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11 de junho de 2026

Democracia ou barbárie é a escolha do nosso tempo

  • Polarização decidirá para onde o mundo vai e qual Brasil deixaremos para as futuras gerações
  • Só venceremos se reorganizarmos a economia, protegermos o trabalho e devolvermos a esperança ao povo

Edinho Silva
Presidente nacional do PT; ex-ministro da Comunicação Social (2015-16, governo Dilma) e ex-prefeito de Araraquara (SP)

Folha de S.Paulo

A disputa central do nosso tempo é entre democracia e barbárie. Em diferentes partes do mundo, o pensamento fascista cresce, alimentado pela crise econômica que permanece desde 2008, por consequência do agravamento da insegurança social, pelo medo do futuro, e pela descrença nas instituições, que não respondem às necessidades impostas pelo empobrecimento do mundo. O pensamento fascista ocupa as redes digitais, se alimenta com a desinformação e o ressentimento com a ordem vigente, mas no novo tempo preserva sua essência histórica: a negação do outro, o culto à força, a perseguição aos vulneráveis e o autoritarismo como resposta simplista aos problemas complexos.

Na Europa, os resultados eleitorais recentes revelam esse avanço. Partidos de extrema direita cresceram, condicionaram governos e naturalizaram discursos xenófobos e antidemocráticos. Portugal é exemplo importante nesse cenário de caos político, e sinal de esperança. A direita não ofereceu respostas consistentes à precarização do trabalho, ao custo de vida e ao crescente mal-estar social. A extrema direita tentou transformar essa frustração em ódio, mas a vitória da esquerda, do campo democrático, demonstrou que a sociedade não está condenada ao autoritarismo e à xenofobia. Mostrou também que a resposta não está na troca pela troca dos atores políticos, e sim na reorganização do modelo econômico, na reconstrução da esperança e na vitória da democracia como instrumento de transformação da vida real.

O presidente do PT, Edinho Silva, durante congresso do partido, em Brasília - Divulgação PT

Nas Américas, as últimas eleições revelam o crescimento de forças autoritárias que se apresentam como a negação da política tradicional, mas preservam o sistema de concentração da renda, do aprofundamento das desigualdades, e da submissão nacional aos interesses do imperialismo do século 21. Donald Trump é o maior representante do fascismo do século. Sua agenda combina expansionismo, perseguição a imigrantes, guerra econômica, desprezo pelas instituições democráticas e defesa agressiva da hegemonia norte-americana.

A disputa por territórios estratégicos, reservas naturais, energia, tecnologia e cadeias produtivas anuncia uma nova geografia mundial em disputa, de um lado a ideologia fascista, do outro, um mundo que pode ser organizado pela cooperação entre povos soberanos, valorização das instalações que zelam pela harmonia global, rompendo com a lógica da violência e do medo.

Esse avanço autoritário tem base material. Sustenta-se em um sentimento antissistema capturado pela direita populista. A origem desse sentimento está na crise econômica iniciada em 2008 e nunca plenamente superada, quando o mundo que crescia em ritmo acelerado no início desse século, perdeu dinamismo, demonstrando a insustentabilidade do padrão de crescimento que vinha sendo sustentado nas economias centrais, baseado no superendividamento e liberalização financeira. Grandes economias passaram a conviver com baixo crescimento, avanço das desigualdades e insegurança social. Ao mesmo tempo, a riqueza financeira se multiplicou em velocidade muito superior à renda do trabalho.

As exceções mais relevantes foram países que preservaram capacidade do Estado de planejar, investir e estimular o consumo interno, como China e Índia. Economias que articularam Estado, política industrial, infraestrutura, ciência, tecnologia e mercado interno conseguiram fugir, em parte, da retração mundial.

A América Latina, por outro lado, foi uma das regiões mais afetadas, quando vinha demonstrando taxas de crescimento acima da média mundial, em um ciclo virtuoso de crescimento da região, e passou a ter desempenho inferior à média global. Essa reversão coincide com a ruptura de um ciclo político regional, em que havia uma maioria de governos alinhados à projetos de desenvolvimento com ampliação de direitos, e, no novo ciclo, passam a ser,majoritariamente, defensores da redução do Estado e de direitos, adotando a cartilha neoliberal.

