Mostrando postagens com marcador Adam Hanieh. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adam Hanieh. Mostrar todas as postagens

5 de abril de 2020

Esta é uma pandemia global - e assim devemos tratá-la

A cobertura da mídia tem se concentrado fortemente no impacto do COVID-19 na Europa e na América do Norte. Mas os países do Sul Global são muito mais vulneráveis à pandemia e suas consequências econômicas. A esquerda precisa desenvolver uma visão verdadeiramente global da crise — e agir em conformidade.

Adam Hanieh


Os viajantes chineses usam máscaras de proteção e roupas ao chegarem para pegar um trem na Estação Ferroviária de Pequim em 13 de março de 2020 em Pequim, China. (Kevin Frayer / Getty Images).

Tradução / Frente à tsunami do COVID-19, nossas vidas estão mudando de maneiras que eram inconcebíveis há poucas semanas. Desde o colapso econômico de 2008, o mundo não compartilha uma experiência coletiva dessa natureza: uma crise global singular e de rápida mutação, estruturando o ritmo de nossas vidas cotidianas dentro de uma moldura de complexos cálculos de riscos e de probabilidades.

Em resposta, vários movimentos sociais tem levado adiante demandas que levam a sério as consequências potencialmente desastrosas do vírus, ao mesmo tempo em que enfrentam a incapacidade dos governos capitalistas de lidar adequadamente com a crise em si. Essas demandas incluem questões de segurança dos trabalhadores, a necessidade de organização vicinal, renda e segurança social, os direitos daqueles em empregos intermitentes ou precários e a necessidade de proteção aos locatários e pessoas vivendo em condições de pobreza.

Nesse sentido, a crise da COVID-19 tem ressaltado a natureza irracional dos sistemas de saúde estruturados em volta do lucro corporativo – os cortes quase universais nos quadros dos hospitais e na infraestrutura (incluindo leitos de cuidado intensivo e ventiladores), a falta de abastecimento na saúde pública, os preços proibitivos de acesso aos serviços médicos em muitos países e as maneiras em que os direito de propriedade e patente de companhias farmacêuticas servem para restringir o acesso amplo a tratamentos potencialmente terapêuticos e o desenvolvimento de vacina.

Entretanto, as dimensões globais da COVID-19 não têm sido muito proeminentes na maioria das discussões da esquerda. Mike Davis acertadamente observou que “o perigo para os pobres do mundo sem sido quase que totalmente ignorado por jornalistas e governantes do ocidente”, e o debate da esquerda tem sido igualmente circunscrito, com foco principalmente nas graves crises na saúde que se desdobram na Europa e nos EUA. Mesmo no interior da Europa existe uma extrema desigualdade na capacidade dos estados em lidar com a crise – como o contraste entre Alemanha e Grécia -, mas um desastre muito maior está prestes a atingir o resto do mundo.

Em resposta, nossa perspectiva acerca dessa pandemia deve se tornar verdadeiramente global, baseada em uma compreensão de como os aspectos da saúde pública e do vírus se conectam com questões mais amplas da economia política (incluindo a possibilidade de uma longa e grave desaceleração econômica global). Não é hora de fechar o alçapão (nacional) e falar simplesmente da luta contra o vírus no interior de nossas próprias fronteiras.

Saúde pública no Sul
Assim como em todas as, assim denominadas, crises humanitárias, é essencial relembrar que as condições sociais encontradas na maioria dos países do Sul são o produto direto de como esses estados estão inseridos nas hierarquias do mercado mundial. Historicamente, isso envolveu uma longa relação com a colonização ocidental, que continua até os dias de hoje, caracterizada pela subordinação dos países mais pobres aos interesses das nações mais ricas do mundo e das maiores corporações transnacionais.

Desde a metade da década de 1980, repetidas investidas de ajustamento estrutural – geralmente acompanhados por ações militares promovidas pelo Ocidente, debilitando regimes sancionados ou apoiando líderes autoritários – têm destruído sistematicamente as capacidades sociais e econômicas dos países pobres, deixando-os mal equipados para enfrentar grandes crises, tal como a da COVID-19.

Trazer para o primeiro plano essas dimensões históricas e globais ajuda a tornar claro que a enorme escada da crise atual não é meramente uma questão de epidemiologia viral e uma ausência de resistência biológica a um novo patógeno. As formas que a maior parte das pessoas na África, América Latina, Oriente Médio e Ásia irão experienciar esta (e as próximas) pandemias é uma consequência direta de uma economia global economicamente estruturada com base na exploração de recursos e pessoas do Sul. Nesse sentido, a pandemia é muito mais um desastre social e antrópico – não apenas uma calamidade que surgiu de causas naturais ou biológicas.

Um exemplo de como esse desastre tem fontes humanas é o estado precário dos sistemas de saúde em vários países do Sul, que tendem a ser sub financiados e amargam a falta de medicamentos, equipamentos e equipes adequadas. Isso é particularmente relevante para entender a ameaça apresentada pela COVID-19 devido ao surto amplo e veloz de casos sérios e críticos que frequentemente resultam em internações (atualmente estimada em torno de 15% a 20% dos casos confirmados). Atualmente, esse fato é largamente discutido no contexto da Europa e dos Estados Unidos, como parte da estratégia de “achatar a curva” para aliviar a pressão nas capacidades de atenção intensiva dos hospitais.

Ainda assim, mesmo apontando corretamente para a falta de leitos de UTIS, respiradores e equipe médica especializada nos países do Ocidente, devemos reconhecer que a situação na maior parte do resto mundo é imensuravelmente pior. Malawi, por exemplo, possui cerca de 25 leitos de UTI para uma população de 17 milhões de pessoas. Há menos de 2,8 leitos de atenção intensiva para cada 100.000 pessoas em média no Sul Asiático, com Bangladesh possuindo por volta de 1.100 dessa modalidade de leitos para uma população de mais de 157 milhões (0,7 de leitos de UTI para 100.000 pessoas).

Em comparação, imagens chocantes viralizadas da Itália ocorreram em um sistema de saúde avançado, com uma média de 12,5 leitos para cada 100.000 pessoas (e a possibilidade de habilitar serviços de telemedicina). A situação é tão séria que muitos países pobres não têm sequer informações sobre disponibilidades de UTIs, com uma estimativa feita por um artigo acadêmico, em 2015, de que “mais de 50% dos países (de baixa renda) não possuem dados disponíveis sobre a capacidade das unidades de terapia intensiva”. Sem tais informações é complicado imaginar como esses países poderão estabelecer algum planejamento para atender a inevitável demanda por cuidados críticos em decorrência da COVID-19.

É óbvio que a questão das UTIs e da capacidade hospitalar são parte de um conjunto de questões muito mais amplo que inclui a falta generalizada de recursos básicos (como água limpa, comida e eletricidade), acesso adequado aos cuidados médicos primários e a presença de outras comorbidades (tais como os altos índices de HIV e de tuberculose). Tomados em conjunto, todos esses fatores certamente vão representar um predomínio de pacientes doentes em estado crítico (e, portanto, uma maior taxa mortalidade) em países pobres como consequência da COVID-19 e falta de estrutura.

Trabalho e moradia são questões de saúde pública
Os debates acerca de como responder melhor ao coronavírus na Europa e nos EUA têm ilustrado a relação de reforço mútuo entre medidas de saúde pública e condições de trabalho, precariedade e pobreza. Apelos para que as pessoas se auto isolem quando adoecerem – ou a aplicação de lockdowns obrigatórios por longos períodos – são economicamente impossíveis para a maioria das pessoas que não podem migrar facilmente para o trabalho online, ou aqueles no setor de serviços que possuem contrato de trabalho intermitente ou outro tipo de emprego temporário. Reconhecendo as consequências fundamentais desses padrões de trabalho para a saúde pública, muitas nações européias têm anunciado extensas promessas sobre compensações para aqueles que perderam o emprego ou foram forçados a ficar em casa durante a crise.

Resta ver se esses esquemas serão efetivos e em que nível que eles de fato atenderão as necessidades de um número muito grande de pessoas que irão perder seus empregos por causa da crise. Não obstante, devemos reconhecer que tais planos simplesmente não vão existir para a maioria da população mundial. Em países onde a maior parte da força de trabalho está engajada na informalidade ou depende de fonte renda diária imprevisível – o que acontece em grande parcela da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio – não existe nenhuma maneira viável que as pessoas possam optar por ficar em casa ou se auto isolar.

Ao mesmo tempo, temos de ver o fato de que, certamente, haverá um aumento vertiginoso dos “trabalhadores pobres” como resultado direto da crise. A Organização Mundial do Trabalho (OMT) estimou que no pior cenário teremos 24,7 milhões empregos perdidos globalmente. O número de pessoas em países de baixa e média-baixa renda que ganham menos de US$ 3,20/dia em Paridade de Poder de Compra (PPC) irá aumentar em aproximadamente 20 milhões de pessoas.

Mais uma vez, esses números são importantes não apenas por causa da sobrevivência econômica cotidiana. Sem a mitigação dos efeitos que a quarentena e o isolamento oferecem, o real progresso da doença no resto mundo vai ser muito mais devastador do que as cenas de agonia que testemunhamos até agora na China, Europa e nos EUA.

Além disso, trabalhadores informais e em contratos precários geralmente vivem em favelas ou em casas abarrotadas – condições ideais para a proliferação explosiva do vírus. Conforme um entrevistado do Washington Post recentemente afirmou em relação ao Brasil: “mais de 1,4 milhões de pessoas – quase um quarto da população do Rio – vivem em favelas aos arredores da cidade. Muitas pessoas não podem se dar ao luxo de perder um dia de trabalho sequer, muito menos semanas. As pessoas vão continuar saindo de casa… a tempestade está prestes a nos atingir”.

