Mostrando postagens com marcador Alyssa Battistoni. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alyssa Battistoni. Mostrar todas as postagens

7 de fevereiro de 2026

Como compreender a natureza a partir de uma perspectiva marxista

Hoje, ninguém nega que o capitalismo explore a natureza. A discordância reside no porquê. A teórica política Alyssa Battistoni falou à revista Jacobin sobre a complexa relação do capitalismo com o que os economistas outrora chamavam de "dádivas gratuitas" da natureza.

Entrevista com
Alyssa Battistoni


Os socialistas frequentemente consideram conceitos como natureza e natural vagos e ideológicos demais para serem usados ​​de forma significativa. Mas, como explica a teórica política Alyssa Battistoni, eles são indispensáveis ​​se quisermos entender como o capitalismo funciona. (Jean-Francois Monier / AFP via Getty Images)

Entrevista por
Hugo de Camps Mora

A ascensão do capitalismo como sistema econômico e social coincidiu com sua rápida transformação da natureza. O trabalho assalariado e o investimento na esperança de retorno represaram rios, perfuraram montanhas, aplainaram paisagens e até transformaram as relações entre pais e filhos, e entre homens e mulheres.

Em seu livro recente, Free Gifts: Capitalism and the Politics of Nature, a teórica política Alyssa Battistoni busca explicar como e por que o capitalismo transforma e se relaciona com a natureza. A revista Jacobin conversou com Battistoni sobre o papel do capitalismo na formação da relação entre a economia e as relações sociais, e sobre como os marxistas deveriam entender a forma como o capitalismo se relaciona com a ecologia e a esfera doméstica.

Hugo de Camps Mora

Muitas pessoas tendem a pensar no capitalismo como um sistema que busca mercantilizar tudo. No entanto, em seu livro, você se baseia na noção de uma “dádiva gratuita”, que você descreve como algo que o capital prefere não mercantilizar ou submeter à lógica de mercado. O que você quer dizer com isso?

Alyssa Battistoni

O conceito de dádiva gratuita não é originalmente meu. Ele aparece na economia política clássica e na crítica de Karl Marx a ela. Economistas políticos dos séculos XVIII e XIX, de David Ricardo a Jean-Baptiste Say, escrevem sobre as “contribuições gratuitas” dos agentes naturais para a produção — tudo aquilo que a natureza oferece e que aumenta a produtividade.

Marx retoma essa ideia, mas a reformula. O que a economia política clássica trata como uma característica geral da produção torna-se, para Marx, algo historicamente específico do capitalismo e de suas relações sociais: uma forma social peculiar à sociedade capitalista, e não um fato universal sobre a produção de riqueza. O próprio Marx não desenvolve o conceito em detalhes e, embora os ecomarxistas o tenham utilizado para descrever a relação do capitalismo com a natureza, ele frequentemente permanece pouco teorizado.

A “dádiva gratuita” é, portanto, uma categoria estranha, mas útil — não apenas para pensar sobre a natureza, mas também para compreender um conjunto mais amplo de relações negligenciadas dentro do capitalismo. O próprio termo é revelador. “Dádiva gratuita” soa redundante, até mesmo oximorônico: dádivas não são compradas e vendidas. No entanto, as dádivas normalmente vinculam as pessoas a relações de reciprocidade e obrigação, o que torna a ideia de uma “dádiva gratuita” difícil de compreender fora do capitalismo.

Ela se torna inteligível em uma sociedade organizada em torno da troca de mercadorias, onde a utilidade pode existir sem assumir a forma de valor de troca. Isso é decisivo para a compreensão da natureza sob o capitalismo. A natureza é produtiva, mas o que importa é que suas contribuições ocorrem “gratuitamente” para o capital: são indispensáveis, mas não se apresentam como mercadorias da mesma forma que outros insumos.

Nesse sentido, a dádiva gratuita é a sombra da mercadoria. Ela nomeia formas de utilidade que não se apresentam como valor de troca e nos ajuda a compreender como o capitalismo transforma o status daquilo de que depende, mas que não transforma, e muitas vezes não pode transformar, completamente em mercadoria. É por isso que a dádiva gratuita precisa ser tratada como uma categoria séria e compreendida especificamente como uma categoria capitalista.

Hugo de Camps Mora

O conceito de natureza é geralmente reconhecido como difícil de compreender porque seu significado é muito ambíguo e seu uso é muito amplo. Por que você acha que ainda faz sentido usar o termo “natureza” ao analisar o capitalismo e sua relação com o meio ambiente?

Alyssa Battistoni

Tenho lutado com os termos “natureza” e “natural” justamente porque são tão controversos. Raymond Williams descreveu “natureza” como uma das palavras mais complexas da língua, e ela tem sido alvo de extensa crítica e problematização. Mesmo assim, tenho dificuldade em abandonar o termo completamente. Em parte, isso se deve a razões pragmáticas: às vezes é preferível trabalhar com um conceito que aponta para algo amplamente compreendido, mesmo que imperfeitamente, em vez de inventar um novo vocabulário que corre o risco de obscurecer mais do que esclarecer.

Hugo de Camps Mora

As visões de Marx sobre ecologia foram interpretadas de maneiras muito diferentes. Alguns o interpretam como um pensador prometeico comprometido com o domínio humano sobre a natureza, enquanto outros argumentam que sua obra já contém uma estrutura ecológica produtiva. Você também se baseia em Marx para analisar o capitalismo e a natureza — o que torna sua estrutura ainda relevante para o pensamento ecológico atual?

Alyssa Battistoni

Marx é uma figura controversa nos debates ecológicos, e há material textual que sustenta ambas as interpretações. Mas o que considero mais útil não é resolver a questão de se Marx era “verdadeiramente ecológico”. O que me importa é seu método, especialmente a crítica da economia política, e sua análise do capitalismo. Marx se preocupa fundamentalmente com a relação entre o natural e o social — isto é, entre o mundo físico e suas formas sociais de manifestação. E essas são exatamente as questões centrais do pensamento ambiental crítico contemporâneo.

O capital investe onde há probabilidade de lucro; onde não há, a responsabilidade pela reprodução social é transferida para os trabalhadores e suas redes.

