O candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella conquistou uma vitória apertada sobre seu oponente de esquerda, Iván Cepeda, na disputa presidencial da Colômbia, após uma interferência grosseira do governo dos EUA no processo eleitoral. O resultado representa uma grave ameaça aos direitos democráticos.
Cruz Bonlarron Martínez
Após o encerramento da votação no segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, na tarde de domingo, o candidato de esquerda Iván Cepeda reuniu seus apoiadores mais fervorosos para o ato de encerramento da campanha em um teatro lotado no bairro de Chapinero, em Bogotá. Eles esperavam celebrar uma vitória clara da esquerda naquela noite. No entanto, à medida que os boletins parciais de apuração chegavam, ficou evidente que a disputa estava muito acirrada. Com 99% dos votos apurados, Cepeda estava atrás de seu oponente de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, por uma margem inferior a 1% — menos de 250 mil votos em um total de mais de vinte e cinco milhões de votos computados.
Assim que os resultados parciais ficaram claros, Cepeda subiu rapidamente ao palco para acalmar os ânimos com um discurso que enfatizava a necessidade de contabilizar cada voto nas trinta e três mil seções eleitorais antes de reconhecer o resultado da eleição. Ele também ressaltou a necessidade de um governo que buscasse unir a nação e destacou o fato de que sua campanha havia atraído mais de um milhão de novos eleitores. Encerrou citando o assassinado presidente chileno Salvador Allende: "A história é nossa e é feita pelo povo". Após o discurso, a multidão explodiu em aplausos e gritos de "Cepeda Presidente".
Poucas horas depois, o rival de Cepeda, de la Espriella — vestindo a camisa da seleção colombiana de futebol, que sua campanha adotara como símbolo —, subiu ao palco na cidade costeira de Barranquilla para proferir um discurso que só poderia ser descrito como um verdadeiro espetáculo. Falando de dentro de uma cabine à prova de balas e cercado por uma projeção gigante de si mesmo fazendo uma continência militar, de la Espriella falou sobre a necessidade de conciliar diferenças e garantir os direitos da oposição, ao mesmo tempo em que lançava ameaças veladas àqueles que planejavam protestar pacificamente contra seu governo.
No entanto, de la Espriella dedicou a maior parte de seu discurso ao discurso de "lei e ordem" que tem dominado as campanhas de direita em toda a região, atacando o processo de paz colombiano e os esforços da administração de Gustavo Petro para neutralizar grupos criminosos por meio do diálogo. Apesar de ter divulgado, no dia anterior, uma declaração ameaçando parlamentares que planejavam votar contra sua agenda neoliberal, de la Espriella encerrou o discurso enfatizando seu compromisso com a Constituição e com governar para todos os colombianos.
Obstáculos jurídicos e retórica violenta
Mais tarde naquela noite, apoiadores de Cepeda foram às ruas para protestar contra o que muitos consideravam uma eleição roubada pelas elites que haviam governado a Colômbia até a eleição de Petro, em 2022. Os protestos ocorreram em várias cidades colombianas, incluindo a capital, Bogotá, onde centenas de pessoas se reuniram em frente à Universidade Nacional da Colômbia e ao Corferias, um dos maiores locais de votação do país. Advogados acompanharam os manifestantes para iniciar o processo de apuração e garantir que a recontagem refletisse com precisão os resultados reais dos votos computados na eleição de domingo.
No momento em que este texto é escrito, a apuração dos votos ainda está em andamento. No entanto, é evidente que muitos colombianos sentem que o clima eleitoral foi hostil à campanha de Cepeda desde o início, devido a entraves burocráticos que não foram aplicados de forma igualitária a todos os candidatos, a um sistema político marcado por corrupção arraigada e à interferência aberta do presidente dos EUA, Donald Trump, e dos setores mais reacionários de seu governo.
Desde o início da disputa, o Pacto Histórico, partido de esquerda que apoiou Cepeda, enfrentou obstáculos que a direita não encontrou.