Pessoas que fogem de regiões em guerra e conflitos enfrentam cenários similarmente desastrosos. O Oriente Médio, por exemplo, é o lugar de maior deslocamento forçado desde a Segunda Guerra Mundial, com um número massivo de refugiados e pessoas removidas – resultado das guerras em curso em países como Síria, Iêmen, Líbia e Iraque. A maioria dessas pessoas vivem em campos de refugiados ou em espaços urbanos superpovoados e geralmente carecem dos direitos rudimentares à saúde tipicamente associados com a cidadania. O predomínio generalizado de desnutrição e outras doenças (como o reaparecimento da cólera no Iêmen) tornam essas comunidades de removidos particularmente suscetíveis ao vírus.

Um microcosmo dessa situação pode ser observado na Faixa de Gaza, onde mais de 70% da população é composta por refugiados vivendo em uma das áreas mais densamente ocupadas do mundo. Os dois primeiros casos de COVID-19 foram identificados em Gaza no dia 20 de março (a ausência de equipamentos de testagem, contudo, significa que apenas 92 pessoas em uma população de dois milhões realizaram testes para o vírus). Ao longo de 30 anos de cerco israelense e da sistemática destruição de infraestrutura básica, as condições de vida na Faixa de Gaza são marcadas por extrema pobreza, péssimas condições sanitárias e a falta crônica de remédios e equipamentos médicos (existem, por exemplo, apenas 62 respiradores em Gaza e apenas 15 deles estão disponíveis atualmente).

Sob bloqueio e interdição pela maior parte da última década, Gaza esteve fechada para o mundo desde muito antes da pandemia atual. A região poderia ser o proverbial canário da mina de carvão COVID-19 – um prenúncio do futuro caminho que a infecção irá trilhar entre as comunidades de refugiados por toda o Oriente Médio e em outros lugares.

Conectando crises
Aiminente crise de saúde pública que os países mais pobres irão enfrentar como consequência da COVID-19 será aprofundada por uma desaceleração econômica global e sua escala excede, quase inquestionavelmente, a de 2008. Ainda é cedo para prever a profundidade dessa queda, mas muitas das principais instituições financeiras projetam que será a pior recessão na história dos últimos anos.

Uma das razões para esse prognóstico é o quase simultâneo fechamento da manufatura, do transporte e dos setores de serviços por todos os EUA, Europa e China – um evento sem precedente histórico desde a Segunda Guerra Mundial. Com um quinto da população mundial atualmente sob alguma modalidade de lockdown, as redes de abastecimento e de comércio global estão entrando em colapso e os preços no mercado de ações têm afundado – com a maior parte das grandes transações perdendo entre 30% e 40% de seus valores entre 17 de fevereiro e 17 de março.

Porém, como Eric Touissant tem enfatizado, o colapso econômico que estamos rapidamente nos aproximando não foi causado pela COVID-19 – ao contrário, o vírus apresentou “a faísca ou o gatilho” de uma crise mais profunda que vem sendo engendrada por vários anos. Intimamente conectado a isso estão as medidas postas em prática por governos e Bancos Centrais desde 2008, mais notavelmente as políticas de alívio quantitativo e uma série de cortes nas taxas de juros.

Essas políticas foram voltadas para a manutenção do preço das ações, realizado por meio do incremento maciço da oferta de dinheiro ultra barato aos mercados financeiros. Elas significaram um crescimento considerável em todas as formas de débito – corporativo, governamental e imobiliário. Nos EUA, por exemplo, a dívida corporativa não-financeira das grandes companhias alcançou os US$ 10 trilhões na metade de 2019 (por volta de 48% do PIB), um aumento expressivo tendo em vista o pico anterior em 2008 (quando alcançou cerca de 44%). Tipicamente, essa dívida não era usada para investimento produtivo, mas para atividades financeiras (tais como financiamento de dividendos, recompra de ações, fusões e aquisições). De um lado temos, portanto, o bem observado fenômeno de um mercado de ações em crescimento estrondoso e, do outro, a estagnação de investimentos e o declínio dos níveis de lucro.

É relevante para a crise que se aproxima, contudo, que o crescimento em débito corporativo tem se concentrado fortemente em títulos de grau de investimento inferiores (conhecidos por títulos podres), ou títulos que são avaliados como BBB, apenas um degrau acima dos títulos podres. Segundo a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, as dívidas BBB representaram a extraordinária marca de 50% do mercado global de títulos em 2019, comparados com apenas 17% em 2001. O que isso significa é que o colapso sincronizado da produção, demanda e preços dos ativos financeiros do mundo todo representa um problema gigantesco para empresas que precisam refinanciar suas dívidas.

Na medida em que a atividade econômica trava em setores chave, as companhias cujas dívidas seriam prorrogadas agora encaram um mercado de crédito que está basicamente fechado – ninguém está disposto a emprestar nessas condições e muitas empresas que realizam excesso de alavancagem (especialmente aquelas envolvidas em setores como o aéreo, varejista, turístico, automotivo e de lazer) podem não obter receita alguma ao longo do próximo ano que se aproxima. Logo, a perspectiva de uma onda de falência de empresas de alto perfil, inadimplências e rebaixamento de crédito é extremamente provável. Esse não é um problema exclusivo dos EUA – analistas financeiros têm alertado sobre um “apuro financeiro” e uma “onda de falências” na região da Ásia-Pacífico, onde o nível de endividamento das empresas dobrou para US$ 32 trilhões ao longo da última década.

Bloqueando fluxos de remessa
Tudo isso representa um perigo muito sério para o resto do mundo, onde uma variedade de rotas de transmissão vai fazer com que a desaceleração entre em metástase nos países e populações pobres. Assim como em 2008, isso inclui uma provável queda nas exportações, um agudo recuo dos fluxos de investimento financeiro estrangeiro direto, da receita com turismo e uma diminuição nas remessas feitas por trabalhadores.

O último quesito é constantemente esquecido na discussão da atual crise, mas é essencial lembrar que uma da características chave da globalização neoliberal tem sido a integração de vastas camadas da população mundial ao capitalismo global através de fluxos de envio de dinheiro de membros de famílias trabalhando no exterior. Em 1999, apenas 11 países ao redor do mundo possuíam remessas superiores a 10% do PIB; em 2016, esse número cresceu para trinta países. Em 2017, mais de 30% de todos os 179 países para os quais existem dados disponíveis registraram níveis de remessa superior a 5% do PIB – uma proporção que dobrou desde 2000.

Surpreendentemente, por volta de um bilhão de pessoas – uma em cada sete pessoas do planeta – estão diretamente envolvidas em fluxos de remessa, seja porque enviam ou porque recebem. O fechamento de fronteiras ocasionado pela COVID-19 – em conjunto com a paralisação das atividades econômicas em setores cruciais nos quais migrantes tendem a ser a mão-de-obra predominante – significa que podemos estar, mundialmente, entrando uma diminuição precipitada nas remessas feitas por trabalhadores. É uma situação que teria ramificações severas para países do Sul.

Outro mecanismo central através do qual a crise econômica em rápida evolução pode atingir países do Sul é a grande dívida acumulada por países pobres nos últimos anos. Isso inclui tanto os países menos desenvolvidos do mundo quanto os chamados “mercados emergentes”. No fim de 2019, o Instituto para Finanças Internacionais estimou que a dívida do mercado emergente pairava em US$ 72 trilhões, cifra que dobrou desde 2010.

Muito dessa dívida é cotada em dólares norte-americanos, o que expõe seus titulares a flutuações do valor da moeda estadunidense. Nas últimas semanas, o dólar tem sido notadamente fortalecido na medida em que investidores buscaram um lugar seguro como reação à crise; como resultado, outras moedas nacionais desvalorizaram e, por outro lado, a carga de juros e os principais pagamentos da dívida em dólares norte-americanos aumentaram.

Já em 2018, 46 países gastaram mais frações do PIB em serviços de dívida pública do que em seus sistemas de saúde. Hoje, estamos em uma situação alarmante onde muitos países pobres irão ter que lidar com o pagamento de dívidas sobrecarregadas ao mesmo tempo em que tentam gerenciar uma crise de saúde pública sem precedentes – tudo isso no contexto de uma profunda recessão global.

Pensando globalmente
Não criemos qualquer ilusão de que essa intersecção de crises pode trazer fim ao ajuste estrutural ou que emerja algum tipo de “democracia social global”. Como temos visto diversas vezes ao longo da última década, o capital frequentemente apreende as crise como um momento de oportunidade – uma chance de implementar mudanças radicais que estavam previamente bloqueadas ou pareciam impossíveis.

Isso é cristalino, conforme o presidente do Banco Mundial David Malpass sugeriu exatamente isto quando, na reunião (virtual) do G20 entre ministros de finanças alguns dias atrás, afirmou:

Os países precisarão implementar reformas estruturais para ajudar a encurtar o tempo de recuperação… Para aqueles países que possuem excesso de regulações, subsídios, regimes de licenças, proteções comerciais ou litígios como obstáculos, nós trabalharemos com eles para promover mercados, escolhas e expectativa de crescimento rápido durante a recuperação.

É essencial trazer todas essas dimensões internacionais para o centro do debate da esquerda sobre a COVID-19, conectando a luta contra o vírus a questões como a abolição da dívida do “Terceiro Mundo”, o fim dos pacotes neoliberais de ajustamento estrutural do FMI e do Banco Mundial, reparações pelo colonialismo, interrupção do comércio de armas, fim aos regimes de sanções e assim por diante.

Todos esses esforços são, efetivamente, questões de saúde pública global – eles implicam diretamente na habilidade de países pobres mitigarem os efeitos do vírus e os problemas econômicos decorrentes. Não é suficiente falar de solidariedade e auto-ajuda mútua em nossa própria vizinhança, comunidade e no interior de nossas fronteiras nacionais – sem mencionar a ameaça muito mais grave que o vírus representa para o resto do mundo.

