6 de maio de 2012

Figuras de interpelação em Althusser e Fanon

Pierre Macherey

Radical Philosophy


Tradução / O texto que Althusser publicou em 1970 sob o título “Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado”, onde ele expõe a tese da interpelação do indivíduo como sujeito é, sem dúvida, um dos seus textos mais inovadores, mas é também particularmente desconcertante: sua exposição, ao explorar uma retórica que combina elipses e força bruta, acaba construindo um enigma, que o próprio leitor é deixado para decifrar. É em um esforço para ajudar nessa descriptografia que tentaremos confrontar esse texto com Pele negra, máscaras brancas[1], publicado cerca de vinte anos antes. Althusser e Fanon direcionam suas respectivas análises em duas fórmulas de interpelação - “Olhe, um negro!” (Fanon), “Ei, você aí!” (Althusser) - e é interessante comparar uma com a outra como modo de realçar o contraste entre essas duas maneiras de abordar o problema da subjetivação [subjectivation][2].

Ideologia

Vamos primeiro ver como, no texto de Althusser, o chamado “ei, você aí!” é introduzido e interpretado. Tomado em toda a sua trajetória, o raciocínio utilizado no texto – que, não devemos nunca esquecer, é lacunar, mesmo sistematicamente lacunar, se assim podemos dizer[3] – parte de uma tese sobre a reprodução social (“toda formação social para existir, ao mesmo tempo que produz, e para poder produzir, deve reproduzir as condições de sua produção”)[4] para uma tese sobre a ideologia (“a reprodução da qualificação da força de trabalho se assegura em e sob as formas de submissão ideológica”)[5], e a partir daí passamos para uma tese sobre o sujeito (“a ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos”)[6]. É, portanto, o conceito de sujeição ideológica que constitui o pivô dessa sequência argumentativa: a ideologia assujeita, a sua função é assujeitar, desdobrar o processo de subjetivação.

Ao apresentar tudo isso na forma de teses propostas para discussão, Althusser sabia que isso era equivalente a renovar o conceito de ideologia a partir do zero e a lançar uma luz sobre a ideologia que não pode ser encontrada lendo os escritos clássicos de Marx ou seus comentários tradicionais: no que diz respeito à questão da ideologia, a tradição, como Althusser a vê, está de fato encerrada em um impasse. Por que a concepção tradicional de ideologia é insatisfatória? Porque acaba por concebê-la em um sentido defeituoso, por fim, negativo; desse ponto de vista, a ideologia é definida pelo que não é, pelo que deixa de ser, ou, dito de outra forma, pela distância que guarda do real e da sua materialidade, tornando-se um tecido de ilusões, uma cortina de fumaça: nessa perspectiva, a ideologia, como mero “reflexo”, não participa efetivamente do processo de produção social, mas ela se limita a propor, após o fato, uma versão invertida, mistificada, imaginária, que mascara os problemas reais. O que Althusser busca, por fim, é rematerializar a ideologia[7] [rematérialiser l’idéologie], que é a condição sob a qual podemos desenvolver uma concepção positiva dela como um agente efetivo do processo de reprodução social no qual ela está diretamente implicada.

Agora, para atingir esse fim, devemos nos livrar de dois pressupostos sobre os quais repousa a concepção defeituosa da ideologia: o primeiro consiste em privilegiar uma concepção puramente representacional da ideologia que a identifica como uma visão de mundo; o segundo confina as intervenções da ideologia a um papel puramente reativo e repressivo, que a mantém atrás do real e reforça sua caracterização como improdutiva.

Em primeiro lugar, Althusser se propõe a mostrar que, ao contrário do que sugere a palavra que serve para designá-la, a ideologia não se reduz a um sistema de ideias, dominantes ou dominadas, que não muda nada fundamentalmente. É isso que se entende – de uma maneira que, devemos dizer, é obscura à primeira vista – pela decisão de que, ao invés de enfocar as ideologias como concatenações [agencements] de representações, devemos perseguir a questão contra a corrente, a um nível primordial onde o que estamos tratando não é mais esta ou aquela formação ideológica particular, mas a ideologia como tal, “ideologia em geral”, sobre a qual Althusser afirma que “não tem história” e que exibe uma dimensão “oni-histórica”.[8] Em um esforço para rematerializar a ideologia, e reinseri-la no processo de produção e reprodução social, essa maneira de proceder é estranha à primeira vista, na medida em que se refere a uma entidade, a “ideologia em geral”, que se situa em um nível de abstração tal que parece ultrapassar até mesmo a concepção tradicional de distanciar a ideologia do real. O que Althusser ganhar ao falar de ideologia em geral? Ele está tentando fazer um deslocamento da questão da ideologia, propriamente para mudar o seu terreno. Duas hipóteses podem ser apresentadas para caracterizar essa mudança.

Para começar, com referência à categoria de “continente” que desempenha um papel central na epistemologia de Althusser, podemos supor que sua intenção é extrair a questão da ideologia do continente da “história” – no qual foi inscrita pela sua redução a um mero conjunto de concepções de mundo, condenada a seguir as vicissitudes da evolução histórica e comprometida com os conflitos do dia a dia – de modo a transportá-la para outro continente, o continente do “inconsciente”:

nossa proposição: a ideologia não tem história pode e deve (e de uma forma que nada tem de arbitrária, mas que é pelo contrário teoricamente necessária, pois há um vínculo orgânico entre as duas proposições) ser diretamente relacionada à proposição de Freud de que o inconsciente é eterno, isto é, não tem história.[9]

Ao estabelecer essa relação entre ideologia em geral e o inconsciente, e ao enfatizar energicamente, como ele faz aqui, o caráter “necessário” dessa relação, Althusser prepara a concepção “subjetivante” da ideologia que introduzirá um pouco mais tarde, segundo a qual a intervenção da ideologia no processo de reprodução social se reduz à constituição dos indivíduos como sujeitos, constituição para a qual a cena da interpelação constitui a metáfora.

Uma segunda hipótese, que de forma alguma é uma alternativa à precedente: ao substituir uma consideração das ideologias históricas pela da ideologia em geral, que não tem história, Althusser passa de uma concepção gnoseológica, puramente representacional, da ideologia para uma concepção que pode ser chamada de existencial. A ideologia não é uma certa maneira de representar o que existe, historicamente condicionada, mas uma certa maneira de ser ou de fazer ser [faire être] que constitui um incondicionado histórico (Althusser, no entanto, especifica: no horizonte pertencente à história das sociedades de classes).[10]

Aqui, novamente, com a sensação de tatear seu caminho para o desconhecido, ele faz uma declaração um tanto sibilina, que exige a descriptografia:

não são as suas condições reais de existência, seu mundo real que os ‘homens’ ‘se representam’ na ideologia, o que é nelas representado é, antes de mais nada, a sua relação com as suas condições reais de existência. É esta relação que está no centro de toda representação ideológica, e portanto imaginária do mundo real.[11]

Existem, portanto, representações ideológicas, mas os portadores dessas representações não são, em caso nenhum, seus autores responsáveis; “algo é representado para eles”, que é a sua relação com as suas condições de existência. Essa relação é a causa das deformações que acompanham essas representações e, nesse sentido, é imaginária ou pelo menos produtora de efeitos situados no plano do imaginário; mas, por mais imaginário que seja, não é menos real, na medida em que é a forma necessária segundo a qual as condições de vida dos homens se representam, ou talvez seja melhor dizer, se apresentam à consciência, ou seja, para a consciência dos sujeitos cuja admissão devem obrigar. Em outras palavras, por trás de todas essas representações, há, em sua fonte, um processo de apresentação que, para retornar à fórmula que empregamos anteriormente, é uma certa maneira de estar no mundo do qual a ideologia é, em última instância, a causa ou o princípio de condução: essa maneira de estar no mundo é ser-sujeito. A ideologia em geral nada mais é do que esse processo que, segundo a primeira hipótese, mantém uma relação originária com o inconsciente e, consequentemente, é oni-histórica. Se existem representações ideológicas, e se essas representações são imaginárias, é, por assim dizer, no final do processo: elas são os resultados que o processo de ideologização produz no final de seu funcionamento; esses resultados são afetados por um condicionamento histórico já na chegada, mas o processo que lhe deu origem é encenado em outro lugar, que não no terreno da história. Desse ponto de vista, deve-se admitir que a ideologia, antes de assumir a forma de um sistema de visões teóricas, é um comportamento prático, um habitus, poderíamos dizer, para falar como Bourdieu: é por isso que, mesmo que produza efeitos que são imaginários e, como tais, apresentem conotações históricas, é algo totalmente real, como um processo que se desenrola em um outro plano que não o da história ou o da consciência; ele se desenrola no plano do inconsciente, que, por sua vez, não tem história. Então, a ideologia, entenda-se a ideologia como tal, não é, portanto, da ordem da representação, ainda que, no final do processo, se manifeste à consciência na forma de representações: a ideologia não deve ser reduzida a essas manifestações que mantêm uma relação distorcida e, portanto, negativamente marcada com o real; mas deve ser concebida, de um ponto de vista positivo, como o próprio processo, totalmente real, que está na origem dessas manifestações na consciência, a saber, o processo de subjetivação.

Dado este primeiro ponto, passemos ao segundo pressuposto, que diz respeito à concepção da ideologia como reativa e repressiva. No artigo publicado na La Pensée em 1970, e mais tarde reimpresso sem modificações na coleção Positions, o tema é abordado apenas de passagem; no manuscrito original do qual o texto foi extraído, sob o título de “Représsion et idéologie”, entretanto, ele é o objeto de uma longa discussão, que se segue imediatamente a passagem que explica como a ideologia não tem história. Esse desenvolvimento começa da seguinte maneira:

A vantagem dessa teoria da ideologia... é mostrar-nos concretamente como “funciona” a ideologia em seu nível mais concreto, no nível dos “sujeitos” individuais, isto é, dos homens tais como existem, em sua individualidade concreta, em seu trabalho, sua vida cotidiana, seus atos, seus compromissos, suas hesitações, suas dúvidas, assim como em suas mais imediatas evidências.[12]

A referência ao concreto enfatiza, por contraste, o caráter abstrato da concepção repressiva da ideologia, que a reduz a obstáculos [blocages] que supostamente desviam os agentes históricos do pensamento e, eventualmente, da ação em um sentido determinado. Mas a ideologia, sob a condição de ser rematerializada, se apresenta, não de uma maneira restritiva e reativa e consequentemente defeituosa, mas, pelo contrário, como aquilo que nos faz agir e pensar “concretamente”; a sua ação é fundamentalmente constitutiva e, portanto, como acaba de ser demonstrado, existencialmente determinante: no plano das ideias e dos comportamentos, na medida em que ambos são assumidos e suportados por “sujeitos”, ela gera produtos de sua operação os quais ela configura de um modo real. O seu estatuto não é constativo, mas performativo.