Com a incapacidade da direita neoliberal apresentar propostas, em momentos de transformação histórica, é o Estado democrático e planejador que pode induzir crescimento, proteger a sociedade e combater desigualdades.

Vivemos uma tempestade perfeita. O primeiro elemento é o baixo crescimento econômico. O segundo é a concentração brutal da renda, agravada pela financeirização. O terceiro é a crise climática e as guerras, que colocam em risco o futuro da humanidade, agravam um contexto global de insegurança, marcado por pandemias, catástrofes ambientais e pela desesperança das novas gerações com o futuro. O quarto é uma crise de superprodução marcada pelo avanço tecnológico, pelo aumento da produtividade e pela redução da utilização da força de trabalho no processo produtivo. Produzimos cada vez mais com menos trabalhadores. Mas, se os salários são comprimidos e se a renda se concentra, quem terá renda para consumir aquilo que o capitalismo é capaz de produzir no século 21.

A inteligência artificial aprofunda essa contradição. Ela pode ampliar a produtividade e melhorar serviços. Mas, se for controlada apenas pela lógica do lucro privado, substituirá postos de trabalho, reduzindo salários da maioria dos trabalhadores, precarizando vínculos e concentrando ainda mais a renda em escala inédita.

O atual cenário tende a piorar sem regulação, reorganização produtiva e distribuição social dos ganhos tecnológicos.

Essa combinação sustenta o sentimento antissistema e joga sobre a democracia representativa uma nuvem de descrença. Para milhões de pessoas, o próprio conceito de democracia parece distante, algo abstrato, incapaz de responder à vida real. Quando o salário não chega ao fim do mês, o transporte é caro, a moradia é precária e a juventude não enxerga futuro, a extrema direita encontra terreno fértil para vender ódio e intolerância como se fosse o caminho da mudança.

Foi assim que o antissistema deixou de ser uma bandeira histórica da esquerda e passou a ser capturado pela direita. A extrema direita não quer mudar o sistema que concentra renda e agrava desigualdades. Quer preservá-lo. Não enfrenta o rentismo, a exploração do trabalho, os privilégios, e a submissão nacional. Como resposta, às organizações políticas, herdeiras do fascismo, oferecem, inimigos internos, violência e medo.

O 8º Congresso Nacional do PT, realizado em abril deste ano, recolocou esse debate em seu devido lugar. O campo democrático precisa ser porta-voz da mudança do sistema. A esquerda, tem a missão histórica de levantar novamente a bandeira antissistema, não contra a democracia e suas instituições, como faz a direita, mas o seu contrário: é preciso radicalizar o sentido social da democracia, fortalecer a democracia representativa. Ser antissistema, para os partidos progressistas, tem que ser enfrentar as estruturas que impedem a democracia de entregar igualdade, dignidade, participação e direitos.

Por isso, a reforma da renda é tarefa imprescindível do mundo democrático. Se o capitalismo seguir produzindo riqueza para poucos e insegurança para muitos, seu caminho de colapso arrastará a democracia para uma crise histórica. A forma que o Estado se financia não pode agravar as desigualdades do sistema produtivo. Distribuir renda deixou de ser apenas questão de justiça social –e já seria muito– para tornar-se condição de sobrevivência da própria democracia.

As mudanças no sistema produtivo exigem também a redução do tempo de trabalho. Diante do avanço tecnológico e da precarização crescente das profissões, reduzir a jornada é condição para gerar novas vagas de trabalho, melhorar a qualidade de vida, fazer dos salários instrumento de distribuição da renda e ampliação da base de consumo. A redução da jornada de trabalho é medida urgente para minimizar o impacto da crise estrutural do capitalismo no século 21.

Também é urgente repensar o papel do Estado. O neoliberalismo foi derrotado como concepção capaz de responder aos desafios históricos do nosso tempo. O mercado sozinho não organizou e nem organizará a transição energética e ecológica, não democratizará as novas tecnologias, não protegerá a soberania nacional e não reduzirá desigualdades. Não salvará a democracia. Precisamos de um Estado reformado, eficiente, democrático, com capacidade de investimento, de pesquisa e inovação para indução de um novo modelo de desenvolvimento. Os ganhos tecnológicos não podem ser apropriados por poucos, agravando a concentração da renda. O Estado tem que garantir que os avanços tecnológicos, a IA, tornem-se as bases para um novo modelo produtivo e distributivo de riquezas.