Certamente, altos níveis de pobreza, condições precárias de trabalho e moradia e a falta de infraestrutura básica de saúde também ameaçam a população na Europa e nos EUA de mitigarem essa infecção. Porém, precisamos construir campanhas e coalizões no Sul Global que se envolvem diretamente com essas questões de maneira sólida e internacionalista. Sem uma orientação global, nós arriscamos reforçar as formas com que o vírus tem sido utilizado para alimentar a retórica política de movimentos xenófobos e nativistas – uma política profundamente infiltrada no autoritarismo, uma obsessão com o controle de fronteiras e um patriotismo nacional do tipo “primeiro o meu país”.

Sobre o autor
Adam Hanieh é professor sênior da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres e autor de "Lineages of Revolt: Issues of Contemporary Capitalism in the Middle East".

26 de junho de 2017

A crise do Catar

A batalha entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Qatar é uma luta pelo poder regional, sem heróis a serem elogiados.

Adam Hanieh


Porto Arábia, Qatar. Abraham Puthoor / Flickr

Tradução / A decisão de 5 de junho da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), do Bahrein e do Egito em suspender as relações diplomáticas com o Qatar enviou ondas de choque pelo Oriente Médio.

O bloqueio que se seguiu encerrou grande parte do comércio marítimo e terrestre do Golfo com o Qatar, provocando receios de que o pequeno estado logo enfrentaria uma escassez de alimentos. As principais transportadoras aéreas, incluindo a Emirates, a Gulf Air, a Flydubai e a Etihad Airways, cancelaram os voos e os cidadãos do Qatar que viviam nas nações participantes tiveram apenas duas semanas para voltar para suas casas. Mesmo os imigrantes com permissões de residência do Qatar seriam alvos de expulsão.

Os Emirados Árabes Unidos proibiram qualquer expressão de solidariedade para com o Qatar – até mesmo através do Twitter – e ameaçaram os infratores com penas de prisões de até quinze anos.

Os governos estreitamente ligados à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos expressaram rapidamente o apoio ao bloqueio, incluindo a Câmara dos Deputados na Líbia com base em Tobruk (uma das facções governamentais em conflito do país), o governo de Abed Rabbo Mansour Hadi no Iêmen, apoiado pelos sauditas, bem como Comores, a Mauritânia e as Maldivas.

O movimento contra o Qatar veio após meses de publicidade negativa na mídia americana e no Golfo, em que autoridades estatais alegaram repetidamente que o Qatar estava financiando grupos islâmicos e se aproximando do Irã.

Yousef Al Otaiba, embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos Estados Unidos, desempenhou um papel importante nesta campanha. Desde o início das revoltas árabes em 2010, Otaiba tem percorrido os corredores do poder em Washington, alertando que essas revoltas populares ameaçam a ordem estabelecida da região e afirmando também que o Qatar apoia movimentos e indivíduos hostis tanto à Arábia Saudita como aos Emirados Árabes Unidos.

Ex-funcionários do governo americano e think tanks – notadamente a neoconservadora Fundação Pró-Israel para a Defesa das Democracias (FDD), uma apoiadora proeminente na invasão do Iraque em 2003 – assumiram essa cruzada anti-Qatar. Em 23 de maio, a FDD convocou um seminário de alto nível para discutir o relacionamento do país do Golfo com a Irmandade Muçulmana e como a administração de Trump deveria responder. Ali, o ex-secretário de defesa, Robert Gates, pediu ao governo americano que deslocasse sua maciça base aérea no Qatar, a menos que o país cortasse relações com esses grupos.

De acordo com e-mails divulgados logo após a conferência, Otaiba supostamente revisou e encorajou os comentários de Gates. Na verdade, esse vazamento supostamente ajudou a desencadear o bloqueio, revelando a confortável relação do embaixador com Gates, com a FDD, e com outras figuras próximas à administração Trump.

Tanto os Emirados Árabes Unidos quanto a Arábia Saudita também alegaram que o Qatar tem procurado fortalecer os laços com o Irã nos últimos meses. Uma evidência oferecida para isso é a alegação de que o Qatar pagou recentemente US$ 700 milhões ao Irã para garantir a libertação de vinte e seis membros da realeza do Qatar, que haviam sido sequestrados no Iraque em 2015, e haviam sido mantidas no Irã por um ano e meio. Esta história – que também alegadamente envolveu um pagamento à parte de até US$ 300 milhões para grupos alinhados com a Al Qaeda na Síria – foi negada pelo primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi, que declarou em 11 de junho que o dinheiro permanece no banco central iraquiano.

Por sua parte, a Arábia Saudita criticou uma declaração atribuída ao Emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, publicada na Agência Estatal de Notícias do Qatar. Durante um discurso de graduação para oficiais da guarda nacional na base de Al Udeid, Al Thani supostamente elogiou o Irã e criticou os estados do Golfo que veem a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista. Qatar explicou que o site havia sido pirateado – uma afirmação que mais tarde teve o apoio do FBI – e que Al Thani não havia feito tais declarações.

Em meio a todas essas declarações conflitantes, alguns observadores argumentam que a visita de Donald Trump à Arábia Saudita em 20 de maio representou um momento-chave na campanha contra o Qatar, alegando que Trump deu à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos o sinal verde. Na verdade, um de seus caracteristicamente eloquentes tweets parece confirmar isso, enquanto o presidente se gabava de que o bloqueio saiu a partir de suas reuniões em Riyadh.

Nem todos em Washington, no entanto, apoiam totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Outros funcionários – notadamente Rex Tillerson – estão pedindo uma flexibilização do bloqueio e uma solução pacífica. O secretário de relações exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, também opinou, pedindo o fim do conflito, ao mesmo tempo que afirmou que o Qatar “precisa urgentemente fazer mais para resolver o tema do apoio a grupos extremistas”.

Disputas intestinas não são novidade para as turbulentas famílias governantes do Golfo, mas a decisão de isolar o Qatar marca uma escalada significativa. Como devemos entender o bloqueio no contexto de desenvolvimentos mais amplos no Oriente Médio, particularmente na sequência das revoltas árabes? Esses eventos marcam um cisma irreconciliável na política do Golfo ou uma mudança fundamental nos padrões históricos das alianças americanas na região?

Interesses e rivalidades compartilhados

Não podemos entender o conflito atual sem analisar o projeto mais amplo de integração regional, incorporado ao Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã estabeleceram esta organização dois anos após a revolução iraniana de 1979 e no início da guerra entre o Iraque e o Irã que duraria até 1988.

Na época, o GCC era amplamente visto como uma resposta apoiada pelos Estados Unidos para esses distúrbios regionais, projetado para estabelecer um guarda-chuva de segurança nos seis Estados membros, que os Estados Unidos iriam encorajar, equipar e supervisionar.

Não só esses estados possuem recursos ricos em petróleo e gás – a explicação definitiva para o interesse dos Estados Unidos em tal aliança -, mas também compartilham estruturas semelhantes, marcadas por famílias governantes autoritárias e uma força de trabalho que consiste principalmente de migrantes temporários, em grande parte sem direitos trabalhistas – uma característica muitas vezes esquecida na enxurrada de discussões na mídia sobre o Golfo nas últimas semanas. O projeto de integração do GCC refletiu os interesses coletivos desses estados, que estão alinhados, de forma singular, com as potências ocidentais.

A relação entre os Estados Unidos, outras potências ocidentais e o GCC tem se fortalecido consideravelmente desde 1981, como demonstra a base aérea Al Udeid do Qatar.

Agora, com mais de 14 anos de idade, Al Udeid hospeda mais de dez mil soldados norte-americanos e é a maior base aérea no exterior dos Estados Unidos. Como a sede do quartel-general avançado do Comando Central das Operações Especiais e do Comando Central das Forças Aéreas, o Qatar ajuda a coordenar a presença militar dos Estados Unidos em toda a região, inclusive no Iraque e no Afeganistão.

Os Estados Unidos também controlam sua principal base naval a partir do Bahrein, sede do Comando Central das Forças Navais e da Quinta Frota. Mais de vinte mil militares americanos estão estacionados em todo o resto do Golfo.

A venda de equipamentos militares ao Golfo pelos Estados Unidos e por nações europeias, particularmente o Reino Unido e a França, está intimamente ligada a essa presença militar. A recente visita de Trump à Arábia Saudita colocou esse aspecto da relação EUA- Arábia Saudita em destaque: o negociador-em- chefe teria assinado contratos de mais de cem bilhões de dólares. (Os valores precisos continuam a ser contestados, pois são centralmente baseados em cartas de intenções e incluem ofertas acordadas com a administração de Obama).

De acordo com o Programa de Despesas Militares e com Armamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, cerca de 20% das importações militares mundiais foram para países do CCG em 2015; A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ocuparam o primeiro e o quinto lugar. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos representaram 80% de todas as importações militares do GCC naquele ano, mas o Qatar, o Kuwait e o Omã também aparecem na lista dos primeiros quarenta países que mais importam armas do mundo. A participação do GCC no mercado global mais do que duplicou desde 2011 e tornou-se o maior mercado de armas do mundo.

Essas compras reciclam uma parte dos excedentes de petrodólares do Golfo para as empresas que produzem o hardware militar mundial. O GCC não só hospeda as forças americanas, mas também paga generosamente por esse privilégio.

A economia política do Golfo

Mas o significado do projeto do GCC se estende para além de proteger um clube exclusivo de monarquias ricas em petróleo e manter o papel da região como sede para o poder militar americano no Oriente Médio, Ásia Central e África Oriental.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, o quadro institucional estabelecido pelo GCC encorajou os seis estados membros a elaborar um alinhamento político e econômico muito mais próximo, um acordo geralmente comparado com a União Europeia. As duas últimas décadas têm visto progressos consideráveis em direção a esse objetivo: aumento dos níveis de fluxos de capitais pan-GCC, um movimento em direção a impostos e tarifas padronizados para os produtos importados, políticas que incentivam a livre circulação de trabalhadores que são cidadãos dos distintos países membros, e instituições políticas mais unificadas. Até mesmo uma moeda comum, o khaleeji, foi proposta.