O capitalismo reorganizou o planeta de forma tão completa que não podemos pensar na natureza sem considerar essas dimensões em conjunto. A insistência de Marx no caráter dual da mercadoria — ou seja, valor de uso e valor de troca, forma natural e forma social — oferece uma maneira de fazer exatamente isso. Se levarmos essa estrutura a sério, obteremos uma compreensão mais clara dos problemas ambientais contemporâneos, incluindo como eles operam dentro do capitalismo, como são produzidos por ele e como se desdobram através dele como uma forma específica de organização social.

Marx também oferece um ponto de vista crítico em relação às abordagens econômicas convencionais para os problemas ambientais, ao questionar o que tais estruturas esclarecem, o que obscurecem e onde residem seus limites. No fundo, ainda acho que Marx é o melhor guia que temos para entender o capitalismo. Já que o capitalismo é o que precisamos entender para compreender a condição atual do planeta, é por isso que acredito que Marx continua tão relevante para o pensamento ecológico.

Hugo de Camps Mora

No livro, você apresenta uma crítica aos “novos materialistas”, como Bruno Latour, Donna Haraway e Anna Tsing. Ao mesmo tempo, você também argumenta que muitos ecomarxistas contemporâneos apresentam uma visão “moralista” da natureza. Poderia explicar, em sua opinião, quais são os limites dessas duas vertentes?

Alyssa Battistoni

Uma das vertentes mais influentes da teoria social contemporânea a levar a natureza a sério tem sido o novo materialismo. Os novos materialistas têm razão ao apontar que grande parte da teoria social negligenciou o mundo material e físico e, nesse sentido, identificam algo importante que estava ausente em muitas estruturas críticas.

Ao mesmo tempo, acho que eles frequentemente exageram na correção. As abordagens do novo materialismo tendem a adotar um tipo de materialismo ingênuo, em que o mundo material é tratado como algo que pode ser compreendido quase que isoladamente. A premissa é que os fenômenos podem ser estudados como processos puramente materiais — rastreando as relações entre os atores, por exemplo — sem oferecer uma análise consistente das relações sociais que estruturam uma sociedade específica ou orientam a ação humana dentro dela.

Embora isso possa reorientar nossa perspectiva e chamar a atenção para a atividade material, não consegue realmente explicar o que está acontecendo a menos que seja combinado com uma análise da dinâmica social. É isso que uma abordagem marxista proporciona. Nesse aspecto, minha crítica ao novo materialismo não é muito diferente da crítica de Marx à economia política clássica. Podemos observar os efeitos das entidades materiais, mas para entender o que impulsiona esses efeitos, precisamos de uma explicação da forma social específica em que elas se manifestam. Ao mesmo tempo, quero integrar algumas ideias do novo materialismo a uma estrutura marxista — especialmente sua insistência na materialidade — mantendo o social e o material unidos, em vez de separá-los.

O problema com grande parte do ecomarxismo é diferente. Aprendi muito com essa tradição e me vejo trabalhando dentro dela. Mas muitas vezes há uma suposição de que mostrar que o capitalismo é destrutivo para a natureza é, por si só, uma crítica suficiente. A atividade humana sempre transforma a natureza; isso faz parte de nossa relação metabólica com o mundo não humano. A questão crucial não é se a natureza é transformada, mas como, e sob quais relações sociais.

Grande parte do pensamento ecomarxista se baseia — muitas vezes implicitamente — na ideia de que o problema central é a alienação da natureza. O que falta é uma análise de como relações sociais capitalistas específicas organizam e impulsionam interações destrutivas com o mundo natural, independentemente de intenções ou atitudes morais. Essa é a tarefa que assumo neste livro.

Hugo de Camps Mora

No Capítulo 5, você revisita a campanha Salário para o Trabalho Doméstico e o que você chama de “tese da naturalização” de Silvia Federici. Você argumenta que essa estrutura tem certas limitações. Poderia explicar quais são essas limitações, na sua opinião, e por que acredita que sua perspectiva nos ajuda a compreender melhor o papel da família na economia capitalista?

Alyssa Battistoni

O livro como um todo é profundamente influenciado pelo pensamento feminista marxista, e este capítulo busca dialogar seriamente com o que herdamos dele, especialmente da campanha Salário para o Trabalho Doméstico, ao mesmo tempo que diagnostica algumas das limitações dessa estrutura. Uma tendência recorrente no pensamento feminista marxista e ecomarxista tem sido traçar uma analogia entre o trabalho doméstico e reprodutivo não remunerado e o que frequentemente é descrito como natureza “desvalorizada” ou “livre”. Observamos isso tanto no movimento Salário para o Trabalho Doméstico quanto em trabalhos mais recentes, incluindo a análise de Jason Moore sobre as “naturezas baratas” do capitalismo e suas condições subjacentes. A questão fundamental é por que essas formas de trabalho e a natureza parecem ocupar uma posição semelhante sob o capitalismo.

A resposta de Federici ao que muitas vezes se chama de “questão feminina” no marxismo é que a opressão das mulheres sob o capitalismo está enraizada no trabalho doméstico e, mais especificamente, em sua naturalização. O trabalho doméstico aparece como não remunerado porque é tratado como natureza, e não como trabalho. Esse argumento político tem sido extremamente poderoso e remodelou a compreensão do trabalho doméstico, tornando visíveis formas de exploração que foram ignoradas por muito tempo.

Mas vejo dois problemas nessa abordagem: primeiro, o argumento tende a pressupor que a própria natureza pode ser simplesmente tomada “de graça”, em vez de questionar o status da natureza como algo que o capital trata como uma dádiva gratuita; segundo, a tese da naturalização se baseia fortemente na crítica ideológica — a ideia de que, se desmistificarmos esse trabalho e o tornarmos visível como trabalho, seu status poderá mudar. Embora a consciência tenha se transformado, a organização material desse trabalho mudou muito menos.

O que eu tento fazer, em vez disso, é tratar o trabalho reprodutivo como um conjunto de processos de trabalho concretos. Dessa perspectiva, fica mais claro por que o capital frequentemente se exime da responsabilidade por essas formas de trabalho: o trabalho reprodutivo tende a ser intensivo em mão de obra, difícil de mecanizar e de tornar mais eficiente, o que o torna um local pouco atrativo para a acumulação de valor. O capital investe onde há probabilidade de lucratividade; onde não há, a responsabilidade pela reprodução social é transferida para os trabalhadores e suas redes. Isso fornece uma explicação mais concreta de por que o trabalho reprodutivo permanece externo aos mercados, embora seja indispensável ao capitalismo, e ajuda a aproximar as questões da reprodução social das preocupações ecológicas.

