1 de abril de 1985

A controvérsia sobre Marx e o conceito de justiça

Norman Geras

New Left Review

NLR I/150 • MAR/APR 1985

Tradução / Nesse ensaio farei uma análise de um setor da recente literatura sobre Marx que tem crescido rapidamente e da controvérsia que tem alimentado seu crescimento. Ao longo da última década, aproximadamente, o grande interesse sobre o conceito de justiça dentro da filosofia moral e política deixou sua marca na discussão filosófica da obra marxiana. Isso ocorreu no formato da seguinte questão: Marx condenou o capitalismo como injusto? Há aqueles que argumentam energicamente que não e tantos outros que, da mesma maneira, insistem que sim — essa é uma divisão suficientemente objetiva, apesar das variações de abordagem que existem em cada um dos lados. Para evitar equívocos, é importante destacar logo de início que a questão a ser tratada não é se Marx realmente condenava o capitalismo, ao invés de ter apenas analisado, descrito e explicado sua natureza e suas tendências. Todos os lados envolvidos nessa disputa concordam que sim, ou seja, concordam que existe uma dimensão normativa desse tipo no pensamento marxiano (e, francamente, penso que a negação disso não merece ser levada a sério). A questão aqui é mais específica: Marx condena o capitalismo à luz de algum princípio de justiça?

Irei examinar a posição que sustenta que não e a que sustenta que sim; além da evidência textual aduzida por ambas as posições e os argumentos de apoio apresentados em nome de cada uma delas. Dada a extensão da literatura a ser examinada — são cerca de três dúzias de itens, dos quais apenas um apareceu antes de 1970, e de procedência amplamente, na verdade esmagadoramente, norte-americana (21 dos 24 autores aqui citados escrevem ou vêm desse continente) — cada posição apresentada aqui é uma espécie de combinação híbrida. Nenhum de seus defensores necessariamente utiliza todos os textos e argumentos que eu elencarei, e às vezes eles enfatizam ou interpretam de maneira diferente mesmo aquelas referências que utilizam em comum. Mesmo assim, apresentarei aqui o que espero ser um cuidadoso mapeamento geral dessa disputa, para depois me arriscar em direção a minha própria análise sobre o assunto. Assim, o principal desse ensaio se divide em três partes. Primeiro, eu revisarei os textos e argumentos trazidos por aqueles que negam que Marx condenava o capitalismo como injusto. Segundo, eu revisarei os textos e argumentos trazidos por aqueles que alegam que Marx, sim, condenava-o como injusto. Tentarei nessas duas seções apresentar cada posição de maneira ampla, com o mínimo de comentários críticos. Em terceiro lugar, irei propor algumas conclusões e argumentarei em defesa delas[1].

Antes de começar, porém, é indispensável fazer um breve esboço de parte do pano de fundo teórico desse debate, que são os traços gerais da análise de Marx sobre a exploração capitalista. Nesse sentido, pode-se falar de seus "dois lados" discerníveis na relação salarial. O primeiro e mais benigno deles se encontra na esfera da circulação, onde há, de acordo com Marx, uma troca de valores equivalentes: salários, de um lado, e força de trabalho, de outro. Os trabalhadores vendem sua mercadoria — sua capacidade de trabalhar — e do capitalista eles recebem em troca, na forma de salário, o valor da mercadoria que eles venderam, ou seja, o valor daquilo que entra na produção dela, das coisas que os trabalhadores consomem em função dos meios de subsistência historicamente definidos. O que eles recebem do capitalista, Marx insiste em sublinhar, é o equivalente integral do valor daquilo que venderam, de modo que não há trapaça ali. No entanto, o segundo, e mais feio, lado da relação se revela na esfera da produção. Aqui os trabalhadores, cujo trabalho é em si mesmo a fonte do valor que as mercadorias contêm, terão que trabalhar mais tempo do que o necessário para reproduzir o valor de sua própria força de trabalho, mais do que o necessário para repor o valor do salário que receberam. Ou seja, eles irão realizar trabalho excedente, e o mais-valor criado por eles será apropriado pelo capitalista na forma de lucro. A força de trabalho em ação cria um valor maior do que o valor pelo qual ela é vendida e que ela mesma incorpora. Esses dois lados revelam alternadamente suas características contrastantes nas páginas de O capital, são aspectos contrastantes da relação salarial: na esfera da circulação, uma troca de equivalentes livremente contratada; na esfera da produção, a obrigação de se trabalhar horas sem remuneração. Essa é a natureza da exploração capitalista.

Porém, Marx a considera injusta?

(i) Uma primeira e, em decorrência disso, atraente evidência contra a suposição de que Marx considera o capitalismo injusto é o fato de que ele mesmo efetivamente o disse. Uma vez que a compra da força de trabalho foi efetivada, de acordo com Marx, essa mercadoria pertence ao capitalista de pleno direito e, sendo assim, o mesmo se passa com o seu uso e com os produtos de seu uso (1976, p. 292, 303; 1968, p. 315).[2] Ou, expresso do ponto de vista do trabalhador, "mal seu trabalho tem início efetivamente e a força de trabalho já deixou de lhe pertencer" (MARX, 1976, p. 677).[3] O capitalista, Marx afirma na passagem mais freqüentemente citada a esse respeito, pagou pelo valor da força de trabalho, e o fato de que o uso dela terminou por criar um valor maior "é, certamente, uma grande vantagem para o comprador, mas de modo algum uma injustiça para com o vendedor" (1976, p. 301).[4] Igualmente, o fato de que essa mercadoria particular, a força de trabalho, tenha o valor de uso peculiar de fornecer trabalho e, portanto, de criar valor, não pode alterar em nada a lei geral da produção de mercadorias. Portanto, se a quantia de valor adiantada em salário não ressurge no produto pura e simplesmente, mas sim aumentada de um mais-valor, isso não resulta de que se tenha ludibriado o vendedor, pois este recebeu efetivamente o valor de sua mercadoria, mas do consumo dessa mercadoria pelo comprador (1976, p. 731)[5].

(ii) Em conformidade com sua negação de que a relação salarial é injusta, Marx também se coloca contra os socialistas que tentam recorrer a considerações sobre justiça. O episódio mais bem conhecido é sua polêmica, na Crítica do programa de Gotha, contra a noção de uma justa distribuição dos produtos do trabalho. "O que é 'distribuição justa'?", ele pergunta com severidade, os burgueses não consideram que a atual distribuição é 'justa'? E não é ela a única distribuição justa tendo como base o atual modo de produção? As relações econômicas são reguladas por conceitos jurídicos ou, ao contrário, são as relações jurídicas que derivam das relações econômicas? Os sectários socialistas não têm eles também as mais diferentes concepções de distribuição 'justa'? (Marx; Engels, 1970b, p. 16)

Logo depois ele se refere a tais noções como "restolhos ideológicos ultrapassados" e "disparates ideológicos, jurídicos e outros gêneros, tão em voga entre os democratas e os socialistas franceses" — sua posição geral parece bastante clara (MARX; ENGELS, 1970b, p. 19).[6] Novamente, em uma carta de 1877, ele escreve desdenhosamente sobre um grupo de estudantes imaturos e doutores diplomados super-sábios que querem dar ao socialismo uma orientação ‘mais alta, idealista’, ou seja, substituir sua base materialista (que demanda o estudo sério e objetivo por parte de quem queira usá-la) pela mitologia moderna, com suas deusas Justiça, Liberdade, Igualdade e Fraternidade (n. d., p. 375- 376)[7] Na única ocasião em que o próprio Marx faz uso de referências a direitos e justiça — em sua Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores e no preâmbulo de seu Estatuto — ele se explica cautelosamente em uma carta a Engels: “eu fui obrigado a inserir duas frases sobre ‘dever’ e ‘direito’ no preâmbulo do Estatuto, e também sobre ‘verdade, moral e justiça’, mas elas estão colocadas de uma maneira tal que não vão fazer mal” (n.d., 182).[8]

(iii) O que motiva a polêmica acima referida, bem como a negação de Marx de que haveria injustiça na relação salarial, talvez já esteja evidente. É o que muitos, inclusive esses cuja interpretação estamos esboçando no presente momento, entendem ser sugerido por outra formulação presente na Crítica do programa de Gotha, a saber, que “o direito não pode ultrapassar a forma econômica e o desenvolvimento cultural, por ela condicionado, da sociedade” (MARX; ENGELS, 1970b, p. 19).[9] Critérios de justiça, pode-se depreender daí, são relativos, ou internos, a modos de produção historicamente específicos. Não se trata apenas do fato de que aqueles são gerados por esses — que as relações jurídicas, e as “formas de consciência social” a elas correspondentes, “se originam nas condições materiais de vida” (MARX, 1971, p. 20)[10] — mas que, além disso, as noções de justiça só são aplicáveis e válidas dentro de cada modo de produção. Os únicos princípios de justiça que são apropriados para se julgar um modo de produção particular são aqueles que de fato lhe “correspondem” e são funcionais para sustentá-lo e legitimá-lo. Conforme uma outra passagem bastante citada: Não faz sentido falar aqui de justiça natural, como faz Gilbart [a respeito do pagamento de juros sobre empréstimos — NG]. A justiça das transações que se realizam entre os agentes da produção repousa no fato de que essas transações derivam das relações de produção como uma conseqüência natural. As formas jurídicas, nas quais essas transações econômicas aparecem como atos de vontade dos envolvidos, como exteriorizações de sua vontade comum e como contratos cuja execução pode ser imposta às partes pelo Estado, não podem determinar, como meras formas que são, esse conteúdo. Elas podem apenas expressá-lo. Quando corresponde ao modo de produção, quando lhe é adequado, esse conteúdo é justo; quando o contradiz, é injusto. A escravidão, sobre a base do modo de produção capitalista, é injusta, assim como a fraude em relação à qualidade da mercadoria (MARX, 1981, p. 178, 460-461)

Se por relativismo nós entendermos uma concepção segundo a qual determinar o que é justo é simplesmente uma questão de ponto de vista subjetivo, então se pode dizer que a concepção de Marx não é relativista. Ao contrário, ela tem uma base firmemente objetiva, uma vez que compreende que os padrões de justiça apropriados a qualquer tipo sociedade se estabelecem como tais em virtude da função social real que eles exercem (WOOD, 1980a, p. 18-19; 1981a, p. 131-132). Ela se mostra relativista, contudo, no sentido em que vincula todo princípio de justiça a um modo de produção específico tal como descrito, tornando assim os princípios em si incapazes de providenciar uma base para um juízo trans-histórico. Desse modo, não há como existir um parâmetro de justiça independente, que seja externo ao capitalismo e, ao mesmo tempo, apropriado para julgá-lo. Não pode haver nenhum princípio que transcende épocas históricas a partir do qual Marx seria capaz de condenar o capitalismo como injusto.

(iv) É possível apresentar o mesmo argumento de outro ângulo. Normas e noções morais estão embutidas na bússola da teoria da ideologia de Marx. Portanto, não apenas as ideias sobre justiça mas também a moralidade em um sentido geral pertencem à superestrutura da qualquer formação social. Conforme posto em A ideologia alemã, “a moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, bem como as formas de consciência a elas correspondentes, são privadas, aqui, da aparência de autonomia que até então possuíam” (MARX; ENGELS, 1975, p. 36-37). Assim, a ideia de que Marx consideraria a sociedade capitalista injusta segundo o critério de princípios de justiça historicamente gerais não é consistente com suas noções sobre ideologia (BRENKERT, 1980, p. 90; 1983, p. 154- 155).

Reformismo

(v) Uma vez que a justiça é essencialmente um valor relativo à distribuição argumenta-se, ademais, que atribuir a Marx uma preocupação com ela significa modificar sua crítica ao capitalismo em um sentido que ele explicitamente repudiou e, por esse caminho, se chegar a uma conclusão reformista que ele não aprovava. Essa perspectiva [sobre justiça distributiva] foca a atenção de modo demasiadamente estreito na questão da distribuição de renda e suas diferenciações internas: a parcela do produto social recebida pelos trabalhadores e o nível inadequado de sua remuneração. Além disso, ela sugere que a exploração deve ser eliminada pela alteração e regulação dessa esfera, isso é, por meio de reformas na distribuição de renda. Entretanto, como sabemos, para Marx a exploração reside na própria natureza do capitalismo, sendo parte constitutiva de suas relações de produção, das quais depende em larga medida a distribuição de renda. A preocupação dele é com a questão mais fundamental das relações de produção e a necessidade de uma revolução completa nelas. Assim, por mais importante que sejam, reformas relativas aos níveis salariais simplesmente não podem levar à abolição da exploração3 . Por isso Marx esbraveja contra os autores do Programa de Gotha por criarem confusão em torno da “assim chamada distribuição”. A distribuição dos meios de consumo não pode ser tratada independentemente da dos meios de produção (MARX; ENGELS, 1970b). Assim, também em Salário, preço e lucro, ele fala “daquele radicalismo falso e superficial que aceita as premissas e tenta se esquivar das conclusões”, e continua: “reivindicar uma retribuição igual ou mesmo equânime tendo por base o sistema de trabalho assalariado é o mesmo que reivindicar liberdade com base no sistema escravagista. A questão é a seguinte: o que é necessário e inevitável dentro de um determinado sistema de produção?” Depois, na mesma obra, Marx proclama, “em vez do lema conservador ‘um salário justo para uma jornada de trabalho justa’ eles [os trabalhadores — NG] devem colocar em suas bandeiras a palavra de ordem revolucionária ‘Abolição do sistema de trabalho assalariado!’”(MARX; ENGELS, 1970a, p. 56-57).

(vi) O enfoque voltado à justiça distributiva, há quem argumente, também é reformista em outro sentido. Ele faz o projeto marxiano de buscar as tendências revolucionárias reais que irão derrubar a ordem capitalista retroceder em direção a projetos de esclarecimento moral e reforma jurídica. Como coloca um comentador, esse enfoque “direciona a atenção para ideais abstratos de justiça e a desvia de objetivos revolucionários concretos” (BUCHANAN, 1979, p. 134). A ideia aqui é que, para Marx, é uma forma de idealismo acreditar que o progresso histórico ocorre por meio de aperfeiçoamentos na moral ou nas ideias jurídicas. Tais mudanças são secundárias, derivada das transformações operadas nas relações de produção da sociedade. O que conta, portanto, é identificar as verdadeiras tendências históricas que contribuem para esse tipo de transformação e as forças sociais e movimentos capazes de consumá-la. Em relação a essa tarefa materialista, uma crítica do capitalismo em nome da justiça representa um retrocesso — servindo no máximo para preparar o pretenso revolucionário, por mais determinado e impetuoso que seja, para “fazer o discurso principal na próxima Convenção do Partido Democrata” (WOOD, 1980a, p. 30)4 .

(vii) Princípios de justiça são, de qualquer modo, precisamente princípios jurídicos. E, como tais, eles se encontram dentro daquele conjunto de instrumentos institucionais do Estado, da lei, das penas, etc., por meio dos quais modos de conduta são impostos aos membros de uma ordem social. De acordo com Marx, no entanto, uma sociedade comunista não terá esse tipo de mecanismo. Nela, o Estado se dissolverá. O comunismo, conforme concebido por ele, não pode ser visto como a realização de um princípio jurídico tal como a justiça distributiva, como se o comunismo representasse o estabelecimento e a institucionalização dela e o capitalismo fosse criticado por violá-la (WOOD, 1980a, p. 26-27; LUKES, 1982, p. 198).

Para além da escassez

(viii) Uma sociedade comunista, conforme Marx a concebe, é de fato uma sociedade que se encontra para além da justiça. Isso é o que defendem os comentadores cuja posição estamos apresentando, e a principal referência textual para tanto é a mesma seção da Crítica do Programa de Gotha que citamos acima, na qual Marx dá sua opinião sobre a “distribuição justa” e sobre “direitos”. Nesse contexto, ele também antecipa dois tipos de critérios de distribuição para as diferentes fases de uma sociedade pós-capitalista e os discute de uma maneira que esses comentadores acreditam provar seu ponto de vista. Por uma questão de conveniência, me referirei daqui em diante aos dois princípios como o princípio da contribuição e o princípio das necessidades. O primeiro deles terá vigência, Marx acredita, durante um período inicial de emergência do comunismo, “trazendo as marcas [...] da velha sociedade de cujo ventre ela saiu”. Depois de algumas deduções necessárias feitas sobre a produção social total — para finalidades infraestruturais e de interesse coletivo e para o fornecimento de bens públicos — cada indivíduo receberá dali, na forma de bens de consumo pessoal, uma quantidade proporcional à contribuição de trabalho providenciada por ele ou ela. Cada um será recompensado, desse modo, de acordo com um padrão igual de medida, constituindo uma situação de “igual direito”. Trata-se, porém, diz Marx, de um igual direito que “continua marcado por uma limitação burguesa”. Embora ele não mais admita diferenciações ou privilégios de classe, ao medir as pessoas apenas de acordo com o trabalho por elas fornecido o princípio permite que aqueles relativamente dotados de mais recursos, sejam eles físicos ou intelectuais, se beneficiem da contribuição maior que poderão fazer. Daí se segue também, reciprocamente, que os indivíduos com necessidades ou responsabilidades relativamente maiores serão atingidos por desvantagens e ônus maiores que os outros: segundo seu conteúdo, portanto, ele é, como todo direito, um direito da desigualdade. O direito, por sua natureza, só pode consistir na aplicação de um padrão igual de medida; mas os indivíduos desiguais (e eles não seriam indivíduos diferentes se não fossem desiguais) só podem ser medidos segundo um padrão igual de medida quando observados do mesmo ponto de vista, quando tomados apenas por um aspecto determinado, por exemplo, quando no caso em questão, são considerados apenas como trabalhadores e neles não se vê nada além disso, todos os outros aspectos são desconsiderados. (MARX; ENGELS, 1970b, p. 16)

Tal abordagem unilateral, que, por assim dizer, nivela a complexa individualidade das pessoas, é, segundo Marx, inevitável no estágio inicial do comunismo. Apenas em uma etapa ulterior será possível implementar o princípio das necessidades, que é mais apto a se adequar à individualidade de cada um: numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver sido eliminada a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição entre trabalho intelectual e manual; quando o trabalho tiver deixado de ser mero meio de vida e tiver se tornado a primeira necessidade vital; quando, juntamente com o desenvolvimento multifacetado dos indivíduos, suas forças produtivas também tiverem crescido e todas as fontes da riqueza coletiva jorrarem em abundância, apenas então o estreito horizonte jurídico burguês poderá ser plenamente superado e a sociedade poderá escrever em sua bandeira: ‘De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!’(MARX; ENGELS, 1970b, p. 16-19)

Argumenta-se, à luz dessas passagens, que o princípio das necessidades — apresentado aqui como “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!” — não é um princípio de justiça distributiva; e que na fase superior do comunismo da qual Marx fala as próprias circunstâncias de escassez e conflito que fazem tais princípios necessários não mais existirão. Segundo esse argumento, tal fórmula não foi planejada por Marx como um princípio de justiça, uma vez que fica claro que ele entende que esses princípios, e os conceitos de direitos a eles associados, são inadequados por natureza, incapazes, em sua generalidade e formalismo (ou seja, incapazes devido a seu igualitarismo), de levar em conta a individualidade específica de cada pessoa. O princípio das necessidades não é uma regra geral ou formal, pois ele não submete as pessoas a um igual parâmetro ou ponto de vista mas as considera em sua especificidade e variedade. Alguns chegam a sugerir que não se trata nem mesmo de um princípio, mas de uma mera descrição de como as coisas eventualmente serão. Portanto, quando Marx fala da superação do “estreito horizonte jurídico burguês”, nós deveríamos interpretá-lo no sentido de que são considerações sobre direitos e justiça como tais que são transcendidas e deixadas para trás; “no sentido de que não apenas não haverá direito burguês, mas que não haverá mais Recht, não existirão mais regras jurídicas e morais” (LUKES, 1982, p. 200). Essa possibilidade se baseia na hipótese de um desaparecimento progressivo daquelas condições que tornam necessárias as codificações legais e as normas de justiça distributiva. Isso é, ela se fundamenta na eliminação da escassez e de outras fontes de conflito entre os homens, ou, pelo menos, na sua redução a um ponto de insignificância. Com uma produtividade material crescente gerando abundância de recursos, com qualidades e atitudes interpessoais mais generosas e compreensivas, com relações mais harmoniosas e cooperativas, aquilo que de Hume a Rawls foi visto como “as circunstâncias da justiça” não estará mais presente. Se Marx vê essa sociedade comunista como “superior” a todas as formas sociais precedentes, então obviamente, levando em conta o que vimos acima, isso não pode significar que ele a considera mais justa. Ao contrário, ela é superior de acordo com algum outro parâmetro de valor5 .

(ix) Marx, pois, — para finalizar nosso exame desse lado da controvérsia — está comprometido com outros valores. Como foi deixado claro desde o começo, ninguém nega que ele condenava o capitalismo, e ele o fazia à luz de outros valores que não a justiça: o mais comumente mencionado a esse respeito é a liberdade; mas também a auto-realização, o bem-estar e o senso de comunidade6 . Diferentemente das normas de justiça, sustenta-se que esses princípios não são inteiramente relativos ou internos a modos de produção historicamente específicos, de modo que eles podem servir como critérios universais de avaliação. Há uma disputa específica “desse lado das barricadas” sobre se esses critérios são valores morais ou valores de um tipo não-moral, mas eu ignorarei essa questão de importância secundária em função da posição que adotarei na última seção desse ensaio ao tocar no principal ponto de discordância. II.

