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23 de junho de 2026

Se Andy Burnham fracassar, o Partido Trabalhista morrerá

Andy Burnham diz que quer acabar com 40 anos de neoliberalismo. Mas mesmo que ele se torne primeiro-ministro, o Partido Trabalhista está a ficar sem tempo para mostrar que está do lado das comunidades da classe trabalhadora.

Marcus Barnett

Jacobin

Duas recentes eleições parciais no noroeste de Inglaterra viram uma insurgência social-democrata com raízes locais reunir os eleitores da classe trabalhadora e derrotar a extrema direita. Os trabalhistas ainda podem deter Nigel Farage, se aprenderem as lições destas campanhas. (Ryan Jenkinson/Getty Images)

Após semanas de críticas contundentes vindas de deputados trabalhistas anônimos, funcionários do partido, sindicalistas e do setor financeiro da City de Londres, Keir Starmer retirou-se de cena de forma melancólica. Na segunda-feira, postado atrás de um púlpito em frente ao número 10 de Downing Street, um primeiro-ministro com semblante abatido anunciou sua renúncia. Seu único consolo foi o papel que desempenhou na transformação do próprio partido — ou melhor, na neutralização de sua liderança anterior: ele declarou sentir orgulho de ter convertido o Partido Trabalhista, que estava "falido política, financeira e moralmente" sob o comando de Jeremy Corbyn, em uma legenda que "mais uma vez se posicionava com orgulho ao lado de nossa bandeira nacional, e não contra ela".

Havia quem ainda quisesse que Starmer continuasse. Após as eleições locais de maio — nas quais a votação trabalhista despencou sob a sombra do mais recente escândalo envolvendo Peter Mandelson, figura influente do partido frequentemente associada a polêmicas —, deputados que faziam questão de exibir a bandeira nacional, como Samantha Niblett e Mike Tapp, defenderam Starmer vigorosamente na mídia. Morgan McSweeney — ex-chefe de gabinete de Starmer, que havia renunciado devido ao caso Mandelson — retornou para oferecer orientação estratégica aos partidários de Starmer. Assessores leais foram informados sobre a intenção de Starmer de combater qualquer tentativa de contestação de sua liderança valendo-se de seu histórico de gestão. Na realidade, porém, esse mesmo histórico o tornava o primeiro-ministro mais impopular desde o início das pesquisas de opinião.

Essa ilusão acabou se dissipando neste fim de semana, depois que Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, obteve uma vitória esmagadora na eleição suplementar de Makerfield, realizada na quinta-feira. Com cartazes e panfletos incentivando o voto "em Andy — por nós", a identidade visual do Partido Trabalhista era pouco visível naquela antiga região mineradora. De fato, a proposta do candidato trabalhista não poderia contrastar mais com a de Starmer. Em seus discursos, Burnham exigiu a reindustrialização do norte da Inglaterra e o controle público de serviços essenciais. No distrito eleitoral onde George Orwell viveu enquanto pesquisava para o livro *O Caminho para Wigan Pier*, Burnham criticou o distanciamento do Partido Trabalhista em relação às comunidades da classe trabalhadora e clamou pelo fim de "quarenta anos de neoliberalismo".

Burnham acabou vencendo a votação em Makerfield com 55% dos votos — uma vantagem de mais de 20 pontos percentuais sobre Robert Kenyon, candidato do partido Reform UK, de Nigel Farage, legenda que havia dominado as eleições locais na região poucas semanas antes. O sucesso de Burnham pode muito bem tornar esta uma das eleições suplementares mais decisivas da história britânica. Nesta segunda-feira, ao pegar um trem privatizado para Londres que estava tão atrasado a ponto de lhe dar direito a uma indenização, ele retornou a Westminster.

Agora, espera-se amplamente que Burnham substitua Starmer como primeiro-ministro. A questão é se ele conseguirá replicar em escala nacional a reviravolta ocorrida em Makerfield e reconstruir o que o Partido Trabalhista perdeu.

Criando novos perdedores

A vitória de Burnham já abalou certezas estabelecidas na política britânica. Embora Starmer e seus aliados tenham sentido o impacto da votação de forma mais aguda e imediata, a disputa em Makerfield também provocou uma crise grave no partido Reform UK, de Farage. Durante anos, a relutância do Partido Trabalhista em se associar às demandas de áreas da classe trabalhadora esvaziadas pelo thatcherismo serviu de terreno fértil para a política de extrema-direita. Com sua crescente impopularidade, Starmer tem sido um verdadeiro presente para o partido de Farage. O Reform UK conseguiu converter facilmente a revolta existente nos antigos redutos trabalhistas em votos para si próprio; recentemente, chegou até a incentivar sindicatos a se filiarem à legenda.

A vitória de Burnham abalou certezas estabelecidas na política britânica.

No entanto, em Makerfield, o Reform enfrentou dificuldades. Seu candidato, o encanador local Kenyon, viu sua campanha desmoronar após revelações sobre sua postura misógina na internet. Houve também pressão adicional do Restore Britain, uma dissidência de extrema-direita do Reform que fragmentou o voto de oposição ao Partido Trabalhista (Labour) e levou confrontos acalorados às ruas do distrito eleitoral. Farage não conseguiu esconder sua frustração, dirigindo um apelo em vídeo diretamente aos apoiadores do Restore poucas horas após a divulgação do resultado. Relatos anônimos vindos da ala ligada ao "establishment" do partido pressionaram Farage a demitir o porta-voz Zia Yusuf, temendo que ele pudesse empurrar o partido ainda mais para a direita.

Tal guinada seria catastrófica para Farage. Embora grande parte da base mais militante do Reform anseie por uma política fascista de guerra racial e "remigração", os maiores desafios eleitorais de Farage residem, atualmente, na esquerda. Esta é a segunda vez que o Reform fracassa na conquista de um assento-chave que almejava, após a recente derrota em Gorton e Denton — distritos vizinhos —, onde Hannah Spencer, do Partido Verde (também encanadora), derrotou Matt Goodwin, do Reform. Apesar das diferenças demográficas entre os dois distritos, em ambos os casos uma insurgência social-democrata com raízes locais derrotou o Reform de forma decisiva, provando que a desmoralização e o desespero — sentimentos dos quais o Reform se alimenta — podem ser redirecionados.

À medida que as pressões inerentes a Westminster recaem novamente sobre Burnham, seria prudente que ele tivesse essas lições em mente.

A vingança do "burnhamismo" parlamentar

A trajetória política do novo deputado por Makerfield é um caminho já bastante conhecido. Nascido em 1970, em uma família operária de Liverpool, ele trabalhou como assessor político e ocupou diversos cargos ligados ao governo antes de se tornar deputado em 2001. Leal à corrente "New Labour", votou a favor da Guerra do Iraque e apoiou a privatização do Serviço Nacional de Saúde (NHS). Ao representar o governo na cerimônia em memória das vítimas da tragédia de Hillsborough, em 2009, foi vaiado pela multidão. Mais tarde, descreveu esse episódio como um momento decisivo, que o levou a confrontar o distanciamento do governo trabalhista em relação às pessoas comuns com quem havia crescido.

Após perder duas disputas pela liderança do Partido Trabalhista para Ed Miliband e Jeremy Corbyn, Burnham deixou o Parlamento em 2016, juntamente com o também deputado Steve Rotheram, alegando o isolamento e a ineficácia de Westminster como motivos. Enquanto Rotheram concorreu à prefeitura da Região Metropolitana de Liverpool e venceu, Burnham tornou-se prefeito da Grande Manchester.

Nessa função, Burnham posicionou-se firmemente à esquerda. Opositor do golpe parlamentar de 2016 contra Jeremy Corbyn, ele se alinhou a administrações municipais de esquerda — como as de Preston, Salford e Barcelona — e defendeu políticos socialistas como Ian Byrne e Jamie Driscoll quando estes enfrentavam perseguição pela máquina política de Starmer. Obteve sucesso significativo no combate à crescente crise de pessoas em situação de rua em Manchester e garantiu o controle municipal dos serviços regionais de ônibus — uma medida transformadora para milhares de trabalhadores.

Como seria um programa de governo de Burnham? É possível ter uma ideia em Head North, seu manifesto ousado (e ligeiramente idiossincrático) para uma Grã-Bretanha radicalmente reformulada. Entre as demandas para "reestruturar" o país, estão a desmercantilização da habitação e da saúde ("o direito ao básico"), uma estratégia industrial de âmbito nacional, a ampliação significativa dos poderes dos governos locais e a abolição do sistema de disciplina partidária (whip system) que obriga os deputados a seguir a orientação do partido.

Muitos esperam que uma base intelectual sólida possa vir de The Productive State, obra de Mathew Lawrence, do think tank de esquerda Common Wealth. O texto encara com franqueza a realidade de que, para milhões de britânicos, "a insegurança tornou-se uma condição permanente", com serviços básicos essenciais — de habitação e energia a água e sistemas de assistência — sendo geridos em prol de uma busca agressiva por lucros. Isso, argumenta Lawrence, cria um “prêmio de privatização”, no qual empresas extraem quantias absurdas do dinheiro de pessoas comuns em troca do básico essencial, enquanto o Estado é forçado a subsidiar a pobreza resultante por meio do sistema de benefícios sociais. Para qualquer tentativa de reverter o colapso social generalizado da Grã-Bretanha, sustenta Lawrence, é preciso superar a relação cômoda do país com a terceirização e a privatização em massa, em favor de “um Estado que detenha a propriedade, invista e forneça serviços para tornar a vida acessível”.


Se Burnham fala em reunir os eleitores da classe trabalhadora, isso dificilmente poderá ser feito com base em apelos à reintegração na União Europeia.

Dada a sua adesão declarada ao manifesto eleitoral do Partido Trabalhista para 2024 e às regras de "contenção fiscal" autoimpostas — introduzidas pelo primeiro-ministro conservador David Cameron em 2011 —, resta saber quanta transformação estrutural Burnham consegue realisticamente alcançar. O mercado de títulos certamente vê suas chances com apreensão: apesar de ele manter contato com o ex-economista do Banco da Inglaterra Andy Haldane e com Jim O’Neill, do Goldman Sachs, no último ano investidores têm constantemente passado informações a jornalistas para alimentar receios no mercado quanto a uma eventual liderança de Burnham.

Há também outra questão importante. Se Burnham fala em mobilizar eleitores da classe trabalhadora, dificilmente conseguirá fazê-lo com base em apelos para o retorno à União Europeia. O próprio Burnham levantou essa ideia na conferência do partido no ano passado. No entanto, isso significa, em última análise, focar em uma pauta de estimação que entusiasma parte da base militante trabalhista, mas que prejudica gravemente os esforços para superar as divisões do referendo de 2016 e demonstra que o Partido Trabalhista sequer tenta ouvir os eleitores que perdeu.

Os inimigos internos

A ala direita do Partido Trabalhista também vê Burnham com preocupação; eles o desprezam há mais de uma década, considerando que suas críticas ao New Labour e sua recusa em participar dos ataques a Corbyn representaram uma traição.

Isso se manifesta de várias formas, desde inúmeras declarações extremamente pessoais — como quando, ontem, uma "fonte trabalhista" anônima o chamou de "ratinho chorão" — até críticas de figuras de peso. Durante a eleição suplementar de Makerfield, o próprio Tony Blair acusou Burnham de "brincar com fogo" ao afastar o partido do centro, levando Burnham a responder que Blair "não mencionou a desigualdade nem uma vez" e que, "se você não entende como isso está impulsionando a política atual... então não está entendendo o que está acontecendo". Contudo, a hostilidade atingiu o auge no ano passado, quando membros da direita no Comitê Executivo Nacional (NEC) — o órgão dirigente do partido — vetaram a candidatura de Burnham na eleição suplementar de Gorton e Denton. Em uma "demonstração de força" que evidenciou a fragilidade do starmerismo, ao impedir a candidatura de Burnham, garantiu-se que qualquer voto no Partido Trabalhista fosse visto apenas como um apoio pessoal a Starmer.

