13 de março de 2017

Anjos e demônios na Guerra Fria e hoje

Como os Estados Unidos transformaram a Rússia em um inimigo espiritual, em vez de apenas um rival geopolítico.

Stephen Boykewich

The New York Times

George Kennan vestindo um uniforme de cossaco georgiano no final do século XIX. Library of Congress.

George Kennan sabia como conquistar a plateia. O público de suas palestras começava cético quanto a se a Rússia realmente desejava ser remodelada segundo o modelo americano. Então, ele lhes contava sobre os presos políticos russos que, nas semanas anteriores ao 4 de Julho, juntavam retalhos de tecido nas cores vermelho, branco e azul. Quando o feriado chegava, eles saudavam seus carcereiros agitando, através das grades, um mar de pequenas bandeiras com estrelas e listras costuradas à mão.

Parece a história perfeita de propaganda da Guerra Fria. Mas o 4 de Julho a que Kennan se referia não ocorreu na década de 1950 — foi em 1876. E o George Kennan que contava a história não era o famoso diplomata da era da Guerra Fria, mas sim um parente distante e homônimo, um jornalista que passara um tempo na Rússia antes de iniciar sua série de palestras na década de 1880.

A narrativa americana da Guerra Fria como uma batalha pelo destino da humanidade é bastante conhecida. Desde o estabelecimento da Doutrina Truman, em 1947, até o colapso da União Soviética, em 1991, os Estados Unidos retrataram a Rússia soviética não apenas como uma rival geopolítica, mas como uma inimiga espiritual. Jornalistas e formuladores de políticas oscilavam entre a demonização feroz do país e fantasias messiânicas de remodelá-lo à imagem dos Estados Unidos. O surpreendente, porém, é quão antiga é essa abordagem evangelizadora dos EUA em relação à Rússia — e como ela continua a distorcer nosso pensamento até hoje.

Em seu livro The American Mission and the "Evil Empire, o historiador David Foglesong detalha como os formadores de opinião americanos têm retratado a Rússia no papel de "duplo sombrio" dos Estados Unidos há mais de um século. A obra de Foglesong é hoje tão indispensável quanto sempre foi, ajudando os americanos a compreender como tratamos a Rússia ora como uma terra atrasada que anseia por se tornar uma segunda América, ora como um monstro moral cujas falhas aliviam a própria consciência culpada dos americanos.

Esse padrão teve início nas últimas décadas do século XIX, quando os Estados Unidos enfrentavam um declínio da fé religiosa, uma onda de terrorismo racial contra afro-americanos e condições brutais para os trabalhadores industriais. Em um clima de crise interna, muitos americanos viram seu idealismo renovado pela campanha de George Kennan para libertar a Rússia do domínio autocrático.

Kennan escreveu e proferiu palestras com fervor para mudar a percepção americana sobre a Rússia czarista, transformando a imagem de uma nação benevolente na de uma barbárie. Naquela época, a Rússia era geralmente vista como uma "amiga distante" dos Estados Unidos — a grande potência que ajudara a impedir o apoio francês e britânico à Confederação ao enviar seus navios para portos americanos durante a Guerra Civil. No entanto, os relatos de Kennan sobre o "inferno de miséria" vivido pelos presos políticos russos — em parte inventados — ajudaram a mudar essa visão. Kennan foi motivado por seus contatos com russos exilados na Sibéria, que lhe proporcionavam uma sensação de "elevação espiritual". Por sua vez, ele ajudou ativistas americanos abolicionistas a encontrar um novo propósito na cruzada contra o czarismo.

A campanha de Kennan coincidiu com uma percepção crescente da Rússia como uma terra de oportunidades para missionários protestantes e fabricantes americanos. Ambos os grupos acolheram bem a ideia de que os russos desejavam trocar a autocracia czarista pela liberdade americana. A anedota sobre a bandeira hasteada no 4 de Julho levava o público de Kennan ao delírio, embora se baseasse em uma fantasia. Os revolucionários russos que se opunham ao czarismo eram, em grande parte, céticos em relação ao modelo americano e viam maior potencial no socialismo.

Ainda assim, o que um jornal americano da época chamou de "o evangelho segundo Kennan" logo se tornou uma crença generalizada: a Rússia era uma terra selvagem, pronta para ser transformada pelos ideais, orações e produtos americanos.

Uma ilustração da revista Life, que retratava a Revolução Russa de fevereiro de 1917, capturou perfeitamente essa visão. A Estátua da Liberdade aparecia montada nas costas de um urso, projetando a luz da liberdade sobre camponeses russos maravilhados. A placa em sua mão trazia duas datas: 1776 e 1917. Os americanos celebravam a Revolução Russa como uma extensão de sua própria revolução. Em um discurso ao Congresso em abril de 1917, o presidente Woodrow Wilson saudou a "majestade ingênua" do "grande e generoso povo russo", que era "sempre, de fato, democrático em sua essência".

