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14 de abril de 2021

Onde Seaspiracy acerta sobre a exploradora indústria da pesca

A difamação contra o documentário Seaspiracy, da Netflix, diz muito sobre a influência da indústria da pesca nas ciências do mar. De alguma forma, permitimos que os próprios cientistas da indústria pesqueira definam as metas para uma pesca sustentável — uma vergonha que leva a um pesadelo ecológico.

Spencer Roberts


O escrutínio emergente em torno do Seaspiracy nos desvia das questões maiores que ele levanta. (Valery Sharifulin / TASS via Getty Images)

Tradução / “QAnon dos oceanos”, “eco-fascismo”, “propaganda vegana auto-indulgente” — cientistas da indústria pesqueira estão irritados com Seaspiracy, o novo especial da Netflix que está entre os mais vistos em todo o mundo, e detalha o impacto da pesca industrial na vida marinha e a cumplicidade de selos de certificação e até mesmo de alguns grupos de conservação dos oceanos. A controvérsia que gira em torno de Seaspiracy parece estar centrada nas estatísticas, mas sob a superfície se escondem questões mais profundas sobre a influência da indústria nas ciências do mar.

Seaspiracy tem seus defeitos. Seu estilo de entrevista é abrasivo. O documentário tem animações em excesso. Faz algumas interpretações estatísticas erradas e várias simplificações exageradas. No entanto, o filme é sobretudo preciso e devastadoramente detalhado, levando espectadores ao redor do mundo a questionar os valores da indústria que se tornaram parte integral da ortodoxia das ciências do mar: Por que chamamos as populações de peixes de “estoques”? O que significa chamá-las de “subaproveitadas”? Como eles calculam o rendimento máximo sustentável? Ele é realmente sustentável?

A resposta da academia ao documentário Seaspiracy foi rápida, severa e desleixada. Embora documentos supostamente vazados tenham mostrado que grupos como o National Fisheries Institute [Instituto Nacional da Pesca] vinham preparando uma resposta de mídia por semanas, Sustainable Fisheries [Pesca Sustentável], a página de checagem de fatos da Universidade de Washington, financiada pela indústria, afirmou falsamente que um dos estudos que serviram de fonte para o filme — o estudo que estima que de 20 a 32 por cento de toda a vida marinha importada para os Estados Unidos seria capturada ilegalmente — havia sido retratado. Ironicamente, eles tiveram que retratar a reivindicação. Sustainable Fisheries UW [Pesca Sustentável da Universidade de Washington] questionou corretamente uma estatística de captura acidental de tartarugas marinhas, para a qual Seaspiracy repetiu um erro cometido em um artigo técnico da ONG Sea Turtle Conservancy [Conservação das Tartarugas Marinhas, em tradução livre]. Mesmo que os cientistas da pesca tenham rastreado o estudo original, eles não parecem ter lido o resumo, que revelou que a quantia quase global foi atribuída erroneamente aos Estados Unidos. Em vez disso, eles atacaram sua credibilidade, revelando o modus operandi das relações públicas da indústria pesqueira.

É justo dizer que Seaspiracy citou alguns estudos que podem ser considerados datados ou contestados, mas também deixou de fora algumas das estatísticas mais angustiantes publicadas nos últimos anos. A análise mundial mais recente estimou a captura acidental de pelo menos 8,5 milhões de tartarugas marinhas em um período de dezessete anos. Reconstruções de captura mostram que o volume total pescado atingiu o pico em 1996 e vem diminuindo desde então, apesar da industrialização exponencial e da maior penetração das frotas pesqueiras. Uma investigação global dos padrões de navegação estima que até um quarto das embarcações de pesca possam usar trabalho forçado.

A estatística mais controversa do filme é a projeção de reduções globais das populações de peixes exploradas comercialmente até 2048. O que a indústria não menciona é que a polêmica foi gerada por ela mesma. Desde a publicação do estudo “Impactos da perda de biodiversidade sobre os serviços ambientais oceânicos” na revista Science em 2006, grupos da indústria têm repreendido persistentemente os meios de comunicação por citá-lo. O professor Ray Hilborn, fundador do Sustainable Fisheries UW, emergiu como o crítico mais proeminente deste estudo. Uma década depois, ele seria exposto não apenas por receber milhões de dólares em financiamento da indústria de frutos do mar, mas também por não declarar conflito de interesses. Embora ele tenha trabalhado com o autor da projeção de 2048 em um artigo subsequente, este estudo não corrigiu ou refutou as conclusões do anterior, mas sim citou-as.

O autor principal de ambos os estudos é um biólogo da conservação chamado Boris Worm, que disse ter se tornado “um pouco mais otimista” com a cooperação dos cientistas pesqueiros no segundo estudo, mas afirmou explicitamente que o trabalho “não revisou as projeções originais”. Quando finalmente o fez, em 2016, ele esclareceu que os modelos atualizados eram menos ameaçadores, mas mantiveram-se “preocupantes”. Hilborn, no entanto, continua a fazer uma cruzada em nome da pesca industrial, advogando publicamente contra reservas marinhas e fornecendo aos legisladores depoimentos sobre os perigos do “subaproveitamento” da pesca. A resposta de sua fundação a Seaspiracy contesta quatro estatísticas entre mais de cem, todas elas minimizando o grau do problema e criticando a pesquisa dos colegas, o que levanta a questão: o filme está cheio de erros ou apenas incomoda a indústria?

A controvérsia duradoura sobre a projeção de 2048 é emblemática de uma divisão muito mais profunda nas ciências do mar, entre aqueles que vêem peixes como vida selvagem a ser protegida em oposição àqueles que os veem como recursos a serem extraídos — respectivamente, biologia da conservação contra a ciência da pesca. Enquanto os biólogos conservacionistas visam a restaurar as populações de peixes, o objetivo explícito da ciência da pesca é reprimir sua recuperação. As fórmulas de modelagem simplistas nas quais a ciência da pesca moderna se baseia definem o nível populacional de máximo rendimento sustentável como metade da capacidade de suporte de uma população de peixes. Em teoria, isso atinge um equilíbrio entre a reprodução de indivíduos e fatores limitantes onde o crescimento populacional máximo — e, convenientemente, a lucratividade máxima — ocorrerá.

Isso significa que quando a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura afirma que dois terços dos “estoques de peixes [estão] dentro de níveis biologicamente sustentáveis” (afirmação por si só contestável), isso significa que a maioria dessas populações está em aproximadamente metade de seus níveis históricos, e o terço restante está ainda mais reduzido. Abaixo de 40 por cento, as populações são classificadas como sobreexploradas — nos Estados Unidos, entretanto, o limite é de 25 por cento. Qualquer população acima de 60 por cento da capacidade de carga é definida como “subaproveitada”. Essa filosofia não é apenas marcadamente diferente das práticas de pesca sustentadas por milênios por culturas indígenas, mas tornou-se uma das maiores ameaças à sua subsistência. Essencialmente, permitimos que os cientistas da indústria pesqueira definam as metas de pesca sustentável, o que seria algo como permitir que geólogos do petróleo definam as metas de emissão [de carbono].

No entanto, os cientistas da pesca não foram os únicos acadêmicos a criticar Seaspiracy. Embora recebido de forma bastante diferente por biólogos marinhos em todo o mundo, esses paradigmas da indústria estão profundamente enraizados na academia estadunidense. Sylvia Earle e Callum Roberts, os biólogos marinhos consultados por Seaspiracy, representam ideologias marginalizadas e recebem críticas por valorizar os peixes como vida selvagem, como diz a Dra. Earle, argumentando que nosso objetivo deveria ser minimizar, não maximizar, sua extração. Essa defesa a impediu de participar de reuniões como a primeira cientista-chefe do National Oceanic and Atmospheric Administration [Administração Nacional de Oceanos e da Atmosfera], assessorando o órgão regulador anteriormente denominado National Marine Fisheries Service [Serviço Nacional de Pesca Marinha] — agora NOAA Fisheries — cujo “objetivo principal”, diz ela, “é servir aos interesses da pesca comercial.”

Embora a mensagem do filme tenha inspirado uma reflexão sobre esses valores entre os espectadores em geral, parece que as instituições acadêmicas, tanto na ciência da pesca quanto na biologia marinha, podem ser algumas das últimas a considerá-los. Pelo menos foi assim que me senti depois de um verão pesquisando na UW (Universidade de Washington).

“Parece que teremos outra festa de quebra de ouriço”, minha pesquisadora-chefe riu, planejando o estudo de outro estudante sobre o conteúdo das gônadas de ouriço-do-mar. Meus olhos se arregalaram quando percebi que ela estava falando sobre os “meus” ouriços, cujo comportamento alimentar eu estava estudando em tanques na beira da estrada. Eles eram ouriços-do-mar vermelhos gigantes capturados na natureza — Strongylocentrotus franciscanus — a maior espécie do mundo. Eles podem crescer até cinquenta e quatro centímetros de espinha a espinha e viver por talvez duzentos anos. Alguns desses ouriços podem ter caminhado no fundo do mar sob as agitadas frotas de canoas das nações Salish pré-coloniais. Muitos provavelmente eram mais velhos do que eu. Eu queria libertá-los, mas hesitei em contestar, pois este projeto de pesquisa era uma oportunidade única para eu construir conexões e obter referências para a pós-graduação.

Enquanto carregava os ouriços perto do cais, a diretora do programa do laboratório marinho se aproximou de mim. Eu acenei nervosamente. “Obrigada”, disse ela, com seu forte sotaque senegalês. Ela me contou que viu em sua carreira prestigiosos pesquisadores de ouriços simplesmente deixarem ouriços capturados em tanques estagnados para morrer ao sol. “Claro”, respondi. Ela não deve ter ouvido falar que havia outros planos para eles. Quando cheguei ao outro lado do canal e desliguei o motor, puxei uma escova de tambor de plástico e comecei a fazer cócegas nos pés tubulares dos ouriços até que eles se soltassem. Inclinei-me sobre a amurada, colocando-os cuidadosamente na água e finalmente cheguei ao meu favorito — Houdini. Nunca fui capaz de projetar um recinto capaz de conter aquele.

Assistindo o pequeno ouriço desaparecer lentamente nas profundezas do estuário de Puget, não pude deixar de sorrir, redescobrindo o que eu sempre soube, mas aprendi a esquecer: a vida marinha é vida selvagem.

O escrutínio emergente em torno de Seaspiracy desvia das questões maiores que ele levanta. A vida na Terra começou no mar, e a vida humana sempre esteve ligada a ele. Devemos proteger nosso oceano, usando todas as estratégias à nossa disposição, e coletivamente reivindicar a autoridade para governar como ele é tratado daqueles que lucram com sua exploração.

Sobre o autor

Spencer Roberts é um escritor científico, músico, ecologista e engenheiro solar de telhado do Colorado.

26 de agosto de 2020

Socializar os abrigos de animais

O sistema de abrigo de animais da América é um desastre. Precisamos de um sistema bem financiado e totalmente público que não trate mais os animais como mercadorias dispensáveis - e dê poder aos trabalhadores que trabalham em abrigos públicos.

Spencer Roberts e Grace Van de Pas


Foto: Jazmin Smith

Todos os dias nos Estados Unidos, centenas de cães e gatos são mortos com gás em abrigos públicos para animais. Embora muitos estados tenham adotado a eutanásia por injeção, as câmaras persistem em localidades com menos recursos e com mais animais.

O estado disfuncional do sistema público de abrigos de animais inspirou os amantes dos animais empreendedores em todo o país a iniciar seus próprios empreendimentos para resgatar animais de currais mortais. No entanto, assim como as escolas charter interagindo com o sistema de ensino público, os resgates privados não conseguem resolver os problemas básicos da crise de superpopulação de animais de estimação, em vez disso, desviam o financiamento de abrigos municipais, deixando de lado animais menos “desejáveis” e, em última análise, exacerbando os problemas que assolam o  sistema público.

A melhor forma de fechar as câmaras de gás é investir nas instalações públicas - e nos trabalhadores que as operam.

O custo da austeridade

“Don’t judge me... I know I’m going to Hell,” reads an anonymous Letter from a Gas Chamber Man in rural North Carolina in 2006. He describes his weekly ritual, in which he plays with and names each of the dogs the night before he kills them. He spends $50 buying them fast food and stays out until 5 a.m., breaking the law to release the cats into wealthy neighborhoods where he hopes they will be adopted, or at least die by injection.

Shelter workers don’t kill animals out of malice. Like so many other essential employees, they are asked to do an impossible task with pitiful resources. And if the institutional and operational support weren’t bad enough, they’re also widely disparaged. Many in the animal rescue community deride them as killers. They rarely receive health care, let alone access to counseling, even though they are routinely exposed to the graphic aftermath of animal abuse. They take their own lives at 3.5 times the national average. “I just want to die,” the gas chamber man confesses.

As with rural schools and hospitals, rural animal shelters are a portrait of a vital public service abandoned by the state in pursuit of austerity. And like other abandoned sectors, austerity has created ample conditions for privatization. The number of private rescue organizations (nonprofits without public contracts) has exploded, with revenue increasing by 250 percent between 2002 and 2012. Today, when a person adopts from one of these groups — say, a puppy rescue or a veteran dog placement service — odds are that the dog was pulled from a shelter with a public contract. That shelter would have then lost the revenue that adoption could have made them. Public shelters transfer the dogs willingly, however, because it opens space in their overcrowded facilities for others. By contract, they can’t turn away strays in their jurisdiction. Private rescues can.

This creates a vicious circle of financial loss and euthanasia, as the most expensive-to-treat and difficult-to-place animals wait at the public shelters, and the most lucrative and adoptable ones are snatched up by private operators, who often mark them up for several times what adopters would have paid at the pound. Public shelters must also handle court-ordered cases, which contribute to higher euthanasia rates, hampering public shelters’ ability to raise funding.

