17 de julho de 2017

Como preservativos alemães financiaram a Revolução Russa

Os inimigos de Lênin o acusaram de receber dinheiro da Alemanha. Isso não é bem assim.

Catherine Merridale

The New York Times

Richard von Kühlmann, ministro das Relações Exteriores da Alemanha, vangloriou-se do papel de seu país no golpe bolchevique de novembro de 1917 na Rússia. Edward Steichen/Condé Nast, via Getty Images

O nome Vladimir Ilyich Lenin não costuma ser associado ao lucro em tempos de guerra nem a quadrilhas de contrabando no mercado negro. Homem de moral rígida e avesso a aventuras ousadas, ele não tinha o perfil de um aventureiro audaz. No entanto, o crime e a especulação ajudaram a financiar suas atividades em 1917. Grande parte do dinheiro de que ele precisava para preparar a Grande Revolução Socialista de Outubro foi canalizada por meio de uma empresa de importação e exportação especializada em contrabando de produtos farmacêuticos, lápis e preservativos alemães.

A história começa na Suíça, onde Lenin, exilado da Rússia, vivia desde o início da Primeira Guerra Mundial. Em março de 1917, a notícia da revolução em Petrogrado chegou até ele em Zurique. Como líder dos bolcheviques — o partido socialista mais radical da Rússia —, era seu dever retornar imediatamente. O problema era que não havia uma rota segura: a convocação de Lenin para transformar a guerra europeia em uma revolução contra a burguesia não o tornara popular entre franceses e britânicos; assim, seguir para o oeste provavelmente resultaria em sua detenção sem julgamento. Por outro lado, ir para o norte, passando pela Alemanha, significava atravessar território inimigo. Ele corria o risco de ser preso sob a acusação de traição caso conseguisse chegar ao seu país.

Foram necessárias mais de uma semana de negociações para encontrar uma solução. O governo alemão concordou em oferecer a Lenin um salvo-conduto até o Mar Báltico, escoltando-o em um vagão de trem especial com as portas voltadas para a plataforma trancadas. Em termos jurídicos, explicaria Lenin mais tarde, o vagão era uma "entidade extraterritorial", uma cápsula que atravessava o solo alemão sem contato com cidadãos alemães, possíveis inimigos ou espiões. Mas, à medida que avançava lentamente em direção à costa, o veículo logo ficou conhecido como "o trem lacrado".

Não havia nada de clandestino na viagem. Lenin estava ansioso para obter a aprovação de qualquer figura pública que pudesse encontrar. De última hora, em busca de apoio internacional, ele chegou a telefonar para a Legação Americana em Berna, na Suíça. Era domingo, e o jovem que atendia o balcão estava saindo para uma partida de tênis. "Ligue amanhã", disse ele ao futuro senhor do Kremlin. Anos mais tarde, quando aquele jovem — Allen Dulles — tornou-se chefe da CIA, ele adorava contar a história daquele telefonema.

Lênin não precisava do ouro do Kaiser para voltar para casa. Ele fez questão de pagar sua passagem (de segunda classe). No entanto, questionamentos surgiram logo após sua chegada a Petrogrado. Assumindo imediatamente a liderança do partido, Lênin insistiu em um programa que repudiava toda guerra imperialista. Sua oposição ao governo provisório — o gabinete temporário de liberais e empresários que tentava conduzir justamente esse tipo de guerra por parte da Rússia — alimentou a suspeita de que ele seria um fantoche da Alemanha.

Os franceses sugeriram que poderiam ter provas. Animado por essa esperança, um coronel russo chamado Boris Nikitin foi encarregado da investigação. Ele enviou um espião para monitorar o uso do telégrafo pelos bolcheviques e pagou informantes por qualquer boato, verdadeiro ou falso. O trabalho de Nikitin era de tempo integral, mas o único espaço de escritório disponível ficava em um prédio parcialmente ocupado por outros bolcheviques também suspeitos. O coronel não apenas sentia que estava sendo vigiado, como todas as suas janelas davam para bandeiras vermelhas tremulantes.

Enquanto isso, o governo provisório continuava a conduzir a guerra. No final de junho, lançou uma ofensiva na frente da Galícia. Embora alardeada como uma campanha das tropas de elite de um novo Estado livre, ela fracassou em apenas três dias. Distúrbios em larga escala eclodiram em Petrogrado, com confrontos de rua entre grupos de direita e de esquerda, bandeiras pretas e estandartes socialistas, pânico, tiroteios e mortes de civis. Surgiram novos rumores de um golpe.

Em um ato de desespero, Pavel Pereverzev, o ministro da Justiça, tentou culpar os bolcheviques pela situação deplorável da Rússia. Suas provas eram frágeis (ele foi prontamente obrigado a renunciar), mas a ideia de que Lênin trabalhava para os alemães desencadeou uma caçada humana. À medida que Petrogrado mergulhava no caos, capangas do governo invadiram e saquearam a redação do jornal bolchevique Pravda. Vários líderes revolucionários foram presos, entre eles Leon Trotsky. Sem barba e disfarçado com uma peruca, Lênin fugiu da capital russa temendo por sua vida. Em agosto, após reunir mais depoimentos, o governo provisório condenou-o à revelia.

As acusações contra Lênin sempre foram frágeis. As provas apresentadas por Pereverzev — que envolviam um contrato que Lenin teria assinado em Berlim em algum momento do ano anterior — revelaram-se delírios de um prisioneiro de guerra fugitivo. A imprensa divulgou outras histórias fantasiosas: a irmã de Lenin seria uma espiã sediada em Salonica; Lenin teria sido assassinado; o verdadeiro nome de Lenin seria Mytenbladm ou Zederbluhm. Anos mais tarde, Trotsky recordaria julho de 1917 como “o mês da calúnia mais gigantesca da história mundial”.

Na verdade, Lênin estava longe de estar acabado. Ele aproveitou os meses na Finlândia para traçar planos novos e ambiciosos. Em meados de setembro, sentiu-se ousado o suficiente para retornar secretamente à Rússia e retomar a luta, desta vez preparando seus auxiliares para uma tomada de poder pelos bolcheviques. A operação ocorreu em 7 de novembro e, naquele mesmo dia, as ruas de Petrogrado estavam repletas de panfletos anunciando o triunfo do novo regime soviético de Lênin.

No entanto, questões financeiras têm o hábito de perseguir os grandes homens da história. Lênin dependia do sigilo; os alemães o deixaram na mão. No final de 1917, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Richard von Kühlmann, vangloriou-se do papel de seu país no golpe bolchevique de novembro. Berlim, disse ele, há muito planejava subverter a Rússia. O desafio era encontrar alguém capaz de realizar a tarefa. Os alemães haviam apoiado diversos candidatos, desde nacionalistas finlandeses até jihadistas da Ásia Central. "Foi somente depois que os bolcheviques receberam de nós um fluxo constante de recursos por meio de vários canais", explicou Kühlmann em um memorando franco, "que eles tiveram condições de fortalecer seu principal órgão, o Pravda, realizar uma propaganda vigorosa e ampliar a base, originalmente restrita, de seu partido."

Os registros financeiros de Lênin eram meticulosos. Ele alegava ter rejeitado todos os agentes que os alemães lhe enviaram. Insistia (com razão) que seu partido havia triunfado ao dar voz e forma a paixões e desesperos reais. Ainda assim, o dinheiro fora essencial. No verão de 1917, os britânicos estimaram que custaria 2 milhões de libras por mês igualar o esforço de propaganda de Lênin. Esse custo elevado levava em conta o apelo genuíno do bolchevismo, mas até mesmo Lênin sabia que jornais e cartazes não se imprimiam nem se distribuíam sozinhos.

É aí que entram as camisinhas e os lápis. Lênin não podia correr o risco de aceitar subornos diretos, mas era fácil para Berlim fornecer mercadorias aos seus agentes e, depois, "esquecer" de enviar a fatura. Os produtos eram exportados para a Dinamarca (o que era legal), as embalagens eram alteradas (ilegal) e, em seguida, eram revendidos para países onde as importações da Alemanha estavam proibidas. Parte do lucro acabou chegando aos cofres dos bolcheviques por meio de empresas sediadas em Estocolmo. Um papel fundamental nesse processo coube a Yakov Fürstenberg, gerente de uma empresa de importação e exportação sediada na Escandinávia cujos diretores, Alexander Helphand e Georg Sklarz, eram agentes conhecidos da Alemanha. Embora Lenin desprezasse publicamente Helphand, Fürstenberg era um de seus contatos mais próximos, o homem de confiança que articulava suas operações no norte da Europa.

“A entrada de Lenin na Rússia foi bem-sucedida”, relatou o chefe da espionagem alemã em Estocolmo aos seus superiores em abril de 1917. “Ele está agindo exatamente como gostaríamos.” Mas foi Lenin quem, no final, venceu a aposta de alto risco. O Kaiser e seus ministros foram varridos do poder, enquanto o império de Lenin só se fortalecia. Como ele havia dito anos antes: “Às vezes, um canalha é útil ao nosso partido justamente por ser um canalha”.

Catherine Merridale é a autora, mais recentemente, de Lenin on the Train.

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