3 de outubro de 2014

Imaginando a cidade socialista

Não vamos entrar na cidade socialista de olhos vendados, mas carregando as lições de um século de experiências.

Owen Hatherley


O mais prolífico dos edifícios da Escola de Amsterdam, Het Schip (O Barco) foi desenhado por Michael de Klerk em 1919 como um produto da Lei da Moradia de 1901, que favorecia a criação de associações cooperativas de moradia.

O historiador italiano Manfredo Tafuri não acreditava que pudesse haver uma arquitetura que fosse distintamente socialista, já que não vivíamos no socialismo. “Não existe arquitetura de classe, apenas uma crítica de classe à arquitetura.”

Tafuri, nas suas obras influentes e bem argumentadas da década de 1970 – Arquitetura e utopia e A esfera e o labirinto – encerrou um debate que existiu por quase um século: se seria possível ou se valeria a pena sequer pensar numa cidade especificamente socialista sob o capitalismo – e, mais especificamente, se seríamos capazes de construir fragmentos dela dentro do capitalismo. O estridente “não” de Tafuri à segunda questão acompanhou um “não” mais silencioso à primeira.

Mas desde a ascensão do neoliberalismo, esses pequenos fragmentos da “cidade socialista”, construídos de maneira desigual nos cem anos entre William Morris e o Conselho da Grande Londres de Ken Livingstone, começaram gradualmente a ser vistos não como uma forma de manter uma população tranquila e saudável para ser explorada pelo capitalismo, mas como objetos de nostalgia.

A cidade socialista já chegou a existir? Será que é totalmente inútil pensar nela até termos sucesso na tarefa muito mais difícil de superar o capitalismo? E – se quebrarmos a regra de que não deveríamos evocar imagens de utopia – como poderia ser o aspecto dela?

O gótico socialista

As intervenções de Tafuri foram parcialmente concebidas como esclarecimentos. Décadas de experiências sociais em arquitetura, de conjuntos habitacionais e de novas cidades e assentamentos igualitários, não haviam enfraquecido o capitalismo por meio da criação de ilhas subversivas no seu interior; em vez disso, o fortaleceram.

Citando Antonio Negri, Tafuri invocou o “Estado Planejador” da conciliação corporativista pelo qual o capital absorveu a social-democracia, a tornando mais poderosa ao fazê-lo. É estranho que a sua crítica ainda seja frequentemente citada, dada o espantoso erro de leitura que ela representou sobre a forma como o vento soprava na década de 1970, quando o capital na verdade se preparava para se livrar quase que completamente dessa conciliação de classes, preferindo, em vez dela, declarar guerra contra tudo, desde os sindicatos até a moradia municipal.

Tafuri pode ser perdoado por, naquele momento, afirmar que o resultado final do reformismo do movimento Arts and Crafts – do expressionismo, do construtivismo, do brutalismo – era a cidade administrada do capitalismo fordista. No entanto, nós não precisamos cometer o mesmo erro, e podemos olhar mais objetivamente para as ilhas da cidade socialista, para aqueles lugares que estavam, para citar outro dissidente comunista italiano, Mario Tronti, “dentro do capitalismo e contra ele”.

O projetista que teve talvez a maior influência nestes enclaves de progresso dentro e contra a cidade capitalista não pensava que o socialismo encontraria muita utilidade para a cidade moderna. Notícias de lugar nenhum, de William Morris, é uma criatura diferente dos exemplos anteriores de planejamento urbano utópico socialista. Ao contrário daquelas outras obras, as suas estão surpreendentemente livres de paternalismo.

Mais cedo no século XIX, Charles Fourier havia proposto ambientes abertos, comunais e centralmente planejados de moradia e de trabalho, chamados falanges; estes ambientes seriam realizados, pelo menos em parte, por industriais progressistas, como no Familistério de Guise, construído na década de 1850 para os trabalhadores de uma fundição de ferro. O assentamento utópico de Robert Owen em New Lanark, onde altos apartamentos de pedra e instalações sociais foram construídos firmemente em torno de um moinho, foi, pelo menos no início, uma forma de garantir trabalhadores mais felizes e saudáveis pelo bem da empresa.

Mas a era de descanso de Morris chega, como descreve a primeira parte do seu livro, depois de uma violenta revolução proletária. Muitos anos depois, Londres foi despovoada, as Casas do Parlamento são utilizadas para armazenar estrume, pontes de ferro foram reconstruídas em pedra, e a maior parte da população vive uma vida longa, tranquila e realizada em cabanas em meio à vegetação, algo que curiosamente não parece ter produzido uma mentalidade suburbana. Não há nenhum sinal de falanges, coletivos ou comunas nesta visão do comunismo.

Morris, então membro do grupo marxista Federação Social-Democrata (SDF) e correspondente de Engels, destacava-se tanto pelo radicalismo da sua visão da luta de classes quanto pelo conservadorismo da sua visão da cidade. Seus discípulos viriam a perder a primeira característica, mas se apegariam à segunda.

O arquiteto e urbanista Raymond Unwin, um colega de Morris na SDF, regressaria à ideia, ridicularizada por Marx e Engels, de construir a sociedade socialista por meio de fragmentos sob o capitalismo, recorrendo ao “socialismo de bom senso” da “Cidade Jardim do Amanhã”, de Ebenezer Howard, com uma visão baseada em auto-organização, mas profundamente fabiana. Entre 1903 e 1913, Unwin projetou a cidade-jardim de Letchworth, nos arredores de Londres, o Jardim-Subúrbio de Hampstead e o enorme subúrbio de Wythenshawe, ao sul de Manchester.

Os dois primeiros foram financiados por filantropos e visavam misturar – até o ponto de não ser mais óbvio qual era de quem – chalés para trabalhadores e chalés para a classe média, mas em breve estes últimos acabariam tomando conta das regiões. Letchworth é uma cidade-dormitório como qualquer outra, enquanto o Jardim-Subúrbio de Hampstead – local de nascimento de Jerry Springer, Elizabeth Taylor e lar de uma geração de líderes do Partido Trabalhista – é, em algumas medidas, a parte mais rica de Londres.

Enquanto isso, em Wythenshawe, onde as casas eram alugadas pela Câmara Municipal de Manchester aos residentes da classe trabalhadora que estivessem na lista de espera municipal, os arranjos pitorescos de casas e grandes jardins ao longo de ruas sinuosas e arborizadas abrigavam dezenas de milhares de pessoas. No entanto, ali não estavam presentes todas as instalações — os institutos, os centros das cidades — que eram planejadas e construídas nos assentamentos filantrópicos. Wythenshawe não teve um centro durante surpreendentes quarenta anos, até que um foi finalmente construído na década de 1970. Nunca teve sequer uma estação ferroviária.

Esta combinação de fracasso parcial para os trabalhadores e sucesso total para os ricos sugeria que a visão neo-medieval de Morris da cidade socialista na realidade era impossível sob o capitalismo britânico. O Estado podia até construir casas, mas não iria paga pelos equipamentos sociais e coletivos que poderiam criar verdadeiros espaços urbanos; enquanto a filantropia privada criava uma utopia profundamente insular para a classe média, onde o conservadorismo da visão suburbana se tornaria cada vez mais nítido.

As ideias de Morris sobre a alienação do trabalho deram origem a aplicações mais interessantes do que suas ideias sobre os males da cidade industrializada. Um produto delas foi a Escola de Amsterdã, um grupo de arquitetos expressionistas na capital holandesa que evidentemente levou a sério a noção, popularizada pelo crítico de arte do período Alto Vitoriano de tendência crescentemente socialista, John Ruskin, de que o trabalho repetitivo e desumanizador era comum tanto na arquitetura clássica, renascentista e barroca, quanto nos produtos mecanizados de ferro e vidro da indústria de construção capitalista.

No Reino Unido, a arquitetura que emergiu destas escolas significava muitas vezes apenas um tipo diferente de trabalho alienado, copiando e reproduzindo detalhes góticos ao invés de detalhes clássicos, com igual foco na “correção” – a questão sobre se o pedreiro em um edifício neogótico era de fato capaz de se expressar como um ser humano completo, como imaginou Ruskin, era provavelmente algo mais questionável.

A ornamentação da Escola de Amsterdã, entretanto, era imensamente mais criativa, dando amplo espaço para a expressão – seus edifícios, geralmente em belos e robustos tijolos vermelhos, são cobertos por delicados ornamentos de flora e fauna, apresentando pouca relação com qualquer precedente histórico. Embora a Escola de Amsterdã talvez devesse mais aos planos do arquiteto do que à vontade do trabalhador na construção, estes edifícios eram objetos altamente elaborados e o trabalho envolvido obviamente não era mecanizado, mas intensivo.

A maior parte dos seus edifícios foram concebidos para o governo municipal social-democrata de Amsterdã ou para sociedades sindicais de construção, e a maioria, seguindo a tradição holandesa, eram apartamentos em vez de casas, juntamente com escolas, câmaras municipais, banhos públicos, bibliotecas, cafés – um programa ambicioso que ainda caracteriza as zonas ao norte e ao sul do centro histórico da cidade.

Estas áreas, majoritariamente dominadas por moradias sociais, ainda permanecem incríveis na sua combinação de fantasia e eficiência, na sua generosidade espacial e literal, e na sua natureza tátil. Também permanecem sendo áreas modernas e urbanas, bem mais atraentes como possíveis modelos urbanos do que Wythenshawe ou Letchworth.

A Escola de Amsterdã não desafiou seriamente o capitalismo, mas pode-se dizer que ela prefigurou, pelo menos para aqueles que podiam desfrutar dela, uma cidade socialista – feita do mesmo material, igualitária e densamente coletiva, embora permanecendo ricamente individualizada ao ponto da excentricidade.

Taylorizando a arquitetura

A arquitetura da década de 1920 na Alemanha, nos Países Baixos, na Áustria e na União Soviética – não importa se eram os social-democratas ou os comunistas que detinham o poder – oscilava entre este tipo de expressionismo e uma forma de arquitetura mais futurista que parecia ter como objetivo exacerbar a alienação, a fim de provocar sua transformação.

Depois de um flerte inicial com Morris e Ruskin – encapsulado no slogan inicial “A Catedral do Socialismo” – os arquitetos reformadores na Alemanha optaram por uma arquitetura deliberadamente mecanizada e tecnófila que, em muitos casos, na verdade utilizava técnicas de trabalho tayloristas, com estudos de gestão de tempo e linhas de produção no local.

Em alguns casos, houve tentativas de combinar isso com a noção de socialismo como auto-atividade da classe trabalhadora – a GEHAG, a sociedade sindical de construção que construiu vários bairros operários em Berlim na década de 1920, foi ambiciosa na sua tentativa de promover tanto o taylorismo quanto a democracia operária por meio de conselhos, com um compensando o outro.

Os resultados arquitetônicos – os conjuntos habitacionais do período entre guerras de Berlim, Frankfurt, Dessau, Roterdã e Moscou – são extremamente elegantes, precisos, repletos de cores vibrantes e lacônicos nos seus detalhes, com uma sensação ligeiramente falsa de extrema modernidade (na sua maioria, trata-se de tijolo e reboco, e não de aço e concreto). Tal como as cidades-jardim e ao contrário de Amsterdã, esses prédios estão cercados por um mar de vegetação rasteira meticulosamente planejado, com árvores e arbustos exóticos fluindo por entre os edifícios angulares, retilíneos e deliberadamente artificiais.

A auto-expressão do trabalhador na construção era cada vez mais vista como um resquício, mera nostalgia da era pré-industrial. Quando o dramaturgo expressionista alemão Ernst Toller lhe perguntou como ele justificava a exploração dos trabalhadores, o antigo diretor do sindicato dos metalúrgicos, Aleksei Gastev, afirmou que a gestão científica era um passo no caminho para a eliminação completa do trabalho. Com ela, as horas de trabalho diminuiriam radicalmente até serem necessárias apenas algumas horas por dia. Depois de algum tempo, as máquinas fariam todo o trabalho.

Esteticamente, o efeito alienante de todos aqueles ângulos rectos era compensado por árvores, cores e experiências geométricas excitantes. Em termos da cidade em si, Berlim e Frankfurt eram as mais próximas da ideia de Morris, com casas unifamiliares e jardins; Viena e Moscovo preferiam estruturas mais densas com instalações colectivas integradas, por vezes eliminando até mesmo as cozinhas privadas em favor de cantinas, como nos famosos apartamentos “semi-coletivizados” de Narkomfins ou no albergue de estudantes “totalmente coletivizado” do Instituto Têxtil de Moscou.

Tradições artesanais continuaram sendo praticadas no regime social-democrata incomumente radical da Viena do entre guerras. Enormes quarteirões que encerravam várias instalações coletivas, quase mini-cidades em si, estavam repletos de estátuas, majólica e mosaicos, e eram meticulosos nos seus detalhes e materiais, demonstrando poucos sinais de taylorismo. Em parte, esta fuga à mecanização foi ditada pela necessidade de criar empregos, gerando trabalho intensivo numa cidade de grandes dimensões que deixara de ser a capital de um império.

O Palácio dos Trabalhadores

É improvável que um impulso semelhante estivesse por trás da súbita virada da União Soviética em meados da década de 1930 do modernismo para um neoclassicismo estranho e eclético, mas as semelhanças podem ser impressionantes. Engelsplatz, o último grande projeto em Viena antes de suas propriedades serem bombardeadas por fascistas, era um imenso bloco neoclássico simétrico e revestido de azulejos com torres, farois e estátuas repletos de simbologia com trabalhadores corpulentos em marcha.

É só um pequeno passo daí para os enormes e retóricos “palácios dos trabalhadores” do stalinismo. Como se em compensação pela superlotação, pela remuneração por peça, o terror e a ausência de representação política, uma sortuda minoria de trabalhadores (apesar de grande em números) — geralmente aqueles que se destacavam no “trabalho de choque” — recebia apartamentos palacianos. Estes ostentavam tetos altos, abundantes ornamentos de superfície e uma infraestrutura de escolas, clubes e cinemas, como pode ser visto nos distritos operários de Moscou ou em cidades fabris como Nizhny Novgorod.

Ridicularizadas (talvez com razão) como puro espetáculo, essas estruturas, como os sistemas de metrô abaixo delas, tinham a virtude de uma abordagem para a cidade de um “mundo virado de cabeça para baixo”. Elas reaproveitavam as formas que foram inventadas para o deleite dos governantes absolutistas, burgueses parisienses ou Khans e czares do século XVIII para dar abrigo a trabalhadores da siderurgia e da mineração. A maioria das pessoas, no entanto, continuava a viver em blocos de apartamentos do século XIX, subdivididos e apertados, onde era comum que várias famílias dividissem um único apartamento pequeno.

Em vez de ser vista como socialista, a cidade soviética no seu auge assemelhava-se ao que Rudolf Bahro chamou de “industrialização não-capitalista”, herdando mais da tradição espacial local e não-ocidental do que da mera emulação.

A cidade stalinista era a cidade de Pedro, o Grande, virada de cabeça para baixo. O czar decretou a construção de uma metrópole neoclássica de tamanha generosidade espacial e ordem que ela simplesmente não poderia ter sido construída sob um sistema de especuladores, construtoras e propriedade individualizada. As “sete irmãs” de Stalin adaptaram a ideia do arranha-céu a um sistema de uso despótico da terra, onde hotéis, escritórios e apartamentos de luxo de imensidão babilônica foram arranjados em um círculo ao redor do Kremlin, com qualquer coisa em seu caminho sendo impiedosamente removida.

Ao fazê-lo, eles relembraram uma ideia arquitetônica socialista anterior — a noção de “coroa da cidade” do arquiteto berlinense Bruno Taut, onde uma cidade estaria centrada em uma estrutura piramidal gigante que abrigaria uma sala de concertos, uma prefeitura, um salão de dança e muito mais em torno do qual giraria a vida da comunidade.

É uma questão aberta à discussão se tal coisa tenha sido realmente alcançada na forma do Palácio da Cultura e Ciência, construído no centro de Varsóvia no início da década de 1950, onde o edifício definitivo, visível a partir de todos os pontos, foi dedicado a uma miscelânea de funções sociais, incluindo piscinas, duas salas de concerto, um teatro, um museu de tecnologia, vários bares, um cinema, um “Palácio da Juventude”, vários escritórios e um ponto de observação pública no trigésimo andar.

Os deslocamentos causados ​​pelo super-hausmannismo de Stalin apenas exacerbaram um problema habitacional já desastroso — com o primeiro sinal de desestalinização, em 1954, vindo na forma de um decreto recomendando construções simplificadas e pré-fabricadas e o fim dos “excessos” arquitetônicos. O que aconteceu depois representa, evidentemente, a familiar imagem da cidade socialista no mundo do clichê — a intensificação do culto à mecanização e à pré-fabricação, típico da Alemanha de Weimar, ao ponto de ter distritos inteiros, abrigando mais de cem mil pessoas (como Ursynów, em Varsóvia) sendo construídos a partir de painéis de concreto idênticos.

Os resultados muitas vezes ficavam devendo muito em termos de instalações coletivas, como o que se antecipava nos anos do entre-guerras — visite muitos deles hoje, e descobrirá que os desanimadores grandes caixotes de shoppings vieram compensar essa ausência. Como na Europa Ocidental, América Latina ou Japão do pós-guerra, há muitos experimentos sociais fascinantes da era que podem ser selecionados para inspiração, alguns dos quais provaram ser mais capazes de sobreviver “dentro do capitalismo e contra ele” do que outros.

Um índice de possibilidades

Ao longo da primeira metade do século XX, em vez de uma lógica monolítica de um fordismo incipiente, a conjunção do socialismo com a arquitetura foi notável por suas mudanças bruscas, do pré-fabricado ao artesanal e vice-versa, do suburbano ao ultra-urbano, da abundância de instalações sociais na Viena Vermelha à escassez de qualquer coisa além de casas e igrejas em Wythenshawe.

Essas variações apresentam um complexo índice de possibilidades. Há necessidade de escolher qual delas seria genuinamente prefigurativa do futuro? A sugestão de Trotsky em Literatura e Revolução de que escolas de estéticas concorrentes substituiriam os partidos políticos na “era do descanso” sugeriria que não. No entanto, essas continuam sendo questões bem vivas sob o capitalismo.

As ondas de entusiasmo da arquitetura radical contemporânea costumam ser peculiares análogas emergentes como as de Morris, favorecendo o trabalho aparentemente não alienado da autoconstrução, o que geralmente assume a forma de casas unifamiliares; enquanto isso, talvez os maiores conjuntos habitacionais municipais modernistas da história estejam sendo construídos em cidades chinesas.

Curiosamente, são os prédios abandonados em Caracas, e não os arranha-céus municipais em Chongqing, que causam mais fascínio no Ocidente. A autoatividade e mecanização continuam sendo os pólos entre os quais o reformismo oscila. Mas nessa dialética, talvez possamos descobrir mais potencial para imaginar o futuro do trabalho, da estética e da cidade do que se relegarmos tudo isso ao status de irrelevância, àquele familiar “depois da revolução”.

Não entraremos na cidade socialista às cegas, mas cientes de que dezenas de tentativas de ilhas de socialismo já foram estabelecidas, algumas mais bem-sucedidas e duradouras do que outras. Precisaremos pensar sobre quais foram derrotadas por causa de suas falhas intrínsecas como arquitetura e planejamento urbano, e quais foram derrotadas simplesmente porque eram impossíveis sob o capitalismo. Daquelas que tiveram sucesso no capitalismo, poderíamos verificar quais funcionaram porque reproduziram valores capitalistas e quais funcionaram porque eram ilhas inexpugnáveis ​​que conseguiram existir tanto “dentro” dele quanto “contra” ele.

O mais valioso de tudo é que essa experiência de um século é um índice do possível. Esses lugares não foram apenas plantas ou utopias no papel – eles aconteceram. Neles as pessoas viveram e vivem, tiveram suas vidas transformadas. Se adiarmos qualquer pensamento sobre arquitetura até um vago “depois da revolução”, ignoramos o fato de que arquitetos socialistas muitas vezes criaram vislumbres de como uma sociedade diferente poderia ser.

Colaborador

Owen Hatherley é o editor de cultura da Tribune. Seu último livro, "Red Metropolis: Socialism and the Government of London", saiu pela Repeater Books.

1 de outubro de 2014

Por que a crise na Ucrânia é culpa do Ocidente

As ilusões liberais que provocaram Putin

John J. Mearsheimer


Um homem tira uma foto em uma estrela de estilo soviético retocada com tinta azul para que se assemelhe à bandeira ucraniana, Moscou, 20 de agosto de 2014. Maxim Shemetov / Cortesia Reuters

De acordo com a sabedoria predominante no Ocidente, a crise da Ucrânia pode ser atribuída quase inteiramente à agressão russa. O presidente russo, Vladimir Putin, diz o argumento, anexou a Crimeia por um desejo de longa data de ressuscitar o império soviético, e ele pode eventualmente ir atrás do resto da Ucrânia, bem como de outros países da Europa Oriental. Nessa visão, a deposição do presidente ucraniano Viktor Yanukovych em fevereiro de 2014 apenas forneceu um pretexto para a decisão de Putin de ordenar que as forças russas tomassem parte da Ucrânia.

Mas essa conta está errada: os Estados Unidos e seus aliados europeus compartilham a maior parte da responsabilidade pela crise. A raiz do problema é a ampliação da OTAN, o elemento central de uma estratégia maior para tirar a Ucrânia da órbita da Rússia e integrá-la ao Ocidente. Ao mesmo tempo, a expansão da UE para o leste e o apoio do Ocidente ao movimento pró-democracia na Ucrânia - começando com a Revolução Laranja em 2004 - também foram elementos críticos. Desde meados da década de 1990, os líderes russos se opuseram firmemente ao alargamento da OTAN e, nos últimos anos, deixaram claro que não ficariam parados enquanto seu vizinho estrategicamente importante se transformasse em um bastião ocidental. Para Putin, a derrubada ilegal do presidente ucraniano democraticamente eleito e pró-Rússia - que ele corretamente rotulou de "golpe" - foi a gota d'água. Ele respondeu tomando a Crimeia, uma península que ele temia que abrigaria uma base naval da Otan, e trabalhou para desestabilizar a Ucrânia até que ela abandonasse seus esforços para se juntar ao Ocidente.

A reação de Putin não deveria ter sido uma surpresa. Afinal, o Ocidente estava se movendo para o quintal da Rússia e ameaçando seus principais interesses estratégicos, um ponto que Putin apresentou enfaticamente e repetidamente. As elites nos Estados Unidos e na Europa foram pegas de surpresa pelos eventos apenas porque concordam com uma visão falha da política internacional. Eles tendem a acreditar que a lógica do realismo tem pouca relevância no século XXI e que a Europa pode ser mantida inteira e livre com base em princípios liberais como o Estado de Direito, a interdependência econômica e a democracia.

Mas esse grande esquema deu errado na Ucrânia. A crise mostra que a realpolitik continua relevante - e os estados que a ignoram o fazem por sua conta e risco. Os líderes dos EUA e da Europa erraram na tentativa de transformar a Ucrânia em um reduto ocidental na fronteira da Rússia. Agora que as consequências foram expostas, seria um erro ainda maior continuar com essa política ilegítima.

A AFRONTA OCIDENTAL

Quando a Guerra Fria chegou ao fim, os líderes soviéticos preferiram que as forças dos EUA permanecessem na Europa e a OTAN permanecesse intacta, um arranjo que eles achavam que manteria a Alemanha reunificada pacificada. Mas eles e seus sucessores russos não queriam que a OTAN crescesse e presumiram que os diplomatas ocidentais entendiam suas preocupações. A administração Clinton evidentemente pensava o contrário e, em meados da década de 1990, começou a pressionar pela expansão da OTAN.

A primeira fase do alargamento teve lugar em 1999 e incluiu a República Checa, a Hungria e a Polônia. A segunda ocorreu em 2004; incluía Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. Moscou reclamou amargamente desde o início. Durante a campanha de bombardeios da OTAN em 1995 contra os sérvios bósnios, por exemplo, o presidente russo Boris Yeltsin disse: “Este é o primeiro sinal do que pode acontecer quando a OTAN chegar às fronteiras da Federação Russa. ... A chama da guerra pode explodir em toda a Europa.” Mas os russos estavam muito fracos na época para atrapalhar o movimento da Otan para o leste - o que, de qualquer forma, não parecia tão ameaçador, já que nenhum dos novos membros compartilhava uma fronteira com a Rússia, exceto os minúsculos países bálticos.

Então a OTAN começou a olhar mais para o leste. Em sua cúpula de abril de 2008 em Bucareste, a aliança considerou admitir a Geórgia e a Ucrânia. A administração de George W. Bush apoiou isso, mas a França e a Alemanha se opuseram à medida por temer que ela antagonizasse indevidamente a Rússia. No final, os membros da OTAN chegaram a um compromisso: a aliança não iniciou o processo formal de adesão, mas emitiu uma declaração endossando as aspirações da Geórgia e da Ucrânia e declarando audaciosamente: “Esses países se tornarão membros da OTAN”.

Moscou, no entanto, não viu o resultado como um compromisso. Alexander Grushko, então vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse: “A adesão da Geórgia e da Ucrânia à aliança é um grande erro estratégico que teria consequências muito sérias para a segurança pan-europeia”. Putin sustentou que admitir esses dois países na OTAN representaria uma “ameaça direta” à Rússia. Um jornal russo informou que Putin, ao falar com Bush, “de forma muito transparente deu a entender que se a Ucrânia fosse aceita na OTAN, ela deixaria de existir”.

A invasão da Geórgia pela Rússia em agosto de 2008 deveria ter dissipado quaisquer dúvidas remanescentes sobre a determinação de Putin de impedir que a Geórgia e a Ucrânia se juntassem à OTAN. O presidente georgiano Mikheil Saakashvili, que estava profundamente empenhado em trazer seu país para a OTAN, havia decidido no verão de 2008 reincorporar duas regiões separatistas, a Abkhazia e a Ossétia do Sul. Mas Putin procurou manter a Geórgia fraca e dividida - e fora da Otan. Depois que os combates eclodiram entre o governo georgiano e os separatistas da Ossétia do Sul, as forças russas assumiram o controle da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Moscou tinha apresentado seu ponto. No entanto, apesar desse aviso claro, a OTAN nunca abandonou publicamente seu objetivo de trazer a Geórgia e a Ucrânia para a aliança. E a expansão da OTAN continuou avançando, com a Albânia e a Croácia se tornando membros em 2009.

A UE também está marchando para o leste. Em maio de 2008, apresentou sua iniciativa de Parceria Oriental, um programa para promover a prosperidade em países como a Ucrânia e integrá-los na economia da UE. Não é de surpreender que os líderes russos considerem o plano hostil aos interesses de seu país. Em fevereiro passado, antes de Yanukovych ser destituído do cargo, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, acusou a UE de tentar criar uma “esfera de influência” na Europa Oriental. Aos olhos dos líderes russos, a expansão da UE é um pretexto para a expansão da OTAN.

A ferramenta final do Ocidente para separar Kiev de Moscou tem sido seus esforços para difundir os valores ocidentais e promover a democracia na Ucrânia e em outros estados pós-soviéticos, um plano que muitas vezes envolve o financiamento de indivíduos e organizações pró-ocidentais. Victoria Nuland, secretária de Estado adjunta dos EUA para assuntos europeus e euro-asiáticos, estimou em dezembro de 2013 que os Estados Unidos investiram mais de US$ 5 bilhões desde 1991 para ajudar a Ucrânia a alcançar “o futuro que merece”. Como parte desse esforço, o governo dos EUA financiou o National Endowment for Democracy (NED). A fundação sem fins lucrativos financiou mais de 60 projetos destinados a promover a sociedade civil na Ucrânia, e o presidente do NED, Carl Gershman, chamou aquele país de “o maior prêmio”. Depois que Yanukovych venceu as eleições presidenciais da Ucrânia em fevereiro de 2010, o NED decidiu que ele estava prejudicando seus objetivos e, assim, intensificou seus esforços para apoiar a oposição e fortalecer as instituições democráticas do país.

Quando os líderes russos olham para a engenharia social ocidental na Ucrânia, eles se preocupam que seu país possa ser o próximo. E tais temores dificilmente são infundados. Em setembro de 2013, Gershman escreveu no The Washington Post: “A escolha da Ucrânia de se juntar à Europa acelerará o fim da ideologia do imperialismo russo que Putin representa”. Ele acrescentou: “Os russos também enfrentam uma escolha, e Putin pode se encontrar no lado perdedor não apenas no exterior, mas dentro da própria Rússia”.

CRIANDO UMA CRISE

O pacote triplo de políticas do Ocidente - ampliação da OTAN, expansão da UE e promoção da democracia - acrescentou combustível a um fogo que esperava para ser acesso. A faísca veio em novembro de 2013, quando Yanukovych rejeitou um grande acordo econômico que estava negociando com a UE e decidiu aceitar uma contraproposta russa de US$ 15 bilhões. Essa decisão deu origem a manifestações antigovernamentais que se intensificaram nos três meses seguintes e que, em meados de fevereiro, levaram à morte de cerca de cem manifestantes. Emissários ocidentais voaram às pressas para Kiev para resolver a crise. Em 21 de fevereiro, o governo e a oposição fecharam um acordo que permitiu a Yanukovych permanecer no poder até que novas eleições fossem realizadas. Mas imediatamente se desfez e Yanukovych fugiu para a Rússia no dia seguinte. O novo governo em Kiev era pró-ocidental e anti-russo em sua essência, e continha quatro membros de alto escalão que podiam ser legitimamente rotulados de neofascistas.

Embora a extensão total do envolvimento dos EUA ainda não tenha sido divulgada, está claro que Washington apoiou o golpe. Nuland e o senador republicano John McCain participaram de manifestações antigovernamentais, e Geoffrey Pyatt, o embaixador dos EUA na Ucrânia, proclamou após a queda de Yanukovych que era “um dia para ficar na história”. Como revelou uma gravação telefônica vazada, Nuland havia defendido a mudança de regime e queria que o político ucraniano Arseniy Yatsenyuk se tornasse primeiro-ministro no novo governo, o que ele fez. Não é de admirar que russos de todas as convicções pensem que o Ocidente desempenhou um papel na deposição de Yanukovych.

Para Putin, chegou a hora de agir contra a Ucrânia e o Ocidente. Pouco depois de 22 de fevereiro, ele ordenou que as forças russas tomassem a Crimeia da Ucrânia e, logo depois, a incorporou à Rússia. A tarefa se mostrou relativamente fácil, graças aos milhares de tropas russas já estacionadas em uma base naval no porto de Sebastopol, na Crimeia. A Crimeia também foi um alvo fácil, já que os russos étnicos compõem cerca de 60% de sua população. A maioria deles queria sair da Ucrânia.

Em seguida, Putin pressionou maciçamente o novo governo em Kiev para desencorajá-lo de se aliar ao Ocidente contra Moscou, deixando claro que destruiria a Ucrânia como um estado funcional antes de permitir que se tornasse um reduto ocidental às portas da Rússia. Para esse fim, ele forneceu conselheiros, armas e apoio diplomático aos separatistas russos no leste da Ucrânia, que estão empurrando o país para a guerra civil. Ele reuniu um grande exército na fronteira ucraniana, ameaçando invadir se o governo reprimisse os rebeldes. E ele aumentou drasticamente o preço do gás natural que a Rússia vende para a Ucrânia e exigiu pagamento por exportações anteriores. Putin está jogando duro.

O DIAGNÓSTICO

As ações de Putin podem ser facilmente compreendidas. Uma enorme extensão de terra plana que a França napoleônica, a Alemanha imperial e a Alemanha nazista cruzaram para atacar a própria Rússia, a Ucrânia serve como um estado-tampão de enorme importância estratégica para a Rússia. Nenhum líder russo toleraria uma aliança militar que era inimiga mortal de Moscou até recentemente se mudar para a Ucrânia. Tampouco qualquer líder russo ficaria de braços cruzados enquanto o Ocidente estivesse ajudando a instalar ali um governo determinado a integrar a Ucrânia ao Ocidente.

Washington pode não gostar da posição de Moscou, mas deve entender a lógica por trás dela. Isso é Geopolítica 101: grandes potências são sempre sensíveis a ameaças potenciais próximas ao seu território de origem. Afinal, os Estados Unidos não toleram que grandes potências distantes enviem forças militares para qualquer lugar do Hemisfério Ocidental, muito menos em suas fronteiras. Imagine a indignação em Washington se a China construísse uma aliança militar impressionante e tentasse incluir o Canadá e o México nela. Lógica à parte, os líderes russos disseram a seus colegas ocidentais em muitas ocasiões que consideram inaceitável a expansão da OTAN na Geórgia e na Ucrânia, juntamente com qualquer esforço para colocar esses países contra a Rússia - uma mensagem que a guerra russo-georgiana de 2008 também deixou clara.

Autoridades dos Estados Unidos e de seus aliados europeus afirmam que eles se esforçaram muito para aplacar os temores russos e que Moscou deveria entender que a Otan não tem planos para a Rússia. Além de negar continuamente que sua expansão visava conter a Rússia, a aliança nunca mobilizou permanentemente forças militares em seus novos estados membros. Em 2002, chegou a criar um órgão chamado Conselho OTAN-Rússia em um esforço para promover a cooperação. Para acalmar ainda mais a Rússia, os Estados Unidos anunciaram em 2009 que implantariam seu novo sistema de defesa antimísseis em navios de guerra em águas europeias, pelo menos inicialmente, em vez de em território tcheco ou polonês. Mas nenhuma dessas medidas funcionou; os russos permaneceram firmemente contra o alargamento da OTAN, especialmente para a Geórgia e a Ucrânia. E são os russos, não o Ocidente, que decidem o que conta como uma ameaça para eles.

Para entender por que o Ocidente, especialmente os Estados Unidos, não conseguiu entender que sua política para a Ucrânia estava preparando as bases para um grande confronto com a Rússia, é preciso voltar a meados da década de 1990, quando o governo Clinton começou a defender a expansão da OTAN. Os especialistas apresentaram vários argumentos a favor e contra o alargamento, mas não houve consenso sobre o que fazer. A maioria dos emigrantes da Europa Oriental nos Estados Unidos e seus parentes, por exemplo, apoiaram fortemente a expansão, porque queriam que a OTAN protegesse países como Hungria e Polônia. Alguns realistas também favoreceram a política porque achavam que a Rússia ainda precisava ser contida.

Mas a maioria dos realistas se opôs à expansão, acreditando que uma grande potência em declínio com uma população envelhecida e uma economia unidimensional não precisava de fato ser contida. E temiam que o alargamento só desse a Moscou um incentivo para causar problemas na Europa Oriental. O diplomata americano George Kennan articulou essa perspectiva em uma entrevista em 1998, logo após o Senado dos EUA aprovar a primeira rodada de expansão da OTAN. "Acho que os russos reagirão gradualmente de forma bastante adversa e isso afetará suas políticas", disse ele. "Acho que é um erro trágico. Não havia nenhuma razão para isso. Ninguém estava ameaçando ninguém".

A maioria dos liberais, por outro lado, era a favor do alargamento, incluindo muitos membros-chave da administração Clinton. Eles acreditavam que o fim da Guerra Fria havia transformado fundamentalmente a política internacional e que uma nova ordem pós-nacional havia substituído a lógica realista que costumava governar a Europa. Os Estados Unidos não eram apenas a “nação indispensável”, como disse a secretária de Estado Madeleine Albright; era também um hegemon benigno e, portanto, improvável de ser visto como uma ameaça em Moscou. O objetivo, em essência, era fazer com que todo o continente se parecesse com a Europa Ocidental.

E assim os Estados Unidos e seus aliados procuraram promover a democracia nos países do Leste Europeu, aumentar a interdependência econômica entre eles e incorporá-los nas instituições internacionais. Tendo vencido o debate nos Estados Unidos, os liberais tiveram pouca dificuldade em convencer seus aliados europeus a apoiar o alargamento da OTAN. Afinal, dadas as conquistas anteriores da UE, os europeus estavam ainda mais apegados que os americanos à ideia de que a geopolítica não importava mais e que uma ordem liberal abrangente poderia manter a paz na Europa.

Os liberais dominaram tão completamente o discurso sobre a segurança europeia durante a primeira década deste século que, mesmo quando a aliança adotou uma política de crescimento de portas abertas, a expansão da OTAN enfrentou pouca oposição realista. A visão de mundo liberal agora é um dogma aceito entre as autoridades dos EUA. Em março, por exemplo, o presidente Barack Obama fez um discurso sobre a Ucrânia no qual falou repetidamente sobre “os ideais” que motivam a política ocidental e como esses ideais “têm sido frequentemente ameaçados por uma visão de poder mais antiga e tradicional”. A resposta do secretário de Estado John Kerry à crise da Crimeia refletiu essa mesma perspectiva: "Você simplesmente não se comporta no século XXI à moda do século XIX, invadindo outro país sob pretexto completamente forjado".

Em essência, os dois lados têm operado com manuais diferentes: Putin e seus compatriotas vêm pensando e agindo de acordo com ditames realistas, enquanto seus pares ocidentais têm aderido a ideias liberais sobre política internacional. O resultado é que os Estados Unidos e seus aliados, sem saber, provocaram uma grande crise na Ucrânia.

JOGO DA CULPA

Nessa mesma entrevista de 1998, Kennan previu que a expansão da OTAN provocaria uma crise, após a qual os proponentes da expansão “diriam que sempre dissemos a vocês que é assim que os russos são”. Como se fosse uma sugestão, a maioria das autoridades ocidentais retratou Putin como o verdadeiro culpado na situação da Ucrânia. Em março, de acordo com o The New York Times, a chanceler alemã Angela Merkel deu a entender que Putin era irracional, dizendo a Obama que ele estava “em outro mundo”. Embora Putin tenha sem dúvida tendências autocráticas, nenhuma evidência apoia a acusação de que ele é mentalmente desequilibrado. Pelo contrário: ele é um estrategista de primeira classe que deve ser temido e respeitado por qualquer um que o desafie em política externa.

Outros analistas alegam, mais plausivelmente, que Putin lamenta o fim da União Soviética e está determinado a revertê-la expandindo as fronteiras da Rússia. De acordo com essa interpretação, Putin, tendo tomado a Crimeia, agora está testando as águas para ver se é a hora certa de conquistar a Ucrânia, ou pelo menos sua parte oriental, e ele acabará se comportando de forma agressiva em relação a outros países da vizinhança da Rússia. Para alguns neste campo, Putin representa um Adolf Hitler moderno, e fazer qualquer tipo de acordo com ele repetiria o erro de Munique. Assim, a OTAN deve admitir a Geórgia e a Ucrânia para conter a Rússia antes que ela domine seus vizinhos e ameace a Europa Ocidental.

Este argumento desmorona sob uma inspeção minuciosa. Se Putin estivesse comprometido em criar uma Rússia maior, os sinais de suas intenções quase certamente teriam surgido antes de 22 de fevereiro. Mas não há praticamente nenhuma evidência de que ele estava determinado a tomar a Crimeia, muito menos qualquer outro território na Ucrânia, antes dessa data. Mesmo os líderes ocidentais que apoiavam a expansão da OTAN não o faziam por medo de que a Rússia estivesse prestes a usar a força militar. As ações de Putin na Crimeia os pegaram de surpresa e parecem ter sido uma reação espontânea à deposição de Yanukovych. Logo depois, até Putin disse que se opunha à secessão da Crimeia, antes de mudar rapidamente de ideia.

Além disso, mesmo que quisesse, a Rússia não tem capacidade para conquistar e anexar facilmente o leste da Ucrânia, muito menos todo o país. Cerca de 15 milhões de pessoas - um terço da população da Ucrânia - vivem entre o rio Dnieper, que corta o país, e a fronteira russa. A esmagadora maioria dessas pessoas quer continuar a fazer parte da Ucrânia e certamente resistiria a uma ocupação russa. Além disso, o exército medíocre da Rússia, que mostra poucos sinais de se transformar em uma Wehrmacht moderna, teria poucas chances de pacificar toda a Ucrânia. Moscou também está mal posicionada para pagar por uma ocupação cara; sua fraca economia sofreria ainda mais com as sanções resultantes.

Mas mesmo que a Rússia ostentasse uma poderosa máquina militar e uma economia impressionante, provavelmente ainda seria incapaz de ocupar a Ucrânia com sucesso. Basta considerar as experiências soviéticas e americanas no Afeganistão, as experiências americanas no Vietnã e no Iraque e a experiência russa na Chechênia para lembrar que as ocupações militares geralmente terminam mal. Putin certamente entende que tentar subjugar a Ucrânia seria como engolir um porco-espinho. Sua resposta aos eventos tem sido defensiva, não ofensiva.

UMA SAÍDA

Dado que a maioria dos líderes ocidentais continua a negar que o comportamento de Putin possa ser motivado por preocupações legítimas de segurança, não é surpreendente que eles tenham tentado modificá-lo dobrando a aposta nas suas políticas atuais e punindo a Rússia para impedir novas agressões. Embora Kerry tenha sustentado que “todas as opções estão na mesa”, nem os Estados Unidos nem seus aliados da OTAN estão preparados para usar a força para defender a Ucrânia. O Ocidente está confiando em sanções econômicas para coagir a Rússia a encerrar seu apoio à insurreição no leste da Ucrânia. Em julho, os Estados Unidos e a UE colocaram em prática sua terceira rodada de sanções limitadas, visando principalmente indivíduos de alto nível intimamente ligados ao governo russo e alguns bancos de alto nível, empresas de energia e empresas de defesa. Eles também ameaçaram desencadear outra rodada de sanções mais duras, destinadas a setores inteiros da economia russa.

Tais medidas terão pouco efeito. Sanções severas provavelmente estão fora da mesa de qualquer maneira; os países da Europa Ocidental, especialmente a Alemanha, resistiram a impô-las por medo de que a Rússia pudesse retaliar e causar sérios danos econômicos dentro da UE. Mas mesmo que os Estados Unidos pudessem convencer seus aliados a adotar medidas duras, Putin provavelmente não alteraria sua tomada de decisão. A história mostra que os países absorverão enormes quantidades de punição para proteger seus principais interesses estratégicos. Não há razão para pensar que a Rússia representa uma exceção a essa regra.

Os líderes ocidentais também se apegaram às políticas provocativas que precipitaram a crise em primeiro lugar. Em abril, o vice-presidente dos EUA, Joseph Biden, se reuniu com legisladores ucranianos e disse a eles: “Esta é uma segunda oportunidade de cumprir a promessa original feita pela Revolução Laranja”. John Brennan, diretor da CIA, não ajudou quando, no mesmo mês, visitou Kiev em uma viagem que a Casa Branca disse ter como objetivo melhorar a cooperação de segurança com o governo ucraniano.

A UE, entretanto, continuou a impulsionar a sua Parceria Oriental. Em março, José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, resumiu o pensamento da UE sobre a Ucrânia, dizendo: "Temos uma dívida, um dever de solidariedade com aquele país, e vamos trabalhar para tê-los o mais próximo possível de nós." E com certeza, em 27 de junho, a UE e a Ucrânia assinaram o acordo econômico que Yanukovych havia fatalmente rejeitado sete meses antes. Também em junho, em uma reunião dos ministros das Relações Exteriores dos membros da OTAN, foi acordado que a aliança permaneceria aberta a novos membros, embora os ministros das Relações Exteriores se abstivessem de mencionar a Ucrânia pelo nome. “Nenhum país terceiro tem poder de veto sobre o alargamento da OTAN”, anunciou Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN. Os ministros das Relações Exteriores também concordaram em apoiar várias medidas para melhorar as capacidades militares da Ucrânia em áreas como comando e controle, logística e defesa cibernética. Os líderes russos naturalmente recuaram diante dessas ações; a resposta do Ocidente à crise só piorará uma situação ruim.

Há uma solução para a crise na Ucrânia, no entanto - embora exija que o Ocidente pense no país de uma maneira fundamentalmente nova. Os Estados Unidos e seus aliados devem abandonar seu plano de ocidentalizar a Ucrânia e, em vez disso, tentar torná-la um amortecedor neutro entre a OTAN e a Rússia, semelhante à posição da Áustria durante a Guerra Fria. Os líderes ocidentais devem reconhecer que a Ucrânia é tão importante para Putin que eles não podem apoiar um regime anti-russo lá. Isso não significaria que um futuro governo ucraniano teria que ser pró-Rússia ou anti-OTAN. Pelo contrário, o objetivo deve ser uma Ucrânia soberana que não caia nem no campo russo nem no ocidental.

Para atingir esse objetivo, os Estados Unidos e seus aliados devem descartar publicamente a expansão da OTAN na Geórgia e na Ucrânia. O Ocidente também deve ajudar a elaborar um plano de resgate econômico para a Ucrânia financiado conjuntamente pela UE, Fundo Monetário Internacional, Rússia e Estados Unidos - uma proposta que Moscou deve acolher, dado seu interesse em ter uma Ucrânia próspera e estável no seu flanco ocidental. E o Ocidente deveria limitar consideravelmente seus esforços de engenharia social dentro da Ucrânia. É hora de acabar com o apoio ocidental a outra Revolução Laranja. No entanto, os líderes dos EUA e da Europa devem incentivar a Ucrânia a respeitar os direitos das minorias, especialmente os direitos linguísticos de seus cidadãos de idioma russa.

Alguns podem argumentar que mudar a política em relação à Ucrânia neste momento prejudicaria seriamente a credibilidade dos EUA em todo o mundo. Sem dúvida haveria alguns custos, mas os custos de continuar uma estratégia equivocada seriam muito maiores. Além disso, outros países tendem a respeitar um Estado que aprende com seus erros e, em última análise, elabora uma política que lida efetivamente com o problema em questão. Essa opção está claramente aberta aos Estados Unidos.

Também se ouve a alegação de que a Ucrânia tem o direito de determinar com quem quer se aliar e os russos não têm o direito de impedir que Kiev se junte ao Ocidente. Esta é uma maneira perigosa para a Ucrânia pensar sobre suas escolhas de política externa. The sad truth is that might often makes right when great-power politics are at play. Direitos abstratos como a autodeterminação são em grande parte sem sentido quando estados poderosos entram em conflitos com estados mais fracos. Cuba tinha o direito de formar uma aliança militar com a União Soviética durante a Guerra Fria? Os Estados Unidos certamente não pensam assim, e os russos pensam da mesma forma sobre a adesão da Ucrânia ao Ocidente. É do interesse da Ucrânia entender esses fatos da vida e agir com cuidado ao lidar com seu vizinho mais poderoso.

Mesmo que se rejeite essa análise, no entanto, e acredite que a Ucrânia tem o direito de solicitar a adesão à UE e à OTAN, o fato é que os Estados Unidos e seus aliados europeus têm o direito de rejeitar esses pedidos. Não há razão para que o Ocidente tenha que acomodar a Ucrânia se estiver empenhado em seguir uma política externa equivocada, especialmente se sua defesa não for um interesse vital. Satisfazer os sonhos de alguns ucranianos não vale a animosidade e os conflitos que isso causará, especialmente para o povo ucraniano.

É claro que alguns analistas podem admitir que a OTAN lidou mal com as relações com a Ucrânia e ainda assim sustentar que a Rússia constitui um inimigo que só se tornará mais formidável com o tempo - e que o Ocidente, portanto, não tem escolha a não ser continuar sua política atual. Mas este ponto de vista está muito equivocado. A Rússia é uma potência em declínio e só ficará mais fraca com o tempo. Além disso, mesmo que a Rússia fosse uma potência em ascensão, ainda não faria sentido incorporar a Ucrânia à OTAN. A razão é simples: os Estados Unidos e seus aliados europeus não consideram a Ucrânia um interesse estratégico central, como provou sua relutância em usar a força militar para ajudá-la. Seria, portanto, o cúmulo da loucura criar um novo membro da OTAN que os outros membros não têm intenção de defender. A OTAN se expandiu no passado porque os liberais presumiram que a aliança nunca teria que honrar suas novas garantias de segurança, mas o recente jogo de poder da Rússia mostra que conceder à Ucrânia a adesão à OTAN poderia colocar a Rússia e o Ocidente em rota de colisão.

Manter a política atual também complicaria as relações ocidentais com Moscou em outras questões. Os Estados Unidos precisam da ajuda da Rússia para retirar equipamentos dos EUA do Afeganistão através do território russo, chegar a um acordo nuclear com o Irã e estabilizar a situação na Síria. Na verdade, Moscou ajudou Washington em todas essas três questões no passado; no verão de 2013, foi Putin quem tirou as castanhas de Obama do fogo ao forjar o acordo sob o qual a Síria concordou em abandonar suas armas químicas, evitando assim o ataque militar dos EUA que Obama havia ameaçado. Os Estados Unidos também precisarão um dia da ajuda da Rússia para conter uma China em ascensão. A política atual dos EUA, no entanto, está apenas aproximando Moscou e Pequim.

Os Estados Unidos e seus aliados europeus agora enfrentam uma escolha sobre a Ucrânia. Eles podem continuar sua política atual, que irá exacerbar as hostilidades com a Rússia e devastar a Ucrânia no processo - um cenário em que todos sairiam perdendo. Ou podem mudar de marcha e trabalhar para criar uma Ucrânia próspera, mas neutra, que não ameace a Rússia e permita que o Ocidente restaure suas relações com Moscou. Com essa abordagem, todos os lados ganhariam.

JOHN J. MEARSHEIMER é Professor Distinto de Ciência Política R. Wendell Harrison na Universidade de Chicago.

19 de setembro de 2014

Contra a partilha

As empresas da “economia da partilha” como a Uber transferem o risco do negócio das empresas para os trabalhadores, destroem os direitos do trabalho e afundam os salários.

Avi Asher-Schapiro

Jacobin

Daniel Horacio Agostini / Flickr

Tradução / Kazi conduz um Toyota Prius para a Uber em Los Angeles. Ele odeia. Todos os dias mal leva para casa o salário mínimo e as suas costas doem depois de longos turnos. Mas de cada vez que um passageiro pergunta como é trabalhar para Uber, ele mente: “É como possuir o meu próprio negócio; Eu adoro isto.”

Kazi mente porque o seu trabalho depende disso. Depois de cada corrida a Uber pede aos passageiros para avaliar seu motorista numa escala de uma a cinco estrelas. Os condutores com uma média inferior a 4,7 podem ser desativados – tech-speak para despedido.

Gabriele Lopez, uma motorista de LA Uber, também mente. “Nós dizemos que é uma maravilha, que o trabalho é incrível e sorrimos, porque é isso que eles querem ouvir”, diz Lopez, que conduz um UberX, um serviço low-end da empresa, desde que foi lançado no verão passado.

Na verdade, se perguntar aos motoristas Uber fora do contexto do trabalho o que eles pensam da empresa a coisa fica feia rapidamente. “Uber como um proxeneta explorador”, disse Arman, um motorista de Uber de Los Angeles que me pediu para não divulgar o seu apelido por medo de represálias. “Uber leva 20 por cento do meu salário e trata-me como merda – eles cortam os preços sempre que quiserem. Eles podem desactivar-me sempre que lhes apetecer e se eu reclamar eles mandam-me foder.”

Em Los Angeles, São Francisco, Seattle e Nova York, a tensão entre os condutores e os gestores da empresa têm-se tornado maiores nos últimos meses. E mesmo que modelo de negócios da Uber desencoraje a ação coletiva (cada trabalhador está tecnicamente em concorrência com os outros), alguns motoristas estão-se a unir.

Motoristas da Uber em Los Angeles, o maior mercado de carros-partilhados da América do Norte, realizaram dezenas de protestos durante o Verão para se oporem a cortes da taxa que recebem. No final do mês de Agosto, os motoristas membros do sindicato Teamsters Local 986 lançaram a Associação dos Condutores via App da Califórnia (CADA), uma espécie de sindicato dos motoristas da Uber. Trabalhadores da Uber em Seattle também realizaram protestos e formaram a Associação dos motoristas Ride-Share de Seattle. Ainda na semana passada em Nova York, motoristas do UberBlack ameaçaram entrar em greve e com isso reverteram a decisão da empresa de pagar menos por este serviço de luxo. Esta segunda-feira, os motoristas voltaram aos protestos.

“Nós queremos que a empresa perceba que não somos formiguinhas”, disse-me Joseph DeWolf, membro do conselho de liderança do CADA, na minha visita ao sindicato dos Teamsters, em El Monte, Califórnia. “O que queremos é um salário digno, um canal de comunicação com a empresa e respeito”. DeWolf diz que a CADA está a inscrever cada vez mais sócios, a reclamar taxas não pagas pela empresa e estão a planear uma greve em Los Angeles se a Uber se recusar a negociar.

Não vai ser fácil. Os motoristas estão a enfrentar um Golias avaliado em 18 biliões de dólares. E a empresa acabou de contratar David Plouffe, o diretor das campanhas presidenciais de Barack Obama; está ativa em 130 cidades; e se confiarmos nos executivos da empresa a sua receita duplica a cada seis meses.

A Uber faz muito dinheiro com base numa rede de milhares de motoristas que não são empregados da empresa mas sim tecnicamente empresários – a empresa chama-lhes “motoristas-parceiros” – que recebem uma percentagem do valor do serviço.

Desde o início que a Uber atraiu motoristas com uma estratégia bait-and-switch. Veja-se o lançamento da empresa em Los Angeles: em maio de 2013 os clientes pagavam 2,75 dólares por cada milha (e mais 60 cêntimos por minuto se o carro estivesse parado). Os motoristas recebiam 80% da tarifa. Assim, em regime full time, os motoristas conseguiam fazer entre 15 a 20 dólares à hora.

Milhares de motoristas correram para se inscrever, alugando ou comprando carros para trabalhar para a Uber, principalmente imigrantes e pessoas com poucos rendimentos que estavam desesperadas por um emprego que pagasse decentemente num momento de crise económica. Mas ao longo do último ano a empresa tem enfrentado forte concorrência de seu arqui-rival, a Lyft. Para aumentar a procura e expulsar a Lyft do mercado de Los Angeles, a Uber cortou as tarifas da UberX para metade, passando a 1,10 dólares por milha, mais 21 cêntimos por minuto parado.

Os motoristas da Uber não tiveram nenhuma palavra a dizer na fixação de preços, mas têm de pagar do seu próprio bolso o seguro, o combustível e os arranjos dos carros. O custo total para os motoristas estimado pelo fisco norte americano é de 56 cêntimos por milha. Com o modelo de fixação de preços da Uber os motoristas trabalham com margens de remuneração muito baixas.

Arman, por exemplo, fazia cerca de 20 dólares por hora há um ano. Este ano nem chega a fazer o salário mínimo. Não é caso único, muitos dos motoristas da Uber com quem falei relatam a mesma experiência. Para muitos, a condução para Uber tornou-se um pesadelo. Arman trabalha até 17 horas por dia para levar para casa o mesmo rendimento que conseguia a trabalhar 8 horas ainda há um ano. Quando ele reclamou com a Uber, dizendo que o seu salário estava em queda livre, a empresa demitiu-o. A Uber diz que os motoristas são livres para parar de trabalhar para eles se estão insatisfeitos, mas os motoristas como o Arman, que investiram dinheiro nos seus carros, não podem desistir.

“Os motoristas estão totalmente vulneráveis a não ser que se unam” – diz Dan McKibbin, dirigente da costa oeste dos Teamsters. “Agora eles não têm ninguém para protegê-los”.

A empresa não quis falar comigo sobre a CADA, sobre os Teamsters ou como lida com as queixas dos motoristas. Mas parece que, na verdade, não a empresa não fala bem com ninguém. No início deste Verão, quando o líder da CADA DeWolf se reuniu com William Barnes, diretor Uber de Los Angeles, Barnes riu-se na cara no representante dos trabalhadores.

DeWolf conta que quando informou Barnes que os motoristas da CADA se iam juntar ao sindicato Teamsters para representar os trabalhadores Barnes respondeu: “a Uber nunca irá negociar com qualquer grupo que afirme representar motoristas”.

A Uber nunca me respondeu ao pedido de comentários sobre esta alegada afirmação. Em vez disso, a empresa emitiu um comunicado acusando os Teamsters de tentarem “encher os cofres” com novos membros motoristas da Uber.

A Uber diz que não é preciso um sindicato; em vez disso pede aos motoristas para confiar que a empresa atuará sempre no seu melhor interesse. A Uber recusou-se a facultar-me a informação detalhando a remuneração horária média dos motoristas. A empresa afirma, no entanto, que os motoristas do serviço UberX estão a fazer agora mais dinheiro do que estavam antes do corte nas tarifas que foi feito este verão.

“As tarifas médias por hora para um motorista-parceiro da UberX de Los Angeles nas últimas quatro semanas foram 21,4% maiores do que a média semanal de Dezembro de 2013″, disse-me o porta-voz da Uber Eva Behrend. “E desde maio deste ano a tarifa média horária ganha pelos motoristas subiu 28%”.

Apesar destas afirmações, fui incapaz de encontrar um motorista que me dissesse que estava a fazer mais dinheiro desde que as tarifas baixaram.

Hoje torna-se claro que para sobreviver os motoristas da Uber têm de fazer mais corridas por turno por causa da alteração do valor das tarifas. A Uber admite que: “Com os cortes nos preços das tarifas, o número de viagens por hora têm aumentado porque há maior procura” – disse Behrend, representante da empresa.

A mensagem para os motoristas é clara: se estão a fazer menos rendimento por causa do corte da tarifa, façam mais quilómetros. Esta ideia pode fazer sentido para um analista da Uber que esteja a trabalhar no excel na sede da empresa em Silicon Valley, mas para os motoristas, mais quilómetros significa tentar por o máximo de viagens por turno, porque as margens de rendimento são muito reduzidas.

“Hoje em dia, eu nem consigo parar para cagar; simplesmente conduzo, às vezes mais de 15 horas por dia”, disse-me Dan, um motorista que estava a fazer uma direta conduzindo pessoas bêbadas dos bares para casa depois de um dia inteiro a trabalhar. “É humilhante” – concretiza.

Com os preços das tarifas mais baixas também sobra menos dinheiro para combustível e os seus carros desgastam-se e perdem valor mais rapidamente porque são forçados a fazer distâncias maiores.

Ao mesmo tempo, a Uber age como se lhes estivesse a fazer um favor porque lhes dá “trabalho”. O CEO da Uber Travis Kalanick, que adora dar palestras inspiradoras sobre inovação, costuma dizer que a Uber ajuda as pessoas a “tornarem-se proprietários de pequenos negócios”. No entanto, trabalhar turnos de longas horas e ver o preço do seu serviço cortado em 20% por um grupo de engenheiros de Silicon Valley não pode ser considerado ser “dono de uma pequena empresa”.

“Eles acham que somos um bando de perdedores que não conseguem encontrar melhores empregos”, disse DeWolf que representa os motoristas. “É por isso que eles nos tratam como robôs; como se fossemos substituíveis”.

Claro que a Uber não concorda com essa caracterização. “A Uber tem sucesso quando os nossos motoristas-parceiros têm sucesso”, disse Behrend, porta-voz da empresa.

Infelizmente a afirmação da empresa não passa de um spin publicitário porque os seus motoristas não são “parceiros”, são antes trabalhadores explorados pela Uber. Eles não têm qualquer impacto nas decisões da empresa e podem ser despedidos em qualquer momento. A Uber em vez de pagar salários a trabalhadores simplesmente encaixa uma parte dos seus rendimentos. Os motoristas assumem todos os riscos do negócio e todos os custos – o carro, o combustível, o seguro – e são os executivos e os investidores da Uber que ficam ricos.

A Uber é parte de uma nova onda de empresas que compõem o que é chamado “economia da partilha”. A premissa é sedutora porque é simples: as pessoas têm as suas próprias capacidade e os clientes querem serviços. As empresas de Silicon Valley são só casamenteiros, produzindo aplicações (App’s) que juntam trabalhadores com o melhor trabalho. Hoje em dia, qualquer pessoa pode alugar um apartamento com a Airbnb, tornar-se taxista através da Uber ou limpar casas com o Homejoy.

Sob o pretexto de inovação e progresso, as empresas estão atacar os direitos dos trabalhadores, empurrando para baixo os salários e desregulando os mercados. Na sua essência, a “economia da partilha” é um esquema para transferir os riscos das empresas para os trabalhadores, desencorajar a organização do trabalho e garantir que os capitalistas podem colher enormes lucros com custos fixos baixos.

Não há nada de inovador ou novo sobre este modelo de negócio. Uber é apenas o capitalismo, na sua forma mais crua.

Sobre o autor

Avi Asher-Schapiro is a freelance writer in New York.

18 de setembro de 2014

A promessa do socialismo feminista

Reconstruir a esquerda exigirá investigar as tradições ligadas às socialistas.

Johanna Brenner

Jacobin



Tradução / Décadas após o período intenso da “segunda onda” do feminismo nos Estados Unidos, é angustiante reconhecer que o momento revolucionário do movimento se trata de uma memória turva, enquanto que aspectos-chave do feminismo liberal foram incorporados à agenda da classe dominante. Idéias do feminismo liberal têm sido mobilizadas para dar suporte a uma série de iniciativas neoliberais, incluindo austeridade, guerra imperialista e ajuste estrutural.

Sem dúvida, é importante entender como isso ocorreu, mas algumas explicações recentes por estudiosas e estudiosos feministas nos apontam para uma direção infeliz. Essas autoras e autores argumentam que o feminismo da segunda onda, com sua ênfase exagerada em direitos legais e no trabalho assalariado como um caminho para a igualdade, mesmo sem querer acabou pavimentando o caminho para o neoliberalismo. É reconfortante pensar que feministas radicais tinham esse nível de controle sobre o resultado de nossas lutas – pois, se fosse verdade, poderíamos agora corrigir nossos erros, mudar nossas idéias e recuperar nossa posição revolucionária.

Pretendo trazer um argumento diferente: a incorporação parcial do feminismo liberal na ordem econômica, política, cultural e social neoliberal é melhor explicada pelo surgimento de um regime de acumulação de capital que reestruturou os fundamentos das economias tanto no norte global quanto no sul.

No norte global, esse novo regime foi introduzido pela investida dos patrões contra a classe trabalhadora, o Estado de Bem-Estar Social e as instituições históricas de defesa da classe trabalhadora – os sindicatos e os partidos social-democratas. Esse ataque acarretou no neoliberalismo, o contexto político da revanche bem sucedida contra as demandas radicais de feministas, ativistas anti-racistas, povos indígenas e outros.

Embora o neoliberalismo tenha extinguido a promessa radical da segunda onda feminista, ele também criou a base material para a renovação e disseminação de movimentos feministas socialistas liderados por mulheres da classe trabalhadora – estejam elas empregadas na economia formal ou informal, no campo, ou fazendo trabalho não remunerado.

Além disso, os discursos políticos e as estratégias de organização do feminismo socialista do século XXI são um recurso importante para uma esquerda em dificuldades. Muitos têm a sensação de que as velhas formas de política de esquerda não serão o bastante; nesta busca por alternativas, o feminismo socialista tem muito a oferecer.

O discurso político feminista dominante na segunda onda não era o feminismo liberal-clássico – isto é, um feminismo que deseja eliminar quaisquer impedimentos ao exercício dos direitos individuais das mulheres -, mas sim o que eu chamaria de feminismo do bem-estar social. (Fora dos EUA, onde havia verdadeiros partidos de esquerda e onde discursos políticos socialistas eram mais acessíveis para militantes feministas, essa política poderia ser chamada de feminismo social-democrata.)

As feministas do bem-estar social compartilham o compromisso do feminismo liberal com os direitos individuais e a igualdade de oportunidades, mas vão muito além disso. Elas buscam um Estado expansivo e militante que aborde os problemas das mulheres trabalhadoras; que alivie o fardo da dupla jornada feminina; que melhore a posição das mulheres e especialmente das mães no mercado de trabalho; que forneça serviços públicos que socializem o trabalho de cuidados das crianças, idosos e outros membros da família; e que expanda a responsabilidade social por esse cuidado (por exemplo, através da licença maternidade/paternidade remunerada e de remuneração para as mulheres que cuidam de pessoas com deficiência na família).

As mulheres na ponta rica da classe profissional/administrativa são a base social do feminismo liberal-clássico. A política feminista do bem-estar social encontra sua base social predominantemente na outra ponta da classe administrativa profissional, especialmente entre mulheres empregadas nos setores de educação, serviço social e saúde. Profissionais/administradoras não-brancas estão mais propensas a ser empregadas nessas indústrias do que no setor privado. As militantes sindicais também desempenharam um papel significativo na liderança e na organização do feminismo do bem-estar social.

Se formos generosos, podemos caracterizar como ambíguas as relações entre as mulheres da classe trabalhadora/pobres e as profissionais de classe média cujo trabalho é influenciar e regular aqueles que vem a ser definidos como problemáticos – os pobres, os doentes, os que não se encaixam culturalmente, os sexualmente divergentes, aqueles que tiveram pouco acesso à educação. Essas tensões de classe vazam para a política feminista, conforme militantes feministas da classe média afirmam representar as mulheres da classe trabalhadora.

A forma como essas tensões de classe se expressam é condicionada consideravelmente por outras dimensões de localização de classe, como raça/etnia, sexualidade, nacionalidade e condições físicas/mentais. De maneira crucial, a política das feministas de classe média também se transforma dependendo dos níveis de militância, auto-organização e de força política das mulheres nas classes trabalhadoras.

Um exemplo fascinante dessa dinâmica pode ser visto na primeira metade dos anos 70. No contexto político da luta dos negros e negras por justiça econômica, impulsionada pela classe trabalhadora negra e pelo movimento dos direitos sociais – a vanguarda feminista da classe trabalhadora no Movimento dos Direitos Civis – as feministas do bem-estar social adotaram um programa visionário e de base ampla pela expansão do suporte estatal para o trabalho de cuidados.

Por exemplo, em 1971, uma coalizão de organizações feministas e de direitos civis conquistou uma lei que estabeleceria a creche como um serviço de desenvolvimento financiado pelo governo federal, disponível para todas as crianças que precisassem dele. Embora as feministas, sem dúvida, considerassem essa lei como algo crucial para o emprego das mães, elas não limitavam o benefício apenas às mães assalariadas. O programa incluía provisões para serviços médicos, nutricionais e educacionais para crianças desde a infância até os catorze anos de idade, e os preços dos serviços deveriam ser baseados na capacidade de pagar das pessoas atendidas. O presidente Nixon vetou o projeto, mas a organização em torno dele continuou durante toda a década de 1970.

A Organização Nacional dos Direitos do Bem-Estar Social (NWRO) impulsionava e difundia a política do feminismo do bem-estar social. O que é mais interessante sobre a NWRO era sua capacidade de combinar alegações que filósofos, advogados e acadêmicos tendem a ver como concorrentes entre si. Em suma, elas quebravam a distinção entre conversas sobre “necessidades” e sobre “direitos”.

Discursos políticos maternalistas são exemplos por excelência de “conversas sobre necessidades”: neles, a defesa das propostas é feita com base nas necessidades das crianças e na habilidade única das mães para satisfazer essas necessidades. Por outro lado, a demanda por práticas de empregabilidade sem discriminação por gênero, ou o acesso igualitário à educação profissional são “conversas sobre direitos” por excelência, insistindo na extensão para as mulheres de direitos individuais que já são concedidos aos homens.

A NWRO defendia uma renda mínima garantida e incondicional para mães solteiras. As mulheres pobres deveriam poder escolher como educar seus filhos e ter a certeza de que elas seriam as únicas autoridades apropriadas para definir as necessidades deles. Elas deveriam receber apoio econômico e de serviços sociais, fossem elas mães donas de casa ou se trabalhassem fora.

As ativistas dos direitos de bem-estar social também criticavam os programas de empregos da “guerra contra a pobreza” por encaminharem mães solteiras para treinamento para empregos tradicionalmente femininos, mal pagos e de colarinho rosa (ou seja, relacionados com cuidados). Por fim, elas amarravam a sua exigência de que a maternidade seja reconhecida como um trabalho valioso à autonomia econômica das mulheres e ao seu direito à autodeterminação.

Essa política de “direitos mais necessidades” também se refletia na objeção das mulheres não-brancas ao movimento pró-escolha. Enquanto as alas radicais e liberais do movimento feminista se concentravam nos direitos das mulheres à sua autonomia corporal – e no seu direito de recusar a maternidade -, as mulheres pobres não-brancas enfrentavam um ataque bem diferente: a esterilização forçada nos hospitais públicos onde elas davam à luz. Além disso, o movimento pelos direitos de bem-estar social estava organizando as mulheres pobres, e especialmente as mulheres negras, para desafiar a difamação de sua maternidade e a estigmatização de sua sexualidade.

Incorporando as idéias das militantes não-brancas da classe trabalhadora, as feministas socialistas articularam uma política sobre direitos reprodutivos que ultrapassava a linguagem sobre escolha. Para elas, os “direitos reprodutivos” incluíam o direito de ser mãe e de criar filhos com dignidade e saúde, em bairros seguros, com renda e abrigo adequados.

Essa variedade de direitos reprodutivos constitui um programa de “reformas não-reformistas”. É possível lutar por algumas dessas demandas e conquistá-las sob o capitalismo – por exemplo, a proibição da esterilização racista ou da discriminação contra mães lésbicas -, mas sua adoção por completo seria incompatível com esse sistema. Nesse sentido, o discurso político dos direitos reprodutivos relaciona o feminismo à política anticapitalista.

No auge, o feminismo da segunda onda defendia a socialização do trabalho de cuidados. Transferir os cuidados de um modelo individual para outro baseado na responsabilidade social exigia na época (e exigiria hoje) uma redistribuição de riqueza do capital para os trabalhadores.

A responsabilidade social pelos cuidados depende da expansão dos bens públicos, o que, por sua vez, depende da tributação da riqueza ou dos lucros. Compensar os trabalhadores pelo tempo gasto cuidando dos filhos (por exemplo, através de licença maternidade/paternidade remunerada) aumenta os benefícios pagos, às custas dos lucros. Além disso, exigir (seja por legislação ou por contrato) que os locais de trabalho acomodem e subsidiem o trabalho de cuidados dos seus funcionários fora do emprego interfere no controle dos empregadores sobre o local de trabalho e tende a sofrer resistência pelo setor privado – onde os empregos continuam organizados como se os trabalhadores quase não tivessem responsabilidades em relação a cuidados dos filhos e familiares.

Em outras palavras, socializar o trabalho de cuidados exigiria confrontar o poder da classe capitalista. Foi aí que o feminismo do bem-estar social do século XX naufragou.
Confrontar o poder da classe capitalista exigiria um movimento social amplo, militante e ousado – uma frente anticapitalista que ligasse as lutas do feminismo, dos militantes anti-racismo, pelos direitos dos homossexuais e dos imigrantes às lutas dos sindicatos e dos trabalhadores. Em vez disso, o que havia eram sindicatos burocráticos, esclerosados e setoriais que não tinham nem interesse nem capacidade de construir movimentos de qualquer tipo.

No exato momento em que o feminismo do bem-estar social estava mais forte, na década de 1970, chegou o tsunami da reestruturação capitalista, inaugurando uma nova era de ataques a uma classe trabalhadora que tinha poucos meios para se defender. À medida que as pessoas se viravam para sobreviver nessa nova ordem mundial; à medida que as capacidades e solidariedades coletivas se tornavam algo cada vez mais distante; à medida que a concorrência e a insegurança nos empregos aumentavam; à medida que os projetos de sobrevivência individualista se tornavam a ordem do dia, abria-se a porta para que as ideias políticas neoliberais conquistassem a hegemonia.

Presas entre uma classe trabalhadora desmobilizada e um partido democrata tomado pelo neoliberalismo, as feministas do bem-estar social na classe média estadunidense começaram a se acomodar às realidades políticas existentes. Por exemplo, deixando para trás a política de “direitos mais necessidades” da NWRO, as ativistas de classe média se distanciaram de discursos maternalistas – do tipo “crianças pequenas precisam estar com suas mães” – que, embora fossem problemáticos, faziam parte de sua defesa do apoio financeiro para mães solteiras.

Elas passaram a adotar discursos neoliberais diante das acusações de ambos os grandes partidos estadunidenses de que o Estado de Bem-Estar Social encorajaria a dependência. Elas abraçaram a ideia da auto-suficiência através do trabalho remunerado, embora estivesse bem óbvio que os empregos precários e mal pagos disponíveis para tantas mães solteiras nunca pagariam um salário digno; que os auxílios financeiros para creche fornecidos (às mulheres mais pobres) eram inadequados para cuidados infantis de qualidade; e que os programas pós-escolares para crianças mais velhas eram inacessíveis para a maioria.

Em outras palavras, o feminismo do bem-estar social da segunda onda não foi tanto cooptado, mas sim politicamente marginalizado. E, o que não surpreende, no contexto dessa derrota a política feminista liberal não apenas se deslocou para o centro do palco, como também foi incorporada a um regime neoliberal cada vez mais hegemônico.

Ironicamente, enquanto as vozes da classe média se moviam para a direita, as feministas da classe trabalhadora, especialmente em sindicatos constituídos majoritariamente por mulheres, estavam obtendo ganhos substanciais. Elas aumentaram a representação das mulheres na liderança; pressionaram seus sindicatos a apoiar mobilizações políticas defendendo o aborto legal (por exemplo, a campanha “pró-sindicato e pró-escolha” da Coalizão das Mulheres Sindicalizadas); se opuseram à discriminação contra pessoas LGBT e colocaram na agenda de negociações demandas como igualdade salarial e licença maternidade remunerada. No entanto, esses últimos ganhos soavam vazios conforme os sindicatos rapidamente perdiam espaço, inclusive nas mesas de negociações.

A história acima é instrutiva. O feminismo e outros movimentos contra a opressão precisam ser movimentos inter-classes, então eles também precisam se questionar sobre “quem terá hegemonia dentro desses movimentos?” Quais visões de mundo determinarão o que o movimento vai exigir? Como essas demandas serão articuladas e justificadas? Como o movimento em si está organizado?

No curso normal dos acontecimentos, a resposta a essas perguntas é a classe média. No entanto, como no momento da radicalização da segunda onda feminista nos EUA, quando as pessoas da classe trabalhadora entram no palco político, as relações de poder dentro dos movimentos sociais podem mudar.

No século XXI, as mulheres têm entrado no cenário político global numa assombrosa variedade de movimentos. No sul global, conforme as mulheres se vêem demitidas, em empregos precários, chefiando seus lares, lutando para sobreviver em assentamentos informais e favelas urbanas, elas não são apenas participantes fundamentais para os movimentos pelo socialismo do século XXI, mas também estão construindo projetos de organização de base que desafiam os modelos patriarcais de organização, liderança e de exigências nos movimentos.

No norte global, esses projetos de base têm engajado as trabalhadoras em novos modos de organização (como o movimento das trabalhadoras domésticas) que se apoiam na mobilização de membros e na construção de alianças comunitárias. Embora nunca sejam perfeitos, é claro, esses diferentes projetos feministas-socialistas, no norte e no sul, na comunidade e no local de trabalho, no que tem de melhor oferecem novos discursos sobre igualdade de gênero, novos modos de organização e novas visões sobre democracia participativa.

O compromisso das feministas socialistas com a auto-organização dá suporte para estruturas organizacionais não-hierárquicas e democráticas e, portanto, mais inclusivas. A atenção à interseccionalidade como um guia tanto para o discurso programático quanto para o discurso político – as demandas que os movimentos apresentam e a linguagem que usamos para apoiar essas demandas – abre um terreno no qual profundas divisões sociais podem ser superadas, ao invés de reproduzidas.

Compreender as formas pelas quais os locais de trabalho, as famílias e as comunidades estão inter-relacionados leva a modos mais efetivos de organização e mais possibilidades de políticas de coalizão, fazendo conexões entre aquilo que muitas vezes é visto como questões e lutas muito diferentes e separadas.

Visões feministas-socialistas sobre liderança e seu desenvolvimento promovem as capacidades das militantes para o envolvimento na tomada democrática de decisões e na coletividade. O reconhecimento de que afeto, emoções e sexualidade estão sempre presentes, moldando as relações sociais, estimula a autorreflexão, a empatia e o respeito das militantes por diferentes modos de ser no mundo.

Se quisermos construir um socialismo do século XXI, é hora de prestar atenção no feminismo socialista dos séculos XX e XXI, e de deslocar sua teoria e prática das margens para o centro da esquerda radical.

27 de agosto de 2014

Nova rebelião laboral na China

A militância dos trabalhadores mostrou falhas quer no plano econômico da China quer nos sindicatos oficiais do Partido Comunista.

Eli Friedman



Tradução / Durante anos, uma forte aliança entre o capital e os mais baixos níveis do estado chinês significou que as greves eram tratadas ou com repressão policial ou com um sistema de mediação ad hoc entre o sindicato e os funcionários governamentais que se concentrava quase exclusivamente em retomar a produção sem ter em conta os resultados para os trabalhadores.

Mas por volta de 2010, o governo central chinês e as autoridades provinciais de Guangdong não só estavam prontos para procurar um novo modelo de acumulação no delta do Rio das Pérolas como estavam dispostos a (indiretamente) aliar-se aos trabalhadores revoltosos para realizar este objectivo.

Tal aliança, conquanto tenha sido condicional e efémera, surgiu no decurso da greve da Nanhai Honda que, por sua vez, permitiu aos grevistas alcançar ganhos econômicos e começar a desenvolver objetivos políticos. Em grande parte por causa desta pequena abertura política, o carácter do protesto na onda grevista de 2010 mostrou algumas tendências não habituais ( senão mesmo sem precedentes), com significado para o facto de que as exigências tinham uma natureza mais ofensiva do que defensiva.

No entanto, mesmo embora os trabalhadores da Honda tenham tido importantes ganhos econômicos, todos os níveis do estado e dos sindicatos permanecem vigilantes quanto ao desenvolvimento das bases autônomas do poder operário. Embora tenham ocorrido ganhos econômicos na onda grevista de 2010, persiste o desapontamento dos trabalhadores com os sindicatos de empresas ligadas ao estado.

A Explosão na Honda

A cadeia de produção da Honda na China consiste num complicado sistema de propriedade. A empresa mais importante é a Guangzhou Honda, uma aliança (joint venture) a 50% com a Guangzhou Automobile Group Corporation detida pelo estado, onde a maioria das unidades é produzida. Outras fábricas de montagem incluem a Honda Automobile (China) que produz para os mercados estrangeiros e a joint venture Dongfeng Honda localizada em Wuhan.

Estas fábricas são servidas por uma variedade de fabricantes de peças incluindo a Nanhai Honda, totalmente detida por japoneses. Arrancando com a produção em Março de 2007 com um investimento inicial de $98 milhões de dólares americanos, a companhia foi a quarta fábrica de produção de transmissões automáticas integradas da Honda, no mundo. Para além de produzir transmissões, a fábrica também faz eixos de transmissão e barras de ligação para os motores.

Em parte porque a Honda acreditava que era altamente improvável paragens no trabalho na autoritária China, a fábrica Nanhai foi estabelecida como o único fornecedor de diversas peças chave para o funcionamento de toda a China. Produzindo a partir da China em vez de do Japão ou do sudeste asiático, a Honda podia reduzir custos, poupando no transporte e na mão-de-obra.

Em parte por causa da posição chave que a produção automóvel detém na economia, o governo deu primazia a manter boas relações laborais neste sector. Em resultado disso, todas as fábricas de montagem e de produção de peças da Honda em Guangdong, estabeleceram sindicatos. O sindicato na Guangzhou Honda tinha recebido vários prémios oficiais pelo seu bom trabalho e frequentemente recebia a visita de delegações de sindicalistas estrangeiros.

Mas havia limites rígidos até onde mesmo este sindicato modelo podia apoiar os seus trabalhadores. Durante um almoço em Dezembro de 2008 entre o presidente da Guangzhou Honda e dirigentes sindicais dos EUA, a conversa virou-se para a cooperação internacional entre sindicatos do sector automóvel. O presidente do sindicato disse que tinha visitado o Japão antes para trocar opiniões com outros representantes dos sindicatos automóveis e que sentia que tinham muito em comum.

Aludindo às dificuldades que as fábricas automóveis americanas enfrentavam na altura, gracejava que tinha dito ao seu homólogo japonês, “Temos um sindicato forte, como vocês. Mas não queremos ser demasiado fortes; veja só todos os problemas que eles têm nos Estados Unidos!”

De facto, sucedeu que a verdadeira fraqueza do sindicato da fábrica fornecedora de Nanhai tornou impossível que as reivindicações dos trabalhadores fossem ouvidas sem o recurso à greve; não apenas a fábrica de Nanhai, mas, em consequênca, o funcionamento da Honda em toda a China.

Embora os trabalhadores em Nanhai há muito estivessem descontentes com os salários e tivessem discutido entrarem em greve, nenhum dos trabalhadores sabia que Tan Guocheng ia iniciar a greve. Uma semana antes da greve, Tan encontrou-se com quinze trabalhadores do departamento de montagem onde trabalhava; antes, “só tinham tido conversas ocasionais sobre o autocarro (shuttle bus) que estavam a produzir.”

Um trabalhador deste departamento disse que a ideia tinha sido discutida, mas que ninguém a queria liderar. Em entrevistas separadas, trabalhadores de outros departamentos confirmaram que não tinham ouvido nada sobre a greve até ela ter começado. Mas de acordo com Tan, mais de vinte pessoas, a maioria de Hunan, estavam dentro do plano na altura em que ele foi posto a andar.

Na manhã de 17 de Maio, logo que a produção começou à hora habitual, às 7:50, Tan acionou o botão de paragem de emergência e as duas linhas de produção no departamento de montagem foram paradas. Tan e o co-organizador Xiao gritaram para cada linha de montagem: “Os nossos salários são tão baixos, vamos parar o trabalho!”

Para a maioria dos cerca de dois mil trabalhadores da fábrica, esta foi a primeira vez que ouviram falar da greve. Mesmo um trabalhador que era do departamento de montagem e tinha ouvido falar da possibilidade da greve, foi apanhado desprevenido: “Não sabia que a greve ia acontecer… Não estava lá na altura [porque tinha ido à casa de banho] Quando saí da casa de banho vi que não havia ninguém. Fiquei parado a olhar: ‘Que é isto, não se trabalha?’ ”

À medida que os trabalhadores do departamento de montagem se deslocavam através das instalações, gritavam para os seus colegas pararem o trabalho e juntarem-se-lhes para lutarem por salários mais altos. Inicialmente, tiveram digamos que uma recepção fria nos outros sectores e finalmente iniciaram um sit-in em frente da fábrica com apenas cerca de cinquenta trabalhadores.

Mas dada a posição crítica do sector da montagem no processo de produção, os outros departamentos foram forçados a fechar numa questão de horas. Nessa tarde, a direcção tinha colocado caixas de sugestões e suplicado aos trabalhadores que retomassem o trabalho, prometendo-lhes que iriam considerar a sua reivindicação de melhores salários e dar uma resposta completa dentro de quatro dias. Talvez por causa do seu número relativamente pequeno, os grevistas acreditaram na palavra da direcção e a produção foi retomada nesse mesmo dia.

A 20 de Maio, a direcção, os funcionários governamentais, os funcionários sindicais e os representantes dos trabalhadores iniciaram as negociações. A exigência dos trabalhadores nesta altura era simplesmente aumentar todos os salários em 800 RMB. Entretanto, os grevistas voltaram ao trabalho, embora a produção tenha reduzido muito durante estes dias.

No dia seguinte, as negociações foram interrompidas e a greve continuou. No fim de semana, os organizadores continuaram a fazer contactos e o número de grevistas em frente da fábrica subiu para cima de 300. A 22 de Maio a direcção anunciou que Tan e Xiao, os líderes iniciais da greve, tinham sido despedidos.

Mas com esta tentativa de repressão apenas lhes saiu o tiro pela culatra, porque no dia seguinte a greve ficou mais forte. Agora, preocupados com o seu sustento, os trabalhadores cobriam os rostos com máscaras cirúrgicas, mas continuaram a resistir.

Ao longo deste processo, o sindicato da empresa alternou entre a passividade e a hostilidade. Os trabalhadores queixaram-se que durante a sessão de negociação, o representante do sindicato não disse nada e apenas se limitou a observar. Quando a greve começou, uma equipa de investigadores do departamento laboral do distrito e o sindicato foram enviados para a fábrica.

Não deixando dúvidas quanto ao lado em que estavam da luta, os funcionários anunciaram: “De acordo com as normas relevantes, não encontrámos nada que configure que a fábrica esteja a violar quaisquer leis.”

Um trabalhador que foi seleccionado como representante estava muito desapontado com o comportamento do presidente do sindicato da empresa, Wu Youhe, na primeira ronda de negociações:

[O presidente do sindicato da empresa] convidou um advogado [para a primeira ronda de negociações]. O advogado disse que a nossa greve é ilegal. Ele [O presidente do sindicato] não tinha opiniões próprias e não tomava decisões. Perguntava sempre ao director geral o que havia de fazer. No fundo, ele é presidente e não é controlado pela companhia; tem o seu poder. Mas para ele, tudo tinha de passar pelo director geral e ajudava o director geral a refutar aquilo que nós dizíamos.

A 24 de Maio, os representantes dos trabalhadores foram convencidos a voltar à mesa das negociações numa sessão presidida pelo presidente do sindicato de empresa. Continuando a tentar servir como intermediário, o presidente do sindicato tentou persuadir os trabalhadores a aceitar a oferta da direcção de um aumento de 55 RMB no subsídio de alimentação – muito longe dos 800 RMB que eles reivindicavam.

Esta ineficácia não estava perdida nos trabalhadores, comentando um grevista: “O sindicato disse que defendia os nossos interesses. Disseram que nós, empregados, podíamos entregar-lhes quaisquer reivindicações, que eles as transmitiriam à direcção e que resolveriam as nossas questões. Mas não fizeram nada disso. “

Os grevistas recusaram a oferta da direcção a 24 de Maio e a situação subiu de tom. A 25 de Maio as coisas ficaram muito mais tensas quando todas as quatro fábricas de montagem da Honda na China estavam completamente paradas por causa da falta de peças.

Contando originalmente com uma força de trabalho disciplinada, a Honda só tinha um fornecedor de transmissões no país e todas as quatro fábricas de montagem na China estavam altamente dependentes da Nanhai. Calcula-se que as perdas diárias combinadas das cinco fábricas foram de 240 milhões RMB.

A direcção cedeu, produzindo uma segunda oferta de aumentos salariais a 26 de Maio. Esta proposta apontava para o aumento dos salários dos trabalhadores habituais em cerca de 200 RMB por mês e 155 em subsídios para despesas e um aumento do salário de 477 para contratados que estivessem na fábrica há mais de três meses. Mas os trabalhadores também rejeitaram esta oferta e a greve continuou.

Neste ponto, os trabalhadores formalizaram as suas reivindicações. A acrescentar à primeira exigência de aumento de salários para todos os trabalhadores em 800 RMB, reivindicavam também que os trabalhadores despedidos fossem readmitidos, que não houvesse castigos contra os grevistas e que o sindicato da empresa fosse “reorganizado” (chongzheng). De acordo com alguns grevistas, a exigência de reorganização do sindicato provinha do que tinham visto do falhanço do sindicato em representar activamente os trabalhadores nas anteriores reuniões de negociação.

Com as perdas a subirem, a direcção ficou desesperada e fez o máximo para tentar quebrar a luta e a unidade dos grevistas. O ataque mais directo foi a 28 de Maio quando os directores tentaram forçar os trabalhadores a assinar um compromisso de que “nunca mais iriam dirigir, organizar ou participar em diminuição da produção, paragens no trabalho ou greves.”

Mas esta táctica produziu o efeito contrário na medida em que praticamente ninguém concordou em assiná-lo. Um trabalhador disse: “logo que o vi [o acordo] deitei-o fora. Não vamos assiná-lo.” Um grupo de trabalhadoras disse que “ninguém mexeu uma mão.” Quando lhe perguntaram se tinham medo de recusar a exigência da direcção, uma trabalhadora insistiu: “Ninguém estava com medo! Quem havia de estar? Se eles quiserem despedir-nos, então vão ter que despedir-nos a todas!”

A greve estava a entrar numa fase decisiva. Provavelmente já a greve mais longa alguma vez feita por trabalhadores imigrantes na era da reforma, a situação tinha-se tornado uma crise política para o estado local. Apesar dos crescentes custos económicos e políticos, os acontecimentos de 31 de Maio apanharam toda a gente de surpresa.

O Sindicato como fura greves

Quando os trabalhadores chegaram à fábrica nessa manhã, foram informados que cada secção teria reuniões para discutir a resolução da greve. Quando os trabalhadores esperavam em várias salas do principal edifício da administração, apareceu um grande contingente de carrinhas e autocarros.

Os veículos tinham dúzias de homens, todos eles com chapéus amarelos e com emblemas onde se lia “Federação de Sindicatos de Shishan”, que é a organização sindical imediatamente subordinada do ramo do sindicato da empresa.

Pouco depois, o departamento de montagem, fundamental para reanimar a produção, encontrou-se com o director geral da fábrica e fez uma nova oferta para um aumento salarial. Embora ainda insatisfeitos com a nova oferta da direcção, os trabalhadores foram persuadidos a voltar às suas linhas de montagem. Começaram a surgir indicações de que a unidade dos grevistas se desmoronava, pois alguns departamentos começaram a ligar as suas linhas de montagem. Indivíduos do sindicato dispersaram-se por cada um dos departamentos e encorajaram os trabalhadores a retomar imediatamente a produção.

Quando alguns trabalhadores do departamento de montagem se deslocaram para regressar à área em frente da fábrica onde se tinham manifestado durante as duas últimas semanas, surgiu um confronto com o grupo do sindicato. Tal como foi confirmado de múltiplas fontes independentes, o pessoal do sindicato começou a filmar os trabalhadores e exigiu que regressassem à fábrica e parassem com a greve.

Rapidamente se criou uma situação de tensão que em breve deu azo a um confronto físico durante o qual vários trabalhadores foram agredidos por indivíduos do sindicato. Isto enfureceu os trabalhadores e uma greve que parecia estar a perder gás rapidamente ganhou força.

Trabalhadores de outros departamentos que tinham retomado a produção correram para o local logo que tiveram notícias da violência e rapidamente se juntou uma grande multidão. Ocorreu um novo confronto físico e, desta vez, o lado do sindicato foi ainda mais violento do que antes, com vários trabalhadores a sofrer ligeiros ferimentos. Os agressores regressaram rapidamente aos seus veículos e recusaram-se a sair.

Neste ponto, o governo decidiu que as coisas tinham ido longe demais e tomou medidas para resolver o conflito. A polícia anti-motim foi chamada, embora nunca se tenha envolvido com os trabalhadores. Além disso, as autoridades fizeram um cordão de protecção exterior à fábrica de modo a impedir a entrada a quem quer que fosse. Quaisquer que fossem as agências governamentais que tivessem apoiado a greve pacífica não estavam interessadas em mais confrontos violentos nem na possibilidade de que os grevistas pudessem deixar os campos da produção.

É certo que a maior parte dos que vinham substituir os grevistas não eram de facto funcionários sindicais. A primeira coisa referida por muitos trabalhadores foi que parecia absurdo que a federação ao nível municipal com apenas alguns membros pagos pudesse recrutar tantos funcionários de outras sucursais sindicais. Um trabalhador envolvido na contenda disse que alguns dos furagreves (todos homens) tinham brincos e tatuagens, coisas que os funcionários sindicais dificilmente exibiriam.

Mas se a maior parte dos capangas não eram de facto funcionários sindicais, não se pode, no entanto, negar que a federação sindical do distrito teve um papel na organização dos furagreves uma questão que se tornou óbvia numa carta que escreveu aos trabalhadores. Um trabalhador especializado do departamento de montagem foi frontal na sua apreciação: “Claro que foi ideia do sindicato. Quem mais podia ter tido tão estúpida ideia? Só os sindicatos chineses podiam ter pensado nisto.” Não é, contudo, claro até que ponto a federação sindical estava a agir a pedido da direcção ou se estava a executar uma acção independente.

Quando os trabalhadores receberam no dia seguinte uma carta aberta das Federações dos Sindicatos do Município de Shishan e do Distrito de Nanhai, os dirigentes sindicais locais deram uma desculpa morna e não denunciaram a violência que tinha ocorrido no dia anterior, nem tentaram negar que tinham organizado os furagreves:

Ontem, o sindicato participou em reuniões de mediação entre os trabalhadores e a direcção da Honda. Porque uma parte dos empregados da Honda recusou regressar ao trabalho, a produção da fábrica foi severamente reduzida. No processo de discussão com cerca de quarenta empregados, a certa altura ocorreram alguns malentendidos e desacordos verbais de ambas as partes. 
Devido ao estado emocional impulsivo de alguns dos empregados, ocorreu um conflito físico entre alguns empregados e representantes do sindicato. Este incidente deixou uma impressão negativa nos empregados. Uma parte destes empregados, depois de terem sabido do incidente, parece terem interpretado erradamente as acções do sindicato como estando ao lado da direcção. O incidente de ontem deixou-nos completamente chocados. Se as pessoas sentem que alguns dos métodos usados no incidente de ontem foram um pouco difíceis de aceitar, pedimos desculpas. 
O comportamento do acima mencionado grupo de perto de quarenta trabalhadores já prejudicou os interesses da maioria dos empregados. Além disso, tal comportamento prejudica a produção da fábrica. O facto de o sindicato se ter levantado e admoestado estes trabalhadores fá-lo totalmente pelo interesse da maioria dos empregados. É responsabilidade do sindicato! 
Seria insensato que os trabalhadores procedessem de modo a irem contra os seus próprios interesses e de outros, por actos impulsivos. Alguns empregados estão preocupados que os seus representantes, que querem defendê-los e participar em discussões com a direcção,venham a ter mais tarde represálias por parte da direcção. Trata-se de um malentendido.

A carta prosseguiu admoestando os trabalhadores por recusarem aceitar a oferta que a direcção tinha feito. Numa última tentativa para controlar os estragos, terminava dizendo, “Por favor, confiem no sindicato. Confiem em cada nível de funcionários do partido e do governo. Iremos sem dúvida alguma defender a justiça.”

A carta das federações dos sindicatos de Shishan e Nanhai não agradou aos grevistas. Como afirmou um trabalhador activista, “A carta de desculpas dos sindicatos não foi nenhuma carta de pedido de desculpas e por isso nós ficámos muito zangados.”

Uma carta aberta dos representantes dos trabalhadores que apareceu dois dias depois da carta de desculpas do sindicato foi desafiadora: “O sindicato deve proteger os direitos colectivos e os interesses dos trabalhadores e conduzi-los na greve. Mas até agora, têm andado à procura de desculpas para a violência do sindicato contra os trabalhadores em greve e nós condenamos isso violentamente.”

Ainda, a carta continuava exprimindo “extrema raiva” por o sindicato reclamar que tinha sido o grande trabalho do sindicato que tinha levado a direcção a aumentar a sua oferta de aumentos salariais, contestando que estes tinham “sido ganhos com o sangue e suor dos trabalhadores em greve enfrentando pressões extremas.” As relações entre os grevistas e o sindicato ao nível do município não podiam ter sido piores e certamente elevaram a tensão do drama a decorrer.

Resolução

Enquanto que a táctica do sindicato ao nível do município não conseguiu quebrar o impasse, os níveis mais altos do sindicato e do Partido foram muito mais compreensivos com os grevistas. Ouvi por parte da liderança do GZFTU que o secretário do Partido Guangdong Wang Yang apoiava a greve e as exigências salariais dos trabalhadores e mesmo que havia apoio no governo central.

O Departamento de Propaganda Central não emitiu uma nota de proibição senão a 29 de Maio, quase duas semanas após os confrontos, numa altura em que a onda grevista se tinha espalhado a outras fábricas. Mas isto era uma indicação que o governo central tinha vontade de que se desenvolvesse mais pressão sobre a direcção, na medida em que é raro que se faça a cobertura de greves durante tanto tempo. O presidente deputado do GDFTU, Kong Xianghong, desempenhou um papel activo nas negociações e apoiou as reivindicações salariais. Sobretudo depois do confronto entre o sindicato de Shishan e os trabalhadores, as autoridades a nível provincial estavam desejosas em resolver rapidamente o conflito.

De modo a encontrarem uma resolução ordeira, as várias agências governamentais que se tinham envolvido na greve exigiram que os trabalhadores escolhessem representantes. Embora tivesse sido seleccionado precipitadamente um conjunto de negociadores para a primeira ronda de negociações, os grevistas tinham ficado relutantes em arranjar representantes, sobretudo depois de os dois homens que tinham iniciado a greve terem sido despedidos.

Esta relutância em negociar era inaceitável para o estado o que levou a que Zeng Qinghong, delegado do Congresso Nacional do Povo e membro da Guangzhou Automotive CEO viesse falar com os trabalhadores. Através de amáveis e paternalistas métodos de persuasão, Zeng Qinghong convenceu os grevistas a escolher representantes e iniciar uma retoma condicional da produção.

Na sua carta aberta, os representantes dos trabalhadores disseram que se a direcção não respondesse às suas reivindicações dentro de três dias, a greve iria continuar. Além disso, a carta também afirmava que “os representantes negociais não aceitarão nada menos do que as exigências acima referidas sem a autorização de uma assembleia geral de trabalhadores.” Finalmente, as negociações começaram no terceiro dia.

A 4 de Junho, aos representantes dos trabalhadores juntou-se Chang Kai, um muito conhecido erudito especialista em trabalho, de Pequim, que serviu como seu advogado. As negociações estenderam-se pela noite dentro e finalmente foi firmado um acordo.

Os trabalhadores habituais iriam receber aumentos salariais de aproximadamente 500 RMB, pelo que os seus salários mensais iriam ficar acima dos 2,000 RMB. Os eventuais com baixos salários que trabalhavam ao lado dos trabalhadores habituais viram os seus salários aumentados em mais de 70% para mais de 600 RMB. Um aumento salarial tão grande em resposta a greves foi algo sem precedentes na China e pode deixar uma importante marca nas lutas que estão para vir.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...