Este processo de integração regional dá suporte à forma específica do capitalismo que os Estados do GCC compartilham. Os grandes conglomerados do Golfo (estatais e privados) que dominam a economia política do Golfo operam nas fronteiras do Golfo e, como a União Europeia, também são marcados por uma interpenetração pronunciada das estruturas de propriedade do capital em diferentes estados do Golfo.

É importante ressaltar, no entanto – e isso nos ajuda a entender os últimos conflitos na região – este projeto de integração não extinguiu as rivalidades dos membros ou as tensões competitivas. Uma hierarquia acentuada do poder político e econômico marcou o GCC desde a sua criação, com o pivô principal girando em torno de um eixo Arábia Saudita-Emirados Árabes Unidos.

Estes dois países tornaram-se os principais locais de acumulação de capital e as empresas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos dominam a economia do GCC nos setores de imóveis, finanças, comércio, logística, telecomunicações, petroquímica e indústria. Há também importantes investimentos trans-fronteiriços entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Este eixo não existe sem suas tensões próprias – refletidas, por exemplo, na rejeição dos Emirados do projeto – apoiado pela Arábia Saudita – de moeda unificada em 2009 – mas seu alinhamento político se desenvolveu juntamente com seus laços econômicos.

O Bahrain está estreitamente integrado a esse eixo como um sócio minoritário. Sua monarquia governamental da Casa de Al Khalifa depende do apoio financeiro, político e militar saudita, como as revoltas de 2011 o demonstraram claramente.

Esta sub-aliança influencia como os outros estados do GCC se relacionam com o resto do mundo, uma característica claramente ilustrada pelos padrões comerciais da região. Devido a níveis relativamente baixos de produção de não-hidrocarbonetos e às pequenas dimensões dos setores agrícolas, o GCC depende fortemente das importações. O eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos intermedia esse fluxo: eles trazem as mercadorias, em seguida as reexportam para outros estados, às vezes após o processamento de valor agregado.

As importações de alimentos são de particular importância. Os outros quatro estados do GCC importam mais alimentos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos do que de qualquer outro país do mundo. Em 2015, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos classificaram-se como ou primeiro ou segundo exportador de alimentos para cada um dos outros estados do GCC.

Notavelmente – especialmente porque esses números incluem grandes exportadores de trigo e carne, incluindo os Estados Unidos, Índia, Brasil e Austrália – a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram responsáveis por 53% do valor total da exportação de alimentos para Omã, 36% para o Qatar, 34 % para o Bahrain e 24% para o Kuwait.

Essas tendências não só ressaltam a importância de colocar o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos no centro da nossa compreensão do resto do Golfo, mas também ajudam a explicar os potenciais efeitos do atual bloqueio.

A escala regional

Dominados por este eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos, os outros Estados menores têm desempenhado um papel mais marginal na economia política do Golfo. Com uma pequena população cidadã (apenas 313 mil cidadãos de uma população total de 2,6 milhões, espantosos 12% do país) e uma enorme riqueza de suas vastas reservas de gás natural, o Qatar tem particularmente se irritado com essa estrutura hierárquica.

Em uma base per capita, o Qatar é o país mais rico do mundo – com 17,5% de suas famílias cidadãs com bens de mais de um milhão de dólares -, mas em grande parte tem sido negado ao Qatar um lugar nas estruturas políticas e econômicas mais amplas do GCC, dominadas pelos seus vizinhos maiores.

Limitados pelo tamanho dos seus mercados nacionais e inundados pelo capital excedente de quase quinze anos de crescentes preços de petróleo e gás, uma das principais consequências dessas hierarquias competitivas internas tem sido a tentativa por todos os Estados do Golfo de crescerem para além das fronteiras do GCC. Os grandes conglomerados privados e respaldados pelo estado têm expandido suas operações globalmente, investindo em imóveis, instituições financeiras, tecnologias emergentes, agronegócios e outros setores. Enquanto todos os estados do GCC têm participado deste processo, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar têm liderado esta corrida.

Embora os fluxos de capital do Golfo tenham se concentrado em grande parte na América do Norte e na Europa, o Oriente Médio também se tornou um alvo importante. A medida em que os estados árabes abriram seus mercados e liberalizaram setores econômicos fundamentais – um processo liderado pelo garoto-propaganda neoliberal do Banco Mundial, o Egito de Mubarak -o capital do Golfo teve um papel de liderança ao longo dos anos 2000, ao comprar os ativos privatizados (frequentemente através de acordos corruptos com as elites estatais) e ao se beneficiar com a abertura do mercado que se seguiu na esteira da reforma neoliberal.

De 2003 a 2015, os estados do GCC foram responsáveis por um notáveis 42,5% do total dos novos investimentos diretos estrangeiros (IDE) em outros países árabes. Neste período, cerca de metade de todos os investimentos estrangeiros na Jordânia, Egito, Líbia, Líbano, Palestina e Tunísia vieram do Golfo. Além disso, de 2010 a 2015, os investidores da Europa, do Golfo e da América do Norte gastaram pouco mais de vinte bilhões de euros em fusões e aquisições no mundo árabe. A participação do GCC representou quase metade, com 44,7%.

Por mais impressionantes que sejam esses números, eles realmente subestimam o nível de internacionalização. Eles não incluem, por exemplo, os níveis consideráveis de ajuda bilateral do Golfo, nem necessariamente incorporam investimentos de portfólio das empresas do Golfo em mercados de ações regionais.

À medida que este processo se desenrolava, o papel político do GCC tornava-se cada vez mais proeminente. O Golfo não só conduziu a construção de uma ordem regional marcada por estados autoritários e economias liberalizadas, mas também se beneficiou com isso. Tudo isso ocorreu sob os auspícios de potências ocidentais e instituições financeiras internacionais.

À medida que esse processo tornava os estados do GCC mais próximos entre si, também intensificava suas rivalidades. Uma das manifestações mais importantes dessa tensão ocorreu quando o Qatar tentou adotar uma política regional autônoma, relativamente independente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

O Qatar começou a patrocinar diferentes forças políticas – a Irmandade Muçulmana, o Hamas e o Talibã – e a hospedar uma variedade de dissidentes exilados – o clérigo egípcio Sheikh Yusuf al-Qaradawi, que protagoniza programas populares nos canais de TV do Qatar e o intelectual palestino Azmi Bishara. O Qatar também usou sua ampla rede de mídia para se promover como uma força regional, nomeadamente através da Al Jazeera e de suas afiliadas e, mais recentemente, através do jornal e canal de televisão Al-Araby Al-Jadeed, lançado no início de 2015.

As revoltas árabes que começaram na Tunísia no final de 2010 acentuaram essas divisões, mas também enfatizaram os interesses compartilhados do Golfo. Ao ameaçar profundamente a ordem regional e seus regimes autoritários, as revoltas colocaram um agudo desafio aos estados do GCC: como evitar os movimentos populares e reconstituir a ordem autoritária e neoliberal? Cada estado teve um interesse comum neste processo contrarrevolucionário, mas suas respostas diferiram ao longo das linhas descritas acima.

O Qatar apoiou forças aliadas com a Irmandade Muçulmana, enquanto a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos inclinaram-se para pessoas como Abdel Fattah el-Sisi no Egito e o antigo agente da CIA, Khalifa Haftar, na Líbia. Uma constelação de alianças, contraditórias e em constante mudança, se formou em torno dos interesses comuns do GCC e suas rivalidades internas.

O Qatar apoiou a intervenção saudita no Bahrein, participou da guerra contra o Iêmen e, na Síria, se opôs ao seu suposto novo aliado, o Irã. No Egito, na Líbia, na Tunísia e na Palestina, no entanto, o Qatar tendeu a apoiar facções rivais. As linhas ficam desfocadas e tênues mesmo nesses casos: o Qatar expressou apoio a Sisi após o golpe de 2013, apesar de sua clara aliança com a Irmandade Muçulmana Egípcia.

Essas alianças divergentes também se estendem a outros participantes no atual bloqueio; o Egito de Sisi, por exemplo, apoia o regime de Assad na Síria, alinhando-se com o Irã, mas contra a Arábia Saudita, apesar de sua dependência quase completa do eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos.

O ponto-chave, muitas vezes ignorado no comentário da mídia sobre o bloqueio, é que não existem posições políticas de princípios envolvidas nessas alianças – trata-se de uma conveniência calculada e de uma avaliação pragmática por cada estado sobre a melhor forma de promover sua influência regional, sempre dentro do quadro de reordenação da região de uma forma acessível ao seu poder político e econômico coletivo.

Precisamos manter ambas as tendências em mente quando avaliamos a situação atual. Uma forte unanimidade de interesses sustenta a posição dos Estados do Golfo sobre a ordem regional, uma situação plenamente apoiada por – e em pleno apoio às – potências ocidentais. Simultaneamente, o GCC é dividido por rivalidades e competições, refletidas nas diferentes visões dos membros em como manter seus interesses compartilhados.

A questão de Israel

Na esteira dos levantes árabes, agora estamos vendo uma afirmação de ambas as tendências. Especificamente, o bloqueio atual é uma jogada da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para afirmar completamente sua hegemonia sobre a região e colocar o Qatar de volta ao seu lugar.

Mas não se trata apenas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos; expressa fundamentalmente um processo contrarrevolucionário geral que tem estado presente desde o início dos levantes – restaurando o status quo dos estados autoritários neoliberais que atenderam os interesses do GCC como um todo (incluindo o Qatar) por várias décadas. Tudo isso também deve ser visto através do prisma da aliança contínua e sempre fortalecida do Golfo com os EUA e outras potências ocidentais.