Note-se de passagem que, quando desenvolve essa concepção da ideologia, que lhe devolve um papel positivo no processo social, Althusser opera, no plano da teoria marxista, uma viragem que não deixa de se assemelhar àquela em que, sobre um outro plano, Foucault está empenhando no mesmo momento. Sem dúvida, Foucault não se interessa pela questão da ideologia, que considera estar fundamentalmente mal colocada e que é incapaz de ser posta de pé. Porém, se concordarmos em olhar para além das palavras, veremos que aquilo que Althusser almeja sob a rubrica de “ideologia em geral” apresenta um certo número de pontos em comum com o que Foucault, por sua vez, busca pensar a partir do conceito de norma [norme], que, tal como o conceito de ideologia de Althusser, serve para designar um processo de sujeição.[13] O que significa estar sujeito à normas? Isso representa a operação pela qual alguém se constitui como sujeito das normas, a cujo chamado esse sujeito responde conformando-se em acordo à uma racionalidade que vai trabalhar silenciosamente, sem ser notada, porque conseguiu penetrar completamente as mentes e os corpos e assim governá-los: a noção de “biopoder”, introduzida por Foucault, pode ser interpretada nesse sentido, precisamente para entender como aquilo que ele chama de “sociedade da norma”[14] instaura modos de racionalização da vida social que transformam fundamentalmente as condições de exercício da autoridade, de tal maneira que ela não mais assume o aspecto de uma coerção formal de tipo repressivo. Podemos concluir que, o que Althusser está tentando fazer pelo conceito de ideologia, Foucault está, por sua vez, tentando fazer pelo conceito de norma – nomeadamente, mostrar que o que está implicado no termo em questão são lógicas práticas de comportamento, modos de agir, e não sistemas formais de representação que constituem uma ordem à parte da realidade social, com a qual, em meio a transcendência e a proibição, mantém uma relação meramente externa. À questão de saber “o que acontece” a um indivíduo que vive “na ideologia”, Althusser responde, desse ponto de vista, que “este conduz-se desta ou daquela maneira, adota este ou aquele comportamento prático”[15]. O que é determinante na “ideologia”, é que ela faz agir: ela se encarna em atos e, como Althusser especifica um pouco mais adiante, esses atos “se inserem nas práticas”[16], ou seja, nas práticas coletivas, socialmente ordenadas. Essas práticas são acompanhadas de ideias, que pretendem dirigi-las, quando, na realidade, são as próprias práticas que determinam a orientação dessas ideias. Daí esta consequência:

As idéias desapareceram como tais (enquanto dotadas de uma existência ideal, espiritual), justamente na medida em que ficou patente que sua existência estava inscrita nos atos das práticas regulamentadas pelos rituais definidos, em última instância, por um aparelho ideológico.[17]

Nessas condições, alguém poderia perguntar se o termo “ideologia”, formado a partir do substantivo “ideia”, ainda é pertinente: se Althusser o manteve, enquanto lutava para torcer o seu significado, é, sem dúvida, por uma preocupação de permanecer na esteira da “teoria marxista”, mesmo que ele tenha proposto uma versão fundamentalmente heterodoxa dela, uma preocupação que é estranha a Foucault.

Interpelação

Passemos agora a “cena” da interpelação que Althusser emprega no que ele chama de “nosso pequeno teatro teórico”[18], a fim de fornecer uma apresentação concreta da teoria da sujeição que lhe permitiria conceber uma concepção positiva, constitutiva e produtiva e, portanto, não exclusivamente representacional e repressiva, da ideologia:

Sugerimos então que a ideologia “age” ou “funciona” de tal forma que ela “recruta” sujeitos dentre os indivíduos (ela os recruta a todos), ou “transforma” os indivíduos em sujeitos (ela os transforma a todos) através desta operação muito precisa que chamamos interpelação, que pode ser entendida como o tipo mais banal da interpelação policial (ou não) cotidiana: “ei, você aí!”.

Supondo que a cena teórica ocorre na rua, o indivíduo interpelado se volta. Nesse simples movimento físico de 180° ele se torna sujeito. Por que? Porque ele reconheceu que a interpelação se dirigia “certamente a ele”, e que “certamente era ele o interpelado” (e não outro).[19]

Nessas poucas linhas, como pode acontecer em um palco de teatro em um momento de crise, onde a ação chega ao seu ápice, tudo faz sentido.

Antes de mais nada, chama a atenção o fato de a operação ideológica da interpelação ser algo comum, banal, ordinário, ou seja, não tem um caráter excepcional, o que é ilustrado pelo de fato de que ela pode acontecer “na rua”. Uma consequência disso, explica ainda Althusser, é que ela “praticamente jamais deixa de atingir seu homem”[20], e apresenta assim um caráter universal: é por isso que, tendo dito que a ideologia “recruta” indivíduos como sujeitos, ele imediatamente corrige a formulação especificando que ela recruta todos – o que, de imediato, retira desse recrutamento o fascínio de um procedimento seletivo que classifica as pessoas entre aquelas que são dignas de se tornarem sujeitos e aquelas que não o são. Na ideologia, todos são “chamados”, e não há como escapar disso. É por isso que, na medida em que se trata de um procedimento de identificação, que leva a constatação de que “é ele mesmo”, seria inapropriado reduzi-lo ao modelo estrito de um controle policial da identidade, que apresenta, em um cenário de culpabilidade, um caráter sobretudo repressivo, no contexto de uma caçada que pode conduzir à uma sanção e a um rebaixamento. Se a ideologia interpela, é lançando um chamado que se dirige a todos e a que todos, sem exceção, não só devem responder, mas responder efetivamente, assumindo, “reconhecendo”, que eles tem de se posicionar de acordo com as formas que o chamado destina para eles, de tal maneira que eles não são livres para ignorá-la, não aderindo completamente a ela: nesse caso particular, a resposta está, de certo modo, contida na pergunta, sem possibilidade de evasão e assim o comportamento desencadeado pelo envio da mensagem parece ser seguido automaticamente.[21]

Em segundo lugar, deve-se notar que o procedimento de interpelação, diretamente associado ao envio de uma mensagem, é apresentado de imediato como um ato de linguagem [fait de langage], do qual extrai precisamente o seu caráter universal, isto é, a sua tendência para saturar o campo em que intervém.[22] Se os indivíduos são ideologicamente assujeitados, é na e através da linguagem que oferece ao seu ser-sujeito a sua estrutura comum e universal de recepção: os sujeitos “têm lugar” na linguagem no duplo sentido de que eles vêm a ser, precisamente ao ser do sujeito, no campo da linguagem e que este campo lhes abre o espaço onde são chamados a tomar o seu lugar. Ao sustentar que só existe sujeito na e através da linguagem, Althusser se inscreve na linhagem de Lacan, relido à luz de Deligny, de quem retoma a ideia de que é o simbolismo da linguagem que dá conta de explicar a constituição dos indivíduos em sujeitos, ou seja, o seu recrutamento, estabelecimento, identificação como sujeitos tendo já o seu lugar traçado no interior de sua ordem, uma ordem que, ao invés de ser imposta do exterior em nome de um constrangimento negativo e repressivo, faz deles o que eles são, os produz como sujeitos da linguagem, ou sujeitos na linguagem, existindo como sujeitos na medida em que ocupam o lugar que lhes pertence ou que lhes é atribuído no campo da linguagem.[23] Note que quando Foucault apresenta a ideia de uma “ordem do discurso”, que prepara sua própria teoria da subjetivação, ele o faz de uma perspectiva bem próxima a essa.[24]

Em terceiro lugar: o chamado para entrar e ocupar um lugar no campo da linguagem, assume, no quadro alegórico da cena da interpelação, a forma de uma mensagem na qual todas as palavras foram cuidadosamente pesadas: “Ei”, a interjeição que lança a mensagem, apresenta o fascínio de uma convocação urgente, cujo envio desencadeia como reação um movimento na direção oposta, uma virada de 180°, ou seja, um gesto que, tacitamente, significa que o chamado foi, com certeza, de fato ouvido, ou seja, que a necessidade urgente de responder foi respeitada. “você” é a própria palavra da identificação: ela designa o fato de que a mensagem, longe de ser lançada no vazio, é programada, tal como o drone das operações militares, de modo a atingir o objetivo preciso que visa, a saber, se assim se pode dizer, um “você”, qualquer um que seja dotado da capacidade de autenticar a pertinência do chamado com a fórmula “sim, sou eu”, ou seja, um sujeito, um verdadeiro sujeito. Finamente, “aí” assinala a distância aberta em um espaço que contém lugares a ocupar, lugares que, como o seu próprio nome indica, “ocorrem” num campo maior no interior do qual estão dispostos uns em relação aos outros, de tal maneira que se é sempre um sujeito à distância, precisemos: a uma certa distância que permite localizar a posição de sujeito que é chamado a ocupar: ser sujeito, nesse sentido, é assumir uma posição em um campo.

Finalmente, uma última observação, a mensagem assim formulada tem a forma de um enunciado. Um enunciado estranho, de fato! Destinado a qualquer um fora do palco, não parece ele mesmo ser dirigido por alguém, o que dá a distância que acabamos de discutir uma aparência quase fantástica. De onde o chamado é lançado? Quem o lançou? Não sabemos, e o chamado retira justamente sua força persistente dessa mesma ignorância. A voz que enuncia a mensagem não é a voz de alguém; não é a voz de um sujeito; ou pelo menos, se esta voz tem um sujeito, este não é diretamente identificável. Na sequência do texto, onde Althusser toma a ideologia religiosa cristã como exemplo[25] para ilustrar sua teoria da interpelação, ele escreve:

A interpelação dos indivíduos como sujeitos supõe a “existência” de um Outro Sujeito, Único, e central, em Nome do qual a ideologia religiosa interpela todos os indivíduos como sujeitos. Tudo isto está claramente escrito no que justamente se chama a “Escritura”: “Naquele tempo, o Senhor-Deus (Jeová) falou a Moisés das nuvens. E o senhor chamou Moisés: “Moisés!” “Sou (certamente) eu!, disse Moisés, eu sou Moisés teu servo, fale e eu escutarei!” E o Senhor falou a Moisés, e lhe disse: “Eu sou Aquele que É”.[26]

Toda a questão consiste em saber se este “Outro Sujeito”, a quem Althusser chama mais tarde de “o Sujeito por excelência”, ainda é um sujeito. Podemos duvidar disso: quando Deus “falou” a Moisés, ele o fez escondendo-se na nuvem; e, para se identificar, fez uso de uma pirueta, contendo-se em declarar “Eu sou Aquele que É”, o que, tomado literalmente, não significa nada, mas em virtude de um excesso em vez de uma deficiência. Em todo caso, por qualquer lado que o vejamos, esse Outro Sujeito, de cuja parte a mensagem é enviada, é um sujeito oculto, um Deus absconditus, cujo paradeiro, ou quem ele é, no sentido da existência ordinária, são desconhecidos, o que é a chave para a sua radical alteridade. Na cena da rua, que é a versão profana da interpelação, esse caráter transcendente e estritamente anônimo da voz através da qual o chamado é lançado é traduzido pelo fato de que ele é dirigido para a pessoa que ela constitui em sujeito por trás, falando pelas costas, que é precisamente o que torna ela um incitamento para se virar.[27]

A teoria da interpelação não para por aí, porque Althusser explica em seguida que os sujeitos da interpelação não se tornaram, propriamente falando, sujeitos como resultado da interpelação, no fim de um processo temporal que se desdobra de sua causa em direção aos seus efeitos, porque eles são “sempre já sujeitos”[28], o que contradiz literalmente a apresentação da cena da interpelação: isso equivale a dizer que o chamado não é realmente responsável pela operação de se virar que constitui o sujeito, essa operação já é realizada antes mesmo de a mensagem ter sido endereçada, de tal maneira que, não só a resposta é automaticamente desencadeada pela pergunta, como também a antecipa; é como se a pergunta fosse feita a posteriori, o fato de ter sido formulada depois tem o caráter de mera confirmação (nesse caso, o chamado tem simplesmente o caráter de lembrete). Mas deixemos de lado, por um momento, esse ponto difícil, que é capital, e que trataremos no final; e, tendo em conta a cena da interpelação tal como foi narrada anteriormente, confrontemos ela, com vista a melhor especificar suas características, com a cena bastante diferente narrada e comentada por Fanon em Pele negra, máscaras brancas, cujo significado está concentrado na reação: “Olhe, um negro!”

