23 de junho de 2026

Por que a estratégia "China em primeiro lugar" fracassará

Os limites e as lições de uma política externa transacional

Patricia M. Kim


Beppe Conti

Por quase oito décadas, os Estados Unidos atuaram como o principal arquiteto e fiador da ordem internacional. No entanto, hoje, sob a bandeira de "América em primeiro lugar", Washington está abandonando a responsabilidade de sustentar o sistema que construiu após a Segunda Guerra Mundial. À medida que os Estados Unidos se retiram da liderança global e desafiam as normas que outrora promoveram e a ordem que antes sustentavam, o mundo aguarda para ver se Pequim assumirá esse papel.

Em países há muito aliados dos Estados Unidos, a percepção sobre a China está se tornando mais favorável. Uma pesquisa realizada pelo Politico em fevereiro de 2026, por exemplo, mostrou que a população do Canadá, da França, da Alemanha e do Reino Unido apoia um maior engajamento com a China, em meio ao declínio da confiança nos Estados Unidos como líder global. Pequim tem sido rápida em incentivar essa visão, apresentando-se como defensora do multilateralismo, campeã do mundo em desenvolvimento e guardiã do que chama de uma ordem internacional mais "justa e equitativa". Nessa narrativa, a China oferece estabilidade e cooperação em um momento em que os Estados Unidos agem de forma errática e unilateral.

Contudo, um exame mais atento da trajetória chinesa sugere que Pequim não tenta substituir Washington como líder global nem assumir os encargos tradicionalmente associados ao status de superpotência. Ao contrário dos Estados Unidos — que construíram uma rede de alianças e sustentaram a ordem do pós-guerra — e da União Soviética — que controlava um bloco formal de Estados comunistas por meio do Pacto de Varsóvia —, a China demonstrou pouco interesse em assumir a responsabilidade por uma ordem rival ou mesmo por uma coalizão rigidamente organizada. Em vez disso, Pequim busca alcance global sem se deixar enredar, parcerias sem obrigações vinculativas e o status de grande potência sem os ônus da liderança.

Ao expandir rapidamente sua rede de parcerias estratégicas e posicionar-se no centro de coalizões não ocidentais, como a Organização para Cooperação de Xangai (OCX), a China priorizou a flexibilidade em detrimento da coesão ou do controle. O país evita alianças formais e resiste a compromissos de longo prazo, preferindo arranjos que possam ser estreitados ou afrouxados conforme a conveniência. Pequim valoriza a capacidade de agir de forma decisiva quando seus interesses fundamentais estão em jogo, mas contenta-se em deixar que outros arquem com os custos da gestão de crises regionais e globais que escapam a esses interesses. Nesse sentido, a China vem adotando o que se poderia chamar de estratégia de "China em primeiro lugar" — priorizando seus interesses restritos e esquivando-se de responsabilidades globais — muito antes da atual política de "América em primeiro lugar" defendida pela administração Trump.

A abordagem chinesa fica mais evidente em suas relações com seus parceiros mais próximos. Tanto na guerra da Rússia na Ucrânia quanto no confronto do Irã com Israel e os Estados Unidos, Pequim ofereceu apoio econômico e diplomático, evitando, em grande medida, o envolvimento militar direto. Mesmo quando seus parceiros estratégicos enfrentaram ameaças existenciais, a China manteve distância. Pequim também demonstrou pouca disposição para conter o comportamento desestabilizador de seus parceiros ou para assumir o ônus de encerrar conflitos globais.

Essa estratégia de "China em primeiro lugar" tem favorecido Pequim em muitos aspectos. A China expandiu sua influência sem assumir grandes riscos. Projetou uma imagem de liderança internacional e persuadiu muitos governos a apoiarem suas preferências. No entanto, essa mesma estratégia traz desvantagens. Ao evitar compromissos mais profundos — especialmente garantias de segurança —, Pequim tem dificuldade em transformar sua rede em expansão em laços que fomentem lealdade ou poder coletivo. Seus parceiros não estão dispostos a arcar com custos elevados em prol de Pequim e buscam se precaver estabelecendo relações com os adversários da China. A abordagem chinesa também corre o risco de desestabilizar o sistema global como um todo. Ao minimizar sua exposição a crises em vez de gerenciá-las ativamente, Pequim perpetua uma instabilidade que ameaça seus próprios interesses.