Marx a favor da Justiça

(i) Se Marx não vê injustiça ou fraude no salário pago pelo capitalista ao trabalhador, isso assim se passa porque esses dois, como ele insiste, trocam valores inteiramente equivalentes. Entretanto, — dizem em resposta os representantes do segundo grupo — é apenas na perspectiva estreita e inicial do processo de circulação que ele trata a relação de trabalho assalariado como uma troca de equivalentes. Somente na esfera da troca, onde as mercadorias são compradas e vendidas, e apenas de acordo com o seu critério interno, com a lei do valor que governa a compra e venda de mercadorias, é que Marx coloca a relação nesses termos. Uma vez que ele avança para além do contrato de trabalho, para lidar com o trabalho excedente que é fornecido pelo trabalhador ao capitalista no processo de produção, e uma vez que ele coloca essa relação particular no seu contexto de classe mais amplo, com a classe capitalista defrontando os trabalhadores e explorando-os repetida e continuamente, ele passa a representar a relação de trabalho assalariado como não sendo uma troca de equivalentes, como não sendo de modo algum uma troca genuína. Marx agora afirma que é “apenas ilusório” e uma “mera aparência” ou “forma” (1973, p. 458) que o capitalista adianta algo em troca da força de trabalho. É uma “fachada”, uma “mera simulação” (1968, p. 92-93). Não há verdadeira equivalência na troca, pois o trabalhador deve trabalhar mais do que o necessário para repor o valor de seu salário; daí que Marx fala do trabalho excedente como algo feito “de graça” para o capitalista, como algo “sem retribuição”, ou simplesmente o chama de “trabalho não pago” (1976, p. 346, 680) . De qualquer modo, a troca é apenas aparente, já que o capitalista apenas adianta aquilo que foi apropriado — gratuitamente — do produto do trabalho de outros trabalhadores. Conforme Marx coloca em O capital, a troca de equivalentes, que aparecia como a operação original, torceuse ao ponto de que agora a troca se efetiva apenas na aparência, pois, em primeiro lugar, a própria parte do capital trocada por força de trabalho não é mais do que uma parte do produto do trabalho alheio, apropriado sem equivalente; em segundo lugar, seu produtor, o trabalhador, não só tem de repô-la, como tem de fazê-lo com um novo excedente. A relação de troca entre o capitalista e o trabalhador se converte, assim, em mera aparência pertencente ao processo de circulação, numa mera forma, estranha ao próprio conteúdo e que apenas o mistifica. A contínua compra e venda da força de trabalho é a forma. O conteúdo está no fato de que o capitalista troca continuamente uma parte do trabalho alheio já objetivado, do qual ele não cessa de se apropriar sem equivalente, por uma quantidade maior de trabalho vivo alheio (1976, p. 729-730)

Pode-se perceber aqui um paralelo entre como Marx trata a aparente equivalência no contrato de trabalho e como ele trata a liberdade do trabalhador de escolher entrar nesse contrato. Pois o trabalhador parece fazê-lo de modo completamente voluntário, e a esfera da circulação parece ser, portanto, “um verdadeiro Éden dos direitos inatos dos homens [...] O reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham” (1976, p. 280). Mas a realidade é outra e, de novo, não tão bondosa: o trabalhador “livre”, escreve Marx, “aceita livremente, isto é, é socialmente coagido a vender a totalidade de seu tempo de atividade de vida, até mesmo sua própria capacidade de trabalho”; e “o tempo de que livremente dispõe para vender sua força de trabalho é o tempo em que é forçado a vendê-la” (1976, p. 382, 415). Assim como, em um caso, a apropriação unilateral do trabalho alheio é a realidade por trás de uma aparência de troca igual, no outro, a coação é o conteúdo real da aparência do contrato voluntário: o capital [...] extrai determinada quantidade de mais-trabalho dos produtores diretos ou dos trabalhadores, mais-trabalho que o capitalista recebe sem equivalente e que, conforme sua essência, continua sempre a ser trabalho forçado, por mais que possa aparecer como resultado de um contrato livremente consentido” (1981, p. 957-958).

A pretensa justiça da relação de trabalho assalariado é comparável, então, à liberdade do trabalhador dentro dela. Trata-se de uma aparência cujo conteúdo real, ou essência, é radicalmente diferente. Ela é provisoriamente afirmada por Marx no contexto do processo de circulação, no qual capitalista e trabalhador se relacionam exclusivamente enquanto indivíduos, mas depois, no devido tempo, ela é revelada como uma mera aparência, considerando-se a perspectiva das relações de (e na) produção, uma perspectiva que, ao contrário, enxerga a relação de classe com classe7 .

Exploração como roubo

(ii) Mas se Marx, por assim dizer, volta atrás em sua afirmação de que há equivalência no contrato de trabalho, será que ele também claramente volta atrás em sua negação de que ali haveria injustiça? Estaria ele, de fato, dizendo, em sentido contrário a suas próprias reprimendas contra outros socialistas, que o conteúdo real de exploração da relação de trabalho assalariado é injusto ou está violando os direitos de alguém? Nas suas palavras explicitas, a resposta é não, mas — os proponentes dessa interpretação sustentam — na verdade, sim. Pois ele com freqüência se refere à apropriação de mais-valor por parte dos capitalistas nos termos de “roubo”, “saqueio”, etc., o que é equivalente a dizer que o capitalista não tem direito de se apropriá-lo e que fazê-lo seria, assim, errado ou injusto. Nesse sentido, Marx se refere ao produto excedente como o “tributo anualmente arrancado da classe trabalhadora pela classe capitalista”, e continua dizendo que quando esta última, com uma parte do tributo, compra força de trabalho adicional da primeira – ainda que lhe pague seu preço integral, de tal modo que seja trocado equivalente por equivalente –, ela continua a agir segundo o velho procedimento do conquistador que compra as mercadorias dos vencidos com o dinheiro que roubou destes últimos (1976, p. 728)

Essa não é uma escolha de palavras qualquer por parte de Marx. Ao contrário. Ele também se refere à produção excedente como “um tributo anualmente arrancado da classe trabalhadora sem que nada seja dado em troca”, e diz que “todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo” (1976, p. 761). Ele se refere ao “saque extraído dos trabalhadores” e do “mais-valor total sugado dos trabalhadores” como “butim coletivo” e “pilhagem do trabalho alheio” (1976, p. 743; 1980, p. 312-313). A perspectiva da abolição da propriedade capitalista é por ele descrita como “a expropriação dos expropriadores” (1976, p. 930). E a riqueza produzida sob o capitalismo, ele afirma, é “baseada no roubo do tempo de trabalho alheio” (1973, p. 705)8 . Note-se que, sem dúvida, é perfeitamente possível se fazer uso do vocabulário sobre roubo sem que se pretenda com isso fazer uma acusação de injustiça. Ele pode ser usado simplesmente para se evocar, e não para se endossar, algum parâmetro predominante ou convencional de propriedade legítima. Nesse sentido, Robin Hood roubava dos ricos para ajudar os pobres, por exemplo. Mas o argumento central aqui é que de acordo com Marx, como já deve estar claro a essa altura, não é que a exploração seja roubo segundo algum parâmetro predominante ou convencional, ou seja, errada de acordo com as normas da própria sociedade capitalista. Esse argumento foi bem apresentado por Jerry Cohen: uma vez que [...] Marx não pensava que o capitalista rouba de acordo com critérios capitalistas, e uma vez que ele pensava que o capitalista rouba, ele deve ter querido dizer que ele rouba em um sentido apropriadamente não-relativista. E, uma vez que roubar significa, em geral, tirar do outro o que é dele por direito, então roubar é cometer uma injustiça, portanto, um sistema ‘baseado no roubo’ é baseado na injustiça (COHEN, 1983, p. 443).

Além disso, alguns acham significativo que Marx, em sua discussão sobre a acumulação primitiva no final do primeiro volume de O capital, tenha enfatizado, dentre outro métodos violentos e sangrentos, o roubo que também marcou esse processo — roubo de “todos os meios de produção” dos produtores diretos, saqueio da terra e do povo (1976, p. 875-895). Não foram a justeza e o trabalho [os motores do estabelecimento do capitalismo], conforme se dá na a visão idílica dos economistas políticos, pois “na história real, como se sabe, o papel principal é desempenhado pela conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência” (1976, p. 874). Essa história real pode não ser determinante de um ponto de vista puramente teórico, uma vez que mesmo que se conceba um capitalismo com origens virtuosas, ou pelo menos mais virtuosas que essa, o fato é que a condenação de injustiça de Marx recai sobre o capitalismo em geral, sobre sua própria natureza, independentemente do quão honestas, ou não, tenham sido suas origens. Mesmo assim, se ele destacou o roubo que de fato aconteceu ele o fez a fim de chamar atenção para a injusta formação histórica do capitalismo. E, considerando que o contexto 8 Para uma passagem mais ambígua e disputada ver Marx (1975, p. 186). dessa condenação é precisamente um período de transição entre modos de produção, isso mostra certamente, contra o que foi argumentado pelo lado contrário, que nem todo parâmetro de justiça era, para ele, interno a um modo de produção em particular9 .

(iii) A partir daquilo que Marx afirma sobre o roubo capitalista podemos, portanto, perceber um compromisso com critérios de justiça independentes e transcendentes, e mais evidências sobre isso são fornecidas na sua caracterização dos dois princípios de distribuição que ele antecipa para uma sociedade pós-capitalista. Eu apresentarei — no ponto II (viii) — uma interpretação do segundo deles, o princípio das necessidades, que responderá às afirmações do outro grupo de comentadores sobre ele. Porém o que importa aqui é que Marx classifica esses princípios tanto em relação àquilo que os precede historicamente quanto em relação um ao outro. O princípio da contribuição, segundo o qual a distribuição de bens deve ser baseada exclusivamente no trabalho feito pelos indivíduos, é designado por Marx como um “avanço”. Esse princípio — sob o qual “ninguém pode dar nada além de seu trabalho e [...] nada pode ser apropriado pelos indivíduos fora dos meios individuais de consumo” — é, portanto, superior às normas capitalistas de distribuição. Mas, por outro lado, como foi explicado acima, por não levar em conta os diferentes talentos individuais ou as diferentes necessidades, Marx também diz que ele possui “defeitos” em relação ao princípio das necessidades que eventualmente o substituirá, de modo que devemos entender esse último como um princípio superior. Em outras palavras, Marx propõe uma hierarquia de princípios distributivos; e como eles não são classificados por ele de acordo com algum parâmetro valorativo extrínseco, é razoável supor que ele simplesmente compreenda alguns princípios como intrinsecamente mais justos do que outros de acordo com um parâmetro de justiça trans-histórico10.

Realismo moral

(iv) As afirmações aparentemente relativistas de Marx nesse campo não são, na verdade, o que muitos acham ser. Elas são afirmações não de relativismo moral, mas de, por assim dizer, realismo moral. O fato de que, para ele, os parâmetros normativos são socialmente fundados, ou determinados, significa que as normas às quais as pessoas obedecem e acreditam são fortemente influenciadas pela natureza da sociedade da qual fazem parte, bem como pela sua posição de classe, e assim por diante. Mais precisamente, isso significa que o tipo de parâmetro normativo que pode de fato ser efetivamente adotado e implementado depende da estrutura econômica e dos recursos de uma dada sociedade. Mas não significa que os critérios usados para se analisar ou avaliar uma sociedade devem necessariamente ser limitados a essa configuração econômica; ou que os únicos critérios válidos de avaliação são aqueles predominantes, ou seja, aqueles que se encontram em harmonia com o modo de produção11. A questão aqui é a afirmação de Marx de que o direito não pode ser “superior à estrutura econômica”. Seu contexto deixa claro que a abordagem de Marx é realista, e não relativista. Primeiro ele se refere ao princípio da contribuição como um avanço em relação ao capitalismo, depois ele explica porque esse princípio é, ainda assim, imperfeito, afirmando que seus defeitos são inevitáveis durante a primeira fase do comunismo. Então ele apresenta a afirmação em questão e assevera imediatamente depois que as condições diferentes propiciadas pela fase superior do comunismo permitirá a implementação do princípio das necessidades. Colocada nesse contexto, a declaração de Marx está plausivelmente relacionada com os pré-requisitos reais para que se alcance progressivamente parâmetros normativos superiores ou mais avançados. Assim, obviamente ele não está declarando que não há superior ou inferior nesse tema em função do fato de cada parâmetro ser relativo a uma estrutura econômica apropriada (MARX; ENGELS, 1970b, 18-19).

(v) O argumento continua com a afirmação de que não há nada reformista, ou contrário ao pensamento de Marx, na preocupação sobre a distribuição em si. Marx de fato se opõe ao enfoque excessivamente restrito sobre a divisão social da renda, mas isso se dá porque ele a vê, em certa medida, como uma conseqüência das relações de produção, e seria um equívoco político, e um disparate teórico, condenar os efeitos sem criticar a sua causa. Ao se tomar qualquer perspectiva mais ampla sobre a distribuição, no entanto, vê-se que Marx está claramente preocupado com ela: com a distribuição do tempo livre, de oportunidades para atividades enriquecedoras, de trabalho desagradável e maçante; com a distribuição de bem-estar em um sentido geral, de vantagens e desvantagens socioeconômicos. E ele está preocupado, particularmente e acima de tudo, com a distribuição de recursos de produção, dos quais, de acordo com ele, essa distribuição mais ampla depende. Isso está claro mesmo na passagem da Crítica do Programa de Gotha a partir da qual se costuma derivar a suposta posição antidistributiva de Marx. Pois, ao insistir que a distribuição dos meios de consumo não pode ser vista como independente do modo de produção, Marx se refere ao próprio modo de produção como um tipo mais básico de distribuição: “a distribuição das condições de produção” (MARX; ENGELS, 1970b, 18-19). Portanto, seu menosprezo do “alvoroço” sobre a distribuição é direcionado para a interpretação demasiadamente estreita da distribuição, e não para a distribuição em geral. A atenção que ele mesmo dá às relações de produção é precisamente uma preocupação com a distribuição, com aquela que para ele é a mais importante de todas, nomeadamente, a distribuição dos meios de produção. Nesse sentido, essa preocupação é revolucionária par excellence (VAN DER VEER, 1973, p. 376; HUSAMI, 1980, p. 75; COHEN, 1973, p. 13-14; ARNESON, 1981, 222-225; VAN DER VEEN, 1978, p. 455). (vi) Da mesma maneira, do ponto de vista de Marx, não há nada reformista ou idealista, no fato da crítica ao capitalismo recorrer a normas ou ideais éticos, como justiça. É verdade que se esses ideais são tomados como o fundamento único e autossuficiente, ou até mesmo principal, para um debate crítico sobre o capitalismo, ele será insuficiente. Mas embora argumentos de ordem moral sejam claramente considerados por Marx inadequados enquanto motor ou instrumento da transformação revolucionária, eles não são, em nenhum sentido, incompatíveis com o tipo de análise materialista — das tendências históricas reais em direção à revolução — que ele via como indispensável. Considerada em conjunto com tal análise, e com o movimento e lutas dos trabalhadores contra o capitalismo e as transformações socioeconômicas que essas lutas e outros elementos ocasionarão, uma crítica normativa é perfeitamente cabível, e a negação disso é apenas uma forma daquilo que se chama de economicismo. Argumentos morais sem dúvida acompanham e constituem uma contribuição relativamente independente para processos de constituição da agência humana em direção à mudança revolucionária, para a formação do desejo e da consciência a favor do socialismo (HOLMSTROM, 1977, p. 368; HUSAMI, 1980, p. 53-54; RYAN, 1980, p. 516; ELSTER, 1985). (vii) Então, seja qual for a força de categorizar os princípios de justiça e de direito como jurídicos, a categorização é inaceitavelmente estreita se eles forem vinculados indissoluvelmente à existência do direito, em um sentido estritamente positivista. Eles estão, obviamente, como Marx sabia, incorporados nos códigos legais, sustentados pelo aparato coercitivo que é parte do Estado. Entretanto, tais princípios também pode ser, em uma primeira instância, apenas princípios éticos que se referem ao o que constitui, ou não, uma distribuição de vantagens e desvantagens moralmente defensível; e é possível a sua efetivação sem a parafernália da coerção estatal. Se isso não implica em uma concepção jurídica de justiça, então Marx tem, ou melhor, também tem, uma concepção não-jurídica de justiça (HUSAMI, 1980, p. 78-79; SHAW, 1981, p. 41-42; RILEY, 1983, p. 49-50).

O princípio das necessidades

(viii) “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!”, é a isso que o princípio se refere. Trata-se, em sua essência, de um princípio de justiça distributiva, mesmo que sua realização seja concebida junto com a morte do Estado. Existem algumas diferenças relevantes sobre a maneira em que isso é argumentado entre os autores cuja interpretação está sendo esboçada aqui, mas o ponto em comum é que eles entendem que Marx, conscientemente ou não, conserva uma noção de direitos mesmo para a fase superior do comunismo. Por mais severa que a Crítica do Programa de Gotha seja em relação a um certo tipo de formalismo exemplificado pelo princípio da contribuição, essas críticas não acarretam uma rejeição de todos os tipos de direito ou regras gerais. Na verdade, elas simplesmente revelam quais regras e direitos Marx acha moralmente inadequados. Conforme posto por um comentador, “é apenas o horizonte do direito burguês, e não do direito em si, que é superado na transição a um estágio superior” (ARNESON, 1981, p. 216). De fato, a regra geral planejada para esse estágio superior é a satisfação das necessidades individuais, e a generalização do direito de, entre outras coisas, aos meios de desenvolvimento pessoal e autorrealização. Seu complemento (expresso na primeira metade do famoso slogan) é que cada pessoa realize um esforço proporcional a suas habilidade ao se encarregar de uma parte das tarefas comuns. Se esses critérios conseguem corrigir os defeitos do princípio que substituem — o qual, por só reconhecer a magnitude da contribuição de trabalho de cada um, confere mais recompensas para aqueles com maiores capacidades e talentos — isso não ocorre por eles estarem supostamente livres de certas características dos direitos como a generalidade ou a força prescritiva. Isso se dá apenas porque Marx obviamente considera o esforço e a necessidade critérios de distribuição mais apropriados, em resumo, mais justos, do que os talentos individuais. Por qual outra razão ele diria que o princípio da contribuição “reconhece tacitamente a desigualdade dos talentos individuais como privilégios naturais e, por conseguinte, a desigual capacidade dos trabalhadores” (MARX; ENGELS, 1970b, 18), e ao mesmo tempo, com sua defesa do princípio das necessidades, admitiria o reconhecimento de necessidades desiguais (e, portanto, renuncia, a esse respeito, qualquer discussão sobre privilégios)? Marx claramente não considera que o elemento de pura sorte relativa à posse de habilidades distintas ou excepcionais mereça uma recompensa maior do que aquela que é inerente ao próprio exercício e gozo delas. O fato de Marx ver o princípio das necessidades como menos formal, ou mais concreto, do que o princípio que substitui, além de mais sintonizado (em um sentido moral) com a individualidade específica de cada pessoa, de modo algum anula a sua generalidade enquanto princípio normativo.

É justamente por causa da ideia de que o princípio das necessidades é mais sensível à especificidade de cada indivíduo que alguns dos autores que o vêem como um parâmetro de direito e justiça, conforme elaborado acima, concordam com aqueles que rejeitam essa mesma perspectiva quando afirmam que não se trata de um princípio de igualdade: pois para ele os indivíduos são considerados desiguais por definição (RILEY, 1983, p. 39-43; HUSAMI, 1980, p. 61). No entanto, outros desses autores (a maioria) discordam disso. Marx, eles argumentam, deve ser entendido como o proponente de uma igualdade melhor, ou mais verdadeira, que tomaria o lugar de uma igualdade falsa. Pois, a única acusação feita por ele contra o princípio da contribuição e seus limites é, essencialmente, que esse princípio produz desigualdades injustificáveis, recompensas desiguais baseadas em diferenças de habilidade individual que não têm relevância moral. O que Marx prevê, em seu lugar, é a igualdade não no sentido do direito a recompensas iguais para quantidades iguais de trabalho, nem mesmo no sentido do direito de cada pessoa a exatamente as mesmas coisas ou a uma parcela idêntica da riqueza social; ao contrário, o que ele prevê é a igualdade em relação à autorrealização — o direito igual, para todos, aos meios de desenvolvimento de si mesmos (HANCOCK, 1971, p. 69-70; ARNESON, 1981, p. 214; REIMAN, 1981, p. 316-317; ELSTER, 1983, p. 296; GREEN, 1983, p. 438-442). Quanto à perspectiva de uma eventual abundância de recursos, ela é tomada como a condição prévia para a efetivação do princípio das necessidades, embora obviamente não seja incompatível com a interpretação dele como um princípio de justiça distributiva. Apenas um autor tratou explicitamente (e outro o fez implicitamente) a suposição da abundância incondicional como uma premissa problemática12.

(ix) Por fim, a alegação de que a condenação do capitalismo feita por Marx se baseia em valores como liberdade e realização pessoal, mas não em uma concepção de justiça, envolve um uso inconsistente de seus textos. Se esses outros valores são considerados como parte de uma ética (“da liberdade”), ou moralidade (“da emancipação”), ou são vistos, ao contrário, como bens não-morais13, isso não faz diferença. Tal alegação cria uma distinção no pensamento marxiano entre dois tipos de valores: de um lado aqueles, que têm a ver com direitos e justiça, e que são necessariamente dependentes e relativos a formações sociais historicamente particulares (e, portanto, inadequados para a crítica revolucionária); de outro lado, valores que, como liberdade e autorrealização, que não são tão dependentes ou relativos e, portanto, são mais apropriados para a utilização crítica. Tal distinção não tem fundamento. Pois, na medida em que Marx postula que os valores são ideologicamente limitados ou relativos, sua teoria da ideologia é perfeitamente geral no que diz respeito a seu alcance, englobando todo tipo de conceito normativo e não apenas as ideias sobre justiça. Há ali uma sociologia da ideias normativas que tenta explicar as bases históricas de diferentes valores; isso, porém, não é incompatível com o fato de o próprio Marx ter feitos juízos de valor com pretensão universal. Marx, claro, condena o capitalismo em função da opressão, da coerção e da falta de liberdade, mas ele também o condena por sua injustiça. E, mesmo que, por outro lado, ele de fato identifique princípios de justiça que são internos e funcionais ao modo capitalista de produção, ele também identifica concepções de liberdade e autodesenvolvimento que são, da mesma maneira, historicamente relativas14. Levar em consideração apenas os textos nos quais aparece o primeiro caso é uma arbitrariedade interpretativa (YOUNG, 1981, p. 266-268; ARNESON, 1981, p. 219-220; HUSAMI, 1980, p. 52-53).

III. Marx contra Marx

Diante de duas interpretações tão divergentes sobre o pensamento de um único autor, cada uma delas aparentemente sustentada por uma miríade de citações diretas e raciocínios dedutivos derivados de suas obras, provavelmente seria bom começar colocando-se categoricamente a questão sobre se é possível resolver definitivamente essa controvérsia apenas fazendo-se referência aos textos de Marx. Penso que existem razões para se duvidar que isso é possível. Eu mencionarei duas, sendo uma delas uma consideração mais geral e a outra um argumento teórico mais específico.

A primeira consideração é que Marx não era um filósofo moral e é mais do que provável que apareçam incoerências dentro daquilo que ele fala sobre o assunto. Na verdade, dizer que ele não era um filósofo moral é uma forma de minimizar a questão, pois não se trata de dizer que ele era, acima de tudo, alguma outra coisa (um historiador científico, um crítico da economia política, um teórico da revolução proletária, ou o que quer que seja), em outras palavras, não basta dizer que ele não era um praticante da  filosofia moral, como se tivesse uma disposição neutra em relação a ela. Pois Marx, como é sabido, era bastante desdenhoso e impaciente com reflexões explicitamente teóricas sobre questões normativas, e raramente aceitava envolver-se com elas. Ele era hostil, e não neutro, em relação à elaboração de uma teoria ética socialista; ele desprezava nesse campo o tipo de análise rigorosa de problemas e conceitos que ele valorizava em outras áreas. Ao mesmo tempo, e apesar disso, assim como todo mundo, ele era inclinado a fazer juízos morais. Perspectivas normativas se encontram dentro, ou logo abaixo da superfície, de seus escritos, e lá estão em abundância, ainda que de forma assistemática. Sendo assim, inconsistências (que podem até mesmo ser significativas) da parte de Marx ao tratar desse tema devem ser consideradas. Os detalhes de nossas duas interpretações antitéticas no mínimo sugerem essa possibilidade.

