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1 de junho de 2021

O capital e a ecologia das doenças

Este artigo investiga como a lógica capitalista — via urbanização, desmatamento, produção industrial e desigualdades — cria ecologias favoráveis à emergência e propagação de doenças, mostrando que epidemias não são acidentes naturais, mas efeitos estruturais do modo de produção.

John Bellamy Foster, Brett Clark e Hannah Holleman


Monthly Review Vol. 73, No. 02 (June 2021)

Tradução / "Os antigos filósofos gregos", escreveu Friedrich Engels em Do socialismo utópico ao socialismo científico, “eram todos dialéticos inatos”.1 Em nenhum lugar isso era mais aparente do que no pensamento médico grego antigo, que se distinguia por sua forte base materialista e ecológica. Essa abordagem dialética, materialista e ecológica da epidemiologia (do grego antigo epi, significando “em” ou “sobre”, e demos, “o povo”) foi exemplificada pelo texto hipocrático clássico Airs Waters Places [Ares águas lugares] (c. 400 AC), que começa:

Quem quiser investigar a medicina de maneira adequada, deve proceder assim: em primeiro lugar, considerar as estações do ano e os efeitos que cada uma delas produz, pois nem todas são iguais, mas diferem entre si quanto às suas mudanças. Depois os ventos, o quente e o frio, principalmente os comuns a todos os países, e depois os peculiares a cada localidade. Devemos também considerar as qualidades das águas, pois, assim como diferem de outras em sabor e peso, também diferem muito em suas qualidades. Da mesma maneira, quando alguém chega a uma cidade da qual é estranho, ele deve considerar sua situação, onde está em relação aos ventos e ao nascer do sol… Essas coisas devem ser consideradas com mais atenção, e quanto às águas que os habitantes usam, sejam elas pantanosas e leves, ou duras, e correndo de situações rochosas elevadas, e então se salgadas e impróprias para cozinhar, e o solo, seja nu e deficiente em água, ou arborizado e bem regado, e se está em uma situação oca ou confinada, ou se é elevado e frio; e o modo como os habitantes vivem, e quais são suas aspirações, se gostam de beber e comer em excesso, se são dados à indolência, ou gostam de exercícios e trabalho...

Pois se alguém conhece bem todas essas coisas, ou pelo menos a maior parte delas, não pode deixar de saber, quando chega a uma cidade estranha, tanto as doenças peculiares ao lugar, quanto a natureza particular de suas doenças comuns, de modo que ele não terá dúvidas quanto ao tratamento das doenças, nem cometerá erros, como é provável quando não se tenha considerado previamente essas questões. E, em particular, conforme a estação e o ano avançam, ele poderá dizer quais doenças epidêmicas atacarão a cidade, seja no verão ou no inverno, e o que cada indivíduo estará em perigo de experimentar com a mudança no regime… Pois, juntamente com as estações, os órgãos digestivos dos homens sofrem uma mudança.2

Um elemento-chave dessa visão foi a noção de uma relação dialética entre o corpo e o meio ambiente, de tal forma que o corpo estava situado ou corporificado em um determinado lugar e sob condições naturais específicas (ar e água), produzindo uma visão, como o historiador da medicina Charles E. Rosenberg indicou, que era “holística e integrativa — a qual poderíamos chamar de ecológica e sociológica”.3

Na verdade, na Grécia antiga, a medicina foi bifurcada. Os escravos tinham médicos escravos e os cidadãos tinham médicos cidadãos, que atuavam em condições bastante diferentes.4 O autor hipocrático de Airs Waters Places escrevia especificamente para médicos cidadãos e, portanto, esse tratado refletia a natureza de classe da sociedade grega. Não obstante, representava uma abordagem geral que influenciaria o desenvolvimento posterior da epidemiologia por milhares de anos.

O grande herdeiro da abordagem ambiental e dialética da saúde no início da era capitalista foi Bernardino Ramazzini (1633–1714), cujo trabalho pioneiro em The Diseases of Workers [As doenças dos trabalhadores] foi, como Karl Marx enfatizou em O capital, o tratado fundamental sobre “patologia industrial”, ou o que agora é conhecido como o campo da saúde ocupacional e ambiental.5 Ramazzini explorou as doenças ocupacionais associadas aos mineradores de metais, douradores, químicos, pintores, trabalhadores do enxofre, ferreiros, limpadores de latrinas e fossas, pisoeiros, prensadores de óleo, curtidores, trabalhadores do tabaco, carregadores de cadáveres, parteiras, amas de leite, cervejeiros, padeiros, moleiros, cortadores de pedra, lavadeiras, fazendeiros, trabalhadores que ficam em pé, trabalhadores sedentários e muitas outras categorias ocupacionais e condições de trabalho. Ele conscientemente incorporou o ponto de vista de Airs Waters Places ao transcender a bifurcação que existia na medicina grega entre cidadão livre e escravo, e examinar as condições ambientais das ocupações mais humildes. Ele escreveu: “Quando um médico visita uma casa da classe trabalhadora, ele deve se contentar em sentar em um banquinho de três pernas, se não houver uma cadeira dourada, e deve reservar um tempo para seu exame; e, às perguntas recomendadas por Hipócrates, ele deve acrescentar mais uma: qual é a sua ocupação?”.6

Em meados do século XIX, Marx viu o trabalho de Ramazzini sobre patologia industrial, que estendeu a epidemiologia às ocupações da classe trabalhadora, como a chave para o desenvolvimento da saúde pública, conforme formulada por médicos radicais do século XIX. As implicações históricas expandidas disso em vista da ascensão do capitalismo industrial foram apresentadas em meados da década de 1840 no livro de Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Em meados da década de 1860, Marx voltou-se para o trabalho de Engels e para as investigações mais recentes sobre saúde pública, procurando explorar as condições ambientais da classe trabalhadora nas páginas de O capital. Do início a meados do século XIX foi a era das grandes reformas sanitárias, muitas vezes lideradas por médicos radicais. Foi também uma época de grandes mudanças na medicina, com o desenvolvimento do microscópio e o surgimento da teoria da patologia celular na obra de Rudolf Virchow, que desempenhou um papel formativo na criação da epidemiologia social e ajudou a estabelecer uma abordagem ambiental geral das epidemias baseada no trabalho de Engels.

No entanto, as investigações epidemiológicas do final do século XIX e do início do século XX seriam dominadas pela teoria dos germes da doença e pelos lendários avanços dos “caçadores de micróbios”.7 A ênfase estava em desenvolvimentos específicos da biomedicina no combate a epidemias, como aqueles associados ao desenvolvimento de vacinas e antibióticos. Esses avanços na biomedicina eram logicamente compatíveis com uma abordagem ecossocial da epidemiologia, como pode ser visto no trabalho de E. Ray Lankester — protegido de Charles Darwin e Thomas Huxley, amigo íntimo de Marx e um colaborador próximo de Louis Pasteur. No entanto, a tendência geral era, cada vez mais, deixar as questões ambientais abrangentes de lado enquanto inimigas do capital.8 Em meados do século XX, um modelo biomédico reducionista triunfou sobre perspectivas ambientais mais abrangentes, deixando de lado as notáveis ​​realizações de pensadores ecossociais, como Engels, Marx, Virchow e Lankester, junto com os de Florence Kelley, W.E.B. Du Bois, Alice Hamilton, Norman Bethune e Salvador Allende.

A marginalização, em meados do século XX, das abordagens socioambientais da epidemiologia foi justificada, em grande parte, pelo que foi retratado como o triunfo completo da medicina moderna sobre as doenças infecciosas. Em 1971, Abdel R. Omran apresentou sua teoria da “transição epidemiológica”, que argumentava que as doenças infecciosas eram essencialmente fenômenos do passado nas economias desenvolvidas, varridas pelo processo de modernização. Embora as doenças infecciosas ainda estivessem presentes nas economias subdesenvolvidas, postulou-se que elas simplesmente desapareceriam com o avanço do desenvolvimento econômico.9 Consequentemente, foi proposto que as preocupações com a saúde deveriam se concentrar no aumento concomitante das doenças degenerativas. A concepção da transição epidemiológica permaneceu sendo — pelo menos até o surgimento da covid-19 — a abordagem geral mais influente na evolução da saúde ambiental. No entanto, começou a apresentar falhas e passou a ser cada vez mais modificada (se não totalmente refutada) devido a duas categorias de críticas: 1) a falha em levar em conta as crescentes desigualdades em saúde (particularmente de classe e raça) nas sociedades capitalistas desenvolvidas; e 2) a enorme expansão da globalização capitalista, levando à disseminação de doenças — que não estavam simplesmente confinadas aos países tropicais pobres, pois também ameaçavam as nações do núcleo capitalista.10

Como declarou o ecologista de Harvard Richard Levins em “Is Capitalism a Disease?” [“O capitalismo é uma doença?”), o surgimento, no final do século XX, de uma nova série de patógenos, incluindo o retorno da malária, da cólera, da dengue, da tuberculose e de outras doenças clássicas, associadas ao ebola, à AIDS (HIV), à legionelose, à síndrome do choque tóxico e à tuberculose resistente a múltiplos medicamentos — aos quais agora podemos adicionar outras, como H1N1, H5N1, MERS, SARS e covid-19 (SARS-CoV-2) — apontou para o fracasso completo da teoria da transição epidemiológica. Diante disso, Levins insistiu que, “no lugar de uma doutrina da transição epidemiológica, sustentando que as doenças infecciosas simplesmente desapareceriam com o desenvolvimento dos países, precisamos colocar uma proposta ecológica: aquela com qualquer mudança importante no modo de vida de uma população (como densidade populacional, padrões de residência, meios de produção), também havendo uma mudança em nossas relações com os patógenos, seus reservatórios e com os vetores de doenças.”11 Essas mudanças ocorreram como resultado da onda de globalização neoliberal e expansão do agronegócio no meio do século, desde que a transição epidemiológica foi postulada pela primeira vez, levando a uma nova ênfase crítica na ecologia das doenças e suas relações com a crise estrutural do capital.

A ruptura epidemiológica

Os principais críticos das condições da classe trabalhadora no século XIX consistiam em médicos radicais que personificavam muitos dos aspectos mais progressistas da ciência e da cultura burguesas, muitas vezes indo contra a lógica da sociedade capitalista, frequentemente assumindo valores socialistas. Foi em parte nesse contexto, além da economia política, que Marx e Engels desenvolveram grande parte de sua crítica do capital. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, escrito em 1844, foi fortemente baseado em suas observações em primeira mão, conforme ele caminhava pelas ruas de Manchester em todos os horários do dia e da noite, às vezes guiado por sua parceira, a jovem e vivaz proletária irlandesa Mary Burns.12 Mas Engels também de baseou muito nas investigações de médicos radicais, como Peter Gaskell, James Phillips Kay e Thomas Percival, de Manchester. Nas décadas de 1820–1840, a classe dominante inglesa foi motivada a examinar as condições dos trabalhadores e a realizar reformas sanitárias, em grande parte devido à propagação de epidemias de cólera, tifo, febre tifoide, escarlatina e outras doenças, que, embora sempre fossem piores nas vizinhanças dos pobres, frequentemente expandiram-se aos domínios dos ricos. No entanto, os médicos que realmente assumiram a tarefa de remediar esses males eram, muitas vezes, como o Dr. Lydgate em Middlemarch, de George Eliot, pensadores livres, que viam a medicina como “apresentando o intercâmbio mais perfeito entre ciência e arte”, apontando para a necessidade de reforma social radical e a rejeição das tendências “venais” de uma sociedade de nexo monetário.13

É notável que Kay, Gaskell e Southwood Smith — esse último de Londres, em quem Engels deveria confiar — foram todos treinados em Edimburgo, que, junto com Glasgow, foi a fonte do Iluminismo escocês, às vezes vista como o berço da sociologia clássica. Os principais intelectuais do Iluminismo escocês, como Adam Ferguson e James Millar, bem como Adam Smith, promoveram uma ampla perspectiva da história natural, que era geralmente materialista e empirista em sua orientação filosófica.14 Henry Julian Hunter, a quem Marx admirava, formou-se em medicina. em Aberdeen.15 Edwin Lankester obteve seu treinamento médico na Alemanha, onde adquiriu perspectivas críticas sobre a sociedade burguesa.16 Entre os principais médicos radicais da época na Grã-Bretanha que influenciariam Engels e Marx, John Simon, o oficial médico do Conselho Privado, e Edward Smith, autor de Health and Disease [Saúde e doença] (1861), destacaram-se por terem recebido seus diplomas de medicina em universidades inglesas, o primeiro no King’s College, da Universidade de Cambridge, e o último, na Royal Birmingham Medical School.17

Com base em suas próprias observações, na literatura cartista e nos médicos radicais da época, o jovem Engels, em 1844, descobriu as terríveis condições ambientais da classe trabalhadora na Inglaterra no meio da Revolução Industrial, focando tanto nos fatores que levam a epidemias quanto nas doenças ocupacionais e nas deficiências nutricionais. Entre suas descobertas, exploradas em grande detalhe, estava a mortalidade muito maior da classe trabalhadora em comparação com a classe capitalista. Em um ponto de seu texto, ele se baseou em um estudo de Chorlton-on-Medlock — na época, um subúrbio de Manchester (e, agora, parte da cidade) — realizado pelo médico P. H. Holland, que dividiu tanto ruas quanto casas em três classes qualitativamente distintas, de ricos a pobres. Como Engels explicou, os dados resultantes mostraram que a mortalidade nas “ruas da terceira classe [era] 68% maior do que nas da primeira classe”, enquanto a mortalidade nas casas da terceira classe era “78% maior do que naquelas da primeira classe”.

Em Liverpool, como Engels indicou com base em relatórios parlamentares, “a longevidade média [isto é, a expectativa de vida ao nascer] das classes altas, pequena nobreza, profissionais liberais etc. era de trinta e cinco anos”, enquanto a da classe trabalhadora era de quinze anos. A razão pela qual a expectativa de vida era tão abissalmente baixa tinha a ver com a alta taxa de mortalidade infantil. Em Manchester, “mais de 57% das crianças da classe trabalhadora morrem antes do seu quinto ano, enquanto apenas 20% das crianças das classes mais altas… Epidemias em Manchester e Liverpool são três vezes mais fatais do que em distritos rurais… Casos fatais de varíola, sarampo, escarlatina e tosse convulsa entre crianças pequenas são quatro vezes mais frequentes”.18 Como sua análise mostrou, as classes trabalhadoras sofriam de maior morbidade e mortalidade em todas as idades e sexos, com as minorias étnicas (na época, na Inglaterra, principalmente irlandesas) sofrendo de forma muito mais massiva.19 Engels argumentou que essas condições desiguais eram produto do sistema de acumulação de capital e constituíam, nesse sentido, uma forma de “assassinato social”.20

Na Alemanha, Virchow, o médico e patologista alemão, famoso pela autoria de Cellular Pathology [Patologia celular] (1858), baseou-se em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, em seu próprio trabalho pioneiro em epidemiologia social, utilizando algumas das estatísticas desse último sobre mortalidade baseada em classe. Designando epidemias de cólera e tifo como “doenças de multidões”, Virchow desempenhou um papel de liderança na reforma sanitária em Berlim. Nos Estados Unidos, o livro de Engels influenciou a liderança em ativismo socialista e reformadora social Florence Kelley, amiga próxima e correspondente frequente de Engels que traduziu A situação da classe trabalhadora na Inglaterra para o inglês em 1887. Ela residiu por um tempo na Hull House, em Chicago, onde desenvolveu mapas que documentam as áreas empobrecidas da cidade, identificando bairros com códigos de cores conforme suas etnias e classes para revelar formas específicas de desigualdades. Mais tarde, como chefe dos inspetores de fábrica do estado de Illinois, ela lutou contra casas de trabalho, cortiços, trabalho infantil e uma epidemia de varíola. Ela se tornou uma figura importante na batalha pela reforma das condições sociais e ambientais da classe trabalhadora, e particularmente das mulheres, nos Estados Unidos. Como declarou o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, Felix Frankfurter, em 1953, Kelley foi “uma mulher que teve provavelmente a maior participação na formação da história social dos Estados Unidos durante os primeiros trinta anos deste século”, respondendo às condições de “industrialização frenética”.21 Em 1900, a taxa de mortalidade por febre tifoide nos Estados Unidos, de acordo com o cientista e socialista britânico Lancelot Hogben, era de trinta e seis por mil, mas havia caído para seis por mil em 1932, em grande parte devido aos reformadores sanitários, dos quais Kelley foi um dos principais.22

Um pouco mais de vinte anos depois, Marx tratou de muitas das questões epidemiológicas abordadas em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, em O capital. Para Marx, as “epidemias periódicas” que Engels havia explorado eram tanto uma manifestação da “ruptura irreparável no processo interdependente do metabolismo social” quanto da “adubação dos campos ingleses com guano” do Peru.23 Nesse sentido, uma ruptura corpórea em morbidade e mortalidade humana deveria ser vista como parte de uma ruptura metabólica mais abrangente na relação da humanidade com a natureza por meio da produção social.24 Ao analisar a ruptura ecológica/epidemiológica do capitalismo, Marx baseou-se fortemente no trabalho de médicos ingleses radicais dos anos 1860, particularmente Simon, a quem ele considerava um dos grandes críticos do capitalismo da época, junto com Hunter, Edward Smith e Edwin Lankester (cuja obra Marx conhecia indiretamente) — todos os quais trabalharam em várias funções com Simon.25 Marx preencheu várias páginas de O capital com abordagens das causas sociais e de classe das epidemias, deficiências nutricionais, diferenciais de mortalidade (incluindo alta mortalidade infantil) e condições de habitação e saneamento. As avaliações de médicos radicais que investigavam o estado da saúde pública, nas palavras de Marx, fervilhavam “de ataques heterodoxos à ‘propriedade e seus direitos’”.26

Ao lado do próprio Simon, que, apesar de sua posição elevada no topo da estrutura de saúde pública inglesa, era um autodenominado “socialista” preocupado com as condições “proletárias”, o médico radical que Marx mais admirava era Hunter, que fazia parte de um dos talentosos grupos de médicos que Simon lançou mão para investigar as condições de saúde dos trabalhadores na Inglaterra e no País de Gales.27 Marx caracterizou as investigações de Hunter no sexto, sétimo e oitavo relatórios de saúde pública (1864–1866) sobre mortalidade infantil, nutrição, saneamento e epidemias, e as condições gerais de vida dos trabalhadores em toda a Inglaterra, como nada menos do que “marcadoras de uma época”, baseando mais de uma dúzia de páginas de O capital na pesquisa in loco de Hunter.28 Com relação à habitação, Hunter destacou o absurdo da exigência nacional de “fornecer cobertura [habitação] para aqueles que, por não terem capital, não podem provê-la para si mesmos, embora possam, por meio de pagamentos periódicos, recompensar aqueles que irão fornecê-la”. Essa falta de capital por parte da população trabalhadora e os aluguéis exorbitantes que deviam ser pagos com seus salários irrisórios, somados às frequentes expropriações por proprietários de terra, levaram Marx a se referir com sarcasmo ao “admirável caráter da justiça capitalista”.29 A superlotação, medida pela falta do espaço cúbico necessário para os habitantes (bem como a falta de janelas, instalações sanitárias adequadas e água potável) foi, ele indicou, o terreno fértil para uma série de epidemias, incluindo varíola, cólera, tifo, febre tifoide, escarlatina e tuberculose.30

