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18 de novembro de 2025

O massacre de jornalistas em Israel não pode ficar impune

Em meio ao seu ataque criminoso a Gaza, Israel assassinou centenas de jornalistas palestinos que testemunharam sua brutalidade. Além disso, transformou seus próprios veículos de imprensa em instrumentos de apoio ao genocídio. Esses crimes não podem ser varridos para debaixo do tapete.

Muna Haddad e Neve Gordon

Jacobin

O corpo coberto do jornalista palestino Ahmad Abu Mteir, morto em um ataque israelense a uma casa usada por jornalistas na cidade de Zuwaida, no centro da Faixa de Gaza, no dia anterior, é preparado para o sepultamento no Hospital Shuhada al-Aqsa em Deir al-Balah, em 20 de outubro de 2025. (Bashar Taleb/AFP via Getty Images)

O assassinato de pelo menos 225 jornalistas palestinos por Israel desde 7 de outubro de 2023 atraiu brevemente a atenção internacional, após se calcular que o número de jornalistas mortos em Gaza supera o total acumulado da Guerra Civil dos EUA, das Primeira e Segunda Guerras Mundiais, da Guerra da Coreia, da Guerra do Vietnã, das guerras na Iugoslávia nas décadas de 1990 e 2000 e da guerra pós-11 de setembro no Afeganistão. Como parte de seu esforço para eliminar testemunhas e controlar a narrativa, Israel transformou Gaza, como escreveu um comentarista, em um cemitério de jornalistas.

As forças israelenses têm usado drones para perseguir jornalistas à distância, como quando alvejaram o repórter da Al Jazeera, Anas al-Sharif, juntamente com Mohammed Qreiqeh, Ibrahim Zaher, Mohammed Noufal, Moamen Aliwa e Mohammed al-Khalidi, em uma tenda que abrigava jornalistas perto do Hospital al-Shifa, em Gaza. O exército israelense também já executou jornalistas a curta distância, como quando um atirador matou Saed Abu Nabhan na área de Nuseirat, no centro de Gaza.

Muitos outros jornalistas foram feridos, detidos ou desapareceram, enquanto as forças israelenses danificaram ou destruíram sistematicamente mais de cem instituições e escritórios de mídia governamentais e não governamentais, incluindo estações de televisão, satélite e rádio; torres de transmissão; escritórios de serviços de mídia; e sedes de jornais.

O assassinato de jornalistas constitui um crime de guerra e um crime contra a humanidade, porque, segundo as leis dos conflitos armados, os jornalistas são considerados civis e, portanto, é ilegal atacá-los deliberadamente. No entanto, os jornalistas não gozam de qualquer outra proteção especial, apesar dos elevados riscos associados à sua profissão.

Os autores dessas leis, mais recentemente na formulação dos protocolos adicionais de 1977 às Convenções de Genebra, reconheceram a diferença entre civis e jornalistas, entendendo que estes últimos frequentemente se encontram na linha de frente. Contudo, inexplicavelmente, não lhes concederam qualquer proteção adicional além daquela já garantida aos civis.

A limitada proteção legal concedida aos jornalistas os deixa vulneráveis ​​à perseguição sistemática de Israel. Israel se sente ainda mais encorajado pela mídia ocidental e pelo papel que esta desempenha em minar a percepção do profissionalismo e da credibilidade dos jornalistas palestinos.

Israel tem um longo histórico de difamação de jornalistas palestinos, chegando a usar a agência de publicidade do governo para produzir anúncios no YouTube alegando que repórteres de Gaza são parte integrante da “propaganda do Hamas” e, portanto, alvos legítimos. Não está claro se essas campanhas insidiosas influenciaram veículos de mídia ocidentais ou se seus próprios preconceitos arraigados moldam a forma como cobrem os assassinatos de jornalistas palestinos. De qualquer forma, eles frequentemente reproduzem as invenções de Israel.

Desacreditando jornalistas palestinos

Quando Israel assassinou os jornalistas do Middle East Eye, Mohamed Salama e Ahmed Abu Aziz, no Hospital Nasser — juntamente com o fotojornalista da Reuters, Hussam al-Masri, e os freelancers Moaz Abu Taha e Mariam Dagga, que haviam trabalhado para a Associated Press —, as agências de notícias ocidentais, cujos próprios repórteres foram mortos no ataque, repetiram a alegação de Israel de que havia atacado uma “câmera do Hamas”, associando assim, de forma leviana, os cinco jornalistas assassinados ao Hamas.

Este ataque ocorreu no final de agosto de 2025, mais de um ano e dez meses após o início do genocídio. A essa altura, já era evidente que Israel visava jornalistas de forma metódica, tendo já assassinado mais de duzentos profissionais da comunicação social, muitas vezes juntamente com as suas famílias.

O neologismo “câmera do Hamas” foi, sem dúvida, formulado por Israel, e, no entanto, dezenas de veículos de comunicação o repetiram sem se perguntarem o que seria uma “câmera do Hamas” — em oposição a uma Nikon ou Canon. A mera repetição da expressão ajudou a legitimar o ataque deliberado de Israel contra os jornalistas, realizado em um complexo hospitalar onde funcionários da saúde e pacientes também foram mortos. É altamente improvável que os principais veículos de comunicação ocidentais tivessem imitado as narrativas legitimadoras de Israel se jornalistas brancos europeus tivessem sido mortos no telhado do Hospital Nasser.

Como destaca o autor Chris Hedges, essas narrativas “desacreditam as vozes das vítimas e isentam os assassinos”, reforçando a impunidade que permite a continuidade da perseguição a jornalistas palestinos.

A acusação de que jornalistas palestinos são motivados ideologicamente e não podem ser objetivos vem de veículos de comunicação que divulgaram relatos insidiosos sobre bebês decapitados e crianças cozidas em fornos. Vem de veículos que repetiram mentiras sobre a existência de um centro de comando sob o Hospital al-Shifa, juntamente com a falsa acusação de que jornalistas palestinos coordenavam o lançamento de foguetes do Hamas a partir dos telhados do hospital.

De fato, desumanizar os palestinos ajuda a normalizar não apenas o genocídio, mas também a incitação ao genocídio que jornalistas israelenses vêm disseminando desde o primeiro dia da recente escalada.

Já em 7 de outubro de 2023, Shimon Riklin, do Canal 14, escreveu que “Gaza tem que ser varrida da face da Terra” e, mais tarde, perguntou retoricamente: “Por que exatamente temos uma bomba atômica?”