Hugo de Camps Mora

Você se baseia no trabalho de autores como Arthur Pigou e Ronald Coase para mostrar que as externalidades não são sinais de falha de mercado, mas sim parte integrante do funcionamento dos mercados. Essa perspectiva leva você a rejeitar a ideia de lidar com as externalidades por meio de mecanismos de mercado e, em vez disso, a explorar a proposta de Christopher Stone de conceder direitos legais a entidades naturais como base para uma “negociação coletiva multiespécie”. Você poderia explicar melhor o que quer dizer com essa ideia?

Alyssa Battistoni

Este capítulo analisa a poluição e as externalidades negativas sob a ótica da teoria econômica convencional. A precificação do carbono e a linguagem das externalidades moldaram a política ambiental por décadas, e Pigou e Coase diagnosticam algo real ao identificar efeitos da atividade econômica que não são capturados pelos preços de mercado. Mas suas estruturas permanecem confinadas a análises de troca, preços e “falha de mercado”, partindo do pressuposto de que os danos ambientais podem ser resolvidos por meio de uma melhor precificação ou pela criação de direitos de propriedade que permitam que os mercados se autocorrijam. De uma perspectiva marxista, isso não vem ao caso. As externalidades não são desvios acidentais da lógica de mercado; Elas são produzidas dentro do próprio capitalismo, emergindo da produção e da capacidade do capital de impor custos aos outros.

Os direitos da natureza podem ser entendidos como uma forma de negociação coletiva multiespécie, situando o conflito ecológico dentro da economia política, em vez de reduzi-lo a um mero ajuste de mercado.

Uma vez que a análise parte das relações de classe e da produção, o dano ambiental surge menos como um problema técnico e mais como um problema político de poder. É por isso que considero convincente a proposta do jurista Christopher Stone de conceder direitos legais a entidades naturais. Ela pode ser entendida não apenas como um reflexo do valor intrínseco da natureza, mas também como um mecanismo político para lidar com problemas de ação coletiva. A poluição dispersa o dano por uma população difusa, dificultando a resistência — assim como os trabalhadores enfrentam problemas de ação coletiva ao confrontarem seus empregadores. Mas Stone argumenta que, se uma entidade natural como um lago tem legitimidade para processar, os danos sofridos pelas comunidades vizinhas e por seres não humanos podem ser agregados por meio de um único sujeito de direito.

Portanto, estou menos interessado em direitos como reconhecimento moral abstrato do que como uma ferramenta institucional concreta — uma ferramenta que pode ajudar a alterar o equilíbrio de poder. Nesse sentido, os direitos da natureza podem ser compreendidos como uma forma de negociação coletiva multiespécie, situando o conflito ecológico dentro da economia política, em vez de reduzi-lo a um mero ajuste de mercado.

Hugo de Camps Mora

Nos últimos anos, particularmente nos estudos marxistas, houve um renovado interesse no republicanismo como uma estrutura normativa para pensar a liberdade — entendida como a ausência de dominação arbitrária. No entanto, em seu livro, você argumenta que uma concepção existencialista de liberdade, baseada na obra de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, é mais adequada do que uma republicana para confrontar o domínio do mercado e as formas peculiares de falta de liberdade que definem as sociedades capitalistas. Poderia explicar por que considera a abordagem existencialista mais convincente nesse sentido?

Alyssa Battistoni

O republicanismo certamente contribuiu para a reflexão sobre a política trabalhista e a dominação no ambiente de trabalho. A não dominação é um conceito valioso, que auxilia no diagnóstico de formas diretas de dominação por patrões e capitalistas. Sua eficácia diminui em relação ao que os marxistas descrevem como dominação abstrata ou social — a dominação pelos mercados, pela competição e por imperativos impessoais. Trata-se da “compulsão muda” sobre a qual Marx escreve. Não se trata simplesmente de uma vontade se sobrepor à outra, mas de ser compelido a agir de maneiras que se pode não aprovar: trabalhadores competindo entre si, consumidores imersos em mercados e até mesmo os próprios capitalistas impulsionados por pressões competitivas.

O republicanismo enfrenta dificuldades nesse ponto porque a dominação envolvida é impessoal. Não há uma vontade arbitrária identificável que possa ser apontada como “o dominador”. Em vez disso, a dominação emerge dos efeitos agregados de ações individualmente racionais que confrontam as pessoas como uma força social coercitiva. O existencialismo — especialmente a obra tardia de Sartre — ajuda a articular isso com mais precisão. Destaca como nossa capacidade de afirmar valores e nos comprometer com projetos é minada não necessariamente por uma pessoa, mas por processos sociais coletivos e arranjos institucionais que bloqueiam nossa capacidade de agir sobre o que consideramos importante.

Hugo de Camps Mora

Seu livro também é bastante cético quanto ao potencial emancipatório dos “bens comuns”. No entanto, dada a urgência atual de agir contra os efeitos do Capitaloceno, você não acha que os bens comuns ainda poderiam oferecer um ponto de partida significativo para a ação coletiva?

Alyssa Battistoni

Sou crítica em relação à forma como os bens comuns são às vezes romantizados — como um espaço fora do capitalismo, um refúgio dele, uma maneira de “construir o exterior a partir de dentro”. Os bens comuns existentes, argumento, precisam ser compreendidos em relação ao capital e aos espaços que o capital não conseguiu delimitar. Eles não são “externos” em um sentido estrito, e sua vida interna está sujeita a pressões mais amplas, como coerção e competição.

Dito isso, não quero descartar projetos baseados em bens comuns. Precisamos simplesmente de uma visão sóbria do que são os bens comuns e do que eles podem fazer. Estar fora do capitalismo não é uma condição necessária para construir poder político. Aliás, reconhecer que se opera dentro de um sistema hostil muitas vezes esclarece politicamente, porque força a reflexão sobre o que pode ser feito com as relações que estruturam a vida sob o capitalismo.

Projetos baseados em bens comuns podem abrir possibilidades concretas para a auto-organização e autogestão, além de proporcionar espaço para manobras.

Nesse sentido, os bens comuns são análogos aos sindicatos. Ninguém afirma que os sindicatos existam fora do capitalismo, mas eles ainda podem gerar poder coletivo e resistência. Projetos baseados em bens comuns podem ser importantes por razões semelhantes: podem abrir possibilidades concretas de auto-organização e autogestão e proporcionar espaço de manobra. A questão não é idealizá-los como algo “externo”, mas situá-los realisticamente dentro das relações sociais capitalistas.