Marx forneceu muitos dos elementos do que hoje chamamos teoria “ecossocial” da distribuição de doenças. O início de uma ferrovia de Lewisham a Tunbridge (agora Tonbridge), explicou ele, teve a consequência não intencional de espalhar uma epidemia de varíola na paróquia de Seven Oaks, a cerca de cinquenta quilômetros da atual Londres. A melhoria do transporte em condições capitalistas pode, portanto, ser vista como um fator que leva a uma disseminação mais rápida de doenças infecciosas. Da mesma forma, o sistema de turmas do trabalho agrícola no campo contava com trabalhadores migrantes que consistiam, em grande parte, em mulheres e crianças, transferidas de um lugar para outro em resposta às exigências do capital, a fim de servir projetos relacionados à construção como “obras de construção e drenagem, fabricação de tijolos, queima de cal e fabricação de ferrovias”. O resultado, declarou Marx, foi “uma coluna voadora de pestilência”, levando “varíola, tifo, cólera e escarlatina para os lugares em cuja vizinhança ela [a turma de trabalho migrante] estabelece seu acampamento”.31

Para Marx, tudo isso, é claro, estava relacionado à ruptura metabólica gerada pelo capitalismo entre a humanidade e a natureza como um todo — incluindo o que pode ser visto como uma ruptura corpórea (ruptura epidemiológica) na existência corporal humana. Em todos os momentos, era necessário, ele enfatizou, levar em consideração “o movimento cíclico das condições da vida humana”, isto é, o metabolismo social humano.32 Em Seventh Public Health Report [Sétimo relatório de saúde pública], Hunter explorou os “direitos senhoriais” sobre o esterco que os proprietários de terras de Durham exerceram sobre os pobres da região. Como Marx, citando Hunter, explicou: “É curioso observar que o próprio estrume do trabalhador agrícola é privilégio do senhor calculista … e o senhor não permitirá que exista nenhuma propriedade privada, exceto a sua própria, na vizinhança, e prefere ceder um pouco de estrume aqui e ali para um jardim do que diminuir qualquer parte de seu direito senhorial”.33 O objetivo da aristocracia e da pequena nobreza ao impor essas condições era capturar e monopolizar o próprio estrume produzido pelos trabalhadores, a fim de fertilizar os campos das propriedades dos senhores.

Da mesma forma, Marx destacou as condições ambientais gerais dos mineiros, que, além de trabalhar em uma das mais perigosas de todas as ocupações, eram frequentemente forçados a viver na propriedade do proprietário da mina com aluguéis exorbitantes cobrados por casas decrépitas, a fim de simplesmente poderem lá trabalhar. Aqui, ele citou a visão um tanto preconceituosa de Simon, de que “os trabalhadores … não têm educação suficiente para saber o valor de seus direitos sanitários, [de modo] que nem o alojamento mais obsceno e nem a água potável mais suja serão incentivos apreciáveis para uma ‘greve’”.34 A exploração dos mineiros e de suas famílias estava, nesse caso, diretamente ligada à expropriação dos próprios meios de vida — não apenas dentro, mas fora da mina.

Ao explorar as condições epidemiológicas dos trabalhadores, Marx prestou muita atenção à sua ingestão nutricional, baseando-se nos dados de Edward Smith, mostrando que os trabalhadores industriais eram deficientes em carboidratos e proteínas, em comparação com presidiários, sendo, em muitos casos, incapazes de “evitar doenças de fome”, devido à baixa ingestão nutricional. As mulheres eram geralmente as mais subnutridas.35 Mulheres da classe trabalhadora com filhos pequenos, muitas vezes, não tinham escolha a não ser simplesmente amamentá-los antes de irem para o trabalho e novamente após, geralmente com um intervalo de doze horas ou mais. Como Marx reportou, com base em Hunter, as crianças, deixadas com “enfermeiras” idosas, muitas vezes, eram alimentadas com misturas artificiais, como o xarope Godfrey’s Cordial, contendo ópio para mantê-las sedadas. Por essa e outras razões, crianças pequenas em distritos da classe trabalhadora morreram em grande número.36

Não menos preocupante eram as doenças ocupacionais, resultantes de formas extremas de exploração, particularmente as condições impostas às mulheres no trabalho informal. A descrição de Marx da condição de excesso de trabalho e superlotação, em seu capítulo sobre “A jornada de trabalho” em O capital, baseou-se nas descrições das condições de mulheres jovens trabalhando como costureiras em casas de madames, publicadas em vários jornais de Londres, em junho de 1863, com base no Report of the Medical Officer of Health to the Parish Vestry of St. James [Relatório do médico oficial de saúde da Paróquia Sacristia de St. James], de Edwin Lankester.37 As reportagens dos jornais de 1863 se baseavam no relato do velho Lankester sobre a morte de Mary Ann Walkley, de 20 anos, empregada em um estabelecimento de costura dirigido por Madame Elise, uma das mais conhecidas modistas de Londres. Walkley, junto com outras sessenta mulheres jovens, foi forçada a trabalhar vinte e seis horas e meia sem interrupção, enquanto confinadas trinta em uma sala, com apenas um terço dos pés cúbicos necessários por pessoa para garantir a entrada de ar adequada. Para Marx, esse foi um exemplo claro de excesso de trabalho e injustiça social e ambiental, representando as condições em que os proletários em geral foram colocados, reduzindo sua expectativa de vida geral — se não extinguindo suas vidas em poucas horas, como no caso de Walkley.38

Ao considerar as condições epidemiológicas da classe trabalhadora, uma passagem de Simon foi tão importante para Marx que ele a citou na íntegra tanto no primeiro quanto no terceiro volumes de O capital:

[É] praticamente impossível... para os trabalhadores insistir naquilo que em teoria é seu primeiro direito sanitário — o direito de que, independentemente do trabalho que seu empregador os reúna para fazer, será, na medida em que dele depende e às suas custas, despojado de todas as circunstâncias desnecessariamente prejudiciais… Embora os trabalhadores sejam praticamente incapazes de exigir essa justiça sanitária para si próprios, eles também (não obstante as supostas intenções da lei) não podem esperar qualquer assistência eficaz dos administradores nomeados das Nuisances Removal Acts [Leis de Remoção de Inconvenientes]… No interesse da miríades de homens e mulheres trabalhadores, cujas vidas são agora desnecessariamente afligidas e encurtadas pelo infinito sofrimento físico que seu mero emprego engendra, arrisco-me a expressar minha esperança de que as condições sanitárias do trabalho possam, universalmente, pelo menos até aqui, ser adequadas às disposições legais apropriadas.39

Isso, junto com outras questões mais abrangentes do agravamento das condições ecológicas das doenças geradas pelo sistema do capital, exigia, na visão de Marx, nada menos do que a reconstituição revolucionária da sociedade em geral: não apenas para o trabalho, mas também para a vida.
“As vinganças da natureza”

E. Ray Lankester, filho de Edwin Lankester, foi o principal zoólogo da Inglaterra na geração posterior a Darwin e Huxley. Ele era um materialista inflexível, socialista (do tipo fabiano) e crítico ambiental, que havia lido O capital, de Marx, e era um convidado frequente em sua casa.40 Lankester havia trabalhado na Alemanha com Ernst Haeckel. A primeira introdução da palavra ecologia ou œcologia (cunhada por Haeckel em 1866) no inglês apareceu na tradução de 1876 de History of Creation [História da Criação], de Haeckel, feita sob a supervisão de Lankester, que cunhou o termo bionomia, uma categoria que era comumente usada pela ecologia.41

Um dos principais aspectos da ampla pesquisa científica de Lankester foi o estudo de patógenos parasitas. Seu pai havia sido o editor fundador do Quarterly Journal of Microscopical Science, e Ray Lankester, posteriormente, tornou-se editor da publicação — que emergiu como o mais importante jornal científico britânico dedicado à pesquisa microbiana –, servindo ao posto por meio século. Em 1871, Lankester redescobriu, de forma independente (sua descoberta anterior, em 1843, havia passado despercebida), o Trypanosoma rotatorum, tipo de parasita microscópico em forma de saca-rolhas responsável por várias doenças do sono e pela doença de Chagas.42 Em 1882, “foi Lankester quem primeiro descreveu um protozoário parasita do tipo que, mais tarde, C. L. A. Laveran demonstrou ser o agente causador da malária”. O parasita, que Lankester chamou de Depranidium ranarum, foi renomeado Lankerstella em sua homenagem, em 1892.43

Para Lankester, “‘opostos’ aparentes são frequentemente aliados próximos na Natureza… A menor mudança na substância administrada ou a menor diferença na substância viva de um indivíduo … faz toda a diferença entre ‘veneno’ e ‘carne’”.44 Assim, alterações relativamente pequenas nas condições ecológicas resultantes do cruzamento de limiares críticos devido às ações humano-sociais poderiam alterar enormemente as relações ecológico-epidemiológicas, levando à disseminação de epidemias. Foi essa ampla perspectiva dialética e ecológica que fez de suas observações sobre o papel do homem na propagação das epidemias — além do próprio parasita patogênico — únicas em sua época.

Em 1887, Lankester visitou o Instituto Pasteur em Paris pela primeira vez, tornando-se um parceiro científico de Pasteur. Nos seus últimos anos, ele também trabalhou com Élie Metchnikoff, que sucedeu a Pasteur como chefe do instituto. Lankester foi a figura-chave que organizou a elite científica e política britânica para apoiar a pesquisa do Instituto Pasteur, preparando o cenário para o estabelecimento do Instituto Lister, seu semelhante na Inglaterra. Como diretor do Museu de História Natural de Londres, o principal centro zoológico da Inglaterra, Lankester estabeleceu importantes coleções de mosquitos e moscas tsé-tsé para pesquisas.45

Com a expansão do colonialismo e do imperialismo no final do século XIX, houve um enorme aumento das doenças tropicais, com destaque para a doença do sono africana (tripanossomíase), que devastou populações na África Central e Oriental, matando centenas de milhares de pessoas. O patógeno parasita foi disseminado pela mosca tsé-tsé. Uma vez que o parasita cruzasse a barreira hematoencefálica e afetasse o sistema nervoso central, o paciente tornava-se letárgico, insano, entrava em coma e morria.46 As potências europeias dividiram a África em 1884–1885, levando a uma extensão massiva de colonialismo e à pilhagem do continente. Quando os britânicos colonizaram Uganda, uma epidemia de doença do sono estourou, matando um terço da população em apenas alguns anos. Epidemias de Trypanosoma também eclodiram no Congo Francês, no Congo Belga e nas colônias da Alemanha e de Portugal.47

Como presidente do Comitê de Doenças Tropicais da Royal Society, bem como na qualidade de diretor do Museu Britânico de História Natural, Lankester dedicou muito de seus esforços na virada do século para pesquisar as fontes de doenças tropicais, particularmente a doença do sono. Os tripanossomos foram descobertos no sangue humano pela primeira vez em 1902. Lankester trabalhou em estreita colaboração com o microbiologista David Bruce, que foi o primeiro a determinar cientificamente que a doença do sono foi transmitida pela mosca tsé-tsé, a qual também transmitiu as variantes específicas do patógeno parasita que afetam os humanos (Trypanosoma brucei gambiense e Trypanosoma brucei rhodesiense).48

O aspecto mais notável do trabalho do próprio Lankester nessa área foi sua abordagem ecossocial à epidemiologia. Bruce tinha descoberto originalmente a espécie de tripanossomo protozoário (Trypanosome brucei) infectando gado doméstico, causando a mortal nagana. Essa espécie de tripanossomo, há muito, existia em uma relação benigna com animais selvagens, como búfalos, antílopes e gado selvagem. Tornou-se mortal apenas ao passar para o gado doméstico e para os humanos. Embora a doença do sono aparentemente estivesse presente em algum grau desde tempos imemoriais, as populações africanas haviam estabelecido uma espécie de equilíbrio entre os ecossistemas naturais/selvagens e aquele dos humanos e animais domésticos.49 O colonialismo destruiu tudo isso.

Lankester, escrevendo em “Nature’s Revenges: The Sleeping Sickness” [“A vingança da natureza: a doença do sono”], incluído em seu The Kingdom of Man [O reino dos homens], concluiu que a doença do sono “cresceu devagar nas rotas comerciais recém-abertas para a bacia do Congo” criadas pelos poderes coloniais. “A terrível mortalidade produzida por essa doença na África Central”, escreveu ele, “naturalmente causou a maior ansiedade” ao governo britânico, “que acabara de concluir a ferrovia da Costa Leste às margens do lago Victoria Nyanza”.50

Ao escrever sobre “Man and Disease” (“O homem e a doença”), em The Kingdom of Man, Lankester introduziu a hipótese de que,

no sistema extra-humano da Natureza, não há doenças e não há conjunção de formas de vida incompatíveis como as que o Homem trouxe à superfície do globo… É uma coisa notável — o que possivelmente pode ser uma verdade menos geral do que nosso conhecimento atual parece sugerir — que o ajuste dos organismos aos seus arredores é tão severamente completo na Natureza separada do Homem, que as doenças são desconhecidas, como fenômenos constantes e normais sob essas condições... Parece ser uma visão legítima a de que toda doença pela qual os animais (e provavelmente as plantas também) podem ser responsabilizados, exceto como uma ocorrência transitória e muito excepcional, se deva à interferência do homem. As doenças do gado, das ovelhas, dos porcos e dos cavalos não são conhecidas, exceto em rebanhos domesticados e entre aquelas criaturas selvagens às quais as produções domesticadas do Homem as comunicaram...

Qualquer coisa como as doenças epidêmicas de origem parasitária com as quais o homem civilizado está infelizmente familiarizado parece se dever à sua própria atividade inquieta e ignorante ou, na sua ausência, a grandes, e provavelmente um tanto repentinas, mudanças geológicas — mudanças nas conexões e, portanto, nas comunicações, de grandes áreas de terra… O homem tem causado estragos em si mesmo e em todos os outros tipos de seres ao misturar os produtos de uma área com os de outra… Em seus ávidos esforços para produzir grandes quantidades de animais e plantas convenientes aos seus propósitos, e em sua ânsia de reunir e organizar sua própria corrida por defesa e conquista, o homem acumulou enxames naturais de uma espécie em campos e fazendas e multidões não naturais de sua própria espécie em cidades e fortalezas. Essas massas não diluídas de um organismo servem como um campo fértil para a propagação de parasitas anteriormente raros e sem importância de um indivíduo para outro. As doenças epidêmicas humanas, bem como as do gado e das plantações, são, em grande parte, devido a essa ação imprudente do homem não científico.51

Epidemias em humanos (bem como em seus animais e plantas domesticados) resultaram da destruição ecológica e das vastas aglomerações de espécies humanas e de seus animais domesticados, incluindo monoculturas e currais de engorda de animais, que criaram caminhos para patógenos. Essas doenças comumente surgiram do vazamentos de patógenos de hospedeiros naturais, entrando em animais domesticados e humanos, devido às perturbações causadas pelas ações humanas.52 E com a biodiversidade diminuída e, em muitos casos, eliminada, a disseminação de doenças ocorreu muito mais prontamente. Além disso, causas socioeconômicas definidas engendraram essas mudanças, relacionadas à expansão colonial e à globalização do capitalismo, e tendo a ver com um sistema dominado por “mercados” e “comerciantes financeiros cosmopolitas”.53

Como Lankester escreveu em “Nature’s Revenges: The Sleeping Sickness”:

Temos justificativa para acreditar que, até que o homem introduzisse suas raças de gado e cavalo artificialmente selecionadas e transportadas para a África, não havia doença de nagana [animais domésticos infectados com tripanossoma]. O Trypanosoma brucei vivia no sangue de caças de grande porte em perfeita harmonia com seu hospedeiro. Da mesma forma, é provável que o parasita da doença do sono tenha florescido inocentemente por meio de um estado de adaptação causado pela tolerância por parte dos homens aborígenes e animais da África Ocidental. Apenas quando os caçadores de escravos árabes, os exploradores europeus e os ladrões de borracha da Índia agitaram as populações tranquilas da África Central, e misturaram com sua violência os suscetíveis às raças tolerantes, que o parasita da doença do sono se tornou um flagelo mortal — um “desarmonia” para usar o sugestivo termo introduzido por minha amiga [Élie Metchnikoff].54

Lankester passou a insistir na necessidade de expansão da saúde pública na tradição de Simon, transcendendo a tendência capitalista de organizar a medicina “como uma profissão remunerada”.55 Somente com o envolvimento coordenado do Estado a saúde e a segurança da população humana poderiam ser asseguradas.

A segunda doença

Apesar do predomínio do modelo biomédico, com seu foco estreito na saúde individual privada, persistiu uma concepção mais abrangente da medicina socializada, enraizada em uma compreensão holística do ambiente socioeconômico e físico. Contribuições significativas para essa abordagem ambiental vieram de Du Bois, Hamilton, Bethune e Allende, cada um dos quais explorou como a organização e as operações da economia política contribuíram tanto para a desigualdade quanto para a disseminação de doenças. Bethune descreveu esse aspecto como a “segunda doença”, que precisava ser reconhecida como um “crime social”, semelhante ao conceito de assassinato social de Engels.56

Em The Health and Physique of the Negro American [A saúde e a psique do negro americano] (1906), Du Bois demonstrou como lidar com questões epidemiológicas envolvia confrontar concepções raciais, especialmente no que diz respeito às noções biológicas sobre habilidades e disposições inatas. Ele pesquisou os estudos mais recentes em antropologia e várias ciências biológicas, os quais determinavam que era “impossível traçar uma linha de cor entre os negros e outras raças” no que diz respeito às “características físicas”; portanto, os negros “não podem ser destacados… como absolutamente diferentes”.57 Em particular, ele estava desafiando os estudos de antropometria craniana, como aqueles associados ao médico francês Paul Broca, em meados de 1800, que mediam e pesavam cérebros humanos em um esforço para proclamar origens evolutivas distintas entre os povos do mundo. Du Bois enfatizou os diversos problemas com esses estudos, como o número insuficiente de cérebros de negros em comparação aos de brancos e a não consideração de características sociodemográficas, como idade, classe, ocupação e nutrição.