Poucos dias depois, Naveh Dromi, que também trabalhou para o Canal 14 e agora é apresentador do i24 News, ironizou no programa de televisão The Patriots: “Não existem inocentes”, acrescentando que os palestinos “provocaram a Nakba sobre si mesmos” em 1948 e “agora terão uma segunda Nakba, a verdadeira, para terminar o trabalho de [o ex-primeiro-ministro israelense David] Ben-Gurion”.

Roy Sharon, correspondente do Canal 11, justificou explicitamente a possibilidade de “um milhão de corpos”, observando nas redes sociais:

Eu falei sobre um milhão de corpos não como uma meta. Eu disse que se, para eliminar definitivamente as capacidades militares do Hamas, incluindo [Yahya] Sinwar e [Mohammed] Deif, precisarmos de um milhão de corpos, então que haja um milhão de corpos.

Arnon Segal, que escreve para o jornal Makor Rishon, não se mostrou nada arrependido, publicando um mapa onde explicava: “É assim que retornaremos a Gaza: o plano completo para destruir o inimigo, libertar a Faixa de Gaza e estabelecer cidades judaicas lá.”

Em entrevista ao Walla, o jornalista e apresentador veterano Yaron London reiterou suas declarações anteriores de que “Gaza deve ser arrasada, mesmo que isso signifique prejudicar inocentes”, acrescentando:

Se você não consegue distinguir entre a população e as autoridades porque estas se escondem deliberadamente em hospitais ou mosteiros, então você não tem escolha e precisa ser muito menos “vegetariano”. [...] Na minha opinião, nós éramos muito “vegetarianos”. [...] A punição pelas provocações do Hamas deveria ter sido muito mais severa. Infelizmente, essa punição também deve recair sobre a população.

Alguns jornalistas israelenses lançaram incitações diretas contra seus colegas em Gaza. Hagai Segal, ex-editor-chefe do Makor Rishon, escreveu:

Todos os jornalistas em Gaza são agentes ou apoiadores do Hamas, fabricantes de calúnias sanguinárias. Talvez haja algumas pessoas em Gaza vestindo coletes de IMPRENSA que, no fundo, desaprovem o Hamas, mas nem mesmo elas merecem a proteção da associação de jornalistas.

E Zvi Yehezkeli, analista de assuntos árabes da i24, disse: “Se Israel decidiu eliminar os jornalistas, antes tarde do que nunca.”

Tais declarações podem configurar incitação direta e pública ao genocídio, ato punível nos termos do Artigo 3º da Convenção de 1951 para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. De maneira semelhante, o Artigo 25º do Estatuto de Roma de 1998 do Tribunal Penal Internacional prevê que a pessoa que “incita direta e publicamente outras pessoas a cometer genocídio” incorre em responsabilidade penal individual.

Responsabilizando a mídia israelense

Existem precedentes para responsabilizar jornalistas israelenses e outros veículos de comunicação por incitação ao ódio. Nos julgamentos de Nuremberg, o jornalista alemão Julius Streicher foi considerado culpado em 1946 por incitar o extermínio de judeus em seu jornal Der Stürmer. De forma semelhante, em 2003, o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda condenou três líderes da mídia por incitação direta e pública ao genocídio. Dirigindo-se aos réus, o juiz-chefe explicou que “sem o uso de armas de fogo, facões ou qualquer arma física, vocês causaram a morte de milhares de civis inocentes”, enfatizando que suas transmissões e publicações não poderiam ser protegidas pelo direito à liberdade de expressão.

Apesar da tentativa de Israel de retratar os jornalistas palestinos como incitadores de violência, a grande e trágica ironia, como destaca o caso de Ruanda, é que um número nada insignificante de jornalistas israelenses são culpados precisamente desse crime.

Portanto, é hora de cada signatário das Convenções de Genebra e da Convenção sobre o Genocídio garantir que todos os jornalistas e gestores de mídia que utilizaram a retórica da incitação sejam responsabilizados — prendendo-os quando viajarem para o exterior e processando-os em tribunais nacionais, que têm jurisdição universal. O que temos visto, em vez disso, são inúmeros veículos de comunicação minando a credibilidade daqueles que testemunham os crimes de Israel — enquanto, por vezes, facilitam a transformação do jornalismo em um veículo que auxilia e instiga o genocídio e crimes contra a humanidade.

Colaboradores

Muna Haddad é uma advogada palestina de direitos humanos e doutoranda na Faculdade de Direito da Queen Mary University of London.

Neve Gordon é professora de direito dos direitos humanos na Queen Mary University of London e membro da Academia Britânica de Ciências Sociais.

30 de março de 2024

O caminho para a fome em Gaza

Centenas de milhares de pessoas em Gaza estão à beira da fome - um desastre provocado pelo homem, com raízes na história de Israel de utilização de alimentos como arma.

Neve Gordon e Muna Haddad


Mahmud Isa/Anadolu/Getty Images

Aviões lançando pacotes de ajuda humanitária na Cidade de Gaza, 9 de março de 2024 

Tradução / Nos dias que se seguiram ao hediondo ataque do Hamas, em 7 de Outubro, a bases militares, kibutzim, cidades e ao festival de música Nova, vários altos funcionários israelitas anunciaram que pretendiam privar a população civil de Gaza das suas necessidades mais básicas. Na altura, mais de 80 por cento das mercadorias que entravam na Faixa de Gaza provinham de Israel, que manteve a área sob estrito bloqueio durante dezessete anos. Em 9 de outubro, após dois dias de extensos bombardeamentos aéreos, o ministro da energia e infra-estruturas do país, Israel Katz, anunciou que tinha ordenado o corte de água, eletricidade e combustível. “O que era”, disse ele, “não será mais”.

No mesmo dia, o ministro da Defesa, Yoav Gallant, exigiu um “cerco total” ao enclave: “não haverá comida, não haverá combustível”. (O seu raciocínio tornou-se desde então notório: “estamos lutando contra animais humanos”.) Em 17 de outubro, o ministro da segurança nacional, Itamar Ben-Gvir, insistiu que “enquanto o Hamas não libertar os reféns nas suas mãos…nem um grama de ajuda humanitária” entraria em Gaza - apenas “centenas de toneladas de explosivos da Força Aérea”. No dia seguinte, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu colocou a questão em termos igualmente severos: “Não permitiremos assistência humanitária sob a forma de alimentos e medicamentos do nosso território para a Faixa de Gaza”.

Essas são todas declarações de uma intenção de privar os palestinos de Gaza "de bens indispensáveis à sua sobrevivência, inclusive impedindo deliberadamente o fornecimento de ajuda" —a definição legal de "usar a fome de civis como método de guerra", um crime contra o direito internacional segundo o Estatuto de Roma.

Enquanto isso, a mídia e as redes sociais israelenses estavam saturadas de apelos para dizimar a população, no todo ou em parte: "apagar" Gaza, "arrasá-la", transformá-la "em Dresden". No dia em que as autoridades israelenses ordenaram que 1,1 milhão de pessoas do norte de Gaza evacuassem suas casas em 24 horas, o presidente Isaac Herzog disse que "não havia civis inocentes" ali.

Desde então, Israel bombardeou bairros inteiros, matando mais de 32 mil palestinos, dos quais mais de 13 mil são crianças (os números não incluem pessoas soterradas). Mais de 74 mil foram feridos. Setenta por cento da infraestrutura civil foi destruída ou danificada, deixando muitas áreas inabitáveis. Em novembro, mais de 75% da população de Gaza, cerca de 1,7 milhão de pessoas, havia fugido de suas casas.

O Exército atacou sistematicamente dezenas de instalações de saúde, deixando um em cada três hospitais de Gaza funcionando parcialmente e obrigando médicos a operar em condições extremamente inadequadas sob um fluxo constante de civis feridos, muitos deles crianças. Esse patamar de morte e destruição em um período tão curto não tem precedentes no século 21. A relatora especial da ONU Francesca Albanese concluiu que "há motivos razoáveis para acreditar" que Israel ultrapassou o limiar do genocídio.

Enquanto isso, boa parte das remessas de ajuda continuam bloqueadas. A assistência que chega a Gaza é, como agências da ONU alertaram, "uma mera gota no oceano do que é necessário". Até março, Israel permitiu, em média, 112 caminhões por dia, menos de um quarto do que entrava diariamente nos meses anteriores a 7 de outubro.

Em meados de janeiro, depois que surgiram relatos de que militares israelenses estavam obstruindo o envio de ajuda, Netanyahu insistiu que seu governo permitiria apenas a assistência mínima necessária para evitar uma crise humanitária.

Essas restrições diminuíram severamente a capacidade de distribuição de ajuda, bem como ameaçam a segurança de trabalhadores de organizações humanitárias. Desde outubro, pelo menos 171 funcionários da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) foram mortos.

Em várias ocasiões, forças israelenses dispararam contra caminhões da ONU que transportavam provisões em rotas que os próprios militares haviam classificado como seguras. Em outras, tropas israelenses mataram palestinos esperando para receber assistência: no que ficou conhecido como o massacre da farinha, mais de cem pessoas foram mortas. No fim de fevereiro, a UNRWA anunciou ter sido forçada a interromper o socorro ao norte.

Israel não se satisfez em impedir a entrada de alimentos em Gaza. Desde o início da guerra, o país também destruiu mais de um terço das terras agrícolas da faixa, mais de um quinto de suas estufas e um terço de sua infraestrutura de irrigação.

A Forensic Architecture, órgão de pesquisa sediado na Universidade de Londres, afirma que "a destruição de terras agrícolas e da infraestrutura em Gaza é um ato deliberado de ecocídio". Grandes extensões de terra foram arrasadas por soldados para expandir a "zona tampão" no lado de Gaza da fronteira, reduzindo a área do enclave em 16%.

As forças navais israelenses também avariaram ou destruíram cerca de 70% dos barcos de pesca de Gaza. Movidos pela fome, alguns pescadores ainda zarpam em pequenas embarcações; alguns, como relata a associação de pescadores de Gaza, foram atacados e mortos.

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O efeito dessas ações é nítido. Desde dezembro, agências humanitárias alertam que os palestinos de Gaza estão sob o risco de inanição, a forma mais catastrófica de insegurança alimentar. Em um relatório apoiado pela ONU, um comitê de especialistas fez uma previsão sombria em março. "A fome", reportaram, "agora é projetada e iminente" para 70% da população do norte de Gaza —cerca de 210 mil pessoas— e "se espera que se manifeste" até maio.

Ali Jadallah/Anadolu/Getty Images

Crianças aguardando a distribuição de ajuda alimentar na cidade de Deir al-Balah, no centro de Gaza, 29 de fevereiro de 2024

De acordo com a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a desnutrição está se espalhando rapidamente entre as crianças e atingindo níveis sem precedentes. Em 15 de março, no norte de Gaza, uma em cada três crianças com menos de 2 anos estava sofrendo de desnutrição aguda; pelo menos 27 crianças haviam morrido de fome. Segundo a organização, em fevereiro, "a prevalência de desnutrição aguda entre crianças com menos de 5 anos no norte havia aumentado de 13% para até 25%".

Em março, exames realizados pela Unicef na área central de Gaza revelaram que 28% das crianças com menos de 2 anos sofriam de desnutrição aguda; desse grupo, mais de 10% sofriam de desnutrição grave.

Em Rafah, uma suposta zona segura na fronteira sul onde funcionários conseguiram fornecer um nível de ajuda levemente superior, testes mostraram que o número de crianças com menos de 2 anos com desnutrição aguda dobrou de 5% em janeiro para cerca de 10% no final de fevereiro (apesar de seu status, Rafah foi bombardeada várias vezes). Entre o mesmo grupo, a desnutrição grave quadruplicou no último mês, chegando a mais de 4%.

A desnutrição entre mulheres grávidas e lactantes também cresceu rapidamente. Em fevereiro, 95% enfrentavam grave escassez alimentar. Como as mães que sofrem de desnutrição não conseguem produzir leite suficiente para amamentar, mais bebês dependem de leite artificial para sobreviver, mas a fórmula para bebês demanda água limpa, que não está disponível para a maioria delas.

Todo esse sofrimento tem causas humanas e é resultado direto do bloqueio impiedoso de Israel. Como a maioria dos episódios de fome, esse também é o produto de uma história mais longa. Desde 1967, quando ocupou a Faixa de Gaza pela primeira vez, Israel controla a cesta básica palestina, manipulando a ingestão nutricional de seus habitantes e usando a alimentação como arma para controlar a população.

Há décadas, Israel vem danificando sistematicamente a capacidade de Gaza de produzir seus próprios alimentos, diminuindo seu acesso à água potável e à comida de qualidade. Compreender essas políticas de longo prazo é fundamental para entender a fome que se desenrola hoje em Gaza.

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A Faixa de Gaza é uma região plana, estreita e árida. Quando Israel a ocupou, havia pelo menos 385 mil palestinos, dos quais cerca de 70% eram refugiados que tinham fugido ou sido expulsos de suas casas durante a Nakba em 1948. Como um de nós, Neve Gordon, escreveu em 2008, Israel imediatamente "passou a controlar todos os principais serviços públicos, como água e eletricidade, e assumiu os sistemas de saúde, de justiça e de educação".

O país também introduziu uma variedade de mecanismos de vigilância para administrar a população recém-ocupada. As autoridades israelenses contaram televisores, geladeiras, fogões a gás, gado, pomares e tratores; inspecionaram e, muitas vezes, censuraram livros escolares, romances e jornais; realizaram levantamentos detalhados de fábricas de móveis, sabão, tecidos, derivados de oliva e doces; usaram imagens aéreas e de satélite para monitorar a construção de casas, prédios públicos e empresas privadas; e coletaram dados demográficos de toda a região.

Israel examinou as taxas de mortalidade infantil e de crescimento populacional, os níveis de pobreza, a renda per capita e o tamanho e a composição da força de trabalho, bem como prestou grande atenção à escala e ao tipo de indústria no território, à extensão de terra arável, aos tipos de culturas plantadas e à quantidade de aves e gado. Para consolidar seu controle, o país também monitorou a taxa de consumo privado e o valor nutricional da cesta de alimentos palestina.

Os relatórios oficiais resultantes ilustram a velocidade e o grau de vigilância a que Israel sujeitou a sociedade palestina. Surpreendentemente, mostram que no final da década de 1960 e na década de 1970 o governo militar tentou aumentar a ingestão nutricional per capita dos residentes de Gaza. Em um estudo, o Ministério da Agricultura de Israel vangloriou-se de que uma série de intervenções, incluindo programas de formação profissional para agricultores, tinha aumentado o consumo per capita do palestino médio em Gaza de 2.430 calorias por dia em 1966 para 2.719 calorias em 1973. Um relatório diferente observa que em 1968 Israel ajudou os palestinos na Faixa de Gaza a plantar cerca de 618.000 árvores e forneceu aos agricultores variedades melhoradas de sementes para vegetais e culturas agrícolas. Contudo, ao contrário do relatório do Ministério da Agricultura, o principal catalisador para a melhoria do nível de vida da população não foram os subsídios benevolentes de uma força de ocupação, mas sim as remessas que fluíram para a economia de Gaza a partir do início da década de 1970, depois de Israel ter incorporado mais de 30 por cento dos trabalhadores do enclave para os sectores da construção e da agricultura, no interesse de extrair mão-de-obra barata.


Keystone-France/Gamma-Rapho/Getty Images

Agricultores palestinos empregados pela UNESCO, Gaza, 9 de janeiro de 1965

Os Arquivos do Estado de Israel deixam claro que estas iniciativas foram concebidas para normalizar a ocupação e apaziguar a população. Em 1973, muitos dos refugiados em Gaza ainda viviam em campos em condições precárias. Naquele ano, Moshe Dayan, então ministro da Defesa de Israel, propôs transferi-los para “novas cidades, em apartamentos com água nas torneiras, educação e serviços para as crianças”. A lógica era menos humanitária do que estratégica. “Enquanto os refugiados permanecerem nos seus campos”, explicou ele, “os seus filhos dirão que vêm de Jaffa ou Haifa; se saírem dos campos, a esperança é que sintam um apego à sua nova terra.”

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Nos anos que se seguiram à eclosão da primeira Intifada, em dezembro de 1987, limitar o valor nutricional e instaurar a insegurança alimentar entre os palestinos de Gaza se tornaram fundamentais para a estratégia de contrainsurgência de Israel.

As mudanças concretas foram graduais. Em 1989, o país impôs um controle mais rigoroso sobre o fluxo de trabalhadores de Gaza, emitindo cartões magnéticos com informações codificadas sobre o "histórico de segurança" do trabalhador, impostos e contas de água e luz.

Durante a primeira Guerra do Golfo, Israel impôs o que a ONU e organizações de direitos humanos chamam de fechamento hermético da faixa, limitando ainda mais o movimento de pessoas e mercadorias. Em 1994, entre a assinatura do primeiro e do segundo acordos de Oslo, o governo começou a construir uma cerca de 32 quilômetros e uma via para patrulhar as fronteiras de Gaza.

Desde então, apenas cinco passagens conectam as duas regiões, duas das quais operam apenas de Israel para Gaza. Uma sexta, em Rafah, liga Gaza ao Egito. Durante toda a década de 1990, foram impostas restrições ao número de trabalhadores que podiam entrar em Israel e à quantidade e ao tipo de mercadorias que podiam entrar em Gaza. Na mesma época, a linha verde, a fronteira internacionalmente reconhecida entre Israel e os territórios palestinos ocupados, deixou de ser "normalmente aberta" para se tornar "normalmente fechada".

Sergio del Grande/Mondadori/Getty Images

Mulheres palestinas num mercado num campo de refugiados de Gaza, janeiro de 1984

Depois da segunda Intifada, em 2000, o Exército israelense destruiu fazendas, arrasou mais de 10% das terras agrícolas de Gaza e arrancou mais de 226 mil árvores. Por volta dessa época, também consolidou o controle aéreo e marítimo sobre Gaza, bombardeando um aeroporto construído em 1998 e, em 2002, destruindo um porto marítimo. Israel também restringiu as áreas em que os palestinos podiam pescar a uma faixa muito estreita ao longo da costa. Essas práticas, combinadas com restrições cada vez mais severas ao movimento de pessoas e mercadorias, levaram a uma insegurança alimentar substancial. Em 2002, um artigo no British Medical Journal relatou que o número de crianças que sofriam de desnutrição em Gaza havia dobrado em dois anos.

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Enquanto isso, Ariel Sharon reconheceu que não era mais viável enviar centenas de soldados israelenses para proteger os 8.000 colonos judeus no enclave. O primeiro-ministro achava que, ao implementar um "plano de retirada" unilateral, Israel poderia se apresentar como se tivesse desocupado Gaza. Isso, por sua vez, permitiria que o país fortalecesse seus assentamentos na Cisjordânia.

Em 2005, o governo israelense desmantelou os assentamentos ilegais em Gaza e redistribuiu suas tropas para a fronteira. Ao mesmo tempo, intensificou o controle do enclave a distância, construindo bases militares nos arredores, instalando metralhadoras controladas remotamente em torres de vigilância, aumentando o uso de drones e estabelecendo uma zona tampão que consome terras agrícolas e exige que os agricultores se limitem a plantações baixas, presumivelmente para não bloquear a visão dos soldados.

Por volta dessa época, Israel começou a elaborar listas de produtos cuja importação seria vetada em Gaza, impondo restrições severas. Em 2006, um assessor do primeiro-ministro de Israel explicou a política do governo: "A ideia é submeter os palestinos a uma dieta, mas não fazê-los morrer de fome". Apesar de as restrições aumentarem a pobreza e gerarem insegurança alimentar, o governo israelense se isentou de toda a responsabilidade.

