Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens

7 de fevereiro de 2026

Como compreender a natureza a partir de uma perspectiva marxista

Hoje, ninguém nega que o capitalismo explore a natureza. A discordância reside no porquê. A teórica política Alyssa Battistoni falou à revista Jacobin sobre a complexa relação do capitalismo com o que os economistas outrora chamavam de "dádivas gratuitas" da natureza.

Entrevista com
Alyssa Battistoni


Os socialistas frequentemente consideram conceitos como natureza e natural vagos e ideológicos demais para serem usados ​​de forma significativa. Mas, como explica a teórica política Alyssa Battistoni, eles são indispensáveis ​​se quisermos entender como o capitalismo funciona. (Jean-Francois Monier / AFP via Getty Images)

Entrevista por
Hugo de Camps Mora

A ascensão do capitalismo como sistema econômico e social coincidiu com sua rápida transformação da natureza. O trabalho assalariado e o investimento na esperança de retorno represaram rios, perfuraram montanhas, aplainaram paisagens e até transformaram as relações entre pais e filhos, e entre homens e mulheres.

Em seu livro recente, Free Gifts: Capitalism and the Politics of Nature, a teórica política Alyssa Battistoni busca explicar como e por que o capitalismo transforma e se relaciona com a natureza. A revista Jacobin conversou com Battistoni sobre o papel do capitalismo na formação da relação entre a economia e as relações sociais, e sobre como os marxistas deveriam entender a forma como o capitalismo se relaciona com a ecologia e a esfera doméstica.

Hugo de Camps Mora

Muitas pessoas tendem a pensar no capitalismo como um sistema que busca mercantilizar tudo. No entanto, em seu livro, você se baseia na noção de uma “dádiva gratuita”, que você descreve como algo que o capital prefere não mercantilizar ou submeter à lógica de mercado. O que você quer dizer com isso?

Alyssa Battistoni

O conceito de dádiva gratuita não é originalmente meu. Ele aparece na economia política clássica e na crítica de Karl Marx a ela. Economistas políticos dos séculos XVIII e XIX, de David Ricardo a Jean-Baptiste Say, escrevem sobre as “contribuições gratuitas” dos agentes naturais para a produção — tudo aquilo que a natureza oferece e que aumenta a produtividade.

Marx retoma essa ideia, mas a reformula. O que a economia política clássica trata como uma característica geral da produção torna-se, para Marx, algo historicamente específico do capitalismo e de suas relações sociais: uma forma social peculiar à sociedade capitalista, e não um fato universal sobre a produção de riqueza. O próprio Marx não desenvolve o conceito em detalhes e, embora os ecomarxistas o tenham utilizado para descrever a relação do capitalismo com a natureza, ele frequentemente permanece pouco teorizado.

A “dádiva gratuita” é, portanto, uma categoria estranha, mas útil — não apenas para pensar sobre a natureza, mas também para compreender um conjunto mais amplo de relações negligenciadas dentro do capitalismo. O próprio termo é revelador. “Dádiva gratuita” soa redundante, até mesmo oximorônico: dádivas não são compradas e vendidas. No entanto, as dádivas normalmente vinculam as pessoas a relações de reciprocidade e obrigação, o que torna a ideia de uma “dádiva gratuita” difícil de compreender fora do capitalismo.

Ela se torna inteligível em uma sociedade organizada em torno da troca de mercadorias, onde a utilidade pode existir sem assumir a forma de valor de troca. Isso é decisivo para a compreensão da natureza sob o capitalismo. A natureza é produtiva, mas o que importa é que suas contribuições ocorrem “gratuitamente” para o capital: são indispensáveis, mas não se apresentam como mercadorias da mesma forma que outros insumos.

Nesse sentido, a dádiva gratuita é a sombra da mercadoria. Ela nomeia formas de utilidade que não se apresentam como valor de troca e nos ajuda a compreender como o capitalismo transforma o status daquilo de que depende, mas que não transforma, e muitas vezes não pode transformar, completamente em mercadoria. É por isso que a dádiva gratuita precisa ser tratada como uma categoria séria e compreendida especificamente como uma categoria capitalista.

Hugo de Camps Mora

O conceito de natureza é geralmente reconhecido como difícil de compreender porque seu significado é muito ambíguo e seu uso é muito amplo. Por que você acha que ainda faz sentido usar o termo “natureza” ao analisar o capitalismo e sua relação com o meio ambiente?

Alyssa Battistoni

Tenho lutado com os termos “natureza” e “natural” justamente porque são tão controversos. Raymond Williams descreveu “natureza” como uma das palavras mais complexas da língua, e ela tem sido alvo de extensa crítica e problematização. Mesmo assim, tenho dificuldade em abandonar o termo completamente. Em parte, isso se deve a razões pragmáticas: às vezes é preferível trabalhar com um conceito que aponta para algo amplamente compreendido, mesmo que imperfeitamente, em vez de inventar um novo vocabulário que corre o risco de obscurecer mais do que esclarecer.

Hugo de Camps Mora

As visões de Marx sobre ecologia foram interpretadas de maneiras muito diferentes. Alguns o interpretam como um pensador prometeico comprometido com o domínio humano sobre a natureza, enquanto outros argumentam que sua obra já contém uma estrutura ecológica produtiva. Você também se baseia em Marx para analisar o capitalismo e a natureza — o que torna sua estrutura ainda relevante para o pensamento ecológico atual?

Alyssa Battistoni

Marx é uma figura controversa nos debates ecológicos, e há material textual que sustenta ambas as interpretações. Mas o que considero mais útil não é resolver a questão de se Marx era “verdadeiramente ecológico”. O que me importa é seu método, especialmente a crítica da economia política, e sua análise do capitalismo. Marx se preocupa fundamentalmente com a relação entre o natural e o social — isto é, entre o mundo físico e suas formas sociais de manifestação. E essas são exatamente as questões centrais do pensamento ambiental crítico contemporâneo.

O capital investe onde há probabilidade de lucro; onde não há, a responsabilidade pela reprodução social é transferida para os trabalhadores e suas redes.

O capitalismo reorganizou o planeta de forma tão completa que não podemos pensar na natureza sem considerar essas dimensões em conjunto. A insistência de Marx no caráter dual da mercadoria — ou seja, valor de uso e valor de troca, forma natural e forma social — oferece uma maneira de fazer exatamente isso. Se levarmos essa estrutura a sério, obteremos uma compreensão mais clara dos problemas ambientais contemporâneos, incluindo como eles operam dentro do capitalismo, como são produzidos por ele e como se desdobram através dele como uma forma específica de organização social.

Marx também oferece um ponto de vista crítico em relação às abordagens econômicas convencionais para os problemas ambientais, ao questionar o que tais estruturas esclarecem, o que obscurecem e onde residem seus limites. No fundo, ainda acho que Marx é o melhor guia que temos para entender o capitalismo. Já que o capitalismo é o que precisamos entender para compreender a condição atual do planeta, é por isso que acredito que Marx continua tão relevante para o pensamento ecológico.

Hugo de Camps Mora

No livro, você apresenta uma crítica aos “novos materialistas”, como Bruno Latour, Donna Haraway e Anna Tsing. Ao mesmo tempo, você também argumenta que muitos ecomarxistas contemporâneos apresentam uma visão “moralista” da natureza. Poderia explicar, em sua opinião, quais são os limites dessas duas vertentes?

Alyssa Battistoni

Uma das vertentes mais influentes da teoria social contemporânea a levar a natureza a sério tem sido o novo materialismo. Os novos materialistas têm razão ao apontar que grande parte da teoria social negligenciou o mundo material e físico e, nesse sentido, identificam algo importante que estava ausente em muitas estruturas críticas.

Ao mesmo tempo, acho que eles frequentemente exageram na correção. As abordagens do novo materialismo tendem a adotar um tipo de materialismo ingênuo, em que o mundo material é tratado como algo que pode ser compreendido quase que isoladamente. A premissa é que os fenômenos podem ser estudados como processos puramente materiais — rastreando as relações entre os atores, por exemplo — sem oferecer uma análise consistente das relações sociais que estruturam uma sociedade específica ou orientam a ação humana dentro dela.

Embora isso possa reorientar nossa perspectiva e chamar a atenção para a atividade material, não consegue realmente explicar o que está acontecendo a menos que seja combinado com uma análise da dinâmica social. É isso que uma abordagem marxista proporciona. Nesse aspecto, minha crítica ao novo materialismo não é muito diferente da crítica de Marx à economia política clássica. Podemos observar os efeitos das entidades materiais, mas para entender o que impulsiona esses efeitos, precisamos de uma explicação da forma social específica em que elas se manifestam. Ao mesmo tempo, quero integrar algumas ideias do novo materialismo a uma estrutura marxista — especialmente sua insistência na materialidade — mantendo o social e o material unidos, em vez de separá-los.

O problema com grande parte do ecomarxismo é diferente. Aprendi muito com essa tradição e me vejo trabalhando dentro dela. Mas muitas vezes há uma suposição de que mostrar que o capitalismo é destrutivo para a natureza é, por si só, uma crítica suficiente. A atividade humana sempre transforma a natureza; isso faz parte de nossa relação metabólica com o mundo não humano. A questão crucial não é se a natureza é transformada, mas como, e sob quais relações sociais.

Grande parte do pensamento ecomarxista se baseia — muitas vezes implicitamente — na ideia de que o problema central é a alienação da natureza. O que falta é uma análise de como relações sociais capitalistas específicas organizam e impulsionam interações destrutivas com o mundo natural, independentemente de intenções ou atitudes morais. Essa é a tarefa que assumo neste livro.

Hugo de Camps Mora

No Capítulo 5, você revisita a campanha Salário para o Trabalho Doméstico e o que você chama de “tese da naturalização” de Silvia Federici. Você argumenta que essa estrutura tem certas limitações. Poderia explicar quais são essas limitações, na sua opinião, e por que acredita que sua perspectiva nos ajuda a compreender melhor o papel da família na economia capitalista?

Alyssa Battistoni

O livro como um todo é profundamente influenciado pelo pensamento feminista marxista, e este capítulo busca dialogar seriamente com o que herdamos dele, especialmente da campanha Salário para o Trabalho Doméstico, ao mesmo tempo que diagnostica algumas das limitações dessa estrutura. Uma tendência recorrente no pensamento feminista marxista e ecomarxista tem sido traçar uma analogia entre o trabalho doméstico e reprodutivo não remunerado e o que frequentemente é descrito como natureza “desvalorizada” ou “livre”. Observamos isso tanto no movimento Salário para o Trabalho Doméstico quanto em trabalhos mais recentes, incluindo a análise de Jason Moore sobre as “naturezas baratas” do capitalismo e suas condições subjacentes. A questão fundamental é por que essas formas de trabalho e a natureza parecem ocupar uma posição semelhante sob o capitalismo.

A resposta de Federici ao que muitas vezes se chama de “questão feminina” no marxismo é que a opressão das mulheres sob o capitalismo está enraizada no trabalho doméstico e, mais especificamente, em sua naturalização. O trabalho doméstico aparece como não remunerado porque é tratado como natureza, e não como trabalho. Esse argumento político tem sido extremamente poderoso e remodelou a compreensão do trabalho doméstico, tornando visíveis formas de exploração que foram ignoradas por muito tempo.

Mas vejo dois problemas nessa abordagem: primeiro, o argumento tende a pressupor que a própria natureza pode ser simplesmente tomada “de graça”, em vez de questionar o status da natureza como algo que o capital trata como uma dádiva gratuita; segundo, a tese da naturalização se baseia fortemente na crítica ideológica — a ideia de que, se desmistificarmos esse trabalho e o tornarmos visível como trabalho, seu status poderá mudar. Embora a consciência tenha se transformado, a organização material desse trabalho mudou muito menos.

O que eu tento fazer, em vez disso, é tratar o trabalho reprodutivo como um conjunto de processos de trabalho concretos. Dessa perspectiva, fica mais claro por que o capital frequentemente se exime da responsabilidade por essas formas de trabalho: o trabalho reprodutivo tende a ser intensivo em mão de obra, difícil de mecanizar e de tornar mais eficiente, o que o torna um local pouco atrativo para a acumulação de valor. O capital investe onde há probabilidade de lucratividade; onde não há, a responsabilidade pela reprodução social é transferida para os trabalhadores e suas redes. Isso fornece uma explicação mais concreta de por que o trabalho reprodutivo permanece externo aos mercados, embora seja indispensável ao capitalismo, e ajuda a aproximar as questões da reprodução social das preocupações ecológicas.

Hugo de Camps Mora

Você se baseia no trabalho de autores como Arthur Pigou e Ronald Coase para mostrar que as externalidades não são sinais de falha de mercado, mas sim parte integrante do funcionamento dos mercados. Essa perspectiva leva você a rejeitar a ideia de lidar com as externalidades por meio de mecanismos de mercado e, em vez disso, a explorar a proposta de Christopher Stone de conceder direitos legais a entidades naturais como base para uma “negociação coletiva multiespécie”. Você poderia explicar melhor o que quer dizer com essa ideia?

Alyssa Battistoni

Este capítulo analisa a poluição e as externalidades negativas sob a ótica da teoria econômica convencional. A precificação do carbono e a linguagem das externalidades moldaram a política ambiental por décadas, e Pigou e Coase diagnosticam algo real ao identificar efeitos da atividade econômica que não são capturados pelos preços de mercado. Mas suas estruturas permanecem confinadas a análises de troca, preços e “falha de mercado”, partindo do pressuposto de que os danos ambientais podem ser resolvidos por meio de uma melhor precificação ou pela criação de direitos de propriedade que permitam que os mercados se autocorrijam. De uma perspectiva marxista, isso não vem ao caso. As externalidades não são desvios acidentais da lógica de mercado; Elas são produzidas dentro do próprio capitalismo, emergindo da produção e da capacidade do capital de impor custos aos outros.

Os direitos da natureza podem ser entendidos como uma forma de negociação coletiva multiespécie, situando o conflito ecológico dentro da economia política, em vez de reduzi-lo a um mero ajuste de mercado.

Uma vez que a análise parte das relações de classe e da produção, o dano ambiental surge menos como um problema técnico e mais como um problema político de poder. É por isso que considero convincente a proposta do jurista Christopher Stone de conceder direitos legais a entidades naturais. Ela pode ser entendida não apenas como um reflexo do valor intrínseco da natureza, mas também como um mecanismo político para lidar com problemas de ação coletiva. A poluição dispersa o dano por uma população difusa, dificultando a resistência — assim como os trabalhadores enfrentam problemas de ação coletiva ao confrontarem seus empregadores. Mas Stone argumenta que, se uma entidade natural como um lago tem legitimidade para processar, os danos sofridos pelas comunidades vizinhas e por seres não humanos podem ser agregados por meio de um único sujeito de direito.

Portanto, estou menos interessado em direitos como reconhecimento moral abstrato do que como uma ferramenta institucional concreta — uma ferramenta que pode ajudar a alterar o equilíbrio de poder. Nesse sentido, os direitos da natureza podem ser compreendidos como uma forma de negociação coletiva multiespécie, situando o conflito ecológico dentro da economia política, em vez de reduzi-lo a um mero ajuste de mercado.

Hugo de Camps Mora

Nos últimos anos, particularmente nos estudos marxistas, houve um renovado interesse no republicanismo como uma estrutura normativa para pensar a liberdade — entendida como a ausência de dominação arbitrária. No entanto, em seu livro, você argumenta que uma concepção existencialista de liberdade, baseada na obra de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, é mais adequada do que uma republicana para confrontar o domínio do mercado e as formas peculiares de falta de liberdade que definem as sociedades capitalistas. Poderia explicar por que considera a abordagem existencialista mais convincente nesse sentido?

Alyssa Battistoni

O republicanismo certamente contribuiu para a reflexão sobre a política trabalhista e a dominação no ambiente de trabalho. A não dominação é um conceito valioso, que auxilia no diagnóstico de formas diretas de dominação por patrões e capitalistas. Sua eficácia diminui em relação ao que os marxistas descrevem como dominação abstrata ou social — a dominação pelos mercados, pela competição e por imperativos impessoais. Trata-se da “compulsão muda” sobre a qual Marx escreve. Não se trata simplesmente de uma vontade se sobrepor à outra, mas de ser compelido a agir de maneiras que se pode não aprovar: trabalhadores competindo entre si, consumidores imersos em mercados e até mesmo os próprios capitalistas impulsionados por pressões competitivas.

O republicanismo enfrenta dificuldades nesse ponto porque a dominação envolvida é impessoal. Não há uma vontade arbitrária identificável que possa ser apontada como “o dominador”. Em vez disso, a dominação emerge dos efeitos agregados de ações individualmente racionais que confrontam as pessoas como uma força social coercitiva. O existencialismo — especialmente a obra tardia de Sartre — ajuda a articular isso com mais precisão. Destaca como nossa capacidade de afirmar valores e nos comprometer com projetos é minada não necessariamente por uma pessoa, mas por processos sociais coletivos e arranjos institucionais que bloqueiam nossa capacidade de agir sobre o que consideramos importante.

Hugo de Camps Mora

Seu livro também é bastante cético quanto ao potencial emancipatório dos “bens comuns”. No entanto, dada a urgência atual de agir contra os efeitos do Capitaloceno, você não acha que os bens comuns ainda poderiam oferecer um ponto de partida significativo para a ação coletiva?

Alyssa Battistoni

Sou crítica em relação à forma como os bens comuns são às vezes romantizados — como um espaço fora do capitalismo, um refúgio dele, uma maneira de “construir o exterior a partir de dentro”. Os bens comuns existentes, argumento, precisam ser compreendidos em relação ao capital e aos espaços que o capital não conseguiu delimitar. Eles não são “externos” em um sentido estrito, e sua vida interna está sujeita a pressões mais amplas, como coerção e competição.

Dito isso, não quero descartar projetos baseados em bens comuns. Precisamos simplesmente de uma visão sóbria do que são os bens comuns e do que eles podem fazer. Estar fora do capitalismo não é uma condição necessária para construir poder político. Aliás, reconhecer que se opera dentro de um sistema hostil muitas vezes esclarece politicamente, porque força a reflexão sobre o que pode ser feito com as relações que estruturam a vida sob o capitalismo.

Projetos baseados em bens comuns podem abrir possibilidades concretas para a auto-organização e autogestão, além de proporcionar espaço para manobras.

Nesse sentido, os bens comuns são análogos aos sindicatos. Ninguém afirma que os sindicatos existam fora do capitalismo, mas eles ainda podem gerar poder coletivo e resistência. Projetos baseados em bens comuns podem ser importantes por razões semelhantes: podem abrir possibilidades concretas de auto-organização e autogestão e proporcionar espaço de manobra. A questão não é idealizá-los como algo “externo”, mas situá-los realisticamente dentro das relações sociais capitalistas.

Hugo de Camps Mora

Você critica abordagens que se concentram em mudar nossas atitudes em relação à natureza, argumentando que elas são frequentemente voluntaristas, ideológicas e limitadas em poder explicativo. Essas perspectivas tendem a se concentrar na cultura ocidental; no entanto, como você aponta, padrões semelhantes emergiram em contextos não ocidentais à medida que passaram por transformações capitalistas. Você poderia explicar por que, em sua opinião, essas explicações carecem de poder explicativo?

Alyssa Battistoni

Abordagens que explicam os problemas ambientais contemporâneos principalmente em termos de atitudes em relação à natureza são extremamente difundidas no pensamento ambiental. A alegação central é que “nós” — frequentemente identificados com a cultura ocidental — desenvolvemos uma maneira errada de ver a natureza, e que esse erro conceitual ou filosófico acaba por impulsionar a destruição ecológica. Isso se observa em críticas ao dualismo cartesiano ou em argumentos que atribuem os danos ambientais a uma visão de mundo que trata a natureza como inerte ou meramente instrumental. O problema dessa abordagem é que ela é fundamentalmente idealista. Ela pressupõe que as ideias são os principais motores da ação histórica, como se as tradições filosóficas pudessem explicar séculos de desenvolvimento capitalista e transformação industrial. Sugere que, se simplesmente passássemos a ver a natureza de forma diferente — por meio de uma maior consciência ecológica ou uma mudança de valores —, esses problemas poderiam ser resolvidos.

Isso não é apenas teoricamente pouco convincente, mas também empiricamente frágil. Assim que nos afastamos da Europa Ocidental ou da América do Norte, o argumento se desfaz. O capitalismo hoje se reproduz de forma mais dinâmica em regiões como a China ou o Leste Asiático, que não compartilham as tradições intelectuais frequentemente culpadas pela degradação ambiental, e ainda assim padrões semelhantes de danos ecológicos emergem à medida que essas sociedades passam por transformações capitalistas.

Além disso, muitas pessoas já possuem visões não instrumentais da natureza e se preocupam profundamente com as questões ambientais, mas continuam compelidas a agir de maneiras que reproduzem as próprias relações que criticam. Isso demonstra que a compulsão decisiva não opera no nível da consciência ou da intenção, mas por meio de pressões materiais, estruturas institucionais e formas de organização social. Uma crítica que se concentre nessas estruturas é, portanto, essencial se quisermos explicar o problema adequadamente e entender que tipos de transformações poderiam, de fato, solucioná-lo.

Hugo de Camps Mora

Após Free Gifts, seu próximo projeto aborda a teoria do Estado a partir de uma perspectiva marxista. Em que medida você o considera uma continuação do primeiro livro?

Alyssa Battistoni

Em muitos aspectos, é uma continuação, pois o Estado aparece ao longo de Free Gifts, ainda que de forma marginal. No entanto, o livro não desenvolve uma teoria explícita do Estado; suas ações permanecem em grande parte implícitas. De maneira mais ampla, a produção ecomarxista carece de uma análise consistente do Estado capitalista, apesar do papel central que ele desempenha na estruturação do acesso à natureza, no controle do território, na organização da extração e expropriação e na gestão — ou falha na gestão — dos danos ecológicos gerados pelo capitalismo.

Ao mesmo tempo, o Estado é repetidamente invocado na política climática como o ator capaz de agir em grande escala, por meio da descarbonização, infraestrutura ou regulamentação; contudo, as possibilidades e os limites de tal ação permanecem obscuros. O próximo projeto surge dessa tensão. Ele desloca o foco da teoria do valor para uma análise marxista sóbria do Estado, que leva a sério tanto sua centralidade quanto sua hostilidade.

Este trabalho foi possível graças ao apoio da Fundação Puffin.

Colaboradores

Alyssa Battistoni é professora assistente de ciência política no Barnard College. Ela é coautora de A Planet to Win: Why We Need a Green New Deal e Free Gifts: Capitalism and the Politics of Nature.

Hugo de Camps Mora escreve sobre teoria social e economia política. Atualmente, pesquisa as tensões entre classe, reconhecimento e reprodução material na Birkbeck, Universidade de Londres.

26 de novembro de 2025

A COP30 adiou mais uma vez a questão climática

Os Estados Unidos não enviaram uma delegação à conferência COP30 no Brasil, refletindo a atitude niilista do governo Trump em relação à crise climática. Na sua ausência, as outras grandes potências industriais mais uma vez adiaram a tomada de decisões difíceis, porém essenciais.

Claudia Horn

Jacobim

Os manifestantes do movimento indígena conseguiram interromper as negociações da COP30 duas vezes — uma quando invadiram as instalações e entraram em confronto com as forças de segurança, e outra quando impediram a entrada dos delegados e forçaram o presidente da COP, André Corrêa do Lago, a ouvi-los. (Pablo Porciuncula / AFP via Getty Images)

O grande Rio Guamá e quarenta e duas ilhas metropolitanas emolduram a cidade de Belém, conhecida como a porta de entrada para a floresta amazônica. Belém é moldada pela diversidade de suas culturas indígenas e afro-brasileiras, bem como pelos desafios diários impostos pelas mudanças climáticas, incluindo inundações severas e calor extremo.

Dez anos após o Acordo de Paris sobre o Clima, no qual líderes de diversos países se comprometeram a limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) foi realizada aqui pela primeira vez neste mês. Em meio à turbulência geopolítica, a COP30 teve como objetivo destacar a conexão entre a riqueza natural e a vulnerabilidade climática.

A conferência buscou incentivar a comunidade internacional a evitar o alarmante aquecimento do planeta em até 3 graus Celsius até 2050, conforme calculado por cientistas, ao mesmo tempo em que apoiava os países em desenvolvimento na adaptação às consequências devastadoras e às perdas que já enfrentam. Com a administração Trump não enviando uma delegação à COP30, coube a outros assumir a responsabilidade pela crise climática.

"COP da verdade"

Com mais de 56.000 delegados presentes ao longo de duas semanas, a COP30 em Belém foi uma das maiores COPs da história. Como a “COP da verdade”, também tinha como objetivo combater as notícias falsas e a negação das mudanças climáticas promovidas pela direita global, liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Dada a ausência dos Estados Unidos, a diminuição dos compromissos e a participação limitada da sociedade civil nas negociações em Baku, Dubai e Sharm El Sheikh nos últimos anos, o país anfitrião, o Brasil, estava sob forte pressão.

Em meio à turbulência geopolítica, a COP30 visava destacar a conexão entre a riqueza natural e a vulnerabilidade climática.

Ao mesmo tempo, reportagens da mídia internacional e nacional reclamando da localização e dos preços das acomodações durante a preparação revelaram preconceito contra a região pobre. De fato, a COP30 começou notavelmente bem preparada, demonstrando a excepcional habilidade diplomática do Brasil: diferentemente de muitas conferências, a agenda foi acordada rapidamente. O evento estabeleceu uma série de mutirões (do tupi-guarani, palavra que significa esforço coletivo para o bem comum) sobre os principais temas desta COP: implementação, adaptação e integração da política climática e do desenvolvimento econômico com base em descobertas científicas.

Desde o início, a cúpula demonstrou a força dos movimentos indígenas e tradicionais da região pan-amazônica. Grupos chegaram em diversas flotilhas e organizaram a Cúpula dos Povos e uma grande marcha de protesto pela cidade. Eles protestaram contra o domínio e o patrocínio dos lobbies dos combustíveis fósseis, da agricultura e da mineração nas salas de negociação, enquanto a sociedade civil permanecia amplamente excluída.

Os grupos conseguiram interromper as negociações duas vezes — uma quando invadiram as instalações e entraram em confronto com as forças de segurança, e outra quando impediram a entrada dos delegados e forçaram o presidente da COP, André Corrêa do Lago, a ouvi-los. Mais importante, expuseram as contradições da política brasileira, como os planos de privatização de portos fluviais e da navegação, além da facilitação da perfuração de petróleo, da construção de hidrovias industriais e da construção de trens no coração da Amazônia, medidas que ampliariam a exploração de commodities para exportação.

Uma de suas demandas foi atendida quando o governo brasileiro decidiu demarcar mais dez territórios indígenas. No entanto, centenas de outros permanecem pendentes e estão sob ameaça de invasão, violência e assassinatos.

Sem avanços

Quanto ao documento final da COP30, baseado em consenso e adotado por 195 partes no sábado, após atrasos e crises, não houve avanços. Ele reflete um cenário caracterizado pela militarização e crises geopolíticas, uma ordem econômica injusta e ambientalmente destrutiva e desigualdade social sem precedentes.

Embora a presidência tenha apoiado a adoção de um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis — uma medida defendida por dezenas de países, liderados pela Colômbia — a falta de preparo para essa questão crucial e a oposição dos países produtores de petróleo tornaram improvável sua inclusão no documento final. Enquanto a União Europeia culpava países como a Rússia por bloquearem a ação, observadores da sociedade civil criticavam os próprios Estados-membros da UE por obstruírem as negociações finais, traindo seus compromissos e acordos anteriores e impedindo decisões de maior alcance.

Ainda assim, um compromisso positivo é o desenvolvimento de tal roteiro, a partir da Primeira Conferência Internacional sobre a Transição Justa para Longe dos Combustíveis Fósseis, na Colômbia, em abril de 2026. Uma decisão semelhante se aplica ao desenvolvimento de um roteiro para deter o desmatamento fora das negociações formais. Outro resultado positivo é o Mecanismo de Ação de Belém, que surgiu diretamente de movimentos sociais, sindicatos e organizações ambientais. Ele defende o fortalecimento da participação social, dos direitos humanos e da justiça climática nas negociações, particularmente na implementação local dos planos climáticos.

As decisões adotadas no pacote de Belém incluem a mobilização de US$ 1,3 trilhão anualmente até 2035 para medidas de proteção climática e o compromisso dos países ricos de triplicar o financiamento para adaptação climática até 2035. No entanto, os países industrializados, liderados pela UE, opuseram-se a compromissos com valores específicos. Em vez de investir fundos públicos, tenderam a defender mecanismos privados, baseados no mercado e na compensação de carbono.

Como países como Serra Leoa destacaram, o setor privado não está investindo nas necessidades das populações do Sul Global, deixando especialmente para trás os países menos desenvolvidos. Um exemplo disso é o Mecanismo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), um mecanismo de financiamento florestal orientado para o mercado, lançado pelo Brasil.

Inicialmente, a UE e o Reino Unido acolheram o TFFF com entusiasmo. No entanto, não está claro quem controlará o TFFF e quem serão seus principais beneficiários — investidores privados ou comunidades afetadas. O projeto também não aborda as causas do desmatamento, como o agronegócio e a mineração. É por isso que está sendo contestado por movimentos sociais.

No fim, poucos parecem dispostos a financiá-lo. Embora o Brasil esperasse arrecadar US$ 25 bilhões em doações, os compromissos reais chegaram a apenas US$ 5,6 bilhões, incluindo US$ 2 bilhões dos próprios países florestais, Brasil e Indonésia.

Em resumo, a missão de Belém de reavivar as ambições e, sobretudo, a cooperação internacional para promover a meta de Paris de preservar o limite de 1,5 grau parecia promissora, mas irrealista, com a crise sendo mais uma vez adiada para negociações futuras. Na ausência dos Estados Unidos, nem a China nem qualquer outro Estado preencheram a lacuna.

A necessidade de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis é maior do que nunca, e resta saber o que emergirá desse processo nos próximos meses. Os moradores de Belém sabem que, se o aquecimento global continuar sem controle, sua cidade se tornará inabitável em poucas décadas.

Colaborador

Claudia Horn é professora do Departamento de Estudos Europeus e Internacionais do King's College London. Ela é autora de Klimahilfe mit Nebenwirkungen e seu livro Rosa Luxemburg’s Herbarium será publicado em 2026.

27 de abril de 2025

O papa inesperado

O Papa Francisco, escreve o estudioso marxista Michael Löwy, demonstrou uma simpatia incomum pelo pensamento de esquerda, embora seu pensamento devesse muito mais à "teologia do povo" não marxista do que à teologia da libertação.

Michael Löwy

Tradução de Alex Caring-Lobel


O Papa Francisco encontra estudantes da Universidade Católica Portuguesa em 3 de agosto de 2023, em Lisboa, Portugal. (Vatican Media via Vatican Pool / Getty Images)

Com a morte de Jorge Bergoglio, ou Papa Francisco, perdemos um líder raro que, em uma Itália governada por neofascistas e em uma Europa cada vez mais reacionária, se destacou por seus surpreendentes compromissos éticos, sociais e ecológicos.

Depois que Pio XII excomungou os comunistas, a esquerda só podia esperar anátemas do Vaticano. João Paulo II e Joseph Ratzinger não perseguiram os teólogos da libertação por utilizarem conceitos marxistas? Não tentaram impor um "silêncio obsequioso" a Leonardo Boff? 

É claro que, desde o século XIX, sempre existiram correntes de esquerda no catolicismo, mas elas encontraram somente hostilidade por parte das autoridades romanas. Por outro lado, as correntes clericais críticas do capitalismo eram geralmente bastante reacionárias. 

Criticando o socialismo feudal ou clerical no Manifesto Comunista, Marx e Engels notaram “sua absoluta incapacidade de compreender o curso da história”; mas reconheceram nesta mistura “de ecos do passado e ameaças ao futuro” uma “crítica mordaz e espirituosa” que podia por vezes "atingir a burguesia bem no coração".

Max Weber propôs uma análise mais geral da relação entre a Igreja e o capital: em sua obra sobre a sociologia das religiões, ele constata a “profunda aversão” (tiefe Abneigung) da ética católica ao espírito do capitalismo, apesar das adaptações e compromissos. Esta é uma hipótese que deve ser levada em consideração se quisermos compreender o que aconteceu em Roma com a eleição do papa argentino.

Jorge Bergoglio, o Papa Francisco

O que poderíamos esperar do cardeal Jorge Bergoglio, eleito Pontifex Maximum em março de 2013? Claro, ele era latino-americano, o que não deixava de ser um sinal de mudança. Mas ele tinha sido eleito pelo mesmo conclave que tinha entronizado o conservador Joseph Ratzinger, e vinha da Argentina, um país onde a Igreja não é conhecida por seu progressismo, com vários de seus dignitários tendo colaborado ativamente com a sangrenta ditadura militar. Não foi esse o caso de Jorge Bergoglio: segundo alguns relatos, chegou até mesmo a ajudar pessoas perseguidas pela junta a esconderem-se ou a abandonarem o país. Mas também não se opôs ao regime: um “pecado de omissão”, poderíamos dizer. Enquanto alguns cristãos de esquerda, como Adolfo Pérez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz), sempre o apoiaram, outros viam-no como um opositor de direita ao governo dos “peronistas de esquerda” Néstor e Cristina Kirchner.

Seja como for, uma vez eleito, Francisco – nome que escolheu em referência a São Francisco, o amigo dos pobres e dos pássaros – distinguiu-se imediatamente por sua atitude corajosa e engajada. De certa forma, ele lembra o Papa Roncalli, João XXIII: eleito “papa de transição” para garantir a continuidade e a tradição, iniciou a mais profunda mudança na Igreja depois de séculos: o Concílio Vaticano II (1962-65). Bergoglio tinha inicialmente pensado em adotar o nome de "João XXIV" para homenagear seu antecessor da década de 1960.

A primeira viagem do novo pontífice fora de Roma ocorreu em julho de 2013, no porto italiano de Lampedusa, onde centenas de migrantes ilegais chegavam, enquanto muitos outros se afogavam no Mediterrâneo. Em sua homilia, não hesitou em se opor ao governo italiano – e a uma grande parte da opinião pública –, denunciando a “globalização da indiferença” que nos torna “insensíveis aos gritos dos outros”, ou seja, à sorte dos “imigrantes que morreram no mar, naquelas embarcações que, em vez de serem um caminho de esperança, eram um caminho de morte”. Voltaria várias vezes a esta crítica à desumanidade da política europeia em relação aos migrantes.

No que diz respeito à América Latina, também houve uma mudança notável. Em setembro de 2013, o Papa Francisco encontrou-se com Gustavo Gutiérrez, fundador da teologia da libertação, e o jornal do Vaticano Osservatore Romano publicou, pela primeira vez, um artigo favorável a este pensador. Outro gesto simbólico foi a beatificação, e depois a canonização, do arcebispo Romero de El Salvador, assassinado em 1980 pelos militares por ter denunciado a repressão antipopular, um herói celebrado pela esquerda católica latino-americana, mas ignorado pelos pontífices anteriores. Durante sua visita à Bolívia, em julho de 2015, Jorge Bergoglio prestou uma homenagem intensa e vibrante à memória de seu companheiro jesuíta Luis Espinal Camps, um padre missionário, poeta e cineasta espanhol assassinado durante a ditadura de Luis García Meza, em 21 de março de 1980, por seu engajamento nas lutas sociais. Quando se encontrou com Evo Morales, o presidente socialista boliviano ofereceu-lhe uma escultura feita pelo mártir jesuíta: uma cruz de madeira apoiada numa foice e num martelo.

Durante sua visita à Bolívia, o Papa Francisco participou de um encontro mundial de movimentos sociais na cidade de Santa Cruz. Seu discurso na ocasião ilustra a “profunda aversão” ao capitalismo de que falava Max Weber, mas num nível que nenhum de seus antecessores conseguiu atingir. Uma passagem agora famosa de seu discurso:

Nós castigamos a terra, os povos e os indivíduos de uma forma quase selvagem. E, por trás de tanta dor, tanta morte e destruição, há o cheiro daquilo a que Basílio de Cesareia chamou "o esterco do diabo": a ambição desenfreada do dinheiro que governa. Este é o "esterco do diabo". O serviço ao bem comum é deixado para trás. Uma vez que o capital se torna um ídolo e guia as decisões das pessoas, uma vez que a ganância por dinheiro preside todo o sistema socioeconômico, ele arruína a sociedade, condena e escraviza homens e mulheres, destrói a fraternidade humana, coloca as pessoas umas contra as outras e, como vemos claramente, até mesmo coloca em risco a nossa casa comum.

Não é de surpreender que a abordagem do Papa Francisco tenha encontrado uma resistência considerável nos setores mais conservadores da Igreja. Um dos opositores mais ativos é o cardeal americano Raymond Burke, um fervoroso apoiador de Donald Trump, que também entrou em contato com Matteo Salvini, o líder da Liga do Norte, durante uma viagem à Itália. Alguns destes opositores acusavam o novo pontífice de ser um herege, ou até mesmo um marxista disfarçado.

Quando Rush Linebaugh, um jornalista católico reacionário (americano), lhe chamou “papa marxista”, o Papa Francisco respondeu refutando educadamente o adjetivo, acrescentando que não se sentia ofendido porque "conhecia muitos marxistas que eram boas pessoas". De fato, em 2014, o Papa recebeu em audiência dois destacados representantes da esquerda europeia: Alexis Tsipras, então líder da oposição ao governo de direita em Atenas, e Walter Baier, coordenador da rede Transform, formada por fundações culturais ligadas ao Partido da Esquerda Europeia (como a Fundação Rosa Luxemburgo, na Alemanha). Nessa ocasião, ele decidiu iniciar um processo de diálogo entre marxistas e cristãos, que levou a vários encontros, incluindo uma universidade de verão conjunta em 2018 na ilha de Syros, na Grécia. Em 2014, o Papa recebeu uma delegação dos participantes (cristãos e marxistas) neste diálogo (incluindo o autor desta nota).

É verdade que quando se trata do direito das mulheres a dispor do próprio corpo e da moral sexual em geral – contracepção, aborto, divórcio, homossexualidade – Francisco mantém-se fiel às posições conservadoras da doutrina da Igreja. Mas há alguns sinais de abertura, dos quais o violento conflito de 2017 com a direção da Ordem de Malta, uma instituição rica e aristocrática da Igreja Católica, é um sintoma marcante.

O Grão-Mestre ultraconservador da Ordem, o "príncipe" Matthew Festing, exigiu a demissão do Chanceler da Ordem, o Barão de Boeselager, pelo terrível pecado de distribuir preservativos a pessoas pobres ameaçadas pela epidemia de AIDS na África. O Chanceler recorreu ao Vaticano, que decidiu a seu favor contra Festing; este último, apoiado pelo Cardeal Burke, recusou-se a obedecer e foi demitido de suas funções pelo Vaticano. Isto ainda não é a adoção da contracepção pela doutrina moral da Igreja, mas é uma mudança.

É claro que o Papa Francisco não tem nada de marxista, e sua teologia está muito longe da forma marxista da teologia da libertação. Sua formação intelectual, espiritual e política deve muito à teologia do povo, uma variante argentina não marxista da teologia da libertação, cujos principais inspiradores são Lucio Gera e o teólogo jesuíta Juan Carlos Scannone. A teologia do povo não pretende basear-se na luta de classes, mas reconhece o conflito entre o povo e o “antipovo” e apoia a opção preferencial pelos pobres. Está menos preocupada com questões socioeconômicas do que outras formas de teologia da libertação e presta mais atenção à cultura, em particular à religião popular.

Em um artigo de 2014, “O Papa Francisco e a Teologia do Povo”, Juan Carlos Scannone destaca, com razão, o quanto as primeiras encíclicas do Papa, como a Evangelium Gaudí (2014), criticada por seus críticos de esquerda como “populista” (no sentido argentino, peronista, não europeu, do termo), devem a esta teologia popular. Parece-me, no entanto, que Jorge Bergoglio, em sua crítica ao “ídolo do capital” e a todo o atual “sistema socioeconômico”, vai mais longe do que seus inspiradores argentinos. Sobretudo em sua última encíclica, Laudato si’ (2015), que merece uma reflexão marxista.

Laudato si'

A “encíclica ecológica” do Papa Francisco é um acontecimento de importância global, do ponto de vista religioso, ético, social e político. Dada a enorme influência da Igreja Católica, foi uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica. Embora tenha sido acolhida com entusiasmo pelos verdadeiros ambientalistas, suscitou inquietação e rejeição dos conservadores religiosos, dos representantes do capital e dos ideólogos da “ecologia de mercado”. Trata-se de um documento de grande riqueza e complexidade, que propõe uma nova interpretação da tradição judaico-cristã – rompendo com o “sonho prometeico de dominação do mundo” – e uma reflexão crítica sobre as causas da crise ecológica. Em certos aspectos, como a ligação indissociável entre o “grito da terra” e o “grito dos pobres”, é evidente que a teologia da libertação – em particular a do ecoteólogo Leonardo Boff – foi uma de suas fontes de inspiração.

Nas breves notas a seguir, gostaria de destacar um aspecto da encíclica que explica a resistência que encontrou nos meios econômicos e midiáticos: seu caráter antissistêmico.

Para o Papa Francisco, as catástrofes ecológicas e as mudanças climáticas não resultam apenas de comportamentos individuais – mesmo que estes tenham um papel importante –, mas dos "atuais modelos de produção e consumo". Bergoglio não é marxista e a palavra "capitalismo" não aparece na encíclica. Mas é muito claro que, para ele, os dramáticos problemas ecológicos de nosso tempo são o resultado das engrenagens da atual economia globalizada – engrenagens constituídas por um sistema global, "um sistema estruturalmente perverso de relações comerciais e de propriedade".

Quais são, para o Papa Francisco, estas caraterísticas "estruturalmente perversas"? Em primeiro lugar, um sistema em que predominam “os interesses limitados das empresas” e “uma racionalidade econômica questionável”, uma racionalidade instrumental cujo único objetivo é a maximização dos lucros. Assim,

o princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceitual da economia: se a produção aumenta, não importa se produzimos em detrimento dos recursos futuros ou do bem-estar do meio ambiente.

Esta distorção, esta perversidade ética e social, não corresponde mais a um país do que a outro, mas a um “sistema global, em que predomina a especulação e a busca por rendimentos financeiros, tendendo a ignorar qualquer contexto e qualquer efeito sobre a dignidade humana e o meio ambiente”. "Parece, pois, que a degradação ambiental e a degradação humana e ética estão intimamente ligadas."

A obsessão pelo crescimento ilimitado, o consumismo, a tecnocracia, a dominação absoluta das finanças e o endeusamento do mercado são caraterísticas perversas do sistema. Numa lógica destrutiva, tudo se reduz ao mercado e ao “cálculo financeiro de custos e benefícios”. No entanto, é preciso compreender que "o ambiente é um daqueles bens que os mecanismos de mercado são incapazes de defender ou promover adequadamente". O mercado é incapaz de levar em consideração valores qualitativos, éticos, sociais, humanos ou naturais, ou seja, “valores que ultrapassam qualquer cálculo".

O poder "absoluto" do capital financeiro especulativo é um aspecto essencial do sistema, como o demonstrou a então recente crise bancária. O comentário da encíclica é desmistificador:

Salvar os bancos a todo o custo, fazendo com que os cidadãos paguem o preço, sem uma decisão firme de rever e reformar todo o sistema, reafirma uma dominação absoluta das finanças, que não têm futuro e podem apenas gerar novas crises depois de uma longa e custosa recuperação aparente. A crise financeira de 2007-2008 foi uma oportunidade para desenvolver uma nova economia, mais atenta aos princípios éticos e favorável a uma nova regulação da atividade financeira especulativa e da riqueza fictícia. Mas não houve qualquer reação que conduzisse a um questionamento dos critérios obsoletos que continuam governando o mundo.

Esta dinâmica perversa do sistema mundial que “continua regendo o mundo” é a razão do fracasso das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente: “são inúmeros os interesses pessoais e é muito fácil para os interesses econômicos prevalecerem sobre o bem comum e manipularem a informação para evitar que seus projetos sejam afetados”. Enquanto prevalecerem os imperativos dos poderosos grupos econômicos,

podemos esperar apenas algumas declarações superficiais, ações filantrópicas isoladas e até mesmo alguns esforços para mostrar certa sensibilidade em relação ao meio ambiente, quando, na verdade, qualquer tentativa das organizações sociais de mudar as coisas será considerada um incômodo causado pelos utópicos românticos ou como um obstáculo a contornar.

Neste contexto, a encíclica denuncia a irresponsabilidade dos "responsáveis", ou seja, das elites dominantes, das oligarquias interessadas em preservar o sistema, diante da crise ecológica:

Muitos dos que detêm a maior parte dos recursos e do poder econômico ou político parecem principalmente fazer tudo o que está a seu alcance para ocultar os problemas ou dissimular os sintomas, tentando apenas reduzir certos impactos negativos das mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que estes efeitos continuarão agravando-se caso mantenhamos nossos atuais padrões de produção e consumo.

Diante da dramática destruição do equilíbrio ecológico do planeta e da ameaça sem precedentes representada pelas mudanças climáticas, o que propõem os governos ou os representantes internacionais do sistema (Banco Mundial, FMI, etc.)? A resposta deles é o chamado “desenvolvimento sustentável”, um conceito cujo conteúdo é cada vez mais vazio, um verdadeiro flatus vocis, como diziam os escolásticos da Idade Média. O Papa Francisco não tem qualquer ilusão quanto a esta mistificação tecnocrática:

O discurso do crescimento sustentável tem o hábito de se tornar um meio de distração e de redução da culpa que absorve os valores do discurso ecológico no seio das finanças e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas tem o hábito de reduzir-se a uma série de ações de marketing e de imagem.

As medidas concretas propostas pela oligarquia tecnofinanceira dominante são totalmente ineficazes, como o "mercado de carbono". A crítica do Papa a esta falsa solução é um dos argumentos mais importantes da encíclica. Referindo-se a uma resolução da Conferência Episcopal Boliviana, Jorge Bergoglio escreveu:

A estratégia de compra e venda de "créditos de carbono" pode dar origem a uma nova forma de especulação e prejudicar o processo de redução das emissões globais de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, que dá a aparência de um certo compromisso com o meio ambiente, mas que, em todo o caso, não constituiria uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pior ainda, poderia tornar-se um remédio que favorece o consumo excessivo em certos países e setores.

Passagens como esta explicam a falta de entusiasmo dos círculos "oficiais" e dos adeptos da "ecologia de mercado" (ou do "capitalismo verde") pela Laudato si'.

Ao associar a questão ecológica à questão social, o Papa Francisco insiste na necessidade de medidas drásticas, isto é, de mudanças profundas para responder a este duplo desafio. O principal obstáculo é a natureza "perversa" do sistema: "a mesma lógica que nos impede de tomar decisões drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a que nos impede de alcançar o objetivo de erradicar a pobreza."

Embora o diagnóstico da crise ecológica da Laudato si' seja de uma clareza e de uma coerência impressionantes, as ações que ela propõe são mais limitadas. É certo que muitas de suas sugestões são úteis e necessárias, como por exemplo: "propor formas de cooperação ou de organização comunitária que defendam os interesses dos pequenos produtores e protejam os ecossistemas locais da predação." Também é muito significativo que a encíclica reconheça a necessidade, para as sociedades mais desenvolvidas, de "conterem-se um pouco, estabelecerem certos limites razoáveis e até mesmo de voltarem atrás antes que seja tarde demais", ou seja, "chegou o momento de aceitar um certo decrescimento em algumas partes do mundo, pondo em prática remédios para que outras possam crescer saudavelmente."

Mas são precisamente estas “medidas drásticas” que fazem falta, como as propostas por Naomi Klein em seu livro This Changes Everything: romper com os combustíveis fósseis (carvão, petróleo) antes que seja tarde demais, deixando-os no subsolo. Não podemos mudar as estruturas perversas do atual modo de produção e de consumo sem um conjunto de iniciativas antissistêmicas que ponham em causa a propriedade privada, por exemplo, das grandes multinacionais dos combustíveis fósseis (BP, Shell, Total, etc.). É certo que o Papa menciona a utilidade de “grandes estratégias que interrompam eficazmente a degradação do meio ambiente e inculquem uma cultura de respeito que impregne toda a sociedade”, mas este aspecto estratégico é pouco desenvolvido na encíclica.

Reconhecendo que “o atual sistema mundial é insustentável”, Jorge Bergoglio procura uma alternativa global, à qual ele chama “cultura ecológica”, uma mudança que

não pode limitar-se a uma série de respostas urgentes e parciais aos problemas crescentes da degradação ambiental, do esgotamento dos recursos naturais e da poluição. Ela deve implicar uma perspectiva diferente, um modo de pensar, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que aceitem a resistência ao avanço do paradigma tecnocrático.

Mas são poucos os indícios de uma nova economia e de uma nova sociedade que correspondam a esta cultura ecológica. Não se trata de pedir ao Papa que adote o ecossocialismo, mas a alternativa para o futuro permanece um pouco abstrata.

O Papa Francisco adotou a “opção preferencial pelos pobres” das Igrejas latino-americanas. A encíclica define isso claramente como um imperativo planetário:

Nas condições atuais da sociedade mundial, na qual há tanta desigualdade e na qual as pessoas são cada vez mais marginalizadas e privadas dos mais elementares direitos humanos, o princípio do bem comum transforma-se imediatamente, como consequência lógica e inelutável, num apelo à solidariedade e numa opção prioritária pelos mais pobres.

Mas na encíclica, os pobres não aparecem como atores de sua própria emancipação, o projeto mais importante da teologia da libertação. As lutas dos pobres, dos camponeses e dos povos indígenas para defender as florestas, a água e a terra contra as multinacionais e o comércio agrícola, assim como o papel dos movimentos sociais, que são precisamente os principais atores na luta contra as mudanças climáticas – Via Campesina, Justiça Climática, Fórum Social Mundial – são uma realidade social que não aparece muito na Laudato si'.

Este será, no entanto, um tema central dos encontros do Papa com os movimentos populares, os primeiros na história da Igreja. No encontro de Santa Cruz (Bolívia, julho de 2015), Francisco declarou:

Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e os excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está em grande parte em vossas mãos, em vossa capacidade de organizar e promover alternativas criativas, na busca diária dos 3 Ts (trabalho, teto, terra) e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança, nacionais, regionais e mundiais. Não vos subestimem! Vós sois os semeadores da mudança.

Certamente, como Jorge Bergoglio destaca na encíclica, a tarefa da Igreja não é substituir os partidos políticos, propondo um programa de mudança social. Com seu diagnóstico antissistêmico da crise, que liga inseparavelmente a questão social e a proteção do meio ambiente, “o grito dos pobres” e “o grito da terra”, a Laudato si’ é uma contribuição preciosa e inestimável para a reflexão e a ação para salvar a natureza e a humanidade da catástrofe.

Cabe aos marxistas, comunistas e ecossocialistas completar este diagnóstico com propostas radicais que visem alterar não só o sistema econômico dominante, mas também o modelo perverso de civilização imposto pelo capitalismo em escala global. Propostas que incluam não apenas um programa concreto de transição ecológica, mas também uma visão de uma outra forma de sociedade, para além do reino do dinheiro e das mercadorias, baseada nos valores da liberdade, solidariedade, justiça social e respeito pela natureza.

Para onde vai a Igreja?

É difícil prever qual será o futuro da Igreja após a morte do Papa Francisco: quem será eleito no próximo conclave? Seguirá a orientação crítica e humanista de Bergoglio ou regressará à tradição conservadora dos pontífices anteriores? Inúmeros novos cardeais foram nomeados por Francisco, mas qual é a convicção íntima deles?

As próximas semanas decidirão se Jorge Bergoglio foi apenas um parêntesis ou se abriu um novo capítulo na longa história do catolicismo.

Colaboradores

Michael Löwy é diretor emérito de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica.

Alex Caring-Lobel é editor associado da Jacobin.

11 de março de 2025

Noam Chomsky e a alternativa socialista ao caos climático

A contribuição política mais conhecida de Noam Chomsky é sua crítica poderosa e duradoura à política externa dos EUA. Mas Chomsky também usou sua plataforma global para soar o alarme sobre a crise climática e traçar um caminho para longe do desastre.

Robert Pollin


Noam Chomsky falando durante uma coletiva de imprensa em Curitiba, Brasil, em 20 de setembro de 2018. (Heuler Andrey / AFP via Getty Images)

Se decidirmos levar a sério a posição consensual esmagadora de cientistas climáticos confiáveis, temos que aceitar que as mudanças climáticas representam uma ameaça verdadeiramente existencial à continuação da vida na Terra como a conhecemos.

Dada essa realidade, não é nem um pouco surpreendente que Noam Chomsky tenha se comprometido a educar o máximo possível o público global sobre a ciência básica por trás da crise climática, os fatores que produziram a crise e como promover um caminho viável para reverter a crise.

Também não é surpreendente que Chomsky entenda a crise como uma grave malignidade do capitalismo neoliberal contemporâneo e que, correspondentemente, o trabalho de revertê-la exigirá mobilização popular em massa para derrotar o neoliberalismo sob as bandeiras combinadas de justiça social e da sustentabilidade ecológica.

Claro, as contribuições profundamente impactantes das pesquisas de Chomsky, abrangendo mais de sete décadas, cobriram principalmente os campos da linguística, filosofia, psicologia e ciência cognitiva. Ele nunca afirmou ser um especialista em detalhes técnicos da ciência climática ou na economia da construção de um sistema alternativo de energia limpa.

Ao mesmo tempo, Chomsky, lendariamente, é um homem que “lê tudo”. E ele não lê meramente tudo. Em vez disso, ao longo de décadas, Chomsky demonstrou uma capacidade impressionante de absorver uma enorme variedade de material sobre questões sociais e políticas criticamente importantes. Ele é então igualmente capaz de explicar essas questões a milhões de leitores em todo o mundo por meio de sua combinação inigualável de paixão moral, rigor, profundidade de percepção, clareza, bem como — quando ele decide liberá-la — força retórica estimulante.

Essas são exatamente as qualidades que Chomsky trouxe para lidar com a crise climática. Suas contribuições são essenciais para entender a crise dentro do escopo completo de suas ramificações sociais, econômicas, políticas e ecológicas.

Um desafio único para a humanidade

Comecei a trabalhar com Chomsky nas questões climáticas em 2017. Naquela época, o jornalista progressista CJ Polychroniou, um amigo próximo de longa data, propôs que Chomsky e eu começássemos uma série de entrevistas escritas conjuntamente para o Truthout, cobrindo questões em torno do neoliberalismo e da crise climática.

Fiquei profundamente honrado e animado com esta oportunidade. Fui muito influenciado pelos escritos de Chomsky desde que eu era um estudante do segundo ano da faculdade (o que quer dizer, há muito tempo). Mas nós só nos encontramos pessoalmente brevemente algumas vezes e nunca tivemos nenhuma interação prolongada de qualquer tipo sobre qualquer assunto, muito menos qualquer colaboração ativa.

Nossa primeira entrevista conjunta foi publicada em outubro de 2017, e nossa colaboração continuou desde então, com nossa entrevista mais recente publicada em junho de 2023. Nosso projeto conjunto mais extenso é o livro de 2020, Climate Crisis and the Global Green New Deal: The Political Economy of Saving the Planet [Crise Climática e o novo New Deal Verde Global: A Economia Política de Salvar o Planeta]. Este pequeno livro também é estruturado em torno de uma série de perguntas que Polychroniou fez separadamente para Chomsky e para mim. Todas as citações diretas a seguir vêm das contribuições de Chomsky para esse livro.

O livro começa com Chomsky descrevendo a situação atual em termos diretos — ou seja, apropriadamente severos. Ele apresenta a crise climática como a “gêmea” da crise nuclear por ser “única na história humana”, pois ambos os perigos legitimamente colocam a questão de “se a sociedade humana organizada pode sobreviver em qualquer forma reconhecível”. Embora, como ele diz, “a história seja muito rica em registros de guerras horrendas, torturas indescritíveis, massacres e todos os tipos de abusos imagináveis ​​de direitos fundamentais”, a existência de uma força ameaçando com o fim da “vida humana organizada em qualquer forma reconhecível ou tolerável” é “inteiramente nova”.

Chomsky então se baseia em algumas descobertas importantes de pesquisas para documentar suas afirmações:

Nos aproximamos perigosamente das temperaturas globais de 120.000 anos atrás, quando os níveis do mar eram de 6 a 9 metros mais altos do que hoje. Perspectivas realmente inimagináveis, mesmo descontando o efeito de tempestades mais frequentes e violentas, que acabarão com qualquer destroço que reste. Um dos muitos desenvolvimentos ameaçadores que podem preencher a lacuna entre 120.000 anos atrás e hoje é o derretimento da vasta camada de gelo da Antártida Ocidental. As geleiras estão deslizando para o mar cinco vezes mais rápido do que na década de 1990, com mais de 100 metros de espessura de gelo perdidos em algumas áreas devido ao aquecimento do oceano, e essas perdas dobrando a cada década. A perda completa da camada de gelo da Antártida Ocidental elevaria os níveis do mar em cerca de cinco metros, submergindo cidades costeiras e com efeitos totalmente devastadores em outros lugares — as planícies baixas de Bangladesh, por exemplo. Apenas uma das muitas preocupações daqueles que estão prestando atenção ao que ocorre diante de nossos olhos.

Chomsky também enfatiza, no início do nosso livro, o imperativo da ação:

Os que vivem hoje decidirão o destino da humanidade — e o destino das outras espécies que estamos destruindo em um ritmo não visto há 65 milhões de anos, quando um enorme asteroide atingiu a Terra, encerrando a era dos dinossauros e abrindo caminho para alguns pequenos mamíferos evoluírem e se tornarem finalmente o clone do asteroide, diferindo de seu antecessor por poder fazer uma escolha.

Negacionismo climático: figuras vergonhosas

Chomsky é implacável em eviscerar algumas das principais figuras, no cenário dos EUA em particular, promovendo o negacionismo climático. Isso inclui o Partido Republicano contemporâneo, começando, é claro, com Donald Trump e seus acólitos, mas apenas começando por aí, já que a linha desprezível de negadores climáticos republicanos se estende a toda a gama de figuras importantes, incluindo os chamados “moderados”. Como ele escreve sobre as primárias republicanas de 2016:

Cada candidato negou que o que está acontecendo esteja acontecendo, ou disse que talvez esteja, mas não importa (a última mensagem veio dos “moderados”, o ex-governador Jeb Bush e o governador de Ohio, John Kasich). Kasich foi considerado o mais sério e sóbrio dos candidatos. Ele rompeu fileiras ao reconhecer os fatos básicos, mas acrescentou que “vamos queimar [carvão] em Ohio e não pediremos desculpas por isso”.

Isso é 100% de apoio para destruir as perspectivas de uma vida humana organizada, com uma figura respeitada assumindo a posição mais grotesca. Surpreendentemente, esse espetáculo inesperado passou batido, praticamente sem comentários (se é que houve algum) na grande mídia, um fato de não pouca importância em si mesmo.

Chomsky ressalta que os republicanos nem sempre foram negacionistas do clima. Eles também nem sempre se opuseram às políticas de proteção ambiental de maneira mais ampla. De fato, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA foi criada em 1971 sob o presidente republicano Richard Nixon. Ainda na campanha presidencial de 2008, a plataforma do Partido Republicano e seu indicado John McCain defendiam fortemente medidas para lidar com as mudanças climáticas.

Chomsky explica o que aconteceu com os republicanos após a campanha presidencial de McCain em 2008, focando apropriadamente no papel dos irmãos Koch, David e Charles. O patrimônio líquido combinado dos irmãos era de cerca de US$ 120 bilhões na época da morte de David em 2019, tornando-os duas das pessoas mais ricas do mundo naquele momento. Praticamente toda a sua riqueza estava vinculada à indústria de combustíveis fósseis.

Chomsky baseia-se no livro de 2019 de Christopher Leonard, Kochland: The Secret History of Koch Industries and Corporate Power in America [Kochlândia: A História Secreta das Indústrias Koch e o Poder Corporativo nos EUA], para defender sua posição:

Leonard descreve David Koch como um “negacionista definitivo”, cuja rejeição ao aquecimento global antropogênico foi profunda e sincera. Vamos deixar de lado as suspeitas de que isso pode ter algo a ver com o fato de que ele tinha uma imensa fortuna por trás desse negacionismo, talvez trilhões de dólares em perdas potenciais ao longo de um período de trinta anos ou mais se o negacionismo falhasse, estima Leonard. Vamos, no entanto, suspender a descrença e aceitar que as convicções foram inteiramente sinceras. Isso não seria nenhuma surpresa. John C. Calhoun, o grande ideólogo da escravidão, era sem dúvida sincero em acreditar que os cruéis campos de trabalho escravo do Sul eram um elemento necessário para uma civilização superior.

O negacionismo dos irmãos Koch foi muito além de meros esforços retóricos. Eles lançaram enormes campanhas para garantir que nada fosse feito para impedir a exploração dos combustíveis fósseis sobre os quais repousa sua fortuna. Como Leonard relata, “David Koch trabalhou incansavelmente, ao longo de décadas, para tirar o cargo de qualquer republicano moderado que propusesse regular os gases de efeito estufa”.

Nenhuma pedra foi deixada de lado: redes de doadores ricos, think tanks para mudar o discurso, um dos maiores grupos de lobby do país, a organização do que pode se passar por grupos de base indo de porta em porta, praticamente criando e moldando o Tea Party. […] O rolo compressor dos irmãos Koch se destaca em seu planejamento cuidadoso e no uso bem-sucedido dos imensos lucros que obtiveram poluindo a atmosfera global sem custo — uma mera “externalidade”, na terminologia comercial. Mas é simbólico do capitalismo selvagem que se torna cada vez mais evidente à medida que o projeto neoliberal que serviu tão bem à riqueza privada e ao poder corporativo fica ameaçado.

Resgates tecnológicos?

Na medida em que a indústria de combustíveis fósseis reconheceu a ameaça das mudanças climáticas — e todos esses reconhecimentos foram relutantes e anêmicos — não é de se surpreender que a indústria também tenha se fixado em seu próprio plano de ação favorito. Isso é, construir tecnologias de captura de carbono em uma escala global massiva. Essas são tecnologias cujo propósito é remover o carbono emitido da atmosfera e transportá-lo, geralmente por meio de oleodutos, para formações geológicas subterrâneas, onde seria armazenado permanentemente.

O plano seria que essas tecnologias permitissem que as corporações de combustíveis fósseis continuassem colhendo lucros por meio da venda de petróleo, carvão e gás natural. Isso aconteceria porque a captura de carbono permitiria que a produção de energia baseada em combustíveis fósseis prosseguisse sem necessariamente destruir o planeta como um efeito colateral infeliz. O único problema aqui é que essas tecnologias nunca conseguiram operar com sucesso em escala comercial, apesar de décadas de fanfarronice da indústria de combustíveis fósseis sobre o assunto.

Chomsky deixa claro que nem as tecnologias de captura de carbono, nem similares, são capazes de fornecer algo além de um fluxo desimpedido de lucros descomunais da indústria de combustíveis fósseis. Elas certamente não podem ser consideradas um caminho viável para a estabilização climática. Citando o trabalho do cientista climático da Universidade de Oxford Raymond Pierrehumbert, ele escreve que Pierrehumbert analisa “as possíveis correções técnicas e seus problemas muito sérios”, concluindo que não há “nenhum plano B”. Logo, “devemos avançar para emissões líquidas de carbono, e rápido”.

Ao mesmo tempo, Chomsky reconhece que não há como construir a nova infraestrutura global de energia limpa de que precisamos sem apoiar uma série de avanços tecnológicos nas áreas de eficiência energética, fontes de energia renováveis ​​e agricultura sustentável:

Há um amplo consenso sobre a necessidade de avançar em direção à eletrificação — que requer cobre, um recurso muito desperdiçado e que, sob a tecnologia atual, pelo menos, pode ser extraído apenas de maneiras ecologicamente muito prejudiciais. Tais enigmas são difíceis de evitar, mas isso não é motivo para não explorar agressivamente os tipos de tecnologia que parecem mais adequados para progredir em direção a um ecossistema sustentável e saudável. Há muito mais a ser feito. A produção industrial de carne, mesmo além de considerações éticas, não deve ser tolerada por causa de sua contribuição substancial para o aquecimento global. Temos que encontrar maneiras de mudar para dietas baseadas em vegetais derivadas de práticas agrícolas sustentáveis, o que não é uma tarefa trivial.

Países ricos, países pobres e justiça climática

Chomsky deixa claro que a responsabilidade de evitar uma catástrofe climática deve recair principalmente sobre os atuais países de alta renda, começando pelos Estados Unidos, mas incluindo Europa Ocidental, Japão, Canadá e Austrália, que queimam combustíveis fósseis desde meados do século XIX como base para atingir seus níveis atuais de riqueza.

Ainda mais importante, a responsabilidade deve recair principalmente sobre as pessoas mais ricas nessas sociedades — aquelas que mais se beneficiaram ao longo da longa era dos combustíveis fósseis. Como ele observa, a crise “só pode ser superada por esforços comuns do mundo inteiro, embora, é claro, a responsabilidade seja proporcional à capacidade, e princípios morais elementares exijam que uma responsabilidade especial recaia sobre aqueles que foram os principais responsáveis ​​por criar a crise ao longo dos séculos, enriquecendo a si mesmos enquanto criavam um destino sombrio para a humanidade”.

Mas essa perspectiva também leva a uma difícil questão associada. No espírito da justiça climática, os países de baixa renda devem ter permissão para continuar queimando combustíveis fósseis como base para seu crescimento econômico, assim como os países agora ricos fizeram para se tornarem ricos? Chomsky responde da seguinte forma:

Há alguma justiça nessa posição, à qual podemos acrescentar que os países pobres, que têm muito menos responsabilidade pela crise, são suas principais vítimas. […] No entanto, quando consideramos as consequências — para esses países em particular — seria suicídio para eles tomarem isso como uma razão para o atraso no enfrentamento da crise climática. A resposta correta, trazida aos acordos internacionais timidamente e de maneiras muito limitadas, é que os países ricos forneçam a assistência necessária para avançar em direção à energia sustentável.

A assistência necessária poderia ser fornecida de muitas maneiras, incluindo algumas muito simples que poderiam ter impacto considerável e dificilmente equivaleriam a um erro estatístico nos orçamentos nacionais. Para dar um exemplo, grande parte da Índia está se tornando quase insuportável devido a ondas de calor mais intensas e frequentes — atingindo 50 ºC no Rajastão no verão de 2019. Aqueles que podem pagar estão usando condicionadores de ar altamente ineficientes e severamente poluentes. Isso poderia ser facilmente corrigido. Quanto custaria aos países ricos ajudar as pessoas a pelo menos suportar o destino que impusemos a elas, em nossa loucura?

Para ter certeza, isso é o mínimo. Podemos certamente aspirar a muito mais, até mesmo ao dia em que for de entendimento comum que os mais vulneráveis ​​da sociedade nacional e internacional devem ser os principais objetos de preocupação, e quando as instituições tiverem passado por mudanças radicais para refletir e facilitar tal entendimento comum.

O que deve ser feito?

Claro, Chomsky e eu estamos totalmente alinhados na estrutura básica, bem como nos detalhes críticos do avanço de um projeto viável de estabilização climática. Não teríamos continuado nossa colaboração por seis anos se não fosse assim. Chomsky também seguiu amplamente minha liderança na elaboração dos detalhes técnicos relevantes, pois esse tem sido um foco importante de pesquisa para mim nos últimos quinze anos. Esses detalhes à parte, a estrutura básica de nossa abordagem conjunta é direta, incluindo estes pontos principais:

  1. As reduções nas emissões de gases de efeito estufa precisam atingir pelo menos a principal meta definida em 2018 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, ou seja, emissões próximas de zero até 2050. Isso requer a eliminação gradual dos combustíveis fósseis como fonte de energia até 2050, bem como a substituição de práticas agrícolas corporativas, incluindo o desmatamento, pela agricultura orgânica.
  2. Investimentos para elevar drasticamente os padrões de eficiência energética e expandir de forma igualmente drástica o fornecimento de energia solar, eólica e outras fontes de energia limpa e renovável precisam formar a vanguarda da transição para uma economia verde em todas as regiões do mundo. Esses investimentos em energia limpa se tornarão, por sua vez, novos motores importantes de criação de empregos em todo o mundo.
  3. A transição para a economia verde deve incluir medidas fortes para uma transição justa para trabalhadores e comunidades cujo bem-estar atualmente depende da indústria de combustíveis fósseis.
  4. Como observado acima, os custos desses investimentos e medidas de transição justa devem ser cobertos principalmente pelos países ricos e indivíduos ricos que mais se beneficiaram da era dos combustíveis fósseis.

Todas as partes deste projeto precisam estar operando em escala global agora. Não temos tempo para esperar o capitalismo neoliberal entrar em colapso e ser substituído pelo socialismo. Ao mesmo tempo, por meio da expansão em larga escala de boas oportunidades de emprego e do estabelecimento de generosas medidas de transição justa, o programa de estabilização climática também pode se tornar a base para uma agenda igualitária mais ampla que seja capaz de suplantar o neoliberalismo.

Junto com muitos outros, Chomsky e eu achamos que o termo “Green New Deal” capturou muito do espírito desse projeto abrangente. Mas, obviamente, o termo em si não é o ponto. O que importa é apresentar e se comprometer com um projeto que terá sucesso.

Para esse fim, Chomsky seriamente dá atenção às principais questões para a esquerda, incluindo como construir coalizões mais efetivamente entre movimentos trabalhistas e ambientais. Ele também avalia duas perspectivas de esquerda influentes sobre a crise climática, ou seja, decrescimento e ecossocialismo, e oferece sua perspectiva sobre questões de táticas específicas, bem como estratégias abrangentes na construção de um movimento climático o mais forte possível.

Chomsky descreve o trabalho do falecido líder trabalhista dos EUA, Tony Mazzocchi, como um exemplo poderoso de união dos interesses dos trabalhadores e dos ambientalistas:

É bom lembrar que um dos primeiros e mais proeminentes ambientalistas foi um líder sindical, Tony Mazzocchi, chefe do Oil, Chemical and Atomic Workers International Union (OCAW). Os membros de seu sindicato estavam na linha de frente, enfrentando a destruição do meio ambiente todos os dias no trabalho, e eram vítimas diretas do ataque corporativo às vidas individuais. Sob a liderança de Mazzocchi, o OCAW foi a força motriz por trás do estabelecimento em 1970 do Occupational Safety and Health Act (OSHA), protegendo os trabalhadores empregados, assinado pelo último presidente liberal estadunidense, Richard Nixon — “liberal” no sentido estadunidense, significando levemente social-democrata. 
Mazzocchi era um crítico severo do capitalismo, bem como um ambientalista comprometido. Ele defendia que os trabalhadores deveriam “controlar o chão de fábrica” enquanto também assumiam a liderança no combate à poluição industrial. […] O caminho que Mazzocchi tentou forjar — o trabalho militante como força motriz do movimento ambiental — não é um sonho perdido e deve ser buscado ativamente.

Chomsky fornece uma avaliação equilibrada do argumento do decrescimento:

Uma mudança para energia sustentável requer crescimento: construção e instalação de painéis solares e turbinas eólicas, climatização de casas, grandes projetos de infraestrutura para criar transporte público de massa eficiente e muito mais. Consequentemente, não podemos simplesmente dizer que “crescimento é ruim”. Às vezes, às vezes não. Depende de que tipo de crescimento. Devemos, é claro, ser todos a favor de um (veloz) “decrescimento” das indústrias de energia, instituições financeiras amplamente predatórias, o inchado e perigoso establishment militar e muito mais que podemos listar. Deveríamos estar pensando em como projetar uma sociedade habitável — exatamente como Bob tem feito. Isso envolverá crescimento e decrescimento, levantando muitas questões importantes. O equilíbrio disso depende de uma ampla gama de escolhas e decisões particulares.

Chomsky também é equilibrado ao considerar o ecossocialismo:

Até onde entendo o ecossocialismo — não em grande profundidade — ele se sobrepõe muito de perto a outras correntes socialistas de esquerda. Não acho que estamos em um estágio em que adotar um “projeto político” específico seja muito útil. Há questões cruciais que precisam ser abordadas agora mesmo. Nossos esforços devem ser baseados por diretrizes sobre o tipo de sociedade futura que gostaríamos de ver surgir, e que pode ser construída em parte dentro da sociedade atual de muitas maneiras, algumas já discutidas. É bom demarcar posições específicas sobre o futuro com mais ou menos detalhes, mas, por enquanto, essas me parecem, na melhor das hipóteses, maneiras de aguçar ideias em vez de plataformas para se agarrar. 
Um bom argumento pode ser baseado no fato de que características inerentes do capitalismo levam inexoravelmente à ruína do meio ambiente, e que acabar com a ordem capitalista deve ser uma grande prioridade do movimento ambientalista. Há um problema fundamental com esse argumento: escalas de tempo. Desmantelar o capitalismo é impossível dentro do prazo necessário para tomar medidas urgentes, o que requer uma grande mobilização nacional — na verdade, internacional — para evitar uma crise grave. 
Além disso, toda a discussão é enganosa. Os dois esforços — evitar desastres ambientais, desmantelar o capitalismo em favor de uma sociedade mais livre, justa e democrática — devem e podem prosseguir em paralelo. E podem ir bem longe com a organização popular de massa.

Levando as táticas a sério

Chomsky argumenta que não há uma abordagem tática geral que seja eficaz ou apropriada em todas as situações. Os ativistas precisam, em vez disso, prestar uma atenção cuidadosa às circunstâncias e à “natureza da ação planejada, as prováveis ​​consequências, da melhor forma que pudermos averiguá-las”. Ele considera essas questões em particular ao avaliar o papel que a desobediência civil pode desempenhar no avanço do movimento climático:

Estive envolvido em desobediência civil por muitos anos, de maneira intensa durante alguns períodos, e acho que é uma tática razoável — às vezes. Ela não deve ser adotada apenas porque alguém se sente forte em relação à questão e quer mostrar isso ao mundo. Essa tática pode ser adequada, mas não é suficiente. É necessário considerar as consequências. A ação é projetada de uma forma que incentive outros a pensar, a se convencer, a se juntar? Ou é mais provável que antagonize, irrite e faça com que as pessoas apoiem exatamente aquilo contra o qual estamos protestando? Considerações táticas são frequentemente denegridas — isso é para mentes pequenas, não para um cara sério e íntegro como eu. Muito pelo contrário. Análises táticas têm consequências humanas diretas. Elas são uma preocupação profundamente principista. Não é suficiente pensar: “Estou certo, e se os outros não conseguem ver, azar deles”. Tais atitudes frequentemente causam danos sérios.

De forma mais ampla, Chomsky expressa profundo respeito pelas conquistas que o movimento climático fez até o momento em todo o mundo. Ele também é enfático ao dizer que o movimento ainda tem tempo para atingir seu objetivo, ou seja, nada menos do que salvar o planeta do desastre. Concluirei com algumas das reflexões inimitavelmente estimulantes de Chomsky sobre essa questão:

Há países e localidades onde esforços sérios estão sendo empreendidos para agir antes que seja tarde demais. E não é tarde demais. A resposta à corrida louca para produzir mais meios de autodestruição é óbvia o suficiente, pelo menos em palavras; a implementação é outra questão. E ainda há tempo para mitigar a iminente catástrofe climática se um compromisso firme for assumido. Isso certamente não é impossível se os fatos puderem ser enfrentados. Em 1941, os EUA enfrentaram uma ameaça séria, embora incomparavelmente menor, e responderam com uma mobilização voluntária em massa tão avassaladora que impressionou muito o czar econômico da Alemanha nazista, Albert Speer, que lamentou que a Alemanha totalitária não pudesse igualar a subordinação voluntária à tarefa nacional nas sociedades mais livres.

Este trabalho foi possível graças ao apoio da Puffin Foundation.

Colaboradores

Robert Pollin é professor emérito de economia e codiretor do Instituto de Pesquisa em Economia Política (PERI) da Universidade de Massachusetts Amherst.

3 de fevereiro de 2025

A esquerda da Finlândia está lutando contra a extrema direita

A Aliança de Esquerda da Finlândia está unindo uma coalizão de esquerda para entregar uma refutação à austeridade de direita. O ex-líder Li Andersson descreve um manual vencedor que combina prioridades ambientais com direitos robustos dos trabalhadores.

Grace Blakeley

Jacobin

Li Andersson (à esquerda) recebeu o maior número de votos de qualquer candidato a eleição europeia na história da Finlândia. (Getty Images)

Li Andersson não é como a maioria dos políticos de esquerda. Ela é jovem, simpática, carismática e muito pé no chão. Ela também é muito boa em ganhar eleições.

Conheci Andersson no Käänne Festival — uma conferência que ela organizou para unir a esquerda após um excelente desempenho nas recentes eleições para o Parlamento Europeu. Enquanto a extrema direita obteve ganhos em grande parte do bloco, na Finlândia a esquerda contrariou essa tendência. A esquerda obteve 17% dos votos, e Andersson foi eleita MEP com mais votos do que qualquer candidato já recebeu em uma eleição para o Parlamento Europeu na Finlândia.

“Esta é a primeira vez que temos este festival”, ela me disse enquanto nos sentávamos no greenroom da conferência, acima de um restaurante movimentado no centro de Helsinque. “É realmente emocionante para mim.”

Andersson é a ex-liderança da Aliança de Esquerda, o principal partido de esquerda da Finlândia. A esquerda teve um bom desempenho nas eleições de 2019, ganhando 16 cadeiras e entrando em uma coalizão com o Partido Social Democrata (SDP). A coalizão foi liderada por uma das políticas mais conhecidas da Europa, Sanna Marin, do SDP, que você pode ter visto no noticiário depois que ela foi forçada a se desculpar por ir a uma balada durante a COVID-19.

Enquanto nos conversávamos, Andersson acenou para Marin com um sorriso caloroso. As duas tinham acabado de terminar um debate sobre a redução de horas de trabalho (junto com Will Stronge, da Autonomy). Noto a boa vontade que claramente existe entre Andersson e Marin com esse tema — é incomum que social-democratas e militantes da esquerda radical se deem tão bem hoje em dia.

As duas têm bastante em comum. Ambas são mulheres jovens, carismáticas e inteligentes, vistas como modernizadoras dentro de seus respectivos partidos. E elas têm algumas visões comuns quando se trata de política. Andersson participou na coalizão liderada por Marin como ministra da Educação e, na conferência, ambas pareciam muito interessadas na ideia da semana de trabalho de quatro dias.

O custo da austeridade

Andersson acredita que o último governo de esquerda não foi longe o suficiente para transformar a economia finlandesa em benefício dos trabalhadores, razão pela qual eles perderam o poder após a crise do custo de vida.

“Você pode ter lido o slogan ‘desemprego prejudica governos, inflação os mata’. Durante o último governo, nós não discutimos ferramentas para lidar com a inflação. Estávamos muito presos à política fiscal e não fazíamos perguntas como ‘usamos limites de preço?’”, disse ela.

Agora a direita está no poder novamente, em uma coalizão com o Partido Finlandês de extrema direita, impondo uma dura agenda de austeridade.

“A austeridade tem sido a principal forma de fazer política econômica desde a crise financeira de 2008. A única exceção desde 2011 foi a coalizão governamental que tivemos de 2019 a 2023″, lembrou ela.

“A fracassada agenda de austeridade estimulou a ascensão da extrema direita.”

“O argumento da direita é que temos que viver dentro de nossos meios; não podemos assumir mais dívidas. Mas, é claro, eles não conseguiram diminuir a taxa da dívida porque a austeridade derrubou o crescimento e aumentou o desemprego”, explicou ela.

A Finlândia é frequentemente colocada junto com os outros países nórdicos como uma economia com direitos trabalhistas sólidos e uma forte rede de segurança social. Mas, graças às políticas de sucessivos governos de direita, Andersson argumenta que essa caracterização não é mais justificada: “Acho que é justo dizer que não somos mais um país com modelo nórdico.”

Numa história que se repetiu inúmeras vezes por toda a Europa, a fracassada agenda de austeridade da direita encorajou a ascensão da extrema direita.

“O combustível para a extrema direita vem da desilusão. Da falta de visão, da falta de esperança. Quando você não tem alternativas confiáveis ​​para um futuro melhor, as pessoas voltam sua raiva e frustração para outros grupos”, explicou Andersson.

A diferença na Finlândia é que a extrema direita está realmente no poder. “Este é um lugar onde vimos exatamente o que a cooperação entre a direita e a extrema direita realmente significa. Eles impuseram cortes históricos na previdência social e na assistência médica e implementaram muitas reformas de direita no mercado de trabalho altamente criticadas.”

“Se você olhar para o resto da Europa, esses partidos ainda têm o luxo de se retratarem como a voz do povo. Mas aqui podemos realmente ver o que esses partidos fazem quando estão no poder. As pessoas sentiram o impacto de suas políticas. É apenas thatcherismo com racismo”, destacou ela.

Andersson compara a experiência finlandesa com a da Suécia, onde o partido de extrema direita se tornou, como ela diz, “o partido de apoio formal do governo”. Essa institucionalização está começando a corroer o apoio ao partido, cuja parcela de votos caiu nas recentes eleições europeias.

Reconstruindo o apoio

Andersson observa que tanto na Finlândia como na Suécia, os partidos mais bem posicionados para tirar partidos de extrema-direita da institucionalização são os novos partidos “vermelho-verdes” da esquerda.

“Fizemos o trabalho de criar uma alternativa de esquerda moderna para o maior número possível de eleitores. Combinamos política ambiental com ambiciosas políticas de redistribuição de renda, mas também fomos muito claros quando se trata de direito internacional e direitos humanos”, destacou ela.

A aliança de esquerda tem se concentrado muito em apoiar Gaza e Ucrânia. Andersson diz que a oposição à agressão russa, que é uma questão crítica na política finlandesa, a colocou em desacordo com alguns partidos da “velha esquerda” pela Europa. Mas ela é inflexível que a esquerda europeia tem que deixar de lado suas diferenças e tentar trabalhar em conjunto.

“Um tema realmente unificador para todos nós é desafiar esse modelo econômico quebrado. O mundo está em um estado tão terrível que precisamos construir coalizões amplas sobre os temas que nos unem. Às vezes, a esquerda tende a pensar que cooperação significa que temos que sentar e escrever uma resolução onde todos concordam com cada palavra, mas isso significa que você perde muito tempo e energia em coisas com as quais as pessoas não se importam.”

“Ela está particularmente focada em reformas no mercado de trabalho, como a valorização do salário mínimo e limitações nas horas de trabalho.”

Andersson é rigidamente focada nas coisas com as quais as pessoas se importam. Ela é extremamente bem versada em uma infinidade de questões políticas. Ao longo da nossa conversa, ela falou longamente sobre temas que vão desde a introdução da semana de trabalho de 37,5 horas na Espanha até a proposta de Isabella Weber de usar controles de preços para controlar a inflação.

Quando pergunto a ela sobre suas prioridades políticas, ela diz que o foco está em políticas que proporcionarão uma “vida profissional melhor”. Ela está particularmente focada em reformas no mercado de trabalho, como a valorização do salário mínimo e limitações nas horas de trabalho. Ela também enfatiza a importância de fortalecer os direitos dos trabalhadores, que foram corroídos por sucessivos governos.

“Aqui [o governo] restringiu o direito de greve. Queremos trabalhar para restabelecer o direito de greve, pois ele é muito fundamental. Também estamos trabalhando em questões que têm a ver com representação nas empresas e democracia empresarial”, lembrou ela.

Perguntei a ela como é o relacionamento do partido com os sindicatos que presumivelmente se beneficiariam dessas iniciativas políticas.

“No momento, está muito bom. Houve momentos em que esteve mais distante porque o Partido de Esquerda estava passando por essa transição de incorporar políticas ambientais em nossa agenda. Isso criou tensões com os sindicatos na época. Agora é uma situação muito diferente, porque acho que eles entenderam as implicações do desastre ambiental em que estamos vivendo. E por causa de tudo o que aconteceu [com o governo de extrema direita], agora temos muito em comum em termos de política.”

A alternativa

Essa tensão entre os partidos de esquerda modernos e o movimento trabalhista sobre o clima é um problema em todo o mundo (leia este livro para saber como os militantes estão superando essa divisão). Mas Andersson é inflexível no que ela chama de política “vermelho-verde” e garante que é o único caminho a seguir — por razões pragmáticas e ideológicas.

“Acabamos de receber a notícia de que a floresta finlandesa não é mais um sumidouro de carbono porque houve muita exploração madeireira. As florestas agora são uma fonte de emissões. E isso também é uma questão redistributiva, porque é uma fonte de lucro para a indústria madeireira, e as consequências serão pagas pelos contribuintes,” apontou ela.

Quando perguntei a ela sobre qual seria o maior desafio para a esquerda na Finlândia, ela falou sobre a aparente redução do campo “progressista” pela Europa. Claro, os partidos de esquerda finlandeses se saíram bem nas recentes eleições europeias, mas isso ocorreu em um contexto de ressurgimento da direita.

“Acho que a Finlândia deveria ser usada como exemplo fora de nossas próprias fronteiras. Espero que não vejamos em outros países a extrema direita chegando ao poder, então deveríamos usar o exemplo finlandês para ajudar as pessoas a entender que as políticas da direita não apoiam trabalhadores e aumentam a igualdade. E a esquerda precisa continuar trabalhando em propostas para um modelo econômico alternativo. Precisamos ser corajosos nisso.”

Publicado primeiramente na Tribune.

Colaborador

Grace Blakeley escreve na Tribune Magazin e é apresentadora do podcast semanal A World to Win.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...