Para demonstrar as causas sociais das doenças, Du Bois apresentou uma série de casos e situações comparativas para iluminar as diferenças em saúde e doença. Isso revelou a fraqueza do argumento de que “negros são inerentemente inferiores em físico aos brancos”.58 Ele detalhou como a taxa de mortalidade de negros na Filadélfia, embora alta em relação aos brancos, era menor do que a de brancos em muitas outras áreas do país, indicando que outros fatores estavam envolvidos além da chamada raça biológica — particularmente as relações sociais de raça e classe. Para que não fosse possível ser mais claro, Du Bois apontou que, no início do século XX, na Rússia, onde a divisão entre aristocracia/burguesia e camponeses/proletários era especialmente gritante, “a taxa de mortalidade da pobreza” revelava “uma divergência muito maior da taxa entre os ricos do que a diferença entre negros e brancos da América”. Resultados semelhantes estavam presentes em relação à Grã-Bretanha, à Suécia e à Alemanha, onde a taxa de mortalidade dos pobres era duas vezes maior que a dos ricos, com os “bem de vida” entre os dois grupos. Os brancos que trabalhavam nos currais de Chicago tinham uma taxa de mortalidade mais alta do que os negros na cidade.

Ao destacar esses fatos, Du Bois estava argumentando contra os argumentos deterministas enraizados na raça biológica. Em resposta, ele apontou para formas entrelaçadas de opressão. A alta mortalidade infantil, as doenças e a taxa de mortalidade em geral refletiam uma “condição social” global, abrangendo moradias precárias, água contaminada, falta de ventilação, nutrição inadequada, poluição do ar e empregos perigosos — todos ligados às desigualdades de raça (como categoria cultural) e classe.59 “A tuberculose”, insistiu ele, “não é uma doença racial, mas social”.60

Décadas depois, em 1947, o principal biólogo britânico e teórico marxista J. B. S. Haldane escreveu que a tuberculose estava intimamente ligada a fatores econômicos, principalmente ganhos reais, “com as duas curvas”, dos ganhos reais de mulheres jovens na Inglaterra e de suas taxas de mortalidade por tuberculose, “Quase idênticas uma à outra de cabeça para baixo” — uma relação que se poderia esperar que se aplicasse a outros grupos oprimidos.61

Olhando para o fato de que as disparidades de saúde entre negros e brancos não eram de forma alguma corrigidas, mas diferiam de acordo com classe e localidade, Du Bois apresentou uma refutação definitiva da tese da inferioridade racial em relação aos negros americanos proposta pelo eugenista Frederick Hoffman em seu Race Traits and Tendencies in the American Negro [Características de raça e tendências no negro americano] (1896). Hoffman afirmou que as estatísticas de saúde demonstraram que a suscetibilidade dos negros “apenas à tuberculose seria suficiente para selar seu destino como raça”.62 Ao que Du Bois respondeu:

O fato inegável é... que em certas doenças os negros têm uma taxa muito maior do que os brancos, principalmente em tuberculose, pneumonia e doenças infantis.

A questão é: isso é racial [em termos de raça biológica]? O Sr. Hoffman nos levaria a dizer que sim, e a inferir que isso significa que os negros são inerentemente inferiores em físico aos brancos.

Mas a diferença na Filadélfia pode ser explicada por outros motivos além da raça. A alta taxa de mortalidade de negros da Filadélfia é ainda menor do que a dos brancos de Savannah, Charleston, Nova Orleans e Atlanta.63

A crítica incisiva de Du Bois à “má avaliação do homem” com respeito à saúde da população negra nos Estados Unidos aparentemente teve um efeito poderoso. John William Trask, cirurgião-geral assistente do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, escreveu um artigo em 1916 para o American Journal of Public Health sobre raça e saúde que estava em oposição diametral à edição especial sobre “A saúde do negro” do mesmo jornal, do ano anterior, focalizando como Du Bois o papel da classe e dos fatores econômicos, e rejeitando uma interpretação dos resultados de saúde com base na raça biológica.64

No início do século XX, a médica e (assim como Kelley) residente da Hull House Alice Hamilton produziu um trabalho inovador investigando o que Marx, inspirado por Ramazzini, chamou de “patologia industrial” ou saúde ocupacional e ambiental. Na época, a medicina industrial não estava bem estabelecida nos Estados Unidos, havia poucos dados. Os médicos e chefes de empresa atribuíam doenças e ferimentos de trabalhadores à saúde precária, sugerindo que eles tinham constituição fraca e que lhes faltava higiene. Hamilton desmantelou sistematicamente esses argumentos por meio de suas extensas investigações sobre as condições de trabalho. Ela conduziu estudos detalhados do processo de trabalho em inúmeras fábricas, examinando as condições, produtos químicos e materiais usados na produção, os pontos de exposição e as doenças vivenciadas pelos trabalhadores.65

Em 1908, Hamilton observou que os Estados Unidos estavam tão obcecados com a expansão da produção industrial que haviam falhado em “fazer um balanço dos mortos e dos feridos” nessas operações.66 Ela fez uma distinção entre negócios que são inerentemente perigosos por envolverem substâncias venenosas e aqueles que são perigosos devido às más condições de trabalho. Ambos os reinos exigiam atenção especial, pois contribuíam de maneiras distintas para a ruptura corpórea nos corpos humanos e entre as populações divididas por classe, raça e gênero.

Por meio de inspeção de fábricas, entrevistas extensas e coleta de dados sobre envenenamento, Hamilton documentou distúrbios tóxicos associados com — mas não limitados a — mercúrio, arsênio, fósforo, corantes de anilina, benzeno, rádio e chumbo. Ela revelou como o chumbo foi amplamente utilizado na indústria, resultando em envenenamento por chumbo entre os trabalhadores, afetando negativamente o sistema nervoso. Nas mulheres, essa exposição estava associada a abortos espontâneos. Ela explicou que os sintomas de envenenamento por chumbo geralmente não se manifestavam até que a situação fosse bastante grave. Além disso, a exposição poderia ocorrer em várias frentes. Nas fábricas que usavam sais de chumbo, os trabalhadores inalavam esse material porque era parte da poeira no ar. Assim, era necessário dar conta dos aspectos temporais e dos vários caminhos da ecologia da doença.67 Com base em suas pesquisas sobre os perigos da exposição ao chumbo, ela alertou, em 1925, contra o uso do chumbo na gasolina, observando que apresentava um perigo para o público e para o meio ambiente.

Em sua investigação da indústria da borracha, que ainda estava em seus estágios iniciais, Hamilton afirmou: “Não foi fácil garantir as informações desejadas, uma vez que a natureza dos produtos químicos usados ​​na composição e aproveitamento da borracha é cuidadosamente protegida como um valioso segredo comercial, enquanto as doenças ocupacionais entre os trabalhadores da borracha muitas vezes chegam ao conhecimento do médico da empresa, que considera um dever para com seus empregadores manter tais ocorrências em segredo”.68 Esses segredos comerciais atrasaram o diagnóstico do motivo pelo qual os trabalhadores estavam desenvolvendo cianose, fazendo com que seus lábios ficassem azuis. Eventualmente, descobriu-se que todos esses trabalhadores manipulavam anilina. Ela também destacou um solvente, o dissulfeto de carbono, usado na fabricação de borracha, que afetava o sistema nervoso central. Os trabalhadores o inalavam e o absorviam pela pele. Pessoas afetadas desenvolviam dores de cabeça extremas, fadiga, depressão e problemas para caminhar. Dada a exposição a tantos produtos químicos tóxicos diferentes, Hamilton enfatizou que os hospitais, incluindo asilos, precisavam documentar a ocupação dos pacientes, a fim de determinar a fonte potencial das doenças, em vez de tratar essas situações como casos isolados.69

Devido à divisão do trabalho baseada em gênero, as mulheres experimentaram várias doenças associadas às suas condições de trabalho específicas. Hamilton observou que, nas fábricas têxteis, as trabalhadoras sofriam de doenças pulmonares devido à inalação de partículas de algodão e lã. Junto com John B. Andrews, ela detalhou como as mulheres que trabalhavam em fábricas de fósforos estavam sofrendo de necrose de fósforo devido à exposição ao fósforo branco. Hamilton demonstrou que eram as condições sociais que concentravam doenças e enfermidades específicas na população. Desigualdades sociais, como aquelas associadas à divisão do trabalho em relação a mulheres e imigrantes, resultaram em diferentes exposições a venenos e trabalhos perigosos.

Bethune, um médico canadense que atuou como cirurgião na Guerra Civil Espanhola e, mais tarde, na Revolução Chinesa, argumentou, em 1936, na conferência da Sociedade Médico-Cirúrgica de Montreal, que o capitalismo “produz doenças” e que seu sistema médico é dominado pelo “individualismo voraz”, por meio do qual os médicos “enriquecem às custas das misérias de nossos semelhantes”.70 Ele havia conseguido se recuperar desde o início de uma tuberculose. Ao conversar com médicos radicais que fizeram parte das forças de libertação na China em 1939, ele declarou: “Como médico, sofri de duas doenças muito difíceis. Eu estava apenas começando a progredir como cirurgião quando fui vítima de um forte caso de tuberculose… Minha ‘segunda doença’… bem, isso não era tão simples… Eu vim a entender que a tuberculose não era apenas uma doença, mas um crime social… Eu aprendi o que deve ser feito para curar essa segunda doença”.71

Segundo Bethune, a maioria do público em uma sociedade capitalista recebia pouco ou nenhum atendimento médico a cada ano, simplesmente porque não tinha condições de pagá-lo. A medicina havia se tornado uma mercadoria de luxo, na qual os médicos “vendem pão a preço de joias”.72 Pessoas sofreram e morreram desnecessariamente sob esse arranjo. Ele declarou que a saúde privada não fazia sentido sob o capitalismo industrial. Em vez disso, “toda saúde é saúde pública”.73 Ele continuou a insistir que a “medicina socializada” era necessária, o que significa que “a proteção da saúde torna-se propriedade pública”, “é mantida por fundos públicos”, o “serviço está disponível para todos”, “os trabalhadores devem ser pagos pelo Estado”, e há um “autogoverno democrático dos próprios trabalhadores da saúde”.74 Como parte dessa transformação, ele apresentou uma compreensão da ecologia da doença:

Qualquer esquema para curar essa doença que não considere o homem como um todo, como resultado da tensão e do estresse ambientais, está fadado ao fracasso. A tuberculose não é apenas uma doença pulmonar; é uma mudança profunda em todo o corpo que ocorre quando o homem, considerado como um organismo que age sob as ordens e é um produto de seu ambiente, falha em circunavegar ou subjugar certas forças prejudiciais que atuam em seu corpo e mente. Deixe-o persistir em continuar em tal ambiente e ele morrerá. Mude esses fatores, tanto externos quanto internos, reajuste a cena — senão o palco –, e ele, na maioria das vezes, se recuperará.75

Bethune ilustrou como as mudanças ambientais já estavam sendo praticadas pelos ricos que tinham tuberculose, que iam para os sanatórios para descansar, comer alimentos nutritivos e desfrutar de ar puro. Os pobres, ao contrário, no sistema atual, morriam por falta de tratamento e atendimento adequado. Com a medicina socializada e um sistema socioeconômico baseado no atendimento e no serviço das necessidades humanas, a abrangente variedade das relações socioecológicas poderia ser atendida, como parte da erradicação da segunda doença: o assassinato social instituído pelas relações capitalistas de produção.

Em consonância com essa visão, Bethune dedicou sua vida a lutar por esse futuro. Após sua morte por envenenamento do sangue, em 1939, depois de operar um soldado chinês ferido, Mao Zedong escreveu de forma comovente: “O camarada Bethune era um médico, a arte de curar era sua profissão e ele estava constantemente aperfeiçoando suas habilidades”, ele personificava um “verdadeiro espírito comunista” e demonstrou uma completa “devoção aos outros… Estou profundamente triste por sua morte”. Ele era “um homem de… valor para o povo”.76

Em 1939, mesmo ano da morte de Bethune na China, Allende escreveu seu clássico trabalho epidemiológico, The Chilean Medico-Social Reality [A realidade médico-social chilena], enquanto servia como ministro da Saúde no governo da Frente Popular chefiado por Pedro Aguirre Cerda. Allende explicou: “O indivíduo na sociedade não é uma entidade abstrata; nasce, desenvolve-se, vive, trabalha, reproduz, adoece e morre em estrita sujeição ao meio ao seu redor, cujas diferentes modalidades criam diversos modos de reação, frente aos agentes etiológicos da doença. O ambiente material é determinado por salários, nutrição, habitação, vestuário, cultura e outros fatores concretos e históricos”.77 Allende, como Du Bois e Bethune, caracterizou a tuberculose como uma “doença social” por sua incidência muito maior entre as populações trabalhadoras. Ele viu doenças como o tifo como manifestações da proletarização e da pauperização. Como escreveu Howard Waitzkin, “a exposição de Allende dos fatores sociais na etiologia das doenças infecciosas antecedeu muitas ênfases da epidemiologia moderna. Seus argumentos transcenderam a busca por agentes etiológicos e tratamentos específicos — a perspectiva dominante da medicina ocidental na época em que Allende estava escrevendo”.78

Assim como Marx, Allende se referiu às doenças ocupacionais como uma “patologia social” promovida pela industrialização capitalista. Ele ressaltou as deficiências da medicina ocidental, que a levaram a ignorar quase completamente o papel das doenças ocupacionais, resultando na escassez de informações sobre o assunto.79

Allende estava particularmente preocupado com os efeitos do imperialismo na limitação da medicina social na América Latina e em todo o Terceiro Mundo. Ele foi talvez o primeiro crítico da indústria farmacêutica como representante da dominação da saúde pelo capital monopolista e pelas forças imperialistas. Ele destacou os preços muito mais altos dos produtos farmacêuticos de marca e a propaganda enganosa das principais empresas farmacêuticas multinacionais. Depois de ser eleito presidente do Chile no governo de Unidade Popular, em 1970, ele promoveu a nacionalização da indústria farmacêutica, que era controlada por estrangeiros internacionais, e buscou o controle dos preços dos medicamentos.80

O capitalismo contra a epidemiologia ecossocialista

A morte de Allende, em 1973, durante o golpe chileno lançado por Augusto Pinochet e apoiado pelos Estados Unidos, marcou, simultaneamente, não só o fim de uma das grandes experiências socialistas e o lançamento do neoliberalismo pela ditadura militar de Pinochet em cooperação com economistas de Chicago liderados por Milton Friedman; mas também representou a perda em Allende de uma das grandes figuras da medicina social. Em nenhum lugar o neoliberalismo teve efeitos mais devastadores do que na destruição das iniciativas de saúde pública e medicina social em todo o mundo.81

A ascensão radical da década de 1970, no entanto, levou a avanços importantes na epidemiologia social, o que continuou na década de 1980, fundindo-se com perspectivas ecológicas na década de 1990. Isso serviu para revigorar e expandir a perspectiva dialética de Airs Waters Places sobre a incorporação da humanidade a seu ambiente como um todo, há muito promovida por pensadores materialistas e socialistas. Assim, a perspectiva epidemiológica capitalista dominante, baseada em fatores biomédicos e estilo de vida, foi cada vez mais desafiada a partir dos anos 1970 por uma abordagem que enfatizava “a teoria ecossocial da distribuição de doenças: incorporando o contexto social e ecológico”.82 Esses anos viram a ascensão do materialismo histórico dialético no trabalho de figuras radicais, como Hilary e Steven Rose, engajados nos movimentos de “ciência para o povo” nos Estados Unidos e no Reino Unido, incorporando noções de “epidemiologia materialista”, “economia política da saúde” e “etiologia social da doença”.83 Como exemplos desses novos desenvolvimentos revolucionários, Barbara e John Ehrenreich publicaram The American Health Empire [O império americano da saúde], em 1970; Vicente Navarro fundou o principal órgão crítico da medicina social, The International Journal of Health Services, em 1971; Barbara Ehrenreich e Deirdre English finalizaram Witches, Midwives and Nurses [Bruxas, parteiras e enfermeiras], em 1973; Lesley Doyal escreveu The Political Economy of Health [A economia política da saúde], em 1979; Waitzkin terminou The Second Sickness [A segunda doença], em 1983; Levins e Richard Lewontin publicaram The Dialectical Biologist [O biólogo dialético], em 1985; e David Himmelstein e Steffie Woolhandler cofundaram o Physicians for a National Health Program, em 1987 (um ano depois de coeditar uma edição especial da Monthly Review sobre “Ciência, tecnologia e capitalismo”).84

Na década de 1990, essas perspectivas críticas sobre medicina, saúde e doença se fundiram às novas abordagens de orientação ecológica, marcadas especialmente pela “teoria ecossocial da distribuição de doenças”, de Nancy Krieger, na qual ela incorporou “construtos relativos a economia política, ecologia política, ecossistemas, escalas e níveis espaço-temporais, caminhos biológicos de incorporação e produção social de conhecimento científico”, a fim de transcender o estreito modelo biomédico de saúde e doença favorável ao capital.85 Essa abordagem ecossocial está alinhada com a longa história da ecologia humana, refletida no trabalho do biólogo histórico-materialista Lancelot Hogben, na década de 1930, com sua ênfase holística no “sistema ecológico do homem”.86

Em Biology Under the Influence [Biologia sob influência] (2007), Lewontin e Levins criticaram diretamente o extremo reducionismo do projeto do genoma humano, que assume que a doença pode ser combatida com genes projetados, sem levar em conta a “hélice tripla” representada pela dialética entre gene, organismo e meio ambiente.87 Fantasias reducionistas semelhantes surgiram com aqueles que acreditavam que os antibióticos poderiam curar todas as infecções bacterianas, sem entender que as bactérias, como organismos vivos, evoluem e sofrem mutações, negando as ações de antibióticos específicos. O uso excessivo de antibióticos sob o capitalismo, particularmente nos currais de engorda em grande escala do agronegócio e nas fábricas de frangos, onde os antibióticos são usados para combater doenças bacterianas associadas à superlotação, resultou na rápida evolução de bactérias resistentes a antibióticos, ou “superbactérias”, ameaçando a população humana — produzindo uma nova instância do que Lankester (após Engels) descreveu como “Vinganças da Natureza”.88

