Um diagnóstico da cultura política confusa das elites atlânticas atuais, no qual Trump é interpretado tanto como sintoma quanto como causa. Poderá o conceito de hiperpolítica ajudar a decifrar a incoerência estratégica e os horizontes limitados dos blocos das classes dominantes do Ocidente, marcados por divisões internas?
Anton Jäger
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| NLR 159 • May/June 2026 |
Um dos aspectos mais marcantes da atual conjuntura no Ocidente é o desarranjo da cultura política das elites. Em todo o mundo atlântico, os códigos estabelecidos de governança já não estão vinculados de forma segura a ações ou intenções — a tal ponto que se tornaram ilegíveis para as próprias classes governantes. A condução dos assuntos mundiais por Trump é o exemplo mais flagrante. Comentários casuais — "As negociações estão indo muito bem" — podem acabar sinalizando o início de uma guerra, ou não. Ameaças de extermínio — "Uma civilização inteira morrerá esta noite" — podem indicar um cessar-fogo. Trump é frequentemente interpretado como a causa de todos os outros males do mundo, desde a União Europeia estar em completo desengano até o descontentamento com a IA ou a incoerência estratégica no Oriente Médio. No entanto, e se o próprio Trump fosse tratado apenas como o sintoma de uma mudança mais geral na cultura da classe dominante — embora um indicador grave o suficiente para gerar seus próprios efeitos dominó?
A experiência dos escalões inferiores da sociedade pode fornecer analogias para esse desarranjo das elites. O surgimento de novas formas online de cultura política popular no Ocidente na década de 2010 sugeriu o termo "hiperpolítica" para descrever sua intensidade desproporcional, após os anos 1990 "pós-políticos". À medida que a ofensiva hiperpolítica ganhava massa e velocidade em meados da década, novos gêneros políticos se cristalizaram e os antigos foram reformulados: Syriza, Podemos, Corbyn, Sanders, Black Lives Matter, La France insoumise à esquerda; à direita, Golden Dawn (Aurora Dourada), Vox, Farage, MAGA e Le Pen. Muito disso permaneceu como um modo de engajamento moldado nos mundos da vida online, caracterizado por enxames voláteis e fortes emoções; "guerras de manobra", com surtos intermitentes de ativismo; ciclos frenéticos de indignação e esgotamento; seguidores e caça às bruxas. Suas intervenções eleitorais geralmente dependiam de uma figura de liderança ao estilo influenciador, com um controle desmedido sobre a organização. Comparado ao ideal-tipo weberiano de racionalidade política burocrática — o modo dos ministérios e das pastas executivas —, esse modelo era imediatista, em vez de planejar para as próximas gerações; focado em mensagens online mais do que na infraestrutura física. Apesar de todo o seu furor, o modo hiperpolítico carecia de ferramentas políticas de massa — acima de tudo, formatos partidários fortes — para efetuar mudanças concretas.
Resultados contrastantes
Será que o conceito de hiperpolítica também pode ajudar a identificar e explicar padrões de comportamento entre as classes dominantes — não apenas nos EUA, mas também na Europa? Os contornos dessa hiperpolítica das elites podem ser melhor delineados mediante um contraste com a pós-política da década de 1990, tanto em suas dimensões superiores quanto nas inferiores. Economicamente, a ofensiva capitalista coordenada dos anos Thatcher-Reagan deixou as classes trabalhadoras com salários estagnados, jornadas mais longas e dívidas crescentes. Social e culturalmente, a mercantilização agressiva do cotidiano e a atomização da sociedade civil — somadas ao esvaziamento dos partidos de massa, das associações sindicais e da habitação pública — produziram uma forma de desinstitucionalização popular. Em termos de classe, esses desdobramentos provocaram tanto uma complexificação quanto um alargamento das clivagens sociais existentes; contudo, tais fraturas raramente encontraram reflexo político duradouro, inaugurando o que o sociólogo alemão Klaus Dörre denominou demobilisierte Klassengesellschaften — "sociedades de classe desmobilizadas".[3] Politicamente, 1989 marcou o desaparecimento de qualquer horizonte pós-capitalista representado pelo socialismo de Estado — bem como o declínio da social-democracia, à medida que os antigos partidos operários se redefiniram como sociais-liberais ou de "centro-esquerda". O resultado para a política eleitoral na década de 1990 foi uma deserção em massa das camadas populares, fato que Peter Mair foi um dos primeiros a compreender.[4]
As consequências para as classes dominantes não foram menos significativas. Economicamente, a década de 1990, marcada pela desregulamentação, trouxe uma acumulação vertiginosa de riqueza e fluxos intensos de capital global. Social e culturalmente, a classe dos proprietários de ativos expandiu-se e diversificou-se, acolhendo novas levas de super-ricos. Politicamente, como também apontou Mair, as elites também se afastavam do engajamento democrático. Esse abandono por parte das camadas superiores assumiu uma forma distinta daquela observada nas classes populares: não se tratava de desinstitucionalização, mas de uma "retirada para um mundo oficial".[5] As instituições que ganharam protagonismo e dominaram as manchetes nas décadas de 1990 e início de 2000 — o Federal Reserve, o FMI, o Banco Mundial, o G7 — estavam blindadas contra pressões populares. Em contrapartida, muitas delas estavam abertas à influência empresarial, mediada por vastas redes de lobby em Washington e Bruxelas. No caso específico desta última, a União Europeia do pós-Maastricht foi conscientemente concebida como uma "entidade política despolitizada" — na expressão de Mair —, isolada da cidadania, mesmo quando políticas acordadas em nível supranacional penetravam mais profundamente no cotidiano, com o lançamento do euro e o crescimento exponencial das diretrizes da UE.
Para as classes dominantes também, esta era uma era "pós-política", caso a política seja definida como agonística — a disputa sobre quais modos de organização social deveriam prevalecer em um determinado território. Todos concordavam agora, com entusiasmo, com Thatcher, de que "não havia alternativa", embora um liberalismo social mais conciliador e otimista — até mesmo "progressista" — tenha se tornado a perspectiva dominante, personificada pelos casais Blair e Clinton, sem se deixar perturbar pelos períodos em que a centro-direita esteve no poder. As elites governantes mantinham um controle rígido sobre as estruturas esvaziadas dos partidos de massa, embora agências de publicidade, grupos focais e pesquisas de opinião tivessem substituído as conferências partidárias ou as estruturas de diretórios locais e regionais na tarefa de gerar "a visão". Os dirigentes partidários ainda desempenhavam funções de recrutamento e clientelismo, atuando como guardiões do acesso ao poder político; suas identidades partidárias — cores, símbolos, lemas — ainda estruturavam as eleições. Contudo, os partidos de governo tornavam-se, cada vez mais, veículos paraestatais ou instrumentos a serviço da classe dos doadores, sem mais fingir cumprir seu papel tradicional de representação popular.footnote6 O que um Habermas já idoso descreveu como a nova transformação estrutural da esfera pública contribuiu para um grau adicional de atomização.[7]
Essa era de ouro para as elites governantes ocidentais gerou, no entanto, problemas potenciais para o domínio de sua classe. Em primeiro lugar, a própria transformação da riqueza baseada em ativos, que sustentava a nova elite, ameaçava romper a coerência interna das classes dominantes, para as quais riqueza, poder e território tradicionalmente caminhavam juntos. Os efeitos da globalização econômica — trazendo a propriedade institucional estrangeira de ativos nacionais e a diluição das classes capitalistas locais, em meio ao turbilhão de fundos internacionais — também romperam os vínculos anteriores de parentesco e cultura entre as elites estatais e os proprietários de ativos. Isso tornou provável o surgimento de novas fraturas, tanto em relação aos eleitores quanto a outros setores capitalistas. O processo foi mais extremo na Grã-Bretanha, onde a desregulamentação do setor financeiro promovida por Thatcher em 1986 — o chamado "Big Bang" — implodiu não apenas o "capitalismo de cavalheiros" da City de Londres, mas também as estruturas provinciais de gerentes de bancos locais e empresários do Rotary Club, cujas famílias ocupavam os escalões intermediários do Partido Conservador. A globalização da riqueza, enquanto a política permanecia residualmente nacional, introduziu contradições comparáveis no interior das elites de outros países. Embora a França e a Alemanha tenham lutado com muito mais afinco para proteger suas "campeãs nacionais" na engenharia de ponta (a última fabricante de automóveis britânica foi vendida há muito tempo), seus bancos, ainda assim, consideraram as hipotecas subprime americanas mais atraentes. Nos EUA, a relação entre Estado e capital dependia menos de laços de parentesco e proximidade pessoal, estando solidamente institucionalizada na indústria de lobby, que canalizava incentivos corporativos para membros estratégicos de comitês do Congresso. Mas também ali, a onda de fusões e aquisições implacáveis, o desmantelamento de ativos e a terceirização contribuíram para enfraquecer os vínculos entre as empresas e o território.
Em segundo lugar, o esvaziamento das estruturas capilares dos partidos de massa — que antes conectavam governos eleitos às suas bases locais — enfraqueceu a capacidade dos governantes de forjar blocos hegemônicos transclassistas ou de mobilizar apoio para estratégias empresariais de longo prazo. Em vez disso, viram-se obrigados a depender da mídia de massa para persuadir o público — meios que, por sua vez, já começavam a sofrer com a queda na audiência e na circulação. Sem instrumentos institucionais adequados, as classes governantes enfrentavam dificuldades para regular as relações entre elite e massa e para projetar poder em direção às camadas inferiores ou para o restante do país. Muito antes da crise financeira de 2008, o apoio popular já se tornara volúvel e efêmero; a volatilidade eleitoral, a abstenção e a rejeição aos ocupantes do poder eram a nova ordem do dia. Após a crise, à medida que os resgates financeiros e as políticas de flexibilização quantitativa (quantitative easing) se traduziam na famosa recuperação em formato de "K" — com a riqueza dos detentores de ativos disparando enquanto as camadas médias enfrentavam dificuldades —, tais contradições tornaram-se um passivo político. Com o colapso da votação de muitos partidos governantes, o cenário estava pronto para a ascensão de forças hiperpolíticas.