Cara a cara

Pele negra, máscaras brancas, publicado em 1952 na coleção “Esprit” na Éditions du Seuil, com prefácio de Francis Jeason, um amigo próximo de Sartre, não é nem uma obra de filosofia nem de teoria política: o seu autor, Frantz Fanon (1925-1961), afirma que tinha planejado fazer dela a sua tese de Medicina. Foi parcialmente composta no ambiente excepcional do hospital Saint-Alban onde, após os seus estudos de medicina em Lyon, Frantz Fanon residiu por dois anos: foi lá que ele fez o seu estágio como chefe de clínica [chef de clinique]; mais tarde, depois de obter a sua titulação, ele foi destacado para o hospital psiquiátrico de Bilda, o início de sua carreira argelina que mais tarde o levou a engajar-se com a FLN [Frente de Libertação Nacional]. [29]

Obra escrita por um médico, Pele negra, máscaras brancas estuda, em um estilo incomum entre os acadêmicos, um “caso” que Fanon, ele próprio negro de origem antilhana, tinha experenciado diretamente: o de ser, não um sujeito em geral, mas um sujeito de um tipo totalmente particular, um sujeito “de cor”, exposto, a todo momento, a ficar cara a cara com a interjeição “olhe, um negro!”, isso desencadeia nele o fenômeno da “dupla consciência”, tal como descrito em 1903 pelo teórico americano William E. Du Bois, que era ele mesmo um negro de origem haitiana, no seu livro As almas do povo negro[30] [Les âmes du peuple noir]. O livro de Du Bois começa da seguinte forma:

Encontram-se soterradas aqui muitas coisas que, se lidas com paciência, podem relevar o estranho significado de ser negro, na alvorada do século XX.[31]

Cinquenta anos mais tarde, Fanon considera que as análises de Du Bois ainda são validas, e que “ser Negro” [être Noir], um fenômeno mais do que nunca marcado pela sua “estranheza” [étrangeté], continua a constituir um problema, e mais precisamente, um problema mental ao qual a medicina psiquiátrica pode ser chamada a investigar.

A interjeição “olhe, um negro!”, como Fanon a menciona em seu livro, não é encenada no que Althusser chama de um “pequeno teatro teórico”. Fanon fixa a sua atenção nela porque a ouviu na vida real, porque foi endereçada a ele pessoalmente. Veja como ele relata essa experiência traumatizante no capítulo V do seu livro, intitulado “A experiência vivida do negro”:

"Olhe, um negro!" Era um estímulo externo que me futucava de passagem. Eu esboçava um sorriso. “Olhe, um negro!” Era verdade, eu me divertia. “Olhe, um negro!” O círculo pouco a pouco se estreitava. Eu me divertia abertamente. “Mamãe, olhe o negro, estou com medo!” Medo! Medo! E eis que agora eu era temido. Queria me divertir com isso até engasgar, mas isso se havia tornado impossível para mim.[32]

O que é mais marcante nessa exposição é que ela sublinha a progressividade do processo pelo qual se instala – na mente de quem, aqui, diz “eu” – o sentimento de que ele não é um sujeito como os outros, mas que é um sujeito com algo mais, ou talvez devêssemos dizer algo menos, porque o mais em questão é a cor, uma característica que é negativamente conotada, como ausência do sem cor [absence d’incoloration]: parte-se de uma observação, ligada à intervenção de um estímulo exterior que é o olhar de um observador sobre o seu corpo e sobre a sua pele, observação que inicialmente tem um valor objetivo; depois se desenvolve, na mente da pessoa que experimenta essa provação, uma tensão psíquica crescente, que vai do divertimento, que é uma forma de aceitação, ao sentimento de que há ali algo de inaceitável, algo estritamente insuportável, pelo menos em condições normais. É como se o sentido da frase penetrasse, pouco a pouco, a pessoa que, por assim dizer, a recebe de frente, na cara, até que finalmente ela tomasse posse completa dele, o transindo. O sujeito que emerge do desenrolar desse processo não é, como aquele de que Althusser fala, um sujeito que se virou, mas um sujeito duplo, divido entre a necessidade de dizer sim (“era verdade”) e o desejo de dizer não (“isso se havia tornado impossível para mim”), uma espécie de double bind que deveria ser objeto de uma análise especifica, na medida em que é virtualmente um portador de efeitos patológicos.

“Olhe, um negro” é, como “Ei, você aí”, uma sequência linguística. Mas, em um olhar mais atento, o seu estatuto é completamente diferente. A fórmula althusseriana da sujeição tira sua eficácia de seu caráter puramente verbal: ela é lançada por trás de uma fonte que escapa sistematicamente ao olhar (quando Deus fala a Moisés escondendo-se na nuvem, a sua presença é resumida apenas a sua voz). “Olha, um negro!”: essa frase é dita na cara e é o prolongamento de um olhar cujo veredito apenas explicita, um veredito irrevogável na medida em que é apresentado desde o início como uma mera observação cuja neutralidade não pode ser posta em questão; no limite, as palavras nada mais fazem do que traduzir a impressão sentida, podendo as vezes até não serem pronunciadas, e é isso o que acontece mais frequentemente, a surpresa que a interjeição “olha!” reproduz é, antes de mais nada, um efeito de postura, por exemplo, um movimento de recuo, que fala por si. Para Althusser, o sujeito é definido pelo lugar que ocupa no espaço da linguagem, o seu estatuto depende da ordem do dizível; para Fanon, porém, o sujeito, ou pelo menos esse sujeito ao contrário dos outros que é o sujeito de cor, é constituído como tal na ordem do visível, em plena luz, por assim dizer, e isso muda tudo.

Salta aos nossos olhos o que essencialmente diferencia as duas cenas de interpelação. A análise de Fanon se apresenta como um encontro cara a cara: muito concretamente, é um encontro entre um homem de cor e uma criança branca que, aliás, dirige a sua resposta “olhe, um negro!”, não para quem deu a ele o pretexto, mas para a sua mãe, em cujos braços busca refúgio para se proteger contra um evento inesperado que ele parece interpretar espontaneamente como uma ameaça potencial (na realidade, essa interpretação nada tem de espontâneo). Althusser organiza o dispositivo da sua cena de interpelação de maneira a não deixar espaço para esse tipo de troca, cuja forma primordial não é um diálogo verbal, mas uma simples troca de olhares que se cruzam, por um lado, o olhar da criança que repousa sobre a pele negra do homem que o encara, e, por outro lado, o olhar que este último tem, não propriamente sobre a criança, mas sobre o olhar da criança, um olhar que ele vê e através do qual ele se vê como “um negro”, isto é, o representante de uma essência que carrega a marca, o estigma, da estranheza, ou seja, de uma absoluta, irremediável, alteridade.

Por isso mesmo compreendemos melhor qual o objetivo perseguido por Althusser ao construir sua teoria da subjetivação: ele a fez de modo a esvaziá-la de tudo o que pudesse se assemelhar a uma relação intersubjetiva, do tipo, por exemplo, daquela representada, para Fanon, pelo encontro entre dois olhares que se cruzam. As consequências dessa escolha são capitais: o resultado é que alguém se torna sujeito, por assim dizer, sozinho, e nem mesmo por meio desse tipo de encontro cara a cara consigo mesmo que constitui em Lacan o episódio do estádio do espelho[33]; enquanto que, com Fanon, alguém só se torna esse sujeito, diferente de qualquer outro que é o homem de cor, ao entrar em relação com os outros, por exemplo, essa criança assustada com a presença de alguém que, em retorno, sob o peso desse olhar que fixa ele, nesse duplo sentido que o toma como alvo e que lhe atribui um lugar[34], produz a – em todos os aspectos estranha – experiência do que é “ser negro”.[35] A teoria althusseriana da subjetivação se serve das contribuições da psicanálise como antídoto aos ensinamentos da fenomenologia, que se inscrevem na perspectiva da intersubjetividade e desenvolvem a partir daí uma concepção do “eu como um outro”, ou seja, o eu tal como ele se reconhece no olhar do outro. A psiquiatria tal como Fanon a pratica mantém com a psicanálise uma relação distante[36]: o que é certo é que, do seu ponto de vista, a situação traumatizante resumida na reação “olhe, um negro!”, que faz intervir uma relação com o outro, uma situação que, como vimos, se dá em plena luz, traz a consciência para o primeiro plano e não pressupõe nenhuma referência a um inconsciente[37], ou pelo menos ao que poderíamos chamar um inconsciente subjetivo, ou o inconsciente de um sujeito.[38]

Deste ponto de vista, parece que as duas posições teóricas não poderiam ser mais claramente separadas. Por um lado, encontramos em Althusser uma concepção do processo de subjetivação que se pretende “científica”, ou seja, objetiva, e em consequência não-subjetiva, isto é, não atolada nos pressupostos inconscientes que poluem a consciência do sujeito e deturpam a sua posição, combinando reconhecimento e desconhecimento [méconnaissance]: tais pressupostos desviam a atenção do lugar onde a posição de sujeito realmente ocorre, a saber, a ordem linguística do simbólico onde só há lugar, na melhor das hipóteses, para uma relação com o Outro com letra maiúscula (relação vertical), mas certamente não para o outro com letra minúscula (relação horizontal): o primeiro efeito do chamado lançado de fora do palco é isolar quem o recebe, suspendendo as relações que ele poderia ter com outras pessoas.[39] Por outro lado, com Fanon, encontramos uma concepção desse processo de subjetivação desenvolvida à luz da experiência particular, experiência no sentido mais forte do termo subjetivo, que um homem de cor pode vir a ter de seu “ser negro” (ou “amarelo”, ou “vermelho”, pouco importa, tudo menos “branco”, o “branco” não sendo supostamente uma cor, mas a marca do sem cor); esta concepção, que procura aproximar-se o mais possível dos dados da experiência vivida, do “sentimento” dessa experiência dramática, confere um lugar central à relação que, no contexto determinado do colonialismo, se estabelece entre sujeitos que se reconhecem entre si, o que parece permitir interpretá-la em termos de intersubjetividade como a encontramos em Hegel relido pelo prisma da fenomenologia. Para resumir esquematicamente essa oposição, Althusser é o anti-Ricoeur, algo que não se pode dizer de Fanon.[40]

No entanto, não é possível parar por aí. Fanon, que não era um filósofo de formação, mas um médico (muito) interessado em filosofia, era um espírito livre, cuidando para não se inscrever em nenhuma tradição determinada: ele se valeu de referências teóricas de onde quer que elas viessem, sejam elas de Hegel[41], Freud, Sartre ou outros teóricos (brancos), sem se obrigar a respeitar ao pé da letra seus sistemas de pensamento. Em um exame mais profundo, parece que a sua apresentação da temática da intersubjetividade como forma de reconhecimento é mais distorcida: quando se refere a ela, não é como um modelo, dotado com seu próprio manual de instruções e pronto para uso, mas como uma hipótese de trabalho cuja aplicação ao “caso negro” nos permite criticá-la e, no limite, invalidá-la.[42] No início do capítulo de Pele negra, máscaras brancas dedicado à “experiência vivida do negro”, Fanon aponta:

Enquanto o negro estiver em seu lar, não precisará, exceto por ocasião de lutas internas de menor gravidade, pôr seu ser à prova de outrem. É óbvio que existe o momento de “ser para o outro”, de que fala Hegel, mas qualquer ontologia se torna irrealizável em uma sociedade colonizada e civilizada. Isso parece não ter recebido atenção suficiente daqueles que escreveram sobre a questão. Existe, na Weltanschauung de um povo colonizado, uma impureza, uma tara que impugna qualquer explicação ontológica. Talvez possam objetar que o mesmo acontece a qualquer indivíduo, mas isso significaria mascarar um problema fundamental. A ontologia, quando se admite de uma vez por todas que ela deixa de lado a existência, não nos permite compreender o ser do negro. Pois o negro já não precisa ser negro, mas precisa sê-lo diante do branco.[43]

O que Fanon quer dizer é que a palavra “ser”, que designa o objeto próprio da ontologia, muda de sentido quando se dirige a alguém que não é apenas um sujeito puro e simples [tout court], sentir-se-ia tentando a dizer um sujeito normal, mas um sujeito que, além disso, preenche as condições que lhe permitem ser rotulado como negro, no quadro da relação com os outros própria ao contexto colonial, um tipo de relação que não se reduz aos critérios ordinários da análise ontológica: com efeito, na figura singular conotada pela designação “ser negro”, ser não é apenas ser, mas é também de um certo modo não-ser, ser em falta. Mas o que é que está faltando? O que falta é aquela marca irrefutável, indelével, do sem cor que seria a brancura. O que a experiência vivida do negro revela é, portanto, o limite contra o qual esbarra a especulação sobre o ser enquanto ser, que é incapaz de dar conta do que é “ser” neste caso específico em que o ser também é ser enquanto não-ser [être en tant qu’on n’est pas], o que não é de todo a mesma coisa.

