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16 de janeiro de 2021

Israel se recusa a dar vacinas contra a COVID-19 aos palestinos

Israel foi elogiado por lançar uma campanha agressiva de vacinação contra o coronavírus. Há apenas um problema: eles estão excluindo os palestinos nos territórios ocupados.

Belén Fernández


Profissionais da saúde vacinam membros da área médica contra COVID-19 no Centro Médico Sourasky de Tel Aviv em 20 de dezembro de 2020 em Tel Aviv, Israel. (Amir Levy / Getty Images)

Tradução / No primeiro dia do ano novo, a Bloomberg publicou um artigo opinativo de Daniel Gordis – vice-presidente sênior do Shalem College de Jerusalém – intitulado “O milagre da vacinação traz Israel de volta às suas raízes”.

O “milagre” em questão se refere à campanha agressiva de vacinação contra o coronavírus em Israel, graças à qual lidera, atualmente, o mundo em vacinações per capita. E enquanto as “raízes” literais de Israel residem no desenraizamento e massacre de palestinos, Gordis prefere uma versão mais mitológica do passado israelense: “raízes socialistas primitivas” que cultivaram um “senso de coesão social e destino compartilhado”, uma nação que se via “como uma família” e que sabia “como se unir ao enfrentar um inimigo mortal”.

Gordis viu seu próprio “Israel do passado” na arena esportiva em Jerusalém, onde foi administrada a vacina: “Olhei nos olhos de outras pessoas que esperavam, seus rostos escondidos atrás de suas máscaras, poderia dizer que não fui o único dominado por um profundo sentimento de gratidão por fazer parte deste país.” O antigo Israel também foi incorporado pelo “pequeno exército de enfermeiras e técnicos médicos injetando uma pessoa após a outra com total eficiência”.

Eficiente ou não, a campanha de vacinação apenas ressaltou como as raízes de Israel estão amarradas a opressão palestina: os quase 5 milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia ocupada por Israel e na Faixa de Gaza estão sendo criminalmente excluídos do programa. Conforme observa a Amnistia Internacional, o artigo 56 da Quarta Convenção de Genebra exige que os poderes de ocupação garantam e mantenham “os estabelecimentos e serviços médicos e hospitalares, a saúde pública e a higiene no território ocupado, com particular referência à adoção e aplicação de medidas profiláticas e medidas preventivas necessárias para combater a propagação de doenças contagiosas e epidemias”.

Não que Israel já tenha feito muito pelos serviços e postos médicos palestinos. Junto com bombardeios de hospitais, ambulâncias e equipes médicas, Israel impôs um bloqueio paralisante em Gaza nos últimos 13 anos que impede a importação de equipamentos e suprimentos médicos necessários. Mesmo antes da pandemia, o sistema de saúde do enclave já estava à beira do colapso. Os israelenses invocam os Acordos de Oslo ao afirmar que os palestinos são responsáveis por escolher suas próprias vacinas, mas isso é como cortar as pernas de uma pessoa e depois mandá-la pular corda.

De acordo com o jornal britânico The Independent, Israel rejeitou um “apelo informal” da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ajudar a vacinar os trabalhadores de saúde palestinos, quase 8 mil dos quais foram infectados com COVID-19. O Wall Street Journal, por sua vez, relata que Israel comprou 8 milhões de doses da vacina Pfizer, 6 milhões da variante Moderna e 10 milhões de doses da Oxford-AstraZeneca. (A necessidade do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu de reabilitar sua imagem manchada antes das próximas eleições provavelmente tem algo a ver com a essa postura irresponsável.)

Não é nada chocante, neste mundo encantadoramente capitalista, que os países ricos estejam recebendo vacinas enquanto os países pobres estão se ferrando. No entanto, dá ânsia de vômito ler que Israel está vacinando colonos judeus ilegais “dentro da Cisjordânia“, enquanto 2,7 milhões de palestinos na Cisjordânia estão condenados a total insegurança (ou, pior, um estado de insegurança ainda mais letal do que quando Israel estava simplesmente matando palestinos e destruindo suas casas).

