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4 de agosto de 2026

A soberania mexicana na era da Doutrina Monroe

Há muito que os governos dos EUA contam com o México como um gendarme do sul, mesmo enquanto o país declara com orgulho a sua soberania. Diante do imperialismo trumpista, o desafio para o governo de Claudia Sheinbaum é tornar essa independência mais real.

Alexander Aviña

Jacobin

Os anteriores governos mexicanos proclamaram frequentemente a sua soberania enquanto se curvavam a Washington. No entanto, hoje, os efeitos desastrosos das guerras de Donald Trump estão a levar o governo mexicano de Claudia Sheinbaum a procurar aliados mais a sul. (Andrew Caballero-Raynolds e Yuri Cortez/AFP via Getty Images)

No que diz respeito às relações entre EUA e México, o ano de 2026, até o momento, parece um roteiro de Taylor Sheridan. Em abril passado, as operações clandestinas da CIA em solo mexicano vieram a público quando dois agentes morreram em um acidente de carro no estado de Chihuahua, no norte do país, após invadirem e desmantelarem um laboratório de drogas nas montanhas. Repórteres logo revelaram que quatro agentes da CIA haviam participado da operação — embora vestissem uniformes da polícia estadual de Chihuahua — e que aquela era a terceira incursão de combate ao narcotráfico realizada por eles desde janeiro.

Em maio, a CNN e o New York Times divulgaram uma notícia surpreendente e aparentemente relacionada. Repórteres afirmaram que a CIA vinha travando uma "guerra secreta contra os cartéis" desde o ano anterior, assassinando membros de baixo e médio escalão para desmantelar redes criminosas inteiras. Essa guerra secreta ia além da estratégia de focar nos chefões — que priorizava a prisão ou a morte dos líderes dos cartéis — e adotava um "manual de operações não muito diferente das missões antiterrorismo para destruir grupos no Oriente Médio e em outras partes do mundo". A diferença é que tudo isso ocorria de forma clandestina e ilegal dentro do México.

O governo mexicano reagiu a ambas as reportagens reafirmando enfaticamente sua soberania nacional. A presidente Claudia Sheinbaum negou, inicialmente, que o governo federal do México tivesse conhecimento das operações da CIA em Chihuahua, atribuindo a responsabilidade a um governador estadual (membro de um partido de oposição de direita) que teria agido por conta própria. No entanto, surgiram contradições nessa versão. Supostamente, houve conversas de alto nível entre os governos dos EUA e do México sobre essas operações. Além disso, a incursão de abril contou com a participação de militares mexicanos em funções de apoio.

Sheinbaum, assim como a CIA, também rejeitou categoricamente a existência de um esquadrão da morte de elite da inteligência americana dedicado a assassinar narcotraficantes no país. De fato, ela negou a participação direta de qualquer pessoal dos EUA em operações de combate ao narcotráfico em território mexicano. O papel dos Estados Unidos, argumentou ela, limita-se ao compartilhamento de informações de inteligência.

Para o México, a questão da soberania — e sua manifestação no discurso público — sempre envolveu uma certa ambiguidade retórica: estratégica, na melhor das hipóteses; de natureza dúbia, na pior. Embora isso não seja uma exclusividade mexicana, a história profundamente entrelaçada com os Estados Unidos e as consequências de compartilhar uma longa fronteira com uma potência expansionista de origem colonial geraram a dinâmica que também se evidencia nas respostas da presidente Sheinbaum. Esse poder soberano — que, em termos práticos, é fraco em relação ao dos Estados Unidos — exige declarações públicas contundentes em sentido contrário, acompanhadas de negociações privadas delicadas. A longa fronteira compartilhada — somada a questões correlatas de integração econômica, geopolítica, migração e estabilidade interna do México — tem levado as elites políticas dos EUA a, de modo geral, tolerar afirmações públicas e nacionalistas de soberania mexicana. O fato de o comércio entre os dois países ter movimentado quase 900 bilhões de dólares em 2025 também tem motivado essa tolerância mais recentemente.

De ambos os lados, portanto, a soberania mexicana exigiu uma calibração cuidadosa.