Embora os Estados Unidos e a China possuam geografias e legados históricos distintos, a experiência de Pequim oferece uma lição importante para Washington. Uma postura global mais transacional e voltada estritamente para interesses próprios pode reduzir encargos de curto prazo, mas cobra um preço: um alinhamento mais fraco, um apoio menos confiável por parte dos parceiros e uma ordem global mais instável, deixando, em última análise, os Estados Unidos — e o mundo — em pior situação.
EXPERIÊNCIA AMARGA NO PASSADO

A preferência da China por parcerias flexíveis em detrimento de alianças formais tem raízes profundas na história do país. Desde a sua fundação, em 1949, a República Popular da China enfrentou o que seus líderes descrevem como a ameaça persistente de cerco estratégico — a crença de que potências hostis, próximas ou distantes, se uniriam para restringir a soberania, a segurança e o desenvolvimento da China.


No início da Guerra Fria, o líder chinês Mao Tsé-Tung buscou evitar esse cerco estabelecendo laços com a União Soviética. Em 1950, Pequim firmou uma aliança formal com Moscou que prometia apoio econômico e tecnológico soviético, bem como um "guarda-chuva" de segurança. Em muitos aspectos, o acordo proporcionou exatamente o que o novo regime necessitava: recursos, treinamento e proteção. No entanto, isso também acarretou custos elevados. A aliança arrastou a China para a Guerra da Coreia sob condições definidas em grande parte por Pyongyang e Moscou, resultando em perdas humanas e econômicas avassaladoras. A guerra também frustrou os planos de Pequim de tomar Taiwan. Em resposta aos combates na Península Coreana, o governo Truman enviou a Sétima Frota para o Estreito de Taiwan, e o governo Eisenhower assinou, posteriormente, um pacto de defesa mútua com Taiwan. Com a ajuda de Washington, a ilha escapou do controle de Pequim, deixando pendente o que os líderes chineses ainda consideram uma tarefa inacabada de unificação nacional.


Em menos de uma década, contudo, a aliança entre a China e a União Soviética havia colapsado. Divergências ideológicas, a rivalidade por esferas de influência regionais e suspeitas de longa data culminaram na ruptura. Para os líderes chineses, a lição foi duradoura: alianças restringem a autonomia e expõem a China a riscos decorrentes das ambições e conflitos de terceiros. Desde então, Pequim tem evitado firmar novas alianças. Seu único pacto de defesa mútua remanescente é com a Coreia do Norte, um acordo assinado em 1961. Hoje, essa aliança solitária parece menos um ativo estratégico do que um fardo.


Mesmo quando formalmente aliada a Moscou, Pequim começou a inclinar-se para uma abordagem mais flexível em relação ao alinhamento internacional. Desde o início da década de 1950, Zhou Enlai — primeiro premiê da China e arquiteto de sua diplomacia inicial — alertava contra a visão do mundo como algo "simplesmente dividido em dois campos conflitantes": um liderado por Washington e o outro por Moscou. Ele defendia que a China deveria manobrar entre múltiplas potências, em vez de se vincular a um único bloco. Essa lógica acabou se consolidando no conceito maoísta dos "três mundos". Segundo essa estrutura, no topo situavam-se as grandes potências do "primeiro mundo": os Estados Unidos — vistos há muito tempo em Pequim como o país mais responsável pelo cerco estratégico à China — e a União Soviética, potência que oscilava entre a condição de parceira e a de ameaça. Abaixo desse nível estava o "segundo mundo", composto por potências industrializadas alinhadas aos EUA, incluindo o Japão e países europeus; muitas dessas nações não possuíam armas nucleares e não alcançavam o status de superpotência. Para os líderes chineses, essas potências intermediárias eram peças-chave nos esforços de contenção dos EUA e, portanto, alvos prioritários para romper o cerco estratégico imposto ao seu país. Por fim, o "terceiro mundo" abrangia os Estados da Ásia, da África e da América Latina. A China via esses países como aliados naturais, unidos por histórias comuns de anti-imperialismo e aspirações de desenvolvimento.

Mao idealizou a união do segundo e do terceiro mundo em oposição ao primeiro mundo. No entanto, na prática, a disputa global da China com Washington e Moscou revelou-se uma empreitada solitária. Pequim carecia dos recursos de seus rivais de grande porte, o que dificultava a conquista de parceiros. À exceção de alguns poucos aliados comunistas — como a Albânia e o Camboja, que ofereciam solidariedade retórica em troca de ajuda chinesa —, os apelos de Pequim por uma resistência coletiva contra as "potências imperialistas" angariaram pouco apoio. Ainda assim, a lógica subjacente à estrutura dos "três mundos" antecipou a abordagem flexível e de não alinhamento que viria a definir a estratégia global da China.

DANDO UM NOME À ESTRATÉGIA

A estratégia de cultivar parcerias diversas em múltiplos níveis do sistema internacional permaneceu como o princípio norteador da diplomacia chinesa após o fim da Guerra Fria — e ganhou ainda mais importância sob a liderança do atual líder chinês, Xi Jinping. Quando Xi assumiu o poder, em 2012, a China enfrentava um cenário de segurança que percebia como cada vez mais hostil, moldado pelo fortalecimento de alianças lideradas pelos EUA e pelo crescente escrutínio sobre as ambições globais chinesas. Ao mesmo tempo, Pequim detinha uma escala econômica, um alcance diplomático e uma capacidade coercitiva muito superiores aos de qualquer outro momento de sua história. No início da década de 2010, a China já havia se tornado a principal parceira comercial de mais de 120 países. O país ocupava o centro das cadeias globais de suprimentos e suas forças armadas passavam por uma rápida modernização. Na visão de Xi, o mundo vivenciava "mudanças inéditas em um século": a predominância ocidental estava em declínio, a multipolaridade avançava e a China se aproximava "mais do que nunca do centro do palco mundial".

Essa avaliação embasou uma fase mais proativa da política externa. Logo no início de seu mandato, Xi defendeu que a China adotasse "uma abordagem diplomática distinta, condizente com seu papel de grande potência". Isso marcou um claro distanciamento em relação aos seus três antecessores — Deng Xiaoping, Jiang Zemin e Hu Jintao —, que haviam orientado Pequim a "manter um perfil discreto". A China passou a reagir com mais firmeza ao que percebia como um cerco estratégico e à ordem internacional liderada pelos EUA. No entanto, Xi deixou claro que Pequim não replicaria o modelo de alianças americano, o qual considerava ultrapassado e baseado no confronto. Em vez disso, a China buscaria praticar um "novo tipo de relações internacionais" e trilhar um "novo caminho para as relações entre Estados". Sob a liderança de Xi, Pequim acelerou a expansão de sua rede global de parcerias, elevando o nível dos laços diplomáticos e investindo mais pesadamente em fóruns liderados pela própria China.

Atualmente, a China mantém parcerias formais com mais de 100 países e organizações regionais. Pequim evita classificar publicamente essas relações em ordem de importância, mas uma hierarquia informal é evidente. No topo está a Rússia, cujos laços com a China são descritos oficialmente como uma "Parceria Estratégica Abrangente de Coordenação para uma Nova Era". Um grupo menor de países — incluindo Belarus, Paquistão e Venezuela — é designado como parceiro "para todas as situações" (all-weather partners), sinalizando um forte alinhamento político. Abaixo desse nível, encontra-se uma gama ampla e diversificada de "parceiros estratégicos abrangentes" e "parceiros estratégicos" que abrange a África, a Europa, o Oriente Médio e o Sudeste Asiático. Essas classificações ocultam tanto quanto revelam. Quase todos os Estados insulares do Pacífico, por exemplo, são considerados "parceiros estratégicos abrangentes", apesar da grande variação em seu nível de engajamento com a China. O Djibuti, que detém a mesma designação, coopera com Pequim de maneira muito mais substancial; o país abriga, inclusive, a primeira base militar chinesa no exterior.

Pequim perpetua uma instabilidade que ameaça os seus próprios interesses.