Para Levins, escrevendo em “Is Capitalism a Disease?” [“O capitalismo é uma doença?”], as cinco respostas sociais primárias à crise de saúde moderna requerem foco em: 1) saúde do ecossistema; 2) justiça ambiental; 3) determinação social da saúde; 4) atenção à saúde universal; e 5) medicina alternativa.89 A isso deve ser adicionada, sempre que possível, uma abordagem ecossocial para a pesquisa científica em medicina. O país que melhor exemplifica essa abordagem social da saúde é Cuba, onde todos esses fatores são levados em consideração. Apesar de ser um país pequeno e pobre, confrontado por um bloqueio econômico instituído pelos Estados Unidos, Cuba emergiu como líder mundial em biotecnologia; por exemplo, é o único país da América Latina a desenvolver vacinas para a covid-19.90 Isso se deve à sua abordagem socialista e ecológica, que vê a saúde como um fator produtivo básico, onde o “capital humano” total importa, ao invés de ser simplesmente designado como um atributo dos indivíduos, mediado pela posição de classe. Cuba adotou, portanto, um modo de pesquisa científica inteiramente diferente, que se baseia na noção do conhecimento como coletivo, interdisciplinar, concreto, local e frequentemente tácito. Isso, conforme explicado por Agustín Lage Dávila, diretor do Centro de Imunologia Molecular de Havana, vai contra as abordagens individualistas, reducionistas, não localizadas e extra-ambientais dominantes, características do modelo capitalista de investigação científica dominante.91

Com o início da pandemia de covid-19, a importância da epidemiologia histórico-materialista tornou-se cada vez mais evidente, como no trabalho de Rob Wallace, autor de Big Farms Make Big Flu [Fazendas grandes criam gripes grandes] e Dead Epidemiologists [Epidemiologistas mortos].92 Para Wallace e epidemiologistas associados à Saúde Única Estrutural (uma variante ecossocial mais crítica da agora dominante abordagem Saúde Única, adotada pela Organização Mundial da Saúde), a chave é entender como a nova onda de epidemias mortais está conectada não a “geografias absolutas”, mas aos circuitos de capital introduzidos pela globalização neoliberal. Isso inclui a destruição de ecossistemas e a aglomeração de vastas monoculturas de espécies únicas, particularmente em currais de engorda de animais. Tudo isso incentiva a propagação de doenças zoonóticas entre animais domesticados e humanos, transmitidas ao longo dos circuitos de capital, gerando o que foi chamado de “blowback ecológico”. A extensão das cadeias de commodities capitalistas e a demolição neoliberal dos sistemas de saúde pública aumentaram a velocidade com que as doenças se espalham globalmente, ao mesmo tempo que tornaram as populações — especialmente as pobres e racialmente oprimidas — mais vulneráveis.93

Conforme explicado por Wallace, “o capitalismo não se trata apenas de produzir rupturas metabólicas entre nossas economias e ecologias em direção ao lucro, destruindo nossa capacidade de reprodução como civilização. Trata-se também de produzir novas ecologias que reproduzem o capital alienando a teia da vida”.94 Uma visão semelhante é defendida pelo economista marxista e kaleckiano Riccardo Bellofiore, que afirmou vigorosamente: “A raiz subterrânea” da atual crise do coronavírus, em seus múltiplos aspectos econômicos, epidemiológicos e ecológicos, reside no “roubo e destruição sistemáticos do que é ‘outro’ para o capital… Tanto a natureza ‘externa’ quanto os seres humanos como parte da natureza, em sua interação dialética”, estão, agora, sujeitos a esse sistema de alienação universal. Isso levou, no momento presente, a “um exemplo particularmente dramático e explícito de perda do controle do metabolismo entre a natureza e a intervenção humana”.95

Hoje, a noção de que os seres humanos podem ser concebidos separadamente de seu ambiente como um todo tem se mostrado um dos erros mais fatais da longa história da humanidade. O retorno a uma perspectiva dialética da humanidade e da natureza — rastreável até os gregos antigos e as noções de Airs Waters Places, e preservada e aprimorada ao longo de milênios pelo trabalho de pensadores materialistas, socialistas e ecológicos — é um requisito existencial para viver ecologicamente no Antropoceno, em um mundo além do capital.

Notas

Friedrich Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico. Nova York: International Publishers, 1978, 45.
Autor hipocrático, Airs, Waters, and Places. Disponível em: classics.mit.edu. Ver também Hippocratic Writings. Londres: Penguin, 1950. No texto, acompanhamos Benjamin Farrington, referindo-se ao título Airs Waters Places. Ver Benjamin Farrington, Head and Hand in Ancient Greece. Londres: Watts and Co., 1947, 39.
Charles E. Rosenberg, “Epilogue: Airs, Waters, Places”, Bulletin of the History of Medicine, 86, 2012, 661; Nancy Krieger, Epidemiology and the People’s Heath. Oxford: Oxford University Press, 2011, vii-xi.
Farrington, Head and Hand in Ancient Greece, 35.
Karl Marx, O capital, v. 1. Londres: Penguin, 1976, 484–85.
Ramazzini citado em Farrington, Head and Hand in Ancient Greece, 38; J. S. Felton, “The Heritage of Bernardino Ramazzini”, Occupational Medicine, 47, n. 3,1997, 167–79. Para uma tradução recente, ver Bernardino Ramazzini, Diseases of Workers. Thunder Bay, Ontario: OH&S Press, 1993, 42.
Paul de Kruif, The Microbe Hunters. San Diego: Harvest, 1996.
Nancy Krieger apresentou o conceito específico “ecossocial” às ciências da saúde em 1994, como parte de sua “teoria ecossocial da distribuição da doença”, dando destaque ao termo. Krieger, Epidemiology and the People’s Health, 202–3, 213.
Abdel R. Omran, “The Epidemiologic Transition”, Milbank Quarterly, 49, n. 4, part 1, 1971, 509–38. A noção de uma transição epidemiológica, é claro, teve uma história mais longa, anterior à própria formulação do termo. Ver, por exemplo, H. G. Wells, Julian S. Huxley e G. P. Wells, The Science of Life. Nova York: Literary Guild, 1934, 1089–90.
John W. Sanders, Greg S. Fuhrer, Mark D. Jonson e Mark S. Riddle, “The Epidemiological Transition: The Current Status of Infectious Diseases in the Developed World versus the Developing World”, Science Progress, 9, n. 2, 2008, 1–38; M. H. Wahdan, “The Epidemiological Transition”, La Revue de Santé de la Méditerranée Orientale, 2, n. 1,1996, 8–20; Frank M. Snowden, “Emerging and Reemerging Diseases: A Historical Perspective”, Immunological Review, 225, n. 1, 2008, 9–26.
Richard Levins, “Is Capitalism a Disease?”, Monthly Review, 52, n. 4, set. 2000, 11. Também incluído como um capítulo em Biology Under the Influence, de Richard Lewontin e Richard Levins (Nova York: Monthly Review Press, 2007, 297–319).
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Sobre o conceito de ruptura corpórea, ver John Bellamy Foster e Brett Clark, The Robbery of Nature. Nova York: Monthly Review Press, 2020, 23–32.
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John Simon, English Sanitary Institutions. Londres: Smith, Elder, Co., 1897, 437–39, 443–45, 455–58, 480–81; Foster, The Return of Nature, 199–204, 208, 211–12, 573.
Marx, O capital, v. 1, 812–13, 834–35.
Henry Julian Hunter, apêndice 2 para “Report on the Housing of the Poorer Parts of the Population in Towns”, em Medical Officer of the Privy Council, Eighth Public Health Report, 1865. Londres: Her Majesty’s Government, 1866, 89. Marx e Engels, Collected Works, v. 35, 654; Marx, O capital, v. 1, 814–15. A edição da Penguin de O capital é deficiente aqui, já que uma parte crucial da frase de Hunter, relacionada ao capital, está faltando.
Marx, O capital, v. 1, 635–36, 818.
Marx, O capital, v. 1, 818–20.
Marx, O capital, v. 1, 846.
Marx, O capital, v 1, 723–24.
Marx, O capital, v. 1, 822.
Edward Smith, apêncide 6 para Medical Officer of the Privy Council, Sixth Public Health Report, 1863. Londres: Her Majesty’s Government, 1864, 238, 249, 261–62; Karl Marx, On the First International. Nova York: McGraw-Hill, 1973, 5–7; Marx, O capital, v. 1, 834–35; Foster e Clark, The Robbery of Nature, 107–8.
Henry Julian Hunter, apêndice 14 para “Report on the Excessive Mortality of Infants in Some Districts of England”, em Sixth Public Health Report, 1863, 453–59; Marx, O capital, v. 1, 520–22, 835–36; Foster e Clark, The Robbery of Nature, 84–85.
Uma década antes, Edwin Lankester, como oficial médico da paróquia de St. James, junto com o Dr. John Snow e o reverendo Henry Whitehead, descobriu que a origem da epidemia de cólera de 1854, em Londres, era a bomba d’água da Broad Street nas proximidades, demonstrando que a cólera era uma doença transmitida pela água — uma importante descoberta que levou à teoria dos germes da doença. Ver Foster, The Return of Nature, 29–31, 37.
Marx, O capital, v. 1, 364–67.
John Simon em Sixth Public Health Report, 1863, 29–31; Marx, O capital, v. 1, 594; Marx, O capital, v. 3, 190. Esta passagem de John Simon está cheia de citações erradas em todas as edições de O capital em inglês. Parece ter sido traduzido de volta do alemão para o inglês, em vez de usar o inglês original. Aqui citamos a partir do original.
Marx e Lankester eram amigos próximos nos últimos anos da vida do segundo. Marx estava interessado na obra Degeneration, de Lankester, que abordava o parasitismo. Ver E. Ray Lankester, Degeneration. Londres: Macmillan and Co., 1880. Lankester recebeu sua cópia de O capital diretamente de Marx. Ver Foster, The Return of Nature, 27, 35–40.
Para análise das realizações de Lankester, ver Foster, The Return of Nature, 24–72; Joseph Lester, Ray Lankester and the Making of Modern British Biology. Oxford: British Society for the History of Science, 1995.
Ray Lankester, “On Undulina, the Type of a New Group of Infusoria”, Quarterly Journal of Microscopical Science, 11, 1971, 387–89; Lester, E. Ray Lankester, 149; E. Ray Lankester, The Kingdom of Man. Nova York: Henry Holt and Co, 1911, 173–74.
Ray Lankester, “On Drepanidium Ranarum, the Cell-Parasite of the Frog’s Blood and Spleen”, Quarterly Journal of Microscopic Science XXII, 1882, 53–65; Lester, E. Ray Lankester, 147–48.
Ray Lankester, Science from an Easy Chair: Second Series. Londres: Methuen and Co., 2015, 353.
Ray Lankester, prefácio à Olga Metchnikoff, Life of Elie Metchnikoff, 1845–1916. Boston: Houghton Mifflin, 1921, vii-viii; E. Ray Lankester, The Advancement of Science. Londres: Macmillan and Co., 1890, 148, 150, 164–65.
Lankester, The Kingdom of Man, 161, 166–67; Daniel R. Headrick, “Sleeping Sickness Epidemics and Colonial Responses in East and Central Africa, 1900–1940”, PLOS Neglected Tropical Diseases, 8, n. 4, 2014; Maryinez Lyons, “Sleeping Sickness in the History of the Northeast Congo (Zaire)”, Canadian Journal of African Studies, 19, n. 3, 1985, 627–33; Gerasimos Langousis e Kent L. Hill, “Motility and More: The Flagellum of Trypanosoma brucei”, Nature Reviews Microbiology, 12, n. 7, 2014, 505–18.
Headrick, “Sleeping Sickness Epidemics”.
Lankester, The Kingdom of Man, 165–66, 175, 189; Lester, Ray Lankester, 148–50.
Lankester, The Kingdom of Man, 145, 165–71; Headrick, “Sleeping Sickness Epidemics”.
Lankester, The Kingdom of Man, 160–61.
Lankester, The Kingdom of Man, 32–33, 185–87.
Lankester, Science from an Easy Chair, 343–44.
Lankester, The Kingdom of Man, 31–33; Lester, Ray Lankester, 190.
Lankester, The Kingdom of Man, 189.
Lankester, The Kingdom of Man, 191.
Norman Bethune citado em The Scalpel, The Sword, por Sydney Gordon e Ted Allan (Nova York: Monthly Review Press, 1973, 250).
E. B. Du Bois, The Health and Physique of the Negro American. Atlanta: Atlanta University Press, 1906, 16. Ver Stephen Jay Gould, The Mismeasure of Man (Nova York: W. W. Norton & Company, 1996), para uma importante crítica dos diversos vieses, conscientes e inconscientes, que influenciaram Broca e outros. O paralelo entre as críticas de Du Bois e Gould é fascinante.
Du Bois, The Health and Physique of the Negro American, 24–25, 89.
Du Bois, The Health and Physique of the Negro American, 89–90; W. E. B. Du Bois, The Philadelphia Negro. Filadélfia: Ginn & Co., 1899, 147–63.
Du Bois, The Health and Physique of the Negro American, 89.
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Du Bois, The Health and Physique of the Negro American, 89.
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Sobre o golpe no Chile e a subsequente doutrina de choque neoliberal instituída sob a supervisão de Chicago, ver Naomi Klein, The Shock Doctrine. Nova York: Picador, 2008, 8, 70–80. Sobre os efeitos gerais do neoliberalismo na atenção à saúde, ver Howard Waitzkin (ed.), Health Care Under the Knife. Nova York: Monthly Review Press, 2018.
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1 de julho de 2020

Marx e a Escravidão

A ascensão à proeminência das análises do capitalismo racial representa um avanço na teoria marxista. Isso foi necessariamente acompanhado por uma crítica das análises marxistas anteriores, que muitas vezes ignoravam ou minimizavam a relação da escravidão com o capitalismo. Nos últimos anos, no entanto, essas críticas aos tratamentos marxistas ortodoxos da escravidão foram estendidas, de forma muito mais problemática, ao trabalho do próprio Karl Marx. Embora Marx nunca tenha escrito um tratado sobre a escravidão, a questão do trabalho escravo foi tecida em sua análise das formações sociais, tanto antigas quanto modernas, e estava inextricavelmente entrelaçada com seu tratamento do trabalho assalariado.

John Bellamy Foster, Hannah Holleman, e Brett Clark


July-August 2020 (Volume 72, Number 3)

Tradução / A ascensão à proeminência das análises do capitalismo racial, com base particularmente no livro Black Marxism (Marxismo Negro) de Cedric Robinson, junto ao trabalho de figuras anteriores como W. E. B. Du Bois e Oliver Cromwell Cox, representa um avanço na teoria marxiana.1 Isso foi acompanhado necessariamente por uma crítica das análises marxianas anteriores, que frequentemente ignoravam ou minimizavam a relação da escravidão com o capitalismo.2 No entanto, nos últimos anos, essas críticas ao tratamento dado pelos marxistas ortodoxos à escravidão foram estendidas, de forma muito mais problemática, à obra do próprio Karl Marx, o qual, às vezes, dizem ter sistematicamente contornado e minimizado a questão da importância do trabalho escravo para o desenvolvimento capitalista, vendo a questão da escravidão como amplamente confinada à era mercantilista da “assim chamada acumulação primitiva” e ao apogeu do tráfico transatlântico de escravos. A escravidão continuou a existir, sugere-se, mas Marx a retirou de sua análise do próprio capital.3

Assim, a historiadora Stephanie Smallwood, autora de Saltwater Slavery [Escravidão das águas marinhas], escreveu que “faz muito tempo que descartamos o mal-entendido de Marx sobre a escravidão” como se fosse um “erro” histórico, que o levou a “manter a escravidão do Novo Mundo separada do capitalismo”.4 Igualmente, Walter Johnson, historiador da escravidão nos Estados Unidos e autor do River of Dark Dreams [Rio dos sonhos escuros], afirma em seu influente artigo “The Pedestal and the Veil: Rethinking the Capitalism / Slavery Question” [O Pedestal e o véu: repensando o capitalismo e a escravidão] que Marx “simplesmente evitou” toda a “questão da escravidão” em sua crítica do capital, aderindo ao argumento de que a “exclusão fundamental da escravidão do enquadramento da economia política” que caracterízou o trabalho na economia liberal clássica.5

Ainda assim, Marx não é facilmente deixado de lado em qualquer tentativa séria de desenvolver uma análise do capitalismo racial. Assim, depois de argumentar que Marx excluiu amplamente a questão da escravidão em O Capital, Johnson indica que ainda “temos muito a aprender com o que Marx tinha a nos dizer sobre o trabalho dos capitalistas enquanto tentamos diagramar as interconexões históricas e as práticas diárias da economia global dos séculos XVIII e XIX”.6 Mas essa admissão de sua parte levanta a questão do quão revelador seria um olhar mais abrangentemente para a obra de Marx, levando em conta todo o seu método de análise histórico-materialista e a estrutura subjacente da sua crítica à economia política. Tal método envolve ir além de destacar algumas passagens selecionadas no primeiro volume de O Capital e colocá-las em um contexto muito mais amplo e profundo. Na verdade, argumentamos a seguir que Marx ainda tem muito a contribuir para a análise da escravidão, e especialmente do “capitalismo escravagista”.7

Vale a pena notar que o tratamento de Marx da escravidão ou dos sistemas de trabalho escravo é amplo e profundo, abrangendo, em detalhes variados, elementos como a escravidão grega e romana; a questão do modo de produção escravo; escravidão por dívida; a escravidão dos americanos nativos; escravidão infantil; escravidão doméstica; escravidão na Inglaterra sob Eduardo VI; escravidão nas Índias Orientais Holandesas; o comércio transatlântico de escravos; a ascensão da escravidão como um “segundo tipo de colonialismo”; tortura sob escravidão; a escravidão como base da Revolução Industrial; rebeliões de escravos; a Revolução Haitiana; o “Slave Power” (Poder Escravista) no Sul dos EUA; a decisão Dred Scott; a guerra na fronteira Kansas-Missouri em 1854–56; John Brown; Harriet Beecher Stowe; abolicionismo; a luta revolucionária de soldados negros libertados na Guerra Civil; e as complexas relações históricas entre trabalho escravo e trabalho assalariado. A análise de Marx do capitalismo escravocrata no Sul dos EUA antes da guerra examinou a capitalização da mais-valia antecipada gerada pelo trabalho escravo como a base de um sistema distinto de acumulação, incluindo seu papel no desenvolvimento da gestão capitalista. Ele explorou a destruição ecológica e o expansionismo embutidos na própria natureza da “instituição peculiar”.8