Incoerência radicalizada
Será que os proprietários de ativos também passaram por uma repolitização na década de 2010, em sintonia com a efervescência vinda da base? Sim, responde um relatório da Harvard Business Review: "Quase tudo nos negócios hoje é político":
Quando a Delta Airlines deixou de oferecer descontos a membros da NRA após um tiroteio em uma escola na Flórida em 2018, foi ameaçada com a retirada de subsídios de combustível na Geórgia. Quando a Disney se manifestou sobre os direitos LGBTQ+ na Flórida, perdeu seu status especial de governança e seus direitos no estado. Quando a H&M expressou preocupações sobre a origem do algodão e os direitos humanos na China, suas receitas naquele país despencaram. Quando a crise da Ucrânia eclodiu, o McDonald’s foi forçado a abandonar o negócio que havia construído meticulosamente na Rússia ao longo de 30 anos.
A Harvard Business Review diagnostica o dilema enfrentado pelas elites corporativas americanas: as desigualdades de riqueza e renda tornaram-se mais evidentes, gerando divergências de interesses e opiniões rapidamente amplificadas nas redes sociais, ao mesmo tempo em que o ambiente de trabalho se transformou em "um veículo de socialização e autoexpressão". O relatório conclui: "Escolhas que poderiam ter sido simples em termos puramente econômicos — como em que ramo atuar, onde fazer negócios, com quem negociar e até mesmo como precificar produtos ou contratar e promover funcionários — agora podem facilmente se tornar complicadas por questões políticas".
As origens dessa radicalização discursiva nas altas cúpulas da Delta e da Disney podem ser atribuídas, em parte, à tentativa dos Democratas de oferecer reparações ideológicas pela forma como lidaram com a crise financeira — um movimento emblematicamente ilustrado pelo apoio de Obama ao feminismo universitário por meio de sua carta de 2011, conhecida como "Dear Colleague" (Prezado Colega), sobre denúncias relacionadas ao Title IX; a carta foi enviada no dia em que ele lançou sua segunda campanha presidencial, num momento em que o desemprego nos EUA atingia 15 milhões de pessoas. A disseminação de políticas de diversidade das universidades para o mundo corporativo foi acelerada por consultorias como a McKinsey e incorporada às metas de ESG, que começaram a ocupar um espaço significativo nos relatórios das empresas. Políticos do mainstream seguiram o exemplo; em 2020, Nancy Pelosi e Keir Starmer deixaram-se fotografar ajoelhando-se solenemente. A radicalização retórica do liberalismo encontrou, naturalmente, uma reação igual e oposta por parte do campo conservador. Na primeira campanha de Trump, o tom era mais radical — "carnificina americana!" — do que o discurso democrata, muitas vezes excessivamente otimista. No entanto, aqui interessa menos o desenrolar detalhado das guerras culturais do que a fratura ideológica das elites, processo que tal repolitização serviu para intensificar.
Outro indicador é a crescente polarização política das elites empresariais americanas. Tradicionalmente, os CEOs constituíam uma fonte sólida de apoio ao Partido Republicano; contudo, cerca de 25% deles estão hoje registrados como democratas. O resultado é que "indivíduos que compõem um dos grupos de interesse mais poderosos — as elites corporativas — parecem estar se fragmentando ideologicamente e, até certo ponto, até mesmo mudando de lado".[9] Como observou Dylan Riley em 2024:
Historicamente, o sistema bipartidário dividia a classe trabalhadora entre democratas e republicanos, com os blocos verticais resultantes consolidados por uma combinação de promessas de concessões e demagogia personalista. Uma vez no poder, porém, os partidos tipicamente abandonavam seus programas eleitorais e se deslocavam para o centro. Mas o que ocorreu no período mais recente... são revoltas internas aos partidos, tanto à direita quanto à esquerda... Isso cria uma situação perigosa para os governantes, na qual não conseguem encontrar facilmente um meio de restabelecer o equilíbrio.[10]
Juntamente com a ascensão do faccionalismo nas elites, surge uma individualização absoluta — como se vê no ativismo de bilionários (os Koch, os Adelson, o próprio Trump), que tem sido uma força motriz na polarização da classe dominante. Como afirma Herman Mark Schwartz: "as camadas de elites cuja cooperação é necessária para fazer o sistema funcionar" agora "priorizam seus próprios interesses privados em detrimento de seus interesses coletivos de classe".[11]
Mais do que a fúria popular, a incoerência das elites é uma variável subestimada na agitação política dos últimos anos. Em ambos os lados do Atlântico, os líderes ocidentais lutam — no plano vertical — para conquistar apoio popular suficiente para permanecer no cargo, quanto mais para construir uma coalizão duradoura com adesão majoritária. A incapacidade dos Democratas de traduzir sua estratégia industrial verde — promovendo a criação de empregos em energia limpa em estados de maioria republicana — em vitória eleitoral em 2024 foi apenas o indicador mais recente de quão difícil é para as elites obterem consentimento para seus planos, em meio à volatilidade do eleitorado e a desafiantes antissistema tanto à direita quanto à esquerda.footnote12 No plano horizontal, por sua vez, as classes governantes enfrentam dificuldades para criar coesão entre diferentes frações do capital e ajudar os proprietários de ativos a articular interesses para além de divisões setoriais ou geográficas. Isso, por sua vez, dificulta a coerência estratégica — algo evidente na turbulência geoeconômica do último ano, desde a onda de tarifas até a destruição da infraestrutura de petróleo e gás no Golfo e a aterrorização da mão de obra migrante de baixos salários. Mais do que a causa, Trump — o hiperpolítico — é uma consequência dessa desarticulação das elites, conferindo capacidade de ação na ausência de uma estrutura estabilizadora.
A desordem da Europa
O que Trump catalisa, naturalmente, é mais incoerência, como demonstra a situação atual da Europa. Aqui, um conjunto de dependências geopolíticas e econômicas preexistentes torna a fragmentação das elites e o colapso dos blocos interclassistas muito mais paralisantes do que nos EUA. Os partidos tradicionais ainda detêm o poder nos três maiores países da Europa, mas a sua situação é precária e — sinal do clima hiperpolítico do eleitorado — os seus líderes são profundamente impopulares. Na Alemanha, Merz lidera uma coligação sem rumo e marcada por tensões internas, que obteve, no total, apenas 45% dos votos; a sua taxa de aprovação pessoal é de –64.[13] Embora a Alemanha seja a líder de facto do bloco da UE, as suas elites governantes não conseguem reunir coesão e apoio popular suficientes para relançar as suas indústrias exportadoras face à concorrência chinesa e à pressão energética americana, muito menos para elaborar uma estratégia continental. Em França, o governo de Macron não tem conseguido apoio parlamentar para aprovar o orçamento desde as eleições legislativas de 2024, nas quais a sua coligação ficou em terceiro lugar na primeira volta, atrás de Mélenchon e Le Pen.[14] Na Grã-Bretanha, graças ao sistema eleitoral majoritário de turno único (first-past-the-post) e a uma direita dividida entre os Tories e o partido Reform, o Partido Trabalhista de Starmer conquistou uma vitória esmagadora com 411 assentos (de um total de 650) em 2024, com um mandato proveniente de apenas 20% do eleitorado total — sendo que a sua votação popular foi inferior à obtida por Corbyn em 2019.[15]
Essa falta de apoio vertical aos governantes europeus explica-se, em parte, pela sua incapacidade de unir as diferentes frações do capital em torno de uma estratégia coerente para revitalizar as suas economias estagnadas, encurraladas entre os ditames dos mercados de títulos, uma transição energética (Energiewende) vacilante, os encargos regulatórios do "capitalismo de conformidade" da UE, o peso crescente da assistência social aos idosos, a infraestrutura pública em deterioração, a manufatura chinesa imbatível em termos de baixo custo e o choque paralisante — e autoinfligido — nos preços do gás, resultante da sua falha culposa em estruturar e apoiar uma resposta diplomática à questão Ucrânia-Rússia. Em vez de enfrentarem diretamente esses problemas, as classes governantes da Europa lançam um apelo às armas contra a Rússia e contabilizam avidamente o arsenal da devastada Ucrânia para o inventário de um futuro exército da UE.
Ao adotarem uma postura de intensa ucrainofilia — depois de muito tempo menosprezarem o país como um pedinte periférico e problemático que necessitava de uma disciplina financeira neoimperial rigorosa (vide o acordo de associação UE-Ucrânia de 2013) —, figuras normalmente burocráticas como Merz e Starmer mergulham na "hiperpolítica", com sua energia e entusiasmo desconectados da realidade material e política. Apesar da evidente falta de apoio popular, o anseio deles por gastos militares oscila entre porta-aviões e caças e os melhores mísseis balísticos intercontinentais possíveis, como a amante de um oligarca comparando bolsas ou brincos. No entanto, eles são tão incapazes de formular uma estratégia coerente de rearmamento continental quanto uma estratégia econômica nacional. Paris insiste que tais itens devem ser "Made in Europe" — ou seja, fabricados pelas empresas aeroespaciais francesas de ponta; Berlim reclama que essas empresas estouram o orçamento e levam quarenta anos para realizar as entregas; Londres, com seu porta-aviões encomendado pelo New Labour permanentemente parado para reparos, torce para que Washington assuma a responsabilidade.
Não faltam à UE instituições de coordenação — Comissão, Conselho, Ecofin, Parlamento, sistema de trílogo, etc., sem mencionar o BCE e o TJUE —, nas quais o controle do sistema pelos partidos mainstream lhes garante uma maioria consensual. O que lhe falta é uma estratégia que os blocos sociais europeus possam reconhecer como representativa de seus interesses, fundamentada em — e propagada por — agremiações partidárias profundamente enraizadas. Não se vislumbra nenhum mecanismo agregador desse tipo, capaz tanto de articular um interesse empresarial coerente da UE quanto de construir uma base popular que o apoiasse. As consequências são evidentes. Em vez de negociar uma paz duradoura com a Rússia que respeitasse a autodeterminação da Ucrânia, o debate na UE gira — a portas fechadas — em torno de qual sistema de crédito os Estados-membros deveriam utilizar para se armar contra seu grande vizinho continental. Paralelamente, ocorrem tentativas dissimuladas de cada um deles de manter-se nas boas graças do Pentágono por meio de logística e suprimentos para a guerra de agressão de Trump e Netanyahu contra o Irã, ao mesmo tempo em que adotam posturas retóricas sobre uma ordem internacional baseada em regras.
O trabalho de Luuk van Middelaar — um especialista em decifrar a UE — e de seu Instituto de Bruxelas para a Geopolítica (BIG) oferece uma ilustração reveladora dessa guinada em direção a um militarismo hiperpolítico. Nos anos 2000, Van Middelaar celebrava a "política astuta de despolitização" da UE, que transformava a história de conflitos fratricidas do continente em "negociações intermináveis sobre comércio, matérias-primas e subsídios agrícolas". Hoje, ele surge como uma espécie de Elbridge Colby do Velho Mundo, ajudando os governantes europeus a redescobrirem o gosto pelo poder, enquanto o BIG os prepara para uma nova era de geoeconomia. Em vez de uma política rígida baseada em regras — a especialidade da UE —, ele defende uma "política de eventos" voltada para o curto prazo. O veículo institucional para isso seria uma Agência Europeia de Defesa (AED) reformulada, servindo como fórum onde autoridades de defesa nacionais pudessem convergir em torno de uma agenda comum. Van Middelaar propõe elevá-la ao modelo do Eurogrupo — aquele conclave em que os ministros das Finanças da Zona do Euro escolhiam um primus inter pares para conduzir suas discussões sigilosas durante a crise da moeda única, sob o olhar atento de Wolfgang Schäuble.
A analogia é reveladora. O Eurogrupo exemplificava o afastamento das classes governantes em relação ao engajamento democrático; foi duramente criticado durante a crise como um clube de elite opaco, desprovido de prestação de contas ou escrutínio público, onde ministros deliberavam — em um clima de convivência informal — sobre cortes orçamentários que condenaram milhões de cidadãos da UE ao desemprego ou à miséria. No projeto do BIG, a AED ajudaria a preparar esses mesmos cidadãos para a guerra, tanto por meio de um "rearmamento intelectual" quanto de cálculos militares. Pesquisas de opinião podem até indicar apoio a uma grande "autonomia estratégica", mas o eleitorado europeu dificilmente deu mandato a seus líderes para se lançarem precipitadamente em uma corrida armamentista continental. A política de efeito imediato proposta por Van Middelaar reflete a incoerência do pensamento europeu: um rearmamento nos moldes americanos, aqui revestido de uma retórica soberanista. Isso é sintomático da ausência de uma perspectiva coesa que permitisse às elites europeias superar divisões nacionais e setoriais e conquistar alguma capacidade de ação no novo universo trumpista.
A hiperpolítica no poder
Se esse é, em linhas gerais, o contexto estrutural da hiperpolítica das elites — uma repolitização em meio a uma classe dominante em processo de fragmentação —, qual é a forma política do trumpismo 2.0? Durante seu primeiro mandato, Trump teve dificuldades para se firmar na Casa Branca. Atônito com a própria vitória, amedrontado pelo escopo da investigação do Procurador Especial, acuado por autoridades que viriam a depor em seu processo de impeachment e alvo de vazamentos vindos do Salão Oval, sua atuação foi, em grande medida, disfuncional.[17] Uma vez fora do cargo, ele pôde planejar, e uma equipe de leais colaboradores (Miller, Vought, Wiles) elaborou estratégias para acionar as alavancas do poder. Pode-se dizer que janeiro de 2025 marcou o início de uma nova era na qual, pela primeira vez, um oposicionista adepto da hiperpolítica assumiu o cargo munido dos meios para gerir o aparato do Executivo. A hiperpolítica de Trump no poder envolve, assim, uma configuração híbrida: uma combinação instável da teatralidade típica de Trump — um showman à moda antiga da era Fox News, que alia uma identidade política proteica (variando de Huey Long ao Imperador Nero) a uma habilidosa transição para as redes sociais — com a racionalidade burocrática das Forças Armadas e do Departamento de Segurança Interna. Essa mistura está longe de ser quimicamente pura. Além disso, ela agora estende o modo de operação da hiperpolítica ao terreno da política externa; uma "hipergeopolítica", por assim dizer.
Outros já analisaram os resultados concretos do segundo mandato de Trump até o momento.[18] O objetivo aqui é registrar o que esse mandato indica — para além da mistura de políticas de direita elaborada pela Heritage Foundation — enquanto modalidade de governo. Sua característica mais marcante é, certamente, a politique événementielle — termo cunhado por van Middelaar para designar "uma política de eventos". Se o Estado-nação costuma adotar o longo ou o médio prazo como referência, Trump, por sua vez, promoveu uma contração radical do tempo político. Como observou Ivan Krastev:
A essência da revolução trumpista é... a implosão do próprio tempo. Trump não demonstra interesse por nada que tenha ocorrido antes dele e não se preocupa com o que acontecerá depois. Ele age como se a história devesse sofrer uma parada brusca no momento em que ele deixa o palco. Isso ajuda a explicar por que ele acredita que todas as guerras deveriam ser encerradas em questão de semanas, se não de dias. A percepção de tempo de Trump é central para sua conduta política. O presidente não pensa em termos de estratégia de longo prazo, mas sim em termos de prazos imediatos. Ele é como um diretor que não filma longas-metragens, mas apenas trailers de filmes que jamais serão realizados... A noção revolucionária de tempo de Trump — na ausência de qualquer projeto revolucionário — é, ao mesmo tempo, fonte de força e de vulnerabilidade. Ele transforma em arma a crescente sensação de urgência do público. A angústia existencial de que "não há tempo" impede que se faça a pergunta: "Tempo para quê?"[19]
E se explicássemos esse foco no curto prazo como um produto estrutural, e não apenas como uma idiossincrasia pessoal? Como observou Jonathan White, o desaparecimento de instituições que transcendiam as divisões de classe na era pós-política dos anos 1990 também dificultou, para as elites, a concepção de um futuro compartilhado que garantisse controle sobre um presente passível de transformação; o partido de massa fora "um veículo necessário para mediar entre futuros próximos e distantes, entre o que é atualmente alcançável e o que é, em última análise, desejável".[20] Em uma linha semelhante, Avner Offer sugeriu que a diluição da fronteira entre o público e o privado fundiu a cronologia mais antiga das políticas estatais com os ciclos instantâneos dos mercados privados.footnote21 Uma crescente imprevisibilidade — ou a incapacidade de reunir elites em torno de um projeto de longo prazo — é um de seus sintomas mais visíveis. Trata-se, de fato, de uma política puramente baseada em eventos, cuja principal preocupação é o impacto que qualquer decisão possa ter no ciclo midiático americano — a vingança da visão de Baudrillard sobre a política dos EUA como um espetáculo permanente.
Duas consequências decorrentes desse descompasso merecem atenção. Primeiro, a leitura proposta não implica que o controle das elites sobre o excedente social tenha diminuído de alguma forma; há bons motivos para afirmar que ele aumentou.footnote22 No entanto, o desenraizamento político das elites ocidentais ampliou as divergências entre diferentes frações do capital e tornou mais difícil o planejamento de longo prazo que as envolvesse a todas. Daí o espanto de Krastev diante do "senso revolucionário de temporalidade" de Trump — um ator que aproveitou implacavelmente as brechas deixadas pelo desaparecimento de agentes integradores das elites, e cuja política de "chegar e levar" ao menos promete ganhos imediatos. Como o hiperpolítico por excelência, Trump parece oferecer recompensas fáceis na sórdida disputa por rendas.
Em segundo lugar, o desenraizamento das elites também implica uma cadeia de comando fragmentada entre os líderes e suas bases de apoio no capital. Trump conseguiu, de fato, reunir sob sua asa uma parcela seleta, porém robusta, do capital americano — indústrias de combustíveis fósseis, o segmento de alto nível do private equity, a gerência média de áreas exurbanas —, juntamente com alguns setores de uma classe trabalhadora pós-industrial "sem diplomas". Em uma típica distorção distributiva, a alta dos preços do petróleo pode trazer benefícios para alguns dos grupos abastados que compõem a coalizão de Trump. Contudo, eles dificilmente são os atores que detêm o controle; Nem o sequestro de Maduro nem o "caso Groenlândia" parecem ter encontrado apoio direto entre eles. Embora o próprio Trump tenha proclamado aos quatro ventos que o golpe na Venezuela visava à apropriação de petróleo, os executivos do setor petrolífero americano não demonstravam qualquer entusiasmo por uma intervenção que aumentasse a oferta global. Diante da intensa turbulência política, não está claro quão estável e duradoura poderá ser a coalizão interclassista de Trump. Sua fragilidade já se manifesta na queda acentuada dos índices de aprovação que acompanhou seu fracasso no Irã. O que a caracteriza é uma política de reação a crises — como no jogo de acertar toupeiras — e de busca por manchetes, em vez de um planejamento estratégico por parte das elites.
Quanto de tudo isso se revelará efêmero, como preveria o diagnóstico da "hiperpolítica"? É notório o desinteresse de Trump pela atividade legislativa. De forma reveladora, muitas de suas políticas internas mais estridentes até o momento já foram revertidas. O DOGE foi desmantelado e a recontratação de servidores federais, iniciada. A maioria das tarifas foi derrubada pela Suprema Corte, e o processo de reembolso está em andamento. Centenas de ordens executivas estão travadas nos tribunais. A crueldade ostensiva permanece como uma marca registrada: embora as incursões do ICE nas cidades tenham retornado a níveis de brutalidade não muito distantes dos da era Obama, a rede de centros de detenção — verdadeiros gulags — espalha-se pelo Sul. A "hipergeopolítica" deixará, sem dúvida, sua marca; o apoio de Trump à agenda israelense de carnificina regional provocou um rastro de morte e destruição de Gaza ao Líbano, passando pelo Iêmen e pelo Irã. Saquear a Venezuela, levar Cuba à fome, alimentar a guerra entre Rússia e Ucrânia que ele prometera encerrar — o quanto isso se distancia da prática habitual dos negócios dos EUA será uma questão para os historiadores do futuro decidirem.
Hiperestabilidade?
A descoordenação das classes dominantes do Atlântico encontra seu negativo fotográfico na estabilidade de sua contraparte chinesa. Na última década, o PCC, longe de perder força, reforçou seu controle sobre o Estado e a sociedade da China — uma intensificação do "Estado-partido".[23] Com isso, gerou um sucessor para a "política despolitizada" que Wang Hui via como a regra tanto para o Oriente quanto para o Ocidente nas décadas de 1990 e 2000.[24] A China de Xi apresenta um novo gênero de política partidária, distintamente do século XXI — nem maoísta nem denguista —, e visivelmente diferente da hiperpolítica predominante no Ocidente.
As consequências econômicas desse institucionalismo estão agora em exibição espetacular. Dada a natureza descentralizada do Estado chinês, com sinais regulatórios enviados de Pequim para as províncias, pode-se dizer que ele constitui uma União Europeia que funciona. Daí uma omissão marcante em grande parte das discussões recentes sobre a "abundância" nos EUA: uma admiração invejosa pelas conquistas do Estado de engenharia chinês em contraste com a sociedade dominada por advogados dos EUA, mas nenhuma menção ao órgão que assegura tais conquistas.[25] Esse silêncio aporético não surpreende. Se Ezra Klein e Derek Thompson levam a sério a ideia de reacender o progressivismo americano focado na oferta, ou se os especialistas na UE desejam manter a posição do continente, deveriam pelo menos refletir sobre como seria a resposta de Washington e Bruxelas ao novo Estado-partido do PCC — algo que não fosse um ministério disfarçado de partido, nem a política de escritório baseada em clãs da Comissão.
É difícil dissociar a onda de desenvolvimento verde da última década do controle férreo que o PCC exerce sobre a sociedade chinesa, o qual lhe permitiu evitar tanto o populismo quanto a hiperpolítica à la chinoise. Especialmente após a Covid, o Partido reinseriu-se em todos os níveis da estrutura política chinesa, restabelecendo-se como regulador das relações entre elite e massas — seja por meio de repressão, vigilância ou cooptação econômica — e como instrumento de coesão para diferentes facções da elite, cujas trajetórias estão intimamente ligadas ao Partido. O fato de o Plano Quinquenal do PCC poder ser, agora, um indicador melhor das perspectivas macroeconômicas globais do que os documentos de orientação política de Bruxelas ou Washington é um sinal revelador dessa divergência.nota26
Sob o capitalismo, as culturas políticas estão longe de ser estáticas. Alguns analistas podem detectar sinais de uma nova bifurcação no compromisso com metas modestas, porém alcançáveis — "hipopolíticas"? — como as da gestão municipal à la Mamdani ou da política externa do PSOE-Sumar na Espanha. O magnata da tecnologia Peter Thiel já manifestou nostalgia pela era pós-política: os americanos estão cada vez mais "buscando na política a solução para problemas", o que resulta em uma "intensificação implacável da política", lamentou ele. Em vez disso, "seria saudável se tivéssemos eleições nas quais menos pessoas votassem".[27] Sua preocupação é compreensível. Nos EUA, a hiperpolítica atua como um agente de dissolução da estabilidade das elites; na Europa, ela aprofunda as fraturas das quais é sintoma. No entanto, na ausência de uma re-institucionalização coerente, seja no topo ou na base da sociedade, as elegias à era hiperpolítica revelar-se-ão prematuras.
1 Andrew England, Vita Ghaffari and Steff Chávez, ‘Trump Praises “Very Good” Talks with Iran But Warns of “Steep” Consequences’, Financial Times, 6 February 2026; Trump, Truth Social, 7 April 2026.
2 Anton Jäger, Hyperpolitics: Extreme Politicization without Political Consequences, London and New York 2026; Jäger and Arthur Borriello, The Populist Moment: The Left After the Great Recession, London and New York 2023. The initial protests from 2010 onwards were often anti-political, at least in the anarchistic sense: Occupy Wall Street issued no demands; the 15M movement in Spain banned political parties from the liberated squares; the great cry of the Arab Spring was simply for the downfall of the regime.
3 Klaus Dörre, Die demobilisierte Klassengesellschaft: Begriffe, Theorie, Analysen, Politik, Weinheim 2026.
4 Peter Mair, Ruling the Void: The Hollowing of Western Democracy, London and New York 2013. See also ‘Ruling the Void’, nlr 42, Nov–Dec 2006: average turnouts in Western Europe fell steadily, from 84.3 per cent in the 1950s to 77.6 per cent in the 1990s; turnout in many countries has now dropped below 65 per cent.
5 Mair, Ruling the Void, p. 98.
6 Mair, Ruling the Void, pp. 140–41.
7 Jürgen Habermas, A New Structural Transformation of the Public Sphere and Deliberative Politics, Cambridge 2023.
8 Roger Martin and Martin Reeves, ‘Strategy in a Hyper-Political World’, Harvard Business Review, Nov–Dec 2022.
9 Reilly Steel, ‘The Political Transformation of Corporate America, 2001–22’, American Political Science Review, vol. 120, no. 2, May 2026.
10 Dylan Riley, ‘Bonapartist Solutions’, nlr–Sidecar, 15 March 2024.
11 Herman Mark Schwartz, ‘Empire Suicide Watch’, Phenomenal World, no. 1, June 2026.
12 Alexander Gazmararian, Nathan Jensen and Dustin Tingley, ‘Why Biden-Era Clean Energy Investment Policies Had Limited Political Returns’, Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 123, no. 9, March 2026.
13 In the 2025 frg elections, the cdu/csu won 28.5 per cent, spd 16.4 per cent. For Merz’s approval rating, see Matthew Smith, ‘How Popular Are National Leaders in Europe? May 2026’, YouGov, 8 June 2026. For analysis, see Wolfgang Streeck, ‘The Road Right’, nlr 152, March–April 2025.
14 In the July 2024 legislative elections, Macron’s er won 21 per cent of the vote, behind Mélenchon’s New Popular Front (28 per cent) and Le Pen’s rn and allies (33 per cent). For a diagnosis, see Nathan Sperber, ‘The French Crisis: Organic or Conjunctural?’, nlr 148, July–Aug 2024.
15 See Tom Hazeldine, ‘Neo-Labourism in the Saddle’, nlr 148, July–Aug 2024. Authoritarian and penny-pinching, Starmer soon became deeply unpopular and was ousted by his own mps within two years of his win, to be replaced by a near replica, Andy Burnham, at the time of writing.
16 Perry Anderson, Ever-Closer Union?: Europe in the West, London and New York 2021.
17 Dylan Riley, ‘What Is Trump?’, nlr 114, Nov–Dec 2018.
18 See Alexander Zevin, ‘Trump’s Gulf War’, nlr 158, March–April 2026; Susan Watkins, ‘Trump Abroad’ and Ervand Abrahamian, ‘Iran Under Fire’, nlr 157, Jan–Feb 2026; Dylan Riley and Robert Brenner, ‘The Long Downturn and Its Political Results’, nlr 155, Sept–Oct 2025; Tariq Ali, ‘Conquered Lands’, nlr 151, Jan–Feb 2025.
19 Ivan Krastev, ‘Trump’s Revolutionary Sense of Time Is Changing Politics’, Financial Times, 11 March 2026.
20 Jonathan White, In the Long Run: The Future as a Political Idea, London 2025.
21 Avner Offer, Understanding the Private–Public Divide: Markets, Governments and Time Horizons, Cambridge 2022.
22 As Nausicaa Renner recently posited of the gop: ‘ Party and Class ’, nlr 157, Jan–Feb 2026.
23 Nathan Sperber, ‘Party and State in China’, nlr 142, July–Aug 2023.
24 Wang Hui, ‘Depoliticized Politics, from East to West’, nlr 41, Sept–Oct 2006.
25 See, for example: Dan Wang, Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future, New York 2025; Ezra Klein and Derek Thompson, Abundance, New York 2025.
26 As Adam Tooze recently noted: ‘The simultaneity of this grotesque [Iran] war on the one hand with the kind of relentless rationalism of the cpc regime in China struck me as I was doomscrolling news from the war on a corner of Fifth Avenue and realized that I was, at the same time, waiting for updates from the Twin Sessions meetings in Beijing, the central political event of the Chinese regime’: Natasha Lennard and Adam Tooze, ‘A Staggering Reversal of Assumptions’, Public Seminar, 10 June 2026.
27 Sean Fischer, ‘Peter Thiel: Capitalism Isn’t Working for Young People’, Free Press, 7 November 2025.

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