A segunda razão precisa de exposição mais extensa. Ela tem a ver com o que eu chamarei de “jogo dialético” colocado por Marx acerca da questão de se a relação de trabalho assalariado configura uma troca de equivalentes. A resposta é sim e não. Vista como uma troca de mercadorias no mercado, sim. O capitalista paga pelo valor da força de trabalho; o trabalhador dá essa mercadoria e recebe, em troca, um salário de igual valor. Mas, vista como uma relação no âmbito da produção, a relação salarial não é uma troca de equivalentes. Pois aqui o trabalhador ainda deve dar algo: não no sentido de vender, uma vez que a venda já foi consumada, mas no sentido de esforço pessoal; e esse esforço pessoal é a substância do valor que é maior que o valor do salário. A mesma coisa pode ser expressa em outros termos. A acumulação de valor e capital ocorrida resulta do trabalho do capitalista? Sim e não. O trabalho que é sua fonte pertence ao capitalista, pois foi comprado e pago por ele; mas não é o trabalho do próprio corpo dele (ou, mais raramente, dela), não é resultado do suor da testa dele (ou dela). Trata-se, por assim dizer, de um trabalho que o capitalista possui, mas que não é o seu próprio. Porém, não há nada de misterioso sobre tudo isso (deixemos de lado se a teoria do valor da qual essa interpretação depende está certa), o processo é explicado por Marx de maneira clara e os leitores cuidadosos d’O capital não têm problema em compreendê-lo. Considerado de outro ponto de vista, a relação salarial não é uma troca de equivalentes, e a acumulação de capital se deve ao trabalho do trabalhador. Os dois pontos de vista são precisamente isso: dois ângulos diferentes de enfoque sobre o mesmo fenômeno. Eles se vinculam a dois sentidos diferentes acerca do quê conta como uma troca de equivalentes. Tais sentidos não são de modo algum contraditórios, mas partes mutuamente consistentes da doutrina que afirma que o trabalho é a fonte de todo valor: da ideia que a força de trabalho, que é vendida pelo seu valor enquanto mercadoria, ao entrar em ação, cria algo que vale mais que ela mesma.

Uma dialética ambígua

Qual é então, no presente contexto, o ponto de vista apropriado para se olhar para a controvérsia entre Marx e o conceito de justiça? Aqueles segundo os quais Marx não vê injustiça na relação salarial privilegiam a primeira posição, de que existe ali uma troca de equivalentes. Muitos (porém não todos) daqueles segundo os quais Marx considera a relação salarial como injusta privilegiam a segunda posição, qual seja, de que não há troca de equivalentes. Com efeito, o que cada lado está dizendo é “esse é o único ponto de vista relevante para se pensar a questão de se o capitalismo era injusto para Marx”15. Mas e para o próprio Marx? Ora, Marx segue pelos dois caminhos, e essa é pelo menos uma das raízes do problema. Perceba-se aqui que o problema não é que ele afirma ambos os pontos de vista, pois, como foi dito, os dois são partes mutuamente consistente da mesma doutrina. O problema é que ele não deixa claro qual ponto de vista é relevante para a questão moral, de modo que é legítimo que cada um dos lados da disputa, tendo duas perspectivas diferentes, alegue que “Marx realmente quer que nós adotemos essa perspectiva aqui”. Marx de fato diz que, na medida em que estamos falando de justiça, o que importa é que a troca se dá entre valores iguais, de acordo com as leis da produção de mercadorias. Ele ratifica, portanto, a perspectiva de um dos lados da disputa. Entretanto, por meio de um ato de feitiçaria dialética feito no Capítulo 24 (MARX, 1976, p. 725-734) do primeiro livro d’O capital, ele mostra essas mesmas leis transformando-se em seu oposto. Em suas próprias palavras, “a lei da apropriação ou lei da propriedade privada, fundada na produção e circulação de mercadorias, transforma-se, obedecendo a sua dialética própria, interna e inevitável, em seu direto oposto”. Ele fala aqui, de maneira similar, da ocorrência de uma “inversão dialética”. A troca de equivalentes, consequentemente, se tornou apenas aparência, ou seja, não é uma troca de equivalentes mas, de fato, roubo. Uma passagem dos Grundrisse fala, no mesmo sentido, que “o direito de propriedade passa por uma inversão dialética, de modo que do lado do capital ele se torna o direito à produção de outrem” (1973, p. 458). Se as leis da produção de mercadorias e do intercâmbio realmente se transformaram em seus opostos, então isso autoriza a perspectiva do outro lado da disputa, qual seja, de que no final das contas não há reciprocidade ou equivalência genuínas aqui.

Contudo, essa transformação em opostos é apenas um artifício lógico, ou talvez, para sermos mais generosos, a apreciação de uma curiosidade, de um paradoxo intelectual. É um jogo com os dois sentidos diferentes da equivalência. Nada, de fato, se torna seu oposto aqui. Tudo continua como é. Na medida em que as leis da produção de mercadorias exigem que valores iguais sejam trocados no mercado, assim as coisas ocorrem, e isso continua valendo quando a força de trabalho é vendida como mercadoria. E na medida em que essas leis permitem que a força de trabalho seja vendida — ou seja, alienada — como mercadoria, elas permitem ab initio a existência de uma relação diferente (porém compatível) da troca de equivalentes no mercado, uma relação em que o capitalista usa o trabalhador para conseguir lucro sobre o salário e em que o trabalhador (ou a trabalhadora) simplesmente trabalha, fornecendo a parte de valor que o outro toma para si. O direito de propriedade aqui presente consiste no direito das pessoas de usarem aquilo que possuem, ou seja, aquilo pelo que pagaram o valor na troca; mas também, ao mesmo tempo, consiste no direito de lucrar sobre o trabalho dos outros. Tanto a equivalência, ou reciprocidade, e a falta delas estão presentes do começo ao fim. Marx sabe disso — afinal, trata-se de sua própria teoria —, e o afirma ao expor a “inversão dialética”. No entanto, como geralmente é o caso, aqui a dialética acaba apenas gerando confusão, pois uma coisa não pode ser seu próprio oposto. Se a relação salarial consiste em uma troca de equivalentes e é justa, então, definitivamente, é isso o que ela é, e isso pode ser sustentado, mesmo a um ponto de extrema teimosia16, diante de passagens em que Marx diz claramente o contrário. Mas se a relação salarial, de fato, transforma-se em seu exato oposto, então ela, finalmente, não pode ser uma troca nem equivalente nem justa, e, se assim for, Marx não quis dizer o que disse quando afirmou que ela é justa. A confusão entre seus comentadores é, portanto, culpa dele mesmo, de sua ambigüidade sobre qual perspectiva, a da equivalência ou a da não-equivalência, realmente deve valer aqui; de sua vontade e capacidade de asseverar, com suas próprias palavras, tanto que a relação salarial não é injusta quanto que ela é um roubo. Há outras, e talvez até mais importantes, causas para a confusão de Marx, às quais voltarei em breve. Mas o caminho certamente é suavizado pela sua utilização da linguagem da dialética nesse contexto.

Tendo em vista essas considerações, qualquer tentativa de se resolver a questão central em disputa deve fornecer algum tipo de reconstrução que vá além da mera exegese; e defenderei, de minha parte, que a reconstrução mais convincente está com aqueles que reivindicam abertamente que Marx considerava o capitalismo injusto. Eles fornecem o melhor argumento. O procedimento exige que se seja o mais fiel possível ao espírito de todos os textos pertinentes, tanto àqueles já apresentados por cada um dos lados e por aqueles que serão citados a seguir. Não se deve negar os elementos de confusão e inconsistência presentes neles, uma tentação comum porém não universal nesse debate. Deve-se, na verdade, a partir do reconhecimento de sua presença ali, buscar entender melhor seu sentido. Uma reconstrução nessas condições, contudo, reivindica amplamente a visão de que Marx pensava que o capitalismo era injusto porque ela é mais capaz de explicar a aparente evidência em contrário do que aqueles que tomam a posição oposta. O problema, em minha opinião, gira em torno de duas questões, sendo que cada uma delas se revela muito inconveniente para a posição que apresentarei aqui e nenhuma delas suscitou uma reposta satisfatória de seus proponentes. Partindo do princípio de que um bom teste de qualquer postura teórica são as respostas que ela pode dar às questões mais exigentes que lhe podem ser colocadas, a visão de que Marx não condenava o capitalismo como injusto não é convincente, apesar de todas as passagens de seu trabalho que aparentemente depõem a favor dela. De qualquer modo, eu abordarei as duas questões cruciais alternadamente, interpondo, porém, entre elas o que eu penso que deve ser considerado nessas passagens. Primeiro, contra tentativas inadequadas de afastar tal ideia de Marx, eu subscrevo a noção de que, ao caracterizar a exploração como roubo, Marx estava questionando a justiça da dela. Segundo, eu qualifico essa noção à luz da própria reprovação de Marx de uma crítica ao capitalismo em nome da justiça. Terceiro, eu defendo que o contra-argumento, segundo o qual a crítica dele era, ao contrário, feita em nome da liberdade e auto-desenvolvimento, contém uma falha lógica: feito isso, ali se revela uma preocupação com a justiça distributiva.

“Explicações”

Antes de tudo, por que Marx usaria o termo “roubo”, ou expressões similares, para descrever a realidade do capitalismo senão para demonstrar que a considera injusta? A força dessa pergunta não é ignorada por aqueles que negam que Marx pensa assim e, em geral, eles não hesitam em respondê-la17. De fato, eles oferecem uma quantidade surpreendente de respostas. Identificarei suas sugestões aqui: (1) Em alguns usos do termo, Marx teria em mente o roubo não do mais-valor, mas da saúde ou do tempo do trabalhador; (2) No tocante ao roubo particularmente praticado na acumulação primitiva do capital, aqui ele teria o sentido direto de que algumas pessoas tomaram para si o que não lhe pertencia: uma injustiça, portanto, de acordo com os padrões predominantes de propriedade legítima, mas que não representa uma acusação de injustiça por parte do próprio Marx. (3) Igualmente, mas agora em relação à exploração capitalista em geral, ela só poderia ser vista como roubo de acordo com as concepções de justiça próprias da sociedade burguesa, mas não segundo algum parâmetro que o próprio Marx cultivaria. Para esse argumento, “parece” que as passagens debatidas podem ser consideradas nesse sentido. (4) A referência de Marx aqui talvez seja algo próximo de uma pilhagem mais ou menos frequente, como a conquista sobre um povo conquistado, e, nesse caso, “não é tão claro” que o roubo é injusto, uma vez que, sendo freqüente, tal pilhagem deve estar ancorada em possibilidades materiais que correspondem, por sua vez, a um dado modo de produção, e se ela corresponde ao modo de produção, então ela é justa de acordo com a concepção de Marx. (5) A noção de roubo estaria destinada à coerção oculta (ou simplesmente à coerção em si, seja ela aberta ou dissimulada) e não à injustiça da exploração capitalista. (6) Ou talvez ela seja “pura e simples retórica”, “Marx falando figurativamente” ou “falsamente”, o que deturparia a visão deles sobre as coisas. (7) De qualquer modo, não se pode equalizar a crítica de Marx a uma alegação de injustiça baseada em um princípio que transcende o capitalismo, pois suas noções sobre ideologia o proíbem de fazer isso18.

O segredo dessas tentativas de explicações se encontra na última delas. Pode parecer que a abundância numérica delas garante que a interpretação que fazem de Marx é solida e segura, capaz de se defender de críticas potencialmente prejudiciais. Isso, porém, apenas atesta a fraqueza de cada uma delas. Se os textos apontassem para uma explicação clara e óbvia, seria de se esperar que os autores das sugestões comentadas acima convergissem a atenção nela. Mas na falta de tal explicação, eles fazem o melhor que podem para explicar cada um a sua própria maneira. As três primeiras sugestões merecem alguns comentários específicos. As outras podem ser dispensadas com um tratamento mais breve e geral.

Em relação a (1), Marx de fato afirma às vezes que o capital rouba o tempo e a saúde dos trabalhadores, ou que ele os “usurpa” (1976). Mas essa explicação dá conta apenas parcialmente de uma ou duas das passagens em disputa nesse debate, o que pode ser o suficiente para leitores de mente aberta. O ponto principal dessas passagens é o roubo de trabalho excedente e de mais-valor. Porém, mais importante ainda, é que mesmo quando é o tempo e a saúde que estão sendo tematizados, isso não significaria, como observou um comentador, “que na visão de Marx a produção capitalista essencialmente envolve o roubo do tempo e da saúde do trabalho e seria injusta pelo menos por essa razão?” (YOUNG, 1981, p. 256-258). Quanto ao argumento (2), há ali tem certo poder lógico mas ele é, ainda assim, falho. É possível que, ao escrever sobre o roubo que marcou o alvorecer da sociedade capitalista, Marx quisesse apenas registrar a violação dos direitos de propriedades pré-existentes e não exatamente condená-la; ou seja, assinalar uma injustiça não de acordo com os seus próprios critérios, mas de acordo com aqueles então prevalecentes. Considerada abstratamente, portanto, a circunstância de que ele estava lidando com a transição entre modos de produção não prova definitivamente que ele adotava algum princípio de justiça trans-histórico. Talvez ele estivesse apenas se referindo a direitos positivos de propriedade. Mas o que nos leva a crer que essa possibilidade abstrata é um fato — ou seja, que Marx quis realmente dizer aquilo que talvez tenha dito? A resposta é nada, absolutamente nada em seus textos relevantes. Pelo contrário, a paixão com que trata a acumulação primitiva indica o oposto, que a descrição que faz desse processo é também uma denúncia dos métodos brutais ali empregados. Nenhuma razão nos é oferecida para que concluamos que sua referência a roubo não é feita em seu próprio nome — a não ser que a inconsistência com a visão de que ele não considerava o capitalismo injusto possa ser contada como uma razão. O argumento é, em outras palavras, meramente uma explicação feita por conveniência. Ele responde a uma condição que precisa cumprida para se sustentar tal visão, mas não tem fundamento textual independente.

O mesmo vale para o argumento (3), segundo o qual Marx, ao chamar a exploração de “roubo”, implicitamente utiliza critérios de justiça internos ao capitalismo e leva em conta a injustiça somente de acordo com eles. Porém, uma vez que ele nunca afirma explicitamente que a exploração é injusta, seja fazendo referência a critérios internos ou externos ao capitalismo, como saber que o sentido das passagens sobre roubo é o alegado? Não há como saber. Apenas “parece que” elas podem ser consideradas dessa maneira. Entretanto, para outros, o que parece é apenas o próprio Marx dizendo que o capitalista rouba o trabalhador, e como as passagens não sugerem que ele esteja recorrendo a normas de justiça alheias, conclui-se que ele o afirma por conta própria. Novamente, o argumento está fundamentado não nos textos, mas nas necessidades postas pela própria interpretação. Farei uma breve digressão para destacar que isso é parte de uma divergência menor entre aqueles que concordam que Marx não considera o capitalismo injusto. Alguns desses intérpretes alegam que Marx o vê como injusto pelo menos de acordo com os próprios critérios do capitalismo19. É verdade que ele busca expor uma ideologia burguesa segundo a qual os trabalhadores e trabalhadoras são recompensados integralmente pelo valor que a força de trabalho deles ou delas cria. O trabalhador, Marx sustenta, recebe o equivalente a apenas um tanto desse valor, a uma parte igual ao valor da própria força de trabalho. No entanto, isso é tudo que o se exige que o capitalista pague de acordo com as leis da produção e troca de mercadorias, e são essas leis que Marx claramente toma como o verdadeiro parâmetro do direito burguês. Se, portanto, a ideologia é um engano ou uma dissimulação, a relação entre capitalista e trabalhador ainda satisfaz aquilo que para Marx são, com efeito, as únicas normas jurídicas da troca capitalista (RYAN, 1980, p. 510; BRENKERT, 1980, p. 139-140). Sendo assim, a alegação não é convincente. Mas mesmo se o fosse não faria diferença, pois ela não dá conta de comprovar que do fato de Marx se referir à exploração repetidamente (sem qualificação) como “roubo”, “furto” e “fraude”, ao maisvalor como “saqueio” ou “pilhagem” e aos capitalistas como “usurpadores”, não decorre que a exploração seja uma injustiça de acordo com o próprio Marx (independentemente de ela ser certa ou errada pelos critérios da sociedade burguesa). Tal alegação falha em demonstrá-lo, exceto por meio da pura suposição de que a exploração não pode ser uma injustiça por causa de outras coisas que Marx afirma, o que ainda deixa em aberto a questão sobre o que o uso desses termos acima significa.

Dupla contagem

Aqui se encontra o ponto crucial. O que encontramos aqui, precisamente, são tentativas ad hoc de caráter especulativo que tentam se desvencilhar de qualquer material que dificulte a interpretação sobre Marx que esses autores preferem. Trata-se de tentativas especulativas porque não há nada nas passagens sobre roubo, ou no contexto delas, que confirme que elas de fato têm o sentido que lhes é atribuído pelas explicações sugeridas. A apreciação detalhada de cada uma das explicações restantes envolveria repetição infundada. A (7) apenas afirma que a referência ao roubo é incapaz de conter uma alegação de injustiça, tendo por fundamento uma suposta consistência. A (6) sem dúvida se funda sobre a mesma base e, muito convenientemente, igualmente dispensa a questão do roubo ao vê-la como artifício retórico ou como autoengano. A (5) faz uma confusão um tanto arbitrária; pois “roubo” tem sentido diferente de “coerção” e não há razão para acreditar que Marx ignorava essa distinção ou que ele decidiu desconsiderá-la. E a inadequação tautológica da explicação (4) é clara. Ela essencialmente afirma, ainda que com certa hesitação devido a sua própria inadequação, que “não é muito claro que” Marx considera essa forma particular de roubo injusta, pois sabemos que ela não é injusta se ela corresponde, tal como a pilhagem regular necessariamente corresponderia, ao modo de produção em vigor. Mas a questão permanece: por que, então, ele a caracteriza como roubo? Essa tentativa de resposta, como todas as outras, se baseia em uma espécie de contagem dupla interpretativa: deve haver alguma explicação para isso, pois já sabemos que Marx diz que a exploração capitalista não é injusta e, portanto, ele não pode realmente querer dizer que ela é roubo. Da mesma maneira poder-se-ia raciocinar, como alguns de fato o fazem, que já sabemos que ele pensa que a exploração é roubo, então ele não pode realmente querer dizer que ela não é injusta. De qualquer modo, tal raciocínio produz uma leitura forçada e conjectural de algumas passagens da obra de Marx, uma leitura incompatível com as evidências internas delas.

Obviamente, a suposição de consistência é um princípio racional de interpretação textual. Quando a obra de um autor revela um comprometimento claro com certa posição intelectual e, mesmo assim, se encontram nela formulações que parecem contradizer tal posição, a boa vontade interpretativa exige que nós pesquisemos se a inconsistência é meramente aparente ou busquemos outra forma de explicar as formulações em questão. Eu mesmo, por exemplo, argumentei alhures que Marx obviamente tem um conceito de “natureza humana” e que a única, e ambígua, passagem que encorajou muitos a pensarem o contrário merece e é passível de tal tratamento. O mesmo se aplica a uma frase, relativa à “revolução permanente”, encontrada nos textos de Lenin antes de 1917, frase que é frequentemente usada para deturpar o sentido de sua concepção da revolução russa até aquele ano20. No entanto, a suposição de consistência tem seus limites. Ela não pode ser absoluta. Pois, do contrário, pode-se acabar presumindo coerência teórica completa onde ela não existe. Quando não apenas uma ou algumas formulações, mas todo um corpo de formulações, argumentos, conceitos, contraria um dos notórios compromissos intelectuais de um pensador, a suposição de consistência total deixa de ser racional ou justificável. A seção II desse ensaio, e a literatura ali compilada, testemunham o fato de que esse é o caso quando se refere à negação de Marx de qualquer crítica à injustiça do capitalismo. Nessas circunstâncias, não é um bom argumento afirmar que ele não poderia sustentar tal visão por ela ser inconsistente com outra visão que ele defende.

Portanto, na ausência de alguma resposta convincente à questão de por que teria Marx chamado a exploração de “roubo” senão porque ela a considera injusta, devemos aceitar a interpretação mais natural das passagens onde ele assim a caracteriza, que é que ele a considerava mesmo injusta. Tratar a exploração como roubo é tratar da apropriação de mais-valor e, com isso, ver os direitos de propriedade capitalistas como injustiças. Que essa era a visão de Marx sobre as coisas é, porém, uma alegação que precisa ser aprimorada — e isso nos traz à segunda parte de meu argumento. Ora, não se pode ignorar o material que contraria essa alegação, assim como não se pode ignorar aquilo que contraria a visão oposta. Pois ele nega explicitamente que existe injustiça na relação entre capitalista e trabalhador, evita e ridiculariza qualquer defesa do socialismo feito na linguagem dos direitos e da justiça, e parece, no geral, subscrever uma concepção na qual os critérios de justiça são meramente relativos a cada modo de produção. Alguns comentadores ficaram tentados a propor que, na verdade, é esse tipo de material que não deve ser levado ao pé da letra: que a negação de Marx de qualquer injustiça na relação salarial é feita de maneira “não séria”, ou com intenções satíricas ou “irônicas”; que com isso ele quer simplesmente indicar algo que é tomado como justo, ou que é justo pelos critérios capitalistas, ou que é apenas uma aparência de justiça na medida em que a troca com a qual se relaciona é ela mesma uma mera aparência; e que, da mesma maneira, o objeto da impaciência de Marx com os apelos socialistas a noções de justiça é apenas a retórica da justiça e não seu conteúdo (HOLMSTROM, 1977, p. 368; HUSAMI, 1980, p. 45; ARNESON, 1981, p. 217-218; YOUNG, 1978, p. 441-446; VAN DER VEER, 1973, p. 369-370). Em outras palavras, ao fazer essas afirmações, Marx ou não está falando literalmente, e seriamente, ou não está falando com sua própria voz. Como já sugeri acima, a utilização desse tipo de recurso é um equívoco, pois se trata de uma imagem espelhada do procedimento daqueles que tentam desconsiderar as afirmações de Marx sobre roubo, com a diferença de que agora se inverte os valores daquilo que Marx quis dizer, de modo que se ignora, tal como o faz a posição contrária, aquilo que não pode ser facilmente acomodado na interpretação defendida (nesse caso, não a acusação de roubo mas o discurso relativizante sobre justiça).