Desde o início da disputa, o Pacto Histórico — o partido de esquerda que apoiava Cepeda — enfrentou obstáculos que a direita não encontrou. No ano passado, a legenda teve de superar entraves jurídicos ao transitar de uma coalizão para um partido formal. O Conselho Nacional Eleitoral, órgão responsável pelas eleições no país, inicialmente impediu a fusão dos partidos integrantes em uma única sigla, devido a um processo burocrático complexo que se arrastou por meses.
Uma vez encerrada a batalha jurídica e consolidado o partido, a legenda foi impedida de participar de prévias conjuntas com outras forças de esquerda e centro-esquerda. Em contrapartida, outros partidos de centro-direita tiveram permissão para realizar tais prévias. Esse obstáculo jurídico impediu que a campanha ganhasse impulso e atraísse eleitores que, de outra forma, poderiam ter votado nas prévias de centro.
Os apoiadores de Cepeda também destacaram a corrupção e as ameaças de violência, problemas endêmicos do sistema político colombiano. No domingo, houve denúncias de compra de votos em diversas partes do país. Infelizmente, essa prática foi normalizada por muitos partidos de direita e tradicionais da Colômbia. Também foram relatadas irregularidades nas seções eleitorais das embaixadas colombianas no exterior; testemunhas observaram o uso de documentos de identidade falsos por supostos eleitores e pressões exercidas pela campanha de De la Espriella nas imediações dos locais de votação nos Estados Unidos — país onde o candidato de direita obteve 80% dos votos.
A retórica de De la Espriella foi agressivamente provocativa: ele prometeu "estripar" a esquerda e celebrou abertamente os grupos paramilitares responsáveis pela morte de quase cem mil pessoas no conflito armado do país. De la Espriella também recebeu o apoio do maior grupo armado ilegal da Colômbia, o *Ejército Gaitanista de Colombia*, também conhecido como Clã do Golfo.
O Departamento de Estado dos EUA classificou essa organização paramilitar e de narcotráfico de direita como grupo terrorista. Trata-se de um dos principais grupos sucessores da aliança paramilitar que De la Espriella representou durante sua carreira como advogado. A organização exerce controle territorial em cidades de todo o departamento de Antioquia — região fundamental para garantir a vitória de De la Espriella na apuração preliminar de domingo.
Intervenção dos EUA
Obstáculos burocráticos, corrupção e retórica hostil ocorreram, de uma forma ou de outra, em eleições anteriores. No entanto, a intervenção hiperagressiva do Departamento de Estado sob o comando de Trump é um traço singular deste pleito, integrando a chamada "Doutrina Donroe" — um novo padrão de intervenção aberta dos EUA na região.
A Doutrina Donroe materializou-se por meio do apoio explícito a candidatos de direita em toda a região e de ameaças de uso de força bruta para impor a vontade de Trump. Observamos a intervenção direta de Trump em apoio à extrema-direita nas eleições da Argentina e de Honduras, acompanhada de ameaças de tomada do Canal do Panamá e da tentativa de sequestro ilegal — um ato sem precedentes — do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Ao longo do mês de junho, a Colômbia testemunhou o impacto total dessa doutrina em seu processo eleitoral, começando com uma publicação de Trump na rede social Truth Social, em 2 de junho, na qual ele declarava apoio a de la Espriella. O presidente dos EUA afirmou que seu candidato preferido "seria extremamente bem-sucedido ao liderar a Colômbia no crescimento da economia, na criação de empregos, na promoção do comércio, no combate à imigração ilegal, no enfrentamento do crime e das drogas e no restabelecimento da LEI E DA ORDEM". Ele classificou Iván Cepeda como um "marxista de esquerda radical" e declarou que a eleição era "muito importante para o futuro da Colômbia e para sua relação com os Estados Unidos".
A Doutrina Donroe materializou-se na forma de apoio aberto aos candidatos de direita em toda a região e de ameaças de força bruta para impor a vontade de Trump.