Em sua organização política dentro do movimento trabalhista britânico, Marx desempenhou um papel fundamental, como testemunhou Henry Adams, na mobilização dos trabalhadores para evitar que o país entrasse na Guerra Civil dos Estados Unidos ao lado dos Confederados.9 Sendo a figura principal na Associação Internacional de Trabalhadores, ele se correspondeu com os presidentes Abraham Lincoln e Andrew Johnson. Em seu papel como correspondente do New York Daily Tribune e mais tarde do Die Presse em Viena, ele apoiou o movimento abolicionista revolucionário nos Estados Unidos e no Norte em sua guerra com o Sul escravagista, escrevendo mais de quarenta artigos de jornal publicados sobre escravidão e a Guerra Civil dos Estados Unidos em 1861 e 1862 (junto a vários outros que por não terem sido publicados, não sobreviveram). Nenhum outro grande pensador de sua época escreveu de forma tão variada sobre a escravidão levando em consideração todo a sua obra, e talvez nenhum, exceto Frederick Douglass, comentou tão profundamente a escravidão nos EUA. Como Roger Ransom e Richard Sutch observaram na frase de abertura de seu artigo clássico “Capitalists Without Capital” [Capitalistas sem Capital], “Karl Marx reconheceu a natureza capitalista da escravidão americana muito antes dos historiadores americanos”.10

A pesquisa de Marx sobre a escravidão foi extensa, indo além da economia política geral e incluindo as explorações no capitalismo, colonialismo e escravidão por meio de obras como: An Inquiry into the Colonial Policy of the European Powers (1803) [Uma investigação sobre a política colonial das potências europeias], de Henry Brougham ; History of Java (1817) [História de Java], de Thomas Stamford Raffles; Traité de législation (1837) [Tratado sobre a legislação], de François-Charles-Louis Comte; Colonization and Christianity (1838) [Colonização e cristandade], de William Howitt; , The African Slave Trade and Its Remedy (1840) [O tráfico de escravos africanos e sua remediação], de Thomas Fowell Buxton; Letters on Colonization and Colonies (1841) [Cartas sobre a Colonização e as Colônias], de Herman Merivale; Notes on North America (1851) [Notas sobre a América do Norte], de J. F. W. Johnston; The Slave Trade, Domestic and Foreign (1853) [O comércio doméstico e extrangeiro de escravos], de Henry Carey; , A Journey in the Seaboard Slave States [Uma Jornada aos Estados Escravagistas nos Litorais], de Frederick Law Olmsted; With Remarks on the Economy [Com observações sobre a economia] (1856); e The Slave Power (1862) [O Poder Escravo], de J. E. Cairnes.11

Embora Marx nunca tenha escrito um tratado sobre a escravidão, a questão do trabalho escravo foi tecida em sua análise das formações sociais antigas e modernas, e estava inextricavelmente entrelaçada em sua abordagem sobre o trabalho assalariado. Os estudos de Marx da escravidão sob o capitalismo chegaram ao auge no final dos anos 1850 e início dos anos 60, quando ele estava simultaneamente considerando a escravidão, muitas vezes diariamente, engajando-se politicamente com a questão (inclusive ajudando a organizar reuniões da classe trabalhadora britânica em apoio ao Norte na Guerra Civil dos Estados Unidos), e escrevendo os manuscritos (The Economic Manuscript of 1861–1863 e The Economic Manuscript of 1864–1865) que seriam a base de O Capital. Marx começou a redação real do volume 1 de O Capital em janeiro/fevereiro de 1866, depois que o poder escravagista nos Estados Unidos já havia sido derrotado, uma vitória sobre a escravidão que é celebrada no prefácio dessa obra.12

O resultado foi a formação de uma compreensão única do capitalismo escravagista como uma variante do capitalismo e do colonialismo na obra de Marx. Na verdade, ele entendia o capitalismo escravagista como o produto de um segundo colonialismo, enraizado na economia baseada em plantations [grandes fazendas de cultivo]. Este segundo colonialismo, ele reconheceu, teve imensas implicações para o desenvolvimento capitalista. Em relação ao Sul antes da guerra, Marx escreveu, “onde prevalece a concepção capitalista, como nas plantações americanas”, a escravidão assume a forma da produção de “mais-valia… tomada como lucro” nas costas dos escravos.13

É claro que Marx estava ciente de que essas questões fundamentais não terminaram automaticamente quando o poder escravagista nos Estados Unidos fosse finalmente derrotado. Como Du Bois declarou no livro Black Reconstruction [Reconstrução Negra]: “Em setembro de 1865, outro discurso (desta vez para o povo americano como um todo) sobre a assinatura de Marx declarava corajosamente: ‘A injustiça contra uma fração de seu povo tendo sido seguida por tantas consequências terríveis, ponha um fim nisso. Declare seus concidadãos, de hoje em diante, livres e iguais, sem qualquer reserva. Se você recusar a eles os direitos dos cidadãos enquanto exige deles os deveres dos cidadãos, mais cedo ou mais tarde enfrentará uma nova luta que mais uma vez inundará seu país de sangue’.”14

O Pedestal e o Véu

Talvez a crítica mais incisiva à Marx sobre a escravidão nas últimas duas décadas seja “O Pedestal e o Véu” de Johnson, que aponta que na maioria dos relatos “a escravidão serve como um pano de fundo histórico não teorizado para a história do capitalismo, um passado não pensado (mesmo quando presente) para o inevitável surgimento do presente”.15 De acordo com Johnson, Marx foi particularmente responsável por direcionar a crítica da escravidão na direção errada a esse respeito. Em seu tratamento da escravidão em seu capítulo sobre “A Gênese do Capitalista Industrial” no primeiro volume de O Capital, Marx declarou: “Na verdade, a escravidão velada dos trabalhadores assalariados na Europa precisava da escravidão irrestrita do Novo Mundo como seu pedestal.” A maioria dos leitores da passagem de O Pedestal e o Véu, como Johnson indica, sem dúvida teriam visto isso como uma declaração da importância histórica da escravidão para o desenvolvimento do capitalismo. Virando isso de cabeça para baixo, no entanto, Johnson insiste que o significado real da metáfora de Marx era estrutural e espacial: que a escravidão nua e irrestrita em sua análise foi significativa apenas na medida em que apontou para a “escravidão velada” do trabalho assalariado, que então atingiu grande importância.16

A noção de que Marx poderia ter criado uma metáfora dialética destinada a destacar o significado histórico da escravidão direta como um elemento crucial no desenvolvimento capitalista, ao mesmo tempo que apontava, após o término da Guerra Civil dos Estados Unidos, a continuação da escravidão indireta do trabalho assalariado, simplesmente não é considerado no relato de Johnson. No entanto, o foco real de Marx na escravidão em si é bastante claro quando a passagem é lida no contexto. Assim, Marx anotou a declaração de O Pedestal e o Véu com uma citação de An Inquiry into the Colonial Policy of the European Powers (Uma Investigação da Política Colonial das Potências Européias), de Brougham, indicando que “em 1790 havia nas Índias Ocidentais inglesas dez escravos para um homem livre, nas francesas, quatorze para um, e nas holandesas, vinte e três para um”.17 Na mesma página, Marx indicou que a dependência direta da Revolução Industrial britânica da escravidão do Novo Mundo podia ser vista no crescimento do número de navios negreiros:“ Em 1730, Liverpool empregou 15 navios no comércio de escravos; em 1751, 53; em 1760, 74; em 1770, 96; e em 1792, 132”. Nas dezenas de páginas anteriores a esta no mesmo capítulo, ele se referiu à “extirpação, escravidão e sepultamento em minas da população indígena” das Américas, “a conversão da África em uma reserva para a caça comercial de peles negras”, escravidão nas Índias Orientais Holandesas e nas Índias Ocidentais, e a comercialização da escravidão nos Estados Unidos.18

Dada a profundidade com que ele abordou a questão do comércio de escravos aqui, bem como em outras partes de sua análise, dificilmente se poderia dizer que Marx se referia à escravidão, como Johnson afirma, simplesmente para obter “efeito retórico” em uma crítica do trabalho assalariado.19 Uma afirmação que literal e figurativamente enfatizou como o capitalismo do trabalho assalariado se apoiava no capitalismo do trabalho escravo é invertida, na interpretação de Johnson, em sua cabeça coberta pelo véu. É como se o próprio pedestal fosse feito para representar, aos olhos de Marx, um mero pedestal e não as relações materiais. “O Pedestal e o Véu” de Johnson foi posteriormente citado por outros estudiosos na análise do capitalismo racial como evidência de que Marx rebaixou a realidade da escravidão do Novo Mundo.20

Dada a importância dessas questões, vale a pena considerar as origens clássicas da metáfora do pedestal e do véu. Marx, que foi um importante estudioso do pensamento grego e romano antigo, conhecia a obra de Plutarco de trás para a frente, incluindo Moralia, à qual ele se referiu em sua dissertação. Ele estava, portanto, bem familiarizado com a descrição de Plutarco da estátua de Ísis, deusa da natureza, que o antigo filósofo grego viu em Sais, Egito, com a famosa inscrição enigmática em seu pedestal: “Eu sou tudo o que foi, e é, e assim será, e meu manto [frequentemente traduzido como véu] nenhum mortal já descobriu”.21 No Iluminismo, tornou-se costume representar uma estátua de uma Ísis velada em um pedestal, com a representação do véu constituindo um símbolo da própria iluminação e a descoberta da natureza material. G. W. F. Hegel começou sua Filosofia da Natureza referindo-se ao escrito no pedestal da Ísis velada, argumentando contra a noção dos númenos inescrutáveis ​​de que o véu poderia ser rasgado para descobrir a realidade sensorial e o verdadeiro significado da natureza necessários para o desenvolvimento da ideia absoluta.22

Ao referir-se à metáfora do pedestal e do véu, Marx estava, portanto, transformando uma metáfora conhecida por todas as pessoas educadas de seu tempo, usando-a para reafirmar a crítica materialista e enfatizar que toda “civilização” (ou a sociedade de classes), incluindo sua forma mais recente sob o capitalismo, foi construída sobre a escravidão. O trabalho assalariado sob o capitalismo, ou “escravidão velada”, simbolizada pela deusa africana Ísis, surgiu materialmente e dependia, para seus fundamentos materiais, da escravidão nua e crua formada pelo comércio transatlântico de escravos. Nada disso minimizou os horrores da escravidão ou sua importância histórica no desenvolvimento do capitalismo. Mais do que simplesmente um “efeito retórico” ou uma tentativa de diminuir o significado da escravidão propriamente dita, relegando-a a um pedestal, Marx estava enfatizando que a escravidão constituía a forma material sobre a qual o próprio proletariado industrial havia emergido, e que o legado da escravidão persistiria por uma longa era de reconstrução e luta de classes. Ela era, portanto, fundamental para a crítica do capital, que era tanto sobre o chicote quanto sobre os salários, tanto sobre as plantations quanto sobre a fábrica.23

A análise de Marx da escravidão evoluiu em estágios definidos da década de 1840 a 1860, passando de uma consideração na década de 1840 da dependência que o capitalismo tinha da escravidão, para uma noção de capitalismo escravagista na década de 1850 e para uma economia política da escravidão madura na década de 1860, nos anos da Guerra Civil dos Estados Unidos. No entanto, sua ênfase no que ele concebeu como o segundo colonialismo associado à economia dos plantations, que ele destacou ser parte integrante do desenvolvimento histórico do capitalismo, é contínua ao longo de sua análise. Como ele escreveu já em 1847 no Miséria da Filosofia: “A escravidão direta é tanto o pivô da indústria burguesa quanto a maquinaria, o sistema de crédito etc. Sem escravidão não há algodão; sem algodão você não tem indústria moderna. Foi a escravidão que deu às colônias seu valor; foram as colônias que criaram o comércio mundial, e é o comércio mundial que é a condição prévia para a indústria em grande escala. Assim, a escravidão é uma categoria econômica de maior importância”.24

Central para o tratamento de Marx da escravidão moderna era o reconhecimento da natureza absolutamente horripilante do capitalismo escravagista, que o tornava pior do que todas as outras formas de escravidão conhecidas na história. O “chicote” e a “permuta de carne humana” eram partes especialmente integrantes da exploração capitalista do Novo Mundo. 25 Marx explicou que a história da civilização assumiu suas formas mais “assustadoras” onde a escravidão foi combinada com o comercialismo (por exemplo, nas minas antigas de metais preciosos descritas por Diodorus Siculus).26 Esse era particularmente o caso onde o trabalho escravo estava inserido em “uma situação de produção capitalista; assim, por exemplo, os estados do sul da União Americana”.27

Uma preocupação crucial eram as altas taxas de mortalidade do trabalho escravo no sistema capitalista de plantations. Para Marx, a escravidão por sua própria natureza assumia a forma de violência contínua e o medo perpétuo da tortura e da morte prematura. Os escravos eram tanto os bens do capital quanto sua força trabalho. As regras de maximização do lucro na economia escravagista, quando havia um comércio de escravos ativo capaz de uma substituição muito rápida de bens móveis humanos, levaram à aplicação frequente de uma regra de sete anos, vista pelos fazendeiros como a vida média de seus escravos, em que seus cálculos de valor foram baseados. Os escravos eram tão sobrecarregados de trabalho na Jamaica e em outras colônias britânicas que suas vidas geralmente eram consumidas em sete anos. Para o capitalista escravagista, importava relativamente pouco se a rotatividade dos escravos, por causa do esgotamento prematuro de suas vidas de trabalho e de sua própria existência, ocorresse, contanto que eles fossem facilmente substituíveis. Além disso, na produção escravagista, era possível trabalhar os escravos com mais intensidade, com mais exploração, do que no caso do trabalho assalariado.28

Como Marx exclamou: “Se o excesso de trabalho se estender por um longo período, o trabalhador talvez preserve a si mesmo e, portanto, sua capacidade de trabalho por apenas 7 anos, em vez dos 20 ou 30 anos pelos quais ele poderia tê-la preservado.” No caso do trabalho escravo, tais condições prevaleciam, ao contrário até mesmo das formas mais extremas de trabalho livre remunerado. “Os escravos nos estados do sul da América do Norte tiveram que se esforçar para separar o algodão de sua semente, depois de terem trabalhado nos campos por 12 horas, [o que] reduziu sua expectativa de vida média para 7 anos”.29 Ele citou um artigo do Daily Telegraph de 1860, o qual condenava os plantadores dos estados da Virgínia e da Carolina, em que se perguntava: “o que se pode pensar de uma cidade que realiza uma audiência pública para requerer que o período de trabalho dos homens [escravos] seja reduzido para 18 horas por dia?”.30

Em uma condenação semelhante ao desprezo pelas vidas humanas, Marx observou que o envio dos chamados “coolies” chineses para as ilhas Chincha, na costa do Peru, para cavar guano na década de 1850, era uma condição ainda “pior do que a escravidão”. Enquanto seus contratos geralmente especificavam oito anos de trabalho, 100% dos garimpeiros não conseguiram viver até o fim de seus contratos. Como noticiou o jornal londrino Times em 1882: “Os horrores aos quais os coolies chineses foram expostos foram piores do que os piores excessos da escravidão americana. Em 1860, acreditava-se que nenhum dos… quatro mil coolies chineses que haviam sido embarcados para aquelas ilhas desde o início do comércio, em 1844, havia sobrevivido, todos aqueles que não morreram de exaustão se submetido voluntariamente à morte”.31

Tais condições de excesso de trabalho e a expectativa de vida drasticamente reduzida prevaleciam nas Índias Ocidentais antes da eliminação do comércio de escravos e, posteriormente, nas plantations escravagistas do Sul dos Estados Unidos, quando incorporadas de forma importante à economia capitalista mundial com o desenvolvimento da indústria do algodão e a Revolução Industrial na Grã-Bretanha.32 Como disse Marx, referindo-se tanto ao Sul dos Estados Unidos quanto às Índias Ocidentais,

Considerações de economia… uma vez que se pratica o comércio de escravos, tornam-se motivos para torturar ao máximo o trabalho do escravo; pois, quando seu lugar pode ser suprido imediatamente com reservas estrangeiras, a duração de sua vida torna-se uma questão de menos importância do que a sua produtividade enquanto esta durar. É, portanto, uma máxima da gestão de escravos, em países importadores de escravos [como os Estados Unidos antes da guerra — legalmente antes de 1808, ilegalmente depois], que a economia mais eficaz é aquela que tira dos meios humanos, no mais curto espaço de tempo, o máximo esforço de que este é capaz. É na cultura tropical, onde os lucros anuais geralmente equivalem a todo o capital das plantations, que a vida do negro é sacrificada da maneira mais negligente. Foi a agricultura das Índias Ocidentais, que durante séculos foi prolífica de fabulosas riquezas, que engolfou milhões da raça africana. É em Cuba, hoje, cujas receitas são calculadas em milhões, e cujos fazendeiros são príncipes, que vemos na classe servil a comida mais grosseira, a labuta mais exaustiva e incessante, e mesmo a destruição absoluta de uma parte de seus números todos os anos.33

Nesse sentido, a escravidão sob o capitalismo era muito mais brutal, na visão de Marx, do que qualquer coisa já vista na história humana. Como “a exportação de algodão tornou-se de interesse vital para aqueles estados [do sul dos Estados Unidos], o excesso de trabalho do negro, e às vezes o consumo dessa vida em sete anos de trabalho, tornou-se um fator em um sistema calculado e calculista. Já não se tratava de obter dele uma certa quantidade de produtos úteis [como nas formas anteriores e mais patriarcais de escravidão], mas antes da produção da própria mais-valia”.34

Marx estudou O Comércio de Escravos, Doméstico e Internacional (The Slave Trade, Domestic and Foreign), de Henry Charles Carey, que, depois de fornecer estatísticas detalhadas sobre a importação de escravos nas várias colônias britânicas das Índias Ocidentais, e suas taxas de natalidade e mortalidade, declarou que “…nos vemos forçados a concluir que a escravidão aqui foi acompanhada por uma destruição da vida quase sem paralelo na história de qualquer nação civilizada”.35 Como Marx observou, a taxa de mortalidade de escravos nas Índias Ocidentais era tão alta que a população escravizada realmente diminuiu em muitas áreas, apesar da importação em massa de escravos, dos quais “dois terços do número importado anualmente pereceram.”36

Essa “destruição absoluta” dos escravos, como disse Marx, não foi apenas uma consequência da escravidão, nas Índias Ocidentais e em partes da América Latina, mas foi acompanhada pelas mais desumanas torturas em cima do “chicote dos negociantes”. Assim, ele se referiu ao uso do “spanso bocko — uma das formas mais cruéis de punição… usada pelos colonos no Suriname”, conforme retratado por John Gabriel Stedmanna em Narrativa de uma expedição de cinco anos contra os negros revoltados do Suriname (Narrative of a Five Years’ Expedition Against the Revolted Negroes of Surinam) e relatado por Comte em seu Tratado da Legislação(Traité de législation).37 Nas palavras de Marx, um escravo era “amarrado na tortura spanso bocko do Suriname, incapaz de mover as mãos ou os pés, ou qualquer outro de seus membros, tendo que suportar tudo o que a ele é feito.” Aqui ele citou Comte sobre a ousadia dos escravos sob tal tortura, apontando como eles “zombam de seus torturadores” e “zombam da impotência destes até mesmo para forçá-los a se humilhar, e suprimem todo ‘gemido’ e todo suspiro, contanto que a dor física os permitisse”. 38 Em várias partes de sua obra, Marx aludiu às revoltas e revoluções de escravos no Suriname, Haiti e Estados Unidos, e à existência de fugitivos que se uniram, determinados a resistir aos “horrores bárbaros da escravidão”.39 Marx também observou as revoltas pós-escravidão e a brutalidade colonial na Jamaica.40 Comentando a discussão de Howitt das barbáries do colonialismo e os relatos de Comte da tortura sob a escravidão nas Índias Ocidentais, Marx observou em O capital: “Isso precisa ser estudado em detalhes, para ver o que o burguês faz de si mesmo e do mundo quando ele pode modelar o mundo de acordo com sua própria imagem sem interreferência” como sob o colonialismo e a escravidão.41

Foi o rápido “consumo” dos escravos — como era referido pelos economistas políticos da época — que, na visão de Marx, tornou necessária a perpetuação do comércio mundial de escravos pelo maior tempo possível, se o sistema escravagista capitalista persistisse. Através de sua leitura do O Escravo Africano e Seu Remédio (The African Slave and Its Remedy), de Thomas Fowell Buxton, e de O Poder do Escravo (The Slave Power), de Jonh Cairnes, Marx estava bem ciente de que o comércio transatlântico de escravos continuou ilegalmente, mesmo com a abolição britânica do comércio de escravos em 1807 e a proibição do comércio pelos Estados Unidos em 1808. Ele citou a fala Stephen Douglas em 1859: “Durante o ano passado, mais negros foram importados da África do que em qualquer ano anterior, mesmo na época em que o comércio de escravos ainda era legal”.42 Além disso, nos Estados Unidos, enfatizou Marx, outra solução também havia surgido: a reprodução ativa de escravos nos estados fronteiriços como Virgínia e Kentucky, proporcionando trabalho escravo para o restante do sul. Como resultado, em meados da década de 1860, a expropriação absoluta de seres humanos por meio da escravidão permanecia o pedestal do sistema, a base sobre a qual surgiu a exploração velada do trabalho assalariado.