O Congresso do PT também apontou a urgência da reforma política: fortalecer os partidos, o debate de projetos para a sociedade e o voto em lista, como instrumentos de reconstrução das bases da democracia representativa. Também é urgente criar mecanismos permanentes de participação social. A democracia não pode ser apenas um valor abstrato. Precisa aparecer na elaboração do Orçamento, no transporte, na escola, na saúde, na segurança, na moradia, na cultura, no esporte e no trabalho.

Transição energética, soberania nacional, educação como a base do desenvolvimento e democratização das cidades são partes de uma mesma disputa. Qual o Brasil que deixaremos como legado para as gerações que virão? O destino das nossas reservas de terras raras é emblemático: ou o Brasil será soberano sobre suas riquezas estratégicas, ou será novamente submetido a interesses externos. Não podemos nessa área ser um país produtor de matéria prima e importador de tecnologia. Esse caminho nos levaria para um destino sem futuro digno. Seria a consolidação de uma submissão histórica.

A tarifa zero no transporte público simboliza a democratização do acesso à cidade. O modelo de desenvolvimento urbano que adotamos, com megarregiões conurbadas, impõe o direito à mobilidade urbana. O transporte público se torna política pública tão estruturante na organização da qualidade de vida nos territórios, na democratização de direitos, como saúde, educação, segurança pública e desenvolvimento social. Importante aqui destacar a necessidade da esquerda formular sobre segurança pública como a capacidade do Estado controlar os territórios e democratizar o acesso das comunidades ao convívio social, a ocupação dos espaços da cidade, e com toda a tecnologia disponível, asfixiar o financiamento das atividades criminosas.

Essas são as questões, essas formulações, essas são as construções políticas que permitirão à sociedade distinguir quem representa a manutenção do sistema e quem quer sua transformação. Quem defende concentração da renda, precarização do trabalho, o negacionismo, a submissão nacional, a política como espetáculo do ódio; quem representa o velho sistema, ainda que venha, ironicamente, se apresentar como novidade. Quem defende a democracia, a distribuição da renda, a soberania nacional, a participação popular, a educação como instrumento de construção de oportunidades, a transição energética e a dignidade do trabalho; quem representa a mudança real.

A polarização entre democracia e fascismo será o debate definidor do século 21. Ela decidirá para onde o mundo vai e qual Brasil que deixaremos para as futuras gerações. A democracia só vencerá a barbárie se for capaz de reorganizar a economia, enfrentar privilégios, distribuir renda, proteger o trabalho e devolver esperança ao povo.

30 de janeiro de 2026

PT, 46: compromisso com o Brasil

Partido precisa defender sem tréguas que o Orçamento público seja acessado pelo sociedade civil organizada
Temos que construir uma agenda para o país e para as futuras gerações

Edinho Silva
Presidente nacional do PT; ex-ministro da Comunicação Social (2015-16, governo Dilma) e ex-prefeito de Araraquara (SP)

Folha de S.Paulo

O Brasil vive mais um momento decisivo de sua história recente. No plano internacional, precisa lidar com a estagnação da economia mundial e suas consequências, a instabilidade geopolítica, a volta, organizada em projeto político, da ideologia fascista, do avanço do autoritarismo, o aprofundamento das desigualdades e o desmonte da ordem global construída desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

No plano doméstico, impõe-se a decisão entre seguir preso a um modelo de desenvolvimento, político, excludente e submisso, ou construir um projeto democrático, soberano e socialmente justo. Esse debate não diz respeito apenas aos partidos políticos, nem só aos governos, mas ao conjunto da sociedade brasileira. O Brasil terá que escolher um caminho.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva - Anderson Barbosa - 15.set.2025/Divulgação

A experiência democrática demonstrou que não há desenvolvimento sustentável sem inclusão social, nem estabilidade política sem redução das desigualdades. O futuro do país depende da capacidade de articular crescimento econômico, justiça social, democracia e soberania nacional em um mesmo projeto.