Hugo de Camps Mora

Você critica abordagens que se concentram em mudar nossas atitudes em relação à natureza, argumentando que elas são frequentemente voluntaristas, ideológicas e limitadas em poder explicativo. Essas perspectivas tendem a se concentrar na cultura ocidental; no entanto, como você aponta, padrões semelhantes emergiram em contextos não ocidentais à medida que passaram por transformações capitalistas. Você poderia explicar por que, em sua opinião, essas explicações carecem de poder explicativo?

Alyssa Battistoni

Abordagens que explicam os problemas ambientais contemporâneos principalmente em termos de atitudes em relação à natureza são extremamente difundidas no pensamento ambiental. A alegação central é que “nós” — frequentemente identificados com a cultura ocidental — desenvolvemos uma maneira errada de ver a natureza, e que esse erro conceitual ou filosófico acaba por impulsionar a destruição ecológica. Isso se observa em críticas ao dualismo cartesiano ou em argumentos que atribuem os danos ambientais a uma visão de mundo que trata a natureza como inerte ou meramente instrumental. O problema dessa abordagem é que ela é fundamentalmente idealista. Ela pressupõe que as ideias são os principais motores da ação histórica, como se as tradições filosóficas pudessem explicar séculos de desenvolvimento capitalista e transformação industrial. Sugere que, se simplesmente passássemos a ver a natureza de forma diferente — por meio de uma maior consciência ecológica ou uma mudança de valores —, esses problemas poderiam ser resolvidos.

Isso não é apenas teoricamente pouco convincente, mas também empiricamente frágil. Assim que nos afastamos da Europa Ocidental ou da América do Norte, o argumento se desfaz. O capitalismo hoje se reproduz de forma mais dinâmica em regiões como a China ou o Leste Asiático, que não compartilham as tradições intelectuais frequentemente culpadas pela degradação ambiental, e ainda assim padrões semelhantes de danos ecológicos emergem à medida que essas sociedades passam por transformações capitalistas.

Além disso, muitas pessoas já possuem visões não instrumentais da natureza e se preocupam profundamente com as questões ambientais, mas continuam compelidas a agir de maneiras que reproduzem as próprias relações que criticam. Isso demonstra que a compulsão decisiva não opera no nível da consciência ou da intenção, mas por meio de pressões materiais, estruturas institucionais e formas de organização social. Uma crítica que se concentre nessas estruturas é, portanto, essencial se quisermos explicar o problema adequadamente e entender que tipos de transformações poderiam, de fato, solucioná-lo.

Hugo de Camps Mora

Após Free Gifts, seu próximo projeto aborda a teoria do Estado a partir de uma perspectiva marxista. Em que medida você o considera uma continuação do primeiro livro?

Alyssa Battistoni

Em muitos aspectos, é uma continuação, pois o Estado aparece ao longo de Free Gifts, ainda que de forma marginal. No entanto, o livro não desenvolve uma teoria explícita do Estado; suas ações permanecem em grande parte implícitas. De maneira mais ampla, a produção ecomarxista carece de uma análise consistente do Estado capitalista, apesar do papel central que ele desempenha na estruturação do acesso à natureza, no controle do território, na organização da extração e expropriação e na gestão — ou falha na gestão — dos danos ecológicos gerados pelo capitalismo.

Ao mesmo tempo, o Estado é repetidamente invocado na política climática como o ator capaz de agir em grande escala, por meio da descarbonização, infraestrutura ou regulamentação; contudo, as possibilidades e os limites de tal ação permanecem obscuros. O próximo projeto surge dessa tensão. Ele desloca o foco da teoria do valor para uma análise marxista sóbria do Estado, que leva a sério tanto sua centralidade quanto sua hostilidade.

Este trabalho foi possível graças ao apoio da Fundação Puffin.

Colaboradores

Alyssa Battistoni é professora assistente de ciência política no Barnard College. Ela é coautora de A Planet to Win: Why We Need a Green New Deal e Free Gifts: Capitalism and the Politics of Nature.

Hugo de Camps Mora escreve sobre teoria social e economia política. Atualmente, pesquisa as tensões entre classe, reconhecimento e reprodução material na Birkbeck, Universidade de Londres.

15 de agosto de 2017

Viver, não apenas sobreviver

Os movimentos da classe trabalhadora devem colocar a reprodução social e ecológica no coração de sua visão do futuro.

Alyssa Battistoni



Tradução / Quando Donald Trump anunciou planos para retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, em junho, liberais gritaram que estávamos condenados. O investidor e executivo da Tesla Elon Musk finalmente renunciou ao conselho de consulta econômica de Trump. O presidente da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, foi ao Twitter pela primeira vez para expressar sua decepção, enquanto a ex-embaixadora das Nações Unidas Samantha Power twitou que esse seria “o fim do século americano”. Visando uma oportunidade, o presidente francês, Emmanuel Macron – competindo com Justin Trudeau pela liderança global “da resistência” – prometeu “tornar nosso planeta ótimo novamente”.

Do ponto de vista deles, a decisão parecia uma mudança radical na política climática empreendida pelo caprichoso e orgulhosamente ignorante Trump – o oposto da política serena e intelectual defendida por Barack Obama, que havia declarado as mudanças climáticas como uma “verdadeira ameaça existencial” (em um jantar particular de arrecadação de fundos em Martha’s Vineyard). Porém, a decisão marcou uma consequência natural dos esforços de Obama para lidar com as mudanças climáticas evitando tocar em seus aspectos políticos.

Como um bom tecnocrata, Obama buscou uma solução através de ordens executivas, medidas administrativas e negociações internacionais de elite. Seu “Plano de Energia Limpa” [“Clean Power Plan”] baseou-se no poder da presidência para reduzir as emissões ao aumentar a regulação das usinas de energia e para elevar os padrões de combustível usando a “Lei do Ar Limpo” [“Clean Air Act”] e a Agência de Proteção Ambiental. [“Environmental Protection Agency”] Em seu último ano no cargo, chamou atenção demais ao negociar um acordo internacional na COP 21 em Paris – o primeiro acordo climático global desde Kyoto em 1997.

Mas sua conquista foi superestimada, assim como o pânico liberal com o seu fim. O acordo ficou muito aquém do que os cientistas e os ativistas do clima concordam ser necessário para evitar um aquecimento perigoso de 2ºC ou mais – até porque o próprio Obama havia pressionado para que o acordo não fosse obrigatório. Mesmo apenas implementar o conjunto de compromissos assumidos em Paris exigiria uma ação política sustentada, independentemente de quem estivesse controlando o Salão Oval.