Um pensamento não considerado

Essa maneira de proceder é igualmente pouco convincente a esse respeito. De acordo com a evidência textual interna, Marx fala sobre esse assunto de maneira séria e com sua própria voz. Sem dúvida, é verdade que é de acordo com critérios internos ao capitalismo que ele baseia seu juízo sobre a relação salarial. Porém, se assim for, de acordo com as únicas declarações diretas e explícitas de Marx sobre a justiça, é precisamente e apenas nesse sentido interno (e, portanto, relativo) que os critérios para se decidir o que é ou não é justo são relevantes. Se a relação é justa de acordo com os parâmetros capitalistas, então ela também é justa na única concepção explícita de justiça que o próprio Marx apresenta. Aqui não há, de forma alguma, nenhuma ironia envolvida — exceto se, como critiquei acima, se presume simplesmente que tem de haver, em função de outros elementos. No que diz respeito a seus próprios propósitos, Marx deve ser interpretado no sentido de que o contrato de trabalho não é injusto de acordo com os critérios próprios, internos, da sociedade burguesa e também — portanto! —no sentido de que o contrato não é injusto para o próprio Marx, ou seja, de acordo com a definição relativista de justiça com qual ele expressamente se compromete. Diante disso, deve estar claro que, em minha visão, não é aceitável que se descarte tudo aquilo que denominei de discurso relativizante de Marx por meio da afirmação de que ele é apenas uma aparência e, na realidade, quer dizer outra coisa. Pode até ser verdade que algumas de suas declarações comumente tomadas como relativistas não o sejam de fato. Em particular, o argumento segundo o qual a proposição “o direito não pode ser superior à estrutura econômica da sociedade” é uma amostra de sóbrio realismo moral me parece convincente, considerando o contexto da frase, e não é menos plausível que a comum interpretação relativista dessas palavras. De modo mais geral, tal noção de realismo moral é sem dúvida uma dimensão importante do pensamento de Marx e, desse modo, também do problema sob discussão; voltarei a ela mais adiante. Mesmo assim, penso ser infrutífero esperar liquidar, com apelo a essa ou outras considerações, aquilo que é, no mínimo, uma forte tendência em Marx, uma que permeia seus escritos maduros, independentemente do que ele também faça ou diga em desacordo com ela: a tendência de relativizar o status das normas e valores, cuja manifestação mais incontroversa é o tratamento desses como ideologia, ou seja, elementos superestruturais e derivados, sem validade autônoma ou alcance trans-histórico.

Haveria, então, alguma maneira de se resolver o conflito entre as declarações explícitas de Marx que são produtos e reflexos dessa tendência e sua acusação implícita de que o capitalismo é injusto (afirmada por, entre outras coisas, seu uso da terminologia sobre roubo)? Eu acredito que há, embora minha proposta tenha em si um ar paradoxal. Contudo, ela não apenas é perfeitamente coerente, mas é também praticamente a conclusão necessária diante de todas as evidências textuais relevantes. A proposta é a seguinte: Marx pensava que o capitalismo é injusto mas não sabia que o pensava21. Isso porque na medida em que ele, de fato, pensava diretamente e formulava qualquer opinião sobre justiça, o que ele fazia apenas de modo intermitente, ele se expressava subscrevendo uma noção extremamente estreita de justiça. A concepção é estreita em dois sentidos: primeiro, em sua associação, de feição mais ou menos juspositivista, da justiça com a as normas jurídicas convencionais ou predominantes, os parâmetros internos a cada ordem social; e, segundo, em sua associação dela com a distribuição de bens de consumo, ou, como estamos falando do capitalismo, a distribuição de renda e, portanto, com um foco demasiadamente parcial no processo de trocas no mercado. Essa dupla associação é evidente no material citado acima de I(i) a I(v) . E é óbvio o porquê de, com base nele, se defender que Marx não tratava o contrato de trabalho como injusto e nem tratava a justiça como uma noção revolucionária. São essas duas associações conceituais, junto com a “inversão dialética” discutida acima, as fontes de sua confusão.

Na verdade, nenhuma dessas associações são necessárias para se considerar a justeza de uma dada sociedade, o que quer dizer que existem concepções de justiça distributiva mais amplas do que a determinada por elas. Pode-se considerar o que é correto de acordo com um certo conjunto de direitos morais (e não legais ou convencionais) — o conteúdo racional de noções de direito natural — e pode-se, ao mesmo tempo, levar em conta a distribuição de vantagens e desvantagens de modo amplo, incluindo aqui, consequentemente, a distribuição do controle sobre as atividades produtivas. E é exatamente isso o que Marx com freqüência faz, ainda que, quando o faça, não tenha o conceito de “justiça” em mente e nem o mencione explicitamente em sua escrita. Não estando presos às mencionadas associações conceituais, podemos, portanto, legitimamente afirmar que, na medida em que Marx obviamente acha a distribuição de vantagens e desvantagens sob o capitalismo moralmente condenável, o que o faz contestar o direito do capitalista à sua posição, ele considera o capitalismo injusto. Em sua obra implicitamente se encontra uma concepção de justiça mais ampla do que aquela que ele de fato formula, mesmo que ele nunca a identifique como tal. Não se trata aqui de atribuir a Marx algo alheio a seu próprio modo de pensar. Ao contrário, é ele que claramente, (ainda que malgré lui) questiona a justeza moral dos padrões de distribuição do capitalismo — distribuição tomada aqui, note-se, no sentido mais amplo possível. O fato de ele não perceber que, ao fazê-lo, ele está precisamente criticando o capitalismo como injusto, é meramente uma confusão de sua parte sobre o potencial alcance do conceito de justiça, o que o leva a considerá-lo, portanto, irrelevante a esse respeito. A crítica, por sua própria natureza, não pode ser nada senão uma crítica da injustiça. Vimos isso em relação à questão do roubo: dizer que os capitalistas o praticam é (desde que não se tenha uma explicação alternativa bem fundamentada para seu significado) o mesmo que questionar o direito deles àquilo que apropriam, logo, questionar a justiça dessa apropriação. Podemos agora, na sequência, apresentar outros argumentos para corroborar a validade da solução que propus para a presente controvérsia ao examinar um terceiro tópico de discussão: o compromisso de Marx com os valores de liberdade e autodesenvolvimento.

A distribuição da liberdade

Lembremos que aqueles negam o envolvimento de Marx com considerações sobre justiça encontram no compromisso de Marx com a liberdade o fundamento real de sua crítica do capitalismo. Mas trata-se de uma concepção que parte de falsas alternativas, como fica claro ao procedermos à segunda das duas questões embaraçosas que podem ser feitas aos autores que defendem essa posição. Quando se fala de liberdade e autorealização estamos falando da liberdade e autorealização de quem? Para Marx, a resposta a essa questão é, a princípio, de todos. Dizemos a princípio porque é claro que para ele a liberdade universal só pode vir a ser por meio da luta de classes, da ditadura do proletariado, de uma formação econômica transitória etc., ao longo dos quais deve acontecer uma permanente ampliação da liberdade e das oportunidades para o autodesenvolvimento individual (mas isso apenas com o tempo e diante de obstáculos sociais e materiais). Por outro lado, falamos de todos porque, no final das contas, Marx anseia e deseja liberdade e autodesenvolvimento universais. E isso quer dizer que a questão para ele se dá sobre a distribuição da liberdade e não apenas sobre sua quantidade global, por assim dizer. Uma das razões em função das quais a sociedade comunista seria, aos olhos de Marx, uma sociedade melhor do que a capitalista é por causa da maneira pela qual aquela disponibiliza tais “bens” a todos, enquanto essa os aloca de maneira grosseiramente desigual. Em outras palavras, sua preocupação com a distribuição em sentido amplo adota os mesmos valores que ele afirma o distanciarem do interesse pela justiça, de modo que esses valores não estão apartados de sua crítica do capitalismo. A crítica de Marx feita à luz da liberdade e do autodesenvolvimento é ela mesma uma crítica à luz de uma concepção de justiça distributiva. E, ainda que apenas parcialmente, considerando o fato de que Marx claramente acredita que o comunismo providenciará maiores liberdades do que qualquer outra formação social precedente22, essa identidade não deixa de ser real ou importante.

É surpreendente, considerando a centralidade lógica desse tópico para toda a controvérsia, que ele tenha sido tão pouco debatido na literatura aqui revisada. Pois ele invalida uma alegação fundamental feita pela interpretação “anti-justiça”. O fato de Marx efetivamente ter se preocupado com a distribuição no sentido amplo é algo que, como já deixei claro, já foi argumentado pelos oponentes dessa visão. Mas a lacuna teórica, a incoerência, que é revelada nessa interpretação a partir do momento em que os valores de liberdade e autodesenvolvimento são vistos como pertencentes ao âmbito da distribuição é algo notado por poucos comentadores e, ainda assim, apenas superficialmente23. De qualquer modo, a dimensão distributiva da abordagem de Marx sobre esses valores deve agora ficar registrada. Apontarei a seguir referências relevantes tanto para a questão da distribuição de vantagens e desvantagens, em geral, quanto para a distribuição de liberdade e autodesenvolvimento, em particular.

Em A ideologia alemã, Marx se refere ao proletariado como “uma classe que tem de suportar todos os fardos da sociedade sem desfrutar de suas vantagens”. Um tipo de vantagem que ele tem em mente é evidente em um trecho da mesma obra: todas as libertações que ocorreram até agora tiveram como base forças produtivas limitadas, cuja produção insuficiente para a totalidade da sociedade só possibilitava o desenvolvimento na medida em que uns satisfaziam suas necessidades à custa de outros e, assim, adquiriam - a minoria - o monopólio do desenvolvimento, enquanto os outros - a maioria -, devido à luta constante pela satisfação das necessidades mais essenciais (isto é, até a criação de forças produtivas novas, revolucionárias), viam-se excluídos de todo desenvolvimento” (MARX, 1975, p. 431-432) Tal disparidade também está registrada em seus escritos econômicos maduros. Em dado momento Marx, por exemplo, fala sobre a “contradição entre aqueles que têm que trabalhar demasiadamente e aqueles que vivem do ócio” e da potencial superação dela com o fim do capitalismo (1968, p. 256). Aprofundando esse tópico em O capital, ele escreve: dadas a intensidade e a força produtiva do trabalho, a parte da jornada social de trabalho necessária para a produção material será tanto mais curta e, portanto, tanto mais longa a parcela de tempo disponível para a livre atividade intelectual e social dos indivíduos quanto mais equitativamente o trabalho for distribuído entre todos os membros capazes da sociedade e quanto menos uma camada social puder esquivar-se da necessidade natural do trabalho, lançando-a sobre os ombros de outra camada. O limite absoluto para a redução da jornada de trabalho é, nesse sentido, a generalização do trabalho. Na sociedade capitalista, produz-se tempo livre para uma classe transformando todo o tempo de vida das massas em tempo de trabalho (MARX, 1976, p. 667)

Alguns leitores, diante do modo que Marx apresenta as coisas, pensarão ter detectado aqui vestígios de uma avaliação definitiva sobre o desequilíbrio distributivo por ele descrito; e estarão certos de pensar isso. Note-se que essa interpretação é motivada não tanto por algo que o próprio Marx diz, mas pelas inclinações intelectuais dos próprios intérpretes (e minhas, no caso), porém, ainda assim, é possível indicar outras passagens do mesmo tipo nas quais a acusação de imoralidade não é apenas sugerida lateralmente, mas colocada explicitamente. Assim, em um parágrafo de síntese no qual fala dos processos cumulativos do desenvolvimento capitalista, Marx diz inter alia: “com a diminuição constante do número de magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, aumenta a massa da miséria, da opressão, da servidão, da degeneração, da exploração” (1976, p. 929). Note-se: os capitalistas não apenas monopolizam todas as vantagens, mas também as usurpam, o que é o mesmo que dizer que eles não têm direito àquilo que monopolizam. E, incluído sob a rubrica da usurpação de vantagens está, novamente, o autodesenvolvimento. Nos Grundrisse Marx escreve: “como todo tempo livre é tempo para o livre desenvolvimento, o capitalista usurpa o tempo livre criado pelo trabalhador para a sociedade” (1973, p. 634). Sendo assim, a distribuição de vantagens (dentre as quais o tempo livre e o livre desenvolvimento) e desvantagens é moralmente ilegítima, e tal consideração implica um compromisso com uma distribuição mais aceitável e justa de ambas.

Que Marx de fato se compromete a um modelo de justiça distributiva diferente e melhor do que o predominante sob o capitalismo é algo que aparece de modo claro em uma passagem do terceiro volume d’O capital que fala sobre a vocação “civilizadora” do capitalismo. Ele começa afirmando que “o capital tem como um de seus aspectos civilizadores o fato de extrair esse mais-trabalho de maneira e sob condições mais favoráveis ao desenvolvimento das forças produtivas, das relações sociais e à criação dos elementos para uma nova formação, superior às formas anteriores da escravidão, da servidão etc.”. Depois, ao elaborar sobre essa observação, Marx assevera imediatamente depois que “isso conduz, por um lado, a uma fase em que desaparecem a coerção e a monopolização do desenvolvimento social (inclusive de suas vantagens materiais e intelectuais) por uma parte da sociedade à custa da outra” (1981, p. 958). Ele não poderia ser mais direto. A formação social almejada é “superior”, e o é em parte porque a coerção desaparece, mas também porque o mesmo se ocorre com a monopolização do desenvolvimento social por alguns à custa de outros. O princípio positivo de distribuição que aqui está implícito é esboçado por Marx em outro lugar. Ele se refere, no primeiro volume d’O capital, à “criação de condições materiais de produção que constituem as únicas bases reais possíveis de uma forma superior de sociedade, cujo princípio fundamental seja o pleno e livre desenvolvimento de cada indivíduo” (1976, p. 739). Ou, na celebrada fórmula do Manifesto comunista, “no lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos” (MARX; ENGELS, 1975, p. 506).

Justiça e interesses de classe

Portanto, tão logo o âmbito da “distribuição” é ampliado no sentido de cobrir a totalidade das vantagens sociais, especialmente no que diz respeito à disponibilidade do tempo livre — tempo que é em si, considerando-se o desenvolvimento individual autônomo, um componente crucial da concepção marxiana de liberdade — fica evidente que a crítica de Marx ao capitalismo é motivada por, entre outras razões, questões distributivas. Aqueles que alegam que ele não considerava o capitalismo injusto têm alguma resposta convincente diante dessa clara evidência contra sua posição? Nenhuma, até onde sei. Na verdade, em geral eles nem chegam a tentar responder o problema, deixando-o de lado ou desconsiderando-o. Contudo, se tomamos aqueles que têm algo a dizer sobre isso podemos acabar rapidamente ignorando (pelo fato de ser algo que não merece atenção séria diante dos textos citados acima) a afirmação simples de um autor que diz que a “liberdade marxista” não deveria ser considerada como um bem social a ser distribuído. Creio que os textos mencionados são suficientes para demonstrar o contrário. Podemos lidar, de maneira igualmente rápida, com o argumento desse mesmo autor segundo o qual, considerando que o capitalista, assim como o trabalhador, em certo sentido não será livre enquanto o capitalismo perdurar, então o alvo da crítica de Marx não é criticar que aquele goza de liberdades que esse não desfruta24. É, sem dúvida, verdade, de acordo com a teoria da alienação, que todas as pessoas em algum grau carecem de liberdade no capitalismo. Porém, as passagens que citei acima demonstram igualmente que também faz parte da crítica de Marx ao capitalismo o fato de que essa sociedade privilegia alguns com vantagens e oportunidades para livre desenvolvimento que são negadas a outros (em contraste com o que ele concebe como o princípio de uma sociedade comunista).

Devemos nos deter com mais detalhe na única tentativa considerável de contraargumento sobre essa questão. Ela se encontra em um recente ensaio de Allen Wood, cujos artigos anteriores desempenharam um papel bastante importante para animar todo esse debate. Wood admite que Marx “claramente se opõe à distribuição predominante de elementos tais como o controle efetivo dos meios de produção, tempo livre, e a oportunidade de se conseguir educação e desenvolver habilidades”; mas tal oposição, ele argumenta, não pode ser tomada como uma crítica ao capitalismo em termos de injustiça, uma vez que para que ela o fosse ela teria que ser baseada em “considerações imparciais ou desinteressadas”, o que não seria consistente com o que Wood chama de “tese dos interesses de classe”, que deveria ser a base da oposição de Marx. A tese dos interesses de classe, um componente do materialismo histórico, é apresentada da seguinte maneira: “Marx acredita que nossas ações são efetivas historicamente apenas na medida em que elas envolvem a persecução de interesses de classe, e que o significado histórico de nossas ações é definido pelo sua função em relação à luta entre tais interesses”. Para um agente histórico racional ou autoconsciente, Wood (1984) argumenta, o reconhecimento prático dessa tese é incompatível com a consideração da justiça, no sentido de princípios distributivos imparcialmente fundamentados, como uma preocupação primária.

Duas coisas podem ser ditas em resposta ao argumento de Wood. A primeira é que a incompatibilidade que ele alega está aberta a questionamentos. Marx, sem dúvida, acreditava que onde existem classes e luta de classes a consideração imparcial ou desinteressada dos interesses de todos não passa de uma ilusão ideológica; e ele inequivocamente se alinha com um conjunto de interesses, que é o do proletariado contra o de seus exploradores. Além disso, Marx trata o comunismo como algo que é de interesse do proletário e que está absolutamente fora dos interesses do capitalista enquanto tal, e considera que ele não pode ser efetivamente atingido senão a partir dos interesses do proletariado e do movimento social e político que luta por eles. Contudo, limitar o “significado histórico” desse tipo ação à sua função dentro do conflito tal como caracterizado, como se fosse apenas um interesse parcial contra outro, é reduzir e empobrecer radicalmente o sentido que Marx, o tempo todo, confere a ela. Pois, por mais parcial e “interessada” que ela seja, como Marx abertamente admite, essa ação tem um aspecto universal em virtude do caráter do seu objetivo histórico, daquilo pelo que luta o proletariado. Essa universalidade, conforme já afirmei antes, é tendencial; não pode ser imediata. Certos interesses sociais genuínos, de pessoas reais, mas acima de tudo o interesse dos que se beneficiam da exploração e querem sua continuidade, não têm valor moral segundo a consideração de Marx. Essa é a parte verdadeira do argumento de Wood. Porém, se a luta do proletariado pelos seus próprios interesses ainda pode ser vista como tendo significado universal, isso ocorre apenas porque o objetivo dessa luta (o “livre desenvolvimento de todos”), considerado de um ponto de vista imparcial e desinteressado, é para Marx um avanço moral em relação ao monopólio privado dos bens sociais que o capitalismo promove. Afinal, a ideia de que, na busca de uma organização justa, os interesses de alguns na preservação de injustiças das quais eles se beneficiam devem ser anulados é uma característica que só existe na perspectiva intelectual de Marx? Dificilmente. Ao devolver a uma pessoa o que pertence a ela de direito, pode-se, na medida em que apenas a justiça está em questão, legitimamente desconsiderar qualquer interesse que outros tenham em impedir isso. Também não há nada de extraordinário acerca do fato de que o objetivo ou o ideal histórico que Marx delineia é visto por ele como algo que não é imediatamente e diretamente realizável, mas que é mediado por obstáculos, contestado por interesses; algo, portanto, pelo qual se deve lutar por meio de um longo e difícil processo que inevitavelmente será influenciado por outras “causas” diferentes do ideal em questão. Isso está na natureza de muitos projetos políticos e é um problema para todos, embora alguns se dão o luxo de fazer de conta que não25.

A segunda coisa a dizer é que mesmo que — diferentemente do que faço — não contestemos a incompatibilidade que Wood alega existir entre a chamada tese dos interesses de classe e a preocupação com princípios de justiça imparciais, e aceitemos suas implicações desse raciocínio a fim de considerar todas as possibilidades interpretativas, isso ainda não é suficiente para defender sua posição. Pois ele apenas consegue demonstrar que caso Marx tenha manifestado um compromisso com princípios distributivos imparciais ele o fez de modo incompatível com outras convicções que tinha. Porém, ele não consegue mostrar que Marx não mantinha, de fato, tal compromisso, porque a verdade é que ele o matinha, como é evidente a partir da evidência textual exposta acima. Em certo sentido, o próprio Wood reconhece a existência dessa evidência. Em suas palavras, Marx com freqüência descreve as consequências da revolução comunista em termos que sugerem que se a descrição é aceita então há razões para considerar essas consequências como imparciais ou desinteressadamente boas. Por exemplo, Marx afirma que a revolução fará desaparecer a alienação, que ela possibilitará que todo membro da sociedade desenvolva suas capacidades, que ela promoverá a comunhão e a solidariedade entre as pessoas, e que ela facilitará a expansão dos poderes produtivos humanos e a satisfação universal das necessidades humanas. (WOOD, 1984)

Entretanto, as passagens de Marx nas quais essas alegações são feitas são rapidamente descartadas como “a liturgia que o pretenso ‘humanismo marxista’ nunca cansa de cantar”. São observações mordazes, mas qual sua justificativa? O que, em outras palavras, impede que Wood dê o devido peso às passagens que ele mesmo caracteriza adequadamente? Ora, a resposta é apenas a tese dos interesses de classe e outras passagens que são vistas como conseqüência dela, e que ele (erroneamente, mas deixaremos essa passar) considera evidência do desprezo de Marx pelo humanismo. Exegeticamente, contudo, não é legítimo deixar de lado o primeiro grupo de passagens por não se conciliar com o segundo, assim como não seria legítimo fazer o inverso. Se o objetivo é, como Wood enfaticamente afirma ser, entender o pensamento do próprio Marx, então a única maneira adequada de se proceder seria registrar aqui uma grande inconsistência. Simplesmente decidir que a clara evidência de uma preocupação desinteressada com a distribuição dos bens (e Wood afirma que é isso que os textos em questão sugerem) não é realmente o que parece ser é recair na dupla contagem que já expusemos e afastamos quando tratamos da questão do roubo.

Tanto naquela questão quanto nessa, os defensores da interpretação “anti-justiça” fracassam. Eles não são capazes de responder satisfatoriamente às questões necessárias, nem de explicar as evidências contrárias, para que a interpretação que eles propõem se torne plausível. A leitura que eles fazem de Marx, conclui-se, está equivocada.