Para Pequim, essa ambiguidade é um ponto forte. A flexibilidade de seu sistema de parcerias permite à China aprofundar relações quando os interesses convergem e reduzir o engajamento quando riscos ou custos aumentam. Embora Pequim tenha priorizado um alinhamento mais estreito com a Rússia e seus parceiros do Sul Global, ela continua a cultivar laços com potências médias alinhadas aos EUA na Europa e no Nordeste Asiático. A Coreia do Sul e vários Estados europeus são oficialmente "parceiros estratégicos", o que reflete a importância que têm para a China. O engajamento com esses países permite a Pequim atenuar as arestas mais agudas da competição americana, mantendo, ao mesmo tempo, o acesso a mercados e tecnologias avançados.

Além dos laços bilaterais, Pequim tem recorrido a coalizões multilaterais para ampliar sua influência. Agrupamentos como a OCS (Organização para Cooperação de Xangai), o BRICS — um bloco de dez países denominado a partir de seus cinco membros iniciais: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — e uma série de fóruns regionais liderados pela China oferecem plataformas nas quais Pequim pode moldar agendas globais, coordenar posições diplomáticas sobre questões internacionais e amplificar sua voz a um custo relativamente baixo.

Durante anos, os líderes chineses evitaram engajamentos diretos de segurança no exterior, recorrendo, em vez disso, a instrumentos econômicos e diplomáticos para construir influência. No entanto, à medida que a China expandiu sua presença global e seus cidadãos e investimentos se espalharam por todas as regiões, essa postura minimalista começou a mudar. Na última década, a China ampliou sua participação em operações de manutenção da paz da ONU, participou de missões antipirataria no Golfo de Áden e evacuou seus cidadãos e estrangeiros de zonas de conflito. Exercícios militares conjuntos e ações de segurança pública com membros da OCS e da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) — frequentemente voltados para o combate ao terrorismo, segurança marítima ou assistência humanitária — permitiram a Pequim aprofundar laços de segurança com seus parceiros sem assumir compromissos formais.

À MARGEM DOS CONFLITOS

Para muitos dos parceiros da China — particularmente países em desenvolvimento e governos autoritários ignorados ou mantidos à distância pelos Estados Unidos e seus aliados —, Pequim oferece valiosa atenção diplomática, oportunidades econômicas e legitimidade internacional.

No entanto, o modelo de parceria da China é definido tanto pelo que ela retém quanto pelo que oferece — e isso fica mais evidente em momentos de crise aguda. Há muito que os líderes chineses veem os encargos da liderança global americana — especialmente o papel dos EUA como garantidores da segurança — como causas de sobrecarga e declínio. A China geralmente evita pactos de defesa mútua, garantias de segurança ou obrigações vinculativas. Em vez disso, oferece um pacote mais restrito: engajamento econômico, apoio diplomático e cooperação seletiva em segurança, mantendo-se afastada quando a situação se agrava.

À medida que conflitos eclodiram na Europa, na América Latina e no Oriente Médio, os limites das parcerias de Pequim tornaram-se mais evidentes. Veja-se o caso do Irã, por exemplo. A China é a maior parceira comercial da República Islâmica e a principal compradora de petróleo iraniano; em 2021, os dois países assinaram uma parceria estratégica abrangente de 25 anos, amplamente divulgada. Dois anos depois, Pequim ajudou a mediar um acordo para restaurar as relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e o Irã — um avanço visto, na época, como prova da ascensão da China como um ator-chave na mediação de poder no Oriente Médio.

Contudo, à medida que a região mergulhava em conflitos, a China manteve-se notavelmente distante. Quando Israel e os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã em 2025 e uma guerra aérea em larga escala no início deste ano, a China condenou as ações, continuou a comprar petróleo iraniano desafiando as sanções dos EUA e forneceu ao Irã bens de duplo uso, incluindo eletrônicos e produtos químicos industriais com potenciais aplicações militares. Relatórios de inteligência dos EUA sugerem que Pequim pode ter fornecido mísseis portáteis ao Irã, embora a China tenha evitado, em grande medida, oferecer assistência militar ostensiva ou em larga escala. Pequim também não tomou medidas para garantir a segurança do Estreito de Ormuz, mesmo que o fechamento da via navegável tenha ameaçado as importações de energia da China e sua economia dependente de exportações.

Em vez disso, Pequim limitou-se, em grande parte, à retórica. Emitiu uma declaração de cinco pontos em conjunto com o Paquistão, pedindo um cessar-fogo, e pressionou Teerã a negociar com Washington. No entanto, a China tem evitado cuidadosamente assumir a responsabilidade pelo desfecho do conflito, recusando os pedidos de Teerã para atuar como fiadora de um cessar-fogo ou para oferecer ao Irã garantias de segurança mais amplas.