É por isso que Fanon, ainda que de maneira totalmente diferente de Althusser, se distancia do tema da intersubjetividade no sentido hegeliano de “ser para o outro”: se ele explora a categoria do reconhecimento, é com o propósito de contestar suas apostas mais básicas. De fato, a interpelação projetada por uma criança de pele clara para um homem de pele escura, “olhe, um negro!”, ainda que formalmente ocorra no contexto de um encontro cara a cara onde dois olhares se cruzam à vista de todos, pressupõe um pano de fundo que está repleto de impensado e não dito. É isso que explica o fato de que, como observamos, a interpelação nem precisa ser explicitamente verbalizada para produzir os seus efeitos. Mas temos de ir mais longe: no caso em que o chamado “olhe, um negro!” é de fato pronunciado pela criança, é ela mesma quem está falando? Ela não é apenas o porta-voz ou o eco de uma observação da qual ela mesma não é a autora, e que não sai de sua boca de forma espontânea, mas que foi ditada por outra voz, uma voz que permanece silenciosa? E essa outra voz, que fala através dela, manipulando-a como num ato de ventríloquo, é realmente a voz de alguém, a voz de um sujeito identificável e localizável? Parece antes que esta voz, cuja fonte está oculta, exibe um caráter impessoal, e que a sua função não é a de comunicar uma mensagem transferindo-a de um emissor para um receptor.

É uma voz anônima, que usa o corpo que possui como ressonador, tornando vã a tentativa de responsabilizar alguém em particular: pode-se ser tentado a dizer, em uma linguagem diferente da de Fanon, que é a própria voz da ideologia que transmite os pensamentos e as palavras a serem expressas, submetendo-as a estereótipos pré-fabricados que estão destinados a serem refeitos de maneira automática. Sob essa hipótese, já não faz sentido falar de intersubjetividade: o encontro entre duas pessoas frente a frente é apenas uma ocasião para a reprodução de um modo relacional cujas formas já estão fixas, em condições que a ontologia tradicional é incapaz de dar conta. É esse modo relacional que deve ser examinado em primeiro lugar, tarefa que Fanon realiza com os meios que a filosofia lhe fornece.

A situação

Fanon estudou filosofia por conta própria. O único ensino regular que teve nesta disciplina consistiu nos cursos sobre a psicologia da criança que Merleau-Ponty ministrava na Faculté des Lettres de Lyon na altura em que aí estudava medicina, cursos que ele frequentou como ouvinte. Além disso, lia, lia muito, buscando em suas leituras filosóficas algo que pudesse utilizar para elucidar uma questão que, entre outras, o preocupava: o que é, exatamente, ser negro? Como o fato de carregar o qualificativo “negro” modifica fundamentalmente o fato do “ser”, a ponto de virar de cabeça para baixo o projeto de uma ontologia? Em meio a todas essas leituras, uma teve para ele uma importância decisiva: Réflexions sur la question juive que Sartre publicara em 1946, e que é citado e comentado longamente em Pele negra, máscaras brancas.[44] Para Fanon, parecia que as análises de Sartre sobre a questão do que é exatamente “ser judeu”, isto é, ser percebido e “reconhecido” como judeu, poderiam ser transpostas para aquela de saber o que é “ser negro”, ou seja, na linguagem de Fanon, ser “fixado” como negro.[45]

Em primeiro lugar, Fanon ficou claramente impressionado com a capacidade excepcional de Sartre de reconstruir, como se fosse de dentro, a concretude vivida de uma experiência, seja aquela ligada ao fato de ser judeu, ou aquela ligada ao fato de ser queer como Genet, ou o de ser um burguês que se refugiou na arte como Flaubert etc.: e quando Fanon evoca o jogo de olhares que se cruzam cuja lição se concentra na reação “olhe, um negro!”, ele o faz em um estilo que poderia ser chamado de sartreano, com a nuance, porém, de que é o seu próprio caso que ele está estudando, o do “negro”, enquanto que, quando Sartre fala do judeu, é na medida em que ele próprio não é judeu, que é o que lhe permite desenvolver a consciência tética da condição judaica à qual o próprio judeu não se inclina espontaneamente (e o mesmo vale para o queer, o burguês que se refugia na arte etc.) Mas Sartre não exerceu somente uma influência estilística em Fanon, nutrida pelo fascínio pelo “vivido” que é a marca da especulação fenomenológica. Ele também lhe trouxe um certo número de conceitos, que lhe permitiram apoiar em novas bases o problema que o preocupava.

O mais importante desses conceitos, que cumpre uma função central em Sartre e dá ao seu “existencialismo” sua dimensão específica, dimensão que não encontraríamos equivalente em outros filósofos também catalogados como existencialistas, Kierkegaard ou Gabriel Marcel por exemplo, é o de “situação”. Não se é judeu, nem negro, nem, no limite, nada (homossexual, mulher, artista, ladrão etc.) em um sentido absoluto, em termos de estar em si, mas sempre em uma situação, isto é, em um plano que é tanto o ser para si quanto o ser para os outros, em um determinado contexto histórico. “Ser negro” ou “ser judeu” não é uma determinação primária, objetiva, capaz de ser identificada isoladamente como se tivesse algum tipo de valor por si só, mas é o produto de uma determinada situação – no caso analisado por Fanon, uma situação em que o olhar do homem de cor corre o risco de cruzar com o da criança branca aterrorizada, que, refugiando-se nos braços da mãe, significa a sua diferença irredutível, transformada por uma marca de infâmia. Uma situação é um conjunto complexo de relações que confrontam as pessoas umas com as outras em um contexto no qual suas relações são predeterminadas, ou seja, chamadas a ter lugar em uma determinada ordem ou para responder a certas normas. É, portanto, uma combinação paradoxal de liberdade e necessidade que, vista do ângulo da liberdade, é instável e, vista do ângulo da necessidade, é regulada por um condicionamento histórico que se desdobra em um plano que não é o das intenções individuais, porque repousa sobre a organização global da sociedade. Por exemplo, não se é negro sozinho, diante de si mesmo, mas no quadro próprio de uma sociedade colonial, onde se exerce uma certa forma de dominação que instala o branco numa posição de superioridade: fora dessa situação de tipo muito particular – que é o resultado de uma evolução, e sobre a qual Fanon pensa que só uma revolução, mesmo uma revolução violenta, pode pôr fim[46] – o pressuposto segundo o qual o branco não é uma cor, as únicas cores sendo preto, ou amarelo, ou vermelho etc., para não falar dos homenzinhos verdes descendentes de Marte, esse pressuposto se desmorona, perde toda a sua credibilidade e deixa de se impor com as marcas da evidência.

Antes de prosseguir, voltemos à questão da subjetivação da qual partimos. Revisitada à luz do conceito de situação, ela apresenta um outro aspecto, que nos obriga a afirmar que nunca se é sujeito puro e simples, ou sujeito em sentido absoluto, mas apenas sempre sujeito em situação, em situação colonial ou imperial, por exemplo, como no caso estudado por Fanon. Como resultado, Sartre escreve a propósito da condição judaica, que a posição do sujeito é “sobredeterminada” [surdéterminée]:

[...] A raiz da inquietação judaica é aquela necessidade pela qual o judeu se interroga incessantemente e finalmente toma o lado de um personagem fantasmagórico, desconhecido e familiar, impalpável e íntimo, que o persegue e que não é outro senão ele mesmo, ele mesmo como ele é para o outro. Pode-se dizer que é assim com todo mundo, que todos temos um personagem familiar que nos é íntimo e que nos escapa. Claro: isso não é, no fundo, senão nossa relação com o Outro. Mas o judeu, como nós, tem um personagem e, além disso, é judeu. O que está em jogo, para ele, é algo como uma reduplicação da relação fundamental com o outro. Ele é sobredeterminado.[47]

Em casos como o de “ser judeu” ou “ser negro”, é impossível ser simplesmente um sujeito no sentido geralmente implicado pelo fato de estar em relação ao outro e estar exposto ao seu olhar: ser sujeito implica uma referência a algo mais, um suplemento do ser que é sinalizado na passagem de Réflexions sur la question juive pela fórmula “além disso”. Esse aspecto da questão da subjetivação parece ter escapado a Althusser, que o descartou com o mesmo gesto com que se distanciou das considerações da intersubjetividade, sem compreender que, revisitado à luz de um conceito como o de situação, assume uma significação totalmente diferente daquela implicada pela relação ordinária com o outro teorizada pela fenomenologia. E foi isso, sem dúvida, o que levou Althusser, para dar conta do ser-sujeito como o fez com sua teoria da interpelação, a privilegiar a dimensão vertical, transcendente e, como Butler justamente diagnostica, religiosa da operação pela qual alguém se torna um sujeito[48], não em geral ou em sentido absoluto, mas em uma situação. Agora, o que muda dizer que alguém se torna sujeito em uma situação? A consequência disso é que, como acabamos de dizer, nunca alguém se torna um sujeito puro e simples, mas um sujeito “sobredeterminado”, ou seja, um sujeito qualificado de acordo com as normas da situação e, portanto, um sujeito de certo tipo, moldado pela lógica própria desse tipo – por exemplo, no caso examinado por Fanon, um sujeito suporte do “ser negro”, mas também poderia ser um sujeito masculino ou feminino, um velho ou jovem, gordo ou magro, loiro ou moreno, grande ou pequeno, inteligente ou estúpido, rico ou pobre, heterossexual ou homossexual, ariano ou não-ariano, ou mesmo – por que não? – um sujeito cru ou cozido. Qualquer tipo, sejam suas conotações físicas ou culturais, são determinados pela relação que mantém com outro tipo: os tipos e suas diferenças se constituem em situação. É por isso que nunca se é um sujeito no sentido geral da ontologia, mas um certo tipo de sujeito, por exemplo, alguém que, além de ter que responder “sou eu mesmo” à interpelação que lhe é lançada de trás e/ou de cima, tem que reconhecer “sim, eu sou um negro” como foi compelido a fazer pelo olhar que recai sobre seu corpo escuro por uma criança pertencente à raça pálida dos colonizadores. Ser negro não é simplesmente ser um sujeito, mas ser um sujeito com algo mais (ou menos), que não pode ser conotado como tal – que não pode ser “reconhecido” ou “fixado” – a não ser no contexto próprio da situação que, no caso do colonialismo, é uma relação de dominação. A pergunta que deve ser feita, e que Althusser não faz, é se essa análise se aplica ou não a todos os casos, ou seja, ser sujeito nem sempre é ser sujeito qualificado, padronizado, sujeito para e sob normas, imediatamente identificados segundo critérios impostos pela situação (critérios segundo os quais se é branco ou não, ou mais geralmente dentro da norma ou fora da norma), critérios que extraem simultaneamente sua legitimidade (aparente) e sua eficácia (real) da situação. Segundo Althusser, a operação ideológica recruta todos os sujeitos sem exceção: mas ele não diz que, se ela inscreve todos em seus registros, o faz no quadro de uma operação que, no entanto, é uma operação de seleção, e que é capaz de tomar a forma de rebaixamento; sem dúvida, todos são chamados a “ser” sujeitos, mas não sujeitos da mesma espécie, não qualificados segundo critérios que os tornariam todos iguais ou de igual qualidade, apenas alguns deles sendo reconhecidos como dignos de usar o rótulo “como os outros”; os outros, ao contrário, são identificados como não iguais aos outros, mas diferentes e, portanto, vulneráveis à tolerância ou à rejeição. Se levarmos a sério essa dificuldade, devemos reconhecer que Sartre, por meio de Fanon, foi além de Althusser, e relança a questão da subjetivação em outra direção.

Notas

[1] Frantz Fanon, Peau noire, masques blancs, Seuil, Paris, 1952. [Trad. bras.: Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020].

[2] Propomos esse encontro sem qualquer consideração pela questão da influência ou do confronto. Althusser nunca se refere a Fanon. Mas nada nos impede de levar as duas posições ao diálogo, a fim de compreender melhor o que as especifica.

[3] Como uma ladainha latejante, ele repete a fórmula: “Mas, deixemos esse ponto” [Mais laisson cela].

[4] Althusser, Positions, Éditions Sociales, Paris, 1976, p.68. [Trad. bras.: Posições II. Rio de Janeiro: Graal, 1980, p.48].

[5] Ibid., p. 73; p. 128. [Trad. bras.: ibid., p.53].