Dentro desse processo, o lugar de Israel desempenha um papel fundamental. Desde a década de 1990, a política regional americana tem procurado aproximar o GCC e Israel, normalizando as relações econômicas e políticas entre os dois pilares do poder dos EUA na região. Desde a revolta árabe, essa aproximação pareceu cada vez mais provável.

Não é por acaso que a primeira viagem internacional de Trump o fez visitar a Arábia Saudita e depois Israel (voando diretamente entre os dois), uma agenda de viagem que ilustra perfeitamente as prioridades estratégicas dos Estados Unidos na região. Apesar do boicote de longa data da Liga Árabe às relações com Israel, a região do Golfo (particularmente o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos) e Israel concordam em questões políticas fundamentais, e ambas as partes estão ativamente buscando construir laços mais estreitos.

No final de março de 2017, o Haaretz informou que os Emirados Árabes Unidos e Israel participaram de exercícios militares conjuntos na Grécia ao lado dos Estados Unidos e de vários países europeus. Esta não foi a sua primeira colaboração: um ano antes, Israel, Emirados Árabes Unidos, Espanha e Paquistão participaram da Red Flag, um exercício de treinamento de combate aéreo que ocorreu em Nevada (EUA).

No final de novembro de 2015, Israel abriu um escritório diplomático na capital dos Emirados Árabes, Abu Dhabi, como parte da Agência Internacional de Energia Renovável – a primeira vez que uma presença diplomática israelense oficial apareceu nesse país. A Bloomberg Businessweek informou em fevereiro de 2017 que o escritório poderia atuar como uma embaixada para os laços crescentes de Israel no Golfo.

As empresas israelenses de segurança alegadamente instalaram equipamentos de infraestrutura e segurança no valor de mais de US $ 6 bilhões nos Emirados Árabes Unidos; isso ocorre depois de Israel ter vendido cerca de US $ 300 milhões de tecnologia militar para a nação do Golfo em 2011.

As empresas militares e de segurança de alta tecnologia israelenses também estão ativas na Arábia Saudita, onde elas estão supostamente ajudando a Saudi Aramco ([2])a estabelecer segurança cibernética, vender sistemas de mísseis avançados e até mesmo realizar pesquisas de opinião pública para a família real. A mídia israelense afirmou que o país ofereceu aos sauditas sua tecnologia militar Iron Dome para se defender contra os ataques do Iêmen.

Essas relações, outrora clandestinas, estão agora sendo comentadas abertamente. O The Times de Israel informou em junho de 2015 que a Arábia Saudita e Israel realizaram cinco reuniões secretas desde o início de 2014. Em maio de 2015, o então diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros Israelense, Dore Gold, apareceu publicamente com o general saudita aposentado, Anwar Eshki. No ano seguinte, Eshki visitou Israel para se encontrar com o ex-porta-voz das Forças de Defesa de Israel e atual coordenador de atividades governamentais nos territórios ocupados, o Major-General, Yoav Mordechai.

Não deve ser uma surpresa, então, que Israel apoie o bloqueio contra o Qatar. Mas isso não significa que o Qatar também não tentou normalizar suas relações com Israel. Como os outros estados do GCC, o envolvimento do Qatar na Palestina foi projetado para garantir a si próprio um assento melhor na mesa – um objetivo que os israelenses têm apoiado alegremente quando atende a seus interesses.

Em 1996, o Qatar permitiu que Israel abrisse um escritório comercial em Doha, tornando-o o único estado do Golfo a manter relações oficiais com Israel naquela época. Embora o escritório tenha sido fechado após o bombardeio israelense em Gaza em 2008, o Qatar tem repetidamente se oferecido para restabelecer os laços em troca de ter permissão para fornecer ajuda financeira e material a Gaza. Uma delegação comercial israelense que visitou o Qatar em 2013 alegadamente descobriu, que o Qatar estava interessado em investir no setor de alta tecnologia israelense.

O Qatar é o único estado do GCC que admite visitantes israelenses e que tem permitido que atletas israelenses participem de eventos esportivos e culturais. Em 2013, o Qatar presidiu a reunião da Liga Árabe que mudou a iniciativa de paz de 2002 para permitir que Israel mantivesse seus blocos de assentamentos em qualquer acordo final. Tzipi Livni, então ministra da Justiça israelense, descreveu o desenvolvimento como “muito positivo”. E no início de fevereiro de 2017, Muhammad al-Imadi, chefe do comitê nacional de Doha para a reconstrução de Gaza, afirmou que “mantém laços excelentes” com os oficiais militares israelenses.

Todas essas tendências indicam que nenhum dos estados do Golfo – incluindo o Qatar – pode ser visto de alguma forma como aliado ou amigo confiável da luta palestina. Mas as atuais tensões no Golfo também possuem implicações potencialmente importantes para o poder político na Palestina.

A crescente influência política de Mohammed Dahlan dialoga com essa possibilidade. Alguns acreditam que Dahlan, líder de uma das frações da Al-Fatah (principal corrente da Organização para a Libertação da Palestina – n. da tradutora) irá substituir Abu Mazen – também conhecido como Mahmud Abbas, n. da tradutora – (o atual chefe da Autoridade Palestina baseada em Ramallah). Dahlan vive em Abu Dhabi, e os Emirados Árabes Unidos há muito o apoiam política e financeiramente. Ele tem laços estreitos com Israel e os Estados Unidos e tornou-se, para esses dois últimos, o candidato preferido para suceder o octogenário Mazen.

Embora as rivalidades dentro do Fatah possam cortar a ascensão de Dahlan, sua crescente importância aponta para a forma como as tensões atuais no Golfo podem realinhar o equilíbrio de poder nas áreas vizinhas.

Rumos futuros

Nem todos os Estados do GCC ou atores regionais apoiam o bloqueio atual. No momento da redação deste artigo, Omã permitiu que os navios vinculados ao Qatar usassem os seus portos, e o Kuwait tem se empenhado em frenéticos esforços diplomáticos para acalmar as tensões. Somente o Bahrein apoiou totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, em grande parte devido à longa dependência da monarquia de Al Khalifa para com a Arábia Saudita.

A Turquia ofereceu enviar tropas a uma base militar turca no Qatar e o Irã se comprometeu a enviar comida e água para superar o fechamento da única fronteira terrestre do Katar com a Arábia Saudita. Enquanto isso, as tentativas da Arábia Saudita em recrutar outros países com grandes populações muçulmanas – como Senegal, Níger, Djibouti e Indonésia – falharam em grande parte. Países árabes como Marrocos, Argélia e Tunísia também rejeitaram o bloqueio.

À luz dessas disputas, devemos lembrar o que o GCC representa como um todo. Este bloco de estados está totalmente integrado em uma estrutura de poder regional alinhada aos EUA, tem se beneficiado massivamente das reformas neoliberais no mundo árabe e tem se tornado cada vez mais interligado com a dinâmica política da região.

Esses estados compartilham o interesse em preservar sua posição regional e suas antigas estruturas políticas. Esses compromissos superam os potenciais benefícios da fratura do projeto. Do mesmo modo, o Ocidente e Israel querem ver o GCC juntos, já que o bloco tem servido muito bem a seus interesses nas últimas décadas.

Apesar dos cismas atuais, algum tipo de solução negociada que veja o Qatar aderindo ao eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e sua aceitação em ter uma influência regional diminuída é o resultado mais provável.

Este acordo acabaria por fortalecer o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e ajudar a consolidar a contrarrevolução; também provavelmente precipitaria um realinhamento do poder político em lugares como Tunísia, Líbia e Palestina.

Mas a esquerda deve perceber que nenhum dos supostos aliados do Qatar – especificamente a Turquia e o Irã – representam uma alternativa progressiva para a região. Enquanto eles podem estar alinhados contra a frente Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos neste contexto, esses estados participaram do processo contrarrevolucionário pós-2011 tão entusiasticamente quanto seus rivais.

Talvez a lição mais importante da crise atual seja a de que devemos evitar leituras simplistas do Oriente Médio, especialmente aquelas baseadas na noção de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Seria profundamente tolo considerar o Qatar, a Turquia ou o Irã como representantes de algum realinhamento progressivo apenas porque eles estão – pelo menos por enquanto – contra a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel. A disputa feroz pelo poder regional provocou essas tensões e produziu todo tipo de alianças políticas contraditórias e instáveis, mas nenhum dos estados envolvidos representa qualquer tipo de alternativa política digna do apoio da Esquerda.

Sobre o autor

Adam Hanieh é professor sênior na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres e autor de Lineages of Revolt: Issues of Contemporary Capitalism in the Middle East. (Linhagens da Revolta: Questões do capitalismo contemporâneo no Oriente Médio)

2 de novembro de 2002

Classes, economia e a segunda Intifada

A atual Intifada Palestina e a resposta brutal de Israel têm sido tema de inúmeros artigos nos últimos dois anos. Há, no entanto, um vácuo decepcionante na análise de esquerda, com grande parte desses escritos tentando explicar o caráter da política israelense através das visões de direita de Ariel Sharon. Nesse contexto, a estratégia israelense é apresentada como uma extensão racista dos desígnios colonialistas sobre os Territórios Ocupados, às vezes incluindo a expulsão de palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (doravante denominadas BM/GS)...

Adam Hanieh



Tradução / A atual Intifada palestina e a brutal resposta de Israel tem sido objeto de inúmeros artigos de opinião durante os últimos dois anos. No âmbito das análises da esquerda há um vácuo decepcionante, com muito dos escritos tentando explicar o caráter da política israelense através da opinião de direita de Ariel Sharon. Dentro deste esquema, a estratégia de Israel é apresentada como uma extensão racista dos desígnios colonialistas nos Territórios Ocupados incluindo por vezes a expulsão de palestinos da Cisjordânia e Faixa de Gaza (daqui para a frente referidas como C/ FG).