A parte negativa de minha crítica se encerra aqui, restando a ser feita, a seguir, a caracterização positiva do conteúdo da concepção de justiça que está implícita em seus escritos. Os contornos dela já apareceram na discussão feita até aqui, agora trata-se de tentar esboçá-la de maneira mais clara.

As condições da produção

É fundamental para essa concepção a ideia de que sobre a propriedade e o controle privado dos recursos produtivos não recai qualquer tipo de direito moral26. Ao tratar a exploração como roubo, Marx desafia a legitimidade de algumas pessoas estarem em uma posição que permite a apropriação do produto excedente do trabalho social; portanto, ele desafia a legitimidade do sistema de direitos de propriedade cuja conseqüência é tal apropriação. Os direitos de propriedade incorporados na legalidade capitalista são, desse modo, condenados como injustos diante de um direito moral generalizado — o controle sobre os meios de produção — que, para Marx, tem precedência sobre aqueles. Sem dúvida, algumas pessoas irão achar um tanto surpreendente que eu atribua a Marx o que, com efeito, é uma noção de direito natural, e isso é compreensível tendo em vista sua hostilidade aberta em relação à tradição do jusnaturalismo. Consideremos, no entanto, como ele trata a propriedade privada da terra: Do ponto de vista de uma formação econômica superior da sociedade, a propriedade privada do globo terrestre nas mãos de indivíduos isolados parecerá tão absurda quanto a propriedade privada de um ser humano sobre outro ser humano. Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, ou, mais ainda, todas as sociedades contemporâneas reunidas não são proprietárias da Terra. São apenas possuidoras, usufrutuárias dela, e, como boni patres familias [bons pais de famílias], devem legá-la melhorada às gerações seguintes (MARX, 1981, p. 911)

O que ele pode estar querendo dizer aqui? Que ninguém possui ou pode possuir terra? Mas Marx sabe muito bem que os indivíduos não só podem, mas de fato a possuem privadamente, de modo que os direitos positivos de propriedade dessas pessoas não são mistério para ele. Estaria ele dizendo, então, que ninguém, independentemente de seus direitos legais, pode verdadeiramente ser proprietário da terra, no sentido de ter um direito a ela que legitimamente exclui os outros? É exatamente isso. Ele está dizendo, nem mais nem menos, que os proprietários não tem um direito moral ao uso exclusivo aos recursos produtivos da Terra; está dizendo que a propriedade privada desses recursos é uma injustiça. O que mais ele poderia estar querendo dizer? Existe até mesmo de acordo com o trecho citado (“devem legá-la melhorada às gerações seguintes [...]”) uma obrigação moral em relação às gerações futuras. Os mesmos juízos aparecem no conteúdo de outros textos similares. Assim, ao falar sobre renda da terra, Marx discorre sobre o poder descomunal que essa propriedade fundiária proporciona quando, reunida nas mesmas mãos com o capital industrial, praticamente habilita este último a excluir da Terra, enquanto sua moradia, os trabalhadores em luta pelo salário. Uma parte da sociedade exige da outra um tributo em troca do direito de habitar a Terra. (MARX, 1981, p. 908)

E sobre a agricultura capitalista ele afirma: “o cultivo racional e consciente do solo como propriedade perene da comunidade, condição inalienável da existência e da reprodução das gerações humanas que se substituem umas às outras, cedem lugar à exploração e o desperdício das forças da Terra (MARX, 1981, p. 948-949, grifo do autor).

Passagens como essas, tomadas em conjunto com as referências a usurpação e roubo, confirmam, para além de qualquer dúvida, a convicção de Marx de que a “distribuição das condições de produção” na sociedade capitalista é injusta27. Como eu havia afirmado, porém, ainda que essa convicção seja basilar para sua concepção de justiça, ela não a esgota. O princípio normativo que ela envolve (o do controle democrático sobre os recursos de produção) deve ser complementado por outro, o princípio das necessidades, que trata, em termos gerais, da distribuição do bem-estar individual, sendo que esse segundo princípio é visto por Marx como uma consequência eventual da realização do primeiro. Além disso, não concordo com a sugestão, que apareceu nos dois lados do debate, de que não é o conteúdo particular do princípio das necessidades, ou de qualquer outro princípio distributivo, que irá definir o acesso ao bem-estar individual em uma sociedade sem classes, mas apenas o fato que esse princípio será um produto da decisão democrática coletiva28. Não concordo com isso porque é fácil imaginar regras ou práticas de distribuição que, ainda que apoiadas nos procedimentos mais democráticos de uma coletividade, sejam moralmente repreensíveis. Para ser curto e grosso: uma maioria estável, qualquer que seja a sua autodefinição, arbitrariamente, regularmente e ao longo de um período prolongado, criará vantagens para seus membros e desvantagens relativas para os membros de alguma minoria, independentemente da base de identificação dessa29. Obviamente, Marx não concebia a possibilidade de que uma soceidade sem classes pudesse combinar o controle coletivo sobre as condições de produção com a pura arbitrariedade moral na distribuição do bem-estar. Se isso era apenas um sinal de otimismo utópico de sua parte, como alguns nãosocialistas e talvez até mesmo alguns socialistas possam pensar, ou uma evidência de realismo ousado e perspicaz, trata-se de um problema que deve ser deixado de lado, pois a questão aqui é outra. A questão é que se Marx sustenta o princípio do controle coletivo sobre recursos com a clara expectativa de que sua implementação terá como consequência um certo tipo de distribuição dos bens humanos básicos e não outro, então é um estranho capricho abstrair dessa expectativa em relação às consequencias distributivas e imputar a ele uma concepção ética na qual é apenas o controle coletivo que importa, independentemente da natureza dos resultados distributivos ulteriores. Tais resultados devem certamente fazer parte da definição do valor que ele atribui a uma futura sociedade comunista. De qualquer modo, o fato é que ele expressamente formula um princípio para lidar com eles.

Sendo assim, eu tomo o princípio que ele formula, “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!”, também como parte essencial de sua noção de uma sociedade justa; e quero dizer algo a mais sobre os argumentos trazidos no ponto II (viii) em defesa do tratamento desse princípio como um parâmetro de justiça distributiva. Contra isso, existem basicamente duas razões contrárias. Elas afirmam: (A) que o princípio das necessidades não é um parâmetro de igualdade, mas, ao contrário, é destinado a lidar com a individualidade única de cada pessoa, com a variedade das características e necessidades pessoais, de modo que configura uma fórmula para tratar as pessoas diferenciadamente; e (B) que, ao antecipar uma época em que “todas as fontes da riqueza coletiva jorram em abundância”, Marx visualiza um fim para a escassez e, portanto às próprias circunstâncias que exigem princípios de justiça30.

Necessidades e igualdade

Em relação ao argumento (A), devemos prestar atenção em outro texto que é de interesse sobre esse assunto, embora negligenciado nos debates sobre o que Marx quis dizer na Crítica do programa de Gotha. Há uma passagem em A ideologia alemã que, de uma perspectiva próxima do princípio das necessidades, questiona uma versão do princípio da contribuição, criticando a visão segundo a qual “a ‘posse’ e a ‘fruição’ de cada um se orientaria pelo seu ‘trabalho’”. Ocorre, porém, que um dos princípios mais fundamentais do comunismo, pelo qual este se diferencia de qualquer socialismo reacionário, consiste no parecer empírico, fundado na natureza do homem, de que as diferenças relativas à cabeça e às capacidades intelectuais em geral não condicionam as diferenças relativas ao estômago e às necessidades físicas; ou seja, a proposição falsa ‘a cada um conforme suas capacidades’, baseada nas condições atualmente vigentes, deve ser reformulada, na medida em que se refere à fruição em sentido mais estrito, para: a cada um conforme a necessidade; em outras palavras, a diversidade na atividade, nos trabalhos, não fundamenta nenhuma desigualdade, nenhuma prerrogativa de posse e de fruição (MARX; ENGELS, 1975, p. 537-538)

A ideia criticada por essa passagem é rejeitada precisamente sob o argumento de que ela justifica a desigualdade; portanto, o princípio das necessidades (que, por contraste, é ali defendido) não pode razoavelmente ser considerado outra coisa que não um parâmetro de igualdade. Esse trecho, no entanto, provavelmente foi escrito por Moses Hess, e não por Marx e Engels, que são considerados como os editores do capítulo d’A ideologia alemã onde o trecho se encontra (MARX; ENGELS, 1975, p. 586). Além disso, ali as necessidades são entendidas em um sentido explicitamente estreito, como necessidades físicas, e, conforme argumentarei brevemente, não se pode tomar esse sentido como se fosse o de Marx na Crítica do programa de Gotha. Devemos, portanto, ser cautelosos sobre o que é legítimo fazer com essa passagem no presente contexto. Seria manifestamente errado pular diretamente à conclusão de que, em função do teor manifestamente igualitário das palavras escritas por outra pena cerca de trinta anos antes, as formulações similares de Marx no texto mais tardio devem ter sentido idêntico. Mas se tal postulação apressada é, por um lado, injustificada, é justo que perguntemos como a postulação diametralmente oposta é justificável por parte daqueles que defendem que o princípio trazido por Marx não é um princípio de igualdade. A necessidade de cautela aqui opera em ambas as direções. E esses comentadores, é importante destacar, simplesmente ignoram a passagem acima referida d’A ideologia alemã.

Munidos de toda a cautela e atenção, podemos, não obstante, fazer duas observações sobre ela. Primeiro, não há outro trecho nas obras de Marx e Engels que tem relação tão óbvia com o famoso slogan da Crítica do programa de Gotha como esse, a despeito do problema relativo à sua provável autoria. Segundo, ele providencia um salutar lembrete de que o mote “a cada um segundo suas necessidades” já fazia parte do discurso da tradição socialista antes do próprio Marx empregá-lo. Terceiro, a passagem mostra que esse mote era entendido por outros como um princípio de igualdade, tanto que um antigo colaborador de Marx o apresentou abertamente como tal em uma obra que era destinada a ter o nome de Marx. Esses três pontos devem certamente ser o suficiente para abrir a cabeça de qualquer um à existência de, no mínimo, uma possibilidade razoável (e não afirmemos mais do que isso, por enquanto) de que Marx adotava o princípio em questão em função de uma preocupação igualitária. De qualquer modo, decisivamente, em quarto lugar, pode-se ver que entre a passagem d’A ideologia alemã e o texto da Crítica do programa de Gotha há uma semelhança interna inegável, que confirma que tal possibilidade é um fato. Pois, assim como o fundamento da primeira é que “diferenças relativas [...] às capacidades intelectuais” e, portanto, do “trabalho” não podem justificar a “desigualdade” ou “privilégios”, o fundamento da última é indicar insuficiências do princípio da contribuição porque ele “reconhece tacitamente a desigualdade dos talentos individuais como privilégios naturais e, por conseguinte, a desigual capacidade dos trabalhadores” e acaba se resumindo a “um direito da desigualdade” (MARX; ENGELS, 1970b, p. 18).

A consideração da passagem anterior, portanto, serve apenas para destacar o fato de que quando Marx fala dos “defeitos” do princípio da contribuição ele está claramente sugerindo que as desigualdades geradas por esse princípio são, a seu ver, moralmente inaceitáveis. O fato de Marx pensar isso, como agora podemos perceber, em conformidade com uma tradição preexistente de argumentos dá suporte à alegação de que o princípio das necessidades, tal como ele o apresenta, é um princípio da igualdade. Por outro lado, é obviamente verdade que esse princípio, ao visar o tratamento igual de todos, sob um ponto de vista, acaba necessariamente admitindo o tratamento desigual segundo outros pontos de vista. Todas as pessoas, igualmente, serão capazes de satisfazer suas necessidades. Porém, os meios de consumo não serão divididos em partes exatamente iguais; e mesmo quantidades iguais de trabalho não (pelo menos não necessariamente) corresponderão a partes de mesmo tamanho (não são todos, mas apenas aqueles que precisam, que terão acesso a medicamentos caros ou tratamento médico, e assim por diante). Não há nada fora do comum nisso, aliás. O mesmo se aplica a absolutamente toda concepção substantiva de justiça social ou de princípio de igualdade. Se a distribuição for feita de acordo com um critério de necessidade, então as pessoas que contribuem com o mesmo tanto de trabalho ou, digamos, pessoas que têm a mesma altura, ou que nasceram sob o mesmo signo astrológico, podem acabar não recebendo recursos equivalentes. Mas, do mesmo modo, se a distribuição for feita de acordo com um critério de conquista ou mérito, então aqueles com necessidades idênticas, ou que se esforçaram na mesma medida podem acabar se encontrando em uma situação em que suas necessidades não foram igualmente satisfeitas ou em que seus esforços não foram igualmente recompensados, conforme o caso. É um truísmo da análise filosófica sobre a igualdade e a justiça que o princípio formal aqui presente — “tratar casos iguais igualmente, e casos desiguais de acordo com suas diferenças” — é praticamente inútil sem que se especifique antes os critérios substantivos sobre qual tipo de semelhança e de diferença são moralmente relevantes; em outras palavras, qual tipo de igualdade é que importa. A posição de Marx se estabelece a favor da necessidade, e contra os “talentos individuais”, como critério decisivo. Não há dúvida de que, ao assim se posicionar, o próprio Marx enfatiza como a adoção desse critério — que tem que responder às necessidades específicas de cada indivíduo — deve, em alguns sentidos, envolver o tratamento desigual dos indivíduos. Seria um erro, contudo, se deixar levar por essa ênfase feita por Marx, como fazem muitos dos envolvidos nesse debate. Pois ele não conseguem, por meio simples decreto verbal, determinar que não há nenhum sentido no qual a igualdade de consideração e tratamento estão envolvidos. Esse sentido existe de fato, e Marx mostra que está ciente disso quando critica o princípio da contribuição. As necessidades de todos, independentemente dos talentos individuais e também de tantas outras características diferenciadoras que possam ser consideradas moralmente irrelevantes, devem ser igualmente atendidas.

Abundância comunista

Podemos agora nos voltar para o argumento (B), segundo o qual, uma vez que a expectativa de abundância de uma sociedade comunista irá “permitir que as necessidades de todos sejam plenamente satisfeitas” (WOOD, 1981b, p. 211), princípios de justiça distributiva tornar-se-ão obsoletos. Segundo esse raciocínio, não haverá mais nenhuma necessidade de normas ou regras impositivas para determinar que tipo de distribuição é justo, de modo que não haverá lugar para o princípio das necessidades, tal como proposto por Marx. Esse argumento não se sustenta diante de um exame mais minucioso. Assim, algumas reflexões críticas sobre o conceito de “abundância”, e também sobre o conceito de “necessidade”, mostrarão o que há de errado com ele. Para esse fim, a seguinte passagem providencia um pano de fundo para o pensamento de Marx sobre esse assunto. “O homem se diferencia de todos os outros animais pela natureza flexível e ilimitada de suas necessidades. Mas é igualmente verdade que nenhum animal é capaz de restringir suas necessidades no mesmo inacreditável grau e diminuir suas condições de vida ao mínimo absoluto” (1976, p. 1068)31. Então, quando Marx antecipa que as fontes da riqueza jorrarão “abundantemente”, qual é sua ideia de abundância? Ele não a descreve de maneira direta. De fato, não há evidência de que ele tenha dado à questão uma análise muito rigorosa. Desse modo, ao tentar respondêla, somos forçados a identificar o que pode ser inferido a partir de qualquer texto que seja relevante — no sentido das minhas observações anteriores sobre a necessidade de fazer a melhor reconstrução possível. Porém, de qualquer modo, existem apenas três diferentes “possibilidades” pertinentes aqui, e o trecho acima citado nos dá um enquadramento conveniente para entendermos quais elas são. (a) Existe abundância relativa a uma definição de necessidades como “mínimo absoluto”, como simples existência física. (b) Existe, no extremo oposto, abundância relativa a uma noção de necessidade “flexível e ilimitada”; isso é, da possibilidade de todos serem capazes de ter ou fazer o que quer que seja que concebam como uma necessidade. (c) Existe abundância relativa a algum critério de “razoabilidade” (poderia, inclusive, haver mais de um critério), o que configuraria um meio-termo entre (a) e (b).

Podemos afastar a leitura (a) com base no fato de que há muita evidência textual de que ela não é a noção que Marx tem de uma sociedade comunista. Afinal, ele pensa não em termos de um padrão mínimo, mas na expansão das necessidades individuais (MARX, 1981, p. 959, 986-987, 1015-1016), e ele tem em mente particularmente as necessidades para a autorrealização individual. Isso é evidente, entre muitas obras que poderiam ser citadas, em sua referência na Crítica do programa de Gotha sobre o “desenvolvimento multifacetado do indivíduo” e também no contraste que ele faz em O capital quando se refere a um “modo de produção em que o trabalhador serve às necessidades de valorização de valores existentes, em vez de a riqueza objetiva servir às necessidades de desenvolvimento do trabalhador” (MARX, 1976, p. 772). O princípio das necessidades, tal como Marx o entende, não é diferente do outro princípio que verificamos que ele enuncia — nomeadamente, o princípio do “livre desenvolvimento” de cada um e de todos — mas o engloba e, portanto, não deve ser tomado em um sentido minimalista. Por outro lado, podemos afastar a interpretação (b), em razão de ela ser absurda; não se trata realmente de uma possibilidade. Pois necessidades “flexíveis” são uma coisa, mas necessidades “ilimitadas” é algo bastante diferente. Se, como meio para o autodesenvolvimento, você precisa de um violino e eu preciso de uma bicicleta de corrida, isso, é de se supor, está certo. Mas se eu precisar de uma de uma área incrivelmente grande, como, por exemplo, a Austrália, para poder perambular ou simplesmente usar do modo que eu quiser sem ser perturbado pela presença de outras pessoas, isso obviamente não estará certo. Nenhuma abundância concebível poderia satisfazer necessidades de autodesenvolvimento dessa magnitude, e não é difícil pensar em necessidades menos exageradas para as quais o mesmo se aplica. Então, se, por um lado, não basta simplesmente tomar como óbvio que Marx não tenha cogitado tal absurdo, por outro, também não é legítimo imputar essa visão a ele sem alguma fundamentação textual; e tal fundamentação não existe. As reflexões de Marx no terceiro livro d’O capital quando fala sobre a persistência do “reino da necessidade” revelam uma visão muito mais sóbria sobre a abundância no comunismo (1981, p. 959).

Devemos, por consequência, concluir a favor da interpretação (c), segundo a qual a abundância é relativa a um critério de necessidades “razoáveis” que, por mais generosas e amplas que sejam, não atingirão qualquer fantasia de abundância sem limites. Pode ser argumentado, contra o raciocínio pelo qual cheguei a essa conclusão, que o próprio fato de que o princípio em discussão é um princípio que diz respeito a necessidades já exclui de antemão o tipo de exigências individuais extravagantes e fantásticas que imaginamos no parágrafo anterior. Afinal, Marx está falando precisamente sobre necessidades, e não sobre quaisquer desejos ou extravagâncias. Mas essa observação não muda nada; é apenas uma rota diferente para a mesma conclusão. Pois, desde que a noção de necessidade envolva mais do que o “mínimo absoluto” (e, como vimos, para Marx ela de fato envolve), a distinção entre o que pode devidamente ser considerado como necessidades das mulheres e dos homens no comunismo e o que são meras vontades, caprichos ou extravagâncias irá requerer um parâmetro de diferenciação. Não faz diferença se esse parâmetro irá distinguir necessidades razoáveis das não razoáveis, ou as necessidades tout court das vontades. A essência é a mesma: continua sendo necessário certo critério para se lidar com a abundância.

Se nos perguntarmos como um critério de “razoabilidade” vis-à-vis à satisfação de necessidades pode ser sustentado sem conflito aberto, há duas posições que podemos rejeitar seguramente: (i) a de que o princípio poderia ser coercitivamente imposto por um órgão ou instituição de controle social similar a um Estado. Nós sabemos que não era isso o que Marx imaginava. (ii) A de que o critério, se é que podemos chamá-lo assim nessas circunstâncias, poderia ser simplesmente algo espontâneo e irrefletido. Ou seja, poderia simplesmente “acontecer” que as necessidades de diferentes indivíduos sejam, em todos os lugares e em todo momento, todas satisfazíveis de uma maneira harmônica. Penso que há boas razões para duvidar de que essa é a visão de Marx sobre o assunto. Uma delas é que isso não condiz com a ideia de uma economia sujeita a regulação consciente, com o uso e distribuição de recursos planejados. Outra razão é que a própria ideia de espontaneidade aqui está aberta a questionamentos. Afinal, esses indivíduos serão “indivíduos sociais”, de modo que suas necessidades gerais não podem simplesmente ser se afirmar automaticamente. De qualquer modo, a perspectiva de nunca haver qualquer conflito potencial entre as necessidades de autodesenvolvimento individual é dificilmente imaginável. E tanto pior para uma concepção de comunismo que dependa disso. Há, por fim, (iii) a suposição de que embora não venha a existir uma coordenação ou harmonia automática entre as necessidades individuais e embora elas possam inclusive ser objeto de potencial conflito, haverá normas sociais impositivas, incluindo normas de distribuição, que as pessoas aceitarão mais ou menos voluntariamente. Ainda que demasiadamente utópica para muitos, essa é uma suposição mais realista que faz do princípio marxiano exposto na Crítica do programa de Gotha efetivamente um princípio de justiça distributiva. Ela é sustentada ao menos pelos seguintes aspectos do pensamento de Marx: a ideia de que embora o Estado, no sentido marxista desse termo, irá desvanecer, instituições públicas por meio das quais a comunidade deliberará coletivamente sobre os assuntos comuns continuarão a existir; e a noção de que embora o trabalho se torne a “primeira necessidade vital”, ainda vai existir um “reino da necessidade”, em outras palavras, algum tipo de trabalho que não é criação livre ou autorrealização, mas “determinado pela necessidade pela adequação a finalidades externas”, uma responsabilidade que Marx explicitamente considera que deve ser compartilhada por todos — com as exceções óbvias dos muito jovens, dos muito velhos, dos doentes e assim por diante (MARX, 1981, p. 959, 986-987, 1015-1016) — mesmo se repartida apenas de acordo com a capacidade relativa de cada um.

Por fim, a alegação de que a frase “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!” não pode ser algum tipo de norma, visto que é apenas uma descrição do futuro32, não é muito plausível diante do fato de que Marx usa a frase como uma das bandeiras da sociedade comunista, colocando, inclusive, nesse sentido, um ponto de exclamação no fim dela.