A economia política do capitalismo escravagista

Foi somente no final da década de 1850 no Grundrisse e na década de 1860 em seu Manuscrito Econômico de 1861–1863 e em O capital que Marx, como resultado de seus estudos de economia política, foi capaz de desenvolver uma crítica completa da exploração do trabalho escravo sob capitalismo moderno. Foi nesse período que ele solidificou sua visão do capitalismo escravagista como uma forma particular de capitalismo, resultante de um “segundo tipo” de colonialismo. Para Marx, e para economistas políticos clássicos em geral, o colonialismo propriamente dito, na medida em que se referia ao trabalho, era geralmente associado à ocupação violenta de terras por trabalhadores livres e proprietários camponeses engajados principalmente na produção local de subsistência.43 Mas um segundo colonialismo, que não deve ser confundido com o colonialismo propriamente dito, também emergiu, igualmente banhado em sangue, na forma da economia escravagista. Como ele colocou em Teorias da Mais-valia [Theories of Surplus Value]:

No segundo tipo de colônias — plantations — onde as especulações comerciais aparecem desde o início e a produção é destinada ao mercado mundial, o modo de produção capitalista existe, embora apenas em um sentido formal, visto que a escravidão dos Negros impede o trabalho assalariado livre, que é a base da produção capitalista [como um todo]. Mas o negócio no qual os escravos são usados é conduzido por capitalistas. O método de produção que eles introduzem não surgiu da escravidão, mas foi enxertado nela. Nesse caso, a mesma pessoa é capitalista e proprietária de terras.44

Marx especificou que a A escravidão das plantations do Novo Mundo era capitalista na forma e executada por capitalistas ligados à economia mundial, mas não era a forma primária de capitalismo, que se baseava necessariamente na expropriação do trabalho assalariado, sobre a qual toda a estrutura de valor do capitalismo foi erguido. “A escravidão”, escreveu ele em Grundrisse, “é possível em pontos individuais dentro do sistema burguês de produção… apenas porque não existe em outros pontos; e aparece como uma anomalia oposta ao próprio sistema burguês… O fato de que agora não apenas chamamos os proprietários das plantations na América de capitalistas, mas eles são capitalistas, baseia-se em sua existência como anomalias dentro de um mercado mundial baseado no trabalho livre.”45

A posição de Marx a esse respeito era semelhante à fornecida por Orlando Patterson, que explicou: “O capitalismo, que é exclusivamente um produto do mundo moderno, tem duas variantes principais: a ‘variante livre’ caracterizada pela venda da mão-de-obra do trabalhador no mercado de trabalho; e a variante escrava encontrada nas Américas até as últimas décadas do século XIX, nas… Índias Orientais Holandesas entre o final do século XVII e meados do século XIX e nas colônias de escravos do Oceano Índico nos séculos XVIII e XIX”. O capitalismo baseado no trabalho assalariado, afirmou Patterson, era “reconhecidamente a mais avançada” dessas duas formas.46 Na verdade, na visão de Marx, a variante escravagista do capitalismo existia apenas na medida em que era parte integrante de um sistema capitalista mundial mais amplo, enraizado no trabalho assalariado. No entanto, como Patterson indicou, de acordo com Marx, “o capitalista é frequentemente (embora nem sempre) capaz de extrair um nível mais alto de mais-valia do escravo, forçando-o a produzir mais do que se fosse livre e reduzindo seu custo de reprodução’’.47

Para compreender a natureza da crítica de Marx aqui é necessário reconhecer que a lei do valor do capitalismo subjacente à economia política clássica era dependente de uma concepção de troca entre iguais e trabalho formalmente livre, e não poderia ter a escravidão como base. A análise brilhante de Aristóteles do valor proporcional subjacente à mercadoria em sua obra Ética a Nicômaco [Nicomachean Ethics] ficou aquém, argumentou Marx, porque, vivendo em uma sociedade “fundada sobre o trabalho de escravos”, ele era incapaz de compreender a base do valor de mercadoria no trabalho, que dependia de uma concepção de “trabalho humano igual e, portanto… trabalho de qualidade igual”.48 É somente com o capitalismo que o conceito de trabalho abstrato baseado em uma noção de igualdade de trabalho vem à tona. Este não é um assunto menor, porque toda a economia política burguesa, juntamente com toda a lógica da valorização capitalista, exigia o trabalho assalariado como sua base.49

Por essa razão, embora o capitalismo escravagista existisse claramente e tivesse uma importância histórica definida, na visão de Marx, ele não poderia constituir as leis do movimento do capital como um todo, mas apenas poderia se desenvolver e prosperar plenamente em termos capitalistas em um contexto em que o trabalho assalariado era a forma predominante. A expropriação de seres humanos associada à escravidão estava, portanto, ligada ao trabalho assalariado capitalista na forma de uma “luta de irmãos inimigos”.50 No caso do capitalismo escravagista, não havia pretensão de troca entre iguais. Em vez disso, baseava-se no poder absoluto ou, como Sven Beckert o chama, “capitalismo de guerra”.51

Na época de Marx, o capitalismo escravocrata representava um conflito no coração bárbaro do próprio sistema capitalista. Em janeiro de 1860, Marx escreveu a Friedrich Engels: “Na minha opinião, a coisa mais importante que está acontecendo no mundo hoje é o movimento de escravos — por um lado, na América, iniciado pela morte de [John] Brown, e na Rússia , por outro [com relação aos servos]… Acabei de ver no [New York] Tribune que houve outra revolta de escravos no Missouri, nem é preciso dizer que foi reprimida. Mas agora o sinal foi dado.”52 Marx, portanto, se engajou em um estudo intensivo da economia política da questão dos escravos no contexto de escrever artigos para o New York Tribune e mais tarde para o Die Presse, bem como em seus cadernos econômicos, que seriam a base de O Capital. Aqui, Marx se baseou em um grande número de obras, mas o tratado mais importante dos que ele utilizou para sua análise do sistema de acumulação no Sul escravagista dos Estados Unidos foi O Poder do Escravo (The Slave Power), de J.E. Cairnes, apresentado como uma série de palestras em 1861 e publicado como um livro em 1862.

A chave para toda a compreensão de Marx da acumulação baseada na escravização no sul dos Estados Unidos foi sua noção de que, sob o capitalismo escravagista em sua forma mais desenvolvida nas “plantations americanas”, toda a “mais-valia” produzida pelos escravos “é concebida como lucro… [Como] o preço que é pago pelo escravo não é mais do que a mais-valia ou o lucro antecipado e capitalizado que deve ser extraído dele” ao longo de sua vida como trabalhador.53 Diferente do“ trabalhador assalariado ”que não tem “nenhum valor” (em oposição ao valor da força de trabalho do trabalhador), o “escravo… tem valor de troca, um valor” e representa um fluxo futuro de valor, “um pedaço de capital.”54 A economia disso significava que o trabalho da força de trabalho escrava era regulamentado, como nas máquinas, em termos de consumo de capital, seu “desgaste”, sua disponibilidade e o custo de substituições. No entanto, o escravo, cujo preço inicial era baseado em uma vida de trabalho de vinte anos, era muitas vezes “sobrecarregado”, isto é, consumido como instrumento de trabalho em sete anos, ao invés de vinte, a fim de maximizar a mais-valia do trabalho escravo no menor tempo. Também era comum nesse sistema, enfatizou Marx, que proprietários de escravos pedissem dinheiro emprestado por seus escravos como bens de capital, portanto, títulos para obter e alugá-los a outros capitalistas.55 “O que Marx… entendeu”, como Ransom e Sutch apontaram,

era que a posse de escravos existia para dar lucro ao proprietário. Todo o produto do trabalho do escravo e sua família, acima de qualquer provisão para alimentos e outras necessidades que o proprietário se preocupasse em fazer, era expropriado. Essa sobra era o lucro do proprietário, e a expectativa de um fluxo contínuo de tais retornos fazia da propriedade escrava um bem lucrativo. O preço pago por um escravo refletia o consenso do comprador e do vendedor sobre o valor potencial do fluxo contínuo de lucros que poderia ser extraído do escravo e, no caso de uma mulher, de seus descendentes também.56

A análise de Marx, portanto, o levou a diferir de outros economistas políticos e críticos da escravidão em sua época, como Adam Smith, que argumentou que o trabalho escravo era antieconômico e incapaz de competir com o trabalho assalariado.57 Em contraste, Marx apontou para o vasto trabalho excedente expropriado de escravos, e o fato de que os próprios escravos eram uma forma de bem capital, formando a base do capital fictício ou especulativo.58 Portanto, parecia haver pouca dúvida, em sua estimativa, de que a economia de plantation do Sul pré-guerra era, tanto quanto as preocupações econômicas eram consideradas, enormemente lucrativa, incluindo o mercado para a reprodução de escravos. Como Engels indicou em Anti-Dühring, a razão pela qual somente a força poderia remover a escravidão dos estados de reproduçãoo e consumo de escravos do Sul era que a produção com base nisso era paga e, portanto, não morreria por conta própria por motivos econômicos.59

Para ser lucrativa em uma base capitalista, a produção escrava exigia uma forma de produção adequada ao trabalho escravo.60 Marx explicou que o elemento essencial do trabalho escravo era que se baseava na força e exigia uma compulsão externa contínua, exigindo o chicote do supervisor. A escravidão foi caracterizada antes de tudo para Marx pelo que ele chamou de “uma relação de dominação”. Como Patterson comentou a esse respeito, “Marx não apenas mostra claramente que entende que a escravidão, em um nível institucional, é antes de tudo uma ‘relação de dominação’, mas identifica o elemento de força direta que a distingue”.61 Por se tratar de trabalho diretamente forçado, indicou Marx, os escravos estavam engajados em uma resistência constante, se não ativa. Suas condições de trabalho careciam de consentimento; mais ainda sob a produção capitalista, onde foram forçados a trabalhar intensamente e por horas desmedidas, ameaçando sua própria existência corpórea. “O trabalho forçado”, escreveu Marx, “nunca pode criar uma laboriosidade geral.”62 A resistência dos escravos evidente em todas as suas ações, às vezes estendendo-se às revoltas de escravos, e o medo que isso gerava em seus senhores, foram as principais razões para ser proibido educar escravos, especialmente no Sul, o que significava que eles permaneceram quase que inteiramente sendo mão de obra não qualificada.

Essas condições combinadas limitaram as formas em que os escravos poderiam ser empregados com lucro, em comparação com o trabalho assalariado. O trabalho assalariado, argumentou Marx, se distinguia do trabalho escravo pela sua flexibilidade e versatilidade. O trabalho escravo, ao contrário, porque a força contínua era necessária, só podia ser efetivamente empregado em certas formas de produção.63 O limite-chave aqui, como Marx argumentou, seguindo Cairnes, tinha a ver com os custos da superintendência. “Quanto maior esse antagonismo [de classe]” e quanto maior o grau em que o trabalho precise ser forçado, escreveu Marx, “maior é o papel que este trabalho de supervisão desempenha. Ele atinge seu ápice no sistema escravista sob o capitalismo. Na verdade, “o feitor com seu chicote era necessário para a produção… com base na escravidão”.64 O trabalho escravo não era econômico se dispersado de alguma forma, devido ao nível de resistência escrava, uma vez que seria removido da coerção direta e do chicote do feitor. Não obstante, o trabalho escravo era especialmente adequado para a produção centralizada em grande escala em grupos nas plantations de monocultura, onde os custos do trabalho da superintendência podiam ser mantidos baixos e onde apenas o trabalho forçado poderia ser empregado nessa escala e com tal intensidade física.

Marx, portanto, considerou a supervisão do trabalho nas plantation sob o capitalismo escravagista como a representação de uma forma mais desenvolvida de gestão capitalista, antecipando práticas que surgiriam dentro da indústria de grande escala. Consequentemente, ele marcou as passagens em sua cópia de O Poder do Escravo (Slave Power) de Cairnes que abordavam esse assunto e frequentemente se referia a elas. Como escreveu Cairnes, “as vantagens econômicas da escravidão estão facilmente colocadas: estão todas compreendidas no fato de que o empregador de escravos tem poder absoluto sobre seus trabalhadores e desfruta da disposição de todos os frutos de seu trabalho. O trabalho escravo, portanto, admite a mais completa organização, ou seja, pode ser combinado em larga escala e dirigido por uma mente controladora para um único fim, e seu custo nunca ultrapassa o necessário para manter o escravo com saúde e força.” Na agricultura, o sistema escravagista organizado com base na agricultura de plantation capitalista era economicamente superior à propriedade camponesa voltada principalmente para a produção de subsistência: “A propriedade camponesa… não admite combinação e classificação do trabalho no mesmo grau da escravidão”, embora superior em relação à indústria individual.65 De muitas maneiras, como Cairnes e Marx reconheceram, a escravidão nas plantations era, portanto, altamente competitiva com outras formas de produção sob o capitalismo, na medida em que assumia a forma de produção combinada em grande escala nas plantations, incluindo a extrema intensidade que poderia ser imposta ao trabalho escravo nessas circunstâncias.

Se para Marx havia pouca dúvida de que a acumulação baseada em escravos no capitalismo de plantation era economicamente eficaz, ela permanecia claramente uma forma de indústria de trabalho intensivo, e era menos propícia à industrialização, porque o capital era investido em escravos e não em capital físico, enquanto a produção escrava não era propícia para o trabalho fabril. Ela também teve o efeito, como em todas as sociedades escravagistas, de difamar o trabalho manual. A economia escravagista nos Estados Unidos por volta de 1860 consistia, como Cairnes e Marx indicaram, em trezentos mil proprietários de escravos, quatro milhões de escravos e outros cinco milhões de trabalhadores brancos livres, a maioria engajados na produção de subsistência. O crescimento industrial no Sul foi muito menor do que no Norte, como pode ser visto na ascensão do capital ferroviário principalmente neste último.66

Mais importante para minar a escravidão do Sul, entretanto, foi a rápida degradação ecológica que sua agricultura baseada na plantation de monocultura representou. Na obra de pensadores como Merivale, Cairnes, Olmsted, Carey, Johnston e o próprio Marx, uma crítica importante da economia política da escravidão no Sul era ecológica: o sistema escravagista de plantation rapidamente exauriu o solo, como consequência da ruptura metabólica no ciclo de nutrientes do solo, exigindo novas terras para manter a produção e os lucros.67 Isso levou a um movimento violento rumo ao oeste e (e ao sul) impulsionado principalmente pela necessidade do poder escravista de expandir o capitalismo escravocrata, abrangendo a Trilha das Lágrimas, três Guerras Seminoles, a tomada do Texas e a Guerra Mexicano-americana.68

O principal pensador a apresentar essa análise ecológica foi o químico agrícola Johnston, membro da Royal Society. Johnston, em suas Notas sobre a América do Norte [Notes on North America], que Marx estudou profundamente, enfatizou que o estado da Virgínia havia exaurido seu solo com a agricultura de plantation escravista e se tornado dependente da criação de escravos para os estados consumidores de escravos do sul. A tendência geral no Sul (diferentemente do Norte) era [as plantations irem] de solos mais férteis que haviam sido exauridos para solos mais pobres para o oeste, criando uma necessidade quase desesperada de novos solos e uma tentativa de obter novas terras para a escravidão no extremo oeste da Califórnia.69 Cairnes apontou para o caráter destrutivo da monocultura praticada nas plantations escravagistas, onde não havia, portanto, “rotação de culturas”:

O solo era empregado repetidamente para gerar o mesmo produto, e o resultado inevitável era o seguinte: depois de uma curta série de anos, sua fertilidade é completamente exaurida, o fazendeiro abandona o terreno que tornou inútil e passa a buscar em novos solos aquela fertilidade sob a qual os agentes à sua disposição podem ser lucrativamente empregados... Mesmo no Texas, antes ainda dos dez anos sob o domínio deste sistema [escravagista] devastador, o Sr. Olmsted nos diz que o espetáculo, tão familiar e tão melancólico em todos os estados escravagistas mais antigos, já era visto com frequência por um viajante — ”uma plantation abandonada de campos ‘desgastados’, com sua pequena vila de moradias, agora um lar apenas para lobos e abutres.”

O cultivo pelo trabalho escravo, portanto, ao impedir as condições de rotação de culturas ou um manejo mais habilidoso [do solo], inevitavelmente tende a exaurir a terra de um país e, consequentemente, requer para seu sucesso permanente, não apenas um solo fértil, mas sua extensão praticamente ilimitada.70

Para o próprio Marx, que vinha desenvolvendo sua teoria da ruptura metabólica nessa época junto à sua crítica da escravidão, não havia absolutamente nenhuma dúvida sobre a falha material que gerou a crise da escravidão nos Estados Unidos, levando à Guerra Civil. Como ele escreveu em “The North American Civil War” [A Guerra Civil Norte Americana] em outubro de 1861:

“O cultivo dos artigos de exportação pelo Sul, como algodão, tabaco, açúcar, etc., realizado por escravos, só é lucrativo enquanto for conduzido com grandes grupos de escravos, em escala massiva e em grandes extensões de solo naturalmente fértil, que requerem apenas trabalho simples. O cultivo intensivo, que depende menos da fertilidade do solo do que do investimento de capital, inteligência e energia do trabalho, é contrário à natureza da escravidão. Daí a rápida transformação de estados como Maryland e Virgínia, que anteriormente empregavam escravos na produção de artigos de exportação, em estados que criam escravos para exportar esses mesmos escravos para o sul profundo. Até mesmo na Carolina do Sul, onde os escravos constituem quatro sétimos da população, o cultivo do algodão tem estado quase totalmente estacionário durante anos devido ao esgotamento do solo. De fato, pela força das circunstâncias, a Carolina do Sul já foi parcialmente transformada em um estado de criação de escravos, uma vez que já vende em escravos um montante de quatro milhões de dólares anuais para os estados do extremo Sul e Sudoeste. Tão logo este ponto seja alcançado, a aquisição de novos territórios torna-se necessária, para que uma parte dos senhores de escravos ocupe novas terras férteis e um novo mercado de criação de escravos, e consequentemente de venda desses escravos, possa ser criado para a outra parte dos senhores.”71

A realidade era que “um confinamento estrito da escravidão a seu antigo terreno… estava fadado, confome às leis econômicas, a levar à sua extinção gradual”, seja por exaustão de terras, diminuição do poder no governo dos EUA, instabilidade entre a própria população “pobre e branca” e não menos por todas as revoltas dos escravos.72 Como Johnson escreveu com perspicácia em Rivers of Dark Dreams [Rios de sonhos escuros], “A hegemonia desta única planta sobre a paisagem do Reino do Algodão produziu uma simplificação radical da natureza e uma simplificação radical do ser humano… A monocultura do algodão despojou a terra de vegetação [e] drenou sua fertilidade.”73 Conforme Marx sugeriu, a crise ecológica da produção escrava de algodão em plantations explicava a agressão desesperada performada pelo Sul na guerra de fronteira Kansas-Missouri (também conhecido como conflito Bloody Kansas) e as tentativas de enviar bandos de texanos ao Novo México para conquistar aquele território para o Sul.74 Para Eugene Genovese, na obra The Political Economy of Slavery [A economia política da escravidão], a ruína do sistema escravagista não foi tanto o seu fracasso econômico, mas sim o “esgotamento do solo”, levando ao que Marx, seguindo William Henry Seward, chamou de um “conflito irreprimível”.75

Marx, a Guerra Civil dos Estados Unidos e a Reconstrução Negra

Como Robin Blackburn observou na obra Uma revolução inacabada: Karl Marx e Abraham Lincoln [An Unfinished Revolution: Karl Marx and Abraham Lincoln], Marx, na época da Guerra Civil dos Estados Unidos, “estava focado em destruir a verdadeira escravidão, que ele sabia ser um componente crítico da ordem capitalista reinante”. Ele via o conflito entre o Norte e o Sul na época da Guerra Civil dos Estados Unidos como uma competição entre “duas espécies de capitalismo — uma permitindo a escravidão e a outra não.”76 Marx desempenhou um papel fundamental na organização do movimento da classe trabalhadora inglesa contra a movimentação do governo britânico para intervir pelos Confederados na Guerra Civil dos Estados Unidos. Sua participação na luta contra a escravidão foi, portanto, totalmente integrada à sua crítica geral da economia política. Os extensos manuscritos econômicos que formariam a base de O Capital foram escritos durante os anos da Guerra Civil dos Estados Unidos. Marx iniciou a redação do manuscrito do volume um de O Capital assim que a escravidão foi derrotada.77

As numerosas análises de Marx sobre a escravidão e a Guerra Civil dos Estados Unidos foram únicas ao ver essa guerra como uma luta revolucionária que só poderia ser vencida por meios revolucionários, incluindo a libertação dos escravos e o início de uma “guerra popular” contra o poder escravagista. De acordo com Tom Jeannot em “Marx, Capitalism, and Race”,

Antecipando o “conflito irreprimível” (com William Seward), a trilha que Marx abriu leva da “guerra do Kansas” (1854–1856) ao ataque em Harper’s Ferry (outubro de 1859), à revolta Negra em Bolívar, Missouri (Dezembro de 1859)... Contra a tentação permanente de banalizar ou ignorar a atividade dos próprios escravos negros, ou então apresentá-los como espectadores passivos no processo de sua própria emancipação, Marx previu, em um evento obscuro e pouco notado no Missouri antes do início da guerra, a chave para o curso futuro dos eventos mundiais. Assim que a guerra começou, ele escreveu a Engels: “Um único regimento negro teria um efeito notável nos nervos do sul” (agosto de 1862)... Na mesma carta a Engels citada acima [7 de agosto de 1862], Marx retorna a um ponto relacionado que governa seu pensamento sobre o progresso e o resultado da Guerra Civil como um todo: “O resumo da história me parece ser que uma guerra desse tipo deve ser conduzida de em termos revolucionários.”78

Marx não apenas escreveu sobre a guerra contra a escravidão, mas também se envolveu diretamente na luta política. Embora a Guerra Civil dos Estados Unidos tenha coincidido com o intenso período em que ele escreveu o esboço do Manuscrito Econômico de 1861–1863 e o Manuscrito Econômico de 1864–1865, antes de redigir O Capital, volume um, como Du Bois enfatizou em “Karl Marx e o Negro” [Karl Marx and the Negro], Marx desempenhou um papel na organização das “reuniões de massa monstruosas” do final de 1862 e 1863 com o objetivo de impedir a intervenção da Grã-Bretanha em nome do sul escravagista. Em 26 de março de 1863, a maior e mais influente reunião de trabalhadores britânicos foi realizada em apoio às forças da União na Guerra Civil dos Estados Unidos. A reunião lotou a sala de concertos James Hall em Londres com até três mil trabalhadores presentes. Henry Adams, que compareceu à reunião no lugar de seu pai Charles Francis Adams, o embaixador dos EUA, deu crédito a Marx e a Edward Beesly, um importante positivista, professor de história e mais tarde simpatizante da Associação Internacional dos Trabalhadores, pela organização da reunião. O orador principal foi John Bright, um quacre, livre-negociante e proprietário de um moinho, que era um fervoroso oponente da escravidão e tinha considerável admiração pelos artigos de Marx no New York Tribune, e por quem Marx tinha algum respeito como orador e pensador. Este e outros protestos massivos da classe trabalhadora foram creditados por Marx, Charles Francis Adams e a muitos outros por terem colocado um fim aos planos do governo britânico de ir à guerra.79

A organização política dos trabalhadores britânicos na luta contra a escravidão levou ao desenvolvimento da Associação Internacional dos Trabalhadores, sob a liderança de Marx. Em seu “Discurso de posse” na Primeira Internacional em setembro de 1864, Marx anunciou a solidariedade internacional da classe trabalhadora na Inglaterra aos trabalhadores escravos no Sul dos EUA e ao Norte na Guerra Civil. Ele apontou que, apesar da crise do algodão proveniente da guerra, os trabalhadores haviam se aliado, contra seus próprios interesses diretos, à luta antiescravagista e, assim, “salvaram o oeste da Europa de mergulhar de cabeça em uma cruzada infame para a perpetuação e propagação de escravidão no outro lado do Atlântico.”80 Em novembro de 1864, Marx redigiu a famosa carta da Primeira Internacional a Abraham Lincoln, parabenizando-o por sua reeleição e pela “luta incomparável pelo resgate de uma raça acorrentada e pela reconstrução de um mundo social”, colocando um ponto final à tentativa cínica da Confederação de manter “a escravidão como ‘uma instituição beneficente’, na verdade, a única solução para o grande problema da ‘relação do trabalho com o capital’”. Lincoln respondeu favoravelmente, através de Charles Francis Adams, em uma carta que causou polêmica na imprensa britânica.81

Em maio de 1865, após o assassinato de Lincoln e a chegada de Andrew Johnson à presidência, Marx redigiu uma carta da International a Johnson, referindo-se à derrota do “demônio da ‘instituição peculiar’”, à “árdua tarefa de reconstrução política”, e à “emancipação do trabalho”.82 Em outubro de 1865, isso foi seguido por uma carta da Primeira Internacional assinada por Marx e outros e dirigida ao povo dos Estados Unidos, que, na opinião de Du Bois, representava a profunda preocupação de Marx com a Reconstrução, e lançou um grave aviso: “Declare seus concidadãos [ex-escravos] de hoje em diante livres e iguais, sem reservas” ou “uma nova luta… mais uma vez encharcará seu país de sangue.”83 Marx, entretanto, logo percebeu os perigos reacionários que Johnson representava à Reconstrução. Como explica Du Bois, Marx “apoiou a democracia abolicionista liderada por [Charles] Sumner e [Thaddeus] Stevens”. Marx, seguindo o radical republicano Benjamin Franklin Wade, declarou que “a abolição da escravidão” exigia “uma mudança radical na relação entre capital e a propriedade da terra” nos antigos estados escravagistas. No entanto, “a reação”, escreveu ele a Engels em 1865, “já começou na América”.84

Diante dessas tendências reacionárias, Marx buscou continuamente forças objetivas que unissem os trabalhadores negros e brancos. Em uma declaração merecidamente famosa em O Capital em 1867, Marx evocou a necessidade de uma ampla aliança trabalhista transcendendo a raça, agora possível com a emancipação dos escravos: “o trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro… Uma nova vida surgiu imediatamente com a morte da escravidão.” Ele ainda ansiava por “uma transformação radical nas relações existentes entre capital e propriedade da terra” no Sul durante a Reconstrução.85 Uma década depois, perturbado pelo fim da Reconstrução, junto ao poder do capital ferroviário, Marx ainda assim escreveu a Engels em 1877 sobre a possibilidade de uma ampla aliança pretos/brancos, camponeses/trabalhadores industriais: “A política do novo presidente [Rutherford B. Hayes] usará os negros, assim como as grandes expropriações de terras (PRECISAMENTE DAS TERRAS FÉRTEIS) para o benefício das FERROVIAS, MINERAÇÃO, etc. empresas transformarão os camponeses do oeste — cujos resmungos já são claramente audíveis — em aliados militantes dos trabalhadores [industriais]. Portanto, há uma bela tempestade se formando ali.”86
No entanto, Marx não conseguiu mais abordar os novos desenvolvimentos com respeito ao capitalismo racial nos Estados Unidos associados ao Jim Crow. Assim, Du Bois escreveu:

Foi uma grande perda para os negros americanos que a grande mente de Marx e sua extraordinária visão das condições industriais não puderam ser aplicadas em primeira mão à história do negro americano entre 1876 e a Primeira Guerra Mundial. Tudo o que ele disse e fez a respeito da elevação da classe trabalhadora deve, portanto, ser modificado no que diz respeito aos negros, pelo fato de ele não ter estudado em primeira mão o seu problema racial peculiar aqui na América. No entanto, ele conhecia a situação da classe trabalhadora na Inglaterra, França e Alemanha, e os negros americanos devem entender qual a panacéia que ele pensou para essas pessoas, se quiserem enxergar claramente seu caminho rumo ao futuro.87

A “panaceia” era, claro, o socialismo, que Du Bois, junto com Marx, acreditava ser uma parte necessária da resposta às opressões de raça e classe.

O rosto velado

Tanto Marx quanto Du Bois eram fascinados pela Ísis e pelas imagens do pedestal e do véu. Marx via a Ísis velada claramente como uma deusa africana, com a realidade histórica do comércio de escravos e a luta interminável pela liberdade humana revelada no levantamento do seu véu. Para Du Bois, em “The Damnation of Women” [A condenação das mulheres], na obra Darkwater, “Ísis, a mãe, ainda é a deusa titular, em pensamento, se não no nome, do continente escuro”, cujo rosto velado está bem acima de seu pedestal.88 Em seu poema “Filhos da Lua” [“Children of the Moon], que acompanha o capítulo sobre “A Condenação das Mulheres”, a Ísis africana velada representava “o caminho construído pelo sangue”, a luta pela liberdade negra em meio aos horrores da escravidão:

Pra cima! Pra cima! O caminho feito de sangue;
(A sombra fica mais vasta!
O terror se aproxima mais rapidamente!)
Pra cima! Pra cima! para a escuridão escaldante
De um rosto sob o véu…
Eu subi na montanha da lua
Eu senti a glória resplandecente do Sol;
Eu ouvi a Canção das Crianças gritando: “Livre!”
Eu vi o Rosto da Liberdade -
E morri.89

Tanto para Du Bois como para Marx, o segredo da Ísis era a luta pela liberdade para além da escravidão, para além da “condenação das mulheres”, para além do trabalho assalariado, para além do capitalismo racial — uma luta tão grande que exigia uma revolução permanente.