A ascensão dos bolcheviques fez a opinião pública americana oscilar de esperanças irracionais para uma demonização amarga e carregada de preconceito racial. George A. Simons, um missionário metodista, retornou de Petrogrado em 1919 para alertar o Senado sobre um regime "cruel", "infernal", "diabólico" e "anticristão", dominado por agitadores "iídiches" que mantinham laços preocupantes com radicais judeus de Nova York.

O pêndulo oscilou de volta na década de 1920, quando os bolcheviques abriram suas portas para trabalhadores americanos de assistência humanitária contra a fome e para missionários protestantes. O diretor da American Relief Administration — uma missão de ajuda alimentar financiada pelo Congresso — declarou que os russos viam sua organização como "um milagre de Deus que chegou até eles em sua hora mais sombria sob a bandeira americana". Os evangélicos americanos, considerados úteis pelos bolcheviques para minar a Igreja Ortodoxa Russa, celebravam a Rússia como "a maior oportunidade missionária do nosso tempo", onde "milhões de pessoas brancas aguardam a mensagem de vida".

No entanto, quando o regime soviético expulsou os missionários estrangeiros na década de 1930, os evangélicos americanos passaram a identificar a Rússia como a satânica "terra de Magog", cuja batalha contra Israel no fim dos tempos fora profetizada em Ezequiel 38-39. A representação da Rússia como a encarnação do mal absoluto cresceu paralelamente à influência dos evangélicos na vida política americana ao longo da Guerra Fria.

O impasse nuclear que se seguiu à Segunda Guerra Mundial arrefeceu as esperanças americanas de "libertar" a Rússia a curto prazo. Contudo, o pânico moral persistiu sem trégua e encontrou novos alvos internamente. As caças às bruxas anticomunistas da década de 1950 exemplificaram o que o historiador Richard Hofstadter chamou de "estilo paranoico na política americana". Os conservadores americanos reagiam com especial fúria quando as críticas soviéticas aos Estados Unidos coincidiam com as da esquerda americana, fosse em relação à segregação racial ou à condução da Guerra do Vietnã. Em um editorial de 1968 intitulado Liberdade Prostrada, o conservador Chicago Tribune insistia que "a imoralidade internacional é um monopólio dos comunistas".

O auge dessa retórica moralizante ocorreu em uma reunião da Associação Nacional de Evangélicos em 1983, na qual o presidente Ronald Reagan classificou a União Soviética como "o foco do mal no mundo moderno". Reagan utilizou o espectro desse "duplo sombrio" para apresentar a escalada nuclear como um imperativo moral.

Inevitavelmente, a queda do "império do mal" gerou alegações de uma vitória cósmica — e, com ela, políticas equivocadas. Os neoconservadores proclamaram a ordem econômica e política americana como o ponto final da história humana. Essa mentalidade triunfalista levou a políticas americanas em relação à Rússia, na década de 1990, que abriram caminho para uma reação autoritária: a "terapia de choque" econômica que empobreceu dezenas de milhões de russos, o apoio a esquemas de privatização monstruosamente corruptos e a expansão da OTAN para o antigo bloco soviético. George F. Kennan, diplomata e uma das grandes autoridades em política externa do século XX, foi um dos muitos a alertar que a expansão da OTAN era "um erro trágico" que inevitavelmente provocaria "uma nova Guerra Fria".

Hoje, os comentaristas americanos estão novamente presos a uma narrativa de anjos e demônios, tendo o presidente Vladimir V. Putin como a mais recente encarnação de Mefistófeles. As tentativas de retratar uma conspiração entre a campanha de Trump e a inteligência russa — até agora sem provas — atingiram tal intensidade que até mesmo críticos implacáveis ​​de Putin, como a jornalista Masha Gessen e o ex-embaixador americano na Rússia Michael McFaul, pediram mais ponderação.

A Rússia apresenta desafios óbvios aos interesses e ideais americanos. Mas esses desafios exigem uma análise criteriosa e novas perspectivas — não fantasias milenaristas sobre uma batalha pelo destino espiritual da humanidade.

Os americanos também devem lembrar que o fervor do debate sobre a Rússia sempre refletiu ansiedades quanto à saúde de nossa própria democracia. Os desafios mais profundos que os americanos enfrentam internamente não vêm do Kremlin. Eles decorrem do autoritarismo doméstico, da desigualdade arraigada, da captura da política pelo poder corporativo e do colapso do contrato social do século XX. A maneira como lidarmos com esses problemas determinará mais sobre o futuro do experimento americano — e o papel dos EUA no exterior — do que todos os epítetos antirrussos do mundo.

Stephen Boykewich é roteirista e jornalista que viveu em Moscou de 2004 a 2007.

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