Nesse contexto, a reeleição do presidente Lula em 2026 representa mais do que a continuidade de um governo: significa a reafirmação de um projeto de país comprometido com a reconstrução do Estado, implantação de um projeto de que dialogue com os desafios do século 21, que construa a nossa soberania, com a redução das desigualdades e a defesa da democracia. Um Brasil capaz de combinar agricultura forte, indústria desenvolvida, ciência, tecnologia e geração de riqueza com combate à pobreza, ampliação de direitos e proteção ambiental.

Um dos maiores desafios desse novo ciclo é a transição energética diante da emergência climática. Não há mais espaço para o negacionismo ambiental nem para a falsa oposição entre desenvolvimento e preservação. O Brasil reúne condições únicas para liderar um novo modelo de desenvolvimento sustentável, capaz de gerar empregos, inovação e riqueza sem destruir seus biomas.

Outro eixo estratégico é o desenvolvimento tecnológico e industrial, especialmente diante do fato de o Brasil deter uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Esses recursos são fundamentais para as tecnologias do futuro. A soberania sobre essas riquezas deve estar a serviço do desenvolvimento nacional, da ciência, da inovação e do interesse da nação, das futuras gerações —e não seguir a lógica da simples exportação de matérias-primas. O Brasil quer e pode muito mais.

A educação tem que permanecer como um pilar estruturante. A universalização da educação integral e do direito à creche e o cuidado com a primeira infância significam o pilar de uma estratégia de desenvolvimento com justiça. Nenhum país superou desigualdades estruturais sem investir de forma consistente na infância, na segurança alimentar, na proteção social das crianças, sem cuidar da juventude, sem proporcionar a igualdade de oportunidades, sem possibilitar a prosperidade.

O debate sobre a redução da jornada de trabalho também precisa ser enfrentado com seriedade. O tempo é um direito social. Reduzir a jornada melhora a qualidade de vida e amplia o acesso ao estudo, ao lazer e à convivência familiar. Se esses argumentos não bastam, o crescimento vertiginoso do aumento da produção com cada vez menos mão de obra, a redução da jornada de trabalho se torna urgente, dentre outra iniciativas, para evitar o colapso do atual modelo de produção.

A tarifa zero no transporte público deve ser compreendida como política estruturante no atual modelo urbano. Democratizar a mobilidade é democratizar o acesso ao trabalho, à educação, à cultura e às oportunidades.

Nenhum projeto de futuro pode ignorar a segurança pública. É preciso desfazer dois mitos: o da suposta competência da direita no tema e o de que a esquerda estaria despreparada para enfrentar o crime. A experiência recente mostrou que liberar armas e transferir a responsabilidade ao cidadão não reduz a violência; ao contrário, só aumenta. Segurança pública exige inteligência, tecnologia, valorização das forças de segurança, combate ao crime organizado, prevenção, políticas sociais. A violência atinge sobretudo os mais pobres, a juventude negra, as periferias. Combatê-la é proteger vidas, estabelecer a democracia nos territórios, garantir direitos.

É fundamental reafirmar o direito ao esporte, à cultura e ao lazer como dimensões essenciais da cidadania, instrumentos de inclusão, formação humana e pertencimento social.

É inadiável uma reforma político-eleitoral no curto prazo. Sem ela, não estancaremos a sangria da democracia representativa nem seu descrédito na percepção popular; a democracia precisa ser defendida socialmente como um valor inegociável. O PT precisa buscar na sua história seus laços com a democracia direta e defender sem tréguas que o Orçamento público seja acessado pelo sociedade civil organizada. Os investimentos públicos não podem ser definidos pelos Parlamentos, em todas as instâncias, sem a participação popular.

Completando em fevereiro 46 anos de existência, o Partido dos Trabalhadores carrega uma trajetória ligada à luta pela democracia, pelos direitos sociais e pela soberania nacional. Esse percurso impõe responsabilidades: dialogar com a sociedade para além de suas bases, renovar lideranças, agendas programáticas e repensar a sua estrutura organizativa. Por isso convocamos o 8º congresso para abril deste ano. Vamos mobilizar o PT para os desafios de agora e do futuro.

O legado do presidente Lula permanece como referência democrática e de uma nação justa. Mas o futuro do país dependerá da capacidade das forças políticas que sustentam esse projeto de apresentar respostas concretas aos desafios do desenvolvimento, da segurança, da justiça social e da democracia.