No entanto, esse arranjo profundamente desigual — aprofundado desde a década de 1980 com o "ajuste estrutural" do México e a integração contínua ao Acordo Estados Unidos-México-Canadá (até 2020, o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte) — encontra-se hoje em transformação. A chamada Doutrina Donroe, articulada na Estratégia de Segurança Nacional de 2025 da administração Trump, visa desfazer — ou, no mínimo, criar instituições de poder paralelas a — a chamada ordem internacional baseada em regras e as instituições que a sustentam, criadas após a Segunda Guerra Mundial. O aspecto contingente e parcialmente fictício dessa ordem — que agonizava durante a guerra global ao terror e foi sepultada em Gaza — está dando lugar a um poder unilateral dos EUA abertamente baseado na força, na coerção e na dominação nas Américas e na Ásia Ocidental, como evidenciado pelo sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

O México já passou por isso antes.

As poinsettias e o "primeiro gringo no México"

Em uma carta de 1829 ao presidente Martin Van Buren, o diplomata e ex-Secretário de Guerra dos EUA, Joel Poinsett, escreveu:

"Seria um erro comparar [os mexicanos] às nações livres e civilizadas da América e da Europa no século XIX. Eles partiram de um período mais próximo da era de Carlos V, e há até mesmo dúvidas se esta nação avançou um passo sequer em conhecimento e civilização, desde a época da conquista até o momento em que se declararam independentes."

Poinsett, natural da Carolina do Sul, havia passado alguns anos na América Latina, notadamente no Chile, antes de sua chegada em 1825 como o primeiro embaixador oficial dos EUA no México. Ele seguiu para lá após votar, como parte de uma comissão judicial, pela execução do último "líder" da rebelião de escravizados de 1822 em Charleston, liderada por Denmark Vesey. Foi enviado ao México pelo então presidente James Monroe em uma missão especial para avaliar se o país merecia o reconhecimento de sua independência pelos EUA. Seu navio fez uma breve parada em Porto Rico, tempo suficiente para que ele ponderasse sobre a alta probabilidade de uma insurreição de escravizados devido "à proximidade da República do Haiti". Ao chegar finalmente a Veracruz no final de 1822, durante o tumultuado governo imperial de Agustín de Iturbide, o cidadão da Carolina do Sul viajou pelas regiões leste e central do México. Ele se preocupava com o poder econômico predominante da Grã-Bretanha no país, buscava empreendimentos de mineração promissores para seu portfólio pessoal e duvidava (corretamente) de que a monarquia instável de Iturbide perduraria. Ao retornar aos Estados Unidos, Poinsett publicou seus escritos, alcançando um público internacional. Como observa a historiadora Lindsay Schakenbach Regele, essas "opiniões" publicadas serviram de base para as afirmações de Alexis de Tocqueville em A Democracia na América sobre a incapacidade do México de sustentar a democracia.

Poinsett não foi a primeira escolha para esse novo posto diplomático. O futuro presidente Andrew Jackson havia recusado anteriormente a oferta de Monroe. Quando o político da Carolina do Sul retornou ao México, imediatamente começou a interferir nos assuntos internos do país. Quando Jackson finalmente permitiu que ele renunciasse, em 1830, o embaixador já havia interferido nas negociações entre o México e as últimas forças militares espanholas remanescentes perto de Veracruz; organizado secretamente uma oposição política — por meio de uma loja maçônica — ao partido centralista governante, "que ele via como contrário aos interesses dos EUA devido aos seus estreitos laços com empresas britânicas"; e, em 1828, até apoiou um golpe para promover os interesses políticos e econômicos dos EUA no país. Ele também utilizou essas "conexões maçônicas" para obter "lotes de terra vantajosos para si e para seus amigos e estabelecer uma empresa de mineração de capital americano". Mais tarde, Poinsett serviu como Secretário de Guerra de Jackson e executou a genocida Lei de Remoção de Indígenas (Indian Removal Act).

Hoje lembrado mais pela flor vermelha cuetlaxochitl que enviou aos Estados Unidos do que por suas desventuras diplomáticas, Poinsett estabeleceu o modelo de atuação para futuros embaixadores. Desde o início das relações diplomáticas dos Estados Unidos com o México, a soberania mexicana era apenas nominal e negociável. Os vizinhos dos Estados Unidos não eram vistos como Estados-nação em pé de igualdade. A questão, tanto no passado quanto no presente, não é se os Estados Unidos devem violar a soberania mexicana, mas sim em que medida, e como devem calibrar e determinar a escala e a forma de tais violações.