Na verdade, o país continuou a exercer suas prerrogativas controlando as fronteiras. Após o Hamas tomar Gaza, em setembro de 2007, Israel impôs formalmente um bloqueio, confinando 1,5 milhão de habitantes. Como parte de suas diretrizes para a implementação do bloqueio, o Gabinete de Segurança de Israel instruiu os militares e outras agências a "reduzir o fornecimento de combustível e eletricidade". Somente bens essenciais para a sobrevivência seriam autorizados.

Israel mal escondeu seus esforços para provocar desnutrição em Gaza. Em texto de dezembro passado, Sara Roy, da Universidade Harvard, cita um telegrama enviado da embaixada dos EUA em Tel Aviv ao secretário de Estado em 2008: "Como parte de seu plano geral de embargo contra Gaza", observa, "as autoridades israelenses confirmaram aos [funcionários da embaixada] em várias ocasiões que pretendem manter a economia de Gaza à beira do colapso, sem levá-la ao limite".

Só tipos básicos de mercadorias foram liberados, principalmente equipamentos médicos, medicamentos e produtos higiênicos e alimentícios essenciais. Os alimentos proibidos incluíam até mesmo algumas frutas —todas caracterizadas por Israel como "itens de luxo".

Em 2008, uma companhia agrícola de Gaza entrou com uma ação na Suprema Corte israelense contestando essa última restrição. O procurador respondeu que o governo havia calculado que os residentes de Gaza precisavam exatamente de 300 bezerros por semana para satisfazer suas necessidades humanitárias. Seguindo sua longa tradição em questões de direitos humanos dos palestinos, o tribunal se recusou a intervir.

Logo depois, a organização de direitos humanos Gisha —para a qual uma de nós, Muna Haddad, trabalhou como advogada— começou o que se tornou uma batalha jurídica de três anos e meio para desclassificar os registros que mostravam que Israel havia elaborado uma série de fórmulas matemáticas para determinar a quantidade e os tipos de alimentos que permitiria a Gaza.

Em 2012, o grupo conseguiu a liberação de um documento do Ministério da Defesa, baseado em um modelo produzido pelo Ministério da Saúde, que inclui tabelas e gráficos que dividem o consumo diário de alimentos por sexo e idade e calculam a ingestão calórica mínima que garantiria uma "nutrição suficiente para a subsistência sem o desenvolvimento de desnutrição".

Gisha

"Slide 7: Energia (calorias) e porção diária de alimentos (em gramas) na Faixa de Gaza de acordo com a escala do Ministério da Saúde - dividida por idade e gênero", uma tabela de uma apresentação sobre o consumo de alimentos na Faixa de Gaza feita pelo Ministério da Defesa de Israel, 1º de janeiro de 2008

O documento partia do princípio que os palestinos em Gaza importariam apenas quantidades limitadas de itens alimentícios básicos como farinha, arroz, óleo, frutas, legumes, carne, peixe, leite em pó e fórmula para bebês, que Israel calculou que poderiam ser entregues em 77 caminhões por dia. Acrescentando remédios, equipamentos médicos e produtos agrícolas e de higiene, o número de caminhões liberados diariamente, em cinco dias por semana, chegava a 106 —mais o equivalente a 70 caminhões semanais de trigo, alcançando 118 remessas diárias.

Esses cálculos pressupunham que os alimentos seriam distribuídos igualmente entre a população, suposição sem precedentes em qualquer cenário histórico ou geográfico. Israel também pressupôs que apenas 10% das necessidades alimentares da população seriam atendidas por frutas e verduras produzidas em Gaza —uma admissão implícita de quão exaustivamente Israel passou a controlar os meios de sobrevivência dos palestinos.

Esses cálculos foram baseados em "tempos normais". Porém, em todos os grandes ciclos de violência —houve cinco desde 2008—, Israel reduziu drasticamente o "mínimo", levando a picos de desnutrição.

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Mais de duas semanas depois do início da guerra de 2008-2009, a Human Rights Watch relatou que "as padarias não haviam recebido farinha de trigo desde o início da operação terrestre, e apenas 9 das 47 padarias de Gaza estavam funcionando". Em agosto daquele ano, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários documentou que cerca de 75% da população de Gaza estava em situação de insegurança alimentar. Essa guerra, agravada pelo bloqueio israelense, precipitou "uma mudança gradual" na dieta dos moradores de Gaza, de alimentos ricos em proteínas para alimentos de baixo custo e ricos em carboidratos, "o que pode levar a deficiências de micronutrientes, principalmente entre crianças e mulheres grávidas".

Em 2010, o Mavi Marmara —o navio principal de uma flotilha conduzida por ativistas pró-Palestina que transportava 10 mil toneladas de suprimentos— tentou desafiar o bloqueio e entregar ajuda humanitária a Gaza. Forças israelenses atacaram o navio e mataram dez pessoas a bordo, desencadeando indignação generalizada.

Semanas depois, na esperança de melhorar a imagem do país, o Gabinete de Segurança lançou um plano para afrouxar as restrições de entrada de produtos civis em Gaza. Itens como chocolate e brinquedos infantis foram permitidos, mas foi mantida a proibição de milhares de itens de "uso duplo", que poderiam ser usados tanto para fins civis quanto militares.

A lista de itens de "uso duplo" é ampla e vaga e abarca fertilizantes, embalagens plásticas para plantas e bombas de irrigação, bem como materiais necessários para garantir a qualidade da infraestrutura de água e esgoto, que precisa ser reparada a cada nova rodada de ataques.

Em outubro de 2021, o Conselho de Direitos Humanos da ONU foi alertado que os moradores da faixa praticamente não tinham acesso à água limpa:

97% da água de Gaza está contaminada; uma situação agravada substancialmente por uma crise aguda de eletricidade que sufoca a operação de poços e estações de tratamento de esgoto, levando cerca de 80% do esgoto não tratado de Gaza a ser despejado no mar, enquanto 20% se infiltra na água subterrânea.

Os civis palestinos, prossegue o documento, estão "enjaulados em uma favela tóxica desde o nascimento até a morte [...], forçados a testemunhar o lento envenenamento de seus filhos e entes queridos pela água que bebem e, provavelmente, pelo solo em que plantam".

Em outras palavras, bem antes da guerra atual, Israel havia deixado a maioria dos habitantes de Gaza despossuídos e subnutridos. Recém-nascidos tinham sete vezes mais chance de morrer que se tivessem nascido a uma hora de carro de distância, em Berseba ou Tel Aviv. Em 2021, o PIB per capita de Gaza atingiu cerca de US$ 1.050, em comparação com US$ 52,1 mil em Israel.

Não é de surpreender, portanto, que, em 2022, a UNRWA tenha fornecido alimentos para mais de 1,1 milhão de refugiados em Gaza, 14 vezes mais que em 2000. Em dezembro de 2021, a agência informou que 81% dos refugiados do enclave viviam abaixo da linha nacional de pobreza, 85% das famílias compravam restos de comida em mercados e 59% dependiam de auxílio ou tinham que pedir comida a parentes. Mais de três quartos das famílias estavam reduzindo o número de refeições diárias e a quantidade de alimentos em cada refeição.

Desde o início da guerra atual, Israel poderia ter se interessado em levar ajuda aos palestinos, nem que fosse para ocultar a violência que seus militares estão cometendo. Em vez disso, com a aceleração da crise alimentar em Gaza, o governo lançou uma campanha orquestrada para liquidar a UNRWA.

Já em janeiro, como o jornalista Amjad Iraqi recentemente relatou, um subcomitê do Legislativo israelense debatia como lidar com a agência. Ele cita a recomendação de uma pesquisadora: "Será impossível vencer a guerra se não destruirmos a UNRWA, e essa destruição deve começar imediatamente".

Acusando 12 funcionários da agência de envolvimento direto nos ataques de 7 de outubro, Israel solicitou que governos estrangeiros cortassem o financiamento à UNRWA imediatamente. Com 13 mil funcionários em Gaza, a organização é o segundo maior empregador do enclave, depois do governo do Hamas. Além de prestar serviços a mais de 1,78 milhão de refugiados registrados, ela "injeta US$ 600 milhões anualmente na economia de US$ 2 bilhões da faixa ", segundo o Grupo Internacional de Crises.

Desde outubro, grande parte da população de Gaza vive em escolas, unidades de saúde e outros prédios da UNRWA, dependendo da agência não apenas para se sustentar, mas também para ter comida e abrigo para se manter viva. A União Europeia afirmou recentemente que não havia recebido provas concretas de Israel para sustentar as acusações contra funcionários da UNRWA, mas o atual orçamento dos EUA, mesmo assim, suspendeu recursos para a organização.

Em 24 de março, Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, relatou que as autoridades israelenses informaram a agência que "não aprovarão mais nenhum comboio de alimentos da UNRWA para o norte". Em entrevista à Al Jazeera, Sam Rose, diretor de planejamento da organização, enfatizou que a decisão teria implicações dramáticas: "Simplesmente mais pessoas morrerão".

Como se isso não bastasse, nos últimos meses, manifestantes israelenses liderados por colonos da Cisjordânia, visivelmente não satisfeitos com a devastação já causada pelo país, resolveram bloquear a entrega de ajuda na passagem de Kerem Shalom. A cada novo acontecimento, só podemos nos perguntar o que mais Israel pretende fazer para aniquilar a população de Gaza e tornar a recuperação da região impossível.

Neve Gordon
Professor de direito internacional e direitos humanos na Universidade Queen Mary de Londres. Autor, entre outros livros, de "Israel's Occupation" e "Human Shields: a History of People in the Line of Fire" (em coautoria com Nicola Perugini)

Muna Haddad
Advogada com atuação em direitos humanos e doutoranda na Universidade Queen Mary de Londres

4 de janeiro de 2018

O "novo antissemitismo"

Logo depois da erupção da Segunda Intifada em setembro de 2000, tornei-me ativo em um movimento político judaico-palestino chamado Ta'ayush, que conduz uma ação direta não-violenta contra o cerco militar de Israel na Cisjordânia e em Gaza.

Neve Gordon

London Review of Books

Vol. 40 No. 1 · 4 January 2018

Tradução / Logo depois da erupção da Segunda Intifada em setembro de 2000, tornei-me ativo em um movimento político judaico-palestino chamado Ta'ayush, que conduz uma ação direta não-violenta contra o cerco militar de Israel na Cisjordânia e em Gaza. Seu objetivo não é o de apenas protestar contra a violação dos direitos humanos por parte de Israel, mas unir-se ao povo palestino em sua luta pela autodeterminação. Durante vários anos, passei a maior parte dos finais de semana com o Ta'ayush na Cisjordânia; durante a semana, eu escrevia sobre nossas atividades para a imprensa local e internacional. Minhas matérias chamaram a atenção de um professor da Universidade de Haifa, que escreveu uma série de artigos me acusando, primeiro, de ser um traidor e um defensor do terrorismo, depois, de um "aspirante ao Judenrat" e um antissemita. As acusações começaram a circular nos sites da direita; recebi ameaças de morte e dezenas de mensagens de ódio por e-mail; os administradores da minha universidade recebiam cartas, algumas de grandes doadores, exigindo que eu fosse demitido.

Mencionei essa experiência pessoal porque, embora as pessoas dentro de Israel e no exterior tenham expressado preocupação com meu bem-estar e oferecido seu apoio, sinto que em seu alarme genuíno sobre minha segurança, elas perderam algo muito importante sobre a acusação do “novo antissemitismo” e quem, em última análise, é o seu alvo.

O “novo antissemitismo”, dizem-nos, assume a forma de críticas ao sionismo e das ações e políticas de Israel, e é frequentemente manifestado em campanhas que responsabilizam o governo israelense segundo o direito internacional, sendo um caso recente o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Nisso é diferente do antissemitismo “tradicional”, entendido como ódio dos judeus em si, a ideia de que os judeus são naturalmente inferiores, a crença em uma conspiração judaica mundial ou no controle judaico do capitalismo, etc. O “novo antissemitismo” também difere da forma tradicional quanto às afinidades políticas de seus supostos culpados: enquanto estamos acostumados a pensar que os antissemitas vêm da direita política, os novos antissemitas estão, aos olhos dos acusadores, primariamente na esquerda política.

A lógica do “novo antissemitismo” pode ser formulada como um silogismo: i) o antissemitismo é ódio aos judeus; ii) ser judeu é ser sionista; iii) portanto, o antissionismo é antissemita. O erro tem a ver com a segunda proposição. As alegações de que o sionismo é idêntico ao judaísmo, ou que uma equação perfeita pode ser feita entre o Estado de Israel e o povo judeu, são falsas. Muitos judeus não são sionistas. E o sionismo tem numerosos traços que não estão de forma alguma embutidos no judaísmo ou são característicos dele, mas emergiram de ideologias coloniais e nacionalistas nos últimos trezentos anos. A crítica ao sionismo ou a Israel não é necessariamente o produto de uma animosidade para os judeus; por outro lado, o ódio aos judeus não implica necessariamente um antissionismo.

Não só isso, mas é possível ser ao mesmo tempo sionista e antissemita. Provas disso são fornecidas pelas declarações de supremacistas brancos nos EUA e políticos de extrema direita em toda a Europa. Richard Spencer, um dos líderes da direita americana, não tem problemas em se caracterizar como um “sionista branco” (“Como cidadão israelense”, explicou ao entrevistador do canal 2 News de Israel, “que tem um senso de nacionalidade e unidade do povo, e a história e experiência do povo judeu, você deve respeitar alguém como eu, que tem sentimentos análogos em relação aos brancos [...] Eu quero que tenhamos uma pátria segura para nós e para nós mesmos, assim como você quer uma pátria segura em Israel”), embora também acredite que “os judeus estão imensamente representados no que se poderia chamar de ‘o establishment’”. Gianfranco Fini, da Aliança Nacional Italiana, e Geert Wilders, líder do Partido Holandês pela Liberdade, também professaram sua admiração pelo sionismo e pela etnocracia “branca” do estado de Israel, ao passo que em outras ocasiões eles tornam claras suas visões antissemitas. Três coisas que aproximam esses antissemitas a Israel são, primeiro, o caráter etnocrático do Estado; segundo, uma islamofobia que eles supõem que Israel compartilha com eles; e, terceiro, as políticas impiedosas de Israel em relação aos migrantes negros da África (na mais recente de uma série de medidas destinadas a coagir os migrantes da Eritreia e do Sudão a deixar Israel, foram introduzidas regras no início deste ano exigindo que os solicitantes de asilo depositassem 20% de seus ganhos em um fundo, para ser reembolsado a eles somente se, e quando, eles deixarem o país).

Se o sionismo e o antissemitismo podem coincidir, então – de acordo com a lei da contradição – o antissionismo e o antissemitismo não são redutíveis entre si. É claro que é verdade que em certos casos o antissionismo pode se sobrepor ao antissemitismo, mas isso em si não nos diz muito, já que uma variedade de pontos de vista e ideologias pode coincidir com o antissemitismo. Você pode ser um capitalista, ou um socialista ou um libertário, e ainda ser um antissemita, mas o fato de que o antissemitismo pode ser alinhado com ideologias tão diversas quanto com o antissionismo não nos diz praticamente nada sobre isso ou eles. No entanto, apesar da distinção clara entre antissemitismo e antissionismo, vários governos, bem como think tanks e organizações não governamentais, insistem agora na noção de que o antissionismo é necessariamente uma forma de antissemitismo. A definição adotada pelo atual governo do Reino Unido oferece 11 exemplos de antissemitismo, sete dos quais envolvem críticas a Israel – uma manifestação concreta da maneira pela qual a nova compreensão do antissemitismo se tornou a visão aceita. Qualquer reprovação dirigida ao estado de Israel agora assume a mácula do antissemitismo.

Um exemplo idiossincrático, mas revelador, do “novo antissemitismo” ocorreu em 2005, durante a retirada de Israel de Gaza. Quando os soldados chegaram para evacuar os oito mil colonos judeus que viviam na região, alguns dos colonos protestaram usando estrelas amarelas e insistindo que não iriam “como ovelhas ao abate”. Shaul Magid, diretor de Estudos Judaicos na Universidade de Indiana, aponta que, ao fazer isso, os colonos tacharam o governo e o exército israelenses como antissemitas. Aos seus olhos, o governo e os soldados mereciam ser chamados de antissemitas não porque odeiem os judeus, mas porque estavam implementando uma política antissionista, minando o projeto de colonizar o chamado Grande Israel. Essa representação da descolonização como antissemita é a chave para uma compreensão adequada do que está em jogo quando as pessoas são acusadas do “novo antissemitismo”. Quando o professor da Universidade de Haifa me rotulou de antissemita, eu não era seu verdadeiro alvo. Pessoas como eu são atacadas regularmente, mas somos considerados escudos humanos pela máquina do “novo antissemitismo”. Seu verdadeiro alvo são os palestinos.

Há uma ironia aqui. Historicamente, a luta contra o antissemitismo procurou promover a igualdade de direitos e a emancipação dos judeus. Aqueles que denunciam o “novo antissemitismo” procuram legitimar a discriminação e a subjugação dos palestinos. No primeiro caso, alguém que deseja oprimir, dominar e exterminar os judeus é considerado antissemita; no segundo, alguém que deseja participar da luta pela libertação do domínio colonial é classificado como antissemita. Dessa maneira, Judith Butler observou que “uma paixão pela justiça” é “renomeada como antissemitismo”.

O governo israelense precisa do “novo antissemitismo” para justificar suas ações e protegê-lo da condenação interna e internacional. O antissemitismo é efetivamente utilizado como uma arma, não apenas para sufocar a fala – “Não importa se a acusação é verdadeira”, escreve Butler, seu propósito é “causar dor, produzir vergonha e reduzir o acusado ao silêncio” – mas também para suprimir uma política de libertação. A campanha não-violenta do BDS contra o projeto colonial de Israel e os abusos de direitos é taxada de antissemita não porque os proponentes do BDS odeiam os judeus, mas porque denunciam a subjugação do povo palestino. Isso destaca um aspecto ainda mais perturbador do “novo antissemitismo”. Convencionalmente, chamar alguém de “antissemita” é expor e condenar seu racismo; no novo caso, a acusação “antissemita” é usada para defender o racismo e sustentar um regime que implementa políticas racistas.

A questão hoje é como preservar uma noção de anti-antissemitismo que rejeita o ódio aos judeus, mas não promove a injustiça e desapropriação nos territórios palestinos ou em qualquer outro lugar. Existe uma saída para o dilema. Podemos nos opor a duas injustiças de uma só vez. Podemos condenar o discurso de ódio e os crimes contra os judeus, como os que foram testemunhados recentemente nos EUA, ou o antissemitismo dos partidos políticos europeus de extrema-direita, ao mesmo tempo em que denunciamos o projeto colonial de Israel e apoiamos os palestinos em sua luta por autodeterminação. Mas, para realizar essas tarefas simultaneamente, primeiramente a equação entre o antissemitismo e o antissionismo deve ser rejeitada.

23 de março de 2015

Aquela velha magia Bibi

Justamente quando parecia que o campo Sionista iria ganhar, o ativista astuto começou a tirar coelhos da cartola.

Neve Gordon
Neve Gordon é professor de Direito Internacional na Queen Mary University of London.


Netanyahu acena para apoiadores na sede do partido em Tel Aviv. Reuters

Tradução / Benjamin Netanyahu é verdadeiramente um mágico. Ainda na sexta-feira (20/3/2015), a maioria das pesquisas indicava que seu partido Likud conquistaria em torno de 21 cadeiras no Parlamento israelense, quatro cadeiras a menos que o Campo Sionista (Partido Labor, com nome novo) de Yitzhak (Bougie) Herzog.

Revelações de corrupção na residência do primeiro-ministro, seguidas de um relatório devastador sobre a crise imobiliária real, além do encolhimento da indústria, greves sindicais, previsões de economia fraca, impasse diplomático e crescente isolamento internacional, tudo parecia indicar que Netanyahu estava de saída. Mas quando mais parecia que o campo Sionista substituiria o campo nacionalista, o exímio marqueteiro de campanhas eleitorais começou a tirar seus coelhos da cartola.

Como se não bastasse a decisão de atropelar o governo Obama na questão das negociações com o Irã, Netanyahu pôs-se a martelar a favor da direita, dando a conhecer ao mundo que os palestinos estariam condenados para sempre a jamais ter um Estado, dado que ele não promoveria a criação de mais um estado árabe para cercar Israel.

"Conspiração da mídia esquerdista"

Apresentou o partido Likud como vítima de uma conspiração da “mídia” esquerdista para derrubar o governo da direita. E convenientemente não disse a ninguém que seu aliado Sheldon Adelson é o proprietário do jornal Yisrael Hayom, o jornal impresso de maior circulação em todo o país.

Ele convidou seus eleitores a voltar para “casa”, prometendo dar conta de todas suas carências econômicas. E no próprio dia das eleições, aterrorizou os judeus com declarações de que os cidadãos palestinos de Israel estariam correndo às urnas em multidões, apresentando os palestinos, que votam em seus próprios candidatos, como se fossem mais uma ameaça existencial.

A poção envenenada de Netanyahu é feita com campanhas para gerar medo, ódio racista contra árabes e ódio militante contra a esquerda política. Pelo que agora se vê, muitos eleitores foram realmente envenenados. Em questão de poucos dias, Netanyahu conseguiu virar a favor dele votos suficientes para eleger mais dez candidatos do seu partido, canibalizando dois dos seus aliados da extrema direita: o partido de Avigdor Lieberman e o partido de Naftali Bennett.

Graças à mágica-veneno de Netanyahu, o Likud saiu-se muito melhor do que esperava, e em coalizão com os partidos ultra-ortodoxos e um novo partido recém criado por um ex-ministro do Likud, o partido Kulanu (All of US), será muito provavelmente criado um bloco de extrema direita, com 67 dos 120 assentos com direito a voto (e isso ainda antes de se computarem os votos dos soldados, que em geral são de centro-direita).

O resultado é claro: o povo de Israel votou pelo Apartheid.

Israel vota pelo Apartheid

Agora é extremamente provável que volte à tona uma leva de leis antidemocráticas que haviam sido engavetadas. Entre essas, as leis que monitoram e limitam o financiamento de ONGs de direitos humanos, restringem a liberdade de expressão, reduzem a autoridade da Suprema Corte, cancelam o status oficial da língua árabe e, claro, levam a votação a lei do Estado-nação.

Essa lei, originalmente proposta por um membro do Likud, define a judaicidade como padrão do estado em todas as instâncias, legal ou legislativa – na qual conflitam as definições de “estado judeu” e “estado democrático”. Significa que as leis que garantem direitos iguais a todos os cidadãos israelenses podem ser derrubadas, sob a alegação de que não respeitam o “estado judeu”. Além disso, essa lei reserva direitos comunitários só para judeus; nega portanto aos cidadãos palestinos qualquer tipo de identidade nacional.

Além da legislação antidemocrática, podemos esperar todo um desfile de políticas de discriminação. O novo governo provavelmente implementará alguma variação do Plano Prawer, que visa a realocar à força milhares de beduínos palestinos e tomar a terra que lhes pertence.

Continuarão a jorrar bilhões de dólares nas colônias israelenses na Cisjordânia e nas colinas do Golan, e mais casas serão expropriadas em Jerusalém Leste. E provavelmente serão presos milhares de refugiados e trabalhadores migrantes “ilegais” que atualmente vivem e trabalham em cidades israelenses.

Mas os resultados dessas eleições trazem uma importante vantagem: clareza. Agora, pelo menos, caiu a fachada sionista liberal, que camuflava a disposição de Israel para fazer avançar seu projeto colonial. O refrão israelense, de que não se poderia alcançar solução diplomática com os palestinos, porque os palestinos não teriam liderança, soará mais vazio, a cada dia. Finalmente, já se pode ver que pretender que Israel seria a única democracia no Oriente Médio é o que é: meia verdade. Enquanto Israel é uma democracia para os judeus é um regime repressivo para os palestinos.

Deve-se também esperar pouca resistência contra o governo de extrema direita, porque o campo Sionista de Herzog e o partido de Yair Lapid também são arabofóbicos e, portanto, pouco lutarão contra a substância racista do novo governo, embora talvez lutem contra o estilo direitista ruidoso de Netanyahu.

"BibiBennett"

Afinal de contas, nos dias antes da eleição via-se um só pacote político, com enormes cartazes que mostravam foto de (Bibi) Netanyahu e seu adversário, representante oficial da extrema direita, Naftali Bennett, em que se lia que “Com BibiBennet continuaremos contra os palestinos por toda a eternidade”. A dupla deve ter esquecido o fato de que 20% dos cidadãos israelenses são palestinos.

Pois mesmo assim, durante essas eleições, um raio de esperança brilhou na escuridão. O esforço concentrado de quase todos os partidos judeus para excluir os cidadãos palestinos produziu um efeito não esperado. Criando uma frente unida, os palestinos conquistaram 14 cadeiras no Parlamento, 25% a mais do que jamais antes. Hoje, os palestinos já são a terceira maior força no Knesset.

Diferente de seus contrapartes noutros partidos, Ayman Odeh, que preside a nova Lista Árabes Unidos, é líder genuíno. Extremamente incisivo, é orador que muitas vezes se serve de muita ironia para ridicularizar seus detratores, ao mesmo tempo em que divulga incansavelmente sua visão igualitária do futuro. Num raro momento de sinceridade, uma conhecida jornalista comentarista israelense denunciou a atitude de Odeh, para ela uma grave ameaça: “É um homem muito perigoso”, disse ela. “Ele projeta algo com que todos os israelenses podem se relacionar”.

Será essa "ameaça" capaz de deter a iminente avalanche de novas leis de Apartheid em Israel? Sinceramente, duvido.

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