O Brasil precisa de unidade em torno de um projeto nacional. A disputa política do nosso tempo não pode ser resumida ao ódio, à intolerância, "à gritaria entre torcedores dentro de um estádio" —ela precisa ser balizada à luz do dia, com ideias, propostas e diálogo. Temos que construir uma agenda para o Brasil, para as futuras gerações, que possam ir muito além das "guerras virtuais" e fake news, da propagação de mentiras e narrativas vazias.

17 de julho de 2025

Acusação de que Lula faz campanha "nós contra eles" é falsa

Presidente defende justiça social em cenário de descaracterização de agenda e concentração de poder no Congresso

Edinho Silva
Ex-ministro da Comunicação Social (2015-2016, governo Dilma), ex-prefeito de Araraquara (SP) e presidente eleito do PT

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Novo presidente do PT argumenta que o Brasil precisa se unir para lidar com o tarifaço imposto por Donald Trump e discutir se quer ser um país dos privilégios ou da igualdade de oportunidades. Reações do governo à derrubada dos decretos sobre o IOF não são campanha "nós contra eles" e nem o presidente nem o PT, escreve, querem ampliar tensões com o Congresso.

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O Brasil tem muitos desafios pela frente, mas alguns parecem especialmente relevantes para o próximo período.

Um deles, de imediato, é unir o país em torno das consequências deixadas pela aliança da família Bolsonaro e do bolsonarismo, que cada vez mais se caracteriza com o fascismo que se alastra no mundo, com o presidente dos EUA, Donald Trump. Trata-se de um casamento marcado pela inconsequência e pelas medidas irresponsáveis que geram danos para o povo brasileiro e para as instituições nacionais, agredindo a nossa soberania.

Lula durante reunião no Palácio do Planalto, em Brasília - Evaristo Sá - 14.jul.25/AFP

A aliança de inspiração fascista Bolsonaro/Trump politiza a racionalidade econômica e gera danos ao agronegócio e à indústria brasileira, bem como a cada brasileiro e brasileira que será afetado pelo tarifaço sobre nossos produtos.

A violência do presidente americano tem motivos explícitos: o fortalecimento do Brics e sua autonomia na construção de novas relações econômicas e políticas —a construção do multilateralismo. Trump não aceita nada que seja alternativo à concepção unilateralista hegemonizada pelos EUA. Também está explícita a intromissão política de Trump sobre o Brasil para tentar livrar Jair Bolsonaro do julgamento pela tentativa de golpe. Uma agressão às instituições brasileiras, um desrespeito ao nosso Poder Judiciário.

Esse não é um desafio pequeno e também não é o único. Ainda precisamos cicatrizar as feridas deixadas pela recente batalha envolvendo o IOF. Mais do que o debate sobre arrecadação, alíquotas ou alternativas para cumprir as metas fiscais do país, está em jogo uma discussão maior e mais profunda, capaz de demarcar o Brasil que desejamos construir: queremos, afinal, ser um país dos privilégios ou da igualdade de oportunidades? Debate que o mundo terá que fazer diante da concentração global da renda.

O governo do presidente Lula lançou esse importante debate. Por exemplo, o Brasil não pode mais conviver com R$ 860 bilhões de renúncia fiscal. Precisamos debater quais setores estão sendo beneficiados às custas do restante dos brasileiros. É inaceitável que grandes corporações sejam desoneradas, sem limite temporal, enquanto o pequeno e o médio empresário, mesmo setores do grande empresariado, o empreendedor, o trabalhador autônomo e o assalariado sigam pagando seus impostos, pagando a conta da desoneração "ad eternum".

É também moral, ética e economicamente insustentável que, proporcionalmente, os mais ricos paguem menos impostos do que pessoas mais pobres por um sistema que, na prática, beneficia o topo da escala da renda.

A radicalização do Congresso, cuja maioria derrubou um decreto presidencial, levou o governo a agir com firmeza e demonstrar a falácia dos argumentos de aumento dos impostos, de quem resistiu à alteração do IOF, e da tributação de quem deve pagar e não paga, caracterizando a sociedade de privilégios. O governo precisa passar um pente-fino nas suas despesas e não tem se esquivado dessa missão, liderada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Mas esse esforço será estéril se o preço da injustiça tributária continuar sendo pago pelo conjunto da sociedade brasileira.

Diante da repercussão de sua mensagem, logo se acusou o governo e o PT de disseminarem uma campanha do "nós contra eles", como se, ao defender justiça social, privilegiasse sua base eleitoral em detrimento de outras. Nada mais falso.

Sejamos justos: o que se está propondo é justamente debater a natureza da realidade tributária e da renda. Trata-se, portanto, de uma discussão sobre carga tributária, desigualdade de renda e privilégios. Não é o "nós" contra "eles", mas o alerta sobre um país onde a minoria de privilegiados prejudica o Brasil. Um país desigual é ruim para todos, inclusive para a tal minoria privilegiada.

Mas o episódio do IOF descortinou um desafio ainda maior: o desarranjo institucional brasileiro —o processo de descaracterização do presidencialismo brasileiro, que se aprofundou no governo de Michel Temer e ultrapassou todos os limites no governo Bolsonaro.

Quando está nas mãos do Congresso a responsabilidade pela execução de mais de R$ 52 bilhões do Orçamento da União por meio de emendas parlamentares, transformamos o nosso presidencialismo em semipresidencialismo ou semiparlamentarismo.

O fato é que o presidente da República, eleito com uma plataforma escolhida pela maioria dos eleitores, vê sua agenda descaracterizada e seu poder praticamente anulado pela concentração de atribuições no Parlamento. Lula foi eleito em 2022 apoiado por uma frente ampla que nasceu tanto da resistência ao autoritarismo de natureza fascista que representava a candidatura de Jair Bolsonaro quanto da convicção de que Lula era —e é— a principal liderança capaz de unir o país nos valores da democracia.

Ele, assim como o seu partido, o PT, sempre trabalhou com agendas fundamentadas na justiça social e na igualdade de oportunidades e foi sobre ela que a frente ampla também se assentou. Não mudamos de lado, o Brasil sabe o que defendemos.

Os desafios impostos ao país, no entanto, extravasam o campo do PT e aliados. O atual tensionamento político vai requerer mais diálogo, capacidade de construção de consensos, costura de alianças com diferentes partidos dentro do campo democrático e uma concertação institucional envolvendo os três Poderes. Não há outro nome capaz de liderar esse movimento senão o presidente Lula, lidando com distintas forças —da esquerda ao centro, os movimentos sociais e sociedade civil organizada.

Nos últimos dias, tive a honra de ser eleito para presidir o PT no próximo ciclo e, com esse papel, espero contribuir para essa construção. Nem o presidente nem o governo como um todo e nem o PT desejam ampliar tensões e desabonar o Congresso. É necessária uma agenda de futuro que fuja do varejo político e dos interesses individuais. Além da urgência da justiça tributária e do financiamento do SUS, o Brasil precisa urgentemente:

  1. de uma reforma político-eleitoral: os partidos precisam se fortalecer sobre os interesses menores para o bem da democracia. Voto em lista já;
  2. de uma agenda para a condução da transição energética. A urgência climática é prioridade;
  3. de um programa para os recursos advindos da exploração da margem equatorial; reflorestamento da floresta amazônica, novas tecnologias para monitoramento do combate ao desmatamento, investimento em projeto de desenvolvimento econômico sustentável para a região da Amazônia Legal; universalização da educação integral e primeira infância.
  4. uma política de segurança pública que adote as novas tecnologias, não banalize a violência e valorize as carreiras dos policiais.

Além de pautarmos com tranquilidade, mas sem morosidade, a questão da escala 6x1 e o colapso do transporte público nos grandes centros urbanos, se quisermos um Congresso Nacional em sintonia com o povo brasileiro.

Mas, ao mesmo tempo, sabemos que só responderemos aos desafios com coragem e muita capacidade de construção de consensos. É possível e urgente dialogar em meio às diferenças, respeitando visões distintas da nossa sociedade, sabendo que a única radicalização que importa é acreditar no Brasil e em nossos interesses comuns, no legado para futuras gerações. A começar pelo maior interesse de todos: justiça social com democracia.

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