As ações do primeiro embaixador evidenciam uma característica estrutural mais ampla das relações entre EUA e México. Sob a ótica dos EUA, o México serve meramente como um território de importância estratégica, uma plataforma de lançamento para a projeção regional e global do poder imperial e uma peça-chave para garantir a própria estabilidade interna norte-americana (particularmente nas últimas décadas, por meio do controle da migração e do tráfico de drogas ilícitas). A segurança nacional dos EUA baseia-se na visão do México como um território a ser controlado, explorado e subordinado. Nesse sentido, Poinsett estabeleceu a regra para um tipo de ingerência que combina interesses estatais e privados em prol da política imperial. Essa regra conduziu ao roubo de mais da metade do território nacional mexicano em meados do século XIX e à trama golpista que resultou no assassinato do primeiro presidente do México eleito democraticamente no século XX. Henry Lane Wilson, o arquiteto norte-americano do golpe que derrubou o presidente Francisco Madero em 1913, foi uma versão do século XX de Poinsett. Quando a esposa de Madero implorou a Wilson que salvasse seu marido, o embaixador retrucou: "A queda de seu marido deveu-se ao fato de que ele nunca quis me consultar".

Josephus Daniels representa a rara exceção. Sulista como Poinsett, ele foi nomeado embaixador por Franklin Delano Roosevelt na época do New Deal e da Política de Boa Vizinhança. Daniels (assim como outros membros do grupo de assessores de elite de FDR, o brain trust) via o México como um laboratório revolucionário do qual se podia aprender e extrair lições. Em seu livro recente, America, América, o historiador Greg Grandin narra como Daniels — apesar de seu passado e de suas ideias de supremacia branca — pressionou FDR a considerar a adoção de elementos dos avanços revolucionários da Constituição mexicana de 1917 no que diz respeito aos direitos sociais. "O México", disse ele ao presidente em 1934, "está buscando fazer mais pelo 'homem esquecido' do que o senhor conseguiu fazer".

Tragicamente para a região, os Estados Unidos têm sido alunos péssimos e relutantes, incapazes de assumir a responsabilidade por uma história imperial violenta ou sequer de reconhecê-la.

Houve um breve momento em que alguns políticos progressistas dos EUA conseguiram reconhecer os limites do liberalismo político e do próprio poder norte-americano ao lerem e analisarem, de boa-fé, o radicalismo social e econômico que se desenrolava ao sul da fronteira. O México — e a América Latina — tinham algo a ensinar ao chamado "Colosso do Norte" sobre justiça social, não intervencionismo, multilateralismo liberal e respeito à soberania nacional e, como argumenta Grandin, sobre uma verdadeira "ordem internacional baseada em regras". Certamente havia contradições, particularmente para algumas nações do Caribe e da América Central que sofriam sob o domínio ditatorial dos "filhos da puta" preferidos de FDR (e da United Fruit Company): figuras como Fulgencio Batista (Cuba), Anastasio Somoza (Nicarágua), Rafael Trujillo (República Dominicana), Maximiliano Hernández Martínez (El Salvador) e Jorge Ubico (Guatemala).

No entanto, esse período parece mais luminoso quando contextualizado em uma história mais longa das relações entre os EUA e a América Latina. Tragicamente para a região, os Estados Unidos têm sido alunos péssimos e relutantes, incapazes de assumir a responsabilidade por uma história imperial violenta ou mesmo de reconhecê-la.

Essa mesma história perdura até hoje, como testemunhamos na Venezuela e em Cuba. É como se a região existisse apenas para ser controlada e dominada pelos Estados Unidos, transformando em realidade as aspirações imperialistas da Doutrina Monroe — inclusive em relação ao seu vizinho do sul.

A "Doutrina Donroe" — tão brutal e caricata quanto a sua homônima — concebe duas opções políticas ao lidar com a América Latina hoje: trabalhar com prepostos locais autoritários, servis e maleáveis ​​(Nayib Bukele, Daniel Noboa, Javier Milei) ou apontar uma arma para a cabeça de líderes recalcitrantes por meio de ameaças econômicas, jurídicas ou militares. O recurso cínico às "cortesias internacionais", como diz Stephen Miller, caiu em desuso; a força, a coerção e o poder, vistos como as "leis de ferro do mundo", estão de volta. Há esforços para legitimar essa vontade de poder mediante narrativas que fundem discursos de segurança e anticomunismo, como o "narcoterrorismo". Mas, de modo geral, a aspiração para as Américas é o domínio puro e simples, sem hegemonia, mesmo quando os Estados Unidos admitem — retórica ou militarmente — os limites de seu poder em outras partes do mundo.

Mas o México representa um tipo diferente de desafio para esse arranjo imperial. Sempre representou.

O Império dos EUA e as Guerras Indígenas

Desde que conquistou a independência em 1821 — a primeira das três revoluções populares do México —, observadores externos têm duvidado da capacidade do país para o autogoverno democrático republicano e, por extensão, de sua habilidade em exercer soberania. A soberania moderna, como nos lembra o teórico político Bikrum Gill, depende de "duas relações de força": internamente, como controle efetivo sobre um território geograficamente delimitado e o monopólio da força em seu interior; e externamente, como reconhecimento aceito, concedido ou imposto por outras potências soberanas.

Há muito tempo, os Estados Unidos duvidam da capacidade do Estado mexicano de transformar aspirações soberanas internas em realidade. Tais dúvidas têm associado consistentemente a suposta incapacidade dos mexicanos para o autogoverno — manifestada na desordem política perpétua e na violência social — à segurança imediata do território norte-americano. O México chega a ser apresentado como a maior ameaça. "E vocês achavam que a Terceira Guerra Mundial começaria no Leste Europeu", diz um contratado da CIA aos seus colegas na série de TV *Lioness*, de Taylor Sheridan; "Não, não, não, pessoal. É o México."

Em termos contemporâneos, estamos falando aqui de "segurança de fronteira". Na década de 1830, um Texas mexicano — dominado por coletividades indígenas como os comanches, capazes de organizar grandes incursões; desestabilizado por migrantes anglo-saxões escravagistas sem documentação; e aberto ao capital europeu — ameaçava potencialmente os regimes de fronteira e as fantasias capitalistas de expansão dos EUA. Hoje, é uma mistura amorfa de migrantes, drogas ilícitas e "narcoterroristas" que supostamente ameaça a perene Linha Maginot americana: os bárbaros estão às portas. O "Desafio Hispânico" — como escreveu Samuel Huntington logo após o 11 de Setembro — ameaçava minar a "cultura anglo-protestante" e a identidade nacional dos EUA. Embora esse ilustre professor de Harvard e dedicado consultor de regimes autoritários temesse um país dividido em dois, não é difícil perceber como alguns de seus alunos passaram a cogitar uma guerra civilizacional racializada e até mesmo teorias da "grande substituição".

Para diagnosticar as angústias imperiais e domésticas dos EUA em qualquer época, basta olhar para a fronteira entre os EUA e o México: um espaço de exceção onde o império norte-americano justifica inúmeras formas de violência como atos de "autodefesa preventiva". O império dos EUA, segundo Nick Estes e Stefan Aune, é uma longa Guerra Indígena. Os inimigos são reduzidos à condição de “índios”, sujeitos a formas excepcionais de violência justificada que transcendem a lei, os direitos políticos e a chamada civilização — formas reservadas aos seus oponentes “bárbaros”. Essa lógica colonial-povoadora e imperialista — sustentada por uma noção de autodefesa contra inimigos “irracionais” e “selvagens”, cuja forma de guerra consiste na “destruição total e indiscriminada” — conecta os comentários de Thomas Jefferson sobre os “selvagens indígenas impiedosos” na Declaração de Independência às guerras genocidas travadas pelos Estados Unidos contra comunidades indígenas ao longo do final do século XVIII e do século XIX, e, mais recentemente, às execuções extrajudiciais de “narcoterroristas” caribenhos em embarcações, acusados ​​de matar “milhões” de americanos com drogas ilícitas. Como argumenta o advogado Dylan Saba, essas guerras de fronteira contra os indígenas — impregnadas de violência colonial racial — constituíram o núcleo das concepções jurídicas dos EUA sobre a guerra (justa); um núcleo que foi projetado no direito internacional após a Segunda Guerra Mundial, à medida que os Estados Unidos assumiam a posição de potência hegemônica global.

Nesse imaginário imperial, Nicolás Maduro representa uma encarnação atual de Gerônimo — ou talvez uma versão híbrida que incorpora Pancho Villa: revolucionários que tratavam a fronteira entre os EUA e o México como uma fita de Möbius.

O que conecta Minneapolis, Caracas e Cuba ao Caribe, ao Pacífico oriental e à região fronteiriça entre os EUA e o México é o poder imperial dos EUA de decidir quem pode viver e quem deve morrer.