Paradoxalmente, Obama também foi mais responsabilizado por tentativas de regulação do que provavelmente merecia. Regulações de emissões mais rigorosas são apenas uma das razões pelas quais a demanda por carvão vem diminuindo: ativistas têm feito campanha pelo fechamento de usinas à carvão e os preços da energia solar e do gás natural têm despencado. Mas Obama forneceu um bode expiatório conveniente para o contínuo declínio do carvão no país – no fim das contas, ele fez pouco para aliviar a crise do desemprego e de carência nos locais que antes dependiam desse recurso. O caminho estava livre para alguém como Donald Trump concorrer baseado numa plataforma sobre trazer de volta os empregos de mineração – mesmo que na realidade ele não tivesse nenhuma maneira de fazê-lo.

O desejo de nos mover mais rapidamente do que o estado atual do Congresso permite é compreensível – estamos ficando sem tempo, rapidamente. Mas as mudanças climáticas são um problema grande demais para resolvermos com “ajustes e empurrõezinhos”. A ação séria sobre o clima não pode evitar a política – precisa enfrentá-la de frente.

Trump não é o primeiro a explorar tensões entre trabalhadores e ambientalistas, e é improvável que seja o último. Em resposta, a esquerda precisa oferecer um programa que revele essas tensões como uma falsa escolha, uma oferecida nos termos do capital. Nós podemos fazer isso oferecendo um plano climático que melhore a vida das pessoas de formas que elas possam entender e pelas quais elas estariam dispostas a lutar. No entanto, isso não significa apenas se concentrar nos trabalhadores nos vestígios mais tradicionais da economia de combustível fóssil, ou mesmo nos tipos de empregos de energia verde e infra-estrutura normalmente oferecidos em substituição a eles. Em vez disso, significa organizar a classe trabalhadora tal como existe hoje – enfermeiras e professores, profissionais de cuidados e trabalhadores do setor de serviços que já estão fazendo o trabalho que será fundamental para uma sociedade de baixa emissão de carbono voltada para o florescimento de todos, e que podem liderar o caminho para um futuro cuja glória pode durar muito mais de trinta anos.

Como seria essa sociedade? Em geral, isso significará menos trabalho por todo canto; porém, o tipo de trabalho de que precisaremos mais em um futuro climaticamente estável é um trabalho orientado para sustentar e melhorar a vida humana, bem como as vidas de outras espécies com as quais compartilhamos nosso mundo. Isso significa ensino, jardinagem, culinária e enfermagem: trabalhos que melhoram as vidas das pessoas sem consumir grandes quantidades de recursos, sem gerar emissões significativas de carbono ou produzir enormes quantidades de coisas.

Como se verifica, também são trabalhos que um número crescente de pessoas já vêm fazendo. “Fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, e não de Paris”, disse Trump em seu famoso discurso anunciando o abandono do acordo. Foi um sinal claro para seus apoiadores no “Cinturão de Ferrugem” [8] – o único problema é que Pittsburgh não é uma cidade siderúrgica há décadas. A maioria dos empregos hoje não está no carvão, no aço ou na fabricação, mas no que muitas vezes é conhecido como “eds e meds“: cuidados de saúde e educação.

Pittsburgh ilustra uma tendência mais ampla: embora a visão tradicional da classe trabalhadora mantenha um apelo surpreendentemente firme sobre a imaginação política, os setores da economia de crescimento mais rápido estão em indústrias caracterizadas pelo trabalho de “colarinho rosa” – enfermagem, ensino, e setor de serviços. Os impulsionadores de empregos verdes muitas vezes observam que há mais empregos na instalação de painéis solares do que na mineração de carvão nos dias atuais – mas também há mais professores, auxiliares de saúde em casa e prestadores de cuidados infantis. Esses trabalhos são feitos de forma desproporcional por mulheres, imigrantes e pessoas de cor.

Organizar esses trabalhadores seria o caminho a seguir para os socialistas sob quaisquer circunstâncias. Sob as circunstâncias terríveis que enfrentamos, insistir que o trabalho que eles fazem é crucial não só para uma sociedade justa e decente, mas para uma sociedade ecologicamente viável é o caminho para reconquistar nosso futuro. Os movimentos trabalhistas nos séculos XIX e XX insistiam em que os trabalhadores construíram o mundo, no sentido mais literal. O movimento trabalhista do século XXI precisa colocar em primeiro plano os trabalhadores que nos permitirão viver nele. Para dizer claramente: os empregos de colarinho-rosa são empregos verdes.

Claro, embora existam sincronismos entre imperativos ecológicos e trabalho feminizado, eles não estão necessariamente alinhados. O trabalho de cuidado pode ser de baixa emissão de carbono – mas isso não significa que as indústrias que dependem disso o sejam. Os funcionários de hoteis, por exemplo, são altamente sindicalizados, mas a indústria hoteleira, dependente como é de passageiros frequentes em via aérea, sofreria sem combustíveis fósseis.

Las Vegas, por exemplo, está liderando o caminho na organização dos trabalhadores de serviços, mas dificilmente seria um modelo para um mundo ecologicamente sustentável. Organizar profissionais de fast-food e de varejo também seria decisivo, mas o McDonald’s e a Forever 21 não são muito mais ecologicamente defensáveis que a ExxonMobil. Às vezes, isso significará transformações na forma como o trabalho é organizado; muitas vezes isso significará simplesmente fazer menos dele. Esse deve ser o caso mesmo para empregos que não são tão intensivos em recursos: o trabalho de cuidados pode ser gratificante – mas também pode ser tedioso, chato, emocionalmente desgastante e fisicamente tenso.

Enquanto isso, a transição para uma economia centrada na reprodução social exigirá uma avaliação real sobre as formas como o trabalho de servir aos outros tem sido moldado pelo gênero e pela raça. [9] Pode haver empregos para fazer camas e banhar idosos, mas isso não significa que os trabalhadores – principalmente masculinos – que passaram décadas trabalhando em fábricas, em plataformas de petróleo ou em minas de carvão poderão – ou irão querer – fazê-los. Mas eles poderiam ser mais propensos a fazê-lo se o trabalho de reprodução social fosse mais bem pago e reconhecido.