Como resultado, o Partido Verde conquistou uma vitória parlamentar sem precedentes, e 1.500 assentos trabalhistas em conselhos locais foram perdidos nas eleições municipais de maio. Quando chegou o momento de Burnham se candidatar por Makerfield, aqueles que o haviam barrado sabiam que o mesmo truque não funcionaria duas vezes. Muitas figuras do Partido Trabalhista agora observam os bons índices de popularidade de Burnham — e o veem como a única opção de sobrevivência.

Tanto as pesquisas de opinião quanto os resultados eleitorais demonstraram que as pessoas se identificam com o sentimento e a visão de Burnham. Mas o Partido Trabalhista não consegue sobreviver apenas de "vibe".

Mas essas questões internas não vão simplesmente desaparecer. Longe de estarem comprometidos com uma "vitória do Partido Trabalhista" sob qualquer bandeira, muitos membros do partido demonstraram lealdade a uma política extremamente impopular e fracassada, cujo foco principal é moldar o partido para atender a interesses corporativos. Entre os parlamentares trabalhistas eleitos em 2024, pelo menos setenta atuaram como lobistas profissionais, com muitos trabalhando para empresas de saneamento, gigantes do setor de jogos de azar e incorporadoras imobiliárias. Esse número é mais que o dobro do total de parlamentares que foram dirigentes sindicais, e representa uma parcela significativa de figuras que teriam mais a perder do que a ganhar vivendo em um país melhor.

Vale ressaltar que Burnham se cercou de parlamentares como a veterana sindicalista Anneliese Midgley e a ex-secretária de Transportes Louise Haigh — figura fundamental na luta pela reestatização das ferrovias britânicas e que, segundo consta, está analisando as candidaturas para cargos ministeriais em um eventual governo Burnham. No entanto, a aparente proximidade de Burnham com o ex-parlamentar por Makerfield, Josh Simons — que cedeu sua cadeira a Burnham após enfrentar intenso escrutínio por seu suposto papel na organização de vigilância e campanhas de difamação contra jornalistas que investigavam casos de corrupção —, tem gerado desconfiança. O mesmo ocorre com a especulação de que uma liderança de Burnham poderia trazer de volta à linha de frente da política o político de centro radical David Miliband.

A última chance do Partido Trabalhista

Para a sobrevivência futura do Partido Trabalhista, é crucial resolver essas contradições. A vitória de Burnham em Makerfield demonstrou que o partido certamente pode reconquistar o apoio popular, mas apenas se estiver disposto a confrontar honestamente o seu longo afastamento da base social e a combater a perda de poder das comunidades que deram origem à legenda. Um Serviço Nacional de Cuidados (National Care Service) que tornasse a vida de milhões de pessoas muito mais fácil, ou um setor de saneamento estatizado que reduzisse drasticamente o valor das contas — essas são propostas que não precisam de manipulação midiática ou estratégias de comunicação sofisticadas para se justificarem. São reformas que as pessoas perceberão, de imediato, como algo claramente benéfico.

Somadas a uma série de mudanças legais para favorecer a organização sindical — aproveitando os avanços da Lei de Direitos Trabalhistas (Employment Rights Act) do ano passado —, medidas concretas como essas poderiam reconstruir uma base leal para o Partido Trabalhista nas próximas décadas. O partido precisa se apresentar como uma força coesa e com identidade própria, na qual as pessoas confiem e cujos líderes sejam reconhecidos e respeitados. Nas áreas onde o voto trabalhista antes era "pesado, não contado", é difícil exagerar o desprezo que milhões de pessoas sentem por um partido que associam a figuras como Blair, Starmer e Mandelson — vistas nas telas de TV — e a feudos corruptos e autoritários de vereadores incompetentes em seus próprios bairros.

Esse sentimento vem se consolidando há décadas; hoje, existem várias gerações de eleitores da classe trabalhadora que não nutrem qualquer afinidade organizacional ou emocional com o Partido Trabalhista. Eles não têm experiência de o partido agir de forma clara em defesa de seus interesses contra outros grupos, nem memória histórica de uma época em que a legenda tivesse uma imagem ou postura diferente.

Essa situação é insustentável. Tanto as pesquisas de opinião quanto os resultados eleitorais demonstraram que o sentimento e a visão de Burnham ressoam junto ao público. No entanto, o Partido Trabalhista não pode sobreviver apenas de "clima" ou impressões superficiais. Caso ele desperdice tamanha boa vontade e se mostre tão desorientado quanto os governos anteriores ao enfrentar o declínio britânico, as áreas de classe trabalhadora que hoje votam no Reform e estão dispostas a ouvir Burnham sentirão uma profunda sensação de terem sido enganadas. Ele acabará tão odiado quanto Starmer (talvez até mais rapidamente), verá o Partido Trabalhista ser dizimado como força eleitoral relevante e entregará uma maioria esmagadora a Nigel Farage na próxima eleição geral.

O próprio Burnham parece ciente de que esta é a "última chance de mudança" para o Partido Trabalhista. Visto que o fracasso significaria entregar o poder ao governo mais reacionário da história britânica, resta torcer para que ele compreenda isso plenamente.

Colaborador

Marcus Barnett é o responsável pela área internacional do Young Labour e editor associado da Tribune.

6 de junho de 2025

Partisans do mundo

Para muitas pessoas que arriscaram suas vidas para derrotar o nazismo, ajudar os movimentos do pós-guerra contra um colonialismo moribundo, mas cruel, foi o próximo passo na luta para concretizar seus ideais antifascistas.

Marcus Barnett

Tribune

Mário Pinto de Andrade, Ana Maria Cabral, Pedro Pires e Basil Davidson na Praia, 1980 (Foto crédito: FMSMB / Arquivo Mário Pinto de Andrade)

Embora as crueldades do campo de concentração de Buchenwald tenham deixado Jean Berthet, de 22 anos, com problemas de memória que o perseguiriam por todos os seus 93 anos de vida, elas reafirmaram seus valores humanos com a mesma profundidade. Nascido no Vietnã colonial em uma família de mercadores franceses, o pequeno Jean foi ensinado a adorar a “civilização” exportada pelo Império Francês e a desprezar a imprevisível classe trabalhadora da França.

Após se juntar à Resistência em Paris, Berthet foi preso e deportado em 1944. Adaptando-se a uma existência definida por uma igualdade negativa de roupas surradas, dietas de fome e violência imprevisível, suas percepções de decência social mudaram drasticamente. A calma e a generosidade demonstradas por prisioneiros proletários, que ele antes consideraria selvagens, contrastavam fortemente com o comportamento dos “bem nascidos”, que roubavam dos outros e cuidavam apenas de si mesmos. Após a libertação, seu abandono do cristianismo e a adesão ao comunismo foram tão enfáticos que sua mãe tentou interná-lo em um asilo.

Essas paixões emancipatórias incipientes levaram Berthet a reexaminar todas as crenças — inclusive seu chauvinismo. Se vivesse em um país vizinho, ainda teria lutado contra os nazistas, já que “era antes de tudo uma luta contra a opressão, contra a humilhação”. À medida que 1945 avançava e ficava claro que a França se preparava para impor novamente tal situação a um povo vietnamita que também sofrera por lutar contra os aliados de Hitler, ele não poderia ter se sentido mais seguro sobre sua posição. “Ao retornar da deportação”, disse ele mais tarde ao historiador Martin Evans, “eu estava em sintonia com o Vietminh”.

Cenários tão miseráveis se repetiam por todo o continente. Com a derrota da Alemanha nazista em 8 de maio de 1945, soldados franceses na Argélia massacraram manifestantes que lutavam pela independência em Sétif e Guelma, deixando sua marca com valas comuns, execuções sumárias de crianças e cremações forçadas dos corpos das vítimas. Em Gana, três anos depois, autoridades britânicas assassinaram veteranos “nativos” das forças armadas britânicas, exigindo os benefícios que lhes eram devidos. Na África do Sul, soldados progressistas da Legião Springbok enfrentaram ataques de turbas simpatizantes do nazismo que se sentiram vitoriosas nas eleições do Partido Nacional, pró-apartheid, em 1948. O domínio britânico no Quênia baseou-se no que a historiadora Caroline Elkins chamou de “campanha assassina para eliminar” o povo Kikuyu, levando o líder da independência, Jomo Kenyatta, a fazer comparações com o nazismo.

Este momento de reafirmação bruta do colonialismo foi um esclarecimento político para uma geração de povos colonizados que lutaram pelos Aliados na suposição de que seriam recompensados com a independência nacional — especialmente porque a guerra demonstrou a fragilidade dos impérios mais antigos no confronto inicial com a Alemanha nazista. Mas o mesmo se aplicava a muitos europeus que pertenceram à “geração da resistência” contra a ocupação nazista e fascista, e para quem a aceitação de tais realidades políticas era uma afronta pessoal aos valores pelos quais arriscaram suas vidas e viram tantos de seus entes queridos e compatriotas morrerem.

A continuidade da recusa

Como comandante adolescente da organização comunista Franco-atiradores e Partidários (FTP) em Paris, Madeleine Riffaud teve um histórico de guerra heroico. Após atirar duas vezes na cabeça de um soldado nazista às margens do Sena, ela foi impedida de apontar sua arma contra si mesma por um fascista local, ansioso por receber sua recompensa por entregar uma “terrorista” à Gestapo. Condenada à morte, foi libertada em uma troca de prisioneiros mediada pelo consulado sueco e retornou a Paris, onde imediatamente se juntou aos seus companheiros e passou seu vigésimo aniversário encurralando um trem que transportava oitenta soldados nazistas e enormes quantidades de munições.

Sua repulsa à participação do Partido Comunista Francês no governo do pós-guerra levou ao colapso de seu casamento com um jovem e proeminente membro do partido, e Riffaud decidiu “tornar profissional” a denúncia de injustiças. Depois de ter feito amizade com testemunhas da brutalidade colonial na Argélia e no Vietnã, ela direcionou sua energia “especialmente contra o colonialismo: eu não queria que a França fizesse em outro lugar o que os nazistas queriam fazer aqui”. Esse posicionamento inequívoco, principalmente seu trabalho denunciando os crimes franceses na Argélia (e contra os maquis do Vietnã), vindo de uma heroína da Resistência de posição impecável, gerou muita ira da extrema direita francesa, e uma tentativa de assassinato por colonos pied noir a cegou parcialmente.

Tal compromisso também foi assumido por Adolfo Kaminsky. Nascido em 1925 em uma família judia com lealdades ao Bund, o adolescente Kaminsky foi um prolífico falsificador para várias células da resistência de Paris e salvou a vida de aproximadamente 14.000 judeus com seu trabalho de identificação falsa. Tendo ingressado nos serviços de inteligência franceses sob o comando do jovem François Mitterrand, a alegria de Kaminsky com a queda do nazismo foi seguida por uma consternação imediata com sua próxima ordem urgente — desenhar um mapa meticuloso do Vietnã para o exército francês. “Se a insurreição dos indo-chineses acontecesse”, pensou ele, “não deveria considerá-la comparável ao que a Resistência representou para os franceses? A palavra não existia na época, mas eu era profundamente anticolonialista.”