Mas, quando o império está em toda parte, as fronteiras imperiais são globais. Compreender a história do império dos EUA como algo fundamentado na lógica das Guerras Indígenas nos ajuda a entender por que as justificativas legais para a tortura na guerra global ao terror invocaram as Guerras Seminoles, ou por que Osama bin Laden recebeu o codinome "Geronimo" na operação dos EUA que o matou no Paquistão.

Assim, o policiamento das fronteiras imperiais pelos EUA e a busca — desastrada, porém violenta — por novas fronteiras "regeneradoras" (como a Groenlândia hoje) dependem daquilo que se chama de segurança da fronteira sul e do país situado logo abaixo dela. Durante dois séculos, a tolerância dos EUA em relação a certo grau de soberania mexicana mediada dependeu da existência de estabilidade político-social, de oportunidades econômicas para o capital norte-americano e de "segurança nas fronteiras". Encarar o combate ao tráfico de drogas ilícitas como um exercício binacional tenso e negociado, desde o início do século XX, ajuda-nos a compreender a relação atual entre EUA e México, bem como a soberania mexicana em um sentido mais amplo. Segundo a Doutrina Donroe — por mais incoerente e contraditório que esse "projeto" pareça —, a guerra tripartite contra migrantes, drogas e o conceito nebuloso de "narcoterrorismo" está no cerne do projeto de "colocar a América em primeiro lugar" (como disse Pete Hegseth no Panamá, no ano passado) e, para concretizá-lo, "colocaremos as Américas em primeiro lugar".

Nesse paradigma, o que conecta Minneapolis, Caracas e Cuba ao Caribe, ao Pacífico oriental e à região fronteiriça entre EUA e México é o poder imperial norte-americano de decidir quem vive e quem deve morrer. É o poder de deter, aprisionar e assassinar — sem o devido processo legal — indivíduos e comunidades considerados ameaças existenciais aos Estados Unidos. Tudo isso com impunidade, sem respeito ao devido processo ou ao direito internacional, e sem distinção entre o âmbito interno e o externo. E tudo celebrado por meio de vídeos de execuções reais ou memes de impacto disseminados nas redes sociais.

Soberania tênue

Além da fronteira compartilhada, um histórico de intervenções militares e conquistas territoriais moldou as relações entre EUA e México, bem como as definições mexicanas duradouras de nacionalismo e soberania. Mudanças no governo e na geopolítica dos EUA, por vezes, proporcionaram ao México mais espaço para afirmar sua soberania: a nacionalização do petróleo mexicano pelo presidente Lázaro Cárdenas, no final da década de 1930, é um exemplo importante. Esta história não se resume a uma dominância unilateral e avassaladora dos EUA sobre seu vizinho do sul. As autoridades políticas mexicanas tiveram de aprender a travar uma guerra assimétrica — sobretudo em sentido metafórico — para defender a soberania contra pressões externas.

A atual guerra criminosa contra o Irã — e as repercussões econômicas que prometem se agravar, particularmente para os mercados de energia e alimentos — apenas reforçam a importância primordial da relação econômica entre os EUA e o México.

Desde a década de 1960, líderes políticos mexicanos também aproveitaram essas pressões externas para consolidar a estabilidade política e social interna e para estender o poder do Estado a fronteiras internas e zonas de rebeldia, como os estados de Guerrero e Sinaloa. Desde a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, transcrições públicas — e agora desclassificadas — ajudaram pesquisadores a compreender a dinâmica das relações entre os EUA e o México. Publicamente, a liderança política dos EUA geralmente tolerou até mesmo afirmações retóricas e diplomáticas contundentes de soberania por parte do México. Por exemplo, durante a década de 1960, o México manteve relações diplomáticas com a Cuba revolucionária, mesmo enquanto os Estados Unidos pressionavam o restante da região a isolar a revolução. No entanto, como sabemos hoje graças à historiadora Renata Keller, autoridades políticas e diplomáticas mexicanas repassavam secretamente informações de inteligência sobre os cubanos ao governo dos EUA. Os cubanos retribuíam não apoiando movimentos revolucionários dentro do México. Mais tarde, revelou-se que o presidente da década de 1970, Luis Echeverría, era um colaborador da CIA, tendo pressionado secretamente autoridades dos EUA para elevar e tolerar a posição internacional do México como um Estado progressista, porém anticomunista, no contexto de um Sul Global em rápida descolonização e não alinhado. Outros três presidentes mexicanos também estiveram na folha de pagamento da CIA entre 1958 e 1982.