Conclusão

O ponto de vista criticado nesse ensaio pode ser considerado como uma falsa solução para um problema genuíno presente no pensamento de Marx. Tal problema é uma inconsistência, ou paradoxo33, em sua posição diante de questões normativas. Ainda que hajam momentos em que ele energicamente ridiculariza o recurso a ideais ou valores, ao mesmo tempo Marx faz juízos críticos de caráter normativo de maneira bastante livre, pois é o autor de um discurso que é repleto de sinais de um intenso compromisso moral. A interpretação “anti-justiça” tenta suavizar essa contradição ao representar os dois lados dela como aplicáveis a coisas diferentes: como se o que Marx renegasse e ridicularizasse fossem as ideias de justiça e direitos; e os ideais de liberdade, autorrealização e comunidade fossem por ele afirmados e reivindicados. Mas essa é uma solução espúria. O obstáculo não pode ser removido tão facilmente. Tanto na juventude quanto na maturidade, os juízos negativos de Marx sobre esse assunto (isso é, seus esforços de, por assim dizer, repressão da dimensão normativa de suas próprias ideias) são bastante abrangentes. Assim, n’A ideologia alemã ele afirma que “o comunismo não é para nós um estado de coisas que deve ser instaurado, um Ideal para o qual a realidade deverá se direcionar. Chamamos de comunismo o movimento real que supera o estado de coisas atual” (MARX; ENGELS, 1975, p. 49). No mesmo sentido, 25 anos depois, n’A guerra civil na França, Marx coloca que os trabalhadores “não têm nenhum ideal a realizar, mas sim querem libertar os elementos da nova sociedade dos quais a velha e agonizante sociedade burguesa está grávida” (MARX. ENGELS, 1970a, p.224). Note-se que aqui não se trata de que o ideal de liberdade ou autorrealização se encontra em oposição ao ideal de justiça: o que Marx afirma é que não há ideais a realizar, mas tão somente o movimento imanente da realidade. A abrangência dessa negação acerta, de fato, um ponto crucial levantado por certos comentadores, frustrando a validade da disjunção que fazem. No Manifesto comunista, um oponente hipotético acusa o comunismo de “abolir as verdades eternas, abolir a religião e a moral”. E a resposta a essa acusação não é uma rejeição dela, mas o reconhecimento de que a revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não admira, portanto, que no curso de seu desenvolvimento se rompa, do modo mais radical, com as ideias tradicionais”. Mas quais são essas verdades eternas que são, junto com “toda moral”, mencionadas como candidatas à abolição? Cito: “a liberdade, a justiça etc. (MARX; ENGELS, 1975, p. 504)

A impaciência de Marx com o discurso sobre normas e valores tem abrangência global. E, ainda assim, ele manifestamente condena o capitalismo por suas opressões, faltas de liberdade e, como argumentou-se nesse ensaio, por suas injustiças. Seus próprios compromissos éticos, ainda que negados em público e reprimidos, continuam reaparecendo: os valores da liberdade, autodesenvolvimento, bem-estar e felicidade; o ideal de uma sociedade justa em que esses elementos sejam adequadamente distribuídos. Pode-se talvez, de alguma forma, explicar essa contradição persistente, mas fazer isso não é resolvê-la ou justificá-la. Ela deve, ao contrário, ser reconhecida como uma inconsistência real e profunda da parte de Marx, uma que não trouxe resultados muito felizes. Alguns desses resultados podem ter sido inocentes: muitos socialistas simplesmente seguiram Marx no sentido do ofuscamento da questão, confundindo ao mesmo tempo a si mesmos e aos outros ao negarem em uma frase o ponto de vista normativo que claramente utilizam na próxima. Contudo, não tão inocente, dentro do complexo de causas históricas dos crimes e tragédias que desgraçaram o socialismo, é o cinismo moral que por vezes se reveste da autoridade dos pronunciamentos “anti-ética”. Os marxistas devem parar de continuar a propagar a confusão e a autocontradição nessa área, mas devem também responder abertamente por suas posições éticas, expô-las, defendê-las e refiná-las. Uma concepção marxista de justiça devidamente elaborada, para falar apenas do exemplo mais relevante do presente debate, seria bem-vinda.

Ainda assim, certo impulso salutar pode ser detectado, e parcialmente reconhecido, no repúdio de Marx a todo compromisso com princípios éticos. É ao que me referi acima como a noção de realismo moral. Expressa negativamente por meio de uma rejeição à fácil retórica moral, meramente moralista, que não leva em consideração o conhecimento objetivo sobre a realidade histórica, o núcleo positivo dessa noção é a convicção de que ideais, por si só, são uma ferramenta insuficiente para a libertação humana, e o conseqüente empenho em tentar compreender as precondições materiais para esse fim (incluindo aqui as formas de alienação historicamente inevitáveis, faltas de liberdades e injustiças), bem como os agentes sociais capazes de realizá-lo. Tal compreensão histórica, e tudo que se segue dela na obra marxiana, não é insignificante: ela é, na verdade, a força de Marx, sua grandeza. Essa força, é necessário repetir, não resolve ou justifica a inconsistência mencionada. Análises e juízos normativos podem ser colocados em seu devido lugar, ainda que esse seja um espaço necessariamente circunscrito, sem que sejam objetos de rejeição exagerada ou de desprezo. Mas é importante, não obstante, destacar a força de Marx em conjunto com sua deficiência. Pois não há falta de filosofia moral que, ignorando a particular insuficiência de Marx a esse respeito (e geralmente satisfeita por poder evidenciá-lo) é culpada de uma irresponsabilidade ainda maior: fazer análise isolada sobre o certo, o bom, o justo, e todo o resto, de modo tranquilo e distante das multidões agitadas, da história marcada pelas cicatrizes de labuta e conforto, poder e protesto, esperança e luta. O atual debate que se dá precisamente sobre o conceito de justiça fornece amplo material ilustrativo: as várias concepções de arranjos sociais justos são apresentadas em conjunto com praticamente nenhuma reflexão (às vezes com, de fato, nada) sobre como esses arranjos podem ser realizados. O último e maior paradoxo aqui é que Marx, apesar de tudo, demonstrava um maior compromisso com a criação de uma sociedade justa do que a maioria dos que se interessam em analisar o que a justiça é.

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Notas

1 Por uma questão de conveniência, detalhes bibliográficos da literatura analisada serão reunidos aqui. Muitos dos artigos aqui citados fazem parte das seguintes coleções: COHEN, M.; NAGEL, T.; SCANLON, T. (eds.). Marx, Justice, and History. Princeton: 1980; NIELSEN, K.; PATTEN, S. C (eds). Marx and Morality. Canadian Journal of Philosophy Supplementary, v. 7, 1981; e PENNOCK, J. R.; CHAPMAN, J. W. (eds.). Marxism: Nomos XXVI. New York: New York University Press, 1983. Os autores que colaboraram com o debate podem ser agrupados da seguinte maneira: I) Aqueles segundos os quais Marx não criticou o capitalismo como injusto: D. P. H. Allen, G. G. Brenkert, A. Buchanan, L. Crocker, S. Lukes, R. W. Miller, R. C. Tucker, A. W. Wood, e D. H. Ruben. II) Aqueles segundo os quais Marx criticou o capitalismo como injusto: R. J. Arneson, G. A. Cohen, J. Elster, M. Green, R. Hancock, I. Husami, P. Riley, C. C. Ryan, H. van der Linden, D. van de Veer, e G. Young. II*) Um grupo não completamente distinto do grupo II, porém com mais reservas de um tipo ou de outro sobre a interpretação do grupo I, sem no entanto o questionar diretamente: N. Holmstrom, W. L. McBride, J. H. Reiman, W. H. Shaw e R. J. van der Veen.
2 Ver também as Notas sobre Adolph Wagner (MARX, 1975, p. 216).
3 Ver Tucker (1970, p. 50-1); Wood (1980a, p. 27); Buchanan (1979, p. 134; 1982, p. 56-7)
4 Ver também (Wood, 1980b, p. 133; 1981a, p. 143) Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562.
5 Ver Tucker (1970, p. 48), Brenkert (1980, p. 91; 1983, p. 153, 162), Buchanan (1979, p. 139; 1982, p. 57-59), Lukes (1982, p. 198-203; 1983), (Wood, 1980b, p. 131; 1981a, p. 138-139; 1981b, 203-211), Miller (1981, p. 338- 339) e Allen (1974, p. 609).
6 Ver Tucker (1970, p. 50), Wood (1980a, p. 34-41; 1980b, p. 119-128; 1981a, p. 125-130), Brenkert (1980, p. 81- 6; 1983, p. 155-157), Allen (1974, p. 609-611), Lukes (1982, p. 201) e Miller (1984).
7 Esse é o argumento de Holmstrom (1977, p. 366-368), Husami (1980, p. 66-67), Young (1978, p. 441-450), Ryan (1980; p. 512-513), Arneson (1981, p. 218-219) e que também utilizo (Geras, 1971, p. 80-84).
8 Para uma passagem mais ambígua e disputada ver Marx (1975, p. 186).
9 Ver Arneson (1981, p. 204), Cohen (1981, p. 15) e Young (1981, p. 262-263). 
10 Ver Marx (1970b, p. 18-19), Hancock (1971, p. 66); Van der Veer (1973, p. 373); Husami (1980, p. 58); Arneson (1981, p. 214-215); Riley (1983, p. 39-42) e Elster (1983, p. 290-291). Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562.
11 Ver Van der Veer (1973, p. 371-373), Holmstrom (1977, p. 368), Husami (1980, p. 49-51), Arneson (1981, p. 216), Shaw (1981, p. 28) e Hancock (1971, p. 66-67). Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562.
12 Os autores são, respectivamente, Elster e Reiman. 
13 Expressões de, respectivamente, Brenkert, Lukes e Wood.
14 Ver Marx e Engels (1975, p. 464, 499-500) e Marx (1973, p. 487-488).
15 Ver, por exemplo, Allen (1981, p. 234-237) e Young (1981, p. 263-266).
16 Ver, por exemplo, Wood (1981a, p. 256) e o comentário de Cohen (1983, p. 443). Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562. 
17 Ver Tucker (1970, p. 46) Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562. 
18 Ver, para (1), Allen (1981, p. 248); para (2), Brenkert (1983, p. 148); para (3) Buchanan (1982, p. 187-188); para (4) Wood (1980b, p. 117-118); para (5) Wood (1980b, p. 119) e Brenkert (1983, p. 147-148); para (6), Allen (1981, p. 246-249); para (7), Brenkert (1983, 149-150). Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562. 
19 Ver Allen (1974, p. 603-607) e Buchanan (1979, p. 138). Rev. Direito e Práx., Rio de Janeiro, Vol. 9, N.1, 2018, p. 504-562.
20 Ver Geras (1983, 1976).
21 Dois outros autores apresentam esse argumento: Cohen (1983, p. 443-444) e Elster (1983, p. 289-290). Curiosamente, Steven Lukes, que se localiza no outro lado do debate, também o faz. Entretanto, seu ensaio sobre o assunto reduz o argumento, mencionando apenas em uma nota de rodapé que a convicção de Marx de que o capitalismo é injusto e declarando-a “não-oficial”. Embora seu livro prestes a ser publicado pareça dar mais espaço a essa visão “não-oficial”, essa aparência é enganosa, pois Lukes não aceita a conclusão que realmente importa aqui: a de que a convicção de Marx demonstra sua adoção de critérios não-relativistas sobre justiça. Ver Lukes (1982, p. 197).
22 Aqui discordo de Arneson (1981, p. 220-221). 
23 Ver Arneson (1981, p. 220-221), Riley (1983, p. 50) e Hancock (1971, p. 68-69).
24 Ver Brenkert (1980, p. 158) para ambos os argumentos.
25 Ver Geras (1976).
26 Ver Cohen (1981, p. 13) e Ryan (1980, p. 521).
27 A afirmação segundo a qual (novamente) “parece que” as críticas de Marx ao capitalismo não são baseadas em nenhuma concepção de justiça “produtiva-distributiva” — e por esse termo o autor dessa afirmação quer dizer exatamente o que tenho argumentado nesse ensaio — é ela mesma aparentemente baseada na resistência do autor de explicar as passagens de Marx aqui citadas. Ver Buchanan (1982, p. 59-60). E, francamente, não passa de um ardil intelectual desesperado dizer que — ver Brenkert (1983, p. 162) —sendo a propriedade coletiva “uma instituição qualitativamente diferente” da propriedade privada, ela deve ser vista simplesmente como algo radicalmente novo, não como uma redistribuição diferente dos meios de produção. Esse discurso da ”transição” pura e sem restrições se encontra longe da concepção de Marx sobre as continuidades históricas, o que, apesar de todas inovações e mudanças, e do crescimento das capacidades produtivas dos homens, faz da análise comparativa das instituições sociais um esforço racional. A “distribuição das condições de produção” é, sem nenhum problema, uma categoria trans-histórica para Marx. 
28 Ver Crocker (1972, p. 207) e Ryan (1980, p. 521-522) 
29 Um exemplo menos “extremo” é dado por Arneson (1981, p. 226)
30 Ver a seção I (viii) acima.
31
32 Ver a seção I (viii).
33 Ver Lukes (1983) para uma apreciação clara do paradoxo e para uma proposta de solução para ele. 

Sobre o autor 

Norman Geras Professor de Teoria Política na Universidade de Manchester (UK), falecido em outubro de 2013.

1 de setembro de 1984

Reflexões sobre o exílio

Os exilados sentem, portanto, uma necessidade urgente de reconstituir as suas vidas destruídas, geralmente optando por se verem como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado.

Edward Said



Tradução / O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre. 

Mas, se o verdadeiro exílio é uma condição de perda terminal, por que foi tão facilmente transformado num tema vigoroso — enriquecedor, inclusive —da cultura moderna? Habituamo-nos a considerar o período moderno em si como espiritualmente destituído e alienado, a era da ansiedade e da ausência de vínculos. Nietzsche nos ensinou a sentir-nos em desacordo com a tradição, e Freud a ver na intimidade doméstica a face polida pintada sobre o ódio parricida e incestuoso. A moderna cultura ocidental é, em larga medida, obra de exilados, emigrantes, refugiados. Nos Estados Unidos, o pensamento acadêmico, intelectual e estético é o que é hoje graças aos refugiados do fascismo, do comunismo e de outros regimes dados a oprimir e expulsar os dissidentes. O crítico[p. 46] George Steiner chegou a propor a tese de que todo um gênero da literatura ocidental do século XX é "extraterritorial", uma literatura feita por exilados e sobre exilados, símbolo da era do refugiado. E sugeriu: 

Parece apropriado que aqueles que criam arte numa civilização de quase barbárie, que produziu tanta gente sem lar, sejam eles mesmos poetas sem casa e errantes entre as línguas. Excêntricos, arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos... 

Em outras épocas, os exilados tiveram visões transnacionais e multiculturais semelhantes, sofreram as mesmas frustrações e aflições, desempenharam as mesmas tarefas elucidativas e críticas — brilhantemente afirmadas, por exemplo, em The Romantic Exiles [Os exilados românticos], o estudo clássico de E. H. Carr sobre os intelectuais russos do século XIX agrupados em torno de Herzen. Mas a diferença entre os exilados de outrora e os de nosso tempo é de escala: nossa época, com a guerra moderna, o imperialismo e as ambições quase teológicas dos governantes totalitários, é, com efeito, a era do refugiado, da pessoa deslocada, da imigração em massa. 

Tendo por fundo esse cenário amplo e impessoal, o exílio não pode ser posto a serviço do humanismo. Na escala do século XX, o exílio não é compreensível nem do ponto de vista estético, nem do ponto de vista humanista: na melhor das hipóteses, a literatura sobre o exílio objetiva uma angústia e uma condição que a maioria das pessoas raramente experimenta em primeira mão; mas pensar que o exílio é benéfico para essa literatura é banalizar suas mutilações, as perdas que inflige aos que as sofrem, a mudez com que responde a qualquer tentativa de compreendê-lo como "bom para nós". Não é verdade que as visões do exílio na literatura e na religião obscurecem o que é realmente horrível? Que o exílio é irremediavelmente secular e insuportavelmente histórico, que é produzido por seres humanos para outros seres humanos e que, tal como a morte, mas sem sua última misericórdia, arrancou milhões de pessoas do sustento da tradição, da família e da geografia? 

Ver um poeta no exílio — ao contrário de ler a poesia do exílio — é ver as antinomias do exílio encarnadas e suportadas com uma intensidade sem par. Ha vários anos, passei algum tempo corn Faiz Ahamad Faiz, o maior dos poetas urdus contemporâneos. Ele foi exilado de seu Paquistão nativo pelo regime miltar [p.47] de Zia e encontrou uma espécie de acolhimento na Beirute dilacerada pela guerra. Naturalmente, seus amigos mais próximos eram palestinos, mas eu percebia que, embora houvesse uma afinidade de espírito entre eles, nada combinava muito bem — língua, convenção poética ou história de vida. Somente uma vez, quando Eqbal Ahmad, um amigo paquistanês e colega de exílio, foi a Beirute, Faiz deu a impressão de superar seu sentimento de alienação constante. Certo fim de noite, nós três nos instalamos num restaurante encardido e Faiz recitou poemas. Depois de algum tempo, ele e Eqbal pararam de traduzir os versos para mim, mas, com o avançar da noite, isso deixou de ter importância. Não era preciso tradução para o que eu observava: era uma representação da volta para casa expressa por meio de desafio e perda, como se quisessem dizer: "Zia, aqui estamos". Evidentemente, Zia era quem estava, de fato, em casa e não escutaria suas vozes exultantes. 

Rashid Hussein era palestino. Ele traduziu para o árabe Bialik, um dos grandes poetas modernos hebreus, e sua eloqüência fez com que não tivesse par como orador e nacionalista no período pós-1948. De início, foi jornalista em língua hebraica em Tel Aviv e conseguiu estabelecer um diálogo entre escritores judeus e árabes, ainda que defendesse a causa do nasserismo e do nacionalismo árabe. Com o tempo, não pode mais suportar a pressão e foi embora para Nova York. Casou-se com uma mulher judia e começou a trabalhar no escritório da OLP das Nações Unidas, mas periodicamente deixava seus superiores escandalizados com idéias não-convencionais e uma retórica utópica. Em 1972, partiu para o mundo árabe, mas poucos meses depois estava de volta aos Estados Unidos: sentira-se deslocado na Síria e no Líbano, infeliz no Cairo. Nova York recebeu-o novamente, mas ele se entregou a infindáveis bebedeiras e ao ócio. Sua vida estava em ruínas, mas continuava a ser o mais hospitaleiro dos homens. Morreu após uma noitada de muita bebida quando, ao fumar na cama, seu cigarro deu início a um incêndio que se espalhou para sua pequena coleção de fitas cassete, composta principalmente de poetas lendo seus poemas. A fumaça das fitas asfixiou-o. Seu corpo foi repatriado para ser enterrado em Musmus, a pequena aldeia de Israel onde sua família ainda morava. 

Esse e tantos outros poetas e escritores exilados conferem dignidade a uma condição criada para negar a dignidade — e a identidade as pessoas. A partir da história deles fica claro que para tratar o exílio como uma punição política contemporânea é preciso mapear territórios de experiência que se situam para além [p.48] daqueles cartografados pela própria literatura do exílio. Deve-se deixar de lado Joyce e Nabokov e pensar nas incontáveis massas para as quais foram criadas as agências da ONU. É preciso pensar nos camponeses refugiados sem perspectiva de voltar algum dia para casa, armados somente com um cartão de suprimentos e um número da agência. Paris pode ser a capital famosa dos exilados cosmopolitas, mas é também uma cidade em que homens e mulheres desconhecidos passaram anos de solidão miserável: vietnamitas, argelinos, cambojanos, libaneses, senegaleses, peruanos. É preciso pensar também em Cairo, Beirute, Madagascar, Bangkok, Cidade do México. À medida que nos afastamos do mundo do Atlântico, a cena se torna mais terrível e lastimável: multidões sem esperança, a miséria das pessoas "sem documentos" subitamente perdidas, sem uma história para contar. Para refletir sobre muçulmanos exilados da Índia, haitianos nos Estados Unidos, habitantes de Bikini na Oceania, ou palestinos em todo o mundo árabe, é preciso deixar o modesto refúgio proporcionado pela subjetividade e apelar para a abstração da política de massas. Negociações, guerras de libertação nacional, gente arrancada de suas casas e levada às cutucadas, de ônibus ou a pé, para enclaves em outras regiões: o que essas experiências significam? Não são elas, quase que por essência, irrecuperáveis? 

Chegamos ao nacionalismo e a sua associação essencial ao exílio. O nacionalismo é a uma declaração de pertencer a um lugar, a um povo, a uma herança cultural. Ele afirma uma pátria criada por uma comunidade de língua, cultura e costumes e, ao fazê-lo, rechaça o exílio, luta para evitar seus estragos. Com efeito, a interação entre nacionalismo e exílio é como a dialética hegeliana do senhor e do escravo, opostos que informam e constituem um ao outro. Em seus primeiros estágios, todos os nacionalismos se desenvolvem a partir de uma situação de separação. As lutas pela independência dos Estados Unidos, pela unificação da Alemanha e da Itália, pela libertação da Argélia foram de grupos nacionais separados — exilados — daquilo que consideravam seu modo de viver legítimo. O nacionalismo triunfante justifica então, tanto retrospectiva como prospectivamente, uma história amarrada de modo seletivo numa forma narrativa: todos os nacionalismos têm seus pais fundadores, seus textos básicos, quase religiosos, uma retórica do pertencer, marcos históricos e geográficos, inimigos e heróis oficiais. Esse ethos coletivo compõe o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chama de habitus, o amálgama coerente de práticas que ligam o hábito a habitação.[p.49] Com o tempo, os nacionalismos bem-sucedidos atribuem a verdade exclusivamente a eles mesmos e relegam a falsidade e a inferioridade aos outros, como na retórica do capitalista contra o comunista (ou do europeu contra o asiático). 

E logo adiante da fronteira entre "nós" e os "outros" está o perigoso território do não-pertencer, para o qual, em tempos primitivos, as pessoas eram banidas e onde, na era moderna, imensos agregados de humanidade permanecem como refugiados e pessoas deslocadas.

Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o exílio é uma solidão vivida fora do grupo: a privação sentida por não estar com os outros na habitação comunal. Como, então, alguém supera a solidão do exílio sem cair na linguagem abrangente e latejante do orgulho nacional, dos sentimentos coletivos, das paixões grupais? O que vale a pena salvar e defender entre os extremos do exílio, de um lado, e as afirmações amiúde teimosas e obstinadas do nacionalismo, de outro? O nacionalismo e o exílio possuem atributos intrínsecos? São eles apenas duas variedades conflitantes de paranóia? 

Essas questões nunca podem ser respondidas plenamente porque partem do princípio de que o exílio e o nacionalismo podem ser discutidos com neutralidade, sem referir-se um ao outro. Isso é impossível. É que os dois termos incluem tudo, do mais coletivo dos sentimentos coletivos à mais privada das emoções privadas; dificilmente há uma linguagem adequada para ambos. Mas não há certamente nada nas ambições públicas e abrangentes do nacionalismo que toque no âmago da condição do exílio. 