Na Europa, à medida que a guerra na Ucrânia entra em seu quinto ano, a China tem adotado uma estratégia de apoio calibrado à Rússia, seu parceiro estratégico mais importante. Menos de um mês antes de a Rússia invadir a Ucrânia, Pequim e Moscou descreveram sua relação como sendo "sem limites". Pequim manteve o comércio com Moscou, aumentou as compras de petróleo russo e forneceu bens de dupla utilização, ao mesmo tempo em que oferecia apoio diplomático constante. Esse apoio chinês sustentou Moscou economicamente e permitiu-lhe reconstituir sua base industrial de defesa. Contudo, assim como no caso do Irã, a China evitou fornecer assistência militar letal de grande porte. Em vez disso, a Rússia teve de recorrer à Coreia do Norte em busca de tropas e armamentos — um sinal revelador dos limites do apoio chinês.

A relutância da China em se comprometer totalmente com seus parceiros ficou ainda mais evidente durante o momento de maior vulnerabilidade do presidente russo Vladimir Putin, quando o Grupo Wagner — uma poderosa força paramilitar ligada ao Kremlin — deflagrou uma rebelião armada em junho de 2023. Apesar dos laços pessoais amplamente divulgados entre Xi e Putin, nem o governo chinês nem o próprio Xi emitiram qualquer declaração de apoio explícito ao líder russo. Em vez disso, o Ministério das Relações Exteriores da China divulgou uma nota lacônica de apenas duas frases, classificando a crise como um "assunto interno" a ser resolvido pela própria Rússia. Quando seu parceiro mais próximo enfrentou uma grave crise interna, Pequim optou pela cautela em detrimento da solidariedade.

A Venezuela oferece outro exemplo revelador. Em janeiro de 2026, os Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro — poucas horas depois de ele se reunir com o representante especial de Pequim para assuntos latino-americanos — e instalaram uma nova liderança sob os auspícios dos EUA. Durante anos, a China serviu como uma das mais importantes tábuas de salvação econômica da Venezuela, concedendo dezenas de bilhões de dólares em empréstimos e comprando grandes quantidades de petróleo venezuelano. No entanto, quando o governo Maduro enfrentou seu desafio externo mais direto, Pequim pouco fez além de condenar a intervenção.

Um padrão consistente emerge desses casos. A China sustenta economicamente seus parceiros e os protege diplomaticamente, mas não os defenderá quando isso for mais importante. E, embora invoque regularmente princípios como soberania, integridade territorial e o Estado de Direito internacional, tem demonstrado pouca disposição para defender tais princípios, especialmente quando seus parceiros os violam.

COLHE-SE O QUE SE PLANTA

À primeira vista, o modelo da China parece ter trazido bons resultados. Pequim cultivou uma ampla rede de parceiros e plataformas que conferem legitimidade internacional e apoio diplomático aos seus interesses fundamentais. Muitos parceiros apoiam publicamente a China em fóruns internacionais e endossam as posições de Pequim sobre questões polêmicas, como Taiwan e a governança repressiva da China na região de Xinjiang. No entanto, esses ganhos são frequentemente mais simbólicos do que substantivos. Eles podem reforçar a legitimidade do Partido Comunista Chinês e ajudar Pequim a moldar o discurso internacional, mas raramente se traduzem em um alinhamento significativo ou em ações de alto custo. Permanece incerto se a China poderia contar com seus amigos em uma crise de grandes proporções.

Já existem sinais de que os líderes chineses duvidam da confiabilidade de seus parceiros. Por exemplo, quando o governo Trump impôs tarifas globais abrangentes no auge das tensões comerciais entre EUA e China no ano passado, Pequim temeu que seus parceiros pudessem fechar acordos paralelos com Washington — restringindo as exportações chinesas em troca de alívio tarifário. Autoridades chinesas reagiram com ameaças de "contramedidas recíprocas". O fato de a China ter sentido necessidade de alertar seus parceiros demonstra que o alinhamento deles não é garantido nem automático. É verdade que as alianças dos EUA também enfrentam tensões, mas laços institucionais mais profundos e a dependência em questões de segurança sustentaram, pelo menos até recentemente, uma coordenação mais confiável.

