Dave Braneck
Jacobin
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| O presidente Donald Trump recebe o Prêmio da Paz da FIFA durante o sorteio em Washington, DC, em dezembro passado. (Hector Vivas - FIFA/FIFA via Getty Images) |
Resenha do livro Red card: The 2026 World Cup, sportswashing, and the FIFA greed machine, de Jules Boykoff (OR Books, 2026).
Os hipócritas, aproveitadores e bilionários que massageiam seus próprios egos definem tão fortemente o segundo mandato de Donald Trump que podemos facilmente esquecer que associar-se abertamente a ele costumava ser algo controverso. Ainda assim, relembrar sua posse nos faz recordar o que já era surpreendente naquela época e o que ainda estava por vir.
Naquele dia de janeiro, estavam presentes gigantes da tecnologia como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sam Altman e Jeff Bezos. Também marcaram presença ícones e influenciadores esportivos trumpistas como Jake e Logan Paul, Conor McGregor, o CEO do Ultimate Fighting Championship, Dana White, e Joe Rogan. Havia até mesmo um quarteto de ex-presidentes um tanto perplexos. Mas, entre todos eles, destacava-se uma figura brilhante que a maioria dos estadunidenses provavelmente não reconheceria: o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
O dirigente esportivo ítalo-suíço pode ser relativamente anônimo, mas isso mascara sua importância global. Infantino, que se aproximou notavelmente de Trump nos últimos anos, ajudou a transformar a próxima Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, em um circo dominado por Trump. A Copa do Mundo de 2026 será um novo ponto baixo para o esporte, representando uma clara síntese tanto da abordagem de Trump em relação ao sportswashing quanto da degradação da FIFA.
Segundo o professor e escritor Jules Boykoff, “Infantino trata os Estados Unidos como uma fonte privada de dinheiro para a FIFA, enquanto Trump infla a própria importância, exibindo sua arrogância no maior e mais assistido evento esportivo do planeta, aproveitando-se do brilho do futebol”.
O novo livro de Boykoff, Red card, é um guia prático para quem tenta entender como a Copa do Mundo se tornou um caos e o que isso revela sobre o crescente autoritarismo no esporte e na política mundial. Embora a subserviência da FIFA a Trump tenha sido amplamente noticiada, Boykoff — que também contribui ocasionalmente para a revista Jacobin — analisou minuciosamente cada um dos enojantes escândalos e fraudes. É um livro útil tanto para quem acompanha de perto o show de Trump e Infantino quanto para quem tem preferências esportivas estadunidenses mais tradicionais e precisou pesquisar rapidamente o termo “Copa do Mundo” na Wikipédia antes do início da competição.
Personificação dos esportes
É verdade que Trump muitas vezes se comporta como se estivesse mais à vontade comentando os looks de celebridades no tapete vermelho do que um evento esportivo (embora, como Boykoff observa, ele tenha passado um em cada quatro dias de seu segundo mandato jogando golfe). Ainda assim, o presidente certamente demonstrou astúcia em aproveitar a popularidade dos esportes sempre que possível.
“Como Trump é um megalomaníaco com um estilo de governar grosseiro e transacional e zero compromisso com a verdade, ele está em uma posição privilegiada para explorar o gangsterismo tóxico do esporte”, escreve Boykoff. Embora os laços já estabelecidos de Trump com o MMA e a luta livre, bem como a astuta apropriação da glória do hóquei olímpico, tenham se tornado elementos fundamentais de sua política interna, sediar a Copa do Mundo representa um passo adiante em sua trajetória no cenário global.
Trump não priorizou exatamente manter a imagem de bom anfitrião. Como tantas vezes acontece quando nos deparamos com citações diretas de Trump, ou mesmo com descrições sóbrias e factuais de suas ações, o relato de Red card sobre a incursão de Trump no futebol mundial é vertiginoso. É um fato inédito para a Copa do Mundo que um país anfitrião (os Estados Unidos) tenha iniciado uma guerra com um país participante (o Irã) e sequer tenha se comprometido a garantir a segurança da seleção iraniana durante o torneio. Com a violenta máquina de deportação dos Estados Unidos a todo vapor, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) deverá desempenhar um papel importante na segurança do torneio.