Após deixar o exército, seus instintos foram reforçados pelas indignidades diárias que presenciava trabalhando na Argélia como fotógrafo, sentindo repulsa pelo que os argelinos eram forçados a aceitar. Após a revolta da Frente de Libertação Nacional (FLN) em 1954, uma conversa com a cineasta e sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, Marceline Loridan, levou ao seu recrutamento para uma rede clandestina pró-FLN da qual ela participava. A rede foi organizada por Francis Jeanson, um companheiro de resistência que escreveu que interromper o domínio dos franceses na Argélia era apenas para os argelinos, além de também ser necessário para “libertar a França” de um regime de tortura e de uma sociedade que, aos olhos de Jean-Paul Sartre, trazia à mente “a recusa dos alemães de outrora, em relação a Dachau e Buchenwald, de denunciar o que não tinham visto com os próprios olhos”.

Integrado aos porteurs de valises de Jeanson, que incluíam dezenas de ativistas políticos franceses e ex-membros da Resistência, Kaminsky se destacou. Depois que Jeanson testou a reputação de Kaminsky pedindo dois passaportes suíços, ele reproduziu esses documentos supostamente infalsificáveis em 48 horas. Ele pegou armas de seu antigo depósito de armas da Resistência e organizou com a liderança da FLN uma entrega secreta. Alguns amigos e companheiros da Resistência, agora com visões divergentes, foram usados de forma criativa: ele escolheu o filho simpatizante da extrema-direita de um velho amigo para atuar como diretor fictício de sua empresa falsa e pediu a um amigo pró-pied-noir — cuja vida ele havia salvado — que escondesse um fugitivo da FLN (o amigo ficou furioso por ter sido pedido isso, já que detestava a política deles, mas estava em dívida com Kaminsky). Logo, o amigo se afeiçoou muito ao militante da FLN, comentando com Kaminsky que o argelino estava apenas “fazendo resistência, assim como nós”.

Nesse sentido, ele não estava sozinho. Na rede de Jeanson estava Madeleine Baudoin, uma veterana da Resistência que, sendo “totalmente a favor do terrorismo seletivo”, transferiu armas da época da guerra para a FLN e contatou antigos camaradas, como Jacques Meker, para fornecer abrigos seguros para membros da FLN em fuga. Adolf Spitzer, que atuou na clandestinidade comunista como um judeu parisiense fugitivo, sentia pouca diferenciação entre seu trabalho com a FLN e aquele contra os nazistas, já que a maioria de seus camaradas que libertaram a França eram de origem estrangeira e, portanto, também não “serviam ao seu próprio país”.

A rede Jeanson foi dissolvida em 1960, após prisões em massa de grande parte de seus membros. Julgado por alta traição à revelia, Jeanson declarou que isso lhes permitiu “anunciar a toda a França o nascimento de uma nova Resistência neste país”. Vários conseguiram fugir, escapando com sucesso da prisão até que uma anistia chegou após a vitória da FLN em 1962. Para aqueles mais próximos da ação, pensando em termos semelhantes de solidariedade e ação, o preço foi mais duro: nas montanhas argelinas, Maurice Laban e Georges Raffini — dois veteranos argelinos das Brigadas Internacionais e da Resistência à França de Vichy — morreram na guerra.

Rumo à Stalingrado africana

Em toda a África, milhões de pessoas assistiram com entusiasmo à luta argelina, tentando considerar a vitória da FLN em relação às suas próprias condições. Poucos lugares foram mais prováveis do que a África do Sul, onde a década de organização de movimentos de massa de resistência pacífica pelo movimento antiapartheid culminou na criminalização em massa do movimento, no massacre de 91 manifestantes em frente à delegacia de Sharpeville em 1960 e na supressão do Congresso Nacional Africano (CNA) no mesmo ano.

A partir dessa repressão, o CNA e o Partido Comunista Sul-Africano (SACP) — banidos uma década antes — concluíram que apelar à decência ou aplicar pressões democráticas regulares eram inúteis. Depois de Sharpeville, Ronnie Kasrils, de 23 anos, refletiu que “em praticamente todas as nossas mentes estava a necessidade de revidar” e “endurecer a luta”. Quando o Umkhonto we Sizwe (MK), o braço armado do movimento, surgiu em dezembro de 1961, Kasrils lia “praticamente tudo o que se podia” sobre guerrilha. “Che era importante para nós”, disse ele ao Tribune, mas também o era Julius Fučík, o combatente da resistência tcheca que, enquanto aguardava a execução em uma masmorra nazista, contrabandeou seus últimos escritos com a ajuda de um guarda solidário. “Você podia encontrar Reportagem ao Pé da Forca espalhadas pelas casas de muitos camaradas mais velhos — era verdadeira literatura de guerrilha.”

A Argélia libertada auxiliou o MK desde o início, com Nelson Mandela recebendo treinamento militar da FLN na fronteira com o Marrocos. Mas as estruturas iniciais do MK dependiam de comunistas que se voluntariaram para lutar na Segunda Guerra Mundial: Wolfie Kodesh e Fred Carneson, o oficial de explosivos do MK, Jock Strachan, o colega de Mandela em Rivonia, Rusty Bernstein, e Joe Slovo, que mentiu sobre sua idade para lutar contra os fascistas na Itália. Kasrils se lembra de seu mentor, Jack Hodgson, um ex-mineiro que enfrentou uma corte marcial por defender a União Soviética contra seu comandante, que descreveu o poderio militar de Hitler com júbilo quando a invasão nazista começou — mas, ridiculamente, Kasrils lembra, foi Hodgson quem enfrentou a acusação de “minar o moral”.

Após a primeira onda de atividade do MK levar a uma maior repressão, a organização começou a reorganizar a luta no exílio. A partir de 1963, centenas de soldados do MK foram enviados para treinamento militar e político na União Soviética. Treinados em Odessa, em um prédio usado pelos nazistas como local para assassinar antifascistas, a maioria dos instrutores eram veteranos de Stalingrado, Leningrado e da amarga guerra de guerrilhas. Kasrils lembra como líderes do MK, como Joe Modise, foram “extremamente inspirados” por figuras como Zoya Kosmodemyanskaya, uma guerrilheira adolescente torturada e assassinada pelos nazistas. O comunista soviético Vladimir Shubin lembra que, em Odessa, um comandante que serviu como guerrilheiro levava soldados do MK às montanhas e florestas da Crimeia para mostrar-lhes as trincheiras e os campos onde sua luta nacional foi travada.

Para Shubin, responsável por organizar o apoio político e prático soviético ao MK na década de 1980, a simpatia dos veteranos soviéticos por seus estudantes era clara e óbvia. “Eles entendiam facilmente a situação”, disse ele ao Tribune. “A ideia toda era muito conectada — que essa luta contra o colonialismo, contra o imperialismo, era a extensão de suas lutas na década de 1940.” Para os revolucionários distantes, essas figuras eram a prova viva de que, independentemente da dureza da luta, a vitória era inevitável. “Eles nos lembraram”, disse Kasrils ao Tribune, “que os nazistas já haviam impresso ingressos para jantares em Leningrado; eles estavam muito confiantes de que iriam varrer a União Soviética.”

Shubin também lembrou como a experiência da geração dos anos 1940 ajudou a moldar uma dimensão histórica à linguagem usada por uma nova geração de combatentes, lembrando-se de um soldado indiano do MK que se apresentava aos moradores locais como “um antifascista sul-africano”. Esse senso de utilidade na experiência anterior claramente continuou nas décadas de 1970 e 1980, à medida que os movimentos de libertação se aproximavam da vitória. Em 1985, o guia do SACP para treinamento de quadros clandestinos, How to Master Secret Work [Como Dominar o Trabalho Secreto], traçou uma continuidade histórica entre os métodos do chefe zulu Bhambatha, do século XIX, na organização da revolta anticolonial nas florestas de Kandla e a “vigilância e autocontrole” da Resistência Francesa. Mesmo hoje, os movimentos que agora governam Angola, Namíbia e África do Sul celebram a Batalha de Cuito Canavale — uma derrota crucial para o domínio branco na África Austral — como a Stalingrado africana.

A onda comum de esperança

Ao refletir sobre suas três décadas de trabalho em prol da libertação nacional e de movimentos antifascistas em vários continentes, Adolfo Kaminsky disse à filha que “muitas pessoas não conseguem compreender qualquer compromisso com causas após o fim da Segunda Guerra Mundial”. Tal sentimento, sem dúvida, aplica-se a inúmeras pessoas que percebem a luta daquele conflito como uma perturbação temporária da normalidade, optando por se relocalizar mentalmente ou simplesmente descartar a noção de que alguém mais possa ousar conduzir uma insurgência igualmente justa contra sua própria subjugação nacional.

Isso se aplica hoje. Em fevereiro de 2025, o jornalista francês Jean-Michel Aphatie comparou o massacre nazista de 643 franceses na vila de Oradour-sur-Glane às atrocidades coloniais francesas. “O massacre de uma vila inteira — cometemos centenas deles na Argélia — temos consciência disso?” Não foi tão desconfortável quanto mencionar continuidades históricas diretas nos projetos fascistas e imperialistas da França, como o espectro de Maurice Papon, o chefe de polícia responsável tanto pela deportação em massa de judeus parisienses para campos de concentração em 1943 quanto pelo afogamento de centenas de manifestantes argelinos no Rio Sena em 1961 — mesmo comparações simples ainda são inadmissíveis. Após um furor, Aphatie renunciou, recusando-se a retirar suas próprias palavras.

Em seu Discurso sobre o Colonialismo, Aimé Césaire escreveu como os governantes coloniais europeus não podiam aceitar que o nazismo “aplicasse à Europa procedimentos colonialistas que até então eram reservados exclusivamente às populações colonizadas”. Inversamente, não podiam aceitar que os governantes coloniais aprendessem as lições de como a Europa anulou tal “barbárie avassaladora” em suas próprias terras.

Mas na era do pós-guerra que Malcolm X descreveu como a “grande onda”, o gênio havia saído da garrafa. Para Basil Davidson, cujas experiências de guerra nos grupos partisanos italianos e iugoslavos o fizeram muitas vezes escapar por pouco da morte e organizar uma revolta partisana que forçou a rendição nazista em Gênova, sua lembrança marcante era o desejo entre os europeus libertos por uma normalidade livre de “todo o desespero no fundo do poço”. Na vida de Davidson no pós-guerra como escritor, relatando diferentes lutas de libertação nacional em toda a África, ele viu as mesmas aspirações em um continente “unido por uma onda comum de esperança”. Seus escritos, hoje tão negligenciados, foram elogiados por figuras como o revolucionário bissau-guineense Amílcar Cabral, que elogiou seus escritos por terem “estimulado aqueles que haviam decidido seguir em frente” para lutar contra os ocupantes portugueses e “encorajado consideravelmente os hesitantes”.

À medida que as últimas figuras que acabaram à força com o fascismo na Europa nos deixam, este é o vital “legado da Resistência” — que muitos veteranos da Resistência antifascista, após terem derrotado a linha mais agressiva do imperialismo na figura de Adolf Hitler, não se retiraram da arena política, mas continuaram a desempenhar um papel nada insignificante no auxílio às lutas dos povos em todo o mundo. “Por trinta anos, lutei contra uma realidade angustiante demais para observar ou sofrer sem fazer nada a respeito”, refletiu Adolfo Kaminsky. “Meu envolvimento em todas essas lutas foi apenas o reflexo lógico do que fiz durante a Resistência.” Ou, para usar as palavras finais de Madeleine Riffaud em uma das últimas entrevistas que concedeu antes de sua morte em 2024: “Depois de tudo o que passamos, não podíamos viver como os outros.”