Notas

1. Cedric J. Robinson, Black Marxism (Londres: Zed, 1983); W. E. B. Du Bois, Black Reconstruction in America, 1860–1880 (Nova Iorque: Atheneum, 1992); Oliver Cromwell Cox, Capitalism as a System (Nova Iorque: Monthly Review Press, 1964).
2. A associação do marxismo com a visão de que a escravidão e o capitalismo no Novo Mundo representavam “dois sistemas [econômicos]” e a visão de que essa era a posição marxiana ortodóxica foi quase inteiramente devido a Eugene Genoveso, influente historiador marxista do escravagismo do Sul. Ver Eugene Genovese, The Political Economy of Slavery (Nova Iorque: Vintage, 1965), 17; Eugene D. Genovese e Elizabeth Fox Genovese, “The Slave Economies in Political Perspective,” Journal of American History 66, no. 1 (Junho 1979): 22. Essa mesma ênfase nos dois sistemas econômicos ou modos de produção nos Estados Unidos do século XIX, “escravidão nas plantations e capitalismo”, ainda pode ser encontrada em algumas análises. Por exemplo, Nick Nesbitt, “The Slave Machine,” Six Archipelagos, 9 de julho de 2019, 11–12. No entanto, como observa John Clegg, “antes de Genovese, a maioria dos escritores marxistas, e dos de influência marxista, seguiram Marx ao ver as plantations escravagistas como capitalistas”. John Clegg, “A Theory of Capitalist Slavery”, Journal of Historical Sociology 33, no. 1 (2020): 76.
3. Karl Marx, O Capital, vol. 1 (Londres: Penguin, 1976), 871.
4. Stephanie Smallwood, “What Slavery Tells Us About Marx”, Boston Review, Fevereiro 21, 2018; Stephanie Smallwood, Saltwater Slavery (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2008).
5. Walter Johnson, “The Pedestal and the Veil,” Journal of the Early Republic 24 (2004): 299–308; Walter Johnson, River of Dark Dreams (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2013).
6. Johnson, “The Pedestal and the Veil,” 307.
7. Sven Beckert e Seth Rothman, eds., Slavery’s Capitalism (Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2016).
8. On “the second type of colonialism”, see Karl Marx, Theories of Surplus Value, part 2 (Moscow: Progress Publishers, 1971), 302–30. Sobre Harriet Beecher Stowe, “O Poder do Escravo”, a decisão de Dred Scott, a Guerra do Kansas, John Brown, a “instituição peculiar”, o abolicionismo e as lutas revolucionárias de trabalhadores negros libertos, ver Karl Marx e Friedrich Engels, The Civil War in the United States, ed. Andrew Zimmerman (Nova Iorque: International Publisher, 2016), 17, 19, 28, 30–31, 33, 43, 120, 124–27, 153–54, 165. Sobre tortura sob escravidão e a revolução haitiana, ver Karl Marx e Frederich Engels, Collected Works, vol. 5 (Nova Iorque: International Publishers, 1975), 302, 308, 388, 599. Sobre a escravidão inglesa sob o reinado de Eduardo VI e a escravidão dos nativos americanos, ver O Capital, vol. 1, 897, 915.
Philip Foner, British Labor and the American Civil War (Nova Iorque: Holmes e Meier, 1981), 56–58.
Roger Ransom e Richard Sutch, “Capitalists without Capital: The Burden of Slavery and the Impact of Emancipation”, Agricultural History 62, no. 3 (1988): 133.
Henry Brougham, An Inquiry into the Colonial Policy of the European Powers (Edimburgo: E. Balfour, Manners e Miller, e Archibald Constable, 1803); Thomas Stamford Raffles, History of Java (Londres: John Murray, 1817); Thomas Powell Buxton, The African Slave Trade and Its Remedy (Londres: John Murray, 1840); Herman Merivale, Lectures on Colonization and Colonies (Londres: Muston Co., 1841); Henry C. Carey, The Slave Trade, Domestic and Foreign (Filadélfia: A. Hart, 1853); J. E. Cairnes, The Slave Power (Nova Iorque: Follett Foster and Co., 1862); François-Charles-Louis Comte, Traité de législation, ou exposition des lois générales suivant lesquelles les peuples prospèrent, dépérissent ou restent stationnaire, 3rd ed. (1827; repr. Bruxelas: Hauman, Cattoir et Comp, 1837). Há também indicações de que Marx tinha alguma familiaridade com o best-seller de John Gabriel Stedman, no século XVIII, Narrative of a Five Years’ Expedition Against the Revolted Negroes of Surinam (1796, gravada por William Blake), ao qual Comte se referiu. Ver também David Mercer Hart, Class, Slavery, and the Industrialist Theory of History in French Liberal Thought, 1814–1830: The Contribution of Charles Comte and Charles Dunoyer (dissertação de doutorado, King’s College, Cambridge, junho de 1993).
Marx, O Capital, vol. 1, 93; Hal Draper, The Marx-Engels Chronicle (Nova Iorque: Schocken, 1985), 130–31, 295; Karl Marx, Marx’s Economic Manuscript of 1864–1865 (Boston: Brill, 2015). Em março de 1865, quando ele começava a escrever o volume um de O capital, Marx escreveu a Engels, “parece que está tudo certo com a Confederação”. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 158.
Marx, O Capital, vol. 3 (Londres: Penguin, 1981), 940.
W. E. B. Du Bois, Black Reconstruction in America, 1860–1880 (Nova Iorque: Atheneum, 1992), 354. Observe que esta foi a tradução do próprio Du Bois, que difere ligeiramente da tradução padrão. Ver também W. E. B. Du Bois, “Karl Marx and the Negro”, em Marx e Fredrich Engels, The Civil War in the United States, 218 (reimpresso de Crisis 40, no 3 [março de 1933]: 55–56).
Johnson, “The Pedestal and the Veil,” 300, 302–5.
Johnson, “The Pedestal and the Veil,” 306. See the similar argument in Dale Tomich, Veja um argumento parecido em Dale Tominch Through the Prism of Slavery (Nova Iorque: Rowman and Littlefield, 2004), 23–24.
Marx, O Capital, vol. 1, 925.
Marx, O Capital, vol. 1, 915–24
Johnson, “The Pedestal and the Veil.”
See Smallwood, “What Slavery Tells Us About Marx”; J. Lorand Matory, The Fetish Revisited (Durham, NC: Duke University Press, 2018), 61; Sara-Maria Sorentino, “The Abstract Slave: Anti-Blackness and Marx’s Method”, International Labor and Working Class History 96 (2019): 17. Johnson procurou apoiar seu argumento no fato de que a metáfora do pedestal e do véu era toda sobre a evasão da realidade do capitalismo e da escravidão ao apontar que Marx utilizou a metáfora do linho como valor de uso, comparando-o ao valor de uso de um casaco. Ele afirmou que este foi outro exemplo da evasão de Marx sobre a escravidão, visto que o algodão foi, assim, deslocado do argumento. No entanto, as sobrecasacas masculinas eram muitas vezes feitas de linho na época, e o objetivo de Marx aqui era comparar o valor de uso do casaco final com o valor de uso do tecido com o qual foi feito. Ele pode estar pensando em seu próprio casaco de linho quando escreveu a passagem. Dificilmente se pode dizer que Marx ignorou o algodão no primeiro volume de O Capital, visto que ele aparece ao longo dessa obra. Johnson, “The Pedestal and the Veil,” 301–2; Marx, O Capital, vol. 1, 132–33.
Plutarco, “Isis and Osiris,” Moralia.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel, The Philosophy of Nature (Oxford: Oxford University Press, 2004), 10; Guenter B. Risse, “The Veil of Isis Allegory: Historical Visions of the Natural World,” Research Gate, August 1, 2017.
Compare com Johnson, que escreve que a escravidão é “uma história de salários assim como de chicotes, de fábricas assim como de plantations”. Walter Johnson, “To Remake the World”, Boston Review, 20 de fevereiro de 2018. Marx claramente acreditava que a indústria no norte dos EUA estava integrada à economia das plantations no sul, e que o capitalismo escravagista e “os estados do sul na união” foram integrados ao “mercado mundial” por meio do comércio de algodão. Marx, O Capital, vol. 3, 809. Ver também Edward Gibbon Wakefield, England and America, vol. 2 (Londres: Richard Bentley, 1833), 26–27. Como escreveu Cox, no início do século XIX, “a economia americana baseava-se em seu comércio exterior, do qual a escravidão se tornou um pivô”. Cox, Capitalism as a System, 124.
Karl Marx, The Poverty of Philosophy (Nova Iorque: International Publishers, 1963), 111. Claro, a escravidão era mais do que simplesmente uma categoria econômica para Marx — era também uma categoria social. Ainda assim, no contexto do comércio transatlântico de escravos, Marx não cometeu o erro de confundir a escravidão com um sistema de trabalho forçado com características raciais essencialistas que muitas vezes eram usadas ideologicamente para justificá-lo. Ele estaria totalmente de acordo com a declaração de Eric Williams de que “um toque racial foi … dado ao que é basicamente um fenômeno econômico. A escravidão não nasceu do racismo: o racismo foi consequência da escravidão. O trabalho não-livre no Novo Mundo era marrom, branco, preto e amarelo, católico, protestante e pagão ”. Criticando a visão dos economistas burgueses que dizem que um “escravo negro … [é] um homem da raça negra”, Marx respondeu: “Um negro é um negro. Somente sob certas condições ele se torna um escravo. ” Eric Williams, Capitalism and Slavery (Nova Iorque: Capricórnio, 1966), 7; Karl Marx, “Wage-Labor and Capital” em Wage Labor and Capital / Value, Price and Profit (Nova Iorque: International Publishers, 1976), 28.
“The Lace Trade in Nottingham,” Daily Telegraph, 17 de janeiro de 1860, citado em Marx e Engels, Collected Works, vol. 30, 217.
Marx, O Capital, vol. 1, 345.
Karl Marx e Fredrich Engels, Collected Works, vol. 30 (Nova Iorque: International Publishers, 1975), 197.
Robin Blackburn, The Making of New World Slavery (Londres: Verso, 1997), 339–40.
Marx e Engels, Collected Works, vol. 30, 183–85; Marx, O Capital, vol. 1, 344–45; Casey Cep, “The Long War Against Slavery,” New Yorker, January 27, 2020.
Marx e Engels, Collected Works, vol. 30, 215.
Karl Marx e Frederich Engels, On Colonialism (Nova Iorque: International Publishers, 1972), 115; editorial em Times of London, March 10, 1882, 9. Ver também Y. J. Murrow, “The Coolie Trade in China and Peru,” Anti-Slavery Reporter 16, no. 12 (December 1869): 273–79.
Carey, The Slave Trade, Domestic and Foreign, 8–15.
Marx, O Capital, vol. 1, 377.
Marx, O Capital, vol. 1, 345.
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Karl Marx e Frederich Engels, Selected Correspondence (Moscou: Progress Publishers, 1975), 78–79.
Comte, Traité de législation, 392; Stedman, Narrative of a Five Years’ Expedition Against the Revolted Negroes of Surinam, 320.
Marx e Engels, Collected Works, vol. 5, 308, 599; Comte, Traité de législation, 392; Stedman, Narrative of a Five Years’ Expedition Against the Revolted Negroes of Surinam, 320–21.
Marx, O Capital, vol. 1, 345; Marx e Engels, Collected Works, vol. 5, 308–09; Marx, Miséria da Filosofia, 111.
Karl Marx, On the First International (Nova Iorque: McGraw Hill, 1973), 99.
Marx, Capital, vol. 1, 916.
Marx e Engels, The Civil War in the United States, 30, 44; Buxton, The African Slave Trade and Its Remedy, 202; Cairnes, The Slave Power, 124.
43. Sobre Marx e colonialismo, ver Marx, O Capital, vol. 1, 934–35; John Bellamy Foster, Brett Clark, e Hannah Holleman, “Marx and the Indigenous,” Monthly Review 71, no. 9 (Fevereiro 2020): 1–19. Sobre trabalho colonial e economia política clássica, ver Donald Winch, Classical Political Economy and Colonies (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1965), 93–100.
44. Karl Marx, Theories of Surplus Value, part 2 (Moscou: Progress Publishers, 1968), 302–3.
45. Karl Marx, Grundrisse (Londres: Penguin, 1973), 464, 513.
46. Orlando Patterson, “On Slavery and Slave Formations,” New Left Review, series 1, no. 117 (1979): 53.
47. Patterson, “On Slavery and Slave Formations,” 55.
48. Marx, O Capital, vol. 1, 151–52. O comentário de Marx aqui sobre o conceito de igualdade, troca e o conceito de trabalho/valor abstrato insiste que tais noções eram inconcebíveis em uma sociedade que depende predominantemente do trabalho escravo, como em Atenas na época de Aristóteles. Essa noção se aplica bem à parte do uso específico na ocasião por Marx e Engels, particularmente em seus primeiros escritos, da noção de um modo de produção escravo. Como Eric Hobsbawm apontou, o conceito de modo de produção escravo foi utilizado como um guia amplo e nunca totalmente desenvolvido por Marx. Ele frequentemente se referia ao antigo modo de produção comunal (que, no entanto, não excluía a escravidão, principalmente por meio da guerra). Ver Eric J. Hobsbawm, introdução a Karl Marx, Pre-Capitalist Economic Formations (Nova Iorque: International Publishers, 1964). 18–22. Para obras clássicas baseadas diretamente nas noções de Marx sobre a escravidão antiga, consulte G. M. E. de Ste Croix, The Class Struggle in the Ancient Greek World (Londres: Duckworth, 1981) e Perry Anderson, Passages from Antiquity to Feudalism (Londres: Verso, 1975).
Esse espaço não nos permite realizar aqui uma extensa exploração da rica análise de Marx da escravidão antiga ou da análise comparativa da escravidão em diferentes relações produtivas. No entanto, é importante reconhecer que para Marx a escravidão era definida de forma muito ampla, como no caso de Patterson, como um sistema de relações de classe baseado na força e na expropriação direta do corpo de outrem. Ocorreu muitas vezes e em muitos contextos da história. A escravidão do chattel também ocorreu nos tempos antigos, mas foi desenvolvida mais plenamente sob o capitalismo. A escravidão antiga e a moderna, portanto, tinham semelhanças, mas devem ser consideradas historicamente distintas. É nesse sentido que Patterson defende o tipo de “comparativismo ousado mundial” no estudo da escravidão que Marx defendia. Patterson, “On Slavery and Slave Formations”, 67.
49. Marx e Engels, Collected Works, vol. 33, 336.
50. Marx, Capital, vol. 3, 362.
51. Sven Beckert, The Empire of Cotton (Nova Iorque: Vintage, 2014), xv–xvi.
52. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 17.
53. Karl Marx, Capital, vol. 3 (Londres: Penguin, 1981), 940, 945.
The contention of Nesbitt that Marx himself viewed slaves in the U.S. South as mere “constant capital” unable “to produce the essential and defining element of capitalism — incremental increases in surplus value,” or surplus product, is here contradicted by Marx’s analysis in Capital, vol. 3, which points to the surplus value produced by slave labor. What was different in the case of slave labor, as Marx also stated, was that “the price that is paid here for the slave is…capitalized surplus-value or profit that is to be extracted from him.” See Nesbitt, “The Slave Machine,” 13; Marx, Capital, vol. 3, 945. A alegação de Nesbitt de que o próprio Marx via os escravos no sul dos Estados Unidos como mero “capital constante”, incapaz de “produzir o elemento essencial e definidor do capitalismo — aumentos incrementais na mais-valia” ou produto excedente, é aqui confrontada pela análise de Marx em O capital , vol. 3, que aponta para a mais-valia produzida pelo trabalho escravo. O que era diferente no caso do trabalho escravo, como Marx também afirmou, era que “o preço que se paga aqui pelo escravo é … mais-valia capitalizada ou lucro que se extrai dele”. Ver Nesbitt, “The Slave Machine,” 13; Marx, O Capital, vol. 3, 945.
54. Marx, Grundrisse, 288–89; Karl Marx, O Capital, vol. 2 (Londres: Penguin, 1978), 555; Marx, O Capital, vol. 1, 377; O Capital, vol. 3, 762.
55. Marx e Engels, Collected Works, vol. 30, 184–85; Marx e Engels, Collected Works, vol. 33, 10–11.
56. Ransom e Sutch, “Capitalists without Capital,” 133–34.
57. Adam Smith, A Riqueza das Nações (Nova Iorque: Modern Library, 1937), 80–81.
58. Marx, O Capital, vol. 1, 377; Marx, Theories of Surplus Value, part 3, 243; Marx, Capital, vol. 2, 555; Marx e Engels, Collected Works, vol. 34, 98.
59. Marx e Engels, Collected Works, vol. 25, 149.
60 . Karl Marx, A Contribution to a Critique of Political Economy (Moscou: Progress Publishers, 1970), 203.
61. Patterson, “On Slavery and Slave Formations,” 32–33; Marx, Grundrisse, 326.
62. Marx, Grundrisse, 326; Marx e Engels, Collected Works, vol. 34, 98; John Bellamy Foster e Brett Clark, The Robbery of Nature (Nova Iorque: Monthly Review Press, 2020), 23–32.
63. Marx, O Capital, vol. 1, 1014, 1016, 1033–34.
64. Marx, O Capital, vol. 3, 507–8; Marx e Engels, Collected Works, vol. 30, 262–63; Cairnes, The Slave Power, 40.
65. Cairnes, The Slave Power, 39, 41–42; Marx, O Capital, vol. 3, 507–8; Marx e Engels, Collected Works, vol. 30, 262–63; Marx, O Capital, vol. 1, 452.
66. Cairnes, The Slave Power, 63–67; Marx e Engels, The Civil War in the United States, 44.
67. Merivale, Lectures on Colonization and Colonies, James F. W. Johnston, Notes on North America, vol. 2 (Londres: William Blackwood, 1851), 319, 351–53; Carey, The Slave Trade, Domestic and Foreign, 100–108; Olmsted, Journey in the Seaboard Slave States, 42–44, 56–57, 237–38; Cairnes, The Slave Power, 45, 75, 94; Williams, Capitalism and Slavery, 7; John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (Nova Iorque: Monthly Review, 2000).
68. Cairnes, The Slave Power, 111–13.
69. Marx e Engels, Collected Works, vol. 43, 384; Marx, O Capital, vol. 3, 808; Johnston, Notes on North America, vol. 2, 351–53; Olmsted, Journey in the Seaboard Slave States, 57; Foster, Marx’s Ecology, 152.
70. Cairnes, The Slave Power, 45–46; ver também Carey, The Slave Trade, Domestic and Foreign, 95–105.
71. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 45–46. Ver também Marx e Engels, Selected Correspondence, 213–14. Ver também Karl Marx e Friedrich Engels, Selected Correspondence (Moscou: Progress Publishers, 1975), 213; Marx e Engels, Collected Works, vol. 43, 384.
72. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 47.
73. Johnson, River of Dark Dreams, 8.
74. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 17, 44–47, 55–58; Robin Blackburn, An Unfinished Revolution: Karl Marx and Abraham Lincoln (Londres: Verso, 2011), 9; Cairnes, The Slave Power, 11–21.
75. Genovese, The Political Economy of Slavery, 85–99, 281–82; Marx e Engels, The U.S. Civil War, 166; William Henry Seward, “On the Irrepressible Conflict” (discurso, Rochester, Nova Iorque, 25 de outubro, 1858). Seward aqui introduziu a visão dos “dois sistemas políticos”.
A visão de Marx sobre por que a Guerra Civil foi um “conflito irreprimível” era, obviamente, um pouco diferente, vendo-a como dois regimes de trabalho dentro de um único sistema, promovendo diferentes estruturas políticas (ver Marx e Engels, The Civil War in the United States, 55). Genovese apresentou uma visão marxista tradicional e uma visão marxista revisada de por que o conflito pela escravidão era irreprimível, e não repressível. Ainda assim, na visão revisada, que ele apoiou, foi a destruição ecológica, e não o fracasso econômico como tal, que foi a principal razão para o impulso expansionista do sul. Como Eugene Baptist argumentou, em The Half Has Never Been Told, uma vez que o capitalismo dos proprietários de escravos teve tanto sucesso, ele não poderia ter terminado exceto pela guerra. Portanto, o Sul cometeu um “erro tremendo”, pode-se argumentar — como Marx e tantos outros fizeram naquela época — que por trás de seu sucesso material havia uma falha, um impulso expansionista exigindo cada vez mais terras para evitar crises futuras, terras que o Norte não permitiria — nem mais um pé quadrado, Lincoln indicou. Eugene Baptist, The Half Has Never Been Told, 413–414; Marx e Engels, The Civil War in the United States, 133.
76. Blackburn, An Unfinished Revolution, 11–12; Patterson, “On Slavery and Slave Formations,” 53–54.
77. É por esta razão que as análises mais profundas de Marx da economia da escravidão ocorrem nos Grundrisse, no Manuscrito Econômico de 1861–1863 e nas partes do Manuscrito Econômico de 1863–1865 que constituíram os rascunhos para o segundo e terceiro volumes de Capital. Quando Marx começou a redigir O Capital, vol. 1, o sistema escravista dos EUA estava no passado, embora tenha sido sucedido por novas formas de capitalismo racial. A questão em 1867, como Marx deixou claro no prefácio de O Capital, vol. 1, foi a Reconstrução. Ver Marx, Capital, vol. 1, 93.
78. Tom Jeannot, “Marx, Capitalism, and Race,” Radical Philosophy Today 5 (2007): 72; Marx e Engels, The U.S. Civil War, 17, 22–23, 121. Translation here follows Du Bois, Black Reconstruction, 354.
79. Foner, British Labor and the American Civil War, 11–13, 39–40, 57–62, 84–85; John Spargo, Karl Marx: His Life and Work (Nova Iorque: B. W. Huebsch, 1912), 224–25; Ephraim Douglass Adams, Great Britain and the American Civil War, vol. 2 (Nova Iorque: Longmans, Green and Co., 1925), 291–92; John Nichols, The “S” Word (Londres: Verso, 2011), 61–99; Kevin B. Anderson, Marx at the Margins (Chicago: University of Chicago Press, 2016), 106–114. Ver também John Bright, Speeches on the American Question (Boston: Little Brown and Co., 1865), 170–93. Embora Marx se opusesse fortemente a muitos aspectos das visões de Bright, ele o via como um corte acima dos pensadores burgueses usuais e examinou seu trabalho de perto, pegando trechos em seus cadernos Karl Marx e Friedrich Engels, Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA), IV / 18 (Berlim: Walter de Gruyter, 2019), 6–7.
80. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 179–82
81. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 153–57.
82. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 165–66.
83. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 186–87; Du Bois, “Karl Marx and the Negro,” 218; Du Bois, Black Reconstruction, 354.
84. Marx, O Capital, vol. 1, 93; Du Bois, “Karl Marx and the Negro,” 219; Marx e Engels, The Civil War in the United States, 167.
85. Marx, O Capital, vol. 1, 93, 414.
86. Marx e Engels, The Civil War in the United States, 189; Du Bois, “Karl Marx and the Negro,” 219.
87. Du Bois, “Karl Marx and the Negro,” 219.
88. E. B. Du Bois, Darkwater: Voices from within the Veil (1920; repr. Mineola: Dover, 1999), 97; ver também, Wilson J. Moses, “The Poetics of Ethiopianism: W. E. B. Du Bois and Literary Black Nationalism,” American Literature 47, no. 3 (1975): 418–23.
89. Du Bois, Darkwater, 113.

Sobre os autores

John Bellamy Foster is editor of Monthly Review and a professor of sociology at the University of Oregon.

Hannah Holleman is a director of the Monthly Review Foundation and an associate professor of sociology at Amherst College.

Brett Clark is associate editor of Monthly Review and a professor of sociology at the University of Utah.

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