Mostrando postagens com marcador Dave Braneck. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dave Braneck. Mostrar todas as postagens

8 de junho de 2026

Os Estados Unidos levam a Copa do Mundo a um novo patamar de decadência

Outros países-sede recentes da Copa do Mundo usaram o esporte para embelezar sua imagem. Mas Donald Trump não está tanto usando o esporte para "lavar a imagem", e sim aproveitando a Copa do Mundo para demonstrar a capacidade dos Estados Unidos de discriminar outras seleções e seus torcedores.

Dave Braneck

Jacobin

O presidente Donald Trump recebe o Prêmio da Paz da FIFA durante o sorteio em Washington, DC, em dezembro passado. (Hector Vivas - FIFA/FIFA via Getty Images)

Resenha do livro Red card: The 2026 World Cup, sportswashing, and the FIFA greed machine, de Jules Boykoff (OR Books, 2026).

Os hipócritas, aproveitadores e bilionários que massageiam seus próprios egos definem tão fortemente o segundo mandato de Donald Trump que podemos facilmente esquecer que associar-se abertamente a ele costumava ser algo controverso. Ainda assim, relembrar sua posse nos faz recordar o que já era surpreendente naquela época e o que ainda estava por vir.

Naquele dia de janeiro, estavam presentes gigantes da tecnologia como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sam Altman e Jeff Bezos. Também marcaram presença ícones e influenciadores esportivos trumpistas como Jake e Logan Paul, Conor McGregor, o CEO do Ultimate Fighting Championship, Dana White, e Joe Rogan. Havia até mesmo um quarteto de ex-presidentes um tanto perplexos. Mas, entre todos eles, destacava-se uma figura brilhante que a maioria dos estadunidenses provavelmente não reconheceria: o presidente da FIFA, Gianni Infantino.

O dirigente esportivo ítalo-suíço pode ser relativamente anônimo, mas isso mascara sua importância global. Infantino, que se aproximou notavelmente de Trump nos últimos anos, ajudou a transformar a próxima Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, em um circo dominado por Trump. A Copa do Mundo de 2026 será um novo ponto baixo para o esporte, representando uma clara síntese tanto da abordagem de Trump em relação ao sportswashing quanto da degradação da FIFA.

Segundo o professor e escritor Jules Boykoff, “Infantino trata os Estados Unidos como uma fonte privada de dinheiro para a FIFA, enquanto Trump infla a própria importância, exibindo sua arrogância no maior e mais assistido evento esportivo do planeta, aproveitando-se do brilho do futebol”.

O novo livro de Boykoff, Red card, é um guia prático para quem tenta entender como a Copa do Mundo se tornou um caos e o que isso revela sobre o crescente autoritarismo no esporte e na política mundial. Embora a subserviência da FIFA a Trump tenha sido amplamente noticiada, Boykoff — que também contribui ocasionalmente para a revista Jacobin — analisou minuciosamente cada um dos enojantes escândalos e fraudes. É um livro útil tanto para quem acompanha de perto o show de Trump e Infantino quanto para quem tem preferências esportivas estadunidenses mais tradicionais e precisou pesquisar rapidamente o termo “Copa do Mundo” na Wikipédia antes do início da competição.

Personificação dos esportes

É verdade que Trump muitas vezes se comporta como se estivesse mais à vontade comentando os looks de celebridades no tapete vermelho do que um evento esportivo (embora, como Boykoff observa, ele tenha passado um em cada quatro dias de seu segundo mandato jogando golfe). Ainda assim, o presidente certamente demonstrou astúcia em aproveitar a popularidade dos esportes sempre que possível.

“Como Trump é um megalomaníaco com um estilo de governar grosseiro e transacional e zero compromisso com a verdade, ele está em uma posição privilegiada para explorar o gangsterismo tóxico do esporte”, escreve Boykoff. Embora os laços já estabelecidos de Trump com o MMA e a luta livre, bem como a astuta apropriação da glória do hóquei olímpico, tenham se tornado elementos fundamentais de sua política interna, sediar a Copa do Mundo representa um passo adiante em sua trajetória no cenário global.

Trump não priorizou exatamente manter a imagem de bom anfitrião. Como tantas vezes acontece quando nos deparamos com citações diretas de Trump, ou mesmo com descrições sóbrias e factuais de suas ações, o relato de Red card sobre a incursão de Trump no futebol mundial é vertiginoso. É um fato inédito para a Copa do Mundo que um país anfitrião (os Estados Unidos) tenha iniciado uma guerra com um país participante (o Irã) e sequer tenha se comprometido a garantir a segurança da seleção iraniana durante o torneio. Com a violenta máquina de deportação dos Estados Unidos a todo vapor, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) deverá desempenhar um papel importante na segurança do torneio.

Proibições de viagens e políticas fronteiriças racistas e restritivas tornarão a participação no que deveria ser uma celebração global praticamente impossível para inúmeros fãs. Os compromissos com a inclusão e os direitos humanos, que foram fundamentais para a candidatura pan-norte-americana para sediar o evento, não se concretizaram.

Apesar das críticas generalizadas em relação à abordagem dos Estados Unidos na organização do torneio, a FIFA só serviu para apoiar e dar vazão aos piores instintos de Trump. Para Boykoff, isso não deveria ser uma surpresa, considerando o controle restrito de Infantino sobre a organização e sua relação indiferente com as estruturas democráticas e a prestação de contas.

“Mais do que qualquer outro líder no esporte, Infantino permitiu a guinada global em direção ao fascismo”, escreve Boykoff. Chefe de uma organização comprometida com a neutralidade política, Infantino não hesitou em tomar partido. Apesar da rápida ação para excluir a Rússia das competições após a invasão da Ucrânia, a FIFA permitiu que Israel competisse normalmente em meio a um genocídio. O próprio Infantino esteve intimamente envolvido com o Conselho da Paz de Trump e suas promessas extremamente cínicas de reconstruir Gaza. Ele até mesmo interrompeu seu sorriso de orelha a orelha enquanto usava um boné vermelho dos EUA fornecido por Trump para prometer US$ 75 milhões em nome da FIFA para construir infraestrutura de futebol, incluindo um estádio de vinte mil lugares sobre os escombros que Trump ajudou a criar.

Isso se deve tanto à submissão de Infantino ao poder quanto à sua própria interpretação distorcida da posição global do futebol. Se o futebol é o esporte mais popular do mundo, certamente o chefe de sua entidade máxima deve ter a mesma influência nos assuntos internacionais que um chefe de Estado. Por que mais ele acharia normal participar de importantes cúpulas sobre o cessar-fogo em Gaza, no Egito, ou tentar, de forma desajeitada, fazer com que dirigentes de futebol palestinos e israelenses apertassem as mãos no congresso da FIFA? Dá a impressão de que Infantino, assim como Trump, realmente acredita na própria propaganda.

Certamente, as relações estreitas de Infantino com o Catar e a Arábia Saudita (e seu papel na organização das Copas do Mundo de 2022 e 2034) já demonstravam uma abertura a regimes autoritários. No entanto, ele é particularmente próximo de Trump. Ele transferiu o sorteio da Copa do Mundo para Washington e permitiu que a entrega do cobiçado Prêmio da Paz da FIFA, criado especialmente para o presidente estadunidense, ofuscasse completamente o sorteio do torneio. Ele trata Trump como um bebê, cumprindo todas as suas exigências arbitrárias e instáveis por um único motivo: dinheiro.

A FIFA espera arrecadar US$ 11 bilhões com a Copa do Mundo de 2026. Preços recordes de ingressos — incluindo um sistema de “preços dinâmicos” e uma plataforma de revenda que permite à FIFA ficar com 15% do valor pago por compradores e vendedores, cobrança de centenas de dólares por vagas de estacionamento e a implementação de “pausas para hidratação” obrigatórias em cada tempo, que por acaso são ótimas oportunidades para comerciais — são o único foco de Infantino. Agradar Trump para garantir que a arrecadação seja concretizada é um pequeno preço a pagar.

Não seria um exemplo clássico de sportswashing?

Contudo, o apoio declarado de Infantino a Trump e a exploração desenfreada do futebol às custas de seus torcedores sejam inéditos pela extensão de suas ações não são fatos totalmente novos. Red card oferece um relato conciso e envolvente da complexa relação entre esporte e política. O livro traça a evolução do sportswashing, termo que descreve “quando líderes políticos usam o esporte para parecerem importantes ou legítimos no cenário mundial, enquanto alimentam o nacionalismo e desviam a atenção de problemas sociais crônicos e violações de direitos humanos em seus países”, desde o pão e circo da Roma Antiga, passando pelos festivais esportivos da década de 1930 na Itália fascista e na Alemanha nazista, até a Copa do Mundo de futebol realizada sob a junta militar argentina em 1978, chegando às edições modernas na Rússia, no Catar e na América do Norte.

Se você já conhece o trabalho de Boykoff, provavelmente muito disso não será novidade. Ele é o Maradona da crítica às instituições esportivas exploradoras e escreveu vários livros sobre a corrupção implacável que corrói os megaeventos esportivos. Embora alguns de seus outros livros, como Power games: A political history of the Olympics [Jogos de poder: Uma história política das Olimpíadas], explorem as raízes do sportswashing moderno com maior profundidade, o contexto histórico expandido de Red card em relação à Copa do Mundo de futebol é útil, especialmente para ilustrar onde Trump diverge de exemplos anteriores.

Trump parece indiferente à construção de legitimidade global ou à necessidade de desviar a atenção de violações de direitos humanos em âmbito doméstico. É claro que ele não se importará se o torneio desviar a atenção dos arquivos de Epstein, e certamente ficará feliz em estar associado a um evento tão popular e prestigioso globalmente quanto a Copa do Mundo. Mas Trump nunca foi de moderar seu comportamento para agradar o público, seja ele nacional ou internacional.

Refletindo amplamente sua presidência, Trump produziu uma mutação singular do sportswashing que se concentra em esquemas de corrupção e desvios de verbas públicas, mas ignora completamente a construção de narrativas positivas na mídia. O Catar investiu muito dinheiro e esforço na organização da Copa do Mundo de 2022 para limpar sua reputação internacional. Isso significou dar atenção especial à manipulação de reportagens críticas da imprensa internacional sobre suas brutais práticas de trabalho migrante e se desdobrar para garantir que os torcedores presentes tivessem uma experiência segura e tranquila. O objetivo: mudar a opinião pública ocidental sobre a realidade no país.

Os Estados Unidos são um caso diferente. O país tem se mostrado tão beligerante no exterior e tão repressivo internamente como sempre, às vésperas da Copa do Mundo, e Trump parece não se importar se algum turista estrangeiro vier para o torneio, muito menos se vai se divertir, apesar de constantemente se gabar de que será a maior Copa do Mundo de todos os tempos.

Considerando a perspicaz análise de Red card sobre o sportswashing em geral, uma atenção mais matizada a como Trump se encaixa (ou se distancia) dos modelos anteriores e o que isso significa para a próxima Copa do Mundo teria sido esclarecedora. Da mesma forma, embora Boykoff faça um trabalho fantástico ao situar a importância do esporte como uma alavanca cultural, econômica e política vital em um mundo que se inclina para a direita, a relação concreta entre os dois poderia, por vezes, ser mais claramente elucidada.

“Sob Trump, testemunhamos o lento declínio rumo ao autoritarismo”, escreve Boykoff. “Sediar a Copa do Mundo contribui inequivocamente para essa triste queda.” Mas relações causais mais claras poderiam ser estabelecidas entre o regime repressivo de Trump e os mecanismos de organização do torneio em questão. Do contrário, por vezes fica a impressão de ser apenas uma lista de uma série de coisas ruins acontecendo simultaneamente.

De fato, o governo Trump tem corroído a democracia e assassinado manifestantes na preparação para a Copa do Mundo. Como observa Boykoff, a designação de Evento Nacional de Segurança Especial (NSSE, na sigla em inglês), inicialmente declarada por Joe Biden em 2024, às vésperas das Olimpíadas de Los Angeles de 2028, “acaba dando ampla liberdade para diversas agências federais, incluindo o ICE”. Não está claro se Trump se importa com a margem de manobra concedida pelo NSSE em particular, e se as medidas repressivas autocráticas estão diretamente relacionadas à Copa do Mundo.

Trump já demonstrava um grande ímpeto repressivo mesmo sem a Copa do Mundo e, dada a posição secundária do futebol no cenário esportivo dos EUA, o torneio não foi usado para justificar a repressão à dissidência com a mesma frequência que em outros casos, nos quais a Copa do Mundo era um projeto nacional abrangente. O torneio foi moldado por esse contexto sombrio e latente, mas se ele realmente estivesse impulsionando a autocracia, como em outras Olimpíadas e Copas do Mundo, uma análise mais clara teria fortalecido a pesquisa já minuciosa e ponderada de Boykoff.

Nada de pão, apenas o circo

Boykoff encerra Red card com uma observação que deveria ser bastante óbvia, mas que há muito tempo foi abafada pela cacofonia de histórias absurdas e deprimentes sobre a repressão e a deturpação corporativa que a Copa do Mundo enfrenta: os Estados Unidos simplesmente não deveriam sediá-la. Além de examinar o desenvolvimento histórico do sportswashing, o livro destaca os megaeventos esportivos como espaços de luta popular e ímãs para protestos.

Embora a Copa do Mundo de 2026 não tenha recebido críticas globais como a do Catar em 2022, nem tenha sido associada a uma indignação generalizada nos Estados Unidos como as Olimpíadas de 2016 no Brasil, Boykoff traça o perfil de diversos ativistas locais que se opõem à Copa do Mundo e à sua implementação gananciosa e provavelmente brutal. Zohran Mamdani, à frente da resistência de autoridades locais das cidades-sede contra a FIFA, demonstra que a resistência pode utilizar canais oficiais, além da ação popular.

Tragicamente resto muito pouco e quase nenhum tempo para fazer desta Copa do Mundo a celebração de um esporte popular como ela deveria ser. Mas também mostra que as instituições responsáveis por isso podem ser combatidas — só precisamos agir com muito mais antecedência, de maneira mais organizada e com mais indignação. Caso contrário, uma das últimas coisas boas que nos restam será usada para nos explorar e consolidar o poder despótico. Red card traça o caminho que nos trouxe até aqui. Prestar atenção à sua mensagem pode inspirar uma alternativa futura.

Colaborador

Dave Braneck é um jornalista em Berlim que cobre esportes e política.

20 de novembro de 2024

Para o chefe da FIFA, Gianni Infantino, o futebol é apenas uma fonte de renda

A remodelação da Copa do Mundo de Clubes pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, marca um novo ponto baixo na imposição de demandas financeiras sobre a integridade esportiva básica. O futebol há muito tempo é governado pelo dinheiro — mas sob a liderança de Infantino, a FIFA apenas cria as regras conforme avança.

Dave Braneck


O presidente da FIFA, Gianni Infantino, durante a Copa do Mundo Feminina da FIFA Austrália e Nova Zelândia 2023 em 20 de agosto de 2023, em Sydney, Austrália. (Marc Atkins / Getty Images)

Embora seu trabalho seja ostensivamente administrar o órgão dirigente do futebol mundial, você seria perdoado por presumir que o presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino, ganha seu salário anual de US$ 4,6 milhões exclusivamente para dizer besteiras ridículas.

O comentário mais recente e surpreendente do administrador suíço o fez chamar o Inter Miami da Major League Soccer (MLS) de "um dos melhores times do mundo". Isso é menos um reflexo de sua paixão profunda pelo futebol de clubes dos EUA do que uma tentativa sem entusiasmo de justificar sua recente mudança para calçar o time de Leo Messi na próxima Copa do Mundo de Clubes.

Infantino vem pressionando por um torneio expandido de trinta e dois times há anos, e agora que finalmente acontecerá no início de 2025, ele está claramente disposto a dobrar as regras para garantir que seja um sucesso. Dado que a eliminação precoce do Inter Miami nos playoffs significa que eles nem são o melhor time da MLS, é difícil argumentar que eles são um dos trinta e dois melhores do planeta. Mas, novamente, mesmo uma tentativa vaga de encontrar justificativas para inventar as regras conforme você avança na verdade melhora o comportamento normal de Infantino.

Infantino certa vez afirmou entender os trabalhadores migrantes na difícil situação do Catar (milhares dos quais morreram no boom da construção que levou à Copa do Mundo de 2022), argumentando: "Eu sei o que significa ser discriminado, ser intimidado, como estrangeiro em um país estrangeiro. Quando criança, eu era intimidado — porque eu tinha cabelo ruivo e sardas. Além disso, eu era italiano, então imagine."

Sua resposta a dezenas de mulheres em Teerã sendo presas apenas por tentar assistir a uma partida que ele estava assistindo com o objetivo declarado de melhorar a igualdade de gênero no futebol iraniano foi: "Não podemos resolver todos os problemas do mundo na FIFA. Mas sempre podemos trazer um sorriso."

A melhor fala de Infantino como presidente da FIFA pode realmente ser sua primeira, dita em 2016, quando ele foi introduzido como um reformador depois que seu antecessor Sepp Blatter foi destituído sem cerimônia após um enorme escândalo de corrupção.

"Entramos agora em uma nova era. Algumas reformas inovadoras foram aprovadas. Um presidente foi eleito — um presidente que certamente pode e implementará todas essas reformas para garantir que a imagem e a reputação da FIFA voltem a ser o que são. Garantiremos que todos ficarão felizes com o que fazemos", disse ele, iniciando um hábito bizarro de se referir a si mesmo na terceira pessoa.

Em quase uma década, um presidente encarregado de consertar a reputação já caótica da FIFA provou ser mais prejudicial ao jogo do que Blatter. Infantino supervisionou a transformação da FIFA em uma organização que existe apenas para servir aos lances do capital — e aos seus — às custas do esporte mais popular do mundo.

A próxima ideia genial

O mais recente projeto de estimação de Infantino, a Copa do Mundo de Clubes expandida, verá o que antes era um torneio de inverno de sete equipes que parecia um conjunto de amistosos (embora com grandes prêmios em dinheiro pendurados na frente deles) se tornar um enorme torneio quadrienal de trinta e dois times.

A antiga Copa do Mundo de Clubes era pelo menos fácil de ignorar. Uma lista expandida de clubes e a FIFA já se esforçando para criar o hype estão tornando isso mais difícil. Especialmente porque, como a maioria das coisas que a FIFA toca, está se moldando para ser uma farsa.

A suposição natural para algo que se autodenomina Copa do Mundo é que haveria um método transparente para determinar quais times podem se classificar, por mérito, como os trinta e dois melhores do mundo. Mas esse claramente não é o caso: a seleção do Inter Miami demonstra que Infantino pode escolher independentemente quem ele quer que participe. As demandas de dinheiro minam qualquer aparência de integridade da competição em si.

Os cínicos diriam que um Infantino em pânico só fez isso para garantir que Messi — e toda a atenção da mídia que o segue — participe de um torneio lutando para atrair patrocinadores e emissoras interessadas. Eles estariam certos.

Que Infantino esteja disposto a escolher quais times se classificarão para a estreia de seu novo torneio brilhante, que por acaso é sediado pelos Estados Unidos obcecados por Messi, não deveria ser uma surpresa. Se as expectativas de alguém forem frustradas, pode muito bem ser o próprio Infantino, quando ele se deparar com o fato de que simplesmente adicionar mais e mais jogos pode não ser a cura para tudo.

Melhor menos, mas melhor

O futebol é de longe o jogo mais popular do planeta. E certamente não existe coisa boa demais?

Além de impulsionar significativamente a Copa do Mundo de Clubes, Infantino supervisionou o crescimento da Copa do Mundo masculina de trinta e dois para quarenta e oito times. A Copa do Mundo de 2026, que será sediada pelos Estados Unidos, Canadá e México, será o primeiro torneio com quase cinquenta times e contará com 106 jogos em seis semanas. A competição lotada virá repleta de toneladas de jogos de fase de grupos sem sentido, já que três dos quatro times geralmente passam para acomodar os times extras.

Esses torneios monstruosos só podem ser sediados por um punhado de países (ou vários países trabalhando juntos), tornando cada vez mais difícil para os fãs acompanharem seus times enquanto eles cobrem distâncias maiores. Esse certamente será o caso na Copa do Mundo de 2030, que será sediada pela Espanha, Portugal e Marrocos, além de apresentar jogos a apenas doze horas de voo na Argentina, Uruguai e Paraguai. Embora vendida como uma homenagem ao centenário da Copa do Mundo inaugural, que foi realizada no Uruguai, a excursão sul-americana também ajudou convenientemente a impulsionar a candidatura da Arábia Saudita para o torneio subsequente, já que as regras rotativas de hospedagem da Copa do Mundo garantiram que o próximo torneio não pudesse ser na África, nas Américas ou na Europa.

Já que Infantino, como muitos administradores de futebol, vê a igualdade de gênero nos esportes como a percepção de que o futebol feminino também pode ser monetizado, não é surpresa que a Copa do Mundo feminina também tenha sido expandida, mas pelo menos para trinta e duas equipes ainda administráveis. E se tornar os torneios maiores não fosse o suficiente, Infantino por muito tempo impulsionou um plano malfadado de dobrar a frequência da Copa do Mundo.

A FIFA não é a única culpada por acumular jogadas - a União das Associações Europeias de Futebol, o conselho administrativo do futebol europeu, expandiu o Campeonato Europeu e a Liga dos Campeões nos últimos anos, ao mesmo tempo em que introduziu outro torneio internacional na Liga das Nações. Muitas outras confederações continentais seguiram o exemplo.

Embora isso tenha significado ampla oportunidade para anunciantes e bilhões em receita de TV, transformou cada momento de vigília em uma vasta lama de futebol ininterrupto, diminuindo a importância do que antes eram partidas de destaque e barateando as competições. Na verdade, acompanhar jogos para fãs que vão às partidas (ou mesmo transmiti-los todos para os ultras de poltrona) está se tornando um fardo financeiro insustentável.

Também transformou os jogadores em nada além de peões a serem espremidos para lucro. As lesões aumentaram e a fadiga e o jogo desleixado são inevitáveis. A diferença entre apenas quinze anos atrás é imensa. O astro da Inglaterra e do Real Madrid, Jude Bellingham, havia registrado 251 partidas pelo clube e pela seleção em seu vigésimo primeiro aniversário. Isso é mais do que as estrelas da Inglaterra dos anos 2000, David Beckham, Steven Gerrard e Frank Lampard, jogaram na mesma idade juntos.

A congestionada busca por dinheiro é claramente insustentável. Os jogadores estão ameaçando fazer greve, enquanto o sindicato internacional de jogadores, a Federação Internacional de Jogadores Profissionais de Futebol, ou FIFPRO, e as Ligas Europeias entraram com uma queixa legal contra a FIFA sobre o calendário de jogos internacionais superlotado.

Enquanto alguns, como o lendário ex-jogador do Bayern de Munique e atual executivo Karl-Heinz Rummenigge, transferiram a culpa para os jogadores alegando que "ao sempre exigir salários mais altos, eles estão forçando os clubes a gerar mais receita com mais jogos", seu argumento ignora o papel vital que administradores como Infantino desempenharam ao permitir que investidores duvidosos e déspotas descarados entrassem no esporte e inflassem as taxas de transferência e os salários.

Sportswashing simplificado

Embora o sportswashing no futebol tenha uma tradição de décadas e o tenha levado ao próximo nível ao supervisionar a decisão de sediar as Copas do Mundo de 2018 e 2022 na Rússia e no Catar, Infantino o abraçou totalmente. Isso normalizou um estado de coisas em que a primeira função global do futebol (além de gerar receita de TV) é lavar a reputação de regimes autocráticos.

Infantino ficou tão apaixonado pela Copa do Mundo do Catar que ele realmente se mudou para Doha. E ele aparentemente gostou de construir estádios de futebol brilhantes na areia coberta com o sangue seco de trabalhadores migrantes mortos que ele passou anos manobrando para a Arábia Saudita — onde horríveis 21.000 trabalhadores migrantes morreram desde que a vasta coleção de megaprojetos do estado alimentados por petrodólares chamada Visão 2030 foi anunciada em 2016.

Infantino ajudou a orquestrar uma série de esquemas, incluindo os bizarros anfitriões multicontinentais da Copa do Mundo de 2030 e a truncagem dramática do processo de licitação para ajudar a dissuadir outros anfitriões em potencial. Sem surpresa, a Arábia Saudita se candidatou para sediar a Copa do Mundo de 2034 sem oposição.

A influência esportiva da Arábia Saudita não se limita de forma alguma ao futebol, mas a descarada com que Infantino colocou uma placa de "à venda" no jogo mais amado da classe trabalhadora global é particularmente repugnante. E isso chega ao cerne do problema subjacente ao reinado de Infantino e o que isso significa sobre mudanças mais amplas na administração do futebol e na perspectiva de crescimento a todo custo.

Instituições como a FIFA nunca foram realmente democráticas. Mas mesmo para seus padrões tradicionais as coisas pioraram. Infantino foi reeleito recentemente — sem oposição, naturalmente — para um terceiro mandato. Apesar de um limite de três mandatos, o Conselho da FIFA anunciou pouco antes da Copa do Mundo de 2022 que havia (sem ser solicitado e após oito anos) determinado que os primeiros trinta e nove meses de Infantino no comando na verdade não contavam, abrindo outro mandato potencial para começar em 2027.

O futebol nunca esteve tão longe daqueles para os quais realmente é. Enquanto o dinheiro continuar fluindo, Infantino receberá pouca oposição dos membros da FIFA. O que significa que novas abordagens inovadoras para o jogo — como uma Copa do Mundo de quarenta e oito times realizada em três continentes, ou mais uma competição de clubes com a qual ninguém, muito menos os jogadores de base, se importa — continuarão a ser transmitidas de cima. Se a ideia for tão dolorosamente ruim que pareça haver pouco a ganhar com ela, como a Copa do Mundo bianual, talvez, só talvez, a FIFA recue e espere que paremos de choramingar antes de tentar exibi-la novamente.

Sem nenhuma forma de democracia nas instituições do futebol, ideias que tornam assistir às partidas cada vez mais difícil continuarão a ser defendidas. Apresentar constantemente merdas que ninguém quer não deveria ser tão fácil quando um jogo é tão popular quanto o futebol. Democratizar totalmente a FIFA é uma tarefa difícil, mas, no mínimo, deveríamos começar com a mudança no topo.

Colaborador

Dave Braneck é um jornalista em Berlim que cobre esportes e política.

6 de julho de 2023

Bilionários e monarcas agora comandam o futebol

A transferência de estrelas como Karim Benzema para a Saudi Pro League alimentou apelos para acabar com a caça furtiva de jogadores de renome. Mas o controle saudita é o resultado natural da transformação do esporte em um brinquedo para bilionários.

Dave Braneck

Jacobin

Karim Benzema durante seu evento de recepção oficial na King Abdullah Sports City em 8 de junho de 2023 em Jeddah, Arábia Saudita. (Yasser Bakhsh/Getty Images)

Tradução / Uma recente onda de estrelas do futebol está seguindo os passos de Cristiano Ronaldo. Desde o atacante francês Karim Benzema até o meio-campista vencedor da Copa do Mundo de 2018, N’Golo Kanté, o capitão do Senegal, Kalidou Koulibaly, e o internacional português Rúben Neves, todos eles estão assinando com a Liga Pro da Arábia Saudita.

O ex-jogador da Inglaterra e do Manchester United, Gary Neville, pediu para a Premier League parar de transferir jogadores para a Arábia Saudita para “garantir que a integridade do jogo não seja prejudicada”. Enquanto isso, o presidente da Associação de Futebol da Europa (UEFA), Aleksander Čeferin, definitivamente não abalado, foi forçado a afirmar que os clubes sauditas que estão capturando jogadores europeus de renome não ameaçam o futebol europeu.

Para muitos, um projeto de lavagem esportiva flagrante que atrai superestrelas por somas exorbitantes de dinheiro constitui um perigo para o próprio futebol. Porém, a Arábia Saudita fazendo o seu melhor para comprar o futebol com maletas abarrotadas de petrodólares manchados de sangue não ameaça o esporte — é precisamente o que o jogo moderno exige.

Um estado incrivelmente rico comprando clubes europeus integralmente e distribuindo contratos anuais de US$ 200 milhões em casa poderia, de fato, mudar o equilíbrio de poder no futebol — levando as somas de dinheiro envolvidas em transferências e contratos ainda mais para a estratosfera. No entanto, também é apenas o último passo na conversão monótona do futebol de um esporte do povo em um objeto especulativo mais adequado para lavagem esportiva e portfólios de investimento.

Diversificado

Estados se apropriando do esporte mais popular do mundo não é uma novidade, nem algo raro. Esse fenômeno atingiu recentemente alturas sombrias na Copa do Mundo do ano passado, realizada no Catar, e com o Manchester City, apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, conquistando o troféu da Liga dos Campeões desta temporada. Contudo, isso não diminui a extensão morbidamente impressionante da recente incursão esportiva da Arábia Saudita, que vai além do âmbito do futebol.

O Fundo de Investimento Privado (PIF) é o fundo soberano da Arábia Saudita, com cerca de US$ 650 bilhões, sendo um dos maiores do mundo. Criado para diversificar os investimentos estatais sauditas a fim de reduzir a dependência das receitas do petróleo, os investimentos internacionais do PIF incluem empresas conhecidas e respeitadas, como a Uber, Blackstone e Boeing.

No âmbito interno, o PIF também apoia projetos como o NEOM, a cidade futurista e sombria que será supostamente construída conforme o planejado, mas vista por muitos como uma manobra questionável de relações-públicas.

A natureza notoriamente opaca do PIF significa que alguns de seus investimentos mais transparentes têm sido no setor do futebol. Em 2021, o PIF adquiriu 80% das ações do Newcastle United, um clube da Premier League.

"Apesar de ser presidido pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, a Premier League aparentemente recebeu garantias de que o Estado saudita “não controlaria o clube”, e assim aprovou o acordo."

Quando um déspota diretamente ligado ao assassinato de um jornalista e inúmeras violações dos direitos humanos se tornou um proprietário controverso, os administradores da liga reagiram introduzindo regulamentações que proibiriam abusadores dos direitos humanos de adquirir clubes. Entretanto, vale notar que isso ocorreu dois anos após a compra do Newcastle e ainda não foi implementado — ainda assim, é uma ação relativamente positiva dentro do contexto das regulamentações do futebol.

A obtenção de um lugar na liga mais assistida do mundo foi um passo fundamental na busca saudita por influência esportiva. A Arábia Saudita intensificou esses esforços com investimentos substanciais para fortalecer sua própria liga. Isso começou com Cristiano Ronaldo, que se tornou o jogador mais bem pago do mundo no início deste ano ao assinar com o Al Nassr, um clube apoiado por uma subsidiária do PIF. No início de junho, o PIF assumiu o controle dos quatro maiores clubes do país (incluindo o Al Nassr), visando impulsionar ainda mais a Saudi Pro League.

Na mesma semana, a transferência gratuita de Benzema do Real Madrid para o Al-Ittihad foi confirmada. Ele deverá receber cerca de US$ 100 milhões por ano, além de bônus por apoiar uma potencial candidatura saudita para sediar a Copa do Mundo de 2030 ou 2034. Essas somas são astronômicas. O PIF pagará mais por algumas temporadas de Benzema e Ronaldo do que pagou pela aquisição do Newcastle. Desde então, outros jogadores, como N’Golo Kanté, Rúben Neves, Kalidou Koulibaly e Édouard Mendy, também se juntaram ao movimento.

Esses contratos exorbitantes, sem dúvida, serão suficientemente atrativos para atrair mais estrelas para o Golfo. Um êxodo em massa de jogadores excelentes, mesmo que envelhecidos, para a Arábia Saudita, representa um novo elemento no futebol, mas não caracteriza uma mudança fundamental. Craques e clubes inteiros há muito tempo brilham para os ricos e poderosos, e a Arábia Saudita é uma das forças mais ricas e poderosas do mundo no momento.

O mais moderno possível

Se as incursões da Arábia Saudita no futebol soam deprimentemente familiares, é porque já ouvimos essa melodia macabra antes. Alguns dos maiores clubes do futebol europeu são veículos esportivos.

O Manchester City, propriedade do vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Mansour bin Zayed al Nahyan, é essencialmente uma empresa de relações-públicas dos Emirados fantástica no futebol. O único aspecto agradável do culminar de sua marcha de quinze anos para um título da Liga dos Campeões foi provavelmente o resultado de Jack Grealish.

O Paris Saint-Germain (PSG) é um projeto semelhante com o apoio do Catar. Não é novidade que o poderio financeiro de todo um petroestado torna a contratação de jogadores como Neymar e Kylian Mbappé um pouco mais fácil, mesmo que eles tenham tido menos fortuna na conquista de troféus europeus.

Embora os fundos soberanos comprem ostensivamente clubes de futebol para diversificar suas carteiras de investimento, a corrida armamentista flagrante para gastar mais do que outros lados e comprar troféus significa ganhar dinheiro com um clube de futebol é uma perspectiva desafiadora. O que torna um pouco curioso que o outro modelo de propriedade mais comum em grandes clubes tende a ser bilionários americanos.

Os fãs de “sorte” recebem uma montagem sem rosto de capitalistas de risco que contrata os contadores de feijão certos para ter um desempenho superior, antes de pular com um lucro (se eles entraram cedo o suficiente para o lucro ser possível). Os menos afortunados acabam com idiotas como Todd Boehly, do Chelsea, que entende abertamente mal o esporte que gastou bilhões comprando e cujas mexidas garantiram que seu novo clube se sairia significativamente pior, apesar de gastar US$ 600 milhões sem precedentes em contratações em uma temporada.

Embora seja discutível que nenhuma dessas opções de propriedade é tão ruim quanto o PIF, nenhuma delas também é particularmente boa. Mas os bilionários americanos que esperam arrancar tudo o que puderem de clubes amados e veículos esportivos abertos são as duas forças futebolísticas mais potentes de hoje. Não surpreende, portanto, que a escolha dramática de Leo Messi sobre onde jogar a seguir após uma saída gelada do PSG tenha sido entre Arábia Saudita e Miami.

Muito tempo chegando

Ocenário do futebol de hoje, caracterizado por uma ênfase excessiva na financeirização e uma desolação moral, é provavelmente pior do que muitos poderiam ter imaginado há apenas uma década, mas ainda reflete tendências de longa data. A própria Premier League foi fundada por clubes de elite ingleses que buscavam se afastar das ligas inferiores para aumentar a receita de transmissão no início dos anos 90. A busca pelo dinheiro da televisão também remodelou a Liga dos Campeões no mesmo período.

E embora tenha passado muito tempo desde que a maioria dos clubes europeus de primeira linha eram propriedade da comunidade, a quantidade de dinheiro canalizada para o jogo nas últimas décadas — particularmente por meio de acordos de transmissões sucessivas — redefiniu quem é capaz de se envolver no futebol.

O oligarca favorito do oeste de Londres, Roman Abramovich, comprar o Chelsea em 2003 foi mais um passo em direção à situação atual. Enquanto bilionários americanos como Stan Kroenke, dono do Arsenal, ou a família Glazer, do Manchester United, investiam em times da Premier League mais ou menos na mesma época, eles esperavam aproveitar o que viam como ativos subvalorizados para aumentar sua riqueza.

Abramovich, por outro lado, estava mais interessado em abrigar seu dinheiro fora da Rússia e construir uma rede de influência na Grã-Bretanha. Como os atuais donos de Newcastle, Manchester City ou PSG, a lucratividade (especialmente no curto prazo) simplesmente não foi um fator.

A incursão do PIF no futebol inglês não é o único evento que ecoa os elementos tristes e estúpidos do passado do futebol. Pois esse gasto doméstico tem um precedente inexpressivo. Na década de 2010, a China investiu descontroladamente em sua liga doméstica (além de investidores chineses terem adquirido alguns times europeus), injetando dinheiro em grandes nomes na esperança de auxiliar a China a se tornar uma candidata global no futebol mundial.

Agora, as estrelas se foram e esse sonho parece estar implodindo. Mas as regras usuais da contabilidade do futebol nos tranquilizam, afirmando que se a Arábia Saudita (ou mesmo os Estados Unidos) gastar ainda mais com craques, definitivamente funcionará melhor.

Propagandas

Os astros do futebol são alguns dos atletas mais populares do planeta. Eles, sem dúvida, merecem ser bem compensados pelo seu trabalho árduo — e o dinheiro está muito melhor em seus bolsos do que nas mãos dos proprietários, patrocinadores ou instituições corruptas como a FIFA ou a UEFA. No entanto, uma vez que as quantias de dinheiro envolvidas no jogo se tornam tão astronomicamente altas, torna-se impossível priorizar os fãs que tornam os jogadores estrelas.

Cada passo vacilante que o futebol deu em direção ao seu estado atual tem representado uma perda brutal para os torcedores. Isso ocorre não apenas porque os custos explosivos elevaram os preços dos ingressos ou as insaciáveis dependências das receitas de transmissão significam que os jogos começam em horários inconvenientes para os torcedores que vão aos estádios.

Mais importante ainda, a cada passo que coloca o dinheiro à frente de tudo o mais e transforma o esporte em uma mercadoria, erosona qualquer coisa que se assemelhe ao controle democrático, à transparência e à influência dos torcedores.

A evolução da propriedade e do investimento no futebol fez com que os clubes passassem de entidades comunitárias para ativos globais — transformando os torcedores em meros consumidores. E mesmo aqueles que apoiam equipes à distância foram prejudicados por tudo isso: as guerras de licitação das transmissões significam que você precisa de um punhado de serviços de streaming cada vez mais caros apenas para assistir ao seu time jogar — seja o clube que você apoia de propriedade de um Estado soberano estrangeiro ou de um bilionário local amigável.

Houve alguns vislumbres de esperança. Na Alemanha, um modelo de propriedade estrutural conhecido como “50 + 1” estabelece que os membros — nesse caso, os torcedores — detenham a maioria do controle de seus clubes (com algumas exceções notáveis, como o RB Leipzig, que recebe esse nome pela Red Bull) e uma cena de torcedores altamente politizada demonstram que as coisas podem ser diferentes.

Devido a um clamor generalizado liderado pelos torcedores, a Bundesliga recentemente decidiu não vender uma grande parte de seus direitos de transmissão para fundos de private equity, enquanto anos de protestos dos torcedores mais fervorosos do Bayern pressionaram o clube a encerrar seu acordo de patrocínio com a Qatar Airways.

No entanto, essas vitórias mantêm em grande parte um status quo já quebrado, especialmente quando ligas com estruturas mais democráticas e torcedores críticos têm que competir com aquelas que mostram poucas preocupações desse tipo.

Sem uma completa reimaginação do futebol, regulamentos que impeçam ditadores de adquirir clubes e estrelas, e uma democratização ampla do esporte em escala global, seremos forçados a suportar os piores elementos do futebol escalando pelas mãos do PIF e do estado saudita — o que será a pior coisa a acontecer ao esporte, até que outro país com ainda mais dinheiro (e menos escrúpulos) apareça e faça o mesmo.

Colaborador

Dave Braneck é jornalista em Berlim que cobre esportes e política.

24 de setembro de 2021

Uma Copa do Mundo a cada dois anos seria devastadora para o futebol

Os dirigentes da Fifa, órgão regulador do futebol, estão pedindo que a Copa do Mundo seja realizada a cada dois anos, em vez de quatro. O plano é uma grana nua - e mostra que as autoridades esportivas antidemocráticas sempre colocarão as chances de vender publicidade acima da qualidade do jogo.

Dave Braneck

Jacobin

Cristiano Ronaldo de Portugal sendo marcado por Christopher Martins Pereira e Leandro Barreiro de Luxemburgo durante um jogo das eliminatórias da Copa do Mundo FIFA 2022, que será realizada no Qatar. (Sylvain Lefevre / Getty Images)

Tradução / "Eu recordo que, quando criança, meu sonho era jogar em uma Copa do Mundo. Para todos meus amigos, todos que conheci durante minha vida, esse era o nosso sonho", declarou recentemente o ex-jogador da seleção brasileira Ronaldo. Se existe qualquer um que sabe da importância de uma Copa, é ele. Ele jogou em quatro delas – levantando o troféu em duas delas, enquanto se estabelecia como um dos jogadores mais icônicos do esporte durante a virada do milênio.

Respondendo às sugestões de que o torneio deveria acontecer o dobro de vezes, Ronaldo continua ”Com esta mudança, mais e mais pessoas poderão transformar este sonho em realidade”. Tudo que o mundo precisa é de mais Copas e o mundo será agraciado com outros Ronaldos? Ele não pareceu preocupado como exatamente mais torneios como este ajudariam mais jogadores a alcançar seus sonhos – ou simplesmente ver os mesmos jogadores dos países habituais que já se classificam, agora com mais frequência.

Não considerar isso seria compreensível se Ronaldo estivesse apenas pensando em voz alta sobre como realizar sonhos. No entanto, na verdade, ele estava avaliando o que poderia ser uma batalha decisiva para o futuro do esporte.

A FIFA, órgão que governa o futebol internacional, realiza atualmente um estudo de viabilidade sobre a realização da Copa do Mundo a cada dois anos, ao invés do intervalo atual de quatro. A princípio, isso pode parecer uma tentativa benéfica, embora equivocada, de dar aos fãs mais do que eles amam e democratizar a participação. Mas, como a maioria dos órgãos governamentais esportivos no capitalismo, a FIFA tem apenas uma coisa em mente: lucro. Se aprofundarmos a análise, veremos que isso não é apenas uma ideia idiota, mas o último subterfúgio na guerra de classes em que as maiores organizações e clubes de futebol travam há anos contra torcedores, jogadores e funcionários.

Neste sentido, isso também indica um aprofundamento do apodrecimento no esporte: os “vampiros” interessados no futebol o veem apenas como um produto que pode ser espremido para retirar todo lucro possível, mesmo que isso seja extremamente impopular ou prejudique a qualidade do próprio jogo. E mais importante que isso, essa visão do jogo fundamentalmente não compreende o fato de que os jogadores não são somente estrelas que podem ser usados para vender camisas e promover produtos – eles são trabalhadores cujo trabalho torna tudo isso possível.

Duas vezes mais, o dobro da diversão?

Você não precisa ser um anticapitalista ferrenho para ser contra a estratégia da FIFA de realizar tanto a Copa do Mundo masculina quanto a feminina a cada dois anos. Muito da magia da Copa do Mundo está em ser um evento raro e sísmico. A espera de quatro anos para cada torneio pode ser agonizante, mas isso torna cada jogo mais significativo – tornando cada Copa do Mundo uma marca inigualável de um momento específico na vida dos torcedores. Jogadores sonham em alcançar o maior palco do mundo porque sabem que suas chances de aparecer nele – quanto mais de vencer – são limitadas a raras oportunidades.

Em sua última edição, mais da metade do planeta acompanhou os jogos – com mais de 1 bilhão de espectadores assistindo a final. Então, com a FIFA decidindo dobrar a frequência do torneio, poderia hipoteticamente ajudar a dobrar o prazer que traz a Copa do Mundo. Ou poderia arruinar o evento esportivo mais prestigiado e popular na Terra?

Quando o lendário técnico do Arsenal Arsène Wenger, agora chefe de desenvolvimento global da FIFA, pressionou pela primeira vez por uma Copa do Mundo bienal em março do ano passado, ele citou a importância de uma competição significativa, dizendo “as pessoas precisam entender o que está em jogo e apenas ter jogos importantes”. É difícil de compreender como a concepção de Wenger, oficialmente proposta pela Arábia Saudita em maio, atingiria esse objetivo, ao invés de simplesmente diluir seu significado.

O montante de jogos oferecidos atualmente já é esmagador, desde competições de clubes nacionais e internacionais até torneios regionais cada vez maiores e torneios internacionais de seleções.

Normalmente um marco do fim de cada temporada (embora raramente seja o último jogo), a final da Liga dos Campeões de 2021 caiu em 29 de maio. Menos de duas semanas depois, a Eurocopa havia começado (além de outros torneios internacionais em outros continentes). A Itália conquistou o título da Eurocopa em 11 de julho. A maioria dos times da liga inglesa já haviam começado sua pré-temporada, e as maiores ligas do mundo deram aos torcedores um intervalo enorme de quatro semanas de respiro (mesmo que esse espaço tenha sido preenchido com jogos amistosos) antes da temporada 2021/2022 da Premier League começar com a humilhante derrota do Arsenal para o mais novo time da primeira divisão, Brentford.

O futebol simplesmente não tem intervalo e os torcedores não clamam por mais jogos. Se eles conseguem evitar a exaustão por tempo suficiente para clamar por qualquer coisa, eles tendem a clamar por uma pausa. De acordo com o CIES Football Observatory, a maioria dos torcedores acha que há muitos jogos, principalmente entre seleções. Os fãs não estão apenas cansados ​​de todos os jogos. Pelo contrário, muitos já deixaram claro o quanto são contrários à ideia de uma Copa a cada dois anos.

Lucrando com o jogo por todo o mundo

Ofato de a FIFA estar agindo diretamente em desacordo com os torcedores que tornam o futebol possível está perfeitamente alinhado com a forma como ela e outras partes interessadas veem o esporte. Aos seus olhos, o futebol existe somente para encher os bolsos de seus organizadores, geralmente extorquindo os fãs. Isso corresponde há décadas de comercialização escancarada do futebol mundial, uma guerra pelo futuro do esporte travada e amplamente vencida por instituições antidemocráticas como a FIFA e a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA).

Espremendo qualquer possibilidade de lucro que saia deste jogo não é um fenômeno recente, muito menos limitado ao futebol internacional. Os torcedores acabaram de se recuperar da tentativa insensível e ridiculamente executada dos maiores clubes da Europa de formar sua própria Superliga Europeia; agora, eles têm que aceitar a última tentativa da FIFA de reordenar o futebol para gerar mais lucro.

Se a FIFA fosse motivada pelo interesse dos torcedores, nunca teria se incomodado com um estudo de viabilidade em primeiro lugar, dado o quão impopular o plano provou ser. A FIFA se preocupa com a renda acima de qualquer coisa. E dado que 95% dos US$ 5.6 bilhões acumulados de 2015 até 2018 foram gerados pela Copa de 2018. Não é surpresa que a FIFA comece a pensar que dobrar o número de torneios seja uma boa ideia.

O desdém dos fãs por esta proposta não será o suficiente para impedir a FIFA ou que várias estrelas aposentadas como Ronaldo de se expressarem favoráveis a ideia – quase todos os quais permanecem ligados à organização ou se beneficiam indiretamente do plano.

Depois de décadas de subornos e direitos de transmissão de torneios comprados abertamente, a FIFA se tornou sinônimo de corrupção – e mostrou uma resistência impressionante a qualquer reforma ou melhoria significativa. O futebol como a própria organização já levou diretores à prisão. A Copa do Mundo de 2022 no Catar foi a culminação de uma década de lavagem esportiva na ditadura do Golfo – e demonstrou o quão longe a FIFA irá para proteger sua vaca leiteira.

Conceder o torneio ao Catar (nada surpreendente, com base em propina e não em suas tradições futebolísticas nulas ou status como uma escolha lógica para o anfitrião) desencadeou uma explosão no mercado de construções, dependente de migrantes trabalhando em condições abomináveis. Mais de 6.500 trabalhadores morreram desde que o Catar foi escolhido como sede há mais de dez anos, incluindo 37 trabalhadores diretamente envolvidos na construção de estádios para o torneio.

O elenco da seleção alemã vestiu camisetas para demonstrar o apoio aos direitos humanos, chamando atenção a abusos de direitos trabalhistas no Catar, seleção que sediou a Copa em 2022 (@DFB_Team_EN / Twitter)

A resposta da FIFA para esta tragédia tem sido uma indiferença devastadora. A decisão pelo Catar como sede foi, aparentemente, grande demais para encontrar outro anfitrião só porque o torneio foi construído sobre os túmulos de milhares de trabalhadores. E enquanto protestos tanto de fãs e jogadores contra a Copa cresciam, ficou claro que a FIFA não teve nenhum interesse em mudar de posição.

Os jogadores também são trabalhadores

Aaposta da FIFA não está apenas enraizada em seu papel na comercialização do futebol – só é possível devido à recusa da organização em reconhecer que, em última análise, os jogadores que ajudam a obter lucros são trabalhadores. Claro, pode ser difícil reconhecer que jogadores de futebol estejam trabalhando por causa de seus elevados ganhos, especialmente dado que muitos são alguns dos mais ricos e famosos atletas do mundo. Mas sem eles, não haveria Copa do Mundo para capitalizar.

E refletindo que o grande negócio do futebol é dependente de seus jogadores, nem todo jogador é Leonel Messi. Mesmo em um torneio prestigiado como a Copa do Mundo, muitos participantes representam nações menores em termos futebolísticos, operam seu negócio entre clubes mais pobres e preenchem a independência financeira dos maiores nomes do esporte. E sejam eles super-estrelas ou não, esses jogadores merecem uma pausa, para não serem forçados a se preparar para torneios cada vez mais frequentes durante o que deveria ser o período entre temporadas.

A FIFA e outros interessados pelos jogadores, que tem uma visão deles como mero capital, foram expostos durante a pandemia. Em muitos países, o futebol foi uma das primeiras atividades a retornar após um período inicial de lockdowns em 2020, mesmo antes de ficar claro quando seria seguro ou não. Enquanto as competições domésticas continuaram, reclamando da que na receitas da TV, até as competições internacionais voltaram rapidamente em meio ao surto global. Não importa como, o show tem que continuar.

Jogadores – assim como técnicos, auxiliares e equipe técnica que fazem o jogo e sua transmissão possível – seguiram enquanto o mundo desmoronava ao seu redor, mesmo que muitos se sentissem desconfortáveis com isso. De acordo com a associação internacional de jogadores FIFPRO, a pandemia potencializou o congestionamento de jogos. Isso não se limitou às ligas mais ricas do mundo, ocorreu da base até o topo da pirâmide e levou a terríveis exemplos, como o time da segunda divisão alemã Dynamo Dresden tendo que jogar nove jogos no intervalo de 29 dias para terminar a temporada após o fim da quarentena ser interrompida.

Mesmo sem a COVID-19, jogadores de futebol já esperam jogar um calendário numeroso de jogos. Se é muita coisa para os fãs, certamente é muito para os jogadores. O meio campista da Espanha e do Barcelona Pedro González López, conhecido como Pedri, jogou incríveis setenta e dois jogos pelo clube e seleção na temporada 2020/21. Mesmo a FIFA reconhecendo que isso é um problema. Mudar para uma Copa do Mundo bienal visa ostensivamente aliviar o congestionamento de jogos: o plano de Wenger envolve menos intervalos internacionais, embora mais longos, e removeria partidas desnecessárias ou não competitivas.

Parece improvável que isso realmente reduza o número de jogos internacionais sendo disputados, especialmente porque a FIFA não tem solução para o que acontecerá com torneios continentais imensamente apreciado, normalmente quadrienais com suas eliminatórias, se a Copa do Mundo ocorrer a cada dois anos. É apenas uma tentativa descarada de aumentar a receita gerada que também diminuiria a importância de um torneio extremamente popular.

Ao invés de ser uma solução, tornaria tudo pior. Mas ainda assim, a FIFA está feliz em permitir que a qualidade do esporte sofra se isso puder permitir que algumas pessoas fiquem mais ricas, como quando expande torneios sob o pretexto de “democratizar” o esporte apenas para gerar mais lucrativas transmissões para uma maior base de regiões participantes. Novamente, se a FIFA se importasse com a preservação da qualidade do futebol, nós não deveríamos estar prestes a presenciar a Copa do Mundo de 2026 com uma expansão de 32 para 48 nações participantes.

Ao invés de abordar as desigualdades gritantes de recursos entre as seleções – ou fazer qualquer coisa para contenção de um sistema de clubes quebrado que vê jogadores talentosos e quase todo dinheiro canalizado para apenas algumas ligas na Europa – a solução da FIFA é simplesmente realizar mais partidas e deixar que os problemas se resolvam sozinhos.

Confrontando a investida da FIFA

Reconhecidamente, a resposta inicial à proposta da FIFA tem sido massivamente negativa. E embora ainda não tenha cedido, a FIFA enfrenta forte resistência. Grandes ligas ao redor do mundo têm se posicionado contrárias a esse movimento, enquanto o presidente da UEFA Aleksander Čeferin expressou “preocupações graves” sobre a iniciativa. Vale a pena notar que tanto a UEFA, ao lado de outros grupos associativos, provavelmente estão mais preocupados com a pressão que as Copas do Mundo bienais colocariam em torneios continentais como a Eurocopa do que com a santidade do esporte.

Tendo em mente que muitos fãs são contra a proposta, a resposta mais clara veio de outros interessados, impacientes em manter sua fatia a nlucratividade do futebol ou fazer o possível para manter o já frágil equilíbrio entre as competições domésticas e internacionais. A rápida rejeição da Superliga Europeia demonstra a importância dos torcedores – e a pressão que colocam em clubes e confederações – em fiscalizar organizações como a FIFA quando elas apenas tem como objetivo aumentar seus lucros.

No entanto, existem alguns sinais promissores. Football Supporters Europe, uma rede independente de torcedores ao redor da Europa, recentemente soltou uma nota apoiada por fãs do mundo todo contra a ideia de Copa a cada dois anos. Ações como essa serão extremamente necessárias para manter a beleza da Copa do Mundo, o grandioso espetáculo que os fãs conhecem e amam. Uma organização de suporte adicional é igualmente necessária se houver alguma chance de reverter anos de mercantilização. Isso significa garantir que aqueles que tornam o esporte mais popular do mundo o que ele é – os torcedores que lotam os estádios, os jogadores que entram em campo e os trabalhadores que tornam tudo isso possível – possam opinar sobre sua direção futura.

Desistir da proposta cínica de organizar uma Copa do Mundo a cada dois anos e encontrar uma solução real para o excessivo número de jogos seria um bom começo.

Colaborador

Dave Braneck é jornalista em Berlim, cobrindo esportes e política.

21 de abril de 2021

Clubes sob controle dos torcedores podem ajudar a democratizar o futebol

O fiasco da Superliga Europeia gerou um acalorado debate sobre dinheiro no futebol, com muitos apontando os clubes de torcedores da Alemanha como uma alternativa. A propriedade de torcedores é uma etapa importante - mas só funcionará se os fãs forem organizados e pensarem politicamente.

Dave Braneck

Jacobin

Torcedores do Bayern fazem manifestação a favor da regra 50 + 1. Foto retirada do Twitter.

Tradução / Aparentemente descontentes com suas receitas exorbitantes e influência grosseiramente exagerada, doze dos maiores clubes de futebol da Europa tentaram materializar seus planos de formar uma Super Liga Europeia (ESL). O plano parece já ter falhado – com a oposição quase unânime que os forçou a recuar. No entanto, mais do que apenas uma anedota humorística sobre a megalomania de bilionários incompetentes, essa experiência deve servir como um chamado às armas.

A rejeição de torcedores, jogadores, treinadores, times rivais, ligas domésticas e órgãos internacionais como a FIFA e a UEFA – junto com a falta de um plano real dos membros da ESL – impediram essa tentativa de submeter o futebol a mais domínio comercial. Mesmo para os padrões do futebol europeu, a mudança para a ESL foi um golpe de caixa mais descarado do que o normal. E, no entanto, está claro que o retorno ao injusto status quo não é uma opção.

À medida que o mundo do futebol contempla soluções potenciais, uma onda de olhares invejosos foi lançada em direção à Alemanha, que é frequentemente vista como uma exceção para seu modelo mais democrático com “torcedores proprietários”. Ainda assim, aqueles que anseiam pelo modelo do futebol alemão muitas vezes não se dão conta, é que ter as estruturas de propriedade dos clubes não cria automaticamente um paraíso esportivo progressista.

A propriedade de fãs é um elemento-chave nesta equação: mas sua existência contínua depende de mobilização constante e a resistência alemã ao ESL e à comercialização em geral está enraizada em décadas de militância dos torcedores. Isso ajudou a criar uma compreensão da cultura do futebol como enraizada na participação democrática, muitas vezes em antagonismo direto aos maiores clubes e ligas da Alemanha. Se quisermos ser salvos da comercialização do esporte que amamos, não será apenas por meio de diferentes modelos de propriedade – deve vir da luta ativa e da participação dos torcedores.

50 + 1 e modelo alemão

Torcedores têm invejado o futebol alemão muito antes do fiasco da ESL. Embora não seja imune à comercialização que hoje é tão desenfreada, a versão alemã do esporte é pelo menos um parente vagamente reconhecível do que antes era o jogo do povo. Antes da pandemia, a Bundesliga era sua liga mais concorrida do mundo, os ingressos e as concessões continuam acessíveis para as massas e os jogos começam em horários acessíveis aos torcedores.

Os estados barulhentos e lotados da Alemanha são atribuídos tipicamente ao mecanismo de propriedade de torcedores do país, chamado de regra 50 + 1. A regra decreta que pelo menos 51% dos clubes devem pertencer a seus membros, os torcedores. Isso significa que estruturalmente os clubes estão em dívida com seus torcedores, ao contrário da maioria das equipes nas maiores ligas da Europa. Mudanças no clube e na liga que não são aprovadas não são inerentemente difíceis de passar.

Embora seja um fator importante, dando o crédito ao modelo estrutural alemão, eles deixam passar o ponto mais amplo: o futebol alemão está mais próximo de sua base porque seus torcedores entendem que a sua relação com seus times é democrática e participativa, que exige responsabilidade a todo custo, não porque a burocracia do futebol alemão tenha cláusulas rígidas sobre quem pode ser dono de um clube.

Os jogadores do FC St Pauli comemoram após marcar durante uma partida da Bundesliga em Hamburgo, Alemanha, em 2020. (Cathrin Mueller / Getty Images)

Infelizmente, há muitas evidências de que a propriedade de fãs não transforma automaticamente um clube de futebol em um bastião do anticapitalismo. O Real Madrid e o FC Barcelona, forças motrizes por trás da estratégia da ESL e dois dos clubes mais comercializados do mundo, são ambos geridos pelo sistema de propriedade de fãs, com torcedores que elegem presidentes a cada quatro anos. E não é preciso ser um especialista em futebol alemão para saber que, apesar de todos os seus aspectos positivos, a regra 50+1 está repleta de lacunas.

Considerado o time mais odiado da Alemanha, o RB Leipzig, de propriedade da Red Bull. Não tem permissão para dar ao clube o nome de uma corporação? Não tem problema, tecnicamente o RB significa RasenBallsport, que se traduz “jogo de bola de gramado” e é tão estranho em alemão quanto soa em qualquer outro idioma. A regra 50+1 estabelece a propriedade de torcedores? Excelente! A RB tem um número colossal de vinte e um membros votantes, todos eles são, por acaso, funcionários da Red Bull. Um clube pequeno da Bundesliga tem mais de dez mil membros.

Dietmar Hopp, bilionário fundador da empresa de software SAP e outra figura desprezada no futebol alemão, possui 96% do Hoffenheim. Sua compra de uma participação majoritária no clube foi permitida como uma isenção à regra 50+1 porque ele passou vinte anos investindo no time. A tentativa fracassada de Martin Kind de assumir o controle d do time Hannover 96 por motivos semelhantes foi fracassada, destacando a interpretação frequentemente arbitrária das regras.

E enquanto a maioria dos clubes alemães adere à carta dos 50 + 1, 49,9% dos clubes tendem a se transformar em entidades corporativas que não parecem diferentes das operações modernas do mercado futebolístico em qualquer outro lugar do mundo. O Bayern de Munique, atual campeão da UEFA Champions League, pode pertencer a um torcedor, mas ainda assim precisa ser competitivo no futebol global. Como outras grandes equipes, o Bayern vai gastar 80 milhões de euros em um jogador e arrecadar dinheiro com operações desagradáveis como a lavagem de dinheiro.

Agora membro do Comitê Executivo da UEFA, o CEO do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge, pode rejeitar a ESL e pedir que “todos os clubes da Europa trabalhem em solidariedade” – mas ele ainda apoia as reformas da Liga dos Campeões da UEFA, que são uma versão mais soft da tentativa da ESL de garantir a permanente qualificação para os grandes clubes. As mesmas reformas da Liga dos Campeões que tantos torcedores alemães, incluindo torcedores do Bayern, se opõem. O Dortmund, por sua vez, é o único time esportivo de capital aberto da Alemanha. E o mercado financeiro não é exatamente um jogo do povo.

Fãs em guerra

Se as estruturas do futebol alemão por si só não são um modelo para combater a comercialização, elas ajudam a destacar o que mantém o esporte relativamente estável: um segmento engajado e antagônico de torcedores que se entendem como participantes e partes interessadas, ou seja, não se veem meros como consumidores.

Os estádios alemães podem ser conhecidos por impressionantes exibições da torcida com total apoio aos seus clubes e os torcedores que estão atrás de seus times nunca prejudicam os princípios que dão poder aos torcedores. Lá, apoiadores radicais e ultras estão em conflito constante contra estruturas e atores que eles veem como uma ameaça ao seu time. E é isso, e não um único conjunto de regras ou regulamentos, que pode fornecer lições para o resto de nós na luta contra propostas como a ESL e a redução do futebol em uma vaca leiteira para poucos.

A regra 50 + 1 só é eficaz por causa do protesto tenaz por parte dos torcedores em toda a Alemanha. Esses torcedores declararam uma guerra contínua contra a Federação Alemã e ligas domésticas pela comercialização desenfreada, ajudaram a pressionar a liga a rejeitar a aquisição de Hannover por Kind e, na vitória mais recente, impedir as partidas de noite na segunda-feira (ótimo para adicionar outro horário nobre para a receita da TV, mas péssimas para fãs que viajam para jogos fora de casa), que foram descartadas quase imediatamente após sua implementação.

A recepção dos torcedores ao RB Leipzig e ao Hoffenheim, devido à propriedade de torcedores, tem sido tão hostil que em um dos momentos mais embaraçosos da história recente da Bundesliga, uma partida foi interrompida usando o protocolo anti-racismo da liga para proteger um velho bilionário branco em Hopp contra gritos dos torcedores. Infelizmente, isso foi mais bem feito do que os esforços da liga para lidar com o racismo, onde o protocolo é frequentemente ignorado.

Não é que os fãs alemães sejam um bloco homogêneo ou todos compartilhem da mesma política, e confundi-los como ativistas anticapitalistas também seria tolice. Mas o que os unifica é a compreensão de que seu papel no futebol é participativo, e isso lhes dá poder.

Quando o CEO do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge, se posiciona contra a comercialização e o ESL, ele não está fazendo isso apenas porque está preocupado com a reunião anual dos membros de seus clubes. Ele está fazendo isso porque, como a maioria dos dirigentes de clubes na Alemanha, ele teme os torcedores e seu poder, que pode ser expressado formalmente por meio de sua propriedade ou informalmente no estádio.

É disso que se trata. A Inglaterra pode adotar a regra 50 + 1 se quiser, o que certamente seria um upgrade em relação ao clubes bilionários da Premier League. Mas o que realmente salvará o futebol europeu é a conceituação estrutural que dá força aos torcedores. Caso contrário, os clubes simplesmente se parecerão cada vez mais com um Real Madrid.

Terminando nossas chances

A hilária dissolução do ESL poucas horas depois de ser cinicamente anunciada deve ser saudada como uma vitória. Mas deve ser o primeiro passo para um movimento que vise arrancar o controle do futebol das mãos de gananciosos burocratas e colocá-lo de volta nas mãos dos torcedores.

Sem uma mudança real, aqueles que torcem pelo colapso da Super League estão brindando um retorno a um status quo sombrio, onde os torcedores não pagam pelos jogos mas assistem pela TV, os clubes ricos acumulam recursos às custas dos menores e da integridade competitiva e o futebol é transformado numa plataforma de marketing e meios para que bilionários e países petrolíferos lavem dinheiro.

Com a maioria dos fãs tem pouco recurso, devido à comercialização e alienação do jogo, muitos de nós fomos forçados a buscar ajuda nas horríveis instituições que ajudaram a promover esse ambiente. A FIFA, que não piscará diante da morte de milhares de trabalhadores nas preparações da Copa do Mundo de 2022, não defenderá repentinamente os valores democráticos no esporte. A UEFA aproveitou este momento de caos para forçar as polêmicas e reformas anticompetitivas da Liga dos Campeões. As ligas nacionais são dominadas pelos mesmos grandes clubes que ameaçaram abandonar o navio. A Premier League foi literalmente fundada em 1992 como uma liga separatista em nome da receita provinda da comercialização da TV. Apesar de todo o discurso sobre a solidariedade e a santidade do esporte nos últimos dias, a resistência dos corretores do futebol global foi baseada em uma ameaça aos seus cofres e nada mais.

Não podemos depender das instituições podres do futebol para nos salvar. Esta é uma oportunidade de demonstrar que não apenas a ganância descarada de uma proposta como a ESL é inaceitável, mas as condições que a criaram devem ser destruídas. É aqui que as aulas de futebol alemão são úteis.

As reivindicações para adotar a propriedade de torcedores no estilo 50 + 1 nas grandes ligas europeias só ficaram mais altas depois do desastre da ESL. Os grandes clubes viram seu blefe e agora está claro que suas ameaças perenes de sair das ligas, se não receberem tudo que desejam, são vazias. Ter torcedores proprietários nos clubes certamente seria um começo (mesmo os clubes alemães mais gananciosos, como Dortmund e Bayern, foram rápidos em denunciar a ESL), mas não pode, por si só, conter a comercialização generalizada.

Em vez disso, a propriedade do torcedor deve ser vista como uma estrutura na qual o futebol democrático de baixo para cima pode florescer, desde que os torcedores estejam dispostos a exercer seu poder, tanto formalmente quanto nas arquibancadas. Torcedores mais engajados na Alemanha têm usado protestos para proteger a estrutura de propriedade dos torcedores, ao mesmo tempo que dão a ela a força que muitas vezes falta em outros países.

Mas, assim como o socialismo, a propriedade e o empoderamento de torcedores em um país só não vão nos salvar. Um internacionalismo lastrado com torcedores que enfatiza a propriedade participativa e o engajamento democrático é a única solução para barrar projetos como o ESL e uma comercialização desenfreada que já está transformando o futebol.

Sobre o autor

Dave Braneck é jornalista em Berlim, cobrindo esportes e política.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...