Marcus Barnett é militante internacional da Young Labor e editor associado do Tribune.

29 de dezembro de 2021

A judia socialista que tentou matar Hitler

Desde a divulgação de escritos antifascistas até a atuação como agente disfarçada na Alemanha nazista, a socialista judia Hilda Monte tornou-se uma das mais formidáveis agentes da resistência. Ela até participou de um plano abortado para matar o próprio Hitler.

Marcus Barnett


A socialista judia Hilde Meisel. (Wikimedia Commons)

Tradução / No dia 17 de abril de 1945, a sorte de Hilda Monte acabou. Por circunstâncias desconhecidas, na fronteira entre a Alemanha nazista e a neutra Liechtenstein, a socialista e guerrilheira da resistência foi morta nas últimas semanas de guerra na Europa.

No entanto, apesar de sua aparente aptidão para esconder detalhes sobre sua vida a fim de permanecer sendo uma militante anônima na luta antifascista, Monte teceu uma fascinante história de 31 anos de vida, que hoje destaca as histórias esquecidas de muitos alemães desconhecidos que chegaram ao ponto de lutar contra o regime nazista – mas também de um esforço muito desconhecido por parte de um fundador da Tribune, sua antiga editora, para financiar uma tentativa de assassinato de Hitler.

Uma jovem resistente

Nascida Hilde Meisel em 1914 de uma família judia em Viena, os pais de Monte mudaram-se para Berlim, onde já haviam vivido em 1915. Foi no cenário explosivo de Berlim dos anos 20 que ela se politizou, juntando-se a sua irmã Margot na Schwarze Haufen (Companhia Negra), um movimento da juventude socialista judaica que adotou seu nome inspirado em um grupo rebelde nas revoltas dos camponeses alemães do século XVI.

Foi aqui que Margot conheceu Max Fürst, com quem logo se casou. Em seguida, trabalhou como secretária de seu amigo Hans Litten, o advogado que notoriamente ousou interrogar Hitler por três horas em um tribunal em 1931- e que terminou sua vida uma década depois no campo de concentração em Dachau.

Meisel estava à esquerda da social-democracia alemã desde 1928. Mudando-se para a Inglaterra um ano depois, ela se tornou uma estudante independente de Harold Laski na Faculdade de Economia de Londres. De lá, ela parece ter trabalhado por algum tempo nas minas alemãs do Ruhr antes de se juntar à equipe editorial do Der Funke (A Faísca), o jornal da Internationale Sozialistische Kampfbund (ISK), fração socialista do Partido Social Democrata da Alemanha (SPD) que pediu em vão uma unidade da esquerda contra o nazismo.

Depois que os nazistas reprimiram o Der Funke em fevereiro de 1933, Monte assumiu então a responsabilidade de organizar grupos ilegais, mudando-se brevemente para Cologne para fazer o que ela descreveu como trabalho de “serviço de fronteira” – ajudar a contrabandear figuras do movimento sindical e e apoio financeiro para os países vizinhos, Holanda, Bélgica e Suíça, enquanto contrabandeava literatura proibida para a Alemanha nazista. Após seu retorno a Berlim, ela criou organizações de propaganda socialista clandestinas, organizando oposição em massa para o plebiscito de agosto de 1934, que confirmou Hitler como o Führer.

Depois de se mudar para Paris para participar do conselho editorial do jornal Sozialistische Warte (Socialista Outlook), Meisel ainda continuou fazendo viagens regulares para a Alemanha, ajudando grupos sindicais clandestinos, e envio de “propaganda e outros materiais” para o país, até mudar-se para a Inglaterra, em 1936. No entanto, as missões estavam se tornando cada vez mais difíceis. Prisões em massa tinham atingido o ISK duramente em 1937 e 1938, levando Monte a retornar à Alemanha para completar algumas tarefas necessárias durante os próximos meses.

Foi durante este período que os tambores de guerra batiam cada vez mais alto. Neste momento de grande intensidade, Meisel rompeu com o ISK por causa de sua aparente falta de militância. Naquele mesmo ano de desespero, Monte entrou em um casamento de fachada com John Olday, um artista gay alemão que havia lutado na Revolta Spartacista de 1918-19 e cuja herança meio escocesa lhe ofereceu – e a ela – a relativa segurança de um passaporte britânico.

Combatente de guerra

Também é provável que este foi o ano em que ela se encontrou pela primeira vez com George Strauss. Strauss, o deputado trabalhista de Lambeth North e futuro ministro do gabinete de Harold Wilson, era um jovem, rico e idealista de esquerda que, após o início da Guerra Civil espanhola, ajudou a financiar, estabelecer e organizar a Tribun a fim de – nas palavras de seu primeiro exemplar de janeiro de 1937 – “defender um socialismo vigoroso e exigir resistência ativa ao fascismo no país e no exterior”.

Em 1946, em uma revelação não característica para o Sunday Times, Strauss admitiu que no final dos anos trinta ele tinha financiado uma empresa misteriosa chamada Union Time Ltd. Embora fosse, formalmente, uma assessoria de imprensa, a organização era na realidade uma fachada para vários emigrantes alemães que trabalhavam em vários campos profissionais para incentivar a opinião antinazista na Grã-Bretanha e combater a propaganda nazista em geral. Foi a Union Time Ltd que tinha acobertado, entre muitas outras, as atividades de Meisel, que se aproximou deles com planos para assassinar Hitler – e ao fazê-lo, talvez conseguissem evitar o iminente estouro da guerra.

Os detalhes exatos sobre os acontecimentos são, como muitos aspectos da vida de Meisel, pouco claros. Parece que depois de voltar a Londres de um período organizando unidades clandestinas na Alemanha, ela se aproximou de Strauss pedindo dinheiro para assassinar Hitler. Strauss enviou-a para a cidade de Londres para se encontrar com Werner Knop, um jornalista financeiro ligado à Union Time Ltd. Em um artigo do Saturday Evening Post de 1946 sobre o caso, Knop escreveu que Strauss visitou-o em maio de 1939 para perguntar se ele iria encontrar um “visitante incomum” com uma “proposta incomum”. Ele foi então apresentado a Meisel, que descreveu seus planos.

Depois de reconhecer a “qualidade de convencimento” de Meisel, bem como sua “frieza”, Knop lhe concedeu o apoio financeiro necessário. Em uma viagem a Cologne, Monte recebeu parte de suas despesas para a viagem, com outra parte a ser recolhida por uma pessoa de confiança. Esta figura tinha sido informada para segui-la durante sua estadia na Alemanha, caso ela fosse uma provocadora ou uma farsante; o contato relatou que ela havia desaparecido dentro de 30 minutos após a coleta do dinheiro, fazendo com que Knop refletisse que eles tinham “pelo menos uma prova negativa de que ela era veterana nos truques do ramo do mercado clandestino”. Monte tinha avisado Knop que em 18 de julho, seu grupo realizaria um “ataque de demonstração” – naquele dia, 9 pessoas no Strength Through Joy, fretado pelos nazistas, foram mortas em uma explosão na sala das caldeiras.

Ao mesmo tempo, ela não era a única cidadã britânica radical em Cologne sob ordens. O jovem anarquista Albert Meltzer também foi enviado à cidade por exilados anarquistas alemães, com ordens para passar documentos clandestinos aos camaradas de lá – a esperança de que a cidadania britânica de Meltzer o protegeria de quaisquer intromissões das potenciais de segurança. Embora na época ele pensasse que os documentos estavam “relacionados à emigração”, ele foi mais tarde informado pelo anarquista Willy Fritzenkotter que eles eram para “a evasão de [um] ataque planejado” na tentativa de assassinato que nunca aconteceu. Ele conheceu Meisel com Fritzenkotter, lembrando seu “incomum” apoio de Strauss.

A história diz que o que quer que tenha acontecido com Meisel e os seus contatos, o seu atentado organizado contra Hitler nunca aconteceu. Mas dois meses depois, em 8 de novembro de 1939, uma bomba relógio projetada por Georg Elser detonou no Bürgerbräukeller em Munique, matando 8 pessoas e ferindo 62 nazistas — perdendo Hitler por apenas 7 minutos.

Há uma especulação aberta sobre se Meisel estava diretamente ligada a esta explosão da bomba de Elser; seu marido, John Olday, certamente pensou assim. Seu camarada de longa data na ISK, Fritz Eberhard, tinha a mente mais aberta, porém, embora ele acreditasse ser “altamente improvável” que ela tivesse algo a ver diretamente com isso, ele declarou a possibilidade de que ela tivesse “feito uma transferência financeira para o assassino Elser como parte de seu trabalho no Union Time”, particularmente porque era claro que a tentativa de Elser de tirar a vida do Führer era um empreendimento planejado a longo prazo.

O início da guerra

Após seu rompimento com o ISK e o fracasso ocidental em deter o fascismo antes de lançar o mundo na guerra, Meisel viveu com o artista austríaco Hannes Hammerschmidt e sua esposa Tess na cidade de Sleights, junto aos pântanos de North Yorkshire. Ela mudou seu codinome clandestino para Hilda Monte e começou a escrever regularmente em inglês para a Tribune, o Left News de Victor Gollancz, e foi co-autora de um livro, How to Conquer Hitler, com Eberhard. Ela se tornou uma professora popular da Associação de Educação dos Trabalhadores, e também encontrou trabalho como assessora do Comitê Internacional do Trabalho, que governa o Comitê Executivo Nacional.

Dirigido por William Gillies, o Comitê Internacional esteve envolvido no resgate de importantes social-democratas alemães e foi fortemente apoiado pelo ministro do Trabalho para a Guerra Econômica Hugh Dalton e Dick Crossman, o chefe de propaganda e chefe do “bureau alemão” de Dalton. Sendo trazida para o Ministério da Guerra Econômica, Meisel começou a trabalhar com Walter Auerbach, um funcionário alemão da Federação Internacional dos trabalhadores dos Transportes (ITF) transmitindo para a Alemanha a partir da estação de rádio de esquerda de Crosman, SER (Transmissor da Revolução Europeia).

No Ministério, Monte trabalhou no Comitê Paritário da Europa Central. Como o Ministério era o pai do Executivo de Operações Especiais (SOE), que foi formado por Churchill para “incendiar a Europa ocupada” com sabotagem, assassinato e armadilhas obscuras, a veterana internacional Meisel encontrou um papel perfeito para seu nicho e foi enviada para Lisboa em 1941, onde atuou como mensageira de telegramas internacionais usando os códigos tanto do SOE quanto do ITF.

Embora pareça que ela estava destinada a ir para a Suíça e desocupar a França para construir laços com refugiados antifascistas alemães, italianos e espanhóis, estes planos parecem ter se chocado com um muro, e Monte permaneceu em Lisboa até junho de 1941. Lá, conheceu Peter Leopold, um exilado alemão que vive em Marselha, que a substituiu enquanto ela mesma estabelecia um serviço de distribuição de literatura alemã antinazista.

Em Londres e na neutra Suécia, os líderes exilados da ITF estavam trabalhando para contrabandear informações, dinheiro e fugitivos em embarcações, navios e trens que entravam e saiam da Alemanha nazista, com conexões muito mais estabelecidas e profissionais do que o serviço secreto britânico. Embora a deliberada destruição pós-guerra de arquivos SOE torna isso difícil de determinar, é mais do que possível que foi assim que Monte voltou para Londres após suas missões no exterior.

Uma vez na Inglaterra, ela continuou seu trabalho de propaganda, usando o conhecimento em primeira mão de seus contatos na resistência em seus apelos ao povo alemão. Em uma transmissão de rádio da BBC de 1943, ela fez uma das primeiras referências ao Holocausto no mundo ocidental:

"O que está acontecendo hoje na Polônia, o extermínio a sangue frio do povo judeu, está sendo feito em seu nome, em nome do povo alemão. Mostrem a sua solidariedade com estas pessoas, mesmo que isso requeira coragem — especialmente se requer coragem."

Em 1942, Victor Gollancz publicou “Help Germany to Revolt”, outro livro co-escrito com Eberhard, no qual eles disseram ao leitor que:

"Sentimos que você e alguns dos seus camaradas do Partido Trabalhista estão começando a compreender que hoje recai uma enorme responsabilidade sobre estes últimos vestígios do socialismo Europeu que existem na Grã-Bretanha. As massas oprimidas do continente procuram no Movimento Trabalhista Britânico orientação e assistência na luta pela sua libertação e o estabelecimento, após esta guerra, de uma Comunidade Europeia... e só há uma maneira de lançar essa base: fazendo uma revolução alemã."

A Europa em chamas

Em setembro de 1944, Monte voltou novamente para trás das fileiras como agente “Crocus” do Escritório de Serviços Estratégicos dos Estados Unidos, organizado por “Wild” Bill Donovan – que tinha recrutado manadas de antifascistas fortes, veteranos da Brigada Internacional, e diversos radicais para suas fileiras. Monte e Anna Beyer se tornaram agentes do Projeto Faust e foram treinados perto de Londres no verão de 1944 para atuar como agentes infiltradas dentro da Alemanha nazista.

Após ser pilotado por um Lysander da RAF e pousar em um prado próximo ao Lago de Genebra, a Resistência Francesa levou Monte e Beyer de caminhão para um túnel ferroviário em desuso. Lá eles encontraram um oficial do Exército Britânico que os levou para a cidade fronteiriça chamada Thonon-les-Bains, onde eles esperaram quatro semanas por uma conexão. O socialista suíço René Bertholet, que tinha trabalhado com Monte no Der Funke e tinha sido preso na Alemanha nazista, também se tornou um agente da SOE, e tinha arranjado o trabalho de fachada — em uma garagem em Montauban — para o agente mais bem sucedido da SOE, Tony Brooks.

Brooks havia sido largado na França ocupada aos 20 anos, onde os combatentes da resistência o enviaram de bicicleta e de trem para um café em Toulouse. Lá ele reconheceu Bertholet – não como seu contato com SOE, mas como um amigo de sua família na Suíça antes da guerra. Com a ajuda de ferroviários ilegais da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Brooks e Bertholet organizaram sabotagem ferroviária entre Toulouse, Marselha, Lyon e a fronteira suíça. E logo foi Bertholet que levou Monte e Beyer para a Suíça, onde Monte recebeu novos documentos e foi designada como mensageira para Jupp Kappius, um socialista alemão que foi para a Alemanha de paraquedas pela RAF no final de 1944 para uma campanha de sabotagem.

Com a exceção de um currículo mal escrito descoberto nos arquivos de guerra, é claro que Monte estava muito consciente que precisava deixar pequenos vestígios de suas atividades para trás. Sabemos que ela se encontrava na Áustria em 16 de abril de 1945, quando o Exército Vermelho lançou seu ataque final em Berlim. Após uma missão para o grupo de resistência austríaco “05”, e com papéis identificando-a como Eva Schneider (supostamente uma funcionária pública com endereço domiciliar em Berlim bombardeada), ela estava andando pela densa floresta de Rappenwald, perto da fronteira com Liechtenstein, com uma arma e quase três mil Reichmarks em sua mochila.

Às 3:45 da manhã, ela encontrou uma patrulha de fronteira; depois de contar aos funcionários que ela estava entregando duas na Suíça de Joseph Goebbels (para presumivelmente justificar seu manuseio de uma pistola), ela persuadiu a patrulha a destacar um único guarda para escoltá-la até o Hauptzollamt em Tisis.

Em um ponto na fronteira a apenas 150 metros do território de Liechtenstein, Monte fugiu para a Suíça. O guarda austríaco alvejou-a uma vez, atingindo a coxa direita. A bala encravou numa artéria e ela sangrou até à morte. As forças aliadas levaram meses para informar seus pais, que estavam refugiados no Cairo, e registros austríacos não revelariam seu destino até 1947.

Quando Victor Gollancz publicou seu romance Onde a liberdade pereceu após o fim da guerra, a editora da Tribune Jennie Lee escreveu a introdução. Enaltecendo a “lástima e o desperdício” que a morte de Monte gerava, ela também anunciou o “trabalho perigoso” que caracterizou toda a sua vida adulta, escrevendo que “ela sabia” como sua captura significaria “prisão, tortura e morte”. E lembrou que “Hilda Monte, uma e outra vez, caminhou sozinha através da fronteira.”

Mas quando Hilda Monte morreu, foi Raymond Postgate da Tribune, seu camarada e editor, que deu a notícia de sua morte na edição de 29 de junho de 1945. Descrevendo sua vida, ele sugeriu que fizesse a candidata parlamentar conservador e proeminente simpatizante fascista Eleonora Tennant “pausar” sua campanha contra a presença de refugiados judeus. “Enquanto nenhuma medalha e nenhum título é concedido ao seu tipo” pela classe dominante deste país, Postgate escreveu, “os socialistas britânicos honrarão seu nome e lembrarão esta mulher, que deu sua vida a serviço de nossa causa”.

Republicado de Tribune.

Sobre o autor

Marcus Barnett é militante internacional da Young Labor e editor associado do Tribune

18 de julho de 2020

Trabalhadores desempregados podem revidar

No Reino Unido, na era da Depressão, o Movimento Nacional de Trabalhadores Desempregados mobilizou milhares para resistir às indignidades do desemprego. Estamos entrando em outro período de crise econômica massiva - e assim como os trabalhadores naquela época, os trabalhadores desempregados de hoje podem revidar.

Marcus Barnett

Jacobin

A filial de Saint Pancras do Movimento do Comitê Nacional de Trabalhadores Desempregados realiza uma demonstração para exigir "trabalho ou manutenção" em março de 1925. (Topical Press Agency / Getty Images).

Tradução / Em seu discurso de boas-vindas no Trades Union Congress de 1922 em Southport, a prefeita da cidade, Christiana Hartley, aproveitou a oportunidade para expressar a ignorância de sua classe social. No discurso, a prefeita – uma herdeira da fortuna dos Hartley – ridicularizou o crescente sentimento de injustiça sentido por milhões, perguntando aos delegados:

Por que toda essa agitação? O que aflige os trabalhadores? Parece que, para nos recuperarmos das consequências da guerra, estamos tentando conseguir algo em troca de nada. Existe muito egoísmo; esse é o resultado de todo o mal. Não devemos pedir o impossível.

As declarações de Hartley foram refutadas pelo líder dos mineradores, Bob Smillie, e pelo futuro líder trabalhista George Lansbury, que castigaram sua arrogância. Para os milhões diretamente afetados pela guerra, ficou claro que o governo de coalizão liberal-conservador não tinha intenção de produzir uma sociedade adequada para os heróis, e o armistício trouxe apenas novos problemas. Milhares de soldados foram largados ao seguro-desemprego, enquanto dezenas de trabalhadores empregados nas indústrias de guerra também se viram somando a pilha de sucata. No final de 1920, cerca de 6% da população estava desempregada.

Em 18 de outubro de 1920, enquanto os mineradores iniciavam uma greve nacional, mais de 20.000 trabalhadores e ex-militares desempregados se enfrentaram com 1.600 policiais na Rua Downing. Em uma batalha que durou um dia, os manifestantes destruíram a balaustrada de pedra que protegia o Congresso e ergueram barricadas de trilhos arrancados de Whitehall, muitos saíram da “Batalha de Downing Street”, sentindo que os desempregados poderiam se tornar uma força política.

Se organizando

Embora existissem comitês de assistência a desempregados em muitas cidades, eles geralmente tinha pouco propósito além da caridade. Não era uma visão incomum nas grandes cidades ver grupos de desempregados rivais brigando entre si por pelas principais ruas nas quais podiam mendigar. Mas nas semanas seguintes ao protesto, um Conselho Distrital de Desempregados de Londres foi formado rapidamente, com delegados representados em trinta e um distritos de Londres.

Entre as novas lideranças desempregadas estava Walter Hannington. Um jovem fabricante de ferramentas, conhecido como “Wal”, que era um marxista autodidata que ganhou notoriedade por erguer a bandeira vermelha sobre seus trabalhos de engenharia no dia em que a guerra terminou e liderou o “Soviete de Slough”, um depósito de transporte governamental notoriamente militante.

Após a criação de uma organização em Londres, ficou claro que o quadro nacional era igualmente volátil. O “benefício de doação” especial do pós-guerra, de 29 xelins por semana, vital para o sustento de milhões de ex-militares, terminou em março de 1921. Dois meses depois, o desemprego era de 2.126.800.

Em todas as grandes cidades, dezenas de milhares de trabalhadores desempregados estavam realizando manifestações, confrontos com autoridades, ocupando prédios públicos e interrompendo os negócios diários das autoridades locais. A partir dessa energia, foi formado o Movimento Nacional de Trabalhadores Desempregados (NUWM).

Embora o NUWM tenha reivindicado diversas demandas em diferentes disputas, a luta central da organização era simples: trabalho ou manutenção completa dos auxílios acordados pelo sindicato. A organização destacaria os efeitos paralisantes dos cortes no subsídio de manutenção e a falta de interesse do governo em fornecer trabalho, garantindo que as comunidades afetadas pelo desemprego fossem organizadas para resistir às indignidades de uma sociedade indiferente.

Mas a autodefesa não era o único objetivo: o cerne do NUWM era o compromisso de mudar toda a ordem social. O juramento que os membros do NUWM realizaram reflete o compromisso encontrado em suas fileiras:

Eu, um membro do grande exército de desempregados, estando sem trabalho e compelido a sofrer sem nenhuma culpa de minha parte, juro solenemente com toda a força e resolução de meu ser, obedecer lealmente e seguir as instruções do Movimento do Comitê Nacional de Trabalhadores Desempregados, com a intenção deliberada de avançar com as reivindicações dos desempregados, para que nenhum homem, mulher ou criança tenha fome ou necessidade este inverno.

Além disso, percebendo que somente pela abolição desse hediondo sistema capitalista é que o horror do desemprego pode ser removido de nosso meio, eu aqui e agora assumo um juramento vinculativo, para nunca deixar de militar ativamente contra esse sistema até que o capitalismo seja abolido e nosso país e todos os seus recursos realmente pertençam ao povo.

Uma das primeiras campanhas do NUWM foi planejar invasões de locais de trabalho em todo o país. Nessas ações, grupos de desempregados se infiltravam nos locais de trabalho conhecidos por acabar com os regimes de horas extras e protestavam na esperança de pressionar os chefes a diminuir as horas extras e aumentar o salário dos trabalhadores. Esses “ataques” se tornaram uma ferramenta popular e bem-sucedida de agitação, principalmente para trabalhadores de engenharia que estavam desempregados em Londres.

Além de ajudar milhares de pessoas a receberem o dinheiro da assistência adequada, o NUWM mobilizou comunidades inteiras contra a ameaça de falta de moradia. Em cidades como Sheffield e Glasgow, surgiram enormes confrontos com a polícia depois que centenas de trabalhadores desempregados acabaram impedindo que oficiais de justiça jogassem famílias nas ruas. Em partes de Londres, os militantes do NUWM frustrariam os proprietários de casebres pegando os móveis de uma família despejada e os instalando em acomodações desocupadas, usando a simpatia popular com os despejados para forçar um arranjo decente para os inquilinos inesperados do proprietário.