Na greve dos trabalhadores de saneamento de Memphis de 1968, os trabalhadores de saneamento (cruciais para qualquer sociedade ecossocialista!) declararam “Eu Sou um Homem”, exigindo melhores salários e melhores condições de trabalho. Ao fazê-lo, eles desafiaram um sistema de trabalho segregado que os deixou para fazer o trabalho mais sujo, insistindo tanto na igualdade social quanto em ganhos materiais. Reorganizar a reprodução social de forma mais ampla exigiria um desafio semelhante ao status do trabalho tradicionalmente feito pelas mulheres e especialmente pelas mulheres de cor.

Ou seja, enfrentar as mudanças climáticas exigirá a construção, mas também a transformação dos movimentos da classe trabalhadora. O movimento autonomista da década de 1970 na Itália fornece uma perspectiva útil: com o aumento do custo de vida em espiral acima do ritmo dos aumentos salariais, as comunidades da classe trabalhadora reconheceram que a luta tinha que continuar fora da fábrica. Eles lutaram para reduzir o custo não só de necessidades como aluguel, transporte e mantimentos, mas luxos como a ópera; eles ocuparam edifícios em desuso e os transformaram em centros comunitários, imaginando bibliotecas, clínicas, academias e teatros em locais onde essas comodidades não existiam. Eles insistiram que as pessoas da classe trabalhadora, também, tinham direito a uma boa qualidade de vida.

No entanto, projetos autonomistas, embora geralmente organizados em conjunto com alas radicais dos sindicatos, tendiam a ser esporádicos e de implementação fragmentada. Na década de 1980, eles haviam se desintegrado, em sua maioria.

Hoje, os salários estagnados e o aumento do custo de vida também tornam as necessidades e o luxo inacessíveis para a maioria. A luta de classes na era das mudanças climáticas não está apenas no Ninth Ward após o furacão Katrina [10]ou em Rockaways após o furacão Sandy – está nos ritmos da vida cotidiana. Está em lares de cuidados e nas escolas, no ônibus e na rua. O desafio contemporâneo, portanto, é enfrentar lutas autonomistas sobre a reprodução social – mas levá-las em frente em um nível mais institucional, além de estendê-las para além da fábrica e do social para um novo nível: o ecológico.

Esse processo já está em andamento. Como Nancy Fraser argumenta, “se você unir as lutas por uma semana de trabalho mais curta, por uma renda básica incondicional, por creches públicas, pelos direitos dos trabalhadores domésticos imigrantes e dos trabalhadores que realizam o trabalho de cuidados em lares de idosos, hospitais, creches e escolas com fins lucrativos – e então unir com lutas sobre água limpa, habitação e degradação ambiental, especialmente no Sul global – o que isso significa... é uma demanda por uma nova maneira de organizar a reprodução social “.

Organizar a reprodução de uma maneira nova significa tornar o trabalho da nossa sobrevivência diária menos oneroso e mais prazeroso. Significa criar e manter espaços de luxo comum e de lazer coletivo – parques e jardins públicos exuberantes, belos espaços para recreação e relaxamento, arte e cultura acessíveis a todos. Significa não só construir habitações em densos centros urbanos, mas garantir que as pessoas da classe trabalhadora possam realmente se dar ao luxo de viver lá; significa apoiar mais trânsito público não só nas cidades, mas também nos extensos subúrbios onde vive um número cada vez maior de pessoas da classe trabalhadora e nas comunidades rurais onde o isolamento exacerba crises sociais e econômicas. Significa lidar com a escassez de mão-de-obra no núcleo da crise dos cuidados no meio rural. Significa programas como sistemas de saúde universais e universidades gratuitas, que simultaneamente expandem o acesso a bens públicos e o escopo da economia de baixo carbono.

O New Deal tinha elementos de um tal futuro no Corpo de Conservação Civil (CCC), que colocava jovens para trabalhar criando e mantendo parques nacionais, e os Projetos Federais de Arte, Música, Teatro e Escritores, que forneciam subsídios para dar suporte a uma grande variedade de artistas. Esses tipos de programas, combinados com os programas de bem-estar social da Grande Sociedade, incentivariam uma sociedade que garanta tanto as necessidades de provisão social quanto uma abundância de delícias naturais e culturais.

Uma versão renovada e permanente do CCC poderia estender a economia do cuidado ao nosso planeta: Nas áreas rurais, poderia criar novas trilhas para caminhadas, acampamentos e reservas naturais; nas cidades, poderia apoiar a criação e manutenção de parques urbanos e jardins comunitários que podem ajudar a tornar os densos espaços urbanos suportáveis e respiráveis, mesmo conforme a temperatura aumente. Em todo o país, poderia restaurar áreas que há muito foram prejudicadas pela extração de combustíveis fósseis e outras atividades industriais. O CCC original empregava milhares de nativos americanos, muitas vezes empreendendo projetos determinados por conselhos tribais; uma versão revivida poderia ser emparelhada com um programa de soberania e controle nativo sobre terras indígenas. Em uma nota mais sombria, à medida que as mudanças climáticas progridem, precisaremos de mais pessoas treinadas para lidar com incêndios florestais, inundações e outros tipos de climas extremos.

A experiência dos últimos anos mostra que a esquerda pode crescer e vencer baseada em plataformas robustas e ambiciosas que abordem questões que vão desde o acesso à habitação e educação até benefícios médicos e cuidados com idosos. Integrados mais de perto com uma análise ecológica, eles representam os blocos de construção de uma plataforma ecossocialista.

Uma visão inicial de como esse tipo de programa pode parecer está representada no Manifesto Salto do Canadá, um documento produzido por um conjunto de grupos trabalhistas, ambientalistas e indígenas. O Manifesto defende, em termos simples, uma economia centrada em “cuidar uns dos outros e cuidar do planeta”. Isso significaria trabalhar menos tempo por salários maiores e gastar o tempo que economizamos com nossos entes queridos e comunidades; orientar o trabalho que fazemos para acabar com a desigualdade racial e de gênero; gerar energia sem destruir os ecossistemas; e criar estruturas de propriedade que retornem a riqueza para as pessoas e comunidades, em vez de extraí-las delas. O Manifesto coloca o trabalho de reprodução social e ecológica no coração de sua visão do futuro; sua vanguarda são aqueles cujo trabalho tem sido feminizado e menosprezado. É um programa que é politicamente versado no terreno da Política existente, envolvendo organizações existentes, ao mesmo tempo em que imagina um futuro que rompe bruscamente com o presente.