Proibições de viagens e políticas fronteiriças racistas e restritivas tornarão a participação no que deveria ser uma celebração global praticamente impossível para inúmeros fãs. Os compromissos com a inclusão e os direitos humanos, que foram fundamentais para a candidatura pan-norte-americana para sediar o evento, não se concretizaram.
Apesar das críticas generalizadas em relação à abordagem dos Estados Unidos na organização do torneio, a FIFA só serviu para apoiar e dar vazão aos piores instintos de Trump. Para Boykoff, isso não deveria ser uma surpresa, considerando o controle restrito de Infantino sobre a organização e sua relação indiferente com as estruturas democráticas e a prestação de contas.
“Mais do que qualquer outro líder no esporte, Infantino permitiu a guinada global em direção ao fascismo”, escreve Boykoff. Chefe de uma organização comprometida com a neutralidade política, Infantino não hesitou em tomar partido. Apesar da rápida ação para excluir a Rússia das competições após a invasão da Ucrânia, a FIFA permitiu que Israel competisse normalmente em meio a um genocídio. O próprio Infantino esteve intimamente envolvido com o Conselho da Paz de Trump e suas promessas extremamente cínicas de reconstruir Gaza. Ele até mesmo interrompeu seu sorriso de orelha a orelha enquanto usava um boné vermelho dos EUA fornecido por Trump para prometer US$ 75 milhões em nome da FIFA para construir infraestrutura de futebol, incluindo um estádio de vinte mil lugares sobre os escombros que Trump ajudou a criar.
Isso se deve tanto à submissão de Infantino ao poder quanto à sua própria interpretação distorcida da posição global do futebol. Se o futebol é o esporte mais popular do mundo, certamente o chefe de sua entidade máxima deve ter a mesma influência nos assuntos internacionais que um chefe de Estado. Por que mais ele acharia normal participar de importantes cúpulas sobre o cessar-fogo em Gaza, no Egito, ou tentar, de forma desajeitada, fazer com que dirigentes de futebol palestinos e israelenses apertassem as mãos no congresso da FIFA? Dá a impressão de que Infantino, assim como Trump, realmente acredita na própria propaganda.
Certamente, as relações estreitas de Infantino com o Catar e a Arábia Saudita (e seu papel na organização das Copas do Mundo de 2022 e 2034) já demonstravam uma abertura a regimes autoritários. No entanto, ele é particularmente próximo de Trump. Ele transferiu o sorteio da Copa do Mundo para Washington e permitiu que a entrega do cobiçado Prêmio da Paz da FIFA, criado especialmente para o presidente estadunidense, ofuscasse completamente o sorteio do torneio. Ele trata Trump como um bebê, cumprindo todas as suas exigências arbitrárias e instáveis por um único motivo: dinheiro.
A FIFA espera arrecadar US$ 11 bilhões com a Copa do Mundo de 2026. Preços recordes de ingressos — incluindo um sistema de “preços dinâmicos” e uma plataforma de revenda que permite à FIFA ficar com 15% do valor pago por compradores e vendedores, cobrança de centenas de dólares por vagas de estacionamento e a implementação de “pausas para hidratação” obrigatórias em cada tempo, que por acaso são ótimas oportunidades para comerciais — são o único foco de Infantino. Agradar Trump para garantir que a arrecadação seja concretizada é um pequeno preço a pagar.
Não seria um exemplo clássico de sportswashing?
Contudo, o apoio declarado de Infantino a Trump e a exploração desenfreada do futebol às custas de seus torcedores sejam inéditos pela extensão de suas ações não são fatos totalmente novos. Red card oferece um relato conciso e envolvente da complexa relação entre esporte e política. O livro traça a evolução do sportswashing, termo que descreve “quando líderes políticos usam o esporte para parecerem importantes ou legítimos no cenário mundial, enquanto alimentam o nacionalismo e desviam a atenção de problemas sociais crônicos e violações de direitos humanos em seus países”, desde o pão e circo da Roma Antiga, passando pelos festivais esportivos da década de 1930 na Itália fascista e na Alemanha nazista, até a Copa do Mundo de futebol realizada sob a junta militar argentina em 1978, chegando às edições modernas na Rússia, no Catar e na América do Norte.
Se você já conhece o trabalho de Boykoff, provavelmente muito disso não será novidade. Ele é o Maradona da crítica às instituições esportivas exploradoras e escreveu vários livros sobre a corrupção implacável que corrói os megaeventos esportivos. Embora alguns de seus outros livros, como Power games: A political history of the Olympics [Jogos de poder: Uma história política das Olimpíadas], explorem as raízes do sportswashing moderno com maior profundidade, o contexto histórico expandido de Red card em relação à Copa do Mundo de futebol é útil, especialmente para ilustrar onde Trump diverge de exemplos anteriores.
Trump parece indiferente à construção de legitimidade global ou à necessidade de desviar a atenção de violações de direitos humanos em âmbito doméstico. É claro que ele não se importará se o torneio desviar a atenção dos arquivos de Epstein, e certamente ficará feliz em estar associado a um evento tão popular e prestigioso globalmente quanto a Copa do Mundo. Mas Trump nunca foi de moderar seu comportamento para agradar o público, seja ele nacional ou internacional.
Refletindo amplamente sua presidência, Trump produziu uma mutação singular do sportswashing que se concentra em esquemas de corrupção e desvios de verbas públicas, mas ignora completamente a construção de narrativas positivas na mídia. O Catar investiu muito dinheiro e esforço na organização da Copa do Mundo de 2022 para limpar sua reputação internacional. Isso significou dar atenção especial à manipulação de reportagens críticas da imprensa internacional sobre suas brutais práticas de trabalho migrante e se desdobrar para garantir que os torcedores presentes tivessem uma experiência segura e tranquila. O objetivo: mudar a opinião pública ocidental sobre a realidade no país.
Os Estados Unidos são um caso diferente. O país tem se mostrado tão beligerante no exterior e tão repressivo internamente como sempre, às vésperas da Copa do Mundo, e Trump parece não se importar se algum turista estrangeiro vier para o torneio, muito menos se vai se divertir, apesar de constantemente se gabar de que será a maior Copa do Mundo de todos os tempos.
Considerando a perspicaz análise de Red card sobre o sportswashing em geral, uma atenção mais matizada a como Trump se encaixa (ou se distancia) dos modelos anteriores e o que isso significa para a próxima Copa do Mundo teria sido esclarecedora. Da mesma forma, embora Boykoff faça um trabalho fantástico ao situar a importância do esporte como uma alavanca cultural, econômica e política vital em um mundo que se inclina para a direita, a relação concreta entre os dois poderia, por vezes, ser mais claramente elucidada.
“Sob Trump, testemunhamos o lento declínio rumo ao autoritarismo”, escreve Boykoff. “Sediar a Copa do Mundo contribui inequivocamente para essa triste queda.” Mas relações causais mais claras poderiam ser estabelecidas entre o regime repressivo de Trump e os mecanismos de organização do torneio em questão. Do contrário, por vezes fica a impressão de ser apenas uma lista de uma série de coisas ruins acontecendo simultaneamente.
De fato, o governo Trump tem corroído a democracia e assassinado manifestantes na preparação para a Copa do Mundo. Como observa Boykoff, a designação de Evento Nacional de Segurança Especial (NSSE, na sigla em inglês), inicialmente declarada por Joe Biden em 2024, às vésperas das Olimpíadas de Los Angeles de 2028, “acaba dando ampla liberdade para diversas agências federais, incluindo o ICE”. Não está claro se Trump se importa com a margem de manobra concedida pelo NSSE em particular, e se as medidas repressivas autocráticas estão diretamente relacionadas à Copa do Mundo.
Trump já demonstrava um grande ímpeto repressivo mesmo sem a Copa do Mundo e, dada a posição secundária do futebol no cenário esportivo dos EUA, o torneio não foi usado para justificar a repressão à dissidência com a mesma frequência que em outros casos, nos quais a Copa do Mundo era um projeto nacional abrangente. O torneio foi moldado por esse contexto sombrio e latente, mas se ele realmente estivesse impulsionando a autocracia, como em outras Olimpíadas e Copas do Mundo, uma análise mais clara teria fortalecido a pesquisa já minuciosa e ponderada de Boykoff.
Nada de pão, apenas o circo
Boykoff encerra Red card com uma observação que deveria ser bastante óbvia, mas que há muito tempo foi abafada pela cacofonia de histórias absurdas e deprimentes sobre a repressão e a deturpação corporativa que a Copa do Mundo enfrenta: os Estados Unidos simplesmente não deveriam sediá-la. Além de examinar o desenvolvimento histórico do sportswashing, o livro destaca os megaeventos esportivos como espaços de luta popular e ímãs para protestos.
Embora a Copa do Mundo de 2026 não tenha recebido críticas globais como a do Catar em 2022, nem tenha sido associada a uma indignação generalizada nos Estados Unidos como as Olimpíadas de 2016 no Brasil, Boykoff traça o perfil de diversos ativistas locais que se opõem à Copa do Mundo e à sua implementação gananciosa e provavelmente brutal. Zohran Mamdani, à frente da resistência de autoridades locais das cidades-sede contra a FIFA, demonstra que a resistência pode utilizar canais oficiais, além da ação popular.
Tragicamente resto muito pouco e quase nenhum tempo para fazer desta Copa do Mundo a celebração de um esporte popular como ela deveria ser. Mas também mostra que as instituições responsáveis por isso podem ser combatidas — só precisamos agir com muito mais antecedência, de maneira mais organizada e com mais indignação. Caso contrário, uma das últimas coisas boas que nos restam será usada para nos explorar e consolidar o poder despótico. Red card traça o caminho que nos trouxe até aqui. Prestar atenção à sua mensagem pode inspirar uma alternativa futura.
Colaborador
Os hipócritas, aproveitadores e bilionários que massageiam seus próprios egos definem tão fortemente o segundo mandato de Donald Trump que podemos facilmente esquecer que associar-se abertamente a ele costumava ser algo controverso. Ainda assim, relembrar sua posse nos faz recordar o que já era surpreendente naquela época e o que ainda estava por vir.
Naquele dia de janeiro, estavam presentes gigantes da tecnologia como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sam Altman e Jeff Bezos. Também marcaram presença ícones e influenciadores esportivos trumpistas como Jake e Logan Paul, Conor McGregor, o CEO do Ultimate Fighting Championship, Dana White, e Joe Rogan. Havia até mesmo um quarteto de ex-presidentes um tanto perplexos. Mas, entre todos eles, destacava-se uma figura brilhante que a maioria dos estadunidenses provavelmente não reconheceria: o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
O dirigente esportivo ítalo-suíço pode ser relativamente anônimo, mas isso mascara sua importância global. Infantino, que se aproximou notavelmente de Trump nos últimos anos, ajudou a transformar a próxima Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, em um circo dominado por Trump. A Copa do Mundo de 2026 será um novo ponto baixo para o esporte, representando uma clara síntese tanto da abordagem de Trump em relação ao sportswashing quanto da degradação da FIFA.
Segundo o professor e escritor Jules Boykoff, “Infantino trata os Estados Unidos como uma fonte privada de dinheiro para a FIFA, enquanto Trump infla a própria importância, exibindo sua arrogância no maior e mais assistido evento esportivo do planeta, aproveitando-se do brilho do futebol”.