Adding to the financial burden, public shelters often foot the bill to make sure pets are fixed, vaccinated, and treated for existing medical conditions. They are subject to regulations that private rescues aren’t and cover a litany of other necessary budget expenditures that private rescues don’t, including education initiatives, animal control issues, property taxes, utilities, and staff.

If a shelter sustains losses for long enough, it goes under. The municipality then posts a bid for the contract, opening the door for private rescues. In 2018, the municipal shelter in Pueblo, Colorado, closed due to bankruptcy. The contract was taken up by a private “no-kill” operator. The results were disastrous. Combining a sharp intake increase with a commitment to stay below a 10 percent euthanasia rate, the facility quickly grew overcrowded. They started overfilling kennels and keeping puppies in laundry bins. They transferred roughly one-third of all admitted animals and cut medical and spay/neuter budgets to compensate for adoption revenue.

After fourteen animals died, a state investigation found injured animals that had gone untreated, urine and hair in surgery rooms, and medications that were expired or designed for horses and cattle being used on dogs and cats. Just four months after the operator took over the contract, it was ordered to close down.

Sometimes it’s not the whole shelter that gets privatized, but a specific service. Transfers are increasingly conducted by third-party nonprofits, driving dogs and cats between shelters and across state lines. In order to avoid spending money to move animals they can’t place, they often arrange adoptions before ever seeing the animals or allowing them to interact with adopters, children, or their pets. This heightens the risk of failed adoptions and incidents of aggression.

Training has also become its own industry, as dogs with behavioral issues are pulled from shelters to prevent their scheduled euthanasia, often raising sums that could fund dozens of adoptions or operations in order to pay for private rehabilitative rescue providers. In a 2017 case, a dog was surrendered in New York after biting a child. He was taken from the public shelter by a private rescue in Pennsylvania, who raised $4,000 to send him to a rehabilitation and training facility in Virginia. After less than three months, he was adopted, quickly surrendered for aggression, and then adopted once more into a home where he killed a senior woman on the same day.

Former staff members at the training facility said the animal received no behavioral training whatsoever. In the private system, oversight measures to ensure the quality or completion of the training program were nonexistent. Unfortunately, such cases are not anomalies.

Not all private rescue dogs come from public shelters. While the public system usually experiences steady intake from strays, transfers, and animal control, private ones often find themselves searching the web to keep animals coming in. It isn’t uncommon for breed-specific and other specialist rescues to make deals with breeders, blurring the line between rescuing and farming.

These kinds of agreements have led to sordid situations like the National Mill Dog Rescue financing puppy mills or meat dog rescues underwriting the multimillion-dollar breeding industry in China, sometimes selling dogs like chihuahuas that no one eats. In one extreme case, Hollywood socialite Marc Ching’s Animal Hope and Wellness Foundation was exposed for sourcing dogs from butchers in Southeast Asia, one of whom alleged that he had paid them to dismember and burn dogs alive for fundraising videos.

A Just Path Forward

Afully public system would come with its own challenges, including the question of how to organize fosters or handle specialized rescues like aggressive dogs and neonatal kittens.

But with adequate revenue and improved standards, an integrated public system could foster better coordination between shelters, facilitate more effective transfers, and prevent adoptions to documented abusers. It could ensure animals aren’t treated as expendable commodities.

Improving worker protection and representation would be an essential part of this system. A unionized, well-compensated workforce would reduce turnover, lengthen careers, and boost morale, while also improving the lives of the animals.

In 2008, unionized shelter workers in Los Angeles forced the resignation of an administrator widely accused of negligence toward animals and sexual harassment toward workers. Similarly, countries like Germany and the Netherlands that mandate employee representation on director boards have some of the highest adoption and lowest stray rates in the world.

The billions of dollars that adopters and donors annually entrust to private entities, such as purebred and puppy rescues, could not only be used to close every gas chamber in the country, but cover living wages, pensions, and mental health care for overworked and undervalued shelter professionals like the anonymous gas chamber man in North Carolina. A well-funded public system could provide universal spay and neuter services, enforce proper regulations and oversight of every shelter facility, and put an end to the breeding of dogs and cats for profit in the United States.

Public shelter workers are not heartless killers, but unsung heroes who make great sacrifices for the animals that society neglects. They show affection, even to those they know cannot be saved. They understand, better than anyone, what needs to be done to save the millions of companion animals in our country without homes. We just have to empower them.

Sobre os autores

Spencer Roberts é músico, ecologista e engenheiro solar de telhado do Colorado.

Grace Van de Pas é zoóloga, assistente veterinária e trabalhadora em abrigos de animais.

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