De modo mais amplo, embora as parcerias da China amplifiquem sua voz diplomática, elas raramente geram poder coletivo. As economias emergentes e os países em desenvolvimento que a China busca mobilizar contra uma ordem internacional liderada pelos EUA não constituem um bloco coeso. Interesses nacionais divergentes e rivalidades internas — notadamente entre China e Índia — continuam a limitar a coordenação. Iniciativas promovidas pelos países do BRICS como alternativas às instituições financeiras lideradas pelos EUA ilustram essas limitações. Por exemplo, mais de uma década após seu lançamento, o Novo Banco de Desenvolvimento do grupo ainda empresta apenas uma fração do volume do Banco Mundial e permanece profundamente integrado ao sistema financeiro global baseado no dólar. Da mesma forma, o Arranjo de Reservas Contingentes do BRICS não conseguiu desempenhar um papel significativo em crises financeiras.

Ao mesmo tempo, a crescente presença econômica da China tem gerado atritos. Preocupações com dívidas, desequilíbrios comerciais e a entrada de produtos chineses de baixo custo intensificaram o ceticismo em relação à China em países que, outrora, a acolheram como parceira de desenvolvimento. Ao longo dos anos, a China tem sido alvo de acusações de práticas extrativistas — do tipo que outrora assolou os Estados Unidos e os países europeus —, o que alimenta protestos locais e leva governos da Ásia e da África a reavaliar ou cancelar grandes projetos financiados por chineses.

Além disso, na própria vizinhança da China, disputas persistentes e uma desconfiança histórica continuam a prejudicar sua reputação. A postura assertiva do país em áreas de fronteira marítima e terrestre em disputa, bem como o uso de medidas econômicas coercitivas, minaram suas pretensões de ser uma potência benigna e não hegemônica. Mesmo países que compartilham a visão de Pequim — de que a ordem global é dominada de forma injusta pelos Estados Unidos e seus aliados — continuam a buscar laços estreitos com eles. Os vizinhos da China mantêm uma postura fundamentalmente pragmática: desejam diversificar relações, mitigar riscos e evitar a dependência de qualquer potência isolada, inclusive de Pequim.

Os Estados Unidos devem resistir à tentação de seguir o exemplo da China.

O mesmo padrão é evidente entre as potências médias alinhadas aos EUA na Ásia e na Europa. Embora a confiança nos Estados Unidos tenha oscilado e os aliados americanos tenham fortalecido laços econômicos com a China, Pequim tem tido dificuldade em converter esse engajamento em alinhamento estratégico. Para Estados como França, Alemanha, Japão e Coreia do Sul, a China é um parceiro econômico importante e uma grande potência relevante com a qual é preciso lidar, mas não é vista nem como um potencial parceiro de segurança, nem como um líder confiável de uma ordem global duradoura.

A relutância da China em apoiar plenamente seus parceiros em momentos de crise gerou questionamentos sobre o que Pequim pode esperar em troca. Em nenhum cenário os limites da estratégia de Pequim de colocar a "China em primeiro lugar" ficariam mais expostos do que em um conflito envolvendo Taiwan. Pequim provavelmente poderia contar com Moscou e Pyongyang para uma assistência limitada e transacional, como o fornecimento de bens de uso dual, inteligência, equipamentos militares ou, no caso da Rússia, suprimentos de energia. No entanto, tal ajuda ficaria aquém da assistência bem planejada, de alto custo e operacionalmente integrada que os Estados Unidos tradicionalmente conseguem mobilizar junto aos seus aliados de tratado. As parcerias da China geralmente carecem dos vínculos institucionais formais — planejamento conjunto, logística integrada e interoperabilidade — necessários para uma ação militar coletiva em grande escala. Como resultado, qualquer apoio de Moscou ou Pyongyang seria provavelmente paralelo e oportunista, e não coordenado ou sustentado.