A OMS estima o número total de casos de coronavírus nos territórios palestinos ocupados em mais de 160.000, com mais de 1.700 mortes. De acordo com o Ministério da Saúde Palestino em Gaza, o diminuto território responde por quase 47.000 dos casos e mais de 460 das fatalidades.

Muitas vezes descrita como a “maior prisão a céu aberto do mundo”, Gaza é um dos lugares mais densamente povoados da Terra, e as condições abarrotadas e pouco higiênicas nas quais Israel forçou a população a viver em um local ideal para a propagação do vírus. No início de dezembro, quando o vírus saiu de controle e Gaza ficou sem oxigênio, leitos de UTI e testes de coronavírus – além de todas as faltas habituais relacionadas ao bloqueio e frequente falta de eletricidade – o Ministro da Saúde declarou ser a “pior crise de saúde que já enfrentamos”.

O programa COVAX liderado pela OMS se comprometeu a ajudar os palestinos na vacinação de uma parte de sua população; no entanto, não está claro em que ponto no futuro distante isso pode acontecer de forma realista. Parece que seria do interesse de Israel fornecer vacinas aos palestinos, visto que dezenas de milhares deles, como sabemos, trabalham em Israel.

Mas, é claro, as autoridades israelenses descobriram que é politicamente conveniente retratar os palestinos como uma doentes e a era do coronavírus já proporcionou a Israel muitas oportunidades empolgantes para aperfeiçoar sua capacidade de vigilância estatal para atropelar as liberdades civis. Por exemplo, o Shin Bet, a agência de segurança interna de Israel, foi encarregada de “caçar” pessoas suspeitas de exposição ao COVID-19 usando medidas e tecnologia de contraterrorismo.

Perto do fim deste artigo repleto de baboseiras publicado na Bloomberg, Gordis conta uma história comovente sobre um médico árabe da Galiléia que disse ao amigo de Gordis o seguinte: “Normalmente, quando Israel vai para a guerra, não estamos no Exército e não podemos ajudar. Mas desta vez, Israel foi para a guerra novamente e nós árabes temos que ser soldados também!” O leitor da Bloomberg pode concluir que os árabes israelenses estão inteiramente satisfeitos em serem cidadãos de Israel de segunda classe, exceto quando isso significa que eles não podem ajudar Israel a matar seus companheiros árabes.

Não há como negar: a guerra de Israel contra o coronavírus é também uma guerra contra os palestinos. E não há nada de milagroso no coronapartheid.

Sobre a autora

Belén Fernández é a autora de The Imperial Messenger: Thomas Friedman at Work (O Mensageiro Imperial: Thomas Friedman no Trabalho), Marytrs Never Die: Travels through South Lebanon (Mártires Nunca Morrem: Viagens pelo Sul do Líbano) e, mais recentemente, Exile: Rejecting America and Finding the World (Exílio: Rejeitando a América e Descobrindo o Mundo). Ela é editora colaboradora da Jacobin.

8 de abril de 2020

Israel já tornou Gaza inabitável. Agora o coronavírus está chegando

O bloqueio de Gaza por Israel transformou a faixa de terra na "maior prisão ao ar livre do mundo". E agora o enclave superlotado tem seus primeiros casos confirmados de COVID-19.


Belén Fernández

Jacobin

Um homem usando uma máscara no meio do surto global de coronavírus olha através de uma cerca enquanto espera os palestinos retornarem do exterior, na fronteira de Rafah com o Egito, no sul da Faixa de Gaza, em 8 de março de 2020. Foto de Ibraheem Abu Mustafa / Reuters.