Como muitos membros do NUWM eram sindicalistas firmes, a organização acreditava em seu potencial como auxiliar de solidariedade para se relacionar com trabalhadores empregados que lutam contra baixos salários ou por melhores condições. Os militantes do NUWM eram frequentadores regulares de piquetes, com uma mobilização particularmente bem-sucedida ocorrendo em Ipswich em 1922, onde, de acordo com um secretário regional das docas do Sindicato dos Transportes e Trabalhadores Gerais, mais de um quinto dos cinco mil trabalhadores desempregados da cidade se juntou às fileiras dos NUWM para “piquetar energeticamente” nas docas e “auxiliar os grevistas em todas as direções possíveis”. A mobilização foi tão forte que apenas vinte crostas minaram a greve e a disputa foi vencida em quinze dias.

O NUWM também foi lembrado pelo forte simbolismo de suas comemorações do Dia do Armistício. No Domingo de Recordação de 1922, mais de 25 mil veteranos do NUWM marcharam em silêncio por Whitehall atrás de bandeiras vermelhas e faixas de galhos. Em um ato que Hannington descreveu como “uma acusação contra o sistema que elogia os mortos e condena os vivos à fome”, os membros do NUWM prenderam suas medalhas de guerra em suas bandeiras e estandartes, enquanto penduravam os recibos das lojas de penhores nas lapelas de seus casacos. A frente da procissão havia uma grande coroa de flores com uma inscrição que dizia: “Das vítimas vivas – os desempregados – aos nossos camaradas mortos, que morreram em vão”. Enquanto a polícia de Londres marchava ao lado deles, uma banda de música do NUWM tocava a “Internacional” e “The Red Flag”. Hannington relembrou as cenas da multidão:

“Quem são essas pessoas?” perguntou uma jovem na calçada. “Eles são os desempregados”, respondeu sua colega. “Então boa sorte para eles”, disse a primeira garota amargamente, quase selvagemente. “Vergonhoso”, bufou um velho, com uma criatura jovem vestida de peles no braço. “Esses homens são bolcheviques”, disse ele. “Mas olhe para as medalhas”, disse a garota. Uma mulher de xale preto se virou contra o velho. “Cale a sua maldita boca! Se você estivesse desempregado há tanto tempo quanto meu velho, seria bolchevique.” Um murmúrio de aprovação atravessou a multidão.

Marchas famintas

Conforme o NUWM ganhava força, muitos começaram a sentir que uma manifestação nacional para direcionar todo o descontentamento para Westminster era possível. Após uma marcha de trinta trabalhadores desempregados de Birmingham para Londres, o prefeito de Poplar – então um bairro “rebelde” por sua resistência ao governo – disse que mais trabalhadores marchando para Londres faria o governo “acordar para suas responsabilidades”. Esse sentimento foi ecoado pelo Daily Herald, o jornal editado por George Lansbury, que sugeriu umaa declaração política para ser feita se “meia dúzia de desempregados de cada cidade saísse para encontrar o Premiê em um determinado dia.”

As rodas começaram a girar em prol da primeira marcha nacional pela fome. Em outubro de 1922, um mês depois que a liderança do NUWM convocou as filiais para organizar manifestantes que “devem ter em seus corações a causa pela qual lutamos: a emancipação de nossa classe”, trabalhadores desempregados do setor de ferro e aço partiram da Escócia para serem atendidos por estivadores, mineradores, operários e engenheiros desempregados de todas as partes do país. Caminhando pelas cidades enquanto ziguezagueavam pelo país, passavam as noites no chão das casas de trabalho ou, se a área tivesse presença Trabalhista ou Comunista, em acomodações arranjadas pelos socialistas locais.

Quando os manifestantes começaram a entrar em Londres na quarta-feira, em 15 de novembro de 1922, o resultado das eleições gerais foi declarado. Os conservadores de Andrew Bonar Law triunfaram, mas os trabalhistas empurraram os liberais para o terceiro lugar pela primeira vez, ganhando 142 cadeiras e apenas um milhão de votos do que os conservadores. Uma manifestação foi declarada para o domingo, com a intenção de fazer Bonar Law exigir que os manifestantes o encontrassem. No comício estava o parlamentar comunista trabalhista recém-eleito por Battersea, Shapurji Saklatvala, que disse às multidões que “desde a revolução na Rússia em 1917, a humanidade descobriu outra cura para o desemprego”.

Previsivelmente, Bonar Law se recusou a falar com os manifestantes. Em resposta, eles decidiram ficar. Várias marchas, comícios e reuniões ocorreram durante o resto do ano e no início de 1923. A imprensa tabloide estava frenética, com jornais como o Pall Mall Gazette afirmando que os manifestantes estavam armados e telegrafaram para Moscou para dizer: “Nós marchamos com um Exército Vermelho para a capital do Império.” Mais homens substituíram os manifestantes exaustos, enquanto discussões e divergências começaram a minar o entusiasmo.

Um jovem manifestante estava tão exausto com Londres no inverno que quebrou uma janela de uma confeitaria para que a polícia o colocasse em uma cela durante a noite e o levasse para casa. Bonar Law ainda sentia a pressão, no entanto, e rebateu as zombarias dos parlamentares trabalhistas no Parlamento dizendo: “estou farto de ouvir sobre os manifestantes desempregados e não quero ter mais nada a ver com eles”.

A primeira marcha nacional pela fome foi formalmente cancelada em fevereiro de 1923, e Bonar Law nunca recebeu uma delegação. Mas para os líderes do NUWM, o poder das marchas da fome não poderia ser reduzido ao fato de o governo ter feito concessões políticas imediatas. Em suas memórias, Hannington escreveu sobre o “efeito acumulativo” dos manifestantes no movimento. Em pequenas cidades e vilas por todo o país – comunidades que muitas vezes não foram afetadas pela intensidade da luta de classes – milhares foram atraídos pela capacidade do manifestante de trazer a situação difícil das principais áreas industriais para sua localidade. Essa simpatia ativa freqüentemente se transforma em luta política, à medida que essas áreas começam a formar seus próprios ramos a partir do NUWM e outras organizações do movimento trabalhista. Hannington escreveu:

O governo zombou quando o primeiro contingente partiu para marchar mais de 500 milhas num clima invernal severo. A imprensa capitalista se esforçou para ridicularizá-la e falou dela como uma tarefa impossível, mas conforme o exército de manifestantes avançava de cidade em cidade, contingente após contingente surgia, de acordo com o plano, para tomar a estrada. Conforme eles avançavam em direção Londres de todas as partes da Grã-Bretanha, um exército de homens esfarrapados, sombrios e determinados, rompendo todas as barreiras e lutando para avançar contra enormes adversidades, o governo tinha motivos para se preocupar com a maneira como o povo estava sendo agitado pelos manifestantes.

Luta e conflito

Acrise econômica de 1929 viu outros milhões de trabalhadores retornarem ao desemprego, enquanto indústrias inteiras entraram em colapso. O radicalismo que emergiu da Primeira Guerra Mundial ecoou em um ressurgimento intenso e amargo nos anos 1930 em diante. Em outubro de 1931, uma grande manifestação de membros do NUWM em Salford desembocou numa briga com a polícia que foi apelidada de “Batalha de Bexley Square” (e mais tarde imortalizada no filme de Walter Greenwood, Love on the Dole).

Cenas semelhantes eclodiram no ano seguinte nos estaleiros de Birkenhead, onde um levante de desempregados viu milhares de pessoas erguendo barricadas e temporariamente expulsando a polícia da cidade. Os motins de Birkenhead foram homenageados em um canto escrito por Ewan MacColl, então um jovem militante do NUWM de Salford:

Avante desempregados, avante desempregados
Pela Vanguarda do NUWM, lutaremos contra os cortes outra vez
Da luta de Birkenhead, aprendemos bem nossa lição
Mandaremos o governo nacional para o chão.

Este padrão de política definiu o tom para a resistência da classe trabalhadora nas áreas industriais e – apesar da antipatia da ala direita do Partido Trabalhista em relação ao NUWM – manteve centenas de milhares de pessoas alinhadas ao movimento trabalhista. Ao contrário da Alemanha, onde os nazistas fizeram grandes avanços entre os desempregados, o NUWM garantiu que as lições fossem aprendidas.

Durante os anos 1930, Wal Hannington argumentou que a “desunião, hesitação e dúvida” entre a esquerda alemã fazia com que os desempregados simpatizassem com as soluções fascistas. Ele argumentou que a agitação do NUWM havia inoculado áreas com alto desemprego contra a ameaça do fascismo. Um jovem estivador desempregado de Liverpool, Frank Deegan, acreditava que a unidade e a solidariedade ofereciam aos manifestantes da fome um baluarte contra a extrema direita, lembrando como estariam mal preparados se alfaiates e vendedores de roupas judeus simpatizantes não tivessem “permitido que comprássemos botas e roupas semanalmente por uma quantia muito pequena de dinheiro”.

Em 1935, quando o NUWM contava com cerca de cinquenta mil membros em suas fileiras, a organização começou a diminuir. Muito disso se deveu ao crescimento da indústria de armamentos, que trouxe milhares de pessoas de volta ao trabalho. No entanto, naquele ano ainda houve grandes confrontos e vitórias para os desempregados.

Em resposta a novos potenciais cortes no orçamento que estavam sendo ameaçados pelo governo, o NUWM mobilizou 300.000 trabalhadores em Gales do Sul, 150.000 em Glasgow e outros milhares em Sheffield, cujo confronto com a polícia irrompeu em um motim. Mas os dias de confronto em massa contra o desemprego estavam chegando ao fim, à medida que muitos se voltavam para a resistência ao fascismo. O NUWM foi formalmente encerrado quando a Segunda Guerra Mundial terminou em 1946.

Por duas sólidas décadas, o NUWM manteve o governo no limite. De cortiços a corredores do Parlamento, milhares de vidas foram ajudadas pela pressão constante do NUWM sobre as autoridades. Novas bases para o movimento operário foram construídas em todo o país, inspiradas em seu exemplo. Em seu relatório quase canônico de guerra, William Beveridge prestou testemunho ao NUWM por sua luta incessante, bem como por suas idéias sobre como o Estado poderia oferecer um sistema de benefícios menos humilhante no futuro.

Acima de tudo, o NUWM deu dignidade e respeito próprio às pessoas. A adesão à organização permitiu aos desempregados combater uma situação que lhes era imposta. Deu às pessoas uma saída para o isolamento miserável e a oportunidade de moldar a história em seus interesses. Enquanto enfrentamos um período de profunda crise econômica, os socialistas devem mais uma vez pensar com imaginação sobre a construção de um movimento que possa desafiar as respostas da classe dominante ao mal-estar. O melhor que podemos fazer nesse contexto pós-pandemia é revisitar a história de movimentos como o NUWM.

Sobre o autor

Marcus Barnett is the international officer of Young Labour and the associate editor of Tribune.

12 de junho de 2020

O campeão negro de Manchester

Winston Churchill não permitiu que o boxeador de Manchester, Len Johnson, se tornasse campeão por causa da cor da sua pele – agora, os militantes britânicos querem erguer uma estátua em sua homenagem.

Deej Malik-Johnson e Marcus Barnett


Tradução / A relação da cidade de Manchester com o tráfico de escravos é histórica, mas os culpados não viraram todos nomes de rua como aconteceu em Bristol, Glasgow, Liverpool e Londres. Enquanto grandes famílias ex-proprietárias de escravos, como os Hibberts e os Beresford, dão nome a algumas ruas, há um debate acalorado sobre o futuro da estátua de Sir Robert Peel, no centro da cidade. Na verdade, o foco dos governantes liberais “esclarecidos” de Manchester sempre foi homenagear “progressistas” da classe alta, como Oliver Heywood, que traiu o pai para defender a causa abolicionista.

Próxima à estátua do banqueiro Oliver Heywood, na Albert Square, fica a Lincoln Square e um monumento que homenageia o ex-presidente de mesmo nome. Nele, vemos encravada a carta na qual Abraham Lincoln saudou os “trabalhadores de Manchester” pelo seu apoio às forças abolicionistas durante a Guerra Civil – e desafiou os empregadores, majoritariamente pró-confederados. Consciente das perdas materiais sofridas pelos trabalhadores, Lincoln falou do “triunfo universal e absoluto da justiça, humanidade e liberdade” de que todos os povos escravizados eram merecedores.

Mas a cidade possui poucos monumentos públicos dedicados à grande e histórica comunidade afrodescendente. Em 2017, um busto da ativista Erinma Bell, conhecida pelo trabalho contra a violência entre gangues, foi colocado na Câmera Municipal de Manchester. Nos anos 1980, o espaço também abrigou uma escultura de Nelson Mandela, criada pelo artista comunista local, Sol Garson, até que, em 2005, a mesma foi enviada à propriedade de Mandela pelo veterano de luta, Denis Goldberg.

Hoje, Manchester possui mais monumentos dedicados a marcas de refrigerantes do que à sua comunidade afrodescendente. Por que não erguer uma estátua em homenagem a Len Johnson, um homem natural de Manchester, ícone do boxe internacional e pioneiro na luta pelos direitos civis?

Len nasceu em outubro de 1902, no bairro de Clayton. Era filho de um marinheiro de Serra Leoa, que se estabelecera em Manchester depois de conhecer Margaret, de origem irlandesa. Len passou a infância cercado por imigrantes judeus, irlandeses, italianos e iemenitas que formavam, naquele momento, grande parte da classe trabalhadora de Manchester. Mas a sua família sofria muitos preconceitos – por ter se casado com um homem não-branco, sua mãe foi violentamente agredida e ficou com o rosto marcado para sempre.

Foi durante uma briga no trabalho que o pai de Len notou as habilidades do filho e o levou para participar de alguns campeonatos de boxe na Ashton Old Road. Len venceu as duas primeiras lutas e perdeu as duas seguintes, mas os organizadores ficaram tão impressionados com o seu desempenho que lhe ofereceram uma posição permanente.

A partir de então, Len venceu Eddie Pearson no Free Trade Hall de Manchester, em janeiro de 1922, e iniciou uma carreira profissional como peso-médio que durou onze anos. Das 127 lutas que travou, venceu 92, perdeu 29 e empatou 6. Ficou famoso em toda a Grã-Bretanha e, em 1927, venceu o campeão europeu dos pesos-médios, Roland Todd, em Belle Vue. No ano seguinte, derrotou o lutador mundialmente famoso, Leone Jaccovacci, e, em 1929, o campeão europeu de pesos-médios, Michele Bonaglia.

No entanto, Len foi proibido – apesar de estar no auge da carreira – de disputar o título britânico dos pesos-médios. O Conselho Britânico de Controle de Boxe (BBBC) fez uma declaração formal dizendo que ele não poderia competir simplesmente porque era negro.

Apesar da rica história britânica de boxeadores não-brancos, o racismo referente às características mentais e físicas destes pugilistas era muito forte. Segregacionistas britânicos, como o pregador evangélico Frederick Brotherton Meyer, argumentavam que os atletas brancos não tinham o mesmo “desenvolvimento animal” e, portanto, não podiam competir com o “instinto” violento dos atletas negros.

O governo se preocupava também com as consequências de um eventual empoderamento dos súditos nas colônias. Demonstrações de igualdade entre pessoas pretas e brancas, mesmo que temporárias e dentro de um inocente torneio esportivo, poderiam comprometer o controle do império britânico. Foi por essa razão que, em 1911, o secretário de assuntos internos, Winston Churchill, proibiu a realização de lutas de boxe inter-raciais. Medida respeitada pelo BBBC até a década de 1940.

A cidade inteira de Manchester saiu em defesa de Len. Aconteceram várias manifestações e uma delegação de boxeadores foi enviada à sede do BBBC, em Londres, para protestar. Mas a situação só o desmoralizou. Em 1933, Len teve de se aposentar e passou a orientar jovens boxeadores.

Era uma época de grandes mudanças e Len começou a se politizar. O fascismo estava em ascensão tanto em Manchester quanto fora do país. Na Espanha, os negros, voluntários da brigada internacional, lideravam os compatriotas brancos e muitos esportistas de Manchester – como os boxeadores Joe Norman e Bob Goodman, bem como o ousado motociclista Clem Beckett – foram defender o governo democrático espanhol contra a ameaça de Hitler e Mussolini.

As bombas que caíram sobre Madri acabaram atingindo também Manchester, e Len resolveu servir no Corpo de Defesa Civil durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1944, período em que o respeito pela luta da União Soviética contra Hitler era altíssimo, Len ingressou no Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). Em 1945, foi delegado no Quinto Congresso Pan-Africano, realizado ao lado do All Saints Park. O evento atraiu quase noventa ativistas políticos anticoloniais, incluindo futuros líderes como o queniano Jomo Kenyatta, o nigeriano Jaja Wachuku e o jamaicano Dudley Thompson.

Em 1946, enquanto ex-militares negros e imigrantes da classe trabalhadora se estabeleciam em regiões como Moss Side, a comunidade não-branca de Manchester aumentou para 10.000 pessoas. Ciente da discriminação que estavam enfrentando e poderiam enfrentar, Len fundou, junto com seus amigos Syd Booth e Wilf Charles, dois trabalhadores brancos que haviam lutado na Espanha contra os fascistas, o Novo Clube Internacional.

O Clube era um espaço de organização da classe trabalhadora de Manchester e tinha como objetivo canalizar a “crescente frustração” pela falta de moradias e empregos de qualidade para pessoas não-brancas. Seus princípios foram listados na declaração de sua fundação: “internacionalismo verdadeiro; libertação colonial; fim da discriminação racial e paz.”

Foi um dos primeiros lugares em Manchester a realizar eventos africanos e caribenhos, fazendo com que jovens trabalhadores de diferentes origens pudessem se conhecer. Também foi a semente de futuras conexões entre o movimento de trabalhadores de Manchester e o ativismo racial internacional, incluindo a organização de solidariedade ao Trenton Six – grupo de homens pretos acusados injustamente por assassinato e condenados à morte por um júri branco.

O Clube também exercia grande influência na cidade: em 1946, quando uma grande companhia marítima de Manchester tentou demitir todos os marinheiros não-brancos, centenas de associados organizaram um protesto para que os marinheiros brancos se aliassem aos seus colegas “coloridos” e impedissem as demissões. Da mesma forma, a liderança do Clube também ajudou a interromper a política de filas segregacionistas no projeto de intercâmbio de trabalhos de Manchester para desempregados brancos e não-brancos.

O grande cantor Paul Robeson, que era fã de Len desde os seus dias como lutador de boxe, veio a Manchester para se apresentar no Clube em solidariedade à luta do movimento negro. Como os ingressos logo esgotaram, acabou fazendo um lendário concerto ao ar livre. Durante o macarthismo, Robeson teve seu passaporte apreendido pelas autoridades norte-americanas e Len, Wilf e Syd foram alguns dos líderes da campanha “Let Robeson Sing”. Quando foi autorizado a viajar novamente, Robeson escreveu uma carta ao Clube agradecendo o seu apoio, e disse: “jamais vou me esquecer de que foram as pessoas de Manchester e de outras áreas industriais da Grã-Bretanha que me fizeram compreender o conceito de união entre as pessoas – que determinou minha postura como artista e cidadão.”

Além de ter sido um líder respeitado na comunidade, Len se candidatou várias vezes a membro do conselho. Enquanto trabalhava como motorista de caminhão, manteve uma coluna mensal no jornal Daily Worker, onde abordou, de forma pioneira, assuntos como o bem-estar de atletas aposentados, prejuízos físicos causados pela prática do boxe e a falta de acesso a instalações esportivas pelos jovens da classe trabalhadora.

Quando faleceu, em setembro de 1974, tinha praticamente caído no anonimato dentro da Grã-Bretanha, mas era visto como precursor na luta pela igualdade no esporte em todo o mundo. Sua morte também foi lamentada em Manchester. Como membro do movimento trabalhista local, trabalhou para melhorar as relações raciais entre a classe trabalhadora da cidade.

No entanto, um merecido interesse por Len Johnson vem ressurgindo nas últimas décadas. O boxeador ganhou uma biografia, assim como uma peça de teatro. E o deputado trabalhista Afzal Khan defendeu a construção de um memorial para enaltecer o seu legado.

Um dos grandes pontos positivos da derrubada da estátua de Edward Colston, em Bristol, foi a onda de discussões sobre o passado sórdido da classe dominante britânica. Mas se o momento está servindo para escancarar os costumes grotescos que este país já considerou aceitáveis, também deve servir para relembrar todos que se opuseram ao sistema e o combateram. E não há melhor exemplo de espírito de resistência, em Manchester, do que Len Johnson.

Você pode assinar a petição para apoiar uma estátua de Len Johnson aqui.

Sobre o autor

Deej Malik-Johnson é um militante de Manchester, co-fundador do Black Lives Matter Manchester e ativista da descolonização dos serviços de educação e saúde mental.

27 de maio de 2020

"Espanque os fascistas onde quer que os encontre"

Nos anos após a Segunda Guerra Mundial, o movimento fascista da Grã-Bretanha começou a se reconstruir novamente - um novo livro conta a história de como um grupo de jovens judeus se organizou para expulsá-los das ruas

Marcus Barnett

Jacobin


Tradução / Poucos períodos do passado recente da Grã-Bretanha escaparam da desmitificação com mais sucesso do que a época do pós-guerra. Quando discute os cinco anos anteriores a 1950, a maioria das pessoas de praticamente todas as tendências políticas concorda com a percepção geral sobre aqueles anos – uma Grã-Bretanha que era destemida e otimista; pobre, mas ascendente; austera, mas reformando-se para adequar a uma nova era, mais humana e ciente de suas responsabilidades morais, depois de ter sido a força política que interrompeu o massacre dos judeus europeus.

Mas a realidade daquele período era um pouco diferente. Na alta sociedade, figuras como a escritora do Grupo de Bloomsbury, Elizabeth Bowen, ainda se sentiam confortáveis para concordar com velhas teorias da conspiração sobre os judeus bolcheviques e avisava aos seus leitores que votar no Partido Trabalhista era votar para ser “governado por judeus e galeses”. Os graves desabastecimentos de combustíveis que ocorreram durante o governo trabalhista tiveram como bode expiatório Manny Shinwell, o político trabalhista judeu mais proeminente da época, e a crescente raiva por causa das mortes de soldados britânicos no Mandato Britânico da Palestina levou a violentos tumultos contra os judeus nas principais cidades em 1947.

Debaixo das pedras

Enquanto os exércitos dos Aliados acabaram com o Holocausto, a Grã-Bretanha estava presa na guerra e aprendendo as lições em um longo caminho de aprendizado. As condições para um novo fascismo estavam maduras. Ainda assim, o Ministério do Interior – mesmo um comandado por Clement Attlee, um homem que teve um batalhão das Brigadas Internacionais nomeado em sua honra – parecia mais preocupado com os direitos dos fascistas do que com as comunidades ameaçadas.

Nenhuma ação foi tomada para restringir as atividades daqueles que teriam governado uma Grã-Bretanha ocupada pelo nazismo; em 1946 o jornal pró-trabalhista Reynolds News denunciava amargamente que a Grã-Bretanha era “o único país na Europa fora Espanha ou Portugal em que alguém pode pregar o fascismo sem ressalvas e com completa proteção policial”.

Chuter Ede, o Secretário do Interior, acreditava que os fascistas deveriam ser deixados “para o senso de humor do povo britânico”. Mas essa bobagem não era nada engraçada para a comunidade judaica britânica, cujo humor, disse Jules Konopinski ao Tribune, era “muito, muito delicado”.

Nascido em uma família judia em Wroclaw, no então território alemão de Breslau, Konopinski e sua mãe fugiram para a Inglaterra em 1939 sem o seu pai, que foi detido pelos nazistas no final de 1938 (mas depois escapou). Ele perdeu nove tios e tias no Holocausto, e um tio que sobreviveu foi morar com eles em Londres. “Minha família aqui de repente percebeu que perdeu muita gente. Quando descobriram como perdemos eles, ficou ainda pior”.
Manifestação fascista com a participação de Oswald Mosley em Ridley Road, 1947.

Enquanto milhares de pessoas estavam de luto por entes queridos ou tentavam rastreá-los em campos de concentração espalhados pelo continente, fascistas impenitentes como Victor Burgess começaram a pregar uma “guerra contra os judeus” para “libertar o país do seu jugo”. Ameaçando começar uma campanha em Londres para “desalojar os elementos estranhos” e “dar suas casas para os ex-soldados britânicos”, os materiais impressos por Burgess ajudaram a inflamar a escrita de outros militantes da extrema direita como John Marston Gaster, cujas ideias não estariam deslocadas no Der Sturmer:

“Os judeus são seres inferiores – se um judeu anda na mesma calçada que você, derrube-o na sarjeta, que é onde ele merece estar… Os judeus vão contaminar você – se um judeu está no mesmo ônibus ou trem que você, jogue-o para fora… Os judeus são donos de muita coisa – boicote as suas lojas; se você trabalha em uma loja, não atenda os judeus”.

Depois de terem sido humilhados pelo nazismo durante a guerra, os fascistas que foram detidos viram sua chance de saírem de debaixo das pedras. Soldados judeus voltando da guerra contra Hitler retornavam para comunidades judias que estavam sob crescente ameaça de violentas gangues fascistas. Reuniões pedindo a retomada do Holocausto estavam se tornando comuns no coração de comunidades judaicas como Ridley Road em Dalston, e todo mundo sabia que os policias locais frequentemente eram antissemitas e não dava para confiar neles.

A partir desta necessidade de ação, o Grupo 43 foi criado no início de 1946. Apesar da organização ter se dissolvido há quase sete décadas, foi somente com o livro We Fight Fascists: The 43 Group and Their Forgotten Battle for Post-War Britain de Daniel Sonabend que uma descrição abrangente das atividades do Grupo 43 reapareceu.

Operando com um sistema baseado em discutir, decidir e executar, os objetivos do Grupo 43 eram bem diretos: acabar com a disseminação de propaganda por organizações fascistas e fazer campanha por uma proibição geral de todas elas. Seus fundadores incluíam Gerry Flamberg, condecorado veterano da batalha Arnhem; Alec Carson, do reverenciado Esquadrão Pathfinder; e Tommy Gould, que segurou no peito por quase uma hora uma bomba nazista de 75kg que não explodiu enquanto tentava desesperadamente removê-la do seu submarino torpedeado (e ganhou uma Cruz Vitória por seus esforços).

Através de algumas tentativas incrivelmente bem-sucedidas de acabar com manifestações públicas de fascistas, a fama do grupo aumentou e voluntários apareceram aos montes para ajudar os seus membros. O contato do próprio Daniel Sonabend com a história do Grupo 43 reflete esta situação: depois de ter ouvido sobre o grupo através de um amigo, ele aproveitou a oportunidade de levar seu avô para jantar na casa dos seus pais em uma sexta-feira para perguntá-lo se ele se lembrava daqueles dias.

“Vale a pena tentar, eu pensei”, contou ele ao Tribune, “então eu perguntei e ele respondeu: ‘você ouviu falar do Grupo 43? Eu estava lá!’”. Parece que quando seu avô John era um adolescente ele ia espionar reuniões fascistas abertas para o grupo, mas nunca mencionou seu envolvimento para o neto ou para outros familiares.

Rostos sempre machucados

Oavô de Sonabend era um dos muitos jovens que, mesmo não sendo velhos o suficiente para lutar contra o fascismo na guerra, se comprometeram a acabar com ele no lugar onde moravam.
Jimmy Cotter, voluntário do Grupo 43, disfarçado como segurança em uma reunião fascista.

Enquanto trabalhava como aprendiz de design de bolsas, Jules Konopinski ia regularmente a protestos antifascistas e logo se tornou um dos membros do Grupo 43. Hoje um aposentado de 90 anos caloroso e bem-humorado, Jules passou sua adolescência com o que ficou conhecido como o “grupo de comando” dentro do Grupo 43 – judeus jovens da classe trabalhadora que, em suas palavras, “não tinham medo de rasgarem suas roupas”.

Lembrando os seus “rostos sempre machucados”, Jules brincou ao contar ao Tribune sobre como além de derrubar os palcos dos fascistas, os membros do Grupo 43 iam para as estações de trem para garantir que os fascistas que estavam vindo para Londres não alcançassem seu destino.

“Eles eram persuadidos de uma maneira gentil e bem física a voltarem para casa: se eles aparecessem de novo, eles tomariam a maior surra”. Para Jules era simples: “Se você dissuadir os apoiadores deles, então um convence o outro. É uma bola de neve e se no final eles não tem apoiadores eles não vão para rua fazer manifestação”.

Ao ganhar uma reputação por não arredar o pé, o Grupo 43 cresceu em poucos anos até se tornar uma rede confiável de milhares de pessoas. Muitas manifestações da Liga de ex-soldados de Jeffrey Hamm e do Movimento União de Mosley foram interrompidas, incontáveis palcos de fascistas foram derrubados, e o grupo coletou uma boa quantidade de informações sobre grupelhos e organizações fascistas.

Uma complexa operação de inteligência liderada por Murray Podro levou a infiltração de vários espiões nas fileiras fascistas. Um espião subiu tanto na hierarquia fascista que se tornou o segurança do próprio Oswald Mosley. Podro se gabava mais tarde que, no auge das operações do Grupo 43, “se Mosley coçasse o nariz, eu saberia uma hora depois”.

Mais sorte do que decisão

We Fight Fascists, ao contrário da maioria dos trabalhos não acadêmicos sobre o antifascismo, ultrapassa a profundeza das emoções inerentes a qualquer movimento antifascista. Diferentemente do livro de Morris Beckman sobre o grupo – uma fantástica memória, mas saturada de um certo triunfalismo que desagradou muitos veteranos do Grupo 43 – Sonabend retrata com maestria os riscos, os momentos de derrota, desmoralização e as minúcias da política antifascista, onde as tarefas tediosas de organizar pacientemente e coletar informações a longo prazo eram tão valiosas quanto os flashes de confrontos diretos.

Sonabend contou que mais ou menos uma dúzia dos membros do Grupo 43 que foram entrevistados para o livro insistiram em destacar quão mundano era o seu trabalho: para cada ação bem-sucedida contra os fascistas, havia “horas e horas sem fim parado em uma esquina com um jornal observando a casa dos fascistas”.

Dito isto, o livro está cheio de histórias emocionantes sobre essas batalhas, particularmente quando os fascistas atormentados abandonavam qualquer pretensão de respeitabilidade e respondiam à determinação dos antifascistas com brutalidade. “As pessoas sempre perguntam, como ninguém nunca foi morto?” disse Konopinski. “Bem, foi mais por sorte do que por decisão”.

Nesse período Jules quebrou todas juntas das mãos. Ele foi violentamente agredido pela polícia local e seu camarada Jackie Myerovitch foi gravemente esfaqueado por um gangster maltês contratado por Mosley. Depois de um incidente quando o mesmo gangster atacou antifascistas com batatas recheadas com lâminas de barbear, ele começou a andar com uma lâmpada (“era a coisa mais inofensiva que você poderia ter – como uma pequena bomba”), mas admitiu que sua arma defensiva favorita era seu guarda-chuva: “A ponta era afiada. Se uma coisa daquelas fosse enfiada na orelha ou no traseiro de alguém, iria ser muito doloroso, e ainda era uma coisa perfeitamente normal de se ter”.

Apesar desses níveis de intensidade, foi ficando cada vez mais claro que o Grupo 43 estava quebrando o espírito do fascismo britânico e o número de pessoas em manifestações e reuniões fascistas estava esvaziando consideravelmente. No dia 4 de junho de 1950, a direção se sentiu suficientemente confortável para acabar com a organização, ainda que este tenha sido um movimento que Jules e muito dos seus camaradas mais jovens se opuseram, vendo-o como equivocado.

Não demorou muito para provar que eles estavam certos – em poucos anos Mosley escolheu a comunidade negra de Londres como o seu novo alvo principal, enquanto que em 1964, o militante neonazista Colin Jordan se sentiu confortável o suficiente para fazer uma manifestação em Trafalgar Square debaixo de uma bandeira de 25 metros de cumprimento e 2,5 metros de altura onde estava escrito “LIBERTE A GRÃ-BRETANHA DO CONTROLE JUDEU”. Isto levou a criação do Grupo 62, que pretendia continuar o trabalho do seu antecessor.

Cheio de histórias de heróicos veteranos de guerra, militantes comunistas, sionistas convictos e gangsters, We Fight Fascists é como uma biografia coletiva de uma certa parte de Londres que desapareceu há muito tempo. Pela primeira vez, as vidas e as façanhas dos antifascistas foram discutidas.

Isto inclui pessoas como Lennie Rolnick, um ativo comunista que estreitou a conexão entre o Grupo 43 e o movimento dos trabalhadores em geral; Ivor Arbiter, um adolescente entusiasmado que alcançou a fama mais tarde como o designer do “T” no bumbo de Ringo Starr; e Harry Bidney, um homem abertamente gay que iria se tornar um renomado dono de boates no Soho (“esse é um homem que merecia a Cruz Vitória por seu trabalho antifascista”, contou Konopinski ao Tribune. “Que cara”).

O livro também traz um importante argumento sobre a autodefesa como uma ferramenta efetiva para os antifascistas: como Sonabend disse ao Tribune, os inimigos do fascismo tendem a ser “os que permitem as cores da vida”, e que “há a necessidade de nós, que queremos uma sociedade mais civilizada e compassiva, reconhecermos que as vezes a violência é o único jeito de consegui-la”. Alternativamente, o comentário de Jules Konopinski em um recente evento sobre o livro foi menos florido, mas igualmente apropriado: “eles podem dizer o que quiserem, e eu posso socar a cara deles”.

De um modo interessante e fascinante, We Fight Fascists salvou adequadamente a história daqueles que, em uma era mais ameaçadora do que muitos gostariam de admitir, estavam dispostos a fazer coisas desagradáveis a pessoas desagradáveis. Nos próximos anos, nós não podemos nos dar ao luxo de esquecer as lições do Grupo 43.

Sobre o autor

Marcus Barnett é editor associado do Tribune.

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