Devemos seguir esse exemplo e trabalhar para visualizar o futuro que desejamos e as forças que podem nos levar até lá – e depois nos organizar. Podemos manter o planeta habitável construindo um mundo suportável, mas não temos tempo para desperdiçar.

Colaborador

Alyssa Battistoni é editora da Jacobin e doutoranda em ciência política na Universidade de Yale.

22 de abril de 2016

Um mundo socialista não significaria só uma crise ambiental maior ainda?

Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, levando em consideração necessidades e valores humanos, ao invés da maximização dos lucros.

por Alyssa Battistoni

Ilustração por Phil Wrigglesworth / Jacobin

O capitalismo está espalhando destruição sobre o mundo em que vivemos. A mudança climática ameaça alterar nosso planeta para além do reconhecível, inundando cidades e vilas costeiras, intensificando secas e ondas de calor e fortalecendo climas extremos.

Os efeitos mais nocivos, é claro, estão caindo sobre as pessoas pobres do mundo. A sobrepesca tem empurrado pescadores para o ponto de colapso; suprimentos de água doce são escassos em regiões que abrigam metade da população mundial; fazendas de cultivo industrial com uso intensivo de fertilizantes tem exaurido de nutrientes as terras agrícolas; florestas tem sido demolidas em níveis atordoantes para abrir caminho para agricultura comercial e ranchos de gado; as taxas de extinção se comparam com aquelas de apocalipses pré-históricos induzidos por meteoros.

Estes não são problemas que podem ser resolvidos como se trocássemos uma lâmpada. A atividade humana tem transformado o planeta inteiro de formas que estão agora ameaçando o jeito em que o habitamos – alguns de nós muito muito mais do que outros. Mas se você apontar que não é a “Humanidade” em abstrato, mas o Capitalismo que deveríamos responsabilizar, ouvirá uma réplica familiar: “O Socialismo é mau para o meio-ambiente também!” A produção na União Soviética também se baseava em combustíveis fósseis, degradou terras agrícolas, poluiu rios e desflorestou vastas extensões.

É verdade que o histórico ambiental das URSS não inspira muita confiança. Mas isso não significa que o Capitalismo pode resolver nossos problemas ambientais, como declaram empreendedores verde-claro, ou que a sociedade industrial moderna precisa ser abandonada por completo, como alguns ambientalistas verde-escuro iriam sugerir. O Capitalismo pode certamente sobreviver a condições ambientais se agravando, pelo menos por um tempo – mas ele vai sobreviver sob condições de um “eco-apartheid” cada vez maior, com segurança e conforto para os ricos e uma escassez crescente para o Resto.

Assim, o sonho socialista do Século XX de maximizar a produção na busca de abundância e igualdade parece cada vez mais insustentável. Marxistas afirmavam que o Comunismo surgiria em meio a condições pós-Capitalistas de superabundância: uma vez que os motores do Capitalismo estivessem rugindo, eles poderiam ser tomados e colocados para beneficiar a todos. Mas esses motores não podem mais funcionar às custas de combustíveis fósseis, e o Capitalismo consumista contemporâneo não é a abundância que tinhamos em mente. Nós precisamos não apenas tomar os meios de produção, mas transformá-los.

Nós também precisamos de uma visão de futuro diferente da que tem sido levada adiante pela Esquerda mais recentemente.

O Esquerdismo ambiental ultimamente tem tendido a uma posição um tanto anarquista que desconfia da produção de larga escala e do poder concentrado, sejam eles privados ou públicos. Isso não deveria surpreender – como os problemas ambientais são tão específicos em diferentes localidades, eles frequentemente despertam soluções locais de pequena-escala. Mas a mudança climática e outras crises ambientais surgindo de sistemas globais de produção e consumo são questões sistêmicas de Economia Política; lidar com elas vai requerer mais do que bolsas de práticas alternativas. E problemas ambientais não respeitam fronteiras políticas: a interdependência ecológica é outra lembrança de que a Sustentabilidade só virá através de uma Solidariedade Global.

A qual futuro o Socialismo do Século XXI deve aspirar? Como podemos atingir uma sociedade justa sem dependermos de combustíveis fósseis ou exacerbarmos outras formas de destruição ambiental?

Ao buscar uma resposta, os socialistas deveriam olhar para as tradições socialistas-feministas preocupadas com o trabalho que faz a vida “vivível”. Socialistas-feministas têm há muito chamado atenção para o serviço de reprodução social – as atividades necessárias para reabastecer trabalhadores assalariados tanto individualmente como através de gerações, tais como educação, cuidados à infância, trabalho doméstico e preparação de comida. Lutas sobre a reprodução social tem se focado em demandas e possibilidades da vida fora da fábrica, e elas tem muito para nos ensinar sobre organizar novas formas de viver. Nós também precisamos valorizar o trabalho de reprodução ecológica – reconhecer que a atividade dos Ecossistemas mantêm a Terra viável para a vida humana, e cuidar delas de acordo.

Enquanto alguns Socialistas aspiram a uma superabundância de tudo para todos, ambientalistas tendem a apontar o sobre-consumo como um culpado primário da degradação ambiental. Mas nem todo consumo é equivalente. O Capitalismo depende de insumos baratos na forma de trabalho e recursos naturais para fazer os seus produtos baratos. Como resultado, o sistema consistentemente força para baixo tanto os custos quanto os padrões ambientais e trabalhistas. Produtos baratos não são necessariamente ruins, mas eles não deveriam vir às custas das pessoas trabalhadoras e dos Ecossistemas. O objetivo de uma sociedade socialista não é reprimir o consumo popular, mas criar uma sociedade que enfatize a qualidade de vida sobre a quantidade de coisas.

Nós precisamos encontrar caminhos para viver luxuriosamente mas também levemente [2], esteticamente ao invés de asceticamente. Ao invés de um ciclo sem fim de trabalho e compras, a vida em um futuro socialista de baixo-carbono seria orientada em torno de atividades que tornam a vida bela e completa mas requerem um consumo de recursos menos intensivo: ler livros, ensinar, aprender, fazer música, ver espetáculos, dançar, praticar esportes, ir ao parque, fazer caminhadas, gastar tempo com os outros.

Uma robusta provisão de bens públicos torna possível aproveitar luxúrias comunais enquanto formas de consumo privado de desperdício decrescente. Isso significa moradia pública acessível para todos; sistemas de transporte extensivos e gratuitos tanto dentro como entre cidades para que as pessoas possam andar por aí sem possuir um carro; parques e jardins espaçosos que ofereçam uma pausa da vida diária; suporte para artes e cultura de uma variedade de formas; e espaços abundantes para educação pública e de uso recreativo, como bibliotecas, quadras de basquete e teatros. As cidades são muitas vezes vendidas como uma parte chave de futuros verdes por conta de sua densidade eficiente em energia. Mas cidades verdes requerem mais do que apenas planejamento urbano e altos edifícios. O Socialismo precisa reclamar a cidade como um espaço para de luta e solidariedade na busca de necessidades e desejos – providenciar recursos públicos como uma maneira de emancipar e ajudar a florescer, e insistir em espaços públicos como lugares de beleza e prazer.

Os Capitalistas prometem que a tecnologia vai nos salvar dos problemas ambientais. Soluções tecnológicas não são uma panaceia, mas também também não podemos renunciar à tecnologia e deixá-la apenas para Capitalistas de risco: projetos socialistas utópicos têm há muito tempo imaginado um mundo melhor construído da combinação de habilidades de humanos, natureza e tecnologia. E uma variedade de tecnologias atuais, desde fontes de energia limpa até biotecnologia, prometem ser parte de um futuro mais sustentável. Mas enquanto elas forem controladas de forma privada, produzidas apenas quando lucráveis, e acessíveis apenas para aqueles que podem pagar, seu potencial será explorado apenas como servir aos capitalistas. Uma sociedade socialista daria suporte a pesquisas sobre problemas cujas soluções não são lucráveis e garantir que as tecnologias resultantes fossem usadas para benefício público.

Energia [3], em particular, é de central importância – o uso de energia responde por metade de todas as emissões de carbono e subjaz a vida moderna em cada ponto. Tecnologias de energia renovável, e energia solar em particular, prometem fontes abundantes de energia limpa. Mas enquanto a energia solar é frequentemente vendida como inerentemente de pequena-escala e democrática, companhias privadas estão também montando usinas solares gigantes, se posicionando como o conduíte para um futuro de energia limpa. Enquanto isso, a desregulação e privatização de empresas de energia elétrica na era Neoliberal tem aleijado a habilidade pública de construir a nova infraestrutura interconectada que tornaria possível uma transição maior para uma energia-limpa. Uma sociedade socialista poderia escolher quais fontes de energia usar e quão rápido uma transição deveria ocorrer a partir do conhecimento sobre os benefícios ambientais, de saúde e as necessidades sociais, ao invés de margens de lucro. Nós poderíamos produzir energia limpa em larga escala e construir a infraestrutura necessária para torná-la disponível e acessível a todos.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias não se constituem em progresso por si mesmas, apesar das falas auto-congratulatórias das companhias de tecnologia. Novos equipamentos eletrônicos médicos, por exemplo, nem sempre se traduzem em melhores cuidados; iPads não se traduzem em melhor educação – de fato, o oposto é muito frequentemente o caso. Uma sociedade socialista tomaria decisões sobre produção e implementação de novas tecnologias baseada em objetivos escolhidos democraticamente, ao invés de produzir e consumir de maneira desperdiçadora para garantir a lucratividade de várias indústrias. Nós poderíamos garantir que todos tivessem acesso a eletricidade limpa e barata, por exemplo, antes de devotar recursos para fazer brinquedos eletrônicos para os ricos.

Ainda haveriam atividades extrativistas, usinas de energia de larga-escala e fábricas industriais em um socialismo sustentável. Algumas dessas serão desagradáveis de se ver; algumas vão gerar distúrbios em ecossistemas locais. Mas ao invés de despejar os danos da produção moderna sobre as pessoas com menos poder para resistir a eles – tais como trabalhadores, comunidades negras e indígenas – nós faremos decisões conscientes sobre quais danos nós vamos aceitar e onde e como eles vão se materializar, priorizando as perspectivas e necessidades daqueles que tem sofrido a tempo demais por eles. Nós poderíamos tratar paisagens de trabalho como mais do que áreas destruídas e reconhecer que a presença de maquinaria e indústria não precisam significar devastação. Poderíamos pagar os custos de minimizar o dano ambiental ao invés de pegar atalhos para derrotar os competidores.

O Capitalismo começou através do fechamento de recursos públicos e comunais para benefício privado e despossuindo seus antigos usuários. A propriedade coletiva dos meios de produção deveria incluir a propriedade coletiva da terra, dos oceanos e da atmosfera. Isso significaria não apenas compartilhar os recursos que esses espaços geram, mas decidir juntos como eles deveriam ser usados. Uma sociedade socialista poderia usar o conhecimento científico sobre a capacidade ecológica para administrar e regular o uso daqueles espaços ao invés de ceder aos caprichos da indústria: nós escutaríamos os 98% de cientistas que dizem que a mudança climática antropogênica está acontecendo, por exemplo, ao invés das mentiras de lobistas das companhias de combustíveis fósseis.

Sob o Socialismo, nós tomaríamos decisões sobre o uso de recursos democraticamente, em relação a necessidades e valores humanos ao invés de maximizar o lucro. Um socialismo ecologicamente sustentável [4] não é sobre preservar um conceito idealizado de uma natureza printina e intocada. É sobre escolher o mundo que fazemos e em que vivemos, e sobre reconhecer que compartilhamos esse mundo com outras espécies além dos humanos. Um mundo em que se possa viver é um mundo em que todo mundo possa ter uma boa vida, ao invés de apenas se virar para se sustentar.

Esse mundo vai precisar de florestas tanto quanto de fábricas, refúgios selvagens tanto quando de cidades. Nós buscaremos prover as pessoas de bons trabalhos, mas também trabalharemos menos; nós pensaremos sobre quais trabalhos realmente precisam serem feitos ao invés de criar trabalhos apenas para manter pessoas empregadas. Nós escolheremos manter alguns espaços livres de uso humano óbvio, e proteger espaços para a vida selvagem enquanto também tornando possível para as pessoas escapar da vida na cidade para gastar algum tempo em Ecossistemas restaurados. Nós teremos como alvo produzir o bastante para que todo mundo tenha vidas ricas e completas, ao invés de esperar pela remota possibilidade de acumular riquezas privadas. Com nossas necessidades satisfeitas, poderemos realizar nosso potencial humano no contexto de relações sociais sem pressa com outros humanos e outras espécies, com o bastante para todos e tempo para o que quisermos.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...