[6] Ibid., p. 110; p.160. [Trad. bras.: ibid, p.87].

[7] É isso que visa a tese segundo a qual “a ideologia tem uma existência material” (ibid, p.105; p.155), que busca trazê-la de volta do céu das ideias no qual foi arbitrariamente confinada.

[8] Ibid., p.100; p.151.

[9] Ibid; p.152. [Trad. bras.: Posições II. Rio de Janeiro: Graal, 1980, p.78].

[10] Essa restrição é formulada na p.101; p.152: “em toda história (= a história das formações sociais envolvendo classes sociais)”.

[11] Ibid., pp.103–4; p.154. [Trad. bras.: Ibid, p.81].

[12] Trad. bras.: ALTHUSSER, Louis. Sobre a reprodução. p.198-199.

[13] Note-se, porém, que entre a perspectiva de Althusser e a de Foucault, subsiste uma diferença fundamental. Foucault está longe e mesmo totalmente ao contrário de pensar que a intervenção das normas tem um caráter oni-histórico, transversal a todas as épocas da história.

[14] Essa sociedade da norma se instaura durante a segunda metade do século XVIII: ela estabeleceu todo um novo tipo de “relações de poder”, que não mais dependia da intervenção violenta de uma autoridade externa ao campo que ela controla e se concentrava sobre si mesma em virtude de sua posição transcendente.

[15] Trad. bras.: Sobre a reprodução, p.207.

[16] Ibid., p. 107; p. 158.

[17] Trad. bras.: Ibid., p.283.

[18] Ibid., p. 114; p. 163.

[19] Trad. bras.: ALTHUSSER, Louis. Posições – II. Rio de Janeiro: Graal, 1980, p. 90-91.

[20] Ibid., p. 114; p. 163.

[21] Na leitura que ela propõe da cena da interpelação em The Psychic Life of Power (Stanford University Press, Stanford CA, 1997, Chapter IV, ‘Conscience Doth Make Subjects of Us All: Althusser’s Subjection’, pp. 106–31), Butler concentra sua atenção justamente no caráter automático dessa relação entre chamado e resposta, de onde ela conclui que o conceito althusseriano de sujeição permanece tributário do modelo de consciência religiosa. O espírito de sua análise é resumido nesta passagem: “A preocupação aqui tem um objetivo textual mais específico, qual seja, mostrar como as figuras – exemplos e analogias – influenciam e ampliam as conceitualizações, enredando o texto numa santificação ideológica da autoridade religiosa que ele só pode expor ao reencenar essa autoridade.” Em outras palavras, Althusser teria caído de joelhos (e com as mãos unidas?) na armadilha que a ideologia religiosa, precisemos, a ideologia religiosa cristão, preparou para ele. Apresentei essa leitura de Althusser por Butler em um texto “Judith Butler et la théorie althussérienne de l’assujettissement”, que está acessível no site da UMR STL. [Trad. bras.: BUTLER, Judith. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p.97].

[22] Marx havia esboçado essa maneira de ver as coisas apresentando de passagem a ideologia, em seu manuscrito L’idéologie allemande, como “a linguagem da vida social”. A ideologia é uma linguagem: ela fala às pessoas a quem dirige a exigência premente de escutá-la, de responder ao seu chamado.

[23] Essa ideia esteve no centro do artigo de Althusser sobre “Freud et Lacan”, publicado na La nouvelle Critique em 1964-65, também retomada na coletânea Positions, da qual constitui a abertura.

[24] Quando Foucault se refere a essa “ordem do discurso”, ele não está trazendo o representacional ao primeiro plano: na verdade, para ele, essa ordem consiste em uma concatenação de elementos, palavras por exemplo, que são não substitutas das coisas, mas as coisas por direito próprio; não subsiste, portanto, à distância do real, opondo-se a ele, por exemplo, mas é um componente dele por direito próprio; é real, e mesmo, no limite, o real do real.

[25] Segundo Butler, esse exemplo não foi escolhido por acaso, mas representa o caso por excelência em que o indivíduo se constitui como sujeito pelo procedimento de interpelação.

[26] Althusser, Positions, p. 118; p. 167. [Trad. bras.: Posições 2, p.95].

[27] Uma boa ilustração desse dispositivo poderia ser fornecida pela enigmática pintura de Magritte, La Reproduction interdite: essa pintura apresenta, em primeiro plano, visto de trás, um personagem que se olha em um espelho colocado à sua frente; o espelho lhe devolve uma imagem dele mesmo onde também é visto por trás. G. Perec, que se interessou particularmente por esta pintura, comenta-a da seguinte maneira em uma entrevista publicada em 1978 na Magazine littéraire, “La maison des romans”: “Esta foi a expressão mais exata do significado de ‘você’” (En dialogue avec l’époque, éd. Joseph K., 2012, p. 84). Ou seja, ele a interpreta precisamente como uma cena de interpelação onde o sujeito é cortado em dois pelo procedimento de reduplicação ao qual ele é submetido, sem a possibilidade de juntar as peças. O interpelado, literalmente, perde o rosto, ou seja, a possibilidade de ser visto de frente: ele não é mais do que um “você”, isto é, nessa configuração precisa, um dorso.

[28] Ibid., p. 115; p. 164.

[29] Foi em Saint-Alban que o Dr. François Tosquelles, um emigrante político espanhol, inventou o que depois dele seria chamado de “psicoterapia institucional”, um método que revolucionaria completamente a assistência psiquiátrica. Saint-Alban foi um lugar de intensa criação intelectual: Eluard e Tzara ficaram lá durante a guerra; foi aí que começou a germinar a ideia do que hoje se chama l’art brut, graças ao Dr. Lucien Bonnafé; Canguilhem, que ali se refugiou no final da guerra, escreveu sua tese em medicina, l’Essai sur quelques problèmes concernant le normal et le pathologique; depois, Fernand Deligny também foi para lá. Tudo isso criou uma atmosfera extraordinária, na qual a reflexão apaixonada e extraordinária de Fanon encontrou naturalmente seu lugar.

[30] Trad. bras.: DU BOIS, W. E. B. As almas do povo negro. São Paulo: Veneta, 2021.

[31] Ibid., p.18.

[32] Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020, p.78.

[33] No desenvolvimento de uma criança, o estádio do espelho, que tem lugar antes da aquisição da linguagem, coincide na evolução da criança com o aparecimento do eu, tal como ele se projeta e se “reconhece” naquela relação especular pela qual entra no regime de o imaginário. Mas esse eu, efetivamente duplicado, ainda não é o sujeito que, por sua vez, é constituído pelo acesso ao simbólico.

[34] “E já me dissecam os olhares brancos, os únicos verdadeiros. Sou fixado. Uma vez ajustado seu micrótomo, eles objetivamente realizam cortes na minha realidade. Sou traído. Sinto, vejo nesses olhares brancos que não é um homem novo que está entrando, mas um novo tipo de homem, um novo gênero. Um negro, ora essa!” (Peau noire Masques blancs, éd. cit., p. 119). [Trad. bras.: Pele negra, máscaras brancas, p.81].

[35] “Sou um negro – mas obviamente não sei isso, pois sou isso.” (Peau noire Masques blancs, chap. VI « Le nègre et la psychopathologie », éd. cit., p. 187). [Trad. bras.: Pele negra, máscaras brancas, p.126]. Ser negro é uma condição objetiva, que não é sentida espontaneamente como tal por seu portador; ela vem a ser subjetivada [subjectivée] somente quando o olhar branco cai sobre sua pele negra.

[36] Fanon cita de passagem Lacan, cujo artigo sobre a família publicado na Encyclopédie française de Wallon claramente o influenciou.

[37] “Como o drama racial tem lugar a céu aberto, o negro não tem tempo de o ‘inconscientizar’.” (Peau noire Masques blancs, éd. cit., p. 150). [Trad. bras.: Pele negra, máscaras brancas, p.104].

[38] Fanon está interessado em outro aspecto do inconsciente: o inconsciente coletivo, que é cultural e não subjetivo no sentido de subjetividade individual. Esse inconsciente coletivo corresponde ao poder das normas, conforme analisado por Foucault.

[39] O que é próprio da ideologia religiosa é precisamente que ela interpela seus sujeitos um por um, cada um por si.

[40] Pele negra, máscaras brancas, não esqueçamos, foi publicado na coleção “Esprit” das Éditions du Seuil, portanto, em um ambiente que é onde se desenvolverá a pesquisa realizada por Recoeur.

[41] O último capítulo de Pele negra, máscaras brancas, “O negro e o reconhecimento”, conclui com um parágrafo intitulado “O negro e Hegel” (éd. cit. p. 209-214), onde a fórmula “negro imundo” é examinada do ponto de vista da luta entre o senhor e escravo.

[42] Fanon procede com a psicanálise da mesma forma, interessando-se por ela justamente por seus limites: transposta para outro terreno, ela não funciona mais (segundo ele, não encontramos vestígios do triângulo edipiano na família antilhana).

[43] Peau noire Masques blancs, éd. cit., p. 113-114. [Trad. bras.: Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020, p.77].

[44] Fanon não é mais “sartreano”, no sentido de aderir globalmente a um sistema de pensamento, do que é “hegeliano” ou “freudiano”. Ele trouxe um olhar lúcido para o trabalho de Sartre, separando o que lhe parecia útil do que não era. Ele rejeita, por exemplo, o relato entusiástico e incendiário de Sartre sobre a temática da Negritude em “Orphée noir”, texto que Sartre escreveu para servir como introdução à Anthologie de la nouvel e poésie nègre et malgache (1948) de Senghor.

[45] Sobre o judeu e o negro, Fanon diz que são “irmãos na desgraça”: “Foi meu professor de filosofia, de origem antilhana, que me alertou um dia: ‘Quando ouvir falar mal dos judeus, fique atento, estão falando de você’. E achei que ele tinha razão num sentido universal, compreendendo naquilo que eu era responsável, em meu corpo e em minha alma, pelo destino reservado ao meu irmão. De lá para cá, entendi que ele basicamente queria dizer: um antissemita é necessariamente um negrófobo.” (Peau noire Masques blancs, éd. cit., p. 124). [Trad. bras.: Pele negra, máscaras brancas, p.85].

[46] Esse é o tema central da obra que Fanon publicou em 1961 nas Éditions Maspero, Les Damnés de la terre, para a qual Sartre escreveu o prefácio.

[47] Réflexions sur la question juive, éd. Gallimard, 1954, p. 96.

[48] Nessa perspectiva vertical, onde o olhar que sanciona a operação de reconhecimento vem de cima e emana de uma fonte que permanece oculta, todos os sujeitos se equivalem. Quando Cristo diz “Deixai vir a mim as crianças”, não especifica se essas crianças devem ser negras, brancas ou de qualquer cor: nesse sentido, pode-se dizer que os sujeitos que ele convoca são simplesmente determinados, e não sobredeterminados. Mas essa mensagem se configura graças a uma operação de abstração, pela qual a ideologia religiosa se autoriza a fingir que, para ela, todos os sujeitos são iguais, qualquer que seja sua situação. Mas fora da perspectiva que define essa operação de abstração, uma operação que apaga artificial e artisticamente as diferenças, não é assim.

26 de abril de 2012

Após a Guerra Fria

Eric J. Hobsbawm sobre Tony Judt

Eric J. Hobsbawm


Vol. 34 No. 8 · 26 April 2012

Tradução / Minhas relações com Tony Judt datam de longo tempo, mas sempre foram curiosamente contraditórias. Éramos amigos, embora não amigos íntimos e, apesar de ambos sermos historiadores politicamente comprometidos, e de os dois preferirmos usar roupa de trabalho, em vez do uniforme regimental de historiadores, sempre marchamos ao som de diferentes toques de tambor. No entanto, nossos interesses intelectuais tinham algo em comum. Ambos sabíamos que o século XX só podia ser plenamente compreendido por aqueles que se tornaram historiadores, pois viviam nele e compartilhavam sua paixão básica: a crença de que a política é a chave para as nossas verdades assim como para nossos mitos. Apesar de nossas diferenças, tanto Marxism and the French Left de Tony, como meu recente How to Change the World são dedicados ao mesmo livre pensador, o falecido George Lichtheim. Dávamos-nos bem, em termos pessoais – mas Tony era homem generoso, fácil de gostar. Tinha em boa conta o meu trabalho, como escreveu em seu último livro. Apesar disso, lançou contra mim um dos mais implacáveis ataques que recebi, numa passagem que, imediatamente, se tornou citação obrigatória, sobretudo para os ultras da extrema direita da mídia nos Estados Unidos. A crítica resumia-se ao seguinte: para a esquerda, basta declarar em confissão pública que seu deus fracassou e bater no peito; fácil assim, a esquerda já conquista o direito de ser levada a sério; não se deve dar ouvidos a ninguém que não pense e escreva que “socialismo é Gulag”. Nunca duvidei da sinceridade de Judt ao abraçar essa figura de retórica, numa polêmica em que discutia com comunistas. Por sorte, a prática, em Judt, pouco teve a ver com a teoria.

Para a maioria de nós, a imagem hoje dominante é a coragem com que enfrentou a doença degenerativa que o acometeu, e a morte. Houve uma espécie de grandeur romana em sua recusa a aceitar o inevitável da doença, que quase convoca elogios clássicos. Não só a decisão de levar o jogo até o xeque-mate, mas a atitude de provocar a morte, demonstrando até o final seu talento de grande professor, debilitado, mas nunca derrotado. É uma imagem comovente, mas temos de resistir: estimular a construção de mitos não é atitude digna em historiadores. Tony foi apresentado ao mundo como um novo George Orwell. É uma ideia errada, porque embora ambos fossem homens de dotes excepcionais e ativos polemistas, eram muito diferentes. Faltava a Tony a combinação de vários tipos de preconceitos que havia em Orwell, que tomava o Velho Testamento, simultaneamente olhado como se fosse passado e futuro, como profecia e como denúncia imaginativa. Judt jamais escreveria 1984 ou Animal Farm. E Orwell, escritor muito mais poderoso, não tinha nem uma fração da monumental gama de conhecimentos de Tony, nem seu talento, nem sua agilidade e versatilidade intelectuais. Orwell nunca teria sobrevivido como intelectual acadêmico.

Mas a comparação com Orwell também é perigosa, porque não se trata só de dois escritores, mas de uma era política que já deveria estar hoje superada por bem: a Guerra Fria. A reputação de Orwell foi erguida como poderoso lança-foguetes intelectuais contra os soviéticos; e mesmo hoje, quando o resto de Orwell já emergiu ou reemergiu, é nome que permanece congelado na década de 1950. Tony foi, é claro, tão anti-Stálin quanto qualquer outro, e crítico amargo dos que não abjuraram o Partido Comunista, mesmo que se tenham provado satisfatoriamente anti-stalinistas e, como no meu caso, já estejamos lentamente nos livrando da esperança original de outubro de 1917. Como os sionistas que se opuseram a encenações de Wagner em Israel, Tony foi dos que deixam a antipatia política atravessar-se à frente do prazer estético, descartando o poema de Brecht sobre quadros do Comintern, An die Nachgeborenen [Os Admirados por Tantos], como poema “repulsivo”, não em termos literários, mas porque inspirava pensamentos maléficos aos crentes. Mas é evidente, desde Thinking the 20th Century, que sua preocupação básica durante a fase aguda da Guerra Fria, não era a ameaça soviética contra o “mundo livre”, mas as discussões dentro da esquerda. Seu tema sempre foi Marx – não Stálin e o Gulag. É verdade que, depois de 1968, passou a ser mais um liberal de oposição militante contra a Europa Oriental, admirador dos turistas acadêmicos de direita que forneciam praticamente tudo que se publicava sobre o fim dos regimes comunistas na Europa Oriental. E isso o arrastou – e se esperaria coisa melhor dele – a criar, com outros, o conto de fadas das “revoluções de veludo” e “revoluções coloridas” de 1989 em diante. Essas revoluções jamais existiram. Foram, todas, diferentes reações à decisão dos soviéticos de sair de lá. Os verdadeiros heróis daquele período foram Gorbachev, que destruiu a URSS, e homens do velho sistema, como Suárez na Espanha de Franco e Jaruzelski na Polônia, que efetivamente conseguiram garantir uma transição pacífica e foram execrados pelos dois lados. De fato, nos anos 1980s, o liberalismo essencialmente social-democrata de Tony foi rapidamente infectado pelo neoliberalismo econômico sem regras à Hayek, de François Furet. Não creio que esse fogo-fátuo da Guerra Fria tenha sido essencial para o desenvolvimento de Tony, mas sem dúvida contribuiu para dar mais corpo e profundidade ao seu impressionante Pós-guerra.

O modo como andou pela segunda metade do século é sui generis. Até fixar-se em New York na década de 1980 e começar a escrever para a New York Review, não era historiador de grande destaque, sequer entre os especialistas anglófono sem história da França, talvez porque se tenha deixado arrastar por tempo demais pelos infindáveis debates sobre a natureza da esquerda francesa. Antes da década de 1980, Tony só era encontrado nas margens da história social, autor de um excelente estudo do socialismo na Provence entre 1871 e 1914. Sua fase francesa combinava erudição impressionante com, em minha opinião, resultados historicamente triviais: rapidamente foi convertido em assunto para torneios acadêmicos no mundo marginal e sem efeitos da Rive Gauche. Mas o que acontecia no “Les Deux Magots” e no “Flore”, embora culturalmente prestigiado, era politicamente irrelevante, comparado ao que acontecia no outro lado do boulevard St. Germain, na “Brasserie Lipp”, onde se reuniam os políticos. A política de Sartre consistia em “tomar posição”, porque nada mais havia que pudesse fazer; e De Gaulle sabia disso. Em qualquer caso, a esquerda raras vezes chegou ao poder, e provavelmente os únicos intelectuais que chegaram a primeiro-ministro foram Léon Blum em 1936 e – ou, pelo menos, foi uma boa imitação – Mitterrand. Mediante as mais fantásticas acrobacias intelectuais, cujo absurdo Tony não precisou trabalhar muito para demonstrar, intelectuais de esquerda faziam o que podiam para dar conta de uma situação nacional única, e do seu próprio isolamento, no país que inventou a palavra “obreirismo” [orig. “ouvrierisme”], quer dizer: operários que absolutamente não acreditavam em intelectuais.

Quatro coisas modelaram a história francesa nos séculos XIX e XX: a República nasceu da Grande Revolução incompleta; o estado napoleônico centralizado; o papel político crucial atribuído a uma classe trabalhadora pequena demais e desorganizada demais; e o longo declínio da França, da posição que tivera antes de 1789, como o Império do Meio da Europa, tão confiante quanto a China na própria superioridade cultural e linguística. Foi a “capital do século XIX”, sobretudo aos olhos estrangeiros, mas depois de Waterloo, deslizou lenta e não continuamente, mas sempre para baixo, em termos de força militar, poder internacional e centralidade cultural. Sem um Lênin e privada de Napoleão, a França recolheu-se como um último – e esperemos, indestrutível – reduto, o mundo de Astérix. A moda pós-guerra para pensadores parisienses mal disfarçava a retirada coletiva para uma introversão de Hexágono e para dentro da última fortaleza da intelectualidade francesa, o pensamento cartesiano e suas arrogâncias adjuntas. Não havia qualquer outro modelo na educação superior e nas ciências, no desenvolvimento econômico, nem – como se vê pela penetração tardia das ideias de Marx – na ideologia da Revolução. O problema dos intelectuais de esquerda foi como se entenderem com uma França essencialmente não revolucionária. O problema, para os de direita, muitos dos quais ex-comunistas, foi como fazer as exéquias do evento fundacional e da tradição formativa da República, a Revolução Francesa, tarefa equivalente, na dificuldade, à de escrever a Constituição Americana a partir da história dos Estados Unidos. É missão impossível. Não podia ser feito, nem por operadores muito inteligentes e poderosos como Furet; nem Tony, mesmo que sobrevivesse, poderia ter restaurado a social-democracia que sempre fora seu ideal.

Tony tinha feito seu nome como um brutamontes da acadêmica. Sua posição padrão era de legista: não de juiz, mas de advogado, cujo objetivo não é nem a verdade nem a verossimilhança, mas ganhar a causa. Não é crucialmente importante investigar as próprias possíveis fraquezas, embora seja o que deva fazer o historiador de grandes espaços, longos períodos e processos complexos. Mas nem as décadas formativas, como intelectual de acusação, impediram que Tony se transformasse em historiador maduro, atento e bem informado. Seu grande trabalho nessa condição foi, sem dúvida, o gigantesco calço, Pós-guerra: Uma História da Europa desde 1945. Era e é um livro ambicioso, embora um pouco desequilibrado. Não estou convencido de que a perspectiva do livro parecerá adequada aos que o leiam agora pela primeira vez, sete anos depois da publicação. Apesar disso, garanto, por experiência pessoal, que grandes trabalhos de síntese histórica baseados em fontes secundárias e na observação da história contemporânea só podem ser escritos na maturidade. Bem poucos historiadores têm jeito para atacar objeto tão imenso, ou para levá-lo até uma conclusão. O livro é um impressionante trabalho. Se por mais não for, porque qualquer trabalho que tome a narrativa até o momento presente já carrega em si a própria obsolescência e tem futuro incerto. Mas talvez tenha maior sobrevida como referência de trabalho de narrativa crítica, porque é escrito com verve, garra e estilo. Pós-guerra fixou Tony, pela primeira vez, como figura de destaque na profissão.

Mas ele, então, já estava parando de operar como tal. No século XXI, sua posição já era menos de historiador, que de “intelectual público”, brilhante inimigo do auto-engano enfeitado com jargão de teoria, com o pavio curto do polemista natural, comentarista independente e crítico sem medo dos assuntos mundiais. Pareceu ainda mais original e radical, por ter sido defensor muito ortodoxo do “mundo livre” contra o “totalitarismo” durante a Guerra Fria, sobretudo na década de 1980. Frente a governos e ideólogos que liam vitória e dominação mundial na queda do comunismo, Tony foi suficientemente honesto consigo mesmo para reconhecer que as velhas verdades e os velhos slogans tinham de ser detonados, depois de 1989. Provavelmente, só nos sempre nervosos Estados Unidos uma tal reputação poderia ter sido construída tão rapidamente, só à base de uns poucos artigos em publicações de circulação modesta, dirigidas exclusivamente a intelectuais de academia. As páginas dos grandes veículos da mídia estavam há muito tempo abertas a Raymond Aron na França (bem claramente, uma das inspirações de Tony), ou a Habermas na Alemanha, e o impacto que pudessem ter já estava há muito tempo neutralizado. Tony estava bem consciente dos riscos pessoais e profissionais que corria, atacando as forças combinadas da empreitada de conquista americana global, dos neoconservadores e de Israel, mas foi homem bem servido do que Bismarck chamou de “bravura civil” (Zivilcourage) – qualidade notável que faltava a Isaiah Berlin, como o próprio Tony observou, talvez com alguma ironia. Diferente de escolásticos e burocratas da Rive Gauche que, como disse Auden dos poetas, “nada faziam acontecer”, Tony entendeu que uma luta contra tais novas forças faria alguma diferença. E lançou-se, ele mesmo, contra elas, com evidente prazer e engenho. Essa foi a figura que veio a ser depois do final da Guerra Fria, alargando sua perícia de acusador de corte de justiça, para vergastar os Bushs e Netanyahus e assemelhados, mais do que algum absurdo no 5ème Arrondissement ou algum professor emérito em New Jersey. Foi performance magnífica, ato de primeira classe; foi louvado por seus leitores, não só pelo que disse, mas por dizer o que muitos deles jamais teriam a coragem de dizer. Foi ainda mais eficaz, porque foi, simultaneamente, homem “de dentro” e homem “de fora”, insider e outsider: britânico, judeu, francês, eventualmente americano, mas plurinacional, mais que cosmopolita. E, sim, conhecia bem os limites do que estava fazendo. Como ele mesmo diz, os mais bem-sucedidos na tarefa de dizer a verdade ao poder não são os colunistas, mas os repórteres e fotógrafos, na onipresente mídia.

Até o início dos anos 2000 Tony tinha presença internacional, pelo menos no mundo de língua inglesa. Duraria mais que os canônicos 15 minutos de Warhol? Afortunadamente, graças aos anos de sua doença final, é possível responder a pergunta. O trabalho de Tony sobreviverá, porque, depois que adoeceu, ele pela primeira vez deixou de ver-se como acusador num tribunal e tentou formular o que realmente sabia, sentia e pensava. Thinking the 20th Century não é um grande livro ou sequer capítulo de um grande livro – e como seria, dado o modo como foi escrito? – mas é leitura essencial para quem queira saber o que historiadores contemporâneos têm a nos dizer. Ele também é um modelo de discurso civilizado na aldeia global acadêmica. Mostra que historiadores podem questionar os próprios pressupostos, examinar as próprias certezas e ver como a própria vida é modelada e remodelada pelo seu século. E, não menos importante, é um valioso memorial de um homem notável e da vida que decidiu viver.

11 de abril de 2012

A política de ter uma vida

O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório.

Peter Frase

Jacobin


Tradução / O trabalho em uma sociedade capitalista é um fenômeno conflituoso e contraditório, especialmente em tempos difíceis. Nós simultaneamente não trabalhamos o bastante e trabalhamos demais; uma profunda fome de trabalho para alguns significa um banquete para outros. Os Estados Unidos alegadamente têm estado em “recuperação econômica” por mais de dois anos, e ainda assim 15 milhões de pessoas não podem encontrar trabalho, ou não podem encontrar tanto trabalho quanto elas dizem que gostariam. Ao mesmo tempo, até dois terços dos trabalhadores relatam em pesquisas que gostariam de trabalhar menos horas do que trabalham hoje, mesmo se isso exigisse uma perda de renda. A dor do desemprego está bem documentada, mas a dor do empregado apenas ocasionalmente vê a luz, sejam funcionários dos depósitos da Amazon trabalhando em um ritmo alucinado num calor sufocante, ou trabalhadores da Foxconn arriscando ferimentos e morte para construir eletrônicos descolados para a Apple.

Quando o trabalho está escasso, os horizontes políticos tendem a se estreitar, enquanto a crítica à qualidade do trabalho dá lugar à busca desesperada por qualquer tipo de trabalho. E trabalho, de qualquer tipo, parece ser tudo o que os políticos podem oferecer; direita e esquerda diferem apenas sobre quem devemos culpar pela escassez. Vá para o site da campanha do Barack Obama, e você será informado no topo da página sobre “Problemas” que “O presidente está adotando medidas agressivas para colocar os estadunidenses de volta ao trabalho e criar uma economia onde o trabalho duro e a responsabilidade sejam recompensados.” Do mesmo modo no site da federação trabalhista AFLCIO, onde um homem de macacão sorri por trás das palavras “o trabalho conecta a todos nós.” É assim que a virtuosa classe trabalhadora aparece na imaginação progressista: esforçada, responsável, definida e redimida pelo trabalho, mas vítima de uma economia que não pode criar o trabalho assalariado necessário na qual esta responsabilidade possa ser investida.

Quando a direita rejeita esta romantização dos trabalhadores como esforçados ascetas, é apenas para mudar melhor o foco da culpa por uma economia fraca, do capital para o trabalho. O economista da Universidade de Chicago e às vezes colaborador do New York Times, Casey Mulligan, tentou redefinir a recessão como inexistente ao insistir que o colapso de emprego refletia apenas um reduzido desejo de trabalhar, ao invés de uma escassez de demanda. Enquanto isso, os reacionários mais cultos choram sobre a minguante ética do trabalho como um arauto do declínio da civilização. Charles Murray, que fez seu nome promovendo considerações pseudo-científicas sobre a indolência e inferioridade mental de afro-estadunidenses, retornou recentemente com avisos medonhos sobre a decadência da classe trabalhadora branca. Os homens brancos, ele diz, perderam “industriosidade”, como demonstrado por taxas declinantes de participação na força de trabalho e semanas de trabalho mais curtas entre os empregados.

A resposta pronta progressista é que tais estatísticas refletem uma ausência de oportunidade ao invés de uma falta de iniciativa. Mas isto leva apenas a gritos pela criação de empregos, enfatizando o valor do “trabalho duro” sem refletir sobre a natureza daquele trabalho. A labuta esgotante do depósito da Amazon é com certeza difícil; também são, de certa maneira, as semanas de 80-horas e o stress intenso de um operador do Goldman Sachs. E ainda assim do primeiro dificilmente pode ser dito que está saudável ou aperfeiçoando o espírito humano, enquanto o segundo apenas cria riqueza para poucos e caos econômico para o resto de nós. A “industriosidade” de Murray é a atitude ridicularizada pelo marxista desobediente Paul Lafargue em seu panfleto de 1883, “O Direito à Preguiça”, “uma estranha ilusão” que aflige o proletariado com “uma paixão furiosa por trabalho.”

Lafargue é parte de uma tradição socialista dissidente, que insiste que uma política para a classe trabalhadora tem de ser contra o trabalho. Esta é a tradição selecionada pela teórica política Kathi Weeks em seu livro recente, “O Problema com o Trabalho: Feminismo, Marxismo, Políticas Anti-Trabalho e Imaginário Pós-Trabalho.”  Weeks identifica defensores de mais trabalho e aqueles que querem trabalhos melhores, e vê faltas em ambos. Como uma alternativa, ela sustenta a demanda direta e sem remorso por menos trabalho. No processo, ela articula poderosamente a defesa de uma política que apele para o prazer e o desejo, ao invés de sacrifício e ascetismo. Afinal de contas, é o ideal de auto-restrição e auto-negação que em última análise legitima a glorificação do trabalho, especialmente a ideologia da ética do trabalho.

Permutações da ética do trabalho

A paixão furiosa por trabalho não é uma constante da natureza humana, mas alguma coisa que precisa ser constantemente reforçada, e sucessivas versões da “ética do trabalho” têm sido usadas para alimentar a fornalha dessa paixão. Na aurora do capitalismo, o chamado ao trabalho era um chamado à salvação, como Weeks explica em sua leitura de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” de Max Weber. Ela reconhece que, longe de fornecer uma alternativa idealista à descrição de Marx sobre a ascensão do capitalismo, Weber complementa o Materialismo histórico descrevendo a construção de uma ideologia da classe-trabalhadora. A palavra é usada no sentido de Althusser: “a relação imaginária de indivíduos para com as suas condições reais de existência.” A ética protestante permitiu aos trabalhadores imaginar que quando trabalhavam pelos lucros do patrão, eles estavam na verdade trabalhando por sua salvação e pela glória de Deus.

Lá pelo século XX, entretanto, o chamado havia se tornado material: o trabalho duro garantiria uma prosperidade de base ampla. Cada um dos projetos gêmeos de modernidade industrial desse século desenvolveram esse chamado à sua própria maneira. Autoridades soviéticas promoviam o movimento estacanovita, que glorificava contribuições excepcionais à produtividade da economia socialista. Em Detroit, enquanto isso, o líder sindical social-democrata Walter Reuther denunciava defensores de menos horas de trabalho por minarem a economia estadunidense na luta contra o comunismo. Em nenhum dos casos a qualidade do trabalho industrial era posta em questão; era apenas uma questão de quem estava no controle e quem colhia os espólios.

A ética do trabalho industrial encalhou na natureza alienante do labor industrial. Trabalhadores que ainda se lembravam da Grande Depressão podiam estar dispostos a se subordinar à linha de montagem em troca de um pagamento garantido, mas seus filhos foram encorajados a exigir mais. Como Jefferson Cowie relembra em sua história “Stayin' Alive: The 1970s and the Last Days of the Working Class”, os anos 70 foram caracterizados por uma agitação trabalhista amplamente difundida, e pelo que era popularmente chamado de “a tristeza de colarinho azul”, enquanto “trabalhadores estavam sendo aparelhados para o imposto sindical, mas almejavam se libertar da natureza amortecedora do trabalho em si.” No reino da teoria de esquerda, este desenvolvimento se refletiu na voga por críticas “humanistas” do trabalho, baseadas na Teoria da Alienação do jovem Marx. Weeks destaca o marxista-freudiano Erich Fromm, que defendia que “a auto-realização do homem... está inextricavelmente ligada à atividade de trabalho,” que se tornará autêntica e auto-realizadora uma vez que esteja liberta do controle capitalista. Ao reconhecer as limitações na demanda por mais trabalho, os humanistas ao invés disso pediam por um “trabalho melhor.”

Mas esta crítica se provou duplamente insatisfatória: ou ela aponta para trás, na direção de um primitivismo austero, ou para frente, rumo outra iteração do capitalismo. Nas mãos de feministas como Maria Mies, a crítica do trabalho alienado se torna um chamado para produzir apenas para uso imediato, ao invés de para troca; isto, Weeks nota, é “uma prescrição para um ascetismo mundial da primeira ordem.” Se a forma produtivista do marxismo traficou a ilusão de que as forças de produção do capitalismo poderiam ser acolhidas e preservadas independente das relações de produção baseadas em classe, então o chamado romântico para um retorno ao trabalho de pequena escala ou de manufatura artesanal tenta dividir outra relação dialética de Marx, aquela entre valor de troca e valor de uso. Mas o valor de uso, como a produtividade, é em última análise uma categoria interna para o capitalismo; a exigência de que o que nós produzimos seja “útil” é inseparável da ética do trabalho em si.

A linha de argumento mais influente contra o trabalho industrial, porém, não tem sido a asceta, mas ao invés, o que os sociólogos Luc Boltanski and Eve Chiapello chamam de “crítica artística.” Sob essa crítica, o trabalho industrial está condenado não por que separa troca e uso, mas por que restringe a autonomia, liberdade e criatividade do trabalhador. A solução não seria reconectar o trabalho a um labor artesanal humilde, mas elevar os trabalhadores a indivíduos autônomos, auto-moldáveis e flexíveis, realmente capazes de se realizar em seus trabalhos.

Mas esta posição rapidamente coalhou em uma apologia do mundo precário do Capitalismo pós-anos 70, em que indivíduos eram encorajados a celebrar empregos instáveis e rendas incertas como formas de liberdade ao invés de insegurança. Benefícios intangíveis eram oferecidos como uma alternativa a uma parcela na produtividade crescente, que se dissociou de salários. Assim nós chegamos a uma terceira iteração da ética do trabalho na era pós-industrial, onde o trabalho é agora representado não como um caminho para a salvação e nem como uma estrada para riquezas, mas como uma fonte de identidade e realização pessoal. Esta ética está exemplificada por empresas da moda no Vale do Silício como a Apple, que teria dito aos seus empregados, em resposta às suas demandas salariais, que “dinheiro não deveria ser uma questão quando você estiver empregado na Apple. Trabalhar na Apple deveria ser visto como uma experiência.”

Nestas circunstâncias, Weeks argumenta, clamores por “trabalho melhor” não são apenas inadequados, eles tendem a reproduzir e estender uma forma de Capitalismo que tenta colonizar as vidas e personalidades de seus trabalhadores. Daí que “empoderamento do trabalhador pode impulsionar eficiência, flexibilidade pode servir como um jeito de cortar custos, e participação pode produzir compromisso com a organização... qualidade se torna quantidade enquanto o chamado por um trabalho melhor é traduzido em uma demanda por mais trabalho.” Qualquer tentativa de reconstruir o sentido do trabalho em uma forma não alienante precisa começar, então, rejeitando o trabalho por completo.

Ainda assim, a invocação manipuladora da autonomia do trabalho só é possível por que a crítica artística tocou em desejos reais. Dadas as deficiências do velho paradigma de trabalho industrial, dificilmente parece possível ou desejável retornar a um ideal proletário mais velho de emprego de longo prazo e protegido em uma única empresa. E ainda assim, há alguns ainda tentando ressuscitar a ideia de um trabalho melhor. Em “O Precariado: A Nova Classe Perigosa”, o economista Guy Standing identifica a nova massa de trabalhadores inseguros como um “precariado” ao invés de um proletariado, um que deseja “controle sobre a vida, um renascimento da solidariedade social e uma autonomia sustentável, enquanto rejeita velhas formas trabalhistas de proteção e paternalismo estatal.”

Como Weeks, Standing é um proponente de uma Renda Básica incondicional – um pagamento regular fornecido para cada indivíduo independente deles trabalharem ou não e do quanto trabalhem – como uma forma de fornecer segurança de renda sem trancar as pessoas em empregos. Ainda assim, ele baseia seu apelo no conceito de trabalho, agora expandido além dos limites do trabalho assalariado. “O fato de que há uma aversão aos empregos sendo oferecidos não significa que... as pessoas não queiram trabalhar,” ele argumenta, por que de fato “quase todo mundo quer trabalhar.” Subsequentemente, porém, ele fala de “resgatar” o trabalho de sua associação com o trabalho assalariado: “Todas as formas de trabalho deveriam ser tratadas com igual respeito, e não deveria haver a presunção de que alguém que não está empregada não está trabalhando ou que alguém que não está trabalhando hoje seria um aproveitador ocioso.” Isso evoca a noção de uma fábrica social em que nós contribuímos com vários tipos de atividade produtiva que não são diretamente remuneradas, desde educar os filhos até codificar programas de software aberto.

Mas nenhuma quantia de redefinições pode escapar da associação do trabalho com a ética capitalista do produtivismo e da eficiência. O contraste entre trabalhador e “aproveitador ocioso” implica que nós podemos medir se qualquer atividade dada é produtiva ou útil, ao traduzi-la em uma medida comum. O capitalismo tem tal medida, o valor monetário: o que tiver valor no mercado é, por definição, produtivo. Se a crítica do capitalismo pretende ir além disto, ela deve ultrapassar a ideia de que nossas atividades possam ser subordinadas a uma medida de valor única. De fato, exigir que o tempo fora do trabalho seja realmente livre é rejeitar o chamado para justificar a sua utilidade. Esta é uma sacada central do anti-ascetismo consistente de Weeks, que resiste a qualquer esforço para substituir a ética do trabalho com algum código igualmente homogeneizador que valide externamente a organização do nosso tempo. O tempo para além do trabalho não deve ser para troca ou para uso, mas sim para si mesmo. O ponto, como Weeks coloca, é “ter uma vida”, enquanto nós encontramos caminhos para “sustentar os mundos sociais necessários para, entre outras coisas, a produção.”

Questões políticas da demanda

O que seriam políticas para se ter uma vida? É mais fácil rejeitar a ideologia do trabalho em teoria do que criar uma estratégia política que avance uma agenda anti-trabalho na prática. Nenhum dos lados da relação dialética de reforma-ou-revolução do socialismo do Século XX é particularmente útil a respeito disso. A Social-Democracia conseguiu liberar parcialmente os trabalhadores do trabalho, ao fornecer serviços públicos e suportes de renda que diminuem a dependência do trabalho assalariado. Ainda assim, esta desmercantilização do trabalho tem sido hesitante e receosa, graças a uma preocupação com manter o pleno-emprego e conservar trabalhos. A tomada insurrecional do poder do estado, enquanto isso, se deixa a estrutura de relações capitalistas de trabalho intactas, meramente coloca os trabalhadores a cargo de sua própria exploração – conheça o novo chefe, assim como o antigo.

Weeks tenta transcender estas limitações elaborando um conceito de demanda política que mistura impulsos reformistas e revolucionários. A demanda é vista aqui como um chamado por uma reforma específica, mas também como algo mais. A demanda, e a forma com que ela é articulada, pode ser uma ferramenta de desmistificação ideológica e para o que Fredric Jameson chama de “mapeamento cognitivo,” traçando um gráfico das relações entre várias esferas de produção e reprodução. Uma demanda pode ser algo em torno do que se organizar, uma forma de construir capacidade coletiva. Finalmente, uma demanda pode preparar o palco para lutas e transformações radicais no futuro, mesmo se ela não desafia as fundações do sistema de imediato.

Este conceito de demanda evoca a ideia de André Gorz de “reforma não-reformista,” apesar de Weeks fugir da implicação de que uma demanda poderia ter implicações radicais enquanto ainda co-participando no terreno reformista de propostas políticas e compromissos táticos. Em um movimento que é reminiscente da ansiedade sobre “demandas” no ambiente do Occupy Wall Street, parece às vezes que Weeks quer preservar suas credenciais radicais ao negar que o sistema pudesse jamais acomodar as demandas que ela leva em frente.

Ainda assim, as duas demandas específicas que ela discute, apesar de serem ambíguas, estão dentro do horizonte do reformismo: uma renda básica incondicional e uma diminuição do tamanho da semana de trabalho. Estas são propostas comuns o bastante entre Esquerdistas de convicção anti-trabalho, mas o tratamento dado a elas por Weeks é distintivo por que ela baseia ambas as exigências nas políticas do Feminismo. A renda básica é oferecida como um sucessor para “salários para o serviço doméstico,” uma demanda clássica de Feministas Marxistas que emergiram da cena trabalhista Italiana. O objetivo, diz Weeks, é sublinhar “a arbitrariedade com que contribuições à produção social são e não são recompensadas com salários,” tornando assim visível a enorme soma de trabalho reprodutivo não-assalariado realizado por mulheres. Contra aqueles que rejeitam a renda básica como uma doação imerecida, podemos responder que é o Capitalismo que arbitrariamente se recusa a pagar por uma proporção enorme do trabalho que o sustenta.

Horas de trabalho mais curtas são, também, uma demanda inerentemente feminista. O proletário da imaginação romântica da Esquerda tem sempre sido implicitamente uma figura masculina, o trabalhador de turno-cheio dependendo do trabalho reprodutivo de uma mulher no lar. Contudo, Weeks é cuidadosa ao rejeitar gritos pela redução do tempo de trabalho sobre a premissa de arrumar mais tempo para a família. Tais argumentos podem contestar a ética do trabalho, mas eles fazem isso apenas reforçando uma ética familiar igualmente perniciosa. O tempo em casa acaba retratado como inerentemente melhor ou menos alienante do que o tempo no espaço de trabalho, e a necessidade por tal tempo se torna naturalizada. Isso ignora as caracteríticas alienantes e opressivas da família, que levaram uma geração anterior de feministas a buscar a liberdade e autonomia relativas no trabalho assalariado. E mais, o ascetismo de auto-negação da ética do trabalho não foi superado mas meramente deslocado, do local de trabalho para o lar. Horas de trabalho mais curtas, afirma Weeks, deveriam ser oferecidas não como um suporte para a família tradicional, mas como “um meio de assegurar o tempo e o espaço para forjar alternativas aos ideais, condições de trabalho e vida familiar vigentes.”

Trabalhadores contra o trabalho

A rejeição do trabalho tem uma história rica na teoria de Esquerda, mas uma presença mais intermitente na política de massa. Ela brota esporadicamente, do movimento pelo dia de trabalho de 10 horas no Século XIX ao Agosto Quente italiano de 1969. Uma grande dificuldade é que ao abandonar a ética do trabalho, a política anti-trabalho simultaneamente abraça a causa dos trabalhadores assalariados enquanto mina sua identidade como trabalhadores assalariados. Ela insiste que a sua libertação deve ocasionar a abolição simultânea de sua auto-concepção como trabalhadores. Isso contrasta com a visão Marxista mais tradicional, em que a classe trabalhadora primeiro se realiza na metafórica “ditadura do proletariado” antes de enfim se dissolver em uma sociedade totalmente sem classes. Mas mesmo um marxista tão ortodoxo como Georg Lukács observou em “História e Consciência de Classe” que “o proletariado apenas aperfeiçoa a si mesmo aniquilando e transcendendo a si mesmo.” Seu destino derradeiro é ser não apenas uma classe para-si mas “contra-si.”

Este não é um problema único da luta contra o Capitalismo, e é talvez inerente a qualquer política realmente radical. É sempre mais fácil apresentar demandas nos termos do inimigo do que rejeitar aqueles termos por completo, independente se isso significa minorias raciais demandando assimilação para sociedades brancas ou gays e lésbicas demandando admissão na instituição do casamento burguês. Ao pedir que os trabalhadores abandonem não só seus grilhões mas suas identidades como trabalhadores, teóricos anti-trabalho renunciam a formas de orgulho e solidariedade da classe trabalhadora que têm sido a cola para muitos movimentos de Esquerda. Eles sonham com um movimento de trabalhadores contra o trabalho. Mas isto requer algumas novas concepções de quem nós somos e quem nos tornaremos, se estivermos para jogar fora o rótulo “trabalhador.”

Escritores na tradição anti-trabalho têm frequentemente buscado estas novas identidades nas perspectivas e práticas de figuras que são marginais ao processo de produção e exteriores à classe-trabalhadora. Lafargue decaiu em uma nobre selvageria, comparando o proletariado iludido a “os Espanhóis, em quem o animal primitivo não foi atrofiado,” os quais por esse motivo reconheciam que “o trabalho é o pior tipo de escravidão.” Para Oscar Wilde, o artista mostrava a nós o futuro da vida depois da nossa libertação do trabalho e da propriedade, quando todos poderiam finalmente desenvolver um “verdadeiro, belo e saudável Individualismo.” O trabalho era, para ele, não a fonte de uma vida cheia de sentido mas sua antítese, e a promessa da modernidade era que ele poderia ser superado para os muitos como já foi superado para poucos:

“O fato é que a civilização precisa de escravos. Os gregos estavam absolutamente certos neste ponto. A menos que haja escravos para fazer o trabalho feio, horrível e desinteressante, a cultura e a contemplação se tornarão quase impossíveis. A escravidão humana é incorreta, desmoralizadora e não é segura. O futuro do mundo depende da escravidão mecânica, da escravidão da máquina. E quando os homens da ciência não forem mais convocados a partirem para o deprimente East End para distribuir a gente faminta chocolate de má qualidade e cobertores de qualidade ainda pior, terão um delicioso tempo disponível para planejar coisas maravilhosas e estupendas para satisfação própria e dos demais.”

Os argumentos de Lafargue e de Wilde tem sobretons Nietzchnianos, com a defesa do trabalho retratada como uma forma de ressentimento e a ética do trabalho como uma detestável moralidade escrava. Weeks também faz esta conexão em seu capítulo final, juntando Nietzche e o Marxista iconoclasta Ernst Bloch como um teórico de Política utópica. Desistir do ressentimento, Week sugere, significa perguntar, “Nós podemos desejar, e estamos dispostos a criar, um novo mundo que não seria mais ‘nosso mundo’, uma forma social que não produziria sujeitos como nós?” Isso traz de volta a dificuldade levantada acima, como diz respeito à política da rejeição do trabalho: “seu mandato para abraçar o presente e afirmar o seu eu e, ao mesmo tempo, desejar a sua superação; sua prescrição por auto-afirmação mas não por auto-preservação ou auto-engrandecimento.”

Em outro lugar, Weeks observa que nós não devemos subestimar o quanto da hesitação sobre posições anti-trabalho tem suas raízes no medo. Medo da ociosidade, medo do hedonismo – ou emprestando uma frase de Erich Fromm, medo da liberdade. É relativamente fácil dizer que no futuro serei o que sou agora – um trabalhador, talvez apenas com mais dinheiro ou mais segurança no emprego ou mais controle sobre meu trabalho. É outra coisa nos imaginar como tipos diferentes de pessoas por completo. Esse, talvez, seja o valor pouco apreciado dos acampamentos do Occupy Wall Street e tentativas similares de esculpir formas alternativas de viver dentro dos interstícios da sociedade capitalista. Pode ser, como críticos muitas vezes apontam, que eles não possam realmente construir uma sociedade alternativa enquanto os impedimentos institucionais do Capitalismo a uma tal sociedade permanecerem no lugar. Mas talvez eles possam ajudar a remover o medo do que nós poderíamos nos tornar se esses impedimentos fossem suspensos, e nós fossemos capazes de fazer o nosso êxodo do mundo do trabalho para o mundo da liberdade.

Sobre o autor

Peter Frase is on the editorial board of Jacobin and the author of Four Futures: Life After Capitalism.

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