O novo livro de Boykoff, Red card, é um guia prático para quem tenta entender como a Copa do Mundo se tornou um caos e o que isso revela sobre o crescente autoritarismo no esporte e na política mundial. Embora a subserviência da FIFA a Trump tenha sido amplamente noticiada, Boykoff — que também contribui ocasionalmente para a revista Jacobin — analisou minuciosamente cada um dos enojantes escândalos e fraudes. É um livro útil tanto para quem acompanha de perto o show de Trump e Infantino quanto para quem tem preferências esportivas estadunidenses mais tradicionais e precisou pesquisar rapidamente o termo “Copa do Mundo” na Wikipédia antes do início da competição.
Personificação dos esportes
É verdade que Trump muitas vezes se comporta como se estivesse mais à vontade comentando os looks de celebridades no tapete vermelho do que um evento esportivo (embora, como Boykoff observa, ele tenha passado um em cada quatro dias de seu segundo mandato jogando golfe). Ainda assim, o presidente certamente demonstrou astúcia em aproveitar a popularidade dos esportes sempre que possível.
“Como Trump é um megalomaníaco com um estilo de governar grosseiro e transacional e zero compromisso com a verdade, ele está em uma posição privilegiada para explorar o gangsterismo tóxico do esporte”, escreve Boykoff. Embora os laços já estabelecidos de Trump com o MMA e a luta livre, bem como a astuta apropriação da glória do hóquei olímpico, tenham se tornado elementos fundamentais de sua política interna, sediar a Copa do Mundo representa um passo adiante em sua trajetória no cenário global.
Trump não priorizou exatamente manter a imagem de bom anfitrião. Como tantas vezes acontece quando nos deparamos com citações diretas de Trump, ou mesmo com descrições sóbrias e factuais de suas ações, o relato de Red card sobre a incursão de Trump no futebol mundial é vertiginoso. É um fato inédito para a Copa do Mundo que um país anfitrião (os Estados Unidos) tenha iniciado uma guerra com um país participante (o Irã) e sequer tenha se comprometido a garantir a segurança da seleção iraniana durante o torneio. Com a violenta máquina de deportação dos Estados Unidos a todo vapor, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) deverá desempenhar um papel importante na segurança do torneio.
Proibições de viagens e políticas fronteiriças racistas e restritivas tornarão a participação no que deveria ser uma celebração global praticamente impossível para inúmeros fãs. Os compromissos com a inclusão e os direitos humanos, que foram fundamentais para a candidatura pan-norte-americana para sediar o evento, não se concretizaram.
Apesar das críticas generalizadas em relação à abordagem dos Estados Unidos na organização do torneio, a FIFA só serviu para apoiar e dar vazão aos piores instintos de Trump. Para Boykoff, isso não deveria ser uma surpresa, considerando o controle restrito de Infantino sobre a organização e sua relação indiferente com as estruturas democráticas e a prestação de contas.
“Mais do que qualquer outro líder no esporte, Infantino permitiu a guinada global em direção ao fascismo”, escreve Boykoff. Chefe de uma organização comprometida com a neutralidade política, Infantino não hesitou em tomar partido. Apesar da rápida ação para excluir a Rússia das competições após a invasão da Ucrânia, a FIFA permitiu que Israel competisse normalmente em meio a um genocídio. O próprio Infantino esteve intimamente envolvido com o Conselho da Paz de Trump e suas promessas extremamente cínicas de reconstruir Gaza. Ele até mesmo interrompeu seu sorriso de orelha a orelha enquanto usava um boné vermelho dos EUA fornecido por Trump para prometer US$ 75 milhões em nome da FIFA para construir infraestrutura de futebol, incluindo um estádio de vinte mil lugares sobre os escombros que Trump ajudou a criar.
Isso se deve tanto à submissão de Infantino ao poder quanto à sua própria interpretação distorcida da posição global do futebol. Se o futebol é o esporte mais popular do mundo, certamente o chefe de sua entidade máxima deve ter a mesma influência nos assuntos internacionais que um chefe de Estado. Por que mais ele acharia normal participar de importantes cúpulas sobre o cessar-fogo em Gaza, no Egito, ou tentar, de forma desajeitada, fazer com que dirigentes de futebol palestinos e israelenses apertassem as mãos no congresso da FIFA? Dá a impressão de que Infantino, assim como Trump, realmente acredita na própria propaganda.
Certamente, as relações estreitas de Infantino com o Catar e a Arábia Saudita (e seu papel na organização das Copas do Mundo de 2022 e 2034) já demonstravam uma abertura a regimes autoritários. No entanto, ele é particularmente próximo de Trump. Ele transferiu o sorteio da Copa do Mundo para Washington e permitiu que a entrega do cobiçado Prêmio da Paz da FIFA, criado especialmente para o presidente estadunidense, ofuscasse completamente o sorteio do torneio. Ele trata Trump como um bebê, cumprindo todas as suas exigências arbitrárias e instáveis por um único motivo: dinheiro.
A FIFA espera arrecadar US$ 11 bilhões com a Copa do Mundo de 2026. Preços recordes de ingressos — incluindo um sistema de “preços dinâmicos” e uma plataforma de revenda que permite à FIFA ficar com 15% do valor pago por compradores e vendedores, cobrança de centenas de dólares por vagas de estacionamento e a implementação de “pausas para hidratação” obrigatórias em cada tempo, que por acaso são ótimas oportunidades para comerciais — são o único foco de Infantino. Agradar Trump para garantir que a arrecadação seja concretizada é um pequeno preço a pagar.
Não seria um exemplo clássico de sportswashing?
Contudo, o apoio declarado de Infantino a Trump e a exploração desenfreada do futebol às custas de seus torcedores sejam inéditos pela extensão de suas ações não são fatos totalmente novos. Red card oferece um relato conciso e envolvente da complexa relação entre esporte e política. O livro traça a evolução do sportswashing, termo que descreve “quando líderes políticos usam o esporte para parecerem importantes ou legítimos no cenário mundial, enquanto alimentam o nacionalismo e desviam a atenção de problemas sociais crônicos e violações de direitos humanos em seus países”, desde o pão e circo da Roma Antiga, passando pelos festivais esportivos da década de 1930 na Itália fascista e na Alemanha nazista, até a Copa do Mundo de futebol realizada sob a junta militar argentina em 1978, chegando às edições modernas na Rússia, no Catar e na América do Norte.
Se você já conhece o trabalho de Boykoff, provavelmente muito disso não será novidade. Ele é o Maradona da crítica às instituições esportivas exploradoras e escreveu vários livros sobre a corrupção implacável que corrói os megaeventos esportivos. Embora alguns de seus outros livros, como Power games: A political history of the Olympics [Jogos de poder: Uma história política das Olimpíadas], explorem as raízes do sportswashing moderno com maior profundidade, o contexto histórico expandido de Red card em relação à Copa do Mundo de futebol é útil, especialmente para ilustrar onde Trump diverge de exemplos anteriores.
Trump parece indiferente à construção de legitimidade global ou à necessidade de desviar a atenção de violações de direitos humanos em âmbito doméstico. É claro que ele não se importará se o torneio desviar a atenção dos arquivos de Epstein, e certamente ficará feliz em estar associado a um evento tão popular e prestigioso globalmente quanto a Copa do Mundo. Mas Trump nunca foi de moderar seu comportamento para agradar o público, seja ele nacional ou internacional.
Refletindo amplamente sua presidência, Trump produziu uma mutação singular do sportswashing que se concentra em esquemas de corrupção e desvios de verbas públicas, mas ignora completamente a construção de narrativas positivas na mídia. O Catar investiu muito dinheiro e esforço na organização da Copa do Mundo de 2022 para limpar sua reputação internacional. Isso significou dar atenção especial à manipulação de reportagens críticas da imprensa internacional sobre suas brutais práticas de trabalho migrante e se desdobrar para garantir que os torcedores presentes tivessem uma experiência segura e tranquila. O objetivo: mudar a opinião pública ocidental sobre a realidade no país.
Os Estados Unidos são um caso diferente. O país tem se mostrado tão beligerante no exterior e tão repressivo internamente como sempre, às vésperas da Copa do Mundo, e Trump parece não se importar se algum turista estrangeiro vier para o torneio, muito menos se vai se divertir, apesar de constantemente se gabar de que será a maior Copa do Mundo de todos os tempos.
Considerando a perspicaz análise de Red card sobre o sportswashing em geral, uma atenção mais matizada a como Trump se encaixa (ou se distancia) dos modelos anteriores e o que isso significa para a próxima Copa do Mundo teria sido esclarecedora. Da mesma forma, embora Boykoff faça um trabalho fantástico ao situar a importância do esporte como uma alavanca cultural, econômica e política vital em um mundo que se inclina para a direita, a relação concreta entre os dois poderia, por vezes, ser mais claramente elucidada.
“Sob Trump, testemunhamos o lento declínio rumo ao autoritarismo”, escreve Boykoff. “Sediar a Copa do Mundo contribui inequivocamente para essa triste queda.” Mas relações causais mais claras poderiam ser estabelecidas entre o regime repressivo de Trump e os mecanismos de organização do torneio em questão. Do contrário, por vezes fica a impressão de ser apenas uma lista de uma série de coisas ruins acontecendo simultaneamente.
De fato, o governo Trump tem corroído a democracia e assassinado manifestantes na preparação para a Copa do Mundo. Como observa Boykoff, a designação de Evento Nacional de Segurança Especial (NSSE, na sigla em inglês), inicialmente declarada por Joe Biden em 2024, às vésperas das Olimpíadas de Los Angeles de 2028, “acaba dando ampla liberdade para diversas agências federais, incluindo o ICE”. Não está claro se Trump se importa com a margem de manobra concedida pelo NSSE em particular, e se as medidas repressivas autocráticas estão diretamente relacionadas à Copa do Mundo.
Trump já demonstrava um grande ímpeto repressivo mesmo sem a Copa do Mundo e, dada a posição secundária do futebol no cenário esportivo dos EUA, o torneio não foi usado para justificar a repressão à dissidência com a mesma frequência que em outros casos, nos quais a Copa do Mundo era um projeto nacional abrangente. O torneio foi moldado por esse contexto sombrio e latente, mas se ele realmente estivesse impulsionando a autocracia, como em outras Olimpíadas e Copas do Mundo, uma análise mais clara teria fortalecido a pesquisa já minuciosa e ponderada de Boykoff.
Nada de pão, apenas o circo
Boykoff encerra Red card com uma observação que deveria ser bastante óbvia, mas que há muito tempo foi abafada pela cacofonia de histórias absurdas e deprimentes sobre a repressão e a deturpação corporativa que a Copa do Mundo enfrenta: os Estados Unidos simplesmente não deveriam sediá-la. Além de examinar o desenvolvimento histórico do sportswashing, o livro destaca os megaeventos esportivos como espaços de luta popular e ímãs para protestos.
Embora a Copa do Mundo de 2026 não tenha recebido críticas globais como a do Catar em 2022, nem tenha sido associada a uma indignação generalizada nos Estados Unidos como as Olimpíadas de 2016 no Brasil, Boykoff traça o perfil de diversos ativistas locais que se opõem à Copa do Mundo e à sua implementação gananciosa e provavelmente brutal. Zohran Mamdani, à frente da resistência de autoridades locais das cidades-sede contra a FIFA, demonstra que a resistência pode utilizar canais oficiais, além da ação popular.
Tragicamente resto muito pouco e quase nenhum tempo para fazer desta Copa do Mundo a celebração de um esporte popular como ela deveria ser. Mas também mostra que as instituições responsáveis por isso podem ser combatidas — só precisamos agir com muito mais antecedência, de maneira mais organizada e com mais indignação. Caso contrário, uma das últimas coisas boas que nos restam será usada para nos explorar e consolidar o poder despótico. Red card traça o caminho que nos trouxe até aqui. Prestar atenção à sua mensagem pode inspirar uma alternativa futura.
Colaborador
Dave Braneck é um jornalista em Berlim que cobre esportes e política.

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