A publicação foi rapidamente compartilhada por vários republicanos hispânicos nos Estados Unidos e por políticos colombianos de direita, e até mesmo na conta da Embaixada dos EUA em Bogotá na rede social X — o que configura o uso de recursos públicos norte-americanos em uma campanha política estrangeira. Nos dias que antecederam a eleição, Trump fez outras postagens no mesmo sentido para manter o apoio a de la Espriella em destaque no noticiário colombiano.
Esse apoio fazia parte de uma estratégia mais ampla de Trump e de seu governo para respaldar a agenda de extrema-direita de de la Espriella, a qual inclui uma extensa lista de políticas conservadoras: desde o fracking em áreas protegidas até a privatização da saúde, a construção de megapresídios e a retirada da Colômbia de instituições internacionais, como a ONU e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Outro elemento-chave da estratégia foi uma campanha de desinformação liderada pelo vice-secretário de Estado Christopher Landau e pelo próprio de la Espriella, visando revogar os vistos de qualquer pessoa que de la Espriella acusasse de manipular as eleições colombianas. Essa manobra foi utilizada para deslegitimar os apoiadores de Cepeda, sem a apresentação de qualquer prova.
Uma das formas mais grotescas de intervenção do governo Trump foi a detenção do jornalista e solicitante de asilo colombiano Franklin Humberto Coral Garrido, conhecido nas redes sociais como Beto Coral. Agentes do Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) detiveram Coral em 16 de junho, logo após ele participar de um protesto contra de la Espriella organizado pela diáspora colombiana na Flórida.
Segundo o New York Times, Coral foi detido no mesmo dia em que o Secretário de Estado Marco Rubio assinou um memorando afirmando que a presença dele nos Estados Unidos "prejudica os interesses da política externa dos EUA nos processos democráticos da Colômbia". Tweets enviados por de la Espriella pouco antes da prisão de Coral, que faziam alusão a notícias iminentes para a diáspora colombiana, sugerem que ele pode ter estado diretamente envolvido na detenção.
Desde que foi detido, Coral foi transferido para vários locais. Segundo sua família, Coral relatou ter sofrido abusos físicos por parte de agentes do Departamento de Segurança Interna durante a detenção e pressão para assinar sua própria ordem de deportação. Apesar disso, o senador americano nascido na Colômbia e aliado de de la Espriella, Bernie Moreno, celebrou a detenção de Coral: "Você não pode vir para os Estados Unidos, pedir asilo e depois agir como um agente estrangeiro... Tenha uma boa vida de volta à Colômbia".
A prisão de Coral enviou uma mensagem clara à diáspora colombiana nos Estados Unidos: se você se manifestar contra de la Espriella, enfrentará perseguição. Esse medo poderia ter tido efeitos reais na participação eleitoral de domingo entre a diáspora e até mesmo entre aqueles que possuem vistos americanos, mas vivem na Colômbia.
O Império Contra-Ataca
No dia seguinte à eleição, o presidente Trump proclamou a vitória com orgulho: "Eu o apoiei. Ele estava em décimo lugar e venceu a eleição", acrescentando que de la Espriella ligou para agradecê-lo assim que os resultados saíram e que as relações entre os Estados Unidos e a Colômbia serão agora muito melhores. O senador Bernie Moreno também celebrou o resultado: ele insistiu que "QUALQUER cidadão colombiano que solicite asilo deve retornar à Colômbia" e que de la Espriella garantirá sua segurança e proteção.
Se o resultado final confirmar o triunfo da extrema-direita, os colombianos poderão enfrentar um retorno a alguns dos períodos mais sombrios da história do país, dado o desprezo de de la Espriella pelos direitos humanos e pelas instituições democráticas. Após a intervenção de Trump no mês passado, resta a pergunta: é realmente possível realizar eleições livres e justas na América Latina quando Washington interfere descaradamente no processo eleitoral?
Colaborador
Cruz Bonlarron Martínez é escritor independente e foi bolsista da Fulbright na Colômbia entre 2021 e 2022. Seus textos sobre política, direitos humanos e cultura na América Latina e na diáspora latino-americana foram publicados em diversos veículos dos Estados Unidos e do exterior.

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