O exílio, ao contrário do nacionalismo, é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado. Em geral, não têm exércitos ou Estados, embora estejam com frequência em busca deles. Portanto, os exilados sentem uma necessidade urgente de reconstituir suas vidas rompidas e preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado. O ponto crucial é que uma situação de exílio sem essa ideologia triunfante—criada para reagrupar uma história rompida em um novo todo — é praticamente insuportável e impossível no mundo de hoje. Basta ver o destino de judeus, palestinos e armênios. 

Noubar é um armênio solitário e um amigo. Seus pais tiveram de deixar a Turquia em 1915, quando suas famílias foram massacradas: sua avó materna foi decapitada. A mãe e o pai de Noubar foram para Aleppo, depois para o Cairo. Na [p. 50] década de 1960, a vida no Egito tornou-se difícil para quem não era egípcio, e seus pais, junto com quatro filhos, foram levados para Beirute por uma organização internacional de auxílio. Na capital do Líbano, moraram por pouco tempo numa pensão e depois foram enfiados em dois cômodos de uma pequena casa nos arredores da cidade. Não tinham dinheiro e ficaram esperando: oito meses depois, uma agência de ajuda embarcou-os num vôo para Glasgow. E em seguida para Gander. E em seguida para Nova York. Foram de ônibus de Nova York para Seattle, cidade designada pela agência como destino final para eles. Quando perguntei "Seattle?" Noubar sorriu com resignação, como se dissesse, melhor Seattle do que a Armênia, que ele nunca conheceu, ou a Turquia, onde tantos foram massacrados, ou o Líbano, onde ele e sua família teriam certamente arriscado suas vidas. Às vezes, o exílio é melhor do que ficar para trás ou não sair: mas somente às vezes. 

Porque nada é seguro. O exílio é uma condição ciumenta. O que você consegue é exatamente o que você não tem vontade de compartilhar, e é ao traçar linhas ao seu redor e ao redor de seus compatriotas que os aspectos menos atraentes de estar no exílio emergem: um sentimento exagerado de solidariedade de grupo e uma hostilidade exaltada em relação aos de fora do grupo, mesmo aqueles que podem, na verdade, estar na mesma situação que você. O que poderia ser mais intransigente do que o conflito entre os judeus sionistas e os palestinos árabes? Os palestinos acham que foram transformados em exilados pelo povo proverbial do exílio, os judeus. Mas os palestinos também sabem que seu próprio sentimento de identidade nacional foi alimentado no ambiente do exílio, onde todos que não sejam irmãos de sangue são inimigos, onde cada simpatizante é agente de alguma potência hostil e onde o menor desvio da linha aceita pelo grupo é um ato da mais extrema traição e deslealdade. 

Talvez este seja o mais extraordinário dos destinos do exílio: ser exilados por exilados, reviver o processo de desenraizamento nas mãos de exilados. No verão de 1982, todos os palestinos se perguntaram qual seria o anseio inarticulado que levou Israel, depois de deslocar os palestinos em 1948, a expulsá-los continuamente de seus acampamentos e seus abrigos de refugiados no Líbano. É como se a experiência coletiva judaica reconstruída, tal como representada por Israel e pelo sionismo moderno, não pudesse tolerar outra história de expropriação e perda ao lado da sua, uma intolerância constantemente reforçada pela hostilidade [p. 51] israelita ao nacionalismo dos palestinos, que durante 46 anos reconstruíram com dificuldades a identidade nacional no exílio. 

Essa necessidade do exilado de reconstruir uma identidade a partir de refrações e descontinuidades encontra-se nos primeiros poemas de Mahmoud Darwish, cuja obra considerável equivale a um esforço épico para transformar a lírica da perda no drama infinitamente adiado da volta. Assim, ele representa seu sentimento de ausência de um lar na forma de uma lista de coisas incompletas e inacabadas: 

Mas eu sou o exilado. 
Sela-me com teus olhos. 
Leva-me para onde estiveres — 
Leva-me para o que és. 
Restaura-me a cor do rosto 
E o calor do corpo 
A luz do coração e dos olhos, 
O sal do pão e do ritmo, 
O gosto da terra... a terra natal. 
Protege-me com teus olhos. 
Leva-me como uma relíquia da mansão do pesar. 
Leva-me como um verso de minha tragédia; 
Leva-me como um brinquedo, um tijolo da casa 
Para que nossos filhos se lembrem de voltar. 

O páthos do exílio está na perda de contato com a solidez e a satisfação da terra: voltar para o lar está fora de questão. 

O conto "Amy Foster", de Joseph Conrad, talvez seja a mais intransigente representação do exílio jamais escrita. Conrad julgava-se um exilado da Polônia e quase toda a sua obra (bem como sua vida) carrega a marca inconfundível da obsessão do emigrado sensível com seu próprio destino e com as tentativas desesperadas de fazer contato satisfatório com os novos ambientes. Em certo sentido, "Amy Foster" se restringe aos problemas do exílio — e se restringe tanto que talvez esse não seja um dos contos mais conhecidos de Conrad. Eis, por exemplo, a descrição da agonia de seu personagem principal, [p.52] Yanko Goorall, um camponês da Europa oriental que, a caminho da América, naufraga na costa britânica: 

Com efeito, é duro para um homem achar-se como um estrangeiro perdido, indefeso, incompreensível e de origem misteriosa, em algum canto obscuro da Terra. Contudo, entre todos os aventureiros naufragados em todas as regiões selvagens do mundo, não há um, assim me parece, que tenha sofrido um destino tão simplesmente trágico quanto o homem de quem estou falando, o mais inocente dos aventureiros expulso pelo mar. 

Yanko deixou sua terra porque as pressões eram grandes demais para que ele continuasse a viver lá. A América o atrai por ser tão promissora, embora ele acabe na Inglaterra. Ele permanece na Inglaterra, cuja língua não fala e onde é temido e mal interpretado. Somente Amy Foster, uma camponesa perseverante e sem atrativos, tenta comunicar-se com ele. Eles se casam, têm um filho, mas, quando Yanko fica doente, Amy, com medo e alheada, recusa-se a cuidar dele, pega o filho e vai embora. A deserção apressa a morte miserável de Yanko, que, como o fim de muitos heróis conradianos, é representada como resultado de uma combinação de isolamento esmagador e indiferença do mundo. O destino de Yanko é descrito como "o supremo desastre da solidão e do desespero". 

A situação de Yanko é comovente: um estrangeiro perpetuamente assombrado e sozinho numa sociedade que não o compreende. Mas o exílio de Conrad faz com que ele exagere as diferenças entre Yanko e Amy: ele é arrojado, leve e tem olhos cintilantes, enquanto ela é pesada, sem graça e apática. Quando ele morre, é como se a generosidade anterior dela fosse uma armadilha para atraí-lo e depois aprisioná-lo fatidicamente. A morte de Yanko é romântica: o mundo é rude, ingrato; ninguém o compreende, nem mesmo Amy, a única pessoa próxima dele. Conrad criou um princípio estético a partir do medo neurótico do exilado. Ninguém é capaz de compreender ou se comunicar no mundo de Conrad, mas, paradoxalmente, essa limitação radical das possibilidades da linguagem não impede esforços esmerados para se comunicar. Todas as histórias de Conrad são sobre pessoas solitárias que falam muito (com efeito, quem, entre os grandes modernistas, era mais volúvel e "adjetivesco" do que o próprio Conrad?) e cujas tentativas de impressionar os outros aumentam, em vez de reduzir, o sentimento [p.53] original de isolamento. Cada exilado de Conrad teme e está condenado para sempre a imaginar o espetáculo de uma morte solitária iluminada, por assim dizer, por olhos indiferentes, sem comunicação. 

Os exilados olham para os não-exilados com ressentimento. Sentem que eles pertencem a seu meio, ao passo que um exilado está sempre deslocado. Como é nascer num lugar, ficar e viver ali, saber que se pertence a ele, mais ou menos para sempre? 

Embora seja verdade que toda pessoa impedida de voltar para casa é um exilado, é possível fazer algumas distinções entre exilados, refugiados, expatriados e emigrados. O exílio tem origem na velha prática do banimento. Uma vez banido, o exilado leva uma vida anômala e infeliz, com o estigma de ser um forasteiro. Por outro lado, os refugiados são uma criação do Estado do século XX. A palavra "refugiado" tornou-se política: ela sugere grandes rebanhos de gente inocente e desnorteada que precisa de ajuda internacional urgente, ao passo que o termo "exilado", creio eu, traz consigo um toque de solidão e espiritualidade. 

Os expatriados moram voluntariamente em outro país, geralmente por motivos pessoais ou sociais. Hemingway e Fitzgerald não foram obrigados a viver na França. Eles podem sentir a mesma solidão e alienação do exilado, mas não sofrem com suas rígidas interdições. Os emigrados gozam de uma situação ambígua. Do ponto de vista técnico, trata-se de alguém que emigra para um outro país. Claro, há sempre uma possibilidade de escolha, quando se trata de emigrar. Funcionários coloniais, missionários, assessores técnicos, mercenários e conselheiros militares podem, em certo sentido, viver em exílio, mas não foram banidos. Os colonos brancos na África, em partes da Ásia e na Austrália podem ter sido inicialmente exilados, mas, em sua qualidade de pioneiros e construtores de uma nação, perderam o rótulo de "exilado". 

Grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar. Não surpreende que tantos exilados sejam romancistas, jogadores de xadrez, ativistas políticos e intelectuais. Essas ocupações exigem um investimento mínimo em objetos e dão um grande valor à mobilidade e à perícia. O novo mundo do exilado é logicamente artificial e sua irrealidade se parece com a ficção. Georg Lukács, na Teoria do romance, sustentou de modo convincente que o romance, forma literária criada a partir da irrealidade da ambição e da fantasia, é a forma da "ausência de uma [p.54] pátria transcendental". De acordo com o teórico húngaro, as epopéias clássicas emanam de culturas estabelecidas em que os valores são claros, as identidades estáveis, a vida imutável. O romance europeu baseia-se exatamente na experiência oposta, a de uma sociedade em mudança na qual um herói de classe média, itinerante e deserdado, busca construir um mundo novo que de alguma forma se pareça com o antigo, deixado para trás para sempre. Na epopéia não há outro mundo, somente a finalidade de nosso mundo. Ulisses retorna a Itaca após anos de errância. Aquiles morrerá porque não pode escapar de seu destino. O romance, no entanto, existe porque outros mundos podem existir — alternativas para especuladores burgueses, errantes, exilados. 

Por mais que tenham êxito, os exilados são sempre excêntricos que sentem sua diferença (ao mesmo tempo que, com freqüência, a exploram) como um tipo de orfandade. Aqueles que realmente não têm lar consideram uma afetação, uma exibição de modismo o hábito de ver a alienação em tudo o que é moderno. Agarrando-se à diferença como a uma arma a ser usada com vontade empedernida, o exilado insiste ciosamente em seu direito de se recusar à pertencer a outro lugar. 

Isso se traduz geralmente numa intransigência que não é ignorada com facilidade. Obstinação, exagero, tintas carregadas são características de um exilado, métodos para obrigar o mundo a aceitar sua visão — que ele torna mais inaceitável porque, na verdade, não está disposto a vê-la aceita. É a visão dele, afinal de contas. Compostura e serenidade são as últimas coisas associadas à obra dos exilados. Os artistas no exílio são decididamente desagradáveis, e a teimosia se insinua até mesmo em suas obras mais elevadas. A visão de Dante na Divina comédia é imensamente vigorosa em sua universalidade e seu detalhamento, mas mesmo a paz beatífica alcançada no Paraíso apresenta traços do caráter vingativo e da severidade de julgamento do Inferno. Quem, senão um exilado como Dante, banido de sua Florença natal, usaria a eternidade como um lugar para acertar velhas contas? 

James Joyce escolheu o exílio, para dar força à sua vocação artística. De um modo estranhamente eficaz—como Richard Ellmann mostrou em sua biografia do romancista irlandês—, Joyce arranjou uma querela com a Irlanda e a manteve viva, de maneira a sustentar a mais rigorosa oposição ao que era familiar. Ellmann diz que "sempre que suas relações com a terra natal corriam o perigo de [p.55] melhorar, [ele] achava um novo incidente para solidificar sua intransigência e reafirmar a correção de sua ausência voluntária". A ficção de Joyce tem a ver com o que, em uma carta, ele descreveu como o estado de ser "sozinho e sem amigos". E, embora seja raro escolher o banimento como um modo de vida, ele compreendeu perfeitamente suas provações. 

Mas o sucesso de Joyce como exilado enfatiza a questão localizada em seu âmago: será o exílio tão extremo e privado que qualquer uso instrumental dele é, em última análise, uma trivialização? De que modo a literatura do exílio assumiu seu lugar como um topos da experiência humana, ao lado da aventura, da educação ou da descoberta? Trata-se do mesmo exílio que mata literalmente Yanko Goorall e engendra a relação custosa e amiúde desumanizadora entre o exilado do século XX e o nacionalismo? Ou se trata de alguma variedade mais benigna? 

Grande parte do interesse contemporâneo pelo exílio pode ser remontado à noção um tanto descorada de que os não-exilados podem partilhar dos benefícios do exílio como um motivo redentor. Há, de fato, certa plausibilidade e verdade nessa idéia. Tal como estudiosos medievais itinerantes ou escravos gregos cultos no Império romano, os exilados — os excepcionais entre eles — de fato fermentam seus ambientes. E é natural que "nós" concentremos nossa atenção nesse aspecto iluminador da presença"deles" entre nós, não no infortúnio ou em suas necessidades. Mas, vistos com a indiferença que caracteriza o ponto de vista político dos deslocamentos maciços da atualidade, os exilados individuais nos forçam a reconhecer o destino trágico da falta de lar num mundo necessariamente implacável. 

Uma geração atrás, Simone Weil expôs o dilema do exilado do modo mais conciso possível: "Ter raízes é talvez a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana". Mas Weil também considerava que a maioria dos remédios para o desenraizamento nessa época de guerras mundiais, deportações e extermínios em massa são quase tão perigosos quanto o que eles supostamente remedeiam. Deles, o Estado—ou mais precisamente, o estatismo—é um dos mais insidiosos, pois a adoração do Estado tende a suplantar todos os outros laços humanos. 

Weil nos expõe novamente àquele complexo de pressões e restrições que está no centro da condição de exilado e que, como sugeri, é o que temos de mais [p. 56] próximo da tragédia na era moderna. Há o simples fato do isolamento e do deslocamento, que produz o tipo de masoquismo narcisista que resiste a todos os esforços de melhoramento, aculturação e comunidade. Nesse ponto extremo, o exilado pode fazer do exílio um fetiche, uma prática que o distancie de quaisquer conexões e compromissos. Viver como se tudo a sua volta fosse temporário e talvez trivial é cair na armadilha do cinismo petulante, bem como da falta lamuriosa de amor. É mais comum a pressão sobre o exilado para entrar—em partidos, movimentos nacionais ou no Estado. O exilado recebe a oferta de um novo conjunto de afiliações e estabelece novas lealdades. Mas há também uma perda—de perspectiva crítica, de reserva intelectual, de coragem moral. 

Deve-se também reconhecer que o nacionalismo defensivo dos exilados favorece amiúde a consciência de si mesmo tanto quanto as formas menos atraentes de auto-afirmação. Projetos de reconstrução, tais como montar uma nação a partir do exílio (como é o caso de judeus e palestinos no século XX), envolvem a construção de uma história nacional, o reavivamento de uma língua antiga, a fundação de instituições nacionais como bibliotecas e universidades. E, embora tudo isso às vezes promova um etnocentrismo estridente, também dá origem a investigações que inevitavelmente vão muito mais além de fatos simples e positivos como a"etnicidade". Há, por exemplo, a consciência de si mesmo de um indivíduo que tenta entender por que a história de palestinos e judeus apresenta certos padrões próprios; por que, apesar da opressão e da ameaça de extinção, um determinado ethos permanece vivo no exílio. 

Portanto, não falo do exílio como um privilégio, mas como uma alternativa às instituições de massa que dominam a vida moderna. No fim das contas, o exílio não é uma questão de escolha: nascemos nele, ou ele nos acontece. Mas, desde que o exilado se recuse a ficar sentado à margem, afagando uma ferida, há coisas a aprender: ele deve cultivar uma subjetividade escrupulosa (não complacente ou intratável). 

O exemplo mais rigoroso de tal subjetividade talvez se encontre nos escritos de Theodor Adorno, o filósofo e crítico judeu alemão. Sua obra-prima, Mínima Moralia, é uma autobiografia escrita no exílio; seu subtítulo é Reflexionen aus dem beschädigten Leben (Reflexões de uma vida mutilada). Adorno era um opositor implacável do que chamou de mundo "administrado"; para ele, a vida era comprimida em formas prontas, "lares" pré-fabricados. Sustentava que tudo o que [p. 57] dizemos ou pensamos, assim como todos os objetos que possuímos, são, em última análise, uma mera mercadoria. A linguagem é jargão, os objetos são para venda. Recusar esse estado de coisas é a missão intelectual do exilado. 

As reflexões de Adorno são animadas pela crença de que o único lar realmente disponível agora, embora frágil e vulnerável, está na escrita. Fora disso, 

a casa é passado. O bombardeio das cidades européias, bem como os campos de trabalho e de concentração, é apenas antecedente do que o desenvolvimento imanente da tecnologia decidiu há muito tempo que seria o destino das casas. Elas agora servem apenas para serem jogadas fora, como latas velhas. 

Adorno diz, com grave ironia, que "faz parte da moralidade não se sentir em casa na própria casa". 

Seguir Adorno é ficar longe de "casa", a fim de olhá-la com o distanciamento do exílio, pois há mérito considerável em observar as discrepâncias entre os vários conceitos e idéias e o que eles produzem de fato. Damos como certas a pátria e a língua, elas se tornam natureza, e seus pressupostos subjacentes retrocedem para o dogma e a ortodoxia. 

O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pátrias são sempre provisórias. Fronteiras e barreiras, que nos fecham na segurança de um território familiar, também podem se tornar prisões e são, com freqüência, defendidas para além da razão ou da necessidade. O exilado atravessa fronteiras, rompe barreiras do pensamento e da experiência. 

Hugo de Saint Victor, um monge da Saxônia que viveu no século XII, escreveu estas linhas assustadoramente belas: 

Portanto, é fonte de grande virtude para a mente exercitada aprender, pouco a pouco, primeiro a mudar em relação às coisas invisíveis e transitórias, de tal modo que depois ela possa deixá-las para trás completamente. O homem que acha doce seu torrão natal ainda é um iniciante fraco; aquele para quem todo solo é sua terra natal já é forte; mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é uma terra estrangeira. A alma frágil fixou seu amor em um ponto do mundo; o homem forte estendeu seu amor para todos os lugares; o homem perfeito extinguiu isso. [p. 58] 

Erich Auerbach, o grande estudioso do século XX da literatura, que passou os anos da guerra exilado na Turquia, citou esse trecho como um modelo para quem queira transcender os limites nacionais ou provinciais. Somente ao adotar essa postura o historiador pode começar a captar a experiência humana e seus registros escritos em sua diversidade e particularidade; de outro modo, permanecerá mais comprometido com as exclusões e reações de preconceito do que com a liberdade que acompanha o conhecimento. Mas observe-se que Hugo deixa claro que o homem "forte" ou "perfeito" alcança independência e desapego trabalhando mediante apegos, não com a rejeição deles. O exílio baseia-se na existência do amor pela terra natal e nos laços que nos ligam a ela—o que é verdade para todo exílio não é a perda da pátria e do amor à pátria, mas que a perda é inerente à própria existência de ambos. 

Consideremos as experiências como se elas estivessem prestes a desaparecer. O que as prende na realidade? O que salvaríamos delas? Do que desistiríamos? Somente alguém que atingiu independência e desapego, alguém cuja terra natal é"doce", mas cujas circunstâncias tornam impossível recapturar essa doçura, pode responder a essas perguntas. (Essa pessoa também descobriria que é impossível obter satisfação de arremedos fornecidos pela ilusão ou pelo dogma.) Isso pode parecer uma receita para a obtenção de um panorama uniformemente tenebroso e, concomitantemente, uma desaprovação permanentemente sombria de toda possibilidade de entusiasmo ou de leveza de espírito. Não necessariamente. Embora talvez pareça estranho falar dos prazeres do exílio, há certas coisas positivas para se dizer sobre algumas de suas condições. Ver “o mundo inteiro como uma terra estrangeira” possibilita a originalidade da visão. A maioria das pessoas tem consciência de uma cultura, um cenário, um país; os exilados têm consciência de pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade de visão dá origem a uma consciência de dimensões simultâneas, uma consciência que para tomar emprestada uma palavra da música —é contrapontística. 

Para o exilado, os hábitos de vida, expressão ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memória dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes são vívidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto. Há um prazer específico nesse tipo de apreensão, em especial se o exilado está consciente de outras justaposições contrapontísticas que reduzem o julgamento ortodoxo e elevam a simpatia compreensiva. Temos [p. 59] também um sentimento particular de realização ao agir como se estivéssemos em casa em qualquer lugar. 

Contudo, isso apresenta seus riscos: o hábito da dissimulação é cansativo e desgastante. O exílio jamais se configura como o estado de estar satisfeito, plácido ou seguro. Nas palavras de Wallace Stevens, o exílio é "uma mente de inverno" em que o páthos do verão e do outono, assim como o potencial da primavera, estão por perto, mas são inatingíveis. Talvez essa seja uma outra maneira de dizer que a vida do exilado anda segundo um calendário diferente e é menos sazonal e estabelecida do que a vida em casa. O exílio é a vida levada fora da ordem habitual. É nômade, descentrada, contrapontística, mas, assim que nos acostumamos a ela, sua força desestabilizadora entra em erupção novamente.

16 de agosto de 1983

A interpretação de Trotsky sobre o stalinismo

A interpretação de Trotsky acerca do significado histórico do estalinismo, até hoje a teoria mais coerente e desenvolvida sobre o fenômeno dentro da tradição marxista, foi construída ao longo de vinte anos de luta política prática contra isso. Seu pensamento, portanto, evoluiu através da tensão com os principais conflitos e eventos desses anos, e pode ser convenientemente periodizado em três fases essenciais.