O que está de modo impressionante ausente de, virtualmente, toda a análise de esquerda é qualquer discussão de classe e de economia política tanto em Israel como nos Territórios Ocupados. Embora possa parecer uma acusação estranha a ser feita a textos compreendidos na área da esquerda, acredito que a ausência de uma análise de classe é em si mesmo uma indicação da confusão de muitas das análises de esquerda sobre o Estado de Israel. Para a maior parte da esquerda, a política de Israel é simplesmente entendida como um binômio de opostos entre a direita Likud e a inclinação mais pacífica do Partido Trabalhista. Pretendo mostrar mais à frente que esta visão resulta de uma errada aproximação ao entendimento da formação das classes em Israel e que se não se colocar as classes sociais no centro da nossa análise torna-se difícil desenvolver uma compreensão adequada do que realmente está acontecendo.

No fundamental, argumento que o capitalismo israelense foi trazido à existência pelo movimento trabalhista sionista (hoje representado pelo Partido Trabalhista) e que o processo de Oslo foi um passo chave na sua formação. [1] A guerra de Israel contra o povo palestiniano é, hoje, a extensão lógica deste processo apontando para a criação de um Estado-cantão palestino. Devido ao papel central do movimento trabalhista sionista na construção do capitalismo israelense, os termos “esquerda” e “direita” são frequentemente confundidos no caso israelense.

Além do mais, durante os últimos dez anos, Israel tem-se progressivamente libertado da dependência da mão-de-obra barata palestina enquanto estreita a dependência dos Territórios Ocupados relativamente à economia israelense. O resultado é uma sociedade palestina com uma estrutura de classes fortemente distorcida – uma classe capitalista dependente de relações privilegiadas com o capital israelense e uma classe operária com pouco peso estratégico na luta de libertação.

Classes e Estado na sociedade de Israel

Muitos dos comentários, acadêmicos ou populares sobre Israel, vêem no peso predominante do Estado de Israel nas primeiras quatro décadas desde o estabelecimento do país em 1948 uma evidência de Israel como tendo constituído uma economia socialista. Esta crença encontra suporte na determinação política coletiva – particularmente o movimento Kibbutz – e na força do movimento sindical, o Histadrut, o maior empregador singular durante a maior parte da história de Israel. [2]

Desde os meados de 80, conhecendo uma aceleração durante os anos 90, a política econômica de Israel sofreu uma dramática transformação. Durante os últimos cinquenta anos, a estrutura econômica do país alterou-se significativamente e Israel abraçou a visão em expansão do capitalismo global. Largamente baseado nas receitas do FMI e do BM, o governo israelense privatizou empresas, distendeu o controle governamental sobre o mercado de capitais e reduziu os salários reais.

As abordagens tradicionais relativamente à política econômica de Israel tendem a explicar estas mudanças como resultado de uma alteração ideológica nas elites israelenses. De acordo com essas abordagens os líderes israelenses abraçaram as receitas do capitalismo neoliberal em meados da década de 80 tendo em conta os problemas econômicos de Israel, depois de serem portadores de uma versão da ideologia socialista.

Em contraste, uma nova geração de pensadores israelenses escrevendo sobre as últimas décadas têm argumentado da necessidade de uma nova abordagem relativamente à compreensão das autoridades israelenses. [3] Têm argumentado que o desenvolvimento do movimento sionista é melhor compreendido no contexto do movimento colonizador tentando ganhar controle sobre a terra e o mercado de trabalho. A classe capitalista privada do movimento colonizador inicial era fraca e dividida, e a aproximação coletivista do movimento colonizador liderado pelo movimento trabalhista sionista constituiu a mais eficaz forma de colonização da terra e de expulsão da população árabe. A força do Histadrut e o papel central do movimento trabalhista sionista é melhor entendido através da fragilidade da classe capitalista judaica existente antes de 1948 e da necessidade de fornecer trabalho aos imigrantes judeus em simultâneo com a exclusão dos operários palestinos do mercado de trabalho como antecâmara da expulsão.

Devido à natureza embrionária tanto da classe capitalista como da operária durante o período de colonização, o Estado de Israel desenvolvido após 1948 estava empenhado não apenas na colonização da terra mas na construção da própria estrutura de classes. Esta formação de classes passou por duas fases chaves entre o período de 1948 e 1985:

1. 1948-1973: Este período foi caracterizado por elevados níveis de crescimento financiados por transferências unilaterais de capital provindos das reparações alemãs e de judeus no exterior. Foi um período inicial de formação do Estado e das classes. Deste modo o Estado direcionou virtualmente todas as transferências de capitais para os grupos econômicos considerados aliados no “projeto nacional”. Grupos esses que evoluíram para conglomerados chave dominando a economia israelense nos anos seguintes. A classe operária israelense foi formada através de elevados níveis de imigração de judeus árabes, africanos e asiáticos – que etnicamente se definiram como os “Mizrahim.”

Seguindo a ocupação israelense da C/ FG em 1967, a economia israelense experimentou o chamado boom palestino. A ocupação incrementou de modo significativo o mercado doméstico de Israel e forneceu outra fonte de força de trabalho. [4] Esta força de trabalho era barata e altamente explorada e, por meados da década de 80, os palestinos da C/ FG constituíam cerca de 7% da força de trabalho israelense. Cerca de um terço da força de trabalho da C/ FG trabalhava em Israel em 1985, com 47% deste número a trabalhar na indústria de construção. Esta força de trabalho barata proporcionou um grande impulso à economia israelense preenchendo os mais baixos níveis do mercado de trabalho e cobrindo alguma carência motivada pelo prolongado serviço militar israelense. Permitiu também a alguns trabalhadores Mizrahim subirem a posições de controle e de supervisão, reduzindo assim alguma tensão étnica surgida durante a década de 70 entre os Mizrahim e os judeus europeus.

2. 1974-1985: No final da década de 60, o largo núcleo de conglomerados fundiram-se em cinco grupos – Koor, Hapoalim, Leumi, Clal e IDB. Os primeiros quatro grupos eram controlados pelo Estado, Histadrut e o movimento trabalhista sionista, enquanto o IDB era privado. Começando com a ocupação israelense da C/ FG em 1967 e acelerada com a guerra de 1973, a produção militar passou a ocupar o centro da política econômica de Israel. Estes gastos militares eram contratados pelo Estado a grupos econômicos e levaram a taxas massivas de acumulação para o núcleo central dos grupos econômicos enquanto a economia como um todo sofria de estagflação. [5]

Em meados da década de 80, este sistema começou a ser abalado por um número variado de fatores. Ao nível global, a recessão e a queda de encomendas militares no mercado internacional começaram a limitar os lucros dos grupos. Ao nível local, os primeiros sintomas de hiperinflação começou a estrangular a economia como um todo e tornou o planejamento financeiro difícil.

Em resposta a estas alterações, o Estado – sob a tutela da ala trabalhista do movimento sionista – empreendeu uma significativa mudança de direção que começou com o Plano de Estabilização Econômica de 1985 (PEE). Esta mudança consistiu em quatro processos inter-relacionados:

1. Uma alteração da relação entre o Estado e os grupos econômicos chave. O PEE inaugurou uma nova fase na relação do Estado com a classe capitalista. Os grupos econômicos fundamentais foram separados do aparelho de Estado passando para as mãos da nova classe capitalista. O Estado não mais protegeria estes grupos, sendo que eles tornaram-se locais fundamentais de acumulação de capital para uma verdadeira classe capitalista. Isto foi conseguido através da fratura do império Histadrut, passando as suas componentes para o setor privado, e da privatização de setores governamentais.

2. A coalescência de uma nova classe capitalista. Esta classe capitalista veio de uma fusão de três diferentes fontes: do capital global – frequentemente com ligações ao movimento sionista – como o capitalista americano Ted Arison e o bilionário canadense Charles Bronfman; capital privado local anteriormente suportado pelo Estado, como as famílias Recanati e Ofer; e em terceiro lugar elementos da burocracia estatal que chefiaram a ESP e o processo de privatização.

3. A inserção de Israel na economia global. Começando em meados da década de 80, a economia israelense foi sendo integrada na economia mundial através da redução das taxas aduaneiras e das normas de investimento. A classe capitalista, mencionada no ponto anterior não era homogênea. O terceiro setor da classe capitalista atrás mencionada, anteriormente da burocracia estatal, tendeu a constituir-se em gestores de novas companhias privadas. Seguindo o início das negociações com os palestinos no princípio da década de 1990, um vasto setor de capitalistas oriundos de Israel foram integrados no novo mundo globalizado através de significativos investimentos e ligações financeiras com o capital estrangeiro, em particular nos Estados Unidos e Ásia. Em terceiro lugar, o capital internacional – particularmente o americano – começou a investir de modo muito significativo em Israel, à medida que o país se integrava na ordem mundial capitalista.

4. Reestruturação da relação entre classes. A quebra dos conglomerados e do império Histadrut teve um significativo impacto nas relações entre a classe operária e a classe capitalista. O antigo sistema, onde coexistiu uma camada privilegiada de trabalhadores com um sector altamente explorado foi abaixo através da ruptura da ligação entre o Histadrut e a economia. Houve um largo aumento da taxa de exploração da classe operária reflectida em altas taxas de produtividade excedendo o aumento real de salários. Várias políticas estatais contribuíram para isto, em particular a desvalorização da moeda e o enfraquecimento da ajuda sobre o custo de vida que estava a ser pago para compensar a inflação. Alem do mais, políticas fiscais governamentais tais como o fim ou diminuição dos subsídios a certos bens contribuíram para uma transferência de riqueza dos mais pobres para a nova classe capitalista.

Estas medidas, caracterizadoras da “nova” política econômica de Israel, tiveram reflexos a nível político e cultural. Algumas indicações destas mudanças incluem: (1) o aumento de organizações cívicas e movimentos extra-parlamentares à medida que o governo se retirava da esfera pública, (2) um aumento da “MacDonaldização” da cultura israelense à medida que o capital norte-americano penetrava na economia e, (3) desenvolvimentos políticos como o processo de Oslo que constituiu um passo fundamental no movimento do capital israelense para um patamar global e regional.

Deve ser salientado que a força motriz deste processo foi o Partido Trabalhista. A sua base social de apoio foi tradicionalmente constituída pelos judeus mais abastados da Europa e América, enquanto o rival Likud começou a ganhar apoios entre as camadas mais pobres de judeus vindos de África e do Oriente Médio (Mizrahim) nos anos setenta. O partido Likud ganhou as suas primeiras eleições em 1977, em larga medida devido ao suporte dos mais pobres e da posição de inferioridade dos Mizrahim em simultâneo com a visão de que o partido Trabalhista representava a elite de judeus europeus. Hoje em dia é mínima a diferença entre as politicas econômicas dos Trabalhistas e do Likud – ambos abraçaram sinceramente como sua a política neoliberal dominante. A nível político existe, de igual modo, uma coincidência entre as correntes fundamentais dos Trabalhistas e do Likud relativamente ao conflito palestiniano. É esta convergência entre os trabalhistas e o Likud que explica o colapso do partido Trabalhista como força política em Israel. [6]

Oslo e o capitalismo israelense

No início do processo de Oslo, a classe capitalista emergente encorajava as negociações. Um exemplo típico foi Benny Gaon. Gaon tornou-se presidente da companhia de bandeira da Histadrut, a Koor em 1987, e dirigiu a privatização da companhia. Para Gaon e a nova classe capitalista israelense, Oslo era um passo essencial na abertura de Israel ao mercado global. De acordo com este ponto de vista, seria impossível atrair um significativo investimento estrangeiro enquanto o conflito persistisse. Seria igualmente difícil para as companhias de Israel investir nos Estados Unidos, Europa, ou nos chamados mercados emergentes sem uma resolução política do conflito Israel-palestino. Koor lançou o seu Projeto de Paz pouco após a assinatura da Declaração de Princípios em 1993, e que uniu homens de negócios israelenses, palestinos, árabes e europeus em projetos de investimentos conjuntos na região. Foi também um parceiro importante da Autoridade Palestina em projetos de infra-estrutura e de exportação para a C/ FG.

A razão deste apoio foi largamente sustentada na necessidade de acabar o boicote árabe à economia israelense e no assegurar da estabilidade do ambiente econômico em Israel. Israel apontou como objetivo subcontratar industrias de baixa tecnologia, como as têxteis, no Egito e Jordânia, com uma mão-de-obra muito mais barata do que em Israel. Em larga medida, este foi um objetivo conseguido, com companhias israelenses agora a produzirem em zonas industriais da Jordânia, Egito e nos Territórios Ocupados.

Com início em 1993, Israel começou, planejadamente, a substituir os trabalhadores palestinos que ali trabalhavam desde 1967, por mão-de-obra importada da Ásia e do leste da Europa. Ainda que esta mão-de-obra fosse ligeiramente mais cara e tivessem que ser alojados e trazidos para o país eram altamente explorados e, frequentemente, “ilegais” (ainda que com o conhecimento completo das autoridades israelenses). Eles formaram um exército de reserva de força de trabalho ideal pois facilmente podiam ser deportados para o país de origem com base na acusação de permanecerem no país ilegalmente.

Mais importante, os trabalhadores estrangeiros que chegavam em centenas de milhares após os acordos de Oslo significava que a economia israelense não estava mais dependente de trabalhadores palestinos. Em vez disso, o trabalho palestiniano tornou-se uma “torneira” que podia ser aberta ou fechada dependendo da situação política e econômica. Entre 1992 e 1996, o emprego palestino em Israel desceu de 116.000 trabalhadores (33% da força de trabalho palestiniana) para 28.100 (6% da força de trabalho palestina). Os dividendos provenientes do trabalho em Israel desceram de 25% do PIB palestino em 1992 para 6% em 1996. [7] Entre 1997 e 1999, com uma melhoria na economia israelense houve um aumento de trabalhadores israelenses para níveis anteriores a 1993. No entanto, no seguimento da corrente Intifada, o número de trabalhadores desceu drasticamente devido ao fechamento de fronteiras e recusa de autorização de entrada. Desde setembro de 2000 cerca de 75 a 80.000 palestinos perderam o seu trabalho dentro de Israel ou nos colonatos. Este quadro indicia que a força de trabalho palestina em Israel tornou-se uma segunda reserva de força de trabalho, a par com os trabalhadores estrangeiros.

Relação entre a Autoridade Palestiniana e Israel

O ponto capital da estratégia israelense para com a C/ FG é o controle sobre a população palestina sem uma administração militar direta sobre cidades e vilas. Oslo tentou manter o movimento palestino, economia e fronteiras sob controle israelense ao mesmo tempo que a Autoridade Palestiniana (AP) governava os territórios com um poder assentado no acordo dos governos de Israel e dos Estados Unidos. A primeira responsabilidade da Autoridade Palestina era assegurar a “segurança” de Israel – i.e., agir como uma força policial da autoridade ocupante. No sentido colonialista clássico, os palestinianos deveriam poder ser governados por eles próprios, mas cuidadosamente circunscritos ao contexto de uma dominação e controle israelense.

A economia palestina é completamente integrada e dependente da economia israelense. Aproximadamente 75% de todas as importações para a C/ FG vêm de Israel com 95% das exportações destes territórios a terem como destino Israel. O completo controle das fronteiras por Israel significa a impossibilidade para a economia palestina de desenvolver relações comerciais significativas com um terceiro país. A C/ FG é altamente dependente de bens importados, chegando estes a aproximadamente 80% do PIB. Nesta situação de uma produção local muito fraca e de grande dependência de importações, o poder econômico da classe capitalista palestina não surge da produção industrial local sendo antes de natureza mercantil. Os seus lucros surgem dos direitos exclusivos de importação de bens israelenses e do controle de grandes monopólios concessionados aos leais a Arafat. A relação privilegiada com o capital israelense é a característica definidora da burguesia palestina. Desde 1993 a burguesia fundiu-se com seções da burocracia da Autoridade Palestina, formando um pilar importante da governança palestina.

Desde o início do processo de Oslo, a Autoridade Palestina tem estado completamente dependente de Israel, dos Estados Unidos e da Europa na garantia da sua própria existência. Entre 1995 e 2000, 60% da receita total da Autoridade Palestina advém de taxas indiretas coletadas pelo governo de Israel de bens importados do estrangeiro e destinados aos Territórios Ocupados. Estes dinheiros são recebidos pelo governo israelense e depois transferido todos os meses para a Autoridade Palestiniana de acordo com um processo definido no acordo econômico do Protocolo de Paris em 1995. [8] Significa isto que se o governo israelense decidisse reter esse dinheiro – como acontece desde dezembro de 2000 – a Autoridade Palestina encontrar-se-ia numa grave crise fiscal.

As outras fontes maiores de rendimento da Autoridade Palestina são donativos vindos dos Estados Unidos, Europa e governos árabes. Em 2001, estes fundos cobriram cerca de 75% do orçamento para salários da Autoridade Palestina. Sem ele, 122.000 empregados da Autoridade Palestina não teriam sido pagos. Além disto, doadores estrangeiros suportam programas de emergência como o auxílio alimentar, esquemas de criação de emprego e reconstrução de infra-estruturas destruídas. O défice comercial total da C/ FG representa 45 a 50% do PIB, sendo principalmente financiado por ajuda internacional.

Esta relação entre as áreas palestinas e a economia de Israel assim como a natureza mercantil da classe capitalista palestina deu um caráter distintivo à classe operária palestina. A força de trabalho está dividida em três grandes áreas de emprego – trabalhadores em Israel e nos colonatos que são gravemente afetados pela situação vivida, um largo número de empregados no setor público da Autoridade Palestina, e um setor privado dominado pelo pequeno comércio. Não existe, virtualmente, nenhuma classe operária industrial a mencionar na C/ FG.

Enquanto a força de trabalho palestina em Israel tem diminuído de importância para a economia israelense, ela ainda constitui uma proporção significativa da força de trabalho total. Nos meses que antecederam a Intifada em 2000, mais de 20% da força de trabalho palestina da C/ FG (excluindo Jerusalém) trabalhava em Israel ou nos colonatos.

Em 1998, durante a primeira insurreição nos Territórios Ocupados, a proporção da força de trabalho palestina dentro de Israel ascendia a 50%. Portanto, durante doze anos houve uma quebra de 60% na proporção de trabalhadores palestinos a trabalhar para empregadores israelenses. Para onde foram estes trabalhadores?

O maior setor de emprego desde o processo de Oslo tem sido o setor público da Autoridade Palestina, que dá conta de cerca de 25% do emprego na economia local. A proporção da força de trabalho empregada no setor público quase que duplicou desde meados de 1996. Mais de metade dos gastos da Autoridade Palestina é em salários para o setor público.

O terceiro maior setor de emprego é o setor privado, particularmente na área dos serviços. O que distingue este setor é que é esmagadoramente dominado por pequenos negócios familiares. Do território palestino está ausente qualquer grande indústria significativa devido a 30 anos de políticas anti-desenvolvimentistas de Israel. Para cima de 90% do setor privado palestino emprega menos de dez pessoas.

Implicações políticas

A nível econômico, Oslo sustentou o desenvolvimento de uma classe capitalista parasitária estabelecida na confiança com o capital israelense para obter os seus ganhos. Entretanto Israel acabou com a sua dependência da força de trabalho barata palestina através de um fluxo maciço de altamente explorados trabalhadores estrangeiros. Como alternativa, os trabalhadores palestinos tornaram-se um exército de reserva usados ou deitados fora arbitrariamente.

Décadas de políticas anti-desenvolvimentistas e o completo controle sobre o território significa para os trabalhadores palestinianos ou a dependência de um setor público pago pela ajuda internacional, ou a concentração em empresas pequenas e familiares.

Esta estrutura da classe operária palestiniana é altamente significativa em termos de estratégia política. Ainda que a classe operária palestina seja numerosa, não há nenhum setor com peso econômico no sentido de organizar uma estratégia de classe no centro do movimento nacional de libertação palestiniana. Situação que difere, talvez, do exemplo do movimento anti-apartheid na África do Sul, na qual a classe operária organizada – e particularmente os mineiros – foram capazes de desempenhar um papel central no movimento.

A realidade desta estrutura de classes tem uma clara expressão no terreno. Desde abril deste ano, cerca de 700.000 pessoas na Cijordânia têm vivido sob recolher obrigatório na maior parte do tempo. Recolher obrigatório – de fato, prisão domiciliar –, significa que ninguém que viva numa cidade palestina importante possa deixar a sua casa sem a ameaça de ser morto pelo exército israelense. Os dias em que o recolher obrigatório é levantado por algumas horas dão aos residentes tempo suficiente para comprar comida e ver amigos, mas não para manter qualquer atividade produtiva. Num tal contexto o planejamento básico da vida torna-se uma impossibilidade. É impossível saber, de um dia para o outro, se se está em condições de ir trabalhar, de ir à escola ou universidade. O resultado é uma população cuja vida foi colocada em pausa.

A realidade do recolher obrigatório ilustra perfeitamente as mudanças na estrutura de classes tanto israelenses como palestinas, desde Oslo. Numa sociedade capitalista funcionando normalmente, este tipo de situação seria impossível pois levaria à paralisação de todo o setor produtivo em alguns meses. Durante a primeira Intifada, começada em 1988, Israel impôs também toques de recolher obrigatórios regulares em algumas cidades e vilas, mas nunca por um período e à escala atual. Estas medidas, assim como a não ida ao trabalho durante a primeira Intifada causada por greves gerais, levou o chefe do Serviço de Emprego de Israel a apelidar a situação de “traumática” para a economia israelense. Hoje, todos os líderes políticos israelenses apoiam a permanência do recolher obrigatório e defendem a separação econômica.

A estrutura da classe operária palestina afeta profundamente a estratégia política da Intifada. Os conceitos de greves ou outras ações laborais não existem, pois não têm qualquer efeito sobre a economia de Israel e só afetaria os trabalhadores palestinos e suas famílias. Outra sugestão de ação política regularmente levantada durante a Intifada é o boicote aos produtos israelenses. Apesar de algumas tentativas simbólicas, a relação econômica entre as economias israelenses e palestinas torna estas ações virtualmente impossíveis pois a maioria dos produtos são importados de Israel. Não há nenhuma fonte local de produtos diariamente necessários, como cimento, carne, muitos frutos e vegetais ou produtos elétricos. Eletricidade, linhas telefônicas, água e mesmo a Internet palestina é, em última instância, controlada pelo governo israelense.

Está Oslo morto?

Um comentário comum que se ouve nos principais meios de comunicação assim como em meios da Autoridade Palestina e do governo israelense é que a atual Intifada representa o fim do processo de Oslo. Alguns comentadores palestinos acusam Israel de querer destruir a Autoridade Palestina e voltar à chamada Administração Civil israelense que governou a C/ FG até 1993.

O problema com estas afirmações é que, numa análise mais fina, elas têm pouca semelhança com o que está realmente a acontecer no terreno. É importante aqui distinguir entre o que Oslo pretendeu representar e o que foi planejado para atingir.

Se o processo de Oslo é compreendido como uma estratégia para a criação de um estado cantão — pouco importando os apertos de mão nos jardins da Casa Branca —, então é claro que Oslo está longe de estar morto. Durante o último mês, o governo israelense tem levado a cabo um plano com o propósito de expropriar terras na Cijordânia forçando os palestinos a moverem-se para esses cantões. Este plano assemelha-se às reservas edificadas pelo governo sul-africano para a população negra durante os tempos do apartheid. Um muro de nove metros de altura estendendo-se por centenas de quilômetros está sendo construído em torno das cidades do nordeste da Cijordânia de Nablus, Jenin, Qalqilya e Tulkarem. Um muro similar está a ser construído à volta de Jerusalém. Em conjugação com isto, um novo sistema de passagem está a ser implementado, requerendo que cada palestino que deseje ir de uma cidade palestina a outra deva obter uma autorização semanal especial fornecida pelo comandante militar israelense na Cijordânia. Todas as mercadorias para as áreas palestinas têm que passar por um dos três pontos de trânsito sob controle militar israelense. No essencial, a Cijordânia foi dividida em três cantões – norte, centro e sul da Cijordânia – com todos os movimentos de mercadorias ou pessoas entre essas áreas sob controle dos militares israelenses.

Esses três cantões na Cijordânia estão separados por grandes blocos de colonatos e grandes rodovias indisponível aos palestinianos. Placas especiais distinguem condutores israelenses e palestinianos, constituindo outro pilar do sistema de apartheid emergente na Cijordânia.

A população palestina na Faixa de Gaza foi efetivamente separada de qualquer conexão com a Cijordânia durante mais de uma década, constituindo de fato o quarto cantão nos planos israelenses. A Faixa de Gaza está vedada por uma barreira desde há muitos anos e é agora uma das zonas do planeta mais densamente povoadas – com um milhão de pessoas literalmente fechadas em alguns quilômetros quadrados. São mesmo requeridas autorizações dos militares israelenses para os pescadores palestinos que vão ao mar para o ganha-pão.

Para além deste processo estão as alterações econômicas acima delineadas: uma tentativa do capitalismo israelense de impor uma solução política para o conflito que ajudasse a integração de Israel no mercado global; permitisse a liberalização da economia israelense, a redução das despesas militares e a abertura dos mercados de trabalho e de consumidores do Oriente Médio à economia israelense.

O maior impedimento a este processo é constituído pelas massas palestinas, não a AP. O objetivo da atual estratégia israelense não é a destruição da AP mas exatamente o oposto, fortalecendo-a a fim de melhor reprimir a população. Alguns membros da AP irão neste processo, mas não são os indivíduos que são importantes, antes a estrutura como um todo e o seu papel.

É difícil hoje falar de uma “Intifada” no sentido de um movimento popular e de massas. Pelas razões acima mencionadas, há pouca participação das massas no atual levantamento. Há no entanto um forte espírito de resistência reunida na expressão árabe “samideen” – ou inabalável. É por isso que a forma de repressão adotada pelo governo israelense é caracterizada por punições coletivas da população – tácticas destinadas a desmoralizar e a matar à fome a população até levá-la à submissão.

Notas

1. The Declaration of Principles (DOP), commonly called the Oslo Agreement, was signed between the government of Israel and the Palestine Liberation Organization on September 13, 1993. It was the product of secret negotiations between the Israeli government and Palestinian negotiators. Despite the widespread illusion that Oslo was an agreement intended to achieve peace and establish a Palestinian state in the West Bank and Gaza Strip, it was a highly flawed agreement that gave the illusion of Palestinian sovereignty but perpetuated Israeli dominance in all areas as I shall demonstrate later in the article.

2. The Histadrut (General Federation of Workers in Eretz Israel) was the administrative backbone of the pre-state settlement, controlling the colonization effort, economic production and marketing, labor employment, and defense. The Histadrut was not a trade union in the classical sense, instead, its priorities were defined by “national” objectives not the interests of workers. Indeed, in 1960, the General Secretary of the Histadrut Pinhas Lavon characterized the organization, The General Federation of Workers was founded forty years ago by several thousand young people wanting to work in an under-developed country where labor was cheap, a country which rejected its inhabitants and which was inhospitable to new comers. Under these conditions, the foundation of the Histadrut was a central event in the process of the rebirth of the Hebrew People in its father-land. Our Histadrut is a general organization to its core. It is not a worker’s trade union.” Quoted in Haim Hanegbi, Moshe Machover, and Akiva Orr, “The Class Nature of Israel,” in New Left Review 65 (January–February, 1971).

3. For some examples of this analysis, see Gershon Shafir, Land, Labor and the Origins of the Israeli-Palestinian Conflict, 1882–1914 (Cambridge: Cambridge University Press, 1989); Zeev Sternhell, The Founding Myths of Israel: Nationalism, Socialism and the Making of the Jewish State (Princeton University Press, 1998) and Ilan Pappe ed., The Israel/Palestine Question: Rewriting Histories (London: Routledge, 1999).

4. Lewin-Epstein, Noah and Moshe Semyonov, “Occupational Change in Israel: Bringing the Labor Market Back,” Israel Social Science Research 2, no. 2, (1984): 3–18.

5. For detailed discussion on this issue see the work of Jonathan Nitzan and Shimson Bichler, particularly, “From War Profits to Peace Dividends: The New Political Economy of Israel,” Capital and Class, vol. 60 (Autumn 1996).

6. There are recent signs that Israeli big business may be attempting to rebuild the Labor Party as a political force with considerable business support shifting to Haifa’s Labor Mayor Amram Mitzna as a candidate for Labor Party leadership against Ben Eliezer in recent months.

7. World Bank, Trade Options for the Palestinian Economy—Working Paper No. 21 (English), March 2001.

8. The Paris Protocol was an economic agreement signed in 1995 as part of the Oslo process. It gave precise expectations of which goods Palestinians were allowed to export and import, as well as tax regulations and other economic issues.

Adam Hanieh é pesquisador e assistente em organizações de direitos humanos em Ramallah, Palestina.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...