Assim, durante a Guerra Fria, o México permaneceu como "o último bom vizinho" — embora com algumas ressalvas. Em uma análise militar de 1965, agora desclassificada, um oficial de inteligência mexicano avaliou as possíveis consequências da escalada militar dos EUA no Vietnã. Se os Estados Unidos buscassem proteger de forma mais agressiva seu "flanco sul" enquanto expandiam (excessivamente) sua capacidade militar na Ásia, eles coagiriam o México a uma colaboração mais direta? E chegariam a violar "nossa soberania em terra, mar e ar"? E se o México recusasse, considerando a natureza de suas forças armadas — estruturadas para a manutenção policial da segurança interna, e não para resistir a uma agressão externa? Tal recusa, em nome da defesa da "soberania territorial", levantou a hipótese o autor, poderia levar a uma intervenção militar direta dos EUA.

Essa ameaça persiste até hoje. Substitua o Vietnã por "cartel de drogas" ou "narcoterrorismo" e você terá a versão do século XXI. Nossa América

Como demonstra a historiadora Christy Thornton, as experiências históricas de intervenção dos EUA levaram intelectuais e diplomatas mexicanos a formular novas e importantes abordagens multilaterais para a governança internacional e o desenvolvimento econômico global nas décadas posteriores à Revolução de 1910. De maneiras significativas, essas contribuições mexicanas ajudaram a moldar a chamada ordem internacional baseada em regras e ofereceram alternativas mais progressistas ao longo do século XX, como a Nova Ordem Econômica Internacional. Esse é um legado ao qual a presidente Sheinbaum poderia recorrer neste momento precário, diante de um império estadunidense que age como um assassino em série.

O comboio popular global que navegou para Cuba no início deste ano para quebrar o bloqueio assassino leva o nome da ideia de solidariedade revolucionária, internacionalista e anti-imperialista de José Martí.

O México também dispõe de poder de barganha. A atual guerra criminosa travada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã — e as repercussões econômicas que prometem se agravar, especialmente para os mercados de energia e alimentos — apenas reforçam a importância fundamental da relação econômica entre EUA e México. A fronteira compartilhada também confere ao México poder nessa dinâmica desigual.

Tentar satisfazer esse império estadunidense errático e belicista é uma opção perigosa e contraproducente. Ele não parará na Venezuela, no Haiti ou em Cuba. A morte ou a captura de chefões de cartéis, como Nemesio Oseguera Cervantes, o "El Mencho", não bastarão; "narcoterrorismo" é um rótulo conveniente que pode ser atribuído a qualquer pessoa considerada uma ameaça aos interesses regionais dos EUA. Um dia depois de jornalistas noticiarem, em janeiro passado, que a presidente Sheinbaum havia decidido encerrar o envio de petróleo para Cuba, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes — controlada pelo Partido Republicano — exigiu mais: "o fim de todo apoio a esse regime opressor e aos seus aliados em Moscou e Pequim". As ameaças de intervenção militar dos EUA não cessaram.

O desafio para o atual governo mexicano é rejeitar o papel de gendarme colonial e voltar o olhar para o sul, engajando-se na tarefa — aparentemente sempre impossível — de unir a "Nossa América". Deve fazê-lo diante de um colosso do norte belicoso e de seu número crescente de lacaios regionais que compõem o chamado Escudo das Américas.

No mínimo, é imprescindível uma maior coordenação com o Brasil (o maior país da região em termos demográficos, ao lado do México) para defender a soberania como um princípio fundamental e inegociável. O envio de petróleo a Cuba ajudaria a amenizar os apagões elétricos nacionais e a situação de uma rede elétrica em colapso. Não por acaso, o comboio popular global que navegou até Cuba no início deste ano para romper o bloqueio assassino carrega o nome da ideia de solidariedade revolucionária, internacionalista e anti-imperialista de José Martí colocada em prática.

Ou, como expressou a delegação argentina na Conferência Pan-Americana de 1889, isso significa construir uma América não para os Estados Unidos, mas uma “América para a humanidade”.

Este ensaio faz parte do projeto After Order, do Instituto Alameda, que examina as transformações da soberania em nossos tempos catastróficos.

Colaborador

Alexander Aviña é professor associado de História na Universidade Estadual do Arizona.

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