Tradução / Em 2012, as Nações Unidas previram que a Faixa de Gaza seria “inabitável” até 2020 – isso não quer dizer, é claro, que tivesse sido particularmente habitável em qualquer ponto da história recente. Agora sob ocupação israelense por mais de cinco décadas – esqueça a retirada que não aconteceu, em 2005 – o pequeno enclave costeiro palestino superlotado também sofre um bloqueio sufocante desde 2007.

O desemprego e a insegurança alimentar são galopantes, e 97% da água potável de Gaza é considerada perigosa. Os cortes de energia são contínuos. Os equipamentos de saúde e remédios são escassos, e os palestinos que necessitam de tratamento médico fora de Gaza tem que pedir permissão regularmente para passar pelas autoridades israelenses – que, é importante mencionar, geralmente são diretamente responsáveis ​​pelas condições que requerem tratamento em primeiro lugar, como quando os militares israelenses mutilaram manifestantes palestinos em massa em 2018–19. A situação sombria da assistência médica é pior que qualquer outro país pelo hábito de Israel de bombardear hospitais e matar equipe médica.

O que acontece, então, quando você adiciona coronavírus neste caldeirão? Parece que estamos prestes a descobrir.

Em 22 de março, Gaza confirmou seus dois primeiros casos de COVID-19, levando a organização israelense de direitos humanos B’Tselem a alertar que a propagação do vírus na Faixa “será um desastre maciço, resultante inteiramente das condições únicas criadas por mais de uma década de bloqueio israelense”. Dado que o sistema de saúde de Gaza “já está à beira do colapso”, o grupo prevê um “cenário de pesadelo” – que Israel “criou e não fez nenhum esforço para impedir”.

Os dois casos iniciais de coronavírus foram palestinos retornando a Gaza do Paquistão. Mais sete casos foram relatados em sequência entre os guardas de segurança alocados nas instalações de quarentena onde os repatriados estavam detidos, e um caso adicional já foi confirmado.

A ​Al Jazeera ​escreve que os dois milhões de habitantes de Gaza foram “estimulados a tomar medidas de precaução e praticar o distanciamento social, ficando em casa em uma tentativa de impedir a propagação do vírus”. Mas como as pessoas deveriam distanciar-se socialmente em um espaço tão lotado que mal há espaço para respirar? E que tipo de trauma psicológico ocorrerá quando uma população já traumatizada for forçada a se aprisionar na “maior prisão ao ar livre do mundo“?

Em 2012, a ONU previu a inabitabilidade iminente da Faixa de Gaza – um território formado principalmente por refugiados palestinos e cada vez mais cercado por Israel – o então porta-voz da Oxfam Karl Schembri fez a pergunta apropriada: “Como você pode falar sobre intervenções diante do estresse pós-traumático em Gaza quando as pessoas ainda estão em constante estado de trauma?”

Ele fez referência aos jovens traumatizados após a Operação Chumbo Fundido de 2008–9 onde Israel matou mais de 1.400 palestinos em Gaza, incluindo mais de 300 crianças. Isso foi seguido pela – entre outras exibições homicidas – pela Operação Pilar Defensivo em novembro de 2012, no qual as forças armadas israelenses eliminaram quase 200 palestinos, e a Operação Margem Protetora em 2014, na qual mataram 2.251 palestinos (incluindo 551 crianças).

Desnecessário dizer que os serviços de atendimento psicológico estão entre os serviços médicos em falta na Faixa de Gaza. E, assim como nos bombardeios israelenses, é certo que a chegada do coronavírus produzirá tormento psicológico em uma área ultra confinada, onde até a ideia de fuga física é geralmente impossível.

Como o acadêmico israelense Neve Gordon se pergunta no The Nation: “como os 113.990 refugiados que vivem no campo de Jabalia [de Gaza], que cobre uma área de apenas 800 metros quadrados, podem manter distância física um do outro?” Há também o caso do campo de Al-Shati, onde “a densidade é ainda pior, com 85.628 refugiados em uma área de 0,2 milhas quadradas” e apenas um único centro de saúde e centro de distribuição de alimentos.

O resultado, segundo Gordon, é que “dentro dos oito campos de refugiados de Gaza, os sistemas organizados para salvar vidas – assistência médica e suprimento de comida – se tornarão, sem dúvida, gargalos letais para o mortal” coronavírus.

Certamente, os pedidos pelo fim do cerco israelense a Gaza – a única coisa justa e sensata a se fazer, especialmente neste período de pandemia global – ressoarão em ouvidos surdos. Pode-se contar com a maioria do público israelense para endossar qualquer tipo de mortalidade que possa acontecer aos palestinos, e os Estados Unidos podem confiar nas políticas assassinas de Israel em Gaza através de bilhões de dólares em ajuda e insistência perene de que Israel tem o direito em “defender-se” contra os palestinos que estão sendo massacrados. Portanto, o governo de Israel se sente confortável para bombardear Gaza sem parar, com coronavírus ou não.

Enquanto isso, um editorial recente do Jerusalém Post intitulado “Bom trabalho, Israel” afirma que “todos” em Israel deveriam “dar um tapinha nas costas” por sua resposta exemplar ao coronavírus no país, apesar do fato de que os ultra-ortodoxos “e setores árabes… estão demorando mais para internalizar a urgência e seriedade que o vírus apresenta e os que não seguirem as diretrizes terão que lidar com a morte”.

Afinal, não há melhor momento como o atual para uma boa dose de racismo contra palestinos que há muito tempo são tratados por Israel como uma doença.

O ​Post e​nfatiza ainda que “estamos em guerra” contra o coronavírus e que “somente com unidade e perseverança poderemos derrotar esse inimigo invisível”. Mas, visto que os habitantes da já inabitável prisão ao ar livre, repentinamente enfrentam as consequências catastróficas de uma guerra biológica infligida por um inimigo israelense muito visível, é claro que nenhum tapinha nas costas trará ordem – apenas condenação global e mais uma denuncia para colocar o fim no escandaloso bloqueio.

Sobre o autor

Belén Fernández é a autora de The Imperial Messenger: Thomas Friedman at Work (O Mensageiro Imperial: Thomas Friedman no Trabalho), Marytrs Never Die: Travels through South Lebanon (Mártires Nunca Morrem: Viagens pelo Sul do Líbano) e, mais recentemente, Exile: Rejecting America and Finding the World (Exílio: Rejeitando a América e Descobrindo o Mundo). Ela é editora colaboradora da Jacobin.

30 de dezembro de 2019

Israel está finalmente sendo investigado por crimes de guerra

Depois de muita enrolação, o Tribunal Penal Internacional está investigando Israel por crimes de guerra contra os palestinos nos últimos cinco anos. Está muito atrasado.

Belén Fernández


A promotora-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Fatou Bensouda, fazendo um discurso durante a 18ª sessão da Assembléia dos Estados Parte da CCI, realizada em Haia, Holanda, em 2 de dezembro de 2019. Foto: Abdullah Asiran / Agência Anadolu via Getty

Tradução / Em 20 de dezembro, o Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia anunciou que a promotora Fatou Bensouda estava "satisfeita por haver uma base razoável para iniciar uma investigação sobre a situação na Palestina". "Há uma base razoável para acreditar que crimes de guerra foram cometidos ou estão sendo cometidos na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza."

Claro, isso deveria ser óbvio - e mesmo assim levou quase cinco anos (um “exame preliminar” da situação foi aberto em janeiro de 2015) para que o TPI chegasse à conclusão de que “não há razões substanciais para acreditar que uma investigação não serviria aos interesses da justiça”. E, no entanto, os palestinos estão esperando há mais de setenta anos por justiça, então, comparado a isso, talvez cinco seja até pouco.

Não que a “justiça” seja um resultado garantido nos empreendimentos jurídicos internacionais que muitas vezes equivalem a charadas torturantemente burocráticas. Tampouco, é importante ressaltar, a investigação da Palestina recebeu sinal verde oficialmente - Bensouda está primeiro buscando confirmação de que a jurisdição do tribunal se aplica ao território em questão. Enquanto a Palestina é signatária do TPI, Israel - assim como seu “BFF”, os Estados Unidos - não é.

Além disso, a investigação proposta analisaria não apenas as alegações de crimes de guerra israelenses, mas também palestinos – um fato que foi cuidadosamente ignorado na reação tipicamente escandalosa de Israel ao anúncio do TPI. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu soou o bom e velho alarme do antissemitismo, enquanto classificava a decisão do TPI como “infundada e escandalosa” e “um dia sombrio para a verdade e para a justiça”. O rival de Netanyahu, Benny Gantz, ex-chefe das forças armadas israelenses, afirmou que “o exército israelense é um dos mais morais do mundo” e que “o exército israelense e o Estado de Israel não cometem crimes de guerra”. Caso encerrado.

A investigação do TPI sobre a “situação na Palestina” remonta apenas a 13 de junho de 2014 e inclui várias alegações de crimes de guerra durante a Operação Margem Protetora de Israel, no verão de 2014, na Faixa de Gaza. Essa incursão em particular matou cerca de 2.251 palestinos em questão de cinquenta dias, a maioria deles civis; 551 eram crianças. Seis civis israelenses morreram.

Também prevista para talvez investigação, está a brutal repressão militar israelense de manifestantes palestinos que participaram da Grande Marcha do Retorno, que começou em 2018 e resultou na morte de mais de 200 pesssoas, incluindo mais de 40 crianças, e em milhares de pessoas feridas. Na opinião do TPI, há também uma “base razoável para acreditar que, no contexto da ocupação de Israel na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, membros das autoridades israelenses cometeram crimes de guerra … relacionados, entre outros, com a transferência de civis israelenses para a Cisjordânia.”

Em outras palavras, esse é um compromisso judicial relativamente suave, considerando que nas últimas mais de sete décadas o Estado de Israel constituiu - em termos de massacres e usurpação territorial – essencialmente um crime de guerra contínuo.

Em 27 de dezembro, o Jerusalem Post exibiu em sua manchete um artigo de opinião com um tom estranhamente racional "To counter the ICC, Israel needs leadership that truly wants peace" - que continuou soando racional por uma fração de segundo até se descobrir que o autor da intervenção não foi outro senão o ex-primeiro ministro israelense Ehud Olmert, que comandou:

  1. A guerra de Israel no Líbano em 2006, que matou cerca de 1.200 pessoas em 34 dias, a maioria civis.
  2. A operação de Israel em Gaza em 2006 - de codinome "Chuva de Verão" - que deixou mortos pelo menos 240 palestinos em dois meses, entre eles 48 crianças.
  3. A operação de Israel em 2008-2009 em Gaza, que resultou na morte de cerca de 1.400 palestinos em três semanas, incluindo mais de trezentas crianças.

Crimes de guerra? Conte-me mais sobre isso.

Em seu artigo errático, Olmert afirma que as ações de Bensouda estariam “baseadas em maldade, malícia, fraude e distorção, com uma pitada de sentimento anti-Israel”. Ele então admite que o estado de Israel “tem controlado a vida de milhões de palestinos por mais de 50 anos, e não há dúvida de que os palestinos não têm direitos iguais ou reconhecimento nacional na terra onde são maioria.”

Mas ainda assim, “o lado responsável por frustrar um acordo de paz” teria sido “indiscutivelmente os palestinos”. Porém, “não há como negar que nos últimos 10 anos, Israel tem sido o lado agressivo e teimoso que carece de flexibilidade, e isso é [a] principal razão pela qual não apenas um acordo de paz nunca foi alcançado, mas sequer foram iniciadas as primeiras discussões. Contudo, "somente se os palestinos estiverem preparados para tomar as medidas políticas de longo alcance, necessárias para estabelecer uma sociedade produtiva e funcional, haverá alguma chance de se alcançar a paz entre Israel e os palestinos."

O artigo segue nessa toada - e o único ponto fundamental é que Ehud Olmert não deveria escrever artigos de opinião se ele não souber qual é a sua opinião.

Outro artigo de opinião no Jerusalem Post publicado no mesmo dia - "Recusando jogar o jogo palestino do TPI" - é bem mais seguro em suas convicções. Nele, Nitsana Darshan-Leitner discute como "o TPI e a ameaça de investigações de crimes de guerra são apenas a versão mais recente da OLP da diplomacia de galho-e-pistola [de oliveira] de Arafat [último líder da OLP]." Só estaria acontecendo porque "Bensouda estava cansada de perseguir ditadores africanos e líderes tribais brutais, e queria mostrar que o TPI é um tribunal com alcance verdadeiramente internacional". Portanto, não haveria "nada mais sexy" para ela do que o conflito Israel-Palestina.

A biografia de Darshan-Leitner a identifica como uma "advogada israelense de direitos civis e presidente do Centro de Direito Shurat HaDin" - a instituição que é conhecida por oferecer excursões como a “Última Missão de Israel”, na qual pessoas com muita grana pra gastar podem fazer coisas emocionantes, como assistir a um “julgamento de terroristas do Hamas” em um tribunal militar israelense.

Quanto ao que a "lei" tem a ver com um país que se colocou inquestionavelmente acima dela, talvez a busca por justiça pelo "TPI", ainda que longe de perfeita, pelo menos pode ajudar a destacar a aversão que Israel sente por esse conceito.

Colaborador

Belén Fernández é a autora de The Imperial Messenger: Thomas Friedman at Work (O Mensageiro Imperial: Thomas Friedman no Trabalho), Marytrs Never Die: Travels through South Lebanon (Mártires Nunca Morrem: Viagens pelo Sul do Líbano) e, mais recentemente, Exile: Rejecting America and Finding the World (Exílio: Rejeitando a América e Descobrindo o Mundo). Ela é editora colaboradora da Jacobin.

21 de julho de 2018

A nova velha discriminação de Israel

A mensagem da nova lei de “nação nacional” de Israel é tão simples quanto repugnante: os palestinos não precisam existir.

Belén Fernández


Bandeiras israelenses tremulam sobre o prédio parlamentar do país. James Emery / Flickr

Tradução / Na quinta-feira (19 de julho), o parlamento israelense aprovou uma nova lei estabelecendo Israel como a “Estado-nação do povo judeu”. O consenso até agora na mídia de elite sempre astuta é que a medida foi “controversa“.

O site do Jerusalem Post fornece o texto em inglês da legislação, que estipula que “a realização do direito de autodeterminação nacional no estado de Israel é unicamente para o povo judeu”. Em outras palavras, os palestinos não precisam existir .

Outras pedras preciosas do texto incluem a afirmação de que “o estado vê o assentamento judaico como um valor nacional e trabalhará para encorajar e promover seu estabelecimento e desenvolvimento”. O New York Times especulou cuidadosamente que essa previsão poderia “possivelmente ajudar… aqueles que gostariam de ver avançar políticas discriminatórias de alocação de terras”. A lei também rebaixa o árabe de idioma oficial para um com “status especial no estado”.

Enquanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu celebrou a aprovação da lei como “um momento crucial nos anais do sionismo e do Estado de Israel”, outros sionistas foram bem menos calorosos. O Times of Israel registrou a posição do rabino Rick Jacobs, presidente da proeminente União pela Reforma do Judaísmo nos Estados Unidos, que lamentou: “O dano que será feito por essa nova lei do Estado-nação à legitimidade da visão sionista e aos valores do estado de Israel como uma nação democrática – e judaica – é enorme”.

Jacobs está, sem dúvida, correto, mas parece que tal legitimidade já foi definitivamente esmagada pelo hábito recorrente de Israel de abater os palestinos desarmados e tomar suas terras. De fato, o tumulto sobre a nova lei obscurece a realidade de que não há realmente nada de novo nisso.

Ben White, autor de Israel Apartheid: A Beginner’s Guide (O apartheid em Israel: um guia para iniciantes), apontou em artigo no Middle East Eye que “qualquer lei discriminatória já estava nos livrose as formas legais de criar comunidades segregadas em Israel já existiam”. Não só existe “direito zero à igualdade” no país, como a legislação israelense “já privilegia a proteção de um ‘Estado judeu’ sobre a igualdade para cidadãos não-judeus”.

O banco de dados on-line sobre leis discriminatórias, administrado pela Adalah — Centro Jurídico dos Direitos das Minorias Árabes em Israel — conta 65 leis israelenses que discriminam direta ou indiretamente palestinos. Na lista estão temas como “Sentenças mínimas obrigatórias para atiradores de pedras condenados”, “Lei antiboicote – Prevenção de danos ao Estado de Israel por meio de boicote” e a charmosa “Lei Nakba – Emenda n. 40 à Lei de Orçamentos para Fundações”.

A “Lei Nakba”, relata o site da Adalah, está em vigor desde 2011 e “autoriza o ministro das Finanças [de Israel] a reduzir o financiamento estatal ou apoio a uma instituição que realizar uma atividade que rejeite a existência de Israel como ‘Estado judeu e democrático’ ou escolhe marcar o aniversário da fundação de Israel como um “dia de luto”.

Desde o começo, o objetivo primordial de Israel tem sido apagar a identidade palestina como um meio de usurpar a terra; vale recordar a teoria da ex-primeira-ministra israelense Golda Meir, apresentada em 1969, de que “não existiu essa coisa de palestinos… Eles não existiram”. No entanto, é bem mais fácil dizer do que fazer desaparecer todo um povo que não deseja ser eliminado — daí, talvez, a utilidade dos massacres militares israelenses periódicos.

A nova lei é uma continuação da praxe israelense de tentar fazer os palestinos desaparecerem. A renomada autora palestino-americana Susan Abulhawa afirmou que a legislação reflete a decisão de Israel de “formalizar seu Apartheid”, o que levou o Facebook a compor um inventário dos alardeados privilégios da “democracia” de Israel — onde “todos votam (exceto um milhão de não-judeus nativos sob o regime militar judaico)” e os comitês de bairros obedientemente “garantem que não-judeus não comprem ou aluguem imóveis em bairros judeus”.

O resultado da lei, escreveu Abulhawa, é que “os não-judeus nativos não são humanos o suficiente para receberem o direito humano de autodeterminação” e que “se eles escolherem viver em sua terra natal”, deverão existir à mercê dos conquistadores.

Quanto aos refugiados palestinos e seus descendentes, é claro que eles não têm a opção de escolher morar em sua terra natal, pois o direito de retorno é reservado para pessoas de orientação judaica que não possuem qualquer conexão com a terra em questão. (Mesmo que o judaísmo nem sempre garanta que você em estará casa de graça no Estado-nação, como aconteceu com as judias etíopes, que foram obrigadas a tomar anticoncepcionais).

As recriminações da comunidade internacional sobre a lei “polêmica” e a iminente erosão da democracia em Israel provavelmente serão tão eficazes quanto a denúncia contínua dos assentamentos ilegais de Israel — que simplesmente entrou no reino dos ruídos de fundo, incapaz de impedir a remessa anual de bilhões de dólares de ajuda militar dos EUA a Israel.

Mas, enquanto Israel pode continuar liderando a indústria de criação de fatos, o terreno pode estar menos firme do que aparenta. Especialmente se, como Abulhawa espera, Israel estiver “cavando seu próprio túmulo”.

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