Perry Anderson



Tradução / Os primeiros escritos de Trotski sobre o assunto datam da luta interpartidária que eclodiu no PCUS após a Guerra Civil. Eles não nomeiam o estalinismo como tal. O foco é o que a tradição do partido chamou de “burocratismo”. O Novo Curso (1923) é o texto chave desse período. Nele, Trotski assumiu os dois principais termos que foram as explicações de Lênin sobre esse fenômeno antes de sua morte. O burocratismo, Lênin argumenta, estava enraizado na falta de cultura das massas russas, rurais ou urbanas, que as privou das aptidões necessárias para a administração competente do pós-guerra, e no caráter de subsistência e limitado comércio da economia agrária, cuja imensa dispersão dos produtores primários tornava inevitável uma demasiada centralização do aparelho estatal na Rússia. Trotski adicionou uma terceira causa: a inevitável contradição entre os interesses imediatos e de longo prazo da classe trabalhadora em meio à grande escassez e às extremas exigências da reconstrução do pós-guerra. Mais significativamente, entretanto, ele insistiu que o burocratismo não era “apenas o agregado dos maus hábitos dos titulares de cargos”, mas representava “um fenômeno social, um sistema definitivo de administração de homens e coisas” [1]. O principal locus desse fenômeno era o aparelho estatal, mas o último – ao absorver “uma enorme quantidade de elementos partidários mais ativos” [2] – estava infectando o próprio Partido Bolchevique. A expressão dessa contaminação era o crescente domínio do aparelho central dentro do partido, operando através de um sistema de nomeações, reprimindo o debate democrático, e separando a Velha Guarda das bases e da geração mais nova. Esse desenvolvimento representou o perigo de uma “degeneração burocrática” [3] da própria Velha Guarda. O burocratismo foi, portanto – e aqui Trotski claramente foi além da análise de Lênin – “não uma sobrevivência de algum regime precedente, uma sobrevivência em processo de desaparecimento; pelo contrário, é um fenômeno essencialmente novo, decorrente das novas tarefas, das novas funções, das novas dificuldades e dos novos erros do partido” [4].

A derrota da oposição de esquerda

O Novo Curso alertou para os perigos do burocratismo antes da vitória do grupo de Stálin dentro do PCUS. Após a consumação dessa vitória, os escritos de oposição de Trotski na década de 1920 tentaram fornecer uma melhor explicação desse fenômeno. A Terceira Internacional Depois de Lênin (1928, às vezes intitulado Stálin, o Grande Organizador de Derrotas) é provavelmente o texto mais importante da fase intermediária de seu pensamento. Nele, Trotski atribui a derrota da Oposição de Esquerda na Rússia, que selou o triunfo de um regime burocrático interno, à desaceleração da luta de classes internacional, acima de tudo aos desastres a que levaram a Revolução Alemã de 1923 e a Revolução Chinesa em 1927, respectivamente nos lados Ocidental e Oriental da URSS. A mudança no equilíbrio mundial das forças de classe em benefício do capital foi inevitavelmente traduzida em um aumento das pressões sociais externas ao Partido Bolchevique, na Rússia. Estes foram, por sua vez, compostos pelo fracasso da fração de Stálin em alcançar a rápida industrialização na URSS, o que teria contrabalanceado o peso do proletariado soviético. Depois que os efeitos do Primeiro Plano Quinquenal tornaram-se visíveis, Trotski modificou essa alegação para argumentar que a nova “aristocracia operária” criada pelo stakhanovismo, acima da massa da classe trabalhadora, funcionava objetivamente como um ponto de apoio do regime burocrático dentro do partido. A fração de Stálin, que obteve sua vitória através do slogan social-patriótico do socialismo em um só país, Trotski ainda caracterizou, nesse momento, como uma ala de centro e como a criatura do aparato permanente do PCUS, posicionado entre a direita do Partido (Bukharin-Rykov-Tomsky) e a ala esquerda.

Em sua autobiografia Minha Vida (1929), Trotski esboçou o que viu como mecanismos social-psicológicos que converteram muitos revolucionários de 1917 em funcionários desse regime – “a libertação do filisteu que vivia dentro do bolchevique”-. Conforme o impulso das massas insurgentes declinou após a Guerra Civil, a fadiga e a apatia se estabeleceram, criando um período de “reação social” generalizada na URSS.

Em ensaios subsequentes, sobre a condução da industrialização de Stálin, Trotski estendeu a noção de um “centro” fracional para a categoria de centrismoestalinista, de maior alcance, argumentando que, embora o centrismo fosse um fenômeno inerentemente instável nos países capitalistas – uma postura a meio caminho entre reforma e revolução no movimento operário, refletindo mudanças da esquerda à direita ou vice-versa nas pressões de massas –, ele poderia adquirir, na URSS, uma base material durável na burocracia do novo Estado proletário. Os abruptos ziguezagues das políticas de Stálin no país e no exterior, do apaziguamento à guerra total contra os kulaks, da conciliação de classe ao ultra-esquerdismo na Terceira Internacional, eram a expressão lógica desse caráter centrista de seu regime, sujeito às complexas e contraditórias pressões de classe sobre ele. A arena decisiva dessas pressões, no entanto, era internacional, não nacional.

As quatro teses fundamentais

A interpretação de Trotski acerca do estalinismo, até então fragmentada e experimental em muitos aspectos, tornou-se sistemática e conclusiva de 1933 em diante. O motivo, é claro, foi o triunfo do nazismo na Alemanha, que convenceu Trotski de que a Comintern – para cuja retificação de linha ele tinha lutado até o último momento – era agora irrecuperável, e com isso o próprio PCUS estalinizado. A decisão de fundar uma nova Internacional foi, portanto, um impulso imediato para o seu engajamento frontal com o problema da natureza do estalinismo, que, pela primeira vez, tornou-se então o objeto direto de uma extensa interpretação teórica em si mesmo, em vez de um problema tratado no decorrer de textos que discutem muitas outras questões, como foi feito anteriormente.

O ensaio crucial, que fornece quase todos os principais temas do pensamento maduro de Trotski sobre o estalinismo, foi escrito alguns meses após a tomada de poder de Hitler: A Natureza de Classe do Estado Soviético (1933). Nele, Trotski estabeleceu as quatro teses fundamentais que viriam a ser a base de sua posição até a sua morte. Em primeiro lugar, foi necessário distinguir o papel do estalinismo na União Soviética e no exterior. Dentro da URSS, a burocracia estalinista desempenhava um papel contraditório, defendendo-se simultaneamente da classe trabalhadora soviética, da qual usurpou o poder, e da burguesia mundial, que buscou acabar com todos os ganhos da Revolução de Outubro e restaurar o capitalismo na Rússia. Nesse sentido, continuou a atuar como uma força “centrista”. Fora da URSS, em contraste, a Comintern estalinizada deixou de desempenhar qualquer papel anti-capitalista, como já havia provado irrevogavelmente o seu desastre na Alemanha. Consequentemente, “o aparato estalinista poderia desperdiçar completamente o seu significado como uma força revolucionária internacional, e ainda preservar parte do seu significado progressivo como portador das conquistas sociais da revolução proletária” [5]. Logo em seguida, Trotski argumentaria que a Comintern desempenhou um papel ativamente contrarrevolucionário na política mundial, tramando junto ao capital e algemando os trabalhadores no interesse de proteger o monopólio estalinista do poder na própria Rússia, que seria ameaçado pelo exemplo de qualquer revolução socialista vitoriosa, que criasse uma democracia proletária em outro lugar.

Em segundo lugar, dentro da URSS, o estalinismo representava o domínio de um estrato burocrático que emergira da classe trabalhadora e a parasitava, não uma nova classe. Esse estrato não ocupou um papel estrutural independente no processo de produção, mas derivava seus privilégios econômicos da confiscação do poder político dos produtores diretos, dentro da estrutura das relações de propriedade nacionalizadas. Em terceiro lugar, a administração sobre a qual o estalinismo presidiu permaneceu tipologicamente um Estado proletário, precisamente porque essas relações de propriedade – incorporando a expropriação dos expropriadores, alcançada em 1917 – persistiram. A identidade e legitimação da burocracia como uma “casta” política dependia da sua defesa. Com isso, Trotski descartou os dois relatos alternativos do estalinismo mais difundidos no movimento operário na década de 1930 (que emergiu dentro da própria Segunda Internacional, durante a Guerra Civil) – que representavam uma forma de “capitalismo de Estado” ou de “coletivismo burocrático”. A ditadura de ferro exercida pela polícia estalinista e pelo aparato administrativo sobre o proletariado soviético não era incompatível com a preservação da natureza proletária do próprio Estado – não mais do que as ditaduras absolutistas sobre a nobreza haviam sido incompatíveis com a preservação da natureza do Estado feudal, ou as ditaduras fascistas exercidas sobre a classe burguesa o foram com a preservação da natureza do Estado capitalista. A União Soviética era, de fato, um Estado proletário degenerado, mas uma ditadura do proletariado “pura” – compatível com sua definição ideal – nunca existiu na União Soviética em primeira instância.

Em quarto e último lugar, os marxistas devem adotar uma postura dupla em relação ao Estado soviético. Por um lado, agora não havia chance do regime estalinista se reformar ou ser reformado pacificamente dentro da URSS. Seu domínio só poderia ser encerrado por uma derrubada revolucionária vinda de baixo, destruindo todo o maquinário de privilégio e de repressão, enquanto deixasse intactas as relações de propriedade social sobre as quais ele presidia – mas agora dentro do contexto de uma democracia proletária. Por outro lado, o Estado soviético tinha que ser defendido externamente contra a constante ameaça de agressão ou ataque da burguesia mundial. Contra esse inimigo, a URSS – encarnando, como ela fazia, os ganhos anticapitalistas de Outubro – precisava da resoluta e incondicional solidariedade dos socialistas revolucionários em todos os lugares. “Toda tendência política que vira as costas sem esperanças para a União Soviética, sob pretexto de seu caráter ‘não-proletário’, corre o risco de se tornar um instrumento passivo do imperialismo” [6].

“A Revolução Traída”

Esses quatro pilares fundamentais da análise de Trotski sobre o estalinismo permaneceram estáveis até seu assassinato. Foi sobre eles que Trotski ergueu o principal edifício desse estudo da sociedade soviética sob Stálin: o livro intituladoPara onde vai a Rússia? (1936; equivocadamente traduzido para A Revolução Traída). Neste trabalho, Trotski apresenta um levantamento panorâmico das estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais da URSS em meados dos anos trinta, combinando uma ampla variedade de materiais empíricos com um fundamento teórico mais profundo para a sua análise sobre o estalinismo. Ele ancorou todo o fenômeno de uma burocracia proletária repressora na categoria de escassez (nuzhda), básica no materialismo histórico desde a formulação de Marx na Ideologia Alemã. “A base do governo burocrático é a pobreza da sociedade em objetos de consumo, com a luta resultante de todos contra todos. Quando há bens suficientes em uma loja, os compradores podem vir quando quiserem. Quando há poucos bens, os compradores são obrigados a ficar na fila. Quando as filas são muito longas, é necessário nomear um policial para manter a ordem. Tal é o ponto de partida do poder da burocracia soviética. Ela ‘sabe’ quem deve conseguir algo e quem tem que esperar.” [7] Enquanto prevalecesse a escassez, seria inevitável uma contradição entre as relações socializadas de produção e as normas burguesas de distribuição: era essa contradição que fatalmente produzia e reproduzia o poder restritivo da burocracia estalinista.

Trotski, então, prosseguiu à exploração de cada lado dessa contradição, avaliando e enfatizando a grandeza do desenvolvimento industrial soviético, por mais bárbaros que fossem os métodos que a burocracia empregasse para levá-lo adiante, ao mesmo tempo em que expunha meticulosamente a vasta gama de desigualdades econômicas, culturais e sociais geradas pelo estalinismo, e que fornecia estimativas estatísticas do tamanho e da distribuição do estrato burocrático na própria URSS (cerca de 12 a 15% da população). Essa burocracia traiu a revolução mundial, mesmo que ainda se sentisse subjetivamente leal a ela; mas manteve-se como um inimigo irreconciliável aos olhos da burguesia mundial, enquanto o capitalismo não fosse restaurado na Rússia. A dinâmica desse regime era igualmente contraditória: por um lado, o desenvolvimento promovido a um ritmo vertiginoso dentro da URSS aumentava rapidamente o potencial econômico e cultural da classe trabalhadora soviética e a sua capacidade de se levantar contra o regime; por outro lado, o seu próprio parasitismo tornou-se cada vez mais um impedimento para o progresso industrial adicional. Por mais espetaculares que fossem as realizações dos Planos Quinquenais, advertiu Trotski, eles ainda deixariam a produtividade social do trabalho muito atrás da do capitalismo ocidental, em uma lacuna que jamais seria fechada até que uma mudança para o crescimento qualitativo fosse alcançada, o que o desvio burocrático bloqueou com precisão.

“O papel progressivo da burocracia soviética coincide com o período da introdução na União Soviética dos elementos mais importantes da técnica capitalista. O trabalho duro, de empréstimo, imitação, transplante e enxerto, foi realizado nas bases estabelecidas pela revolução. Até o momento, não havia dúvida de qualquer nova palavra na esfera da técnica, da ciência ou da arte. É possível construir fábricas gigantescas de acordo com um padrão pronto por comando burocrático – embora, com certeza, pelo triplo do custo normal. No entanto, quanto mais longe se vá, mais a economia se depara com problemas de qualidade, que deslizam para fora das mãos da burocracia como uma sombra. Os produtos soviéticos são como se fossem marcados com o rótulo cinza da indiferença. Sob uma economia nacionalizada, a qualidade exige uma democracia de produtores e consumidores, liberdade de crítica e iniciativa.”. [8] A superioridade tecnológica ficaria com o imperialismo enquanto o estalinismo persistisse, e lhe asseguraria a vitória em qualquer guerra com a URSS – a menos que estourasse uma revolução no Ocidente. A tarefa dos socialistas soviéticos era realizar, antes que isso ocorresse, uma revolução política contra a burocracia , cuja relação com a revolução socioeconômica de 1917 seria como a mudança de poder em 1830 ou 1848 para o levante de 1789 na França, no ciclo das revoluções burguesas.

Nos dois últimos anos de sua vida, quando começou a Segunda Guerra Mundial, Trotski reiterou suas perspectivas básicas em uma série de polêmicas conclusivas com Rizzi, Burnham, Schachtman e outros defensores da noção de “coletivismo burocrático”. A classe trabalhadora não era, de forma alguma, congenitamente incapaz de estabelecer o seu próprio domínio soberano sobre a sociedade. A URSS – “o país mais transicional em uma época de transição” – situava-se entre capitalismo e socialismo, dominada por um feroz regime policial que ainda defendeu, à moda própria, a ditadura do proletariado. Todavia, a experiência soviética foi uma “refração excepcional” das leis gerais de transição do capitalismo para o socialismo, em um país atrasado cercado pelo imperialismo – não um modelo clássico. O papel contraditório do estalinismo nacionalmente e no exterior foi confirmado pelos episódios mais recentes da política internacional – a sua sabotagem contrarrevolucionária da Revolução Espanhola (para além do seu controle) contrastava com a abolição revolucionária da propriedade privada nas regiões fronteiriças da Polônia e da Finlândia incorporada na URSS. O dever dos marxistas em defender a União Soviética contra o ataque capitalista permaneceu importante. A desilusão e a fadiga não eram desculpas para renunciar às perspectivas clássicas do materialismo histórico. “Vinte e cinco anos nas escalas da história, quando se trata de mudanças profundas nos sistemas econômicos e culturais, pesam menos de uma hora na vida do homem. O quão bom é o indivíduo que, devido às falhas empíricas ao longo de uma hora ou de um dia, renuncia a um objetivo que ele estabeleceu para si próprio nas bases da experiência e da análise de toda a sua vida anterior?” [9]

Uma reavaliação: Quarenta anos depois

Outros quarenta anos depois, nós ainda estamos apenas a algumas horas daquela vida. Essas horas – que, subjetivamente, parecem tão longas – nos dão razões para questionar os julgamentos básicos de Trotski? Como devemos avaliar o legado de sua perspectiva geral sobre o estalinismo?

Pode-se dizer que os méritos da interpretação de Trotski têm três aspectos. Primeiramente, ela fornece uma teoria do fenômeno do estalinismo em uma longa temporalidade histórica, congruente com as categorias fundamentais do marxismo clássico. Em cada ponto de sua análise da natureza da burocracia soviética, Trotski procurou situá-la na lógica dos modos sucessivos de produção e nas transições entre estes, com o poder de classe e os regimes políticos correspondentes, que herdou de Marx, Engels ou Lênin. Daí a sua insistência de que a ótica adequada para definir a relação da burocracia com a classe trabalhadora partia das relações antecedentes e análogas entre absolutismo e aristocracia, fascismo e burguesia; assim como os precedentes relevantes para a sua derrubada futura seriam levantamentos políticos como os de 1830 ou 1848, em vez de um novo 1789. Como Trotski pôde pensar o desenvolvimento e a consolidação do estalinismo em um tal espectro histórico, ele evitou as explicações do jornalismo apressado e as teorizações improvisadas sobre novas classes ou modos de produção não ancorados no materialismo histórico, que marcou a reação de muitos de seus contemporâneos.

Em segundo lugar, a riqueza sociológica e a penetração de sua pesquisa sobre a URSS sob Stálin não tinham igual na literatura da esquerda sobre o assunto. Para onde vai a Rússia? permanece como uma obra-prima de destaque até hoje. Por outro lado, as coletâneas de artigos de Schachtman ou Kautsky, os livros de Burnham ou Rizzi ou Cliff, parecem surpreendentemente superficiais e datados. Os maiores avanços na análise empírica detalhada da URSS desde o tempo de Trotski vieram, em grande medida, de profissionais acadêmicos que se dedicaram aos estudos sovietólogos após a Segunda Guerra Mundial: Nove, Rigby, Carr, Davies, Hough, Lane e outros. Suas descobertas desenvolveram as análises de Trotski, ao invés de contradizê-las, nos proporcionando um conhecimento muito mais amplo das estruturas internas da economia e da burocracia soviéticas. Eram, no entanto, destituídos de uma teoria integrada como a legada por Trotski. O maior trabalho histórico sobre o destino da Revolução são os escritos de Isaac Deutscher, compostos em profunda continuidade com esse legado.

Em terceiro lugar, a interpretação de Trotski do estalinismo foi notável por seu balanço político – a sua recusa de adulação ou cominação, para uma estimativa sóbria da natureza contraditória e dinâmica do regime burocrático na URSS. No tempo de Trotski, a primeira atitude era a incomum na esquerda, em meio ao entusiasmo intoxicado não só dos partidos comunistas, mas de tantos outros observadores da ordem estalinista na Rússia. Hoje, é a segunda atitude que é mais incomum, em meio à denunciação apoplética da experiência soviética, não só por vários observadores na esquerda, mas até dentro de certos Partidos comunistas. Há pouca dúvida de que foi a firme insistência de Trotski – tão fora de moda nos anos posteriores, até mesmo entre muitos dos seus próprios seguidores – de que a URSS era, em última instância, um Estado proletário e a chave para esse equilíbrio. Aqueles que rejeitaram essa classificação em prol das noções de “capitalismo de Estado” ou “coletivismo burocrático” invariavelmente se depararam com a dificuldade de definir uma atitude política em relação à entidade que categorizaram. Uma coisa evidente sobre o “capitalismo de Estado” ou o “coletivismo burocrático” na Rússia era que não havia nenhum vestígio das liberdades democráticas que se encontravam no “capitalismo privado” do Ocidente. Não deveriam, portanto, os socialistas apoiarem este último em um conflito entre ambos, dado que se tratava do mal menor – por não ser “totalitário”? Em outras palavras, a lógica dessas interpretações sempre tendeu, em última instância (embora com poucas exceções, menos consistentes), em deslocar seus adeptos para a direita. Kautsky – pai tanto do “capitalismo de Estado”, quanto do “coletivismo burocrático”, no início dos anos 1920 – é emblemático dessa trajetória; e Schachtman terminou sua carreira aplaudindo a guerra dos EUA no Vietnã na década de 1960. A solidez e a disciplina contrastantes da interpretação de Trotski acerca do estalinismo obtiveram um alívio retrospectivo diante das tentativas que se seguiram de repensar o estalinismo.

As limitações da análise de Trotski

Ao mesmo tempo, como todos os julgamentos históricos, a teoria de Trotski do estalinismo revelou certos limites após sua morte. Quais são estes? Paradoxalmente, eles dizem respeito menos ao balanço “interno” do estalinismo do que a sua trajetória “externa”. Internamente, o diagnóstico de Trotski sobre o motor e o freio do desenvolvimento econômico da Rússia, desde que persistissem as normas burocráticas, provou-se extraordinariamente preciso. Nas quatro décadas posteriores à sua morte, um enorme progresso material foi registrado na União Soviética, mas a produtividade do trabalho se revelou cada vez mais como o calcanhar de Aquiles da economia, como Trotski havia previsto. Conforme chegou ao fim a época do crescimento extensivo, o planejamento autoritário e demasiado centralizado se mostrou cada vez mais incapaz de efetuar uma transição para um crescimento qualitativo e intensivo: uma desaceleração que ameaçava uma crise entrópica para o regime, se não fosse resolvida. A durabilidade da burocracia, que sobreviveu até bem depois de Stálin, tem sido maior, é claro, do que Trotski imaginava em alguns de seus escritos conjunturais, embora não se trate de uma “longevidade” real em termos de tempo histórico, do qual ele falou no final de sua vida.

Parte do motivo dessa persistência foi, provavelmente, a promoção social de setores da classe trabalhadora soviética através dos canais do próprio regime burocrático – o recrutamento de quadros proletários, que frequentemente tem sido enfatizado pelos acadêmicos subsequentes (Nove, Rigby, etc.) Outra parte, é claro, encontrava-se presente na atomização política e no atordoamento cultural da classe trabalhadora amplamente alargada que emergiu durante a década de 1930 – a sua falta de qualquer memória pré-estalinista, que Trotski subestimou. Mas de um modo geral, o retrato da sociedade russa que ele desenhou há aproximadamente meio século permanece preciso e atual.

No exterior, entretanto, o diagnóstico do estalinismo de Trotski se mostrou mais falível. Há dois motivos para essa discrepância em seus prognósticos. Em primeiro lugar, ele cometeu um erro ao qualificar o papel externo da burocracia soviética como simples e unilateralmente “contrarrevolucionário” – quando o seu papel se mostrou ser, de fato, profundamente contraditório em suas ações e efeitos no exterior tanto quanto o era em território nacional. Em segundo lugar, Trotski estava equivocado ao pensar que o estalinismo representava meramente uma refração “excepcional” ou “aberrante” das leis gerais de transição do capitalismo para o socialismo, que seria confinada à própria Rússia. As estruturas do poder burocrático e a mobilização pioneira sob Stálin provaram ser um fenômeno mais dinâmico e mais geral no plano internacional do que Trotski jamais imaginou. Ele terminou sua vida prevendo que a URSS seria derrotada em uma guerra contra o imperialismo, a menos que a revolução estourasse no Ocidente. Na verdade, apesