediante o calculo de experts ou de negociação corporativa. Longe de empoderados (empowered) para interpretar suas necessidades democraticamente, por deliberação política e contestação, os cidadãos comuns foram posicionados (na melhor das hipóteses) como recipientes passivos de satisfações definidas e dispensadas de cima.

Westfalianismo. Finalmente, o capitalismo organizado pelo Estado foi, por definição, uma formação nacional, destinada a mobilizar as capacidades de Estados-nações para apoiar o desenvolvimento econômico nacional em nome – se nem sempre no interesse – da cidadania nacional. Possibilitada pela estrutura regulatória de Bretton Woods, esta formação se baseava em uma divisão de espaço político em unidades territorialmente limitadas. Como resultado, a cultura política do capitalismo organizado pelo Estado institucionalizou a visão “Westfaliana” de que comprometimentos compulsórios da justiça só se aplicam entre concidadãos. Subtendendo a maior parte da luta social na era do pós-guerra, esta visão canalizava reivindicações de justiça nas arenas políticas internas de Estados territoriais. O efeito, apesar do simulacro de apoio para os direitos humanos internacionais e a solidariedade antiimperialista, era truncar o alcance da justiça, marginalizando, se não obscurecendo completamente, as injustiças trans-fronteiriças.7

Em geral, então, a cultura política do capitalismo organizado pelo Estado era economicista, androcêntrica, estatista e Westfaliana – características todas que foram objeto de ataque no final das décadas de 1960 e 1970. Naqueles anos de radicalismo explosivo, as feministas da segunda onda se juntaram às suas companheiras da Nova Esquerda e antiimperialistas desafiando o economicismo, o estatismo, e (em um menor grau) o Westfalianismo do capitalismo organizado pelo Estado, ao mesmo tempo contestando o androcentrismo deste – e com isto, o sexismo de seus camaradas e aliados. Vamos considerar estes pontos um por um.

Segunda onda do feminismo contra o economicismo. Rejeitando a identificação exclusiva de injustiça com má distribuição entre classes, as feministas da segunda onda se uniram a outros movimentos emancipatórios para romper o imaginário restritivo e economicista do capitalismo organizado pelo Estado. Politizando “o pessoal”, elas expandiram o significado de justiça, reinterpretando como injustiças desigualdades sociais que tinham sido negligenciadas, toleradas ou racionalizadas desde tempos imemoráveis. Rejeitando tanto o foco exclusivo do Marxismo na economia política quanto o foco exclusivo do liberalismo na lei, elas desvendaram injustiças localizadas em outros lugares – na família e em tradições culturais, na sociedade civil e na vida cotidiana. Ainda, as feministas da segunda onda ampliaram o número de eixos que poderiam abrigar a injustiça. Rejeitando a primazia das classes, as feministas socialistas, as feministas negras e as feministas antiimperialistas também se opuseram aos esforços de feministas radicais em situar o gênero naquela mesma posição de privilégio categorial. Focando não apenas no gênero, mas também na classe, na raça, na sexualidade e na nacionalidade, elas foram precursoras de uma alternativa “interseccionista” que é amplamente aceita hoje. Finalmente, as feministas da segunda onda ampliaram o campo de ação da justiça para incluir assuntos anteriormente privados como sexualidade, serviço doméstico, reprodução e violência contra mulheres. Fazendo assim, elas ampliaram efetivamente o conceito de injustiça para abranger não apenas as desigualdades econômicas, mas também as hierarquias de status e assimetrias do poder político. Com o benefício da visão retrospectiva, podemos dizer que elas substituíram uma visão de justiça monista, economicista por uma compreensão tridimensional mais ampla, abrangendo economia, cultura e política.

O resultado não foi uma mera lista de questões isoladas. Pelo contrário, o que relacionou a pletora de injustiças recém descobertas era a noção de que a subordinação das mulheres era sistêmica, fundamentada nas estruturas profundas da sociedade. As feministas da segunda onda discutiram, é claro, sobre como melhor caracterizar a totalidade social: se conforme o “patriarcado”, como uma amálgama de “sistemas duais” do capitalismo e patriarcado, como um sistema imperialista mundial, ou, em minha própria visão preferida, como uma forma historicamente específica, a sociedade capitalista organizada pelo Estado de forma androcêntrica, estruturada por três ordens inter-relacionadas de subordinação: (má) distribuição, (falta de) reconhecimento e (falta de) representação. Mas apesar de tais diferenças, a maior parte das feministas da segunda onda – com a exceção notável das feministas liberais – concordou que superar a subordinação das mulheres requeria transformar radicalmente as estruturas profundas da totalidade social. Este compromisso comum para a transformação sistêmica denotava as origens do movimento no mais geral fermento emancipatório dos tempos.

Segunda onda do feminismo contra o androcentrismo. Ainda que a segunda onda do feminismo participasse da atmosfera geral do radicalismo dos anos 1960, mesmo assim permaneceria em uma relação tensa com outros movimentos emancipatórios. Afinal de contas, seu objetivo principal era a injustiça de gênero do capitalismo organizado pelo Estado, o que estava longe de ser uma prioridade para os antiimperialistas não-feministas e os Novos Esquerdistas. Além de intensificar a crítica ao androcentrismo do capitalismo organizado pelo Estado, as feministas da segunda onda tinham também que confrontar o sexismo dentro da Esquerda. Para as feministas liberais e radicais, isto não colocou qualquer problema especial; elas poderiam simplesmente se tornar separatistas e abandonarem a Esquerda. Para as feministas socialistas, as feministas antiimperialistas e as feministas de cor, ao contrário, a dificuldade era confrontar o sexismo dentro da Esquerda e permanecer parte dela.

Durante um tempo, pelo menos, as feministas socialistas tiveram sucesso em manter esse difícil equilíbrio. Elas localizaram a essência do androcentrismo em uma divisão sexista do trabalho que sistematicamente desvalorizava atividades, remuneradas e não remuneradas, que eram executadas por ou associada com mulheres. Aplicando esta análise ao capitalismo organizado pelo Estado, descobriram as conexões profundamente estruturais entre a responsabilidade das mulheres à maior parte dos cuidados não remunerados, a subordinação no matrimônio e na vida pessoal, a segmentação de gênero dos mercados de trabalho, a dominação do sistema político pelos homens, e o androcentrismo da provisão do bem-estar social, a política industrial e os esquemas de desenvolvimento. De fato, elas expuseram o salário familiar como o ponto no qual convergiam a má distribuição de gênero, a falta de reconhecimento e a falta de representação. O resultado foi uma crítica que integrava economia, cultura e política em uma análise sistemática da subordinação das mulheres no capitalismo organizado pelo Estado. Longe de ter como objetivo simplesmente promover a incorporação completa das mulheres como assalariadas na sociedade capitalista, as feministas da segunda onda buscavam transformar as estruturas profundas do sistema e os valores que o estimulam – em parte descentralizando o trabalho assalariado e valorizando as atividades não assalariadas, especialmente o trabalho de assistência socialmente necessário executado por mulheres.

Segunda onda do feminismo contra o estatismo. Mas as objeções das feministas ao capitalismo organizado pelo Estado se referiam tanto ao processo quanto ao conteúdo. Como os seus aliados da Nova Esquerda, elas rejeitaram o ethos burocrático-gerencial do capitalismo organizado pelo Estado. À crítica da organização fordista amplamente difundida nos anos de 1960, elas acrescentaram uma análise de gênero, interpretando que a cultura de instituições de larga escala e hierarquizadas expressava a masculinidade modernizada do estrato profissional-gerencial do capitalismo organizado pelo Estado. Desenvolvendo um contra-ethos horizontal de conexão fraternal, as feministas da segunda onda criaram uma prática organizacional completamente nova de aumento da conscientização. Buscando um caminho para cobrir a profunda divisão estatista entre teoria e prática, elas se intitularam como um movimento contracultural democratizante – anti-hierárquico participativo e popular. Em uma época em que o acrônimo “ONG” ainda não existia, acadêmicas feministas, advogadas e assistentes sociais se identificaram mais com as bases do que com o ethos profissional reinante de especialistas despolitizados.

Mas, diferentemente de algumas das suas companheiras de contracultura, a maioria das feministas não rejeitou as instituições estatais simpliciter. Buscando, pelo contrário, infundir nestas instituições valores feministas, elas vislumbraram um Estado democrático e participativo que empoderasse a seus cidadãos. Re-imaginando efetivamente a relação entre Estado e sociedade, elas buscaram transformar aqueles objetos vistos como passivos da política desenvolvimentista e de bem-estar social em sujeitos ativos, empoderandos-os para participarem em processos democráticos de interpretação da necessidade. O objetivo, portanto, era menos desmontar as instituições estatais do que transformá-las em agências que promoveriam, e de fato expressariam, justiça de gênero.

Segunda onda do feminismo contra e a favor do Westfalianismo. Mais ambivalente, talvez, tenha sido a relação do feminismo com a dimensão Westfaliana do capitalismo organizado pelo Estado. Dadas suas origens na agitação global da época contra a Guerra do Vietnã, o movimento estava claramente disposto a ser sensível a injustiças trans-fronteiriças. Este era o caso especialmente das feministas no mundo em desenvolvimento, cuja crítica de gênero foi entrelaçada com uma crítica ao imperialismo. Mas lá, como em outro lugar, a maioria das feministas viu os seus respectivos Estados como os principais destinatários de suas exigências. Assim, as feministas da segunda onda tendiam a re-escrever a estrutura Westfaliana ao nível da prática, até mesmo quando elas a criticavam em nível teórico. Aquela estrutura, que dividiu o mundo em políticas territoriais delimitadas, permanecia como a opção padrão em uma época em que os Estados ainda pareciam possuir as capacidades necessárias para a direção social e na qual a tecnologia que permite a formação de redes transnacionais em tempo real ainda não estava disponível. No contexto do capitalismo organizado pelo Estado, então, o slogan “a irmandade é global” (ele mesmo já contestado como imperialista) funcionou mais como um gesto abstrato do que como um projeto político pós-Westfaliano que poderia ser colocado em prática.

Em geral, a segunda onda do feminismo permaneceu Westfaliana de forma ambivalente, até mesmo porque rejeitava o economicismo, o androcentrismo e o estatismo do capitalismo organizado pelo Estado. Em todas essas questões, entretanto, manifestou consideráveis nuanças. Ao rejeitar o economicismo, as feministas deste período nunca duvidaram da centralidade da justiça distributiva e da crítica da economia política no projeto da emancipação das mulheres. Longe de querer minimizar a dimensão econômica da injustiça de gênero, elas buscaram, pelo contrário, aprofundá-la, esclarecendo-se sua relação com as duas dimensões adicionais de cultura e da política. Da mesma forma, ao rejeitar o androcentrismo do salário familiar, as feministas da segunda onda nunca buscaram simplesmente substituí-lo pela família com dois assalariados. Para elas, superar a injustiça de gênero significava acabar com a desvalorização sistemática de provisão de cuidados e a divisão sexista do trabalho, tanto remunerado quanto não remunerado. Finalmente, ao rejeitar o estatismo do capitalismo organizado pelo Estado, as feministas da segunda onda nunca duvidaram da necessidade de fortes instituições políticas capazes de organizar a vida econômica a serviço da justiça. Longe de querer libertar os mercados do controle do Estado, elas buscavam, pelo contrário, democratizar o poder estatal, maximizar a participação do cidadão, fortalecer a prestação de contas (accountability) e aumentar os fluxos comunicativos entre o Estado e a sociedade.

Em suma, a segunda onda do feminismo aderiu a um projeto político transformador, baseado em um entendimento expandido de injustiça e na crítica sistêmica da sociedade capitalista. As correntes mais avançadas do movimento viram as suas lutas como multidimensionais, voltadas simultaneamente contra a exploração econômica, hierarquia de status e sujeição política. Para elas, ademais, o feminismo surgiu como parte de um projeto emancipatório mais amplo, no qual as lutas contra injustiças de gênero estavam necessariamente ligadas a lutas contra o racismo, o imperialismo, a homofobia e a dominação de classes, todas as quais exigiam uma transformação das estruturas profundas da sociedade capitalista.

O feminismo e o “novo espírito do capitalismo”

Como se constatou mais tarde, aquele projeto permaneceu basicamente fadado ao fracasso desde o início, vítima de forças históricas mais profundas, que não foram bem entendidas na ocasião. Com o benefício da visão retrospectiva, podemos ver agora que o surgimento da segunda onda do feminismo coincidiu com uma mudança histórica no caráter do capitalismo, da variante organizada pelo Estado, que acabou de ser analisada, para o neoliberalismo. Invertendo a fórmula anterior, que buscava “usar a política para domesticar mercados”, os proponentes desta nova forma de capitalismo propuseram usar mercados para domesticar a política. Desmontando elementos-chave da estrutura de Bretton Woods, eles eliminaram os controles de capital que tinham permitido a direção Keynesiana de economias nacionais. No lugar do dirigismo8, eles promoveram a privatização e a desregulamentação; em lugar de provisão pública e cidadania social, “trickle-down”9 e “responsabilização pessoal”; em lugar dos Estados de bem-estar social e desenvolvimentistas, um Estado competitivo enxuto e mesquinho. Testada na América Latina, esta abordagem serviu para guiar muito da transição para o capitalismo na Europa Oriental/Central. Embora publicamente patrocinada por Thatcher e Reagan, era aplicada apenas gradual e desigualmente no Primeiro Mundo. No Terceiro, por contraste, a neoliberalização foi imposta usando a dívida como ameaça, como um programa forçado de “ajuste estrutural” o qual subverteu todos os princípios centrais do “desenvolvimentismo” e compeliu os Estados pós-coloniais a despojar-se de seus ativos, abrirem os seus mercados e cortar gastos sociais.

Curiosamente, a segunda onda do feminismo prosperou nestas novas condições. O que tinha começado como um movimento contracultural radical estava agora a caminho de se tornar um fenômeno social de massa de base ampla. Atraindo partidários de todas as classes, etnias, nacionalidades e ideologias políticas, as ideias feministas penetraram em todos os cantos escondidos da vida social e transformaram a ideia que todos os afetados tinham de si mesmos. O efeito não foi apenas ampliar imensamente as fileiras de ativistas, mas também transformar as visões de senso comum de família, trabalho e dignidade.

Foi mera coincidência que a segunda onda do feminismo e o neoliberalismo prosperaram em conjunto? Ou havia uma afinidade eletiva perversa, subterrânea entre eles? Esta segunda possibilidade pode ser uma heresia, por certo, mas seria perigoso não investigá-la. Certamente, o surgimento do neoliberalismo mudou dramaticamente o terreno no qual a segunda onda do feminismo operava. O efeito, eu discutirei aqui, foi “ressignificar” os ideais feministas.10 As aspirações que tiveram um claro impulso emancipatório no contexto do capitalismo organizado pelo Estado assumiram um significado muito mais ambíguo na era neoliberal. Com os Estados de bem-estar social e desenvolvimentistas sob ataque dos “marqueteiros do livre-mercado” (free-marketeers), as críticas feministas do economicismo, androcentrismo, estatismo e Westfalianismo assumiram uma nova valência. Deixe-me esclarecer esta dinâmica de “ressignificação” contemplando novamente os quatro focos da crítica feminista.

Antieconomicismo feminista ressignificado. A ascensão do neoliberalismo coincidiu com uma maior alteração na cultura política das sociedades capitalistas. Neste período, as reivindicações por justiça foram progressivamente expressadas como reivindicações pelo reconhecimento da identidade e da diferença.11 Com esta mudança “da redistribuição para o reconhecimento” vieram pressões poderosas para transformar a segunda onda do feminismo em uma variante da política de identidade. Uma variante progressista, de fato, mas uma que tendia, contudo, a estender em excesso a crítica da cultura, enquanto subestimava a crítica da economia política. Na prática, a tendência era subordinar as lutas sócio-econômicas a lutas para o reconhecimento, enquanto na academia, a teoria cultural feminista começou a obscurecer a teoria social feminista. O que tinha começado como um corretivo necessário para o economicismo recaiu com o tempo em um culturalismo igualmente unilateral. Assim, em vez de chegar a um paradigma mais amplo, mais rico, que poderia abranger tanto a redistribuição quanto o reconhecimento, as feministas da segunda onda trocaram um paradigma incompleto por outro.

Além disso, o momento não poderia ter sido pior. A volta para o reconhecimento se encaixou muito nitidamente com um neoliberalismo em ascensão que não queria nada mais do que reprimir toda a memória de igualitarismo social. Assim, as feministas tornaram absoluta a crítica da cultura precisamente no momento em que as circunstâncias requeriam atenção redobrada à crítica da economia política. Conforme a crítica se fragmentava, além do mais, a tendência cultural se tornava separada não apenas da tendência econômica, mas também da crítica do capitalismo que as integrara anteriormente. Separada da crítica do capitalismo e disponibilizada para articulações alternativas, estas tendências poderiam ser reduzidas no que Hester Eisenstein chamou de “uma conexão perigosa” com o neoliberalismo (EISENTEIN, 2005).

Antiandrocentrismo feminista ressignificado. Era só uma questão de tempo, portanto, antes que o neoliberalismo ressignificasse a crítica feminista ao androcentrismo. Para explicar como, proponho adaptar um argumento feito por Luc Boltanski e Ève Chiapello (2005). No seu importante livro, The New Spirit of Capitalism (O novo espírito do capitalismo), eles argumentam que o capitalismo se refaz periodicamente em momentos de ruptura histórica, em parte recuperando as tendências de crítica dirigidas contra ele. Em tais momentos, elementos de crítica anticapitalista são ressignificados para legitimar uma forma nova e emergente de capitalismo, que assim se torna dotada da mais alta significação moral necessária para motivar novas gerações a arcar com o trabalho inerentemente sem sentido de acumulação infinita. Para Boltanski e Chiapello, o novo “espírito” que serviu para legitimar o capitalismo neoliberal flexível de nosso tempo foi adaptado da crítica “artística” da Nova Esquerda ao capitalismo organizado pelo Estado, que denunciou o conformismo cinzento da cultura corporativa. Foi no auge de Maio de 68, afirmam, que os teóricos de gestão neoliberais propuseram um novo capitalismo “conexionista”, “de projeto”, no qual as hierarquias organizacionais rígidas dariam lugar a equipes horizontais e a redes flexíveis, liberando, assim, a criatividade individual. O resultado foi uma nova narrativa do capitalismo com efeitos no mundo real – uma narrativa que envolveu os impulsos tecnológicos do Silicon Valley e que hoje acha sua mais pura expressão no ethos do Google.

O argumento de Boltanski e Chiapello é original e profundo. Contudo, ao não enxergar as questões de gênero, ele deixa de compreender o caráter completo do espírito do capitalismo neoliberal. De fato, aquele espírito inclui uma narrativa masculinista do indivíduo livre, desimpedido, auto modelado, que eles descrevem apropriadamente. Mas o capitalismo neoliberal tem tanto a ver com Walmart, maquiladoras e microcrédito quanto com o Silicon Valley e o Google. E seus trabalhadores indispensáveis são desproporcionalmente mulheres, não apenas jovens mulheres solteiras, mas também mulheres casadas e mulheres com filhos; não só as mulheres racializadas, mas virtualmente mulheres de todas as nacionalidades e etnias. Como tais, as mulheres despejaram-se em mercados de trabalho ao redor do globo; o efeito foi cortar na raiz de uma vez por todas o ideal do salário familiar do capitalismo organizado pelo Estado. No capitalismo neoliberal “desorganizado”, este ideal foi substituído pela norma da família de dois assalariados. Não importa que a realidade que subjaz o novo ideal sejam os níveis salariais decrescidos, diminuição da segurança no emprego, padrões de vida em declínio, um aumento abrupto no número de horas trabalhadas em troca de salários por família, exacerbação do turno dobrado – agora frequentemente um turno triplo ou quádruplo – e um aumento de lares chefiados por mulheres. O capitalismo desorganizado vende gato por lebre12 ao elaborar uma nova narrativa do avanço feminino e de justiça de gênero.

Por mais inquietante que possa parecer, estou sugerindo que a segunda onda do feminismo tem involuntariamente fornecido um ingrediente-chave do novo espírito do neoliberalismo.

Nossa crítica do salário familiar agora fornece uma boa parte da narrativa que reveste o capitalismo flexível de um significado mais elevado e de um argumento moral. Dotando as suas lutas diárias de um significado ético, a narrativa feminista atrai as mulheres nos dois extremos do espectro social: em um extremo, os quadros femininos das classes médias profissionais, determinadas a rachar o teto de vidro; no outro extremo, as trabalhadoras temporárias, de trabalho parcial, prestadoras de serviço de baixa remuneração, domésticas, trabalhadoras do sexo, migrantes, trabalhadores de Zonas de Processamento de Exportação (EPZ)13 e aquelas que utilizam microcrédito, buscando não apenas renda e segurança material, mas também dignidade, auto-aperfeiçoamento e liberação em relação à autoridade tradicional. Nos dois extremos, o sonho de emancipação das mulheres está subordinado à máquina de acúmulo capitalista. Assim, a crítica da segunda onda do feminismo ao salário familiar desfrutou de uma continuação perversa. Se foi, em um tempo, peça central de uma análise radical do androcentrismo do capitalismo, serve hoje para intensificar a valorização do trabalho assalariado do capitalismo.

Antiestatismo feminista ressignificado. O neoliberalismo também ressignificou o antiestatismo do período anterior, tornando-o útil para os esquemas destinados a reduzir a ação estatal tout court. No novo clima, parecia haver um pequeno passo entre a crítica ao paternalismo do Estado de Bem-estar Social da segunda onda do feminismo para a crítica de Thatcher ao Estado protecionista. Certamente, esta foi a experiência nos Estados Unidos, onde as feministas assistiam impotentes como Bill Clinton triangulava as críticas sutis que elas faziam a um sistema de assistência sexista, estigmatizante e precário em um plano para “terminar o bem-estar social como o conhecemos” que aboliu o direito federal a um subsídio para a renda. Nas pós-colônias, enquanto isso, a crítica ao androcentrismo do Estado desenvolvimentista se transformou em entusiasmo pelas ONGs, que emergiram em todos os lugares para preencher os vazios deixados pelos Estados cada vez mais encolhidos. Certamente, as melhores destas organizações forneceram a populações destituídas de serviços públicos a ajuda material que com urgência necessitavam. Contudo, o efeito era frequentemente despolitizar os grupos locais e distorcer suas agendas em direções favorecidas pelos financiadores do Primeiro-Mundo. Pela sua própria natureza de preencher lacunas, além do mais, a ação das ONGs fez pouco para desafiar a maré em retrocesso da provisão pública ou para construir apoio político para a ação estatal reativa (ALVAREZ, 1999; BARTON, 2004).

A explosão do microcrédito ilustra o dilema. Contrapropondo os valores feministas de empoderamento e participação desde baixo à burocracia indutora de passividade do estatismo hierárquico, os arquitetos destes projetos fizeram uma síntese inovadora de auto-ajuda individual e formação de redes comunitárias, a supervisão por parte das ONGs e os mecanismos de mercado: tudo isso com o objetivo de combater a pobreza das mulheres e a sujeição de gênero. Os resultados até aqui incluem um registro impressionante de devoluções de empréstimo e evidências anedóticas de vidas transformadas. Porém, o que tem sido ocultado no alvoroço feminista que cerca estes projetos é uma coincidência perturbadora: o microcrédito se desenvolveu exatamente quando os Estados abandonaram os esforços macroestruturais para combater a pobreza, esforços que os empréstimos em pequena escala podem sequer substituir (NARAYAN, 2005; EISENSTEIN, 2005). Neste caso também, a crítica feminista do paternalismo burocrático foi recuperada pelo neoliberalismo. A perspectiva que visava originalmente transformar o poder estatal em um veículo de empoderamento dos cidadãos e da justiça social é agora usada para legitimar a mercantilização e a redução de despesas do Estado.

Feministas contra e a favor do Westfalianismo ressignificado. Finalmente, o neoliberalismo alterou para melhor e para pior a relação ambivalente da segunda onda do feminismo para com a estrutura Westfaliana. No novo contexto de “globalização”, já não mais se diz que o Estado territorial delimitado é o único receptáculo legítimo das obrigações de justiça e das lutas a favor desta. As feministas se uniram aos ambientalistas, aos ativistas de direitos humanos e aos críticos da Organização Mundial de Comércio (OMC) para desafiar essa visão. Mobilizando as intuições pós-Westfalianas que tinham permanecido impraticáveis no capitalismo organizado pelo Estado, elas visavam atingir as injustiças trans-fronteiriças que tinham sido marginalizadas ou negligenciadas na época anterior. Utilizando novas tecnologias de comunicação para estabelecer redes transnacionais, as feministas foram precursoras em estratégias inovadoras tais como o “efeito bumerangue”, que mobiliza a opinião pública global dirigindo a atenção para abusos locais e para envergonhar os Estados que fecham os olhos para eles (KECK & SIKKINK, 1998). O resultado foi uma nova forma promissora de ativismo feminista: transnacional, de múltipla escala, pós-Westfaliana.

No entanto, a virada transnacional trouxe dificuldades também. Frequentemente impedidas no plano estatal, muitas feministas direcionaram suas energias para a arena “internacional”, especialmente para uma sucessão de conferências relacionadas com as Nações Unidas, de Nairóbi a Viena até Pequim e assim por diante. Fazendo-se presentes na “sociedade civil global” em que pudessem empreender novos regimes de governança global, elas foram envolvidas em alguns dos problemas que já mencionei. Por exemplo, campanhas para os direitos humanos das mulheres que focalizaram esmagadoramente as questões da violência e da reprodução, subjugaram as questões relacionadas à pobreza. Ratificando a divisão própria da Guerra Fria entre direitos civis e políticos, por um lado, e direitos sociais e econômicos, por outro, estes esforços, também, privilegiaram o reconhecimento sobre a redistribuição. Além disso, estas campanhas intensificaram a “onguização” da política feminista, alargando o vazio entre os profissionais e os grupos locais, enquanto davam voz desproporcional para as elites que falam a língua Inglesa. Dinâmicas análogas têm operado na participação feminista com o aparato político da União Europeia – especialmente dada a ausência de movimentos de mulheres genuinamente transnacionais em toda a Europa. Assim, a crítica feminista do Westfalianismo se mostrou ambivalente na era do neoliberalismo. O que começou como uma tentativa saudável para ampliar o escopo de justiça além do Estado-nação acabou se encaixando em certos aspectos com as necessidades administrativas de uma nova forma de capitEm geral, então, o destino do feminismo na era neoliberal apresenta um paradoxo. Por um lado, o movimento contracultural relativamente pequeno do período anterior se expandiu exponencialmente, disseminando com sucesso suas ideias pelo mundo. Por outro lado, as ideias feministas se submeteram a uma mudança sutil de validade no contexto alterado. Claramente emancipatórias no período do capitalismo organizado pelo Estado, as críticas ao economicismo, ao androcentrismo, ao estatismo e ao Westfalianismo agora aparecem cheia de ambiguidades, suscetíveis a servir as necessidades de legitimação de uma nova forma de capitalismo. Afinal de contas, este capitalismo preferiria confrontar mais as reivindicações para o reconhecimento e não as reivindicações para a redistribuição, na medida em que constrói um novo regime de acumulação sobre a pedra angular do trabalho assalariado das mulheres, e busca separar os mercados de uma regulamentação social a fim de operar ainda mais livremente em uma escala global.

Um futuro em aberto?

Hoje, entretanto, este capitalismo está ele próprio em uma encruzilhada crítica. Certamente, a crise financeira global e a resposta decididamente pós-neoliberal por parte dos principais Estados – todos keynesianos agora – marcam o começo do fim do neoliberalismo como um regime econômico. A eleição de Barack Obama pode sinalizar o repúdio decisivo, inclusive “nas entranhas do monstro”, do neoliberalismo como um projeto político. Podemos estar vendo as primeiras agitações de uma nova onda de mobilização destinada a articular uma alternativa. Talvez, consequentemente, nós estejamos à beira de outra “grande transformação”, tão volumosa e profunda quanto a que há pouco descrevi.

Nesse caso, então, a forma da sociedade sucessora será objeto de intensa contestação no próximo período. E o feminismo destacar-se-á com importância em tal contestação, em dois níveis diferentes: o primeiro, como movimento social cujas propriedades eu delineei aqui, que procurará garantir que o regime sucessor institucionalize um compromisso em relação à justiça de gênero. Mas também, em segundo lugar, como uma construção discursiva geral que as feministas no primeiro sentido não possuem mais e já não controlam – um significante vazio do bem (semelhante, talvez, à “democracia”) que pode e será invocada para legitimar uma variedade de diferentes cenários, nem todos os quais promotores de justiça de gênero. Fruto do feminismo no primeiro sentido, o de movimento social, este segundo sentido discursivo do “feminismo” se tornou traiçoeiro. Como o discurso se torna independente do movimento, ele é progressivamente confrontado com uma estranha versão sombria de si mesma, um cópia sinistra que nem se pode simplesmente abraçar, nem negar completamente.14

Neste artigo, tracei a dança desconcertante destes dois feminismos na mudança do capitalismo organizado pelo Estado para o neoliberalismo. O que devemos concluir disto? Certamente, não que a segunda onda do feminismo fracassou simpliciter, nem que se deve culpar pelo triunfo do neoliberalismo. Certamente, não se trata de os ideais feministas serem inerentemente problemáticos; nem que eles sempre já estejam condenados a ser ressignificados para os propósitos capitalistas. Concluo, pelo contrário, que nós, para quem o feminismo é acima de tudo um movimento para a justiça de gênero, precisamos ampliar nossa consciência histórica na medida em que operamos em um terreno que também está povoado pela nossa estranha cópia.

Para este fim, permitam-nos voltar à pergunta: o que explica, se é que se pode explicar, nosso “vínculo perigoso” com o neoliberalismo? Somos as vítimas de uma coincidência infeliz, e aconteceu de estarmos no lugar errado no momento errado e assim caímos como presas do mais sedutor dos oportunistas, um capitalismo tão indiscriminado que instrumentalizaria qualquer perspectiva que seja até mesmo uma inerentemente estranha a ele? Ou, como sugeri anteriormente, há alguma afinidade eletiva e subterrânea entre o feminismo e o neoliberalismo?

Se tal afinidade existe de fato, ela se encontra na crítica da autoridade tradicional.15 Tal autoridade é um alvo do ativismo feminista existente há muito tempo, que buscou, pelo menos desde Mary Wollstonecraft, emancipar as mulheres da sujeição personalizada aos homens, sejam eles os pais, irmãos, padres, anciões ou maridos. Mas a autoridade tradicional também aparece em alguns períodos como um obstáculo à expansão capitalista, parte do conteúdo social circundante em que os mercados historicamente foram incorporados e que serviu para delimitar a racionalidade econômica dentro de uma esfera limitada.16 No momento atual, estas duas críticas à autoridade tradicional, a feminista e a outra neoliberal, parecem convergir.

Onde o feminismo e neoliberalismo divergem, em contraste, é sobre as formas pós-tradicionais de subordinação de gênero – coações na vida das mulheres que não adotam a forma de sujeição personalizada, mas surgem de processos estruturais ou sistêmicos nos quais as ações de muitas pessoas são mediadas de forma abstrata ou impessoal. Um caso paradigmático é o que Susan Okin caracterizou como “um ciclo de vulnerabilidade claramente assimétrica e socialmente provocada pelo casamento”. Em que a responsabilidade tradicional das mulheres para o processo de criar e educar os filhos ajuda a moldar os mercados de trabalho que as desfavorecem, resultando em poder desigual no mercado econômico, o que, por sua vez, reforça e exacerba o poder desigual na família. (OKIN, 1989, p. 138). Tais processos de subordinação mediados pelo mercado são a própria essência do capitalismo neoliberal. Hoje, consequentemente, eles devem se tornar no foco principal da crítica feminista, conforme buscamos nos distinguir do neoliberalismo e evitar a ressignificação feita por ele. O objetivo, certamente, não é largar a luta contra a autoridade masculina tradicional, a qual permanece um momento necessário da crítica feminista. É, pelo contrário, romper a passagem fácil de tal crítica para seu duplo neoliberal – sobretudo reconectando as lutas contra a sujeição personalizada à crítica a um sistema capitalista, o qual, ainda que prometa liberação, de fato substitui um modo de dominação por outro. Na esperança de adiantar esta agenda, gostaria de concluir revisitando uma última vez meus quatro focos da crítica feminista.

Antieconomicismo pós-neoliberal. O possível abandono do neoliberalismo oferece a oportunidade de reativar a promessa emancipatória da segunda onda do feminismo. Adotando uma análise plenamente tridimensional de injustiça, poderíamos agora integrar de um modo mais equilibrado as dimensões de redistribuição, reconhecimento e representação que se fragmentaram no período anterior. Fundamentando esses aspectos indispensáveis da crítica feminista em um sentido robusto e atualizado da totalidade social, devemos reconectar a crítica feminista à crítica do capitalismo – e assim re-posicionar o feminismo diretamente na Esquerda.

Antiandrocentrismo pós-neoliberal. Da mesma forma, a possível mudança para uma sociedade pós-neoliberal oferece a chance de romper a ligação espúria entre nossa crítica do salário familiar e o capitalismo flexível. Reivindicando nossa crítica ao androcentrismo, as feministas poderiam militar por uma forma de vida que descentralize o trabalho assalariado e valorize as atividades desmercantilizadas, como o trabalho de cuidar. Agora executadas amplamente por mulheres, tais atividades devem se tornar componentes valiosos de uma vida boa para todos.

Antiestatismo pós-neoliberal. A crise do neoliberalismo também oferece a chance de romper a ligação entre nossa crítica ao estatismo e à mercadorização. Reivindicando o manto da democracia participativa, as feministas poderiam agora militar por uma nova organização de poder político, que subordine o gerencialismo burocrático pelo aumento do poder dos cidadãos. Porém, o objetivo não é dissipar, mas fortalecer o poder público. Assim, a democracia participativa que buscamos hoje é uma que usa a política para domesticar os mercados e guiar a sociedade no interesse da justiça.

Anti Westfalianismo pós-neoliberal. Finalmente, a crise do neoliberalismo oferece a chance de solucionar, de um modo produtivo, nossa ambivalência há muito existente sobre a estrutura Westfaliana. Dado o alcance transnacional do capital, as capacidades públicas necessárias hoje não podem ser alojadas exclusivamente no Estado territorial. Aqui, consequentemente, a tarefa é romper a identificação exclusiva da democracia com a comunidade política delimitada. Juntando outras forças progressistas, as feministas poderiam militar por uma nova ordem política pós-Westfaliana – uma ordem escalar múltipla que é democrática em todos os níveis. Combinando subsidiariedade com participação, a nova constelação de poderes democráticos deve ser capaz de retificar as injustiças em todas as dimensões, ao longo de todos os eixos e em todas as escalas, incluindo injustiças trans-fronteiriças. Estou sugerindo, então, que este é um momento em que as feministas devem pensar grande. Tendo observado como o violento ataque neoliberal instrumentalizou nossas melhores ideias, temos uma abertura agora para reivindicá-las. Agarrando este momento, poderíamos simplesmente dobrar o arco da transformação iminente na direção da justiça – e não apenas no que diz respeito a gênero.

Notas:

[1] Versão original publicada na New Left Review, n. 56, março-abril de 2009, sob o título “Feminism, capitalism and the cunning of history”. A Comissão Editorial da revista Mediações agradece aos editores e à autora por autorizarem esta publicação. Traduzido do inglês por Anselmo da Costa Filho e Sávio Cavalcante. Revisão de Renata Gonçalves.

[2] Professora do Departamento de Filosofia e Política da New School for Social Research, Nova Iorque. End. eletrônico: frasern@earthlink.net

[3] Este ensaio origina-se da conferência principal apresentada no Colóquio de Cartona sobre “Gênero e Cidadania: novos e velhos dilemas, entre a igualdade e a diferença”, realizado em novembro de 2008. Pelos comentários prestimosos, agradeço aos participantes de Cortona, especialmente Bianca Beccalli, Jane Mansbridge, Ruth Milkman e Eli Zaretsky, e aos participantes em um seminário na EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales) no Groupe de sociologie politique et morale, especialmente Luc Boltanski, Estelle Ferrarese, Sandra Laugier, Patricia Paperman e Laurent Thévenot.

[4] Para uma discussão nestes termos, ver Pollock (1982).

[5] N. T. Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

[6] Então, também, a vida econômica no bloco comunista foi notoriamente organizada pelo Estado, e há aqueles que ainda insistiriam em chamá-la de capitalismo organizado pelo estado. Embora possa haver alguma verdade nesta visão, seguirei o caminho mais convencional de excluir a região deste primeiro momento do meu estudo, em parte porque até 1989 não emergiu a segunda onda do feminismo como uma força política no que foi até então países ex-comunistas.

[7] Para uma análise mais ampla do “imaginário político Westfaliano”, ver Fraser (2005).

[8] N. T. Dirigisme, no original em francês, que indica o controle forte da economia e outros setores pelos governos.

[9] N. T. Teoria trickle-down em economia (algo como “economia em cascata”) é aquela em que se supõe que os ganhos e as rendas obtidos pelos mais ricos acabam por “escorrer” para toda a base da pirâmide social, por isso, o corte de taxas e impostos e aumento de benefícios aos negócios contribuem para aumentar os ganhos de toda a população.

[10] Tomo emprestado o termo “ressignificação” de Butler (1994). Para esta mudança na gramática de reivindicações políticas, ver Fraser (1995).

[12] N. T. No original, “turns a sow’s ear into a silk purse”, literalmente, “tenta fazer com que uma orelha de porco vire uma bolsa de seda”. A expressão “tentar tirar leite de pedra” também seria um equivalente possível em português, pois a forma original comporta o sentido de impossibilidade de se fazer algo. Contudo, adotamos “vender gato por lebre” para dar conta do sentido do argumento exposto no parágrafo, e ao longo do texto, segundo o qual o novo espírito do capitalismo apresenta um projeto de aumento de autonomia e liberdade, mas assim o faz em um contexto de degradação das condições de trabalho, principalmente para as mulheres. Assim, optamos pelo sentido, também presente na expressão original, de que “se pretende fazer algo bom a partir de algo de baixa qualidade”.

[13] N. T. Como as trabalhadoras das maquiladoras mexicanas.

[14] Esta fórmula de “feminismo e suas cópias” poderia ser elaborada em bom termo a respeito da eleição Presidencial Americana de 2008, onde as sinistras cópias incluíam tanto Hillary Clinton como Sarah Palin.

[15] Devo este ponto a Eli Zaretsky (comunicação pessoal). Cf. Eisenstein (2005).

[16] Em alguns períodos, mas nem sempre. Em muitos contextos, o capitalismo está mais inclinado a se adaptar do que a desafiar autoridade tradicional. Sobre a criação dos mercados, veja Polanyi (2001).

Referências

ALVAREZ, Sônia. Advocating feminism: the Latin American Feminist NGO “Boom”. International Feminist Journal of Politics, Santa Cruz, vol. 1, n. 2, 1999.

BARTON, Carol. Global women’s movements at a crossroads. Socialism and Democracy, Nova Iorque, vol. 18, n. 1, 2004.

BOLTANSKI, Luc & CHIAPELLO, Ève. The new spirit of capitalism. Londres, Nova Iorque: Verso, 2005 [O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009].

BUTLER, Judith. Continget Fundations. In: BENHABIB, Seyla et alii. Feminist contentios: a philosophical exchange. Londres: Routledge, 1994. [Fundamentos Contingentes: o feminismo e a questão do “pós-modernismo”. Cadernos Pagu, Campinas, n. 11, 1998].

EISENSTEIN, Hester. A dangerous liaison? Feminism and corporate globalization. Science and Society, Nova Iorque, vol. 69, n. 3, 2005.

FRASER, Nancy. Reframming justice in a globalization world. New Left Review, Londres, n. 36, nov.-dez. 2005.

_______. From Redistribution to recognition? Dilemmas of justice in a “post-socialist” age. New Left Review, Londres, n. I/212, jul.-ago. 1995. [Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas na justiça na era pós-socialista. In: SOUZA, Jessé (org.). Democracia hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora da UnB, 2001].

KECK, Margaret & SIKKINK, Kathryn. Activists beyond borders: advocacy networks in International Politics. Ithaca, Nova Iorque: Cornell University, 1998.

OKIN, Susan. Justice, gender and the family. Nova Iorque: Basic Books, 1989.

POLLOCK, Friedrich. State Capitalism: its possibilities and limitations. In: ARATO, Andrew & GEBHARDT, Eike (eds.). The essential Frankfurt School reader. Nova Iorque: Countinuum, 1982, p. 71–94.

NARAYAN, Uma. Informal sector work, microcredit and third world women’s “empowerment”: a critical perspective’. Paper apresentado no XXII World Congress of Philosophy of Law and Social Philosophy, Granada, maio, 2005.

POLANYI, Karl. The great transformation: the political and economic origins of our time. Boston: Beacon, 2001. [A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980.]

26 de março de 2009

O lobby vacila: Charles Freeman fala abertamente

Muitas pessoas em Washington ficaram surpresas quando o governo Obama escolheu Charles Freeman para presidir o National Intelligence Council, o órgão que supervisiona a produção do National ...

John J. Mearsheimer

London Review of Books

Vol. 31 No. 6 · 26 March 2009

Muitas pessoas em Washington ficaram surpresas quando o governo Obama escolheu Charles Freeman para presidir o National Intelligence Council, o órgão que supervisiona a produção das National Intelligence Estimates: Freeman teve uma distinta carreira de 30 anos como diplomata e funcionário do Departamento de Defesa, mas criticou publicamente a política israelense e o relacionamento especial dos Estados Unidos com Israel, dizendo, por exemplo, em um discurso em 2005, que "enquanto os Estados Unidos continuarem a fornecer incondicionalmente os subsídios e a proteção política que tornam possível a ocupação israelense e as políticas autoritárias e autodestrutivas que ela engendra, há pouca, se houver, razão para esperar que algo parecido com o antigo processo de paz possa ser ressuscitado". Palavras como essas raramente são ditas em público em Washington, e qualquer um que as use quase certamente não obterá uma posição governamental de alto nível. Mas o almirante Dennis Blair, o novo diretor de inteligência nacional, admira muito Freeman: exatamente o tipo de pessoa, ele pensou, para revitalizar a comunidade de inteligência, que havia sido muito politizada nos anos Bush.

Previsivelmente alarmado, o lobby israelense lançou uma campanha de difamação contra Freeman, esperando que ele renunciasse ou fosse demitido por Obama. A salva de abertura veio em uma postagem de blog de Steven Rosen, um ex-funcionário do Aipac, o Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense, agora sob indiciamento por passar segredos para Israel. As visões de Freeman sobre o Oriente Médio, ele disse, "são o que você esperaria do Ministério das Relações Exteriores saudita, com o qual ele mantém um relacionamento extremamente próximo". Jornalistas pró-Israel proeminentes, como Jonathan Chait e Martin Peretz da New Republic, e Jeffrey Goldberg da Atlantic, rapidamente se juntaram à briga e Freeman foi bombardeado em publicações que consistentemente defendem Israel, como a National Review, o Wall Street Journal e o Weekly Standard.

O verdadeiro calor, no entanto, veio do Congresso, onde o Aipac (que se descreve como "Lobby pró-Israel da América") exerce enorme poder. Todos os membros republicanos do Comitê de Inteligência do Senado se manifestaram contra Freeman, assim como os principais democratas do Senado, como Joseph Lieberman e Charles Schumer. "Eu repetidamente pedi à Casa Branca que o rejeitasse", disse Schumer, "e estou feliz que eles fizeram a coisa certa". Foi a mesma história na Câmara, onde a acusação foi liderada pelo republicano Mark Kirk e pelo democrata Steve Israel, que pressionaram Blair a iniciar uma investigação formal das finanças de Freeman. No final, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, declarou que a nomeação de Freeman "além do aceitável". Freeman poderia ter sobrevivido a esse ataque se a Casa Branca o tivesse apoiado. Mas a bajulação de Barack Obama ao lobby de Israel durante a campanha e seu silêncio durante a Guerra de Gaza mostram que este é um oponente que ele não está disposto a desafiar. Fiel à sua forma, ele permaneceu em silêncio e Freeman teve pouca escolha a não ser se retirar.

Desde então, o lobby fez grandes esforços para negar seu papel na renúncia de Freeman. O porta-voz da Aipac, Josh Block, disse que sua organização "não tomou posição sobre esse assunto e não fez lobby no Congresso sobre isso". O Washington Post, cuja página editorial é administrada por Fred Hiatt, um homem firmemente comprometido com o relacionamento especial, publicou um editorial que afirmava que culpar o lobby pela renúncia de Freeman era algo inventado pelo "Sr. Freeman e teóricos da conspiração com ideias semelhantes".

Na verdade, há evidências abundantes de que a Aipac e outros apoiadores linha-dura de Israel estavam profundamente envolvidos na campanha. Block admitiu que havia falado com repórteres e blogueiros sobre Freeman e fornecido informações a eles, sempre no entendimento de que seus comentários não seriam atribuídos a ele ou à Aipac. Jonathan Chait, que negou que Israel estivesse na raiz da controvérsia antes de Freeman ser derrubado, escreveu depois: "É claro que reconheço que o lobby israelense é poderoso e foi um elemento-chave na resistência contra Freeman, e que nem sempre é uma força para o bem". Daniel Pipes, que dirige o Middle East Forum, onde Steven Rosen agora trabalha, rapidamente enviou um boletim informativo por e-mail se gabando do papel de Rosen na derrubada de Freeman.

Em 12 de março, o dia em que o Washington Post publicou seu editorial contra qualquer um que sugerisse que o lobby israelense havia ajudado a derrubar Freeman, o jornal também publicou uma matéria de primeira página descrevendo o papel central que o lobby havia desempenhado no caso. Houve também um artigo de opinião do veterano jornalista David Broder, que começou com as palavras: "O governo Obama acaba de sofrer uma derrota embaraçosa nas mãos dos lobistas que o presidente prometeu manter em seus lugares".

Os críticos de Freeman sustentam que suas opiniões sobre Israel não eram seu único problema. Dizem que ele tem laços especialmente próximos — talvez até impróprios — com a Arábia Saudita, onde serviu anteriormente como embaixador americano. A acusação não pegou, no entanto, porque não há evidências para isso. Os apoiadores de Israel também disseram que ele fez comentários insensíveis sobre o que aconteceu com os manifestantes chineses na Praça da Paz Celestial, mas essa acusação, que seus defensores contestam, só surgiu porque os críticos pró-Israel de Freeman estavam procurando qualquer argumento que pudessem reunir para prejudicar sua reputação.

Por que o lobby se importa tanto com uma nomeação para uma posição importante, mas não de liderança? Aqui está um motivo: Freeman teria sido responsável pela produção das Estimativas Nacionais de Inteligência. Israel e seus apoiadores americanos ficaram indignados quando o Conselho Nacional de Inteligência concluiu em novembro de 2007 que o Irã não estava construindo armas nucleares, e eles têm trabalhado assiduamente para minar esse relatório desde então. O lobby quer ter certeza de que a próxima estimativa das capacidades nucleares do Irã chegue à conclusão oposta, e isso teria sido muito menos provável de acontecer com Freeman no comando. Melhor ter alguém examinado pela Aipac comandando o show.

Um motivo ainda mais importante para o lobby tirar Freeman de seu trabalho é a fraqueza do caso para a política atual dos Estados Unidos em relação a Israel, o que torna imperativo silenciar ou marginalizar qualquer um que critique o relacionamento especial. Se Freeman não tivesse sido punido, outros veriam que alguém poderia falar criticamente sobre Israel e ainda ter uma carreira de sucesso em Washington. E uma vez que você tenha uma discussão aberta e livre sobre Israel, o relacionamento especial estará em sérios apuros.

Um dos aspectos mais notáveis ​​do caso Freeman foi que a grande mídia deu pouca atenção a ele — o New York Times, por exemplo, não publicou uma única história sobre Freeman até o dia seguinte à sua renúncia — enquanto uma batalha feroz sobre a nomeação ocorreu na blogosfera. Os oponentes de Freeman usaram a internet a seu favor; foi aí que Rosen lançou a campanha. Mas algo aconteceu lá que nunca teria acontecido na grande mídia: o lobby enfrentou oposição real. De fato, uma série vigorosa, bem informada e altamente respeitada de blogueiros defendeu Freeman a cada momento e provavelmente teria vencido se o Congresso não tivesse inclinado a balança contra eles. Em suma, a internet permitiu um debate sério nos Estados Unidos sobre uma questão envolvendo Israel. O lobby nunca teve muita dificuldade em manter o New York Times e o Washington Post na linha, mas tem poucas maneiras de silenciar os críticos na internet.

Quando forças pró-Israel entraram em choque com uma figura política importante no passado, essa pessoa geralmente recuava. Jimmy Carter, que foi difamado pelo lobby depois de publicar Palestina: Paz, Não Apartheid, foi o primeiro americano proeminente a se manter firme e revidar. O lobby não conseguiu silenciá-lo, e não foi por falta de tentativa. Freeman está seguindo os passos de Carter, mas com cotoveladas mais afiadas. Depois de renunciar, ele emitiu uma denúncia contundente de "pessoas inescrupulosas com um apego apaixonado às visões de uma facção política em um país estrangeiro", cujo objetivo é "impedir que qualquer visão diferente da sua seja transmitida". "Há", ele continuou, "uma ironia especial em ter sido acusado de consideração imprópria pelas opiniões de governos e sociedades estrangeiras por um grupo tão claramente decidido a impor a adesão às políticas de um governo estrangeiro".

A declaração notável de Freeman foi divulgada em todo o mundo e lida por inúmeras pessoas. Isso não é bom para o lobby, que teria preferido matar a nomeação de Freeman sem deixar nenhuma impressão digital. Mas Freeman continuará a falar sobre Israel e o lobby, e talvez alguns de seus aliados naturais dentro do Beltway eventualmente se juntem a ele. Lentamente, mas firmemente, o espaço está sendo aberto nos Estados Unidos para falar honestamente sobre Israel.

13 de março de 2009

Uma esquerda invertebrada

Perry Anderson sobre a herança desperdiçada da Itália

Perry Anderson



A esquerda italiana foi em tempos o maior e mais impressionante movimento popular para a mudança social na Europa Ocidental. Compreendendo dois partidos de massas, cada um com a sua própria história e cultura e cada um comprometido não em melhorar mas em superar o capitalismo, a aliança do pós guerra entre Socialistas e Comunistas, PSI e PCI, não sobreviveu ao crescimento explosivo dos anos 50. Em 1963, Pietro Nenni levou os Socialistas para o governo pela primeira vez como associados juniores dos Democratas Cristãos, por um caminho que levaria por fim a Bettino Craxi, deixando o Comunismo italiano no comando indisputado da oposição ao regime Democrata Cristão. Desde o início o PCI tinha sido organizativa e ideologicamente o mais forte dos dois, com uma mais ampla base de massas – mais de dois milhões de membros em meados dos anos 50 – indo de camponeses no Sul, a artesãos e professores no meio do país, a trabalhadores industriais no Norte. Tinha também uma herança intelectual mais rica, nos Cadernos da Prisão de Gramsci recentemente publicados, cujo significado foi imediatamente reconhecido bem para além do partido. No seu auge, o PCI pôde atrair uma extraordinária variedade de energias sociais e morais, combinando raízes populares mais profundas e uma influência intelectual mais ampla do que qualquer outra força no país.

Confinado pela Guerra Fria a quarenta anos de oposição nacional, o partido entrincheirou se em administrações regionais locais e mais tarde em regionais e nas comissões parlamentares pelas quais a legislação italiana tem de passar, entrelaçando-se com a ordem dominante em muitos níveis secundários. Mas a sua estratégia subjacente permaneceu mais ou menos estável até ao fim. Depois de 1948 os despojos da Libertação foram divididos. O poder caiu para a DC; a cultura para o PCI. A Democracia Cristã controlou as alavancas do estado, o Comunismo atraiu os talentos da sociedade civil. A capacidade do PCI de polarizar a vida intelectual italiana em sua volta, não só num amplo arco de eruditos, escritores, pensadores e artistas mas num clima geral da opinião progressista, não teve paralelo em mais nenhum lugar da Europa. Graças em parte à sociologia da sua liderança, que diferentemente da dos Partidos Comunistas franceses, alemães, britânicos ou espanhóis, era na sua maioria altamente instruída, e em parte a um manejo relativamente tolerante e flexível da ‘luta de ideias’, o seu domínio nesta esfera foi o ativo realmente distintivo do Comunismo italiano. Mas com um preço duplo em relação ao qual o partido permaneceu persistentemente cego.

Já que a extensão da influência do PCI através do mundo do pensamento e da arte era também uma função do grau com o qual ele assimilou e reproduziu a tensão dominante numa cultura italiana pré existente desde há muito. Este era o idealismo que encontrara a sua mais poderosa expressão, mas de forma nenhuma a expressão moderna única, na filosofia de Benedetto Croce, figura que ao longo dos anos adquirira uma posição quase do tipo da de Goethe na vida intelectual do país. Foi o sistema historicista de Croce, com um prestígio subscrito pela atenção que lhe foi dada na prisão por Gramsci, que ficou naturalizado como o éter circum ambiente de muita da cultura italiana do pós guerra à qual o PCI, direta ou indiretamente, presidiu. Mas por trás dele residem tradições muito mais antigas que concederam preeminência ao reino das ideias, concebidas como vontade ou compreensão, na política. Entre a queda do Império Romano e a conclusão do Risorgimento, a Itália nunca conheceu um estado ou uma aristocracia peninsulares e a maior parte do tempo esteve sujeita a um leque de poderes estrangeiros em conflito. O resultado, por longos períodos, foi a criação duma esmagadora sensação de fosso entre a glória passada e a desgraça presente no meio das suas elites instruídas. De Dante para cá, desenvolveu se aí uma tradição de intelectuais com um forte sentido de vocação para recuperar e transmitir a cultura elevada da antiguidade clássica e embebidos da convicção de que o país podia ser endireitado apenas pelo cunho de ideias revivificadoras, das quais só eles poderiam ser os artífices, nas realidades em que caíram. A cultura não era uma esfera distinta do poder: haveria de ser o passaporte para ela.

Em boa medida, o Comunismo italiano herdou este hábito da mente. A nova forma que deu a uma predisposição nacional, se não fiel a Gramsci, foi retirada dele. Nesta versão, ‘hegemonia’ era uma ascendência cultural e moral a ser ganha consensualmente dentro da sociedade civil, como a fundação real da existência social que poderia assegurar por fim a posse pacífica do estado, uma expressão mais externa e superficial da vida coletiva. Nesta visão, a posição de comando que o partido tinha ganho na arena intelectual mostrava que estava no rumo para a vitória política final. Isto não era aquilo em que Gramsci acreditara. Revolucionário da Terceira Internacional, nunca pensara que o capital pudesse ser quebrado sem a força das armas, por mais importante que fosse a necessidade de ganhar o consentimento popular para a derrubada da ordem dominante. Mas isto ajustava se ao molde idealista da cultura em geral. Dentro da própria esfera intelectual, para além disso, o PCI reproduziu o viés humanista das elites tradicionais para quem a filosofia, a história e a literatura sempre tinham sido campos de eleição. Ausentes do portfolio do partido estavam as disciplinas mais modernas da economia e da sociologia e os métodos que tentaram pedir emprestados, para melhor ou pior, às ciências naturais. Por formidáveis que as suas posições parecessem do auge duma hierarquia cultural consagrada, eram mais fracas cá em baixo, com sérias consequências em devido tempo.

Porque quando as duas grandes mudanças que alterariam a ecologia do PCI na Itália do pós guerra atingem o partido, ele estava bastante impreparado. A primeira foi a chegada duma cultura de massas completamente comercializada, duma espécie ainda inimaginável no mundo de Togliatti, quanto mais de Gramsci. Mesmo no seu apogeu, tinha havido certos limites óbvios à influência do PCI e, mais geralmente, da esquerda italiana na cena cultural, uma vez que a Igreja ocupava um tão grande espaço na crença popular e na imaginação. Abaixo do nível das universidades, editores, estúdios ou jornais nos quais os movimentos do partido eram tão comuns e distintos dos baluartes da ordem estabelecida burguesa liberal na imprensa, um matagal de revistas conformistas ou espectáculos talhados para os gostos meio sérios ou incultos dos eleitores da DC sempre houvera florescido. Dos seus posicionamentos de vantagem na cultura de elite, o PCI podia ver este universo com uma condescendência tolerante, como expressões do legado dum passado clerical cuja importância Gramsci há muito vincara. Não era ameaçado por ele.

O influxo duma cultura de massas completamente secular, totalmente Americanizada, foi outra questão. Apanhados impreparados, o aparelho do partido e os intelectuais que se tinham formado em volta dele foram atirados para o lado. Embora um compromisso crítico com revistas populares não faltasse em Itália – Umberto Eco foi pioneiro – o PCI não conseguiu estabelecer a ligação. Nenhuma dialéctica criativa, capaz de resistir às ventanias do novo transformando as relações entre sério e popular, se materializou. O caso do cinema, em que a Itália tinha primado sobretudo depois da guerra, pode ser tomado como simbólico. Não houve revezamento da geração de grandes realizadores – Rossellini, Visconti, Antonioni – que se tinham iniciado nos anos 40 ou no princípio dos 50 e cujos últimos trabalhos importantes se agrupam no início dos 60. Em falta a partir daí esteve qualquer cruzamento combustível entre vanguardismo e formas populares que se comparasse com Godard em França ou com Fassbinder na Alemanha; mais tarde, apenas a bebida fraca que foi Nanni Moretti. O resultado foi um fosso tão grande entre a sensibilidade instruída e popular que o país foi deixado mais ou menos indefeso face à contra revolução cultural do império televisivo de Berlusconi, saturando o imaginário popular com a vaga duma maré dos mais crassos idiotismo e fantasias – lixarada tão baixa que o próprio termo seria demasiado simpático. Incapaz de confrontar ou de inverter a mudança, durante uma década o PCI procurou resistir lhe. O verdadeiro último líder do partido, Enrico Berlinguer, personificou o desprezo austero da auto indulgência e o infantilismo do novo universo de consumo cultural e material. Depois de ele partir, da recusa inflexível à capitulação efusiva foi um curto passo – vindo Walter Veltroni a parecer se com um cromo resplandecente saído dos álbuns dos meninos de escola cujo nome fez ao distribuí los com exemplares do Unità quando se tornou editor do jornal. Se o idealismo do PCI o impediu de agarrar as pulsões materiais do mercado e dos meios de comunicação que transformaram o lazer na Itália, a mesma falta de antenas económicas ou sociológicas impediu o de descobrir mudanças não menos decisivas no local de trabalho. Já no virar dos anos 60 lhes prestava menos atenção do que ao recrutamento de jovens radicais que continuariam a produzir o fenómeno peculiarmente italiano dooperaismo, uma das mais estranhas aventuras intelectuais da esquerda europeia desse período [*]. Diferentemente do PCI, o PSI do pós guerra tinha possuído pelo menos uma figura principal, Rodolfo Morandi, cujo Marxismo era dum molde menos idealista, que se concentrou nas estruturas da indústria italiana, da qual foi autor de um estudo famoso. Dentro da geração seguinte encontrou em Raniero Panzieri um sucessor dotado, um militante do PSI que, tendo se deslocado para Turim, começou a investigar a condição de trabalhadores fabris nas fábricas da Fiat, reunindo em volta da sua empresa um grupo de intelectuais mais jovens, muitos (Antonio Negri entre eles) mas não todos a partir originalmente de organizações juvenis Socialistas. Durante a próxima década, o operaismo evolui para uma força proteica, lançando uma sucessão de jornais seminais, ainda que de vida curta –Quaderni rossi, Classe operaia, Gatto selvaggio, Contropiano – explorando as transformações do trabalho e do capital industrial na Itália contemporânea. O PCI não tinha nada de comparável para mostrar e prestou escassa atenção a esta ebulição, embora nesta fase o mais influente dos novos teorizadores fosse um jovem das suas próprias fileiras de Roma, Mario Tronti. Este era um meio cuja cultura era essencialmente alheia ao partido, de facto declaradamente hostil a Gramsci, acusado de espiritualismo e populismo.

O impacto do operaismo vinha não apenas das interrogações ou das ideias dos seus pensadores, mas da sua conexão com a revolta de novos contingentes das classes trabalhadoras: imigrantes jovens do Sul, em revolta contra salários baixos e condições opressivas nas fábricas do Norte – para não falar dos sindicatos liderados por comunistas desconcertados pelas erupções espontâneas de militância ou pelas formas inesperadas de luta. Ter antecipado esta turbulência deu ao operaismo um poderoso vento contrário intelectual. Mas também o fixou no momento do seu discernimento original, levando a uma romanticização da revolta proletária como um fluxo mais ou menos contínuo de lava vindo do chão da fábrica. Em meados dos 70, conscientes de que a indústria italiana se modificava mais uma vez e de que a militância das oficinas estava em declínio, Negri e os outros recorreriam à figura do ‘trabalho social’ em geral – virtualmente qualquer um, empregado ou desempregado pelo capital, onde quer que fosse – como portador da revolução imanente. A abstracção desta noção foi um sinal do desespero e a política apocalíptica que o acompanhou levou esta ala do operaismo a um beco sem saída nos finais dos 70. O PCI, contudo, depois de falhar a mutação dos 60, não tinha aprendido com isso e não ofereceu nada de melhor através duma sociologia industrial. Portanto foi isso que, quando a economia italiana sofreu modificações novas e críticas nos anos 80, com o surgimento de pequenas firmas de exportação e duma economia negra – o ‘segundo milagre italiano’, como foi esperançosamente referido naquele tempo – o partido estava impreparado de novo e desta vez o golpe na sua posição como representante político do trabalhador colectivo revelou se fatal. Vinte anos depois, tal como o triunfo de Forza Italia dramatizaria a sua falha em reagir a tempo de intervir na massificação da cultura popular, assim as vitórias da Liga do Norte revelariam a sua incapacidade em responder a tempo à fragmentação do trabalho pós moderno.

Esses foram défices duma mentalité com fontes mais profundas do que o Marxismo do partido, um sentido clássico de valores intelectuais que, com todas as suas limitações, era à sua própria maneira raramente menos que honroso e muitas vezes admirável. Houve outro lado e um lado mais danoso para o mesmo idealismo, contudo, específico do Comunismo italiano e pelo qual carregava uma responsabilidade política consciente. Foi um reflexo estratégico que nunca realmente se alterou da Libertação em diante e cujas pós convulsões continuam hoje. Quando Togliatti voltou de Moscovo para Salerno na Primavera de 1944, deixou bem claro ao seu partido que não podia haver nenhuma tentativa de fazer uma revolução socialista na Itália logo a seguir à expulsão da Wehrmacht, já previsível. A Resistência no Norte, na qual o PCI desempenhava um papel principal, podia complementar mas não substituir os exércitos anglo americanos no Sul como força principal para expulsar os Alemães do país e o Alto Comando Aliado é que ditaria as regras uma vez a paz restaurada. Depois de vinte anos de repressão e exílio, a tarefa do PCI era construir um partido de massas e desempenhar um papel central numa assembleia eleita para pôr a Itália numa nova base democrática.

Esta era uma leitura realista do equilíbrio de forças na península e da determinação de Washington e de Londres em não permitirem qualquer assalto à capital no seguimento da derrota alemã. Uma insurreição pós guerra não estava na agenda. Togliatti, contudo, foi muito além disto. Na Itália, a monarquia que ajudou a instalar o Fascismo e logo confortavelmente com ele coabitou, tinha desalojado Mussolini no Verão de 1943, receosa de soçobrar com ele depois dos Aliados aterrarem na Sicília. Depois de um breve intervalo, o rei fugiu com Badoglio, o conquistador da Etiópia, para o Sul, onde os Aliados os colocam no topo duma administração regional inalterada, enquanto no Norte os Alemães instalam Mussolini à cabeça dum regime fantoche em Salò. Quando a guerra acabou, a Itália não foi assim tratada como a Alemanha, como um poder derrotado, mas como um “co beligerante” punido. Uma vez que as tropas Aliadas se foram, um governo de coligação, compreendendo o Partito d’Azione liberal de esquerda, os Socialistas, Comunistas e Democratas Cristãos, enfrentou o legado do Fascismo e a monarquia que colaborara com ele. Os Democratas Cristãos, conscientes que os seus potenciais eleitores permaneciam leais à monarquia e reconhecendo que os seus apoios naturais no aparelho de estado tinham sido os instrumentos de rotina do Fascismo, estavam determinados em a prevenir algo comparável à des Nazificação alemã. Mas estavam em minoria no gabinete, onde a esquerda secular detinha mais postos.

Nesta conjuntura o PCI, em vez de pôr a DC na defensiva exigindo uma purga inflexível do estado – limpando todos os funcionários colaboracionistas seniores na burocracia, poder judiciário, exército e polícia – convidou a a encabeçar o governo e mal levantou um dedo para desmantelar o aparelho tradicional do poder de Mussolini. Ao invés de isolar a Democracia Cristã, Togliatti manobrou para pôr na chefia do governo o seu líder, de Gasperi, e depois juntou se à DC – para indignação dos Socialistas – na confirmação do Tratado de Latrão que Mussolini selara com o Vaticano. Os prefeitos, juízes e polícias que tinham servido o Duce foram deixados virtualmente intocados. Ainda em 1960, 62 dos 64 prefeitos tinham sido serviçais do Fascismo e todos os 135 chefes de polícia do país o foram. Quanto a juízes e funcionários, os tribunais por reconstruir absolveram os torturadores do regime e condenaram os resistentes que tinham lutado contra eles, retrospectivamente declarando os combatentes da República Fascista de Salò beligerantes legítimos, e os da Resistência ilegítimos – os últimos sujeitos como tal a execução sumária depois de 1943, sem sanções penais depois de 1945 para os primeiros. Essas enormidades foram uma consequência directa das acções do PCI. Foi o próprio Togliatti que, enquanto ministro da justiça, promulgou em Junho de 1946 a amnistia que os tornou aptos. Um ano depois, o partido foi recompensado com uma ejecção do governo sem cerimónias por de Gasperi, que já não precisava disso.

A história da Itália do pós guerra ia assim ser inteiramente diferentemente da da Alemanha, onde não houve qualquer Resistência popular. O nazismo foi destruído tanto pelo extremo da derrota militar como pelo extermínio com as ocupações Aliadas subsequentes. Na República Federal, o Fascismo não pôde mais voltar a levantar a cabeça. Na Itália, em contraste, a Resistência deixou para a posteridade uma ideologia de anti fascismo – patriótico – cuja retórica oficial ubíqua, no que o PCI tomou a dianteira, cobriu as continuidades reais do Fascismo, quer como aparelho de leis e funcionários herdado, quer como credo abertamente proclamado e movimento. Reconstituído como MSI, o partido Fascista ia sentar se em breve novamente no Parlamento e acabar por ser recebido na ordem estabelecida sob o seu líder, Giorgio Almirante. Exaltando as leis anti semíticas de Mussolini, esta figura tinha dito aos seus compatriotas em 1938 que ‘o racismo é o mais amplo e valente reconhecimento de si que a Itália alguma vez tentou’ e em 1944, depois de Mussolini ter sido levado via aérea para o Norte pelos Alemães, que se não se alistassem como combatentes pela República de Salò seriam alvejados pelas costas. Quando Almirante morreu nos anos 80, a viúva de Togliatti esteve entre os que o choraram a sua morte no funeral. Hoje Gianfranco Fini, o seu herdeiro designado, é orador na Câmara de Deputados, e sucessor provável de Berlusconi como primeiro ministro.

Para além das repreensões óbvias a esta trajectória, o que há de mais condenável pela parte do PCI nisso é a sua futilidade auto destrutiva. Quando teve uma oportunidade de enfraquecer a Democracia Cristã mergulhando a espada de um anti fascismo intransigente nos seus flancos, cortando o dos eleitorados reaccionários que tinham sustentado o regime de Mussolini, fez precisamente o oposto, ajudando a DC a estabelecer se como a força dominante no país, ao passar uma esponja suavizante sobre a colaboração com o regime. Ao fazê lo simplesmente consolidou o bloco conservador sob comando clerical que o viria a deixar do lado de fora do poder até ao dia da sua morte. Neste fracasso, a conduta do partido não teve desculpas ao nível internacional. A revolução pode ter sido excluída na Itália do pós guerra, mas antes de 1946 os Aliados tinham basicamente deixado o país e não estavam em posição de deter uma purificação do Fascismo. A ingenuidade de Togliatti em ser tão completamente manobrado por de Gasperi com superioridade teve pouco a ver com influências externas. Enraizava se num conceito estratégico que tinha obtido de Gramsci, interpretado pela neblina de Croce e seus antepassados. A persecução do poder político, escrevera Gramsci, tinha requerido dois tipos de estratégia, cujos termos tomou da teoria militar, guerra de posição e guerra de manobra: guerra de trincheira ou de cerco, por oposição a assalto móvel. A Revolução Russa tinha exemplificado a segunda; uma revolução no Ocidente necessitaria da primeira, durante um período considerável, antes de passar por fim à última. Tal como diluíra a noção de hegemonia de Gramsci tão só no seu momento consensual, fixando a essencialmente na sociedade civil, também sob Togliatti o PCI reduziu o seu conceito de estratégia política a uma guerra de posição apenas, à aquisição lenta de influência na sociedade civil, como se nenhuma guerra de manobra – emboscada, carga súbita, rapidamente desviar o ataque para todo o terreno, apanhar de surpresa inimigos de classe ou o estado – fosse já necessária no Ocidente. Em 1946 47 de Gasperi e os seus colegas não cometeram o mesmo erro.

Por volta de 1948 o élan popular da Libertação quebrou se. O ataque da Guerra Fria trouxe a derrota eleitoral e foram precisos vinte anos até que outra onda de revolta política formasse crista na Itália. Quando chegou, a rebelião geracional do final dos 60, abraçando tanto estudantes como trabalhadores jovens, foi mais ao fundo e durou mais do que em qualquer outro sítio da Europa. Sob o sucessor de Togliatti, Luigi Longo, que tinha um pouco mais de lutador do que de diplomata, o PCI não reagiu tão negativamente à revolta juvenil como o PCF em França. Mas também não respondeu criativamente, não conseguindo ligar se a uma cultura de rua em que sério e popular – os clássicos do passado Marxista e Bolchevique, os graffitti de lata de spray do presente – durante um tempo interagiram dinamicamente, nem renovar o seu stock cada vez mais estacionário de conceitos estratégicos. Quando emergiu dentro do partido a oposição crítica à sua inércia sob a forma do grupo Manifesto – de aspecto mais genuinamente gramsciano e com uma inteligência política muito maior do que os operaisti fora dele – a liderança do PCI não perdeu tempo na sua expulsão.

A excomunhão veio a propósito da invasão soviética da Checoslováquia que o Manifestocondenou sem reservas. Aqui, a par do idealismo nativo da sua formação, reside a segunda razão para a paralisia estratégica perdurante do Comunismo italiano. Por mais flexível que fosse noutros aspectos, o PCI permanecia estalinista tanto nas suas estruturas internas como nos laços externos com o estado soviético. Desesperando com a ordem unipartidária duma Democracia Cristã entorpecida, os admiradores liberais do partido – dois quais haveria muitos ao longo dos anos – exprimiriam repetidamente admiração pela moderação interna sensata do PCI, mas exasperação por comprometer um registo, afora isso excelente, de conexões à URSS e às normas organizativas que se seguiram. Na realidade as duas estavam estruturalmente relacionadas. De Salerno em diante, a moderação do partido foi uma compensação pelas relações com Moscovo, não uma contradição com elas. Só porque podia ser sempre reprovado por um parentesco suspeito com a terra da Revolução de Outubro, tinha de se exceder a comprovar a inocência em relação a qualquer desejo de emular aquele modelo de mudança demasiado famoso. O peso duma culpa imputada e a busca duma respeitabilidade exoneradora andavam de mãos dadas. O mais abertamente direitista do partido, o aterrorizante Giorgio Amendola, que fazia avisos contra qualquer tolerância para com a revolta estudantil enquanto regularmente se refugiava na Bulgária para as férias com a família, personificou os mecanismos desta dualidade.

Incapaz de assumir ou desenvolver as revoltas dos finais dos 60 e princípios dos anos 70, o PCI virou se antes e uma vez mais para a Democracia Cristã, na esperança saudosa que a DC tivesse mudado os seus modos e estivesse agora preparada para colaborar com ele no governação do país – Catolicismo e Comunismo unindo se num ‘compromisso histórico’ para defender a democracia italiana dos perigos da subversão e das tentações do consumismo. Propondo este pacto em 1973, logo depois se se tornar o novo líder do partido, Berlinguer invocou o exemplo do Chile, onde Allende tinha acabado de ser derrubado, como aviso duma guerra civil em risco de estourar, se a esquerda – Comunistas e Socialistas combinados – alguma vez tentasse governar o país com base numa mera maioria aritmética do eleitorado. Poucos argumentos poderiam ter sido mais obviamente especiosos. Não havia a menor perspectiva de guerra civil na Itália, onde mesmo erupções de violência como as que tinham ocorrido – a bomba colocada por terroristas direitistas na Piazza Fontana em Milão em 1969 fora o pior caso – tiveram pouca incidência na vida política do país no seu conjunto. Mas, uma vez que o PCI se movimentara para abraçar a DC, os grupos revolucionários à sua esquerda, saídos da rebelião juvenil, previram a emergência duma ordem estabelecida parlamentar monolítica, não tendo o governo oposição, e deslocaram se para a acção directa contra ele. Os primeiros ataques letais das Brigadas Vermelhas começaram no ano seguinte.

Mas o sistema político não estava em perigo. As eleições de 1976, em que o PCI se portou bem, foram perfeitamente tranquilas. Na sua sequência, a DC aceitou cortesmente o apoio comunista aos governos da assim chamada ‘solidariedade nacional’ sob Giulio Andreotti, sem alterar a sua política ou conceder qualquer ministério ao PCI. A legislação repressiva, restringindo liberdades civis de forma gratuita, teve uma escalada. Dois anos depois as Brigadas Vermelhas detiveram o líder mais influente da DC, Aldo Moro, em Roma, exigindo a entrega dos seus presos em troca de o libertarem. Durante os 55 dias do cativeiro, temendo ser abandonado pelo seu próprio partido, Moro escreveu cartas cada vez mais amargas aos seus colegas, colocando uma ameaça clara a Andreotti caso viesse a ser libertado. Nesta crise o PCI mais uma vez não mostrou nem humanidade nem senso comum, denunciando qualquer negociação para assegurar a entrega de Moro mais veementemente do que a própria liderança da DC que ficou compreensivelmente dilacerada.

Moro foi devidamente deixado ao seu destino. Se lhe tivessem permitido viver, o seu regresso teria certamente divido a Democracia Cristã e provavelmente terminado a carreira de Andreotti. O preço da sua salvação era desprezível. As Brigadas Vermelhas, pequeno grupo que em nenhum sentido objectivo era ameaça significativa à democracia italiana, dificilmente seria fortalecido pela libertação de uns poucos membros, que teriam ficado sob vigilância policial contínua mal saíssem da cadeia. A noção de que o prestígio do estado não sobreviveria a tal rendição ou de que milhares de novos terroristas teriam irrompido na sua sequência, não foi mais do que uma histeria interessada. Os Socialistas compreenderam isto e defenderam negociações. Plus royalistes que le roi 1, os Comunistas, na sua ansiedade em provar que eram os mais firmes dos bastiões do estado, sacrificaram uma vida e salvaram a sua nemesis 2 em vão. A DC não mostrou gratidão alguma. Depois de os usar, Andreotti – um mestre em sentido de oportunidade superior ao próprio de Gasperi – rebaixou os. Quando chegaram as eleições, em 1979, o PCI perdeu um milhão e meio de votos e foi novamente deixado de fora. O ‘compromisso histórico’ não lhe tinha rendido nada para além da desilusão dos seus eleitores e dum enfraquecimento da sua base. Quando Berlinguer no ano seguinte apelou aos funcionários da Fiat, ameaçados com despedimentos em massa, para ocuparem as suas fábricas, o apelo caiu em orelhas moucas. A última grande acção industrial na qual o partido alguma vez se ocuparia foi rapidamente esmagada.

Há cinco anos, reflectindo amargamente sobre a política do seu país, Giovanni Sartori fez notar que Gramsci tivera razão ao distinguir entre guerra de posição e guerra de manobra. Grandes líderes – Churchill ou de Gaulle – entenderam a necessidade de guerras da manobra. Em Itália, os políticos conheciam apenas guerras da posição. Ele próprio sempre achara que o título do livro famoso de Ortega y Gasset, España Invertebrada, seria ainda mais adequado na Itália em que a Contra Reforma tinha criado hábitos profundos de conformismo e invasões estrangeiras e conquistas contínuas tinham tornado os Italianos em especialistas em sobrevivência ao curvarem se até ao chão. Na falta de quaisquer elites de fibra, esta era uma nação sem um só osso no corpo. Sartori não falava ao acaso. Os destinatários eram a classe política que descreveu. Por esta altura o PCI desaparecera, Berlusconi estava no poder e os seus objectivos centrais eram claros: proteger sea si e ao seu império da lei. As medidas ad personam 3 para defender ambos, com adopção forçada no Parlamento, aterraram na secretária do presidente. A presidência italiana não é um posto puramente honorífico. O Quirinale não só nomeia o primeiro ministro, que tem de ser ratificado pelo Parlamento, como pode também reter a aprovação de ministros e recusar se a assinar a legislação. Em 2003 o beneficiado foi o antigo banqueiro central Carlo Azeglio Ciampi, um ornamento do centro esquerda que havia encabeçado o governo final da Primeira República, servido como ministro das finanças sob Prodi e que é hoje senador do Partido Democrático.

Imperturbavelmente, Ciampi assinou a legislação excepcional não só para consolidar a mão de Berlusconi na televisão, mas para lhe garantir imunidade processual – imunidade da qual o próprio Ciampi, como presidente, foi também beneficiário, ao apender a sua assinatura. Fora do Quirinale, apelos angustiados na rua, à luz de velas, pediram lhe que não o fizesse. Mas os herdeiros do Comunismo não apresentaram objecção alguma. De facto tinha sido das fileiras do próprio centro esquerda que o primeiro esboço de lei da imunidade tinha vindo. Se houve torcer de mãos na imprensa a propósito da lei, o presidente – supostamente super partes do ponto de vista constitucional e tratado com a devida reverência – não foi posto em questão. Só uma voz nacional significativa se levantou, não em lamento, mas com severidade contra Ciampi. Ela veio de Sartori, um liberal conservador, que publicamente perguntou a Ciampi se ele realmente existia, desdenhosamente alcunhando o de coelho pela sua covardia.

Nos dias de hoje é um antigo Comunista – Giorgio Napolitano – o líder da facção mais direitista do PCI depois da morte de Amendola – quem se senta no Quirinale. No momento em que foi eleito, a primeira lei de imunidade tinha sido derrubada pelo Tribunal Constitucional. Mas quando lhe deram uma nova embalagem – à moda de Lisboa, poder se ia dizer – e a substância da mesma lei foi aceite por votação novamente pela maioria de Berlusconi no Parlamento, o líder da bancada pós comunista no Senado, longe de se lhe opor, explicou que o Partido Democrático não tinha qualquer objecção de princípio, embora talvez devesse entrar em vigor apenas na legislatura seguinte. Napolitano não teve tempo para taispoints d’honneur 4, assinando a passagem a lei no dia em que a recebeu. Mais uma vez, as únicas vozes a denunciar esta ignomínia foram liberais ou apolíticas, Sartori e um punhado de espíritos livres – imediatamente reprovados na imprensa não só de obediência Democrática, como da Rifondazione, por falta de respeito ao chefe de estado. Tal é a sinistra invertebrata 5da Itália hoje.

Forças históricas poderosas – o fim da experiência soviética; a contracção ou desintegração da classe trabalhadora tradicional; o enfraquecimento do estado de bem estar; a expansão da videosfera; o declínio de partidos – pesaram muito na esquerda em todo o lado na Europa, não deixando ninguém em forma particularmente boa. A queda do Comunismo Italiano é nesse sentido uma parte duma história mais comprida, para além da censura. Contudo em mais nenhuma parte foi uma herança tão imponente assim completamente desperdiçada. O partido que de Gasperi e Andreotti superaram em esperteza, que não conseguiu purgar o Fascismo ou quebrar o clericalismo, era ainda uma força em expansão com notável vitalidade, qualquer que fosse a sua inocência estratégica. Os seus descendentes conspiraram com Berlusconi, sem sombra qualquer de desculpa, totalmente conscientes de quem ele era e do que estavam a fazer. Há agora uma literatura abundante expondo Berlusconi, dentro e fora da Itália, inclusive pelo menos três estudos de primeira categoria em inglês. Mas é patente como muito disto se torna amaneirado quando toca no papel do centro esquerda em ajudá lo a limpar a folha e a entrincheirar se no poder. A cumplicidade dos seus presidentes em ofertas sucessivas para o pôr – e a si mesmos – acima da lei não é anomalia alguma, faz parte dum padrão coerente que viu os herdeiros do Comunismo italiano permitirem lhe conservar e estender o seu império de meios de comunicação, desafiando o que foi em tempos lei; não levantando um dedo para lidar com os seus conflitos do interesse; fazendo saltar da cadeia o seu braço direito e não poucos outros criminosos milionários; e repetidamente procurando fazer acordos eleitorais com ele, à custa de todos os princípios democráticos, para tirar benefício. No fim de tudo isto, ficaram não só de mãos tão vazias como os seus predecessores, como mais terminalmente vazios de mente e consciência.

O que acontecera pela sua parte à grande catedral da cultura de esquerda na Itália? Tinha começado a esmigalhar se muito antes, com as fundações minadas pela antiga fortaleza do próprio partido de massas. Como na Alemanha, a viragem à direita deu se inicialmente no campo da história, com uma reavaliação da ditadura entre guerras no país. O primeiro volume da biografia de Mussolini por Renzo de Felice, cobrindo o período até ao fim da Primeira Guerra Mundial, foi publicado em 1965. Mas só depois do quarto ter aparecido em 1974, cobrindo o período da Grande Depressão até à invasão da Etiópia – seguido um ano depois por uma entrevista com o tamanho dum livro com o neo conservador americano Michael Ledeen, posteriormente proeminente na questão Irão Contras – é que este enorme empreendimento teve um impacto importante na esfera pública, atraindo uma barragem de crítica à esquerda por ser uma reabilitação do Fascismo. No momento em que o seu quinto volume saiu, no início dos anos 80, de Felice tinha se tornado uma autoridade aceite, gozando de acesso imediato aos meios de comunicação – apareceria cada vez mais na televisão – encontrando um decrescente desafio dentro do país. Em breve estava a pedir o fim do anti fascismo como ideologia oficial na Itália. Em meados dos 90 explicava que o papel da Resistência no que foi de facto uma guerra civil no Norte, na qual as lealdades à República de Salò tinham sido subestimadas, tinha de ser desmistificado. O seu oitavo e último volume, incompleto à sua morte, saiu em 1997. No total, de Felice dedicou 6500 páginas à vida de Mussolini, mais do triplo da extensão da biografia de Hitler por Ian Kershaw e proporcionalmente mais longas até do que a vida autorizada de Churchill por Martin Gilbert: o maior monumento singular a um líder do século 20.

A escala da obra, mal escrita e muitas vezes arbitrariamente construída, não foi igualada nunca pela sua qualidade. A sua força reside na pesquisa infatigável em arquivos por de Felice e na sua insistência numas poucas verdades irrepreensíveis, principalmente em que os militantes do Fascismo como movimento tinham vindo na maior parte da classe média baixa, que o Fascismo como sistema atraiu o apoio de homens de negócios, de burocratas e das mais altas classes sociais em geral e que no seu apogeu o regime comandou um largo consenso popular. Estes achados, nenhum particularmente original, quedavam na companhia incoerente das afirmações de que o Fascismo brotara do Iluminismo, que não teve nada a ver com o Nazismo, que o seu colapso assistiu à morte da nação italiana, e não menos, de um retrato do próprio Mussolini com dimensões desesperadamente exageradas, indulgente, como um grande político realista- ainda que com falhas. Intelectualmente falando, de Felice teve pouco do equipamento conceptual ou da amplitude do interesse de Ernst Nolte, cujo primeiro livro tinha precedido o seu. Mas o seu impacto foi muito maior, não só por força do peso absoluto da sua erudição, ou até do facto – fundamental por muito que seja óbvio – de que na Alemanha o Fascismo tinha sido desacreditado de forma muito mais absoluta do que na Itália, mas também por no fim da sua carreira haver tão pouca vida na cultura oficial do pós guerra a que ele se tinha pretendido opor. Significativamente, as demolições mais radicais do seu edifício vieram de Denis Mack Smith em Inglaterra e não de qualquer historiador italiano.

Mas se não houve nenhum verdadeiro equivalente ao Historikerstreit na Itália, em que de Felice poderia sentir que tinha realizado a maior parte dos seus objectivos, houve também uma viragem à direita das energias intelectuais em geral com contornos menos nítidos do que na Alemanha. O sucessor principal a de Felice, Emilio Gentile, dedicou se a amplificar o tema familiar de que as políticas de massas do século 20 foram versões secularizadas da fé sobrenatural, dividindo as em marcas malignas – Comunismo, Nazismo, nacionalismo – incluindo de religiões ‘políticas’ fanáticas e formas mais aceitáveis, nomeadamente o patriotismo americano, que constituem religiões ‘civis’: totalitarismo versus democracia em roupagens sagradas. Isto é uma construção que ganhou mais seguimento nos EUA ou no Reino Unido do que na própria Itália. O mesmo, paradoxalmente, poderia dizer se dos últimos frutos à esquerda do operaismo. Aí, o espírito sóbrio da enquête ouvrière 6 tinha falecido com a morte prematura de Panzieri em meados dos 60, e com a impulsão de Tronti e do jovem crítico literário – então igualmente incendiário – Alberto Asor Rosa, a sua perspectiva sofreu duas voltas drásticas.

De Tronti veio a convicção de que a classe trabalhadora, longe de ter de suportar transformações econômicas sucessivas às mãos da capital, era o seu demiurgo, impondo a empregadores e ao estado as mudanças estruturais de cada fase de acumulação. O segredo do desenvolvimento não residia nos requisitos econômicos impessoais da rentabilidade vinda de cima, mas na pressão condutora da lutas de classes vinda de baixo. De Asor Rosa veio o argumento de que ‘a literatura comprometida’ era um delírio populista, dado que a classe trabalhadora nunca poderia esperar beneficiar com as artes ou as letras dum mundo moderno no qual a cultura como tal era, por definição, irremediavelmente burguesa. Não se seguiu nenhum filistinismo cru, nem tolstoyanismo pobre de espírito. Pelo contrário, era apenas o Alto Modernismo de Mann ou Proust, Kafka ou Svevo, e o vanguardismo radical até, mas não depois, de Brecht que contavam como literatura – mas enquanto testemunhos tantos, de incomparável invenção formal, das contradições internas da existência burguesa, não enquanto legado de uso algum para o mundo do trabalho. A divisória entre os dois não podia ser ligada até pelas melhores intenções revolucionárias de um Mayakovsky: era da sua constituição.

Para fazer boa literatura, o socialismo não foi essencial. Para fazer a revolução, os escritores não serão essenciais. A luta de classes toma um caminho diferente. Tem outras vozes para se exprimir, se fazer entender. E a poesia não pode estar por trás dela. Porque a poesia, quando é grande, fala numa língua na qual as coisas – as coisas difíceis de luta e da existência diárias – assumiram já o valor exclusivo de um símbolo, de uma metáfora gigantesca do mundo: e o preço, muitas vezes trágico, da sua grandeza é que o que diz escapa à prática, para não regressar mais a ela.

Quando isto foi escrito, o objetivo era a linha oficial do PCI, e por trás dela Gramsci, que tinha acreditado que o movimento comunista era o legítimo herdeiro da cultura europeia mais elevada, da Renascença, Reforma e Iluminismo em diante e que entre os problemas ele tinha de resolver na Itália estava a ausência duma literatura popular nacional. Mas como os motins do fim dos 60 se desenrolavam, primeiro Tronti e logo Asor Rosa decidiram que fazia mais sentido trabalhar dentro do PCI, onde se podia encontrar a classe trabalhadora organizada no fim de contas, do que fora dele. Ao dar este passo, Tronti transpôs a sua visão da primazia das lutas na fábrica às atividades do partido na sociedade, radicalizando a numa teoria da autonomia da produção da política. Mais jovem do que Asor Rosa ou Tronti, e o mais intelectualmente ambicioso do trio, Massimo Cacciari concluiu então o que eles tinham começado, não meramente separando cultura e economia da política revolucionária, mas propondo uma dissociação sistemática de todas as esferas da vida e do pensamento modernos umas das outras como outros tantos domínios técnicos, cada um intraduzível num outro. Em comum estava apenas a sua crise, igualmente visível na física, economia neoclássica, epistemologia canônica, política liberal do virar de século para não falar da divisão do trabalho, das operações do mercado e da organização do estado. Apenas o ‘pensamento negativo’ tinha sido capaz de agarrar a profundidade desta crise – Schopenhauer, Nietzsche, Wittgenstein, Heidegger. O que Hegel tinha juntado, eles recusaram: síntese dialética de qualquer espécie.

O operaismo sempre fora anti historicista, ele era também anti humanista. Na Krisis de Cacciari (1976), encontrou agora inspiração na linha de pensadores niilistas, dos quais Nietzsche foi inicialmente o mais importante pela sua narrativa da vontade de poder, cuja encarnação contemporânea só podia ser o PCI. Mas não devia haver qualquer irracionalismo. O que a ‘cultura da crise’ exigia eram ordens e formas da racionalidade novas, específicas de cada prática. Assim ao guiar o partido em direcção aos seus objectivos, Weber e Schmitt – não Gramsci – foram os conselheiros indicados, cada um especialista em política como técnica lúcida, fria. Intelectualmente falando, uma rejeição mais meticulosa do Marxismo reverenciado no PCI, impregnado dum espírito hegeliano de síntese, seria difícil de imaginar. Mas, politicamente, a viragem nietzschiana do operaismo provou ser perfeitamente compatível com a linha oficial do partido no princípio dos anos 70. Porque o que poderia a vontade de poder querer dizer na Itália desse tempo? A resposta, argumentou Tronti, era clara: era a vocação do PCI para governar o país como o arquitecto duma aliança entre o trabalho organizado e o grande capital para modernizar a economia e a sociedade, de forma não diversa do New Deal na América, que ele sempre admirara – um pacto de salários e lucros contra o parasitismo das rendas.

O PCI, que sempre fora tolerante com as diferenças teóricas contanto que não ameaçassem com perturbação política, acomodou os defensores do pensamento negativo sem dificuldade – por esta altura não era já capaz de se comprometer criticamente com tais afloramentos exóticos de qualquer modo. Sensível ao prestígio de que estes viriam a gozar, na devida ocasião assegurou lhes honras na esfera política cuja autonomia tinham sustentado. Cacciari tornou se deputado do PCI antes de prosseguir fazendo carreira como prefeito de Veneza, onde está agora colocado; Tronti e Asor Rosa acabaram por ser feitos senadores. Inevitavelmente, o preço de tal integração num partido que tão conspicuamente falhou no terreno do poder em que eles o tinham nomeado, foi o desvanecer do operaismo como um paradigma coerente. Vinte anos depois, o PCI feito agora apenas memória, Asor Rosa comporia um melancólico balanço da esquerda italiana, ao qual ele e Tronti permaneceram fiéis à seu próprio estilo, enquanto Cacciari é hoje um ornamento da direita do Partido Democrático, combinando misticismo e tecnicismo – de forma nada desajustada para um admirador de Wittgenstein – numa política de outro modo muito semelhante à do New Labour. O legado intelectual do pensamento negativo foi pouco mais do que um culto árido de especialização e concomitante despoliticização, para quem veio depois.

Na encruzilhada do final dos 60, Negri seguiu na direcção contrária, defendendo não um compacto entre capital e trabalho organizado, para a modernidade, sob a égide do PCI, mas uma escalada no conflito entre trabalho não organizado – ou desempregado – e o estado, em direcção à luta armada e à guerra civil. Depois do esmagamento da Autonomia da qual tinha sido o teórico, e da sua detenção por um magistrado comunista por acusações fraudulentas de ter idealizado a morte de Moro, o exílio em França produziu uma corrente constante de publicações, a mais notável sobre Spinoza. Aqui se preparou a metamorfose do trabalhador não fabril do fim do século 20 da Autonomia Operaia na figura do século 17 da ‘multidão’ noImpério, escrito com Michael Hardt, aparecendo nos Estados Unidos muito antes de se ver impresso em Itália. Desde que famoso, o impacto internacional de Negri foi mais vasto do que a sua influência nacional, embora exista um público seguidor mais jovem. O mesmo é verdade para Giorgio Agamben, uma chegada tardia à constelação, compartilhando muitos pontos de referência com Cacciari – Heidegger, Benjamin, Schmitt – mas com uma inflexão política, pô los à parte.

Vistas comparativamente, as semelhanças do operaismo com filamentos do gauchisme que floria em França na década de meados dos 60 a meados dos 70, são notáveis – ainda mais pela falta de qualquer contacto directo entre eles. Parece ter sido uma concordância objectiva que levou pensadores em volta do Socialisme ou barbarie quase pelo mesmo caminho dos em volta de Contropiano, dum obreirismo 7 radical a um subjectivismo anti fundacional – embora nos Negri ou Agamben mais tardios, com as suas dívidas a Deleuze ou Foucault, correntes franceses e italianas fluíssem directamente para dentro um do outro. O resultado contrastante das duas experiências deverá ser largamente explicado por diferenças na situação nacional. Em França o PCF não oferecia nenhuma tentação e a revolta de Maio Junho de 1968 foi tão breve quanto espectacular. Em Itália, onde a rebelião popular durou muito mais tempo, o comunismo era menos fechado e os pensadores eram significativamente mais jovens, a vida após a morte do operaismo permanece maior, se bem que confinada às margens.

A recuperação do Fascismo à direita, o eclipse do obreirismo à esquerda, mudaram o espaço do centro, no qual as versões seculares e clericais do juste milieu 8 têm tradicionalmente coexistido. Aí, paradoxalmente, o colapso da Democracia Cristã, terminando o domínio dum partido político abertamente Católico, em vez de diminuir o papel da religião na vida pública, redistribuiu o mais equilibradamente através do espectro político do que alguma vez no passado. Pois os votantes da DC não só muitas vezes se dividiram equilibradamente entre o centro direita e o centro esquerda, como também se revelaram o sector singular mais volátil do eleitorado, tornando os um ‘factor de oscilação’ ainda mais ansiosamente prezado pelos blocos em competição. Correndo atrás deles, antigos líderes do PCI, para não falar de ex radicais, caíram no fracasso ao explicar a sua sensibilidade religiosa privada, a assistência à missa desde tenra idade, a vocação espiritual oculta e outros requisitos de uma política pós secular. Com efeito, o que a Igreja perdeu com a passagem dum partido de massas de obediência estrita, ganhou com a difusão de uma influência, se porventura de temperatura mais branda, mais penetrante no conjunto da sociedade. Com isto houve uma descida a níveis da superstição não vistos há muitos anos: o fruto da ocupação por Wojtyla do trono papal, quando mais beatificações foram pronunciadas (798) e mais santos foram feitos (280) do que nos de cinco séculos anteriores todos somados, o número de milagres necessários para a santificação se cortou para metade e o culto grotesco do Padre Pio – um Capuchinho divinamente visitado por estigmas em 1918, autor dum qualquer número de feitos sobrenaturais – subiu pelos ares, chegando ao ponto da imprensa dominante poder com toda a seriedade discutir a veracidade dos seus triunfos sobre as meras leis da ciência.

Uma cultura secular capaz deste grau da complacência em relação à crença não será provavelmente mais combativa em relação ao poder. Sob a Segunda República, a opinião nos órgãos centrais da cultura editorial italiana desviou se raramente da doxa 9 neoliberal do seu período. A maior parte da sua produção neste período não se distinguia do que se pode encontrar nos jornais neo tablóides da Espanha, França, Alemanha, Inglaterra ou doutro lugar. Nenhum comentarista com auto respeito deixou de pedir reformas que curassem os males de sociedade, para os quais o remédio era sempre a necessidade de mais competição nos serviços e no ensino, mais liberdade para o mercado na produção e consumo e um estado mais disciplinado e simplificado, com variações girando apenas quanto aos adoçantes a serem oferecidos a quem estivesse no extremo da recepção dos ajustamentos necessários. Uma conformidade deste tipo tem sido tão universal que não teria sido razoável ter esperado que colunistas e jornalistas italianos mostrassem mais independência de espírito. A atitude da imprensa em relação à a lei é outra questão. Na vanguarda dos matizes e gritos contra a classe política da Primeira República- depois dos magistrados terem lançado ataque à sua corrupção – a imprensa revelou se notavelmente submissa desde que Berlusconi se estabeleceu como peça central da nova ordem, limitando se na sua maioria a críticas proforma, sem uma ponta da guerre à l’outrance 10 que lhe poderia realmente ter causado danos ou expulso de cena.

Para isso, o seu fogo teria tido de ser dirigido não apenas contra o próprio Berlusconi, mas também contra os juízes que regularmente o absolveram, o estatuto de limitações que esvaziou as acusações contra ele, as presidências que lhe asseguraram imunidade e os partidos de centro esquerda que o tornaram num interlocutor de facto prezado e aceite. Nada pode estar mais longe do sentido geral da imprensa nesses anos, onde as queixas por negligência são regularmente tingidas de medo e servilismo. A debilidade deste registo é realçada pelas raras excepções. Dessas, uma destaca se acima de todas, a do repórter Marco Travaglio, cujas acusações implacáveis não somente das criminalidades de Berlusconi ou Previti, mas do sistema inteiro de conivências que os protegeu, e não somenos as da própria imprensa, têm pouco paralelo no mundo amansado do jornalismo europeu desses anos. Sem surpresa, Travaglio, cujos livros se venderam às centenas de milhares, é uma figura da direita liberal, exprimindo se com uma ferocidade e uma liberdade de tom quase desconhecidos à esquerda [†].

Na Europa – isto não é verdadeiro, pelo menos do mesmo modo que na América – o mundo dos meios de comunicação por via de regra reflecte mais do que cria a condição duma cultura, cuja qualidade depende, no final de contas, muito mais do estado das universidades. Em Itália, notoriamente, estas permaneceram arcaicas e subfinanciadas, muitas reservatórios da intriga burocrática e da clientela baronial dos departamentos. O resultado foi uma perda constante das melhores mentes do país para postos no estrangeiro. Virtualmente cada uma das disciplinas foi afectada, como demonstra o rol de eruditos principais baseados ou a trabalhar por longos períodos nos Estados Unidos: Luca Cavalli Sforza na genética, Giovanni Sartori na ciência política, Franco Modigliani na economia, Carlo Ginzburg na história, Giovanni Arrighi na sociologia, Franco Moretti na literatura, a quem nomes mais jovens poderiam ser acrescentados. Não uma diáspora num sentido forte, uma vez que quase todos mantiveram as suas ligações à Itáia, a maior parte ainda participando dum modo ou doutro na sua vida intelectual, a sua ausêcia contudo enfraqueceu obviamente a cultura que os produziu.

Se é provável algum recrutamento comparável provir das circunstâncias dos últimos anos, está para se ver. A julgar pela aparência, as possibilidades pareceriam fracas. Mas seria um erro subestimar a profundidade das reservas das quais o país pode sacar. Um relance pela Espanha, cuja modernização é agora muitas vezes apoiada por Italianos autocríticos como modelo do que perderam, é uma lembrança delas. Embora o seu crescimento económico fosse mais alto, o sistema de transportes mais rápido, as instituições políticas mais funcionais, o crime organizado menos espalhado e o desenvolvimento regional mais igual – todos os ganhos reais em relação à Itália – a Espanha permanece em comparação uma cultura provinciana, com uma vida intelectual muito mais estreita e mais derivada, cujo relativo atraso é sublinhado pelas modernidades que a rodeiam. Com todo o mau estado do país, a contribuição italiana para as letras contemporâneas é duma ordem diferente. Nenhum país na Europa, de facto, produziu recentemente um monumento de erudição global que iguale os cinco volumes da história internacional e da morfologia do romance editados por Moretti, e publicados pela Einaudi – uma empresa de magnificência peculiarmente italiana, de cuja escala o leitor anglófono tem só um vislumbre na versão de segunda mão, parcimoniosa em compaixão e espírito, editada por Princeton. Nem é tão pouco difícil encontrar exemplos duma capacidade italiana incessante para abanar no estrangeiro os paradigmas recebidos. As ‘Pistas’ de Ginzburg, para não falar do seu ensaio que reconstrói Dumézil, que nenhum historiador francês tentou, seriam um caso; o livro recente do classicista eminente Luciano Canfora sobre a democracia, censurado pelo seu editor indignado na Alemanha, seria outro; a demolição da ‘justiça internacional’ do cientista político Danilo Zolo, um terceiro. Tais tradições não morrem facilmente.

O que há de oposição política, além da ordem estabelecida inter partidos? De meados dos anos 60 em diante, o Comunismo italiano teve outro filamento, nem oficial nem operaista, que permaneceu mais autenticamente gramsciano que qualquer coisa que a sua liderança pudesse oferecer, ou por fim tolerar. Expulso em 1969, o grupo do Manifesto em torno de Lucio Magri, Rossana Rossanda e Luciana Castellina continuou a criar o jornal com aquele nome que permanece, até hoje, o diário genuinamente radical da Europa. Ao longo dos anos, foi esta corrente que produziu de longe a análise estratégica mais coerente e incisiva dos problemas que a esquerda e o país no seu conjunto enfrentam – descendente de Hegel, sem surpresa, fornecendo melhor equipamento para a tarefa do que a fascinação com Heidegger. Hoje o seu legado está no equilíbrio, as suas três figuras principais compondo memoriais da sua experiência, cada um dos quais será significativo. O primeiro a aparecer, a Ragazza del secolo scorso cuidadosamente elegante de Rossanda, tem sido um sucesso de vendas nacional. Mas em 2005 o seu jornal foi fechado, e o diário está agora, no meio do aperto do crédito, em risco de desaparecer. MicroMega, o espesso bimensal editado pelo filósofo Paolo Flores d’Arcais, não está em semelhante perigo, sendo parte do império editorial cujas peças de exibição são o diário romano La repubblica e a revista de notícias semanal L’espresso. Sob a Segunda República, Flores tornou o seu jornal o organizador da frente mais inflexível e eficaz da hostilidade a Berlusconi na Itália, desempenhando um papel político único na UE para uma publicação intelectual deste tipo. Um ano depois da vitória do centro direita em 2001, foi daí que uma onda de protestos de massas contra Berlusconi impressionante foi lançada, de fora e contra a passividade do centro esquerda.

Entre esses, duas outras figuras desempenharam um papel central. Uma foi Nanni Moretti, o actor/realizador mais popular do país, cujo cinema tem seguido a pista da dissolução do PCI e das suas partículas por mais duma década de modo crítico, se bem que muitas vezes encantador. O outro foi o historiador Paul Ginsborg, autor de duas das mais preponderantes histórias da Itália do pós guerra, um Inglês a dar aulas na Florença distinguido não só como erudito mas agora como cidadão no seu país adoptivo. Na segunda das suas histórias, cobrindo o período de 1980 a 1996, publicada em inglês com o nome Italy and Its Discontents(e nesta edição chegando apenas em 2001), Ginsborg avançou a hipótese de que, com todo o egoísmo e ganância do seu estrato yuppy – os ceti rampanti que floresceram sob Craxi – existia a seu par na classe média italiana um sector de profissionais mais atenciosos, com consciência cívica e de empregados públicos (ceti medi riflessivi) quem eram capazes de acções altruístas e que formaram uma fonte potencial de renovação da democracia italiana. A proposta encontrou algum cepticismo quando a desenvolveu. Mas em 2002 tornou se realidade. Uma vez que foi a camada que ele identificara que essencialmente forneceu as tropas para as manifestações contra Berlusconi desse ano.

Nisso, contudo, também residia a sua limitação. A forma distintiva que assumiam – manifestantes dando se as mãos em volta de edifícios públicos – foi rapidamente alcunhada como girotondi na imprensa, ou canção de vai de roda ‘O Anel’. Pretendendo simbolizar o espírito pacífico, defensivo do movimento, o resultado foi dar lhe o ar demasiado fácil dum jogo de crianças. Os partidos de centro esquerda, não só não gostando da repreensão que lhes era feita, mas temendo a competição política, fizeram pouco para esconder a sua hostilidade. Os girotondini não responderam na mesma moeda. Determinados em evitar qualquer acções tempestuosas do tipo da que fora ao encontro do G7 em Génova e esperando em vão por uma aliança com líderes sindicais penhorados ao centro esquerda, o movimento viu se inibido de montar qualquer ofensiva mais dura contra o governo, menos ainda contra os seus cúmplices da oposição e, por fim, desfeito pela sua auto imagem de bon enfant, não se pôde sustentar.

Quando, para fúria de Veltroni, o MicroMega corajosamente apelou a outra manifestação de massas contra o regresso de Berlusconi ao poder na Piazza Navona no Verão passado, as contradições subjacentes dos girotondini irromperam de forma visível, Moretti e metade da plataforma dissociando se dos oradores mais radicais, que esta vez não pouparam Napolitano, o PD ou a Rifondazione Comunista. Tal como as circunlocuções impenetráveis da Primeira República tardia produziram como reacção as cruezas calculadas da Liga do Norte, também nesta ocasião o puritanismo da maior parte da retórica dos girotondi, mais dados a implorar do que atacar ferozmente, fez detonar o seu contrário, uma rudeza exibicionista em imagem e idioma – as gabarolices de quarto de Berlusconi virtualmente convidam a isso – desde comediantes famosos por detestarem a classe política, ao embaraço agudo dos que pareciam os mais bem comportados da praça, mas aparentemente não, a ajuizar pelas sondagens de opinião, até à maior parte do próprio eleitorado de centro esquerda. Politicamente falando, o episódio pode ser lido como uma micro versão da polarização dos anos 70, ansiosas propiciações de cima mais uma vez provocando explosões iradas a partir de baixo. No Outono, tais tensões dissolveram se na torrente de protestos estudantis contra os cortes no financiamento do ensino e a compressão da escolaridade, aprovada pela votação do centro direita e uma – mais limitada – mobilização de sindicatos contra a resposta económica do governo à recessão global. As concessões ganhas são de menos significado do que a escala dos próprios movimentos. Mas esse padrão de retiradas tácticas de Berlusconi e de vagas temporárias de ira popular contra ele não é novo. Como isto se poderia alterar, à medida que pioram as condições económicas, está para se ver. Deixando para trás os perigosos instrumentos do carpinteiro e do agricultor, a esquerda italiana adoptou um símbolo após outro, do reino vegetal ou saído do nada – a rosa, o carvalho, a oliveira, a margarida, o arco íris. Sem algum lampejo de metalurgia, parece pouco provável que faça muito progresso.

[*] o termo italiano não tem a conotação anti intelectual de workerism em inglês, ou ouvriérisme em francês.

[†] L’odore dei soldi, de Marco Travaglio e Elio Veltri (Editori Riuniti, 2001); La scomparsa dei fatti (Il Saggiatore, 2006); Mani sporche, de Marco Travaglio, Gianni Barbacetto e Peter Gomez (Chiarelettere, 914 p., €19.60, 2007, 978 88 6190 002 8); Il bavaglio, de Marco Travaglio, Peter Gomez e Marco Lillo (Chiarelettere, 240 p., €12, 2008, 978 88 6190 062 2).

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