A maioria dos outros parceiros da China provavelmente se declararia neutra em um conflito envolvendo Taiwan. Poucos aceitariam voluntariamente arcar com custos significativos em prol da China, inclusive desafiando abertamente sanções dos EUA ou lutando ao lado das forças chinesas. No caso de uma intervenção dos EUA para defender Taiwan, Pequim pressionaria aliados americanos na Ásia — como Japão, Filipinas e Coreia do Sul — para que negassem a Washington o acesso a bases ou outras formas de apoio operacional. Supondo que as alianças dos EUA permanecessem amplamente intactas, esses países ainda assim teriam motivos para apoiar Washington: seus compromissos de tratado, sua dependência das garantias de segurança dos EUA e a presença de tropas americanas em seus territórios.

A China teria de arcar com os custos de um conflito envolvendo Taiwan praticamente sozinha. Mesmo que Pequim não contasse com a ajuda de parceiros, seria mais difícil sustentar um conflito prolongado, resistir à pressão econômica ou gerir os riscos de uma intervenção dos EUA sem uma coalizão confiável. Um modelo de parceria concebido para preservar a flexibilidade poderia limitar a capacidade da China de mobilizar apoio nos momentos decisivos.

A SOLIDÃO NO TOPO

Crises recentes no Oriente Médio e na América Latina expuseram os limites da capacidade de Pequim de proteger seus interesses no exterior. Esses acontecimentos levaram especialistas de think tanks chineses e acadêmicos a debater se a China deveria adotar uma postura mais assertiva e intervencionista no cenário internacional. No entanto, a maioria dos líderes chineses ainda acredita que um papel global mais abrangente — especialmente um que envolva maiores responsabilidades de segurança — acabaria por minar o poder da China.

O que levaria a China a mudar de rumo? Os Estados Unidos assumiram a liderança global após a Segunda Guerra Mundial por necessidade: a Ásia e a Europa estavam em ruínas, e apenas Washington possuía capacidade para reconstruir e estabilizar o sistema. Para que a China sustentasse uma nova ordem internacional e reformulasse sua estratégia global, provavelmente seria necessária uma ruptura de magnitude semelhante: um mundo tão desestabilizado que Pequim não vislumbrasse alternativa a não ser assumir os custos de sua estabilização. Na ausência de tal choque, é pouco provável que a abordagem chinesa mude fundamentalmente no curto prazo.

Em vez de uma transição direta de um líder global para outro — da predominância dos EUA para a primazia chinesa —, o sistema internacional está entrando em uma era sem liderança, na qual as grandes potências estão menos interessadas em manter a ordem do que em preservar sua liberdade de ação. Em um mundo assim, as grandes potências não buscam formar alianças, cultivar uma interdependência profunda ou investir em bens públicos. Elas encaram os laços econômicos e de segurança como vulnerabilidades, e não como ativos, e veem as relações transacionais como a melhor maneira de promover seus interesses nacionais.

A experiência da China ilustra tanto o atrativo quanto as desvantagens dessa lógica. Ao evitar compromissos e responsabilidades vinculativos, Pequim preservou sua autonomia e reduziu sua exposição a riscos. Contudo, também enfrentou dificuldades para converter seu alcance global em poder coletivo real. Suas relações permanecem superficiais, seus parceiros adotam posturas cautelosas e sua capacidade de mobilizar uma coalizão em momentos de crise parece frágil.

Washington deveria tomar nota. Alguns nos Estados Unidos argumentam que reduzir o engajamento global, diminuir compromissos com aliados e parceiros e adotar a política de "América em primeiro lugar" serviria, no fim das contas, aos interesses do país. A trajetória da China sugere o contrário. Uma política externa baseada em laços transacionais e prioridades nacionais restritas pode parecer atraente no curto prazo, mas tem o custo de comprometer o apoio confiável de parceiros e contribui para um mundo mais fragmentado e desordenado. Sem uma grande potência que ao menos tente conduzir o sistema internacional, as crises tornam-se mais difíceis de gerir e as respostas coletivas, mais difíceis de organizar, deixando até mesmo os Estados mais fortes menos seguros. A lição para os Estados Unidos, portanto, é clara: resistir à tentação de seguir o exemplo da China.

Patricia M. Kim é pesquisadora sênior da Brookings Institution, com atuação conjunta no John L. Thornton China Center e no Center for Asia Policy Studies. Este ensaio foi adaptado de seu livro a ser lançado em breve, No Constraints: China’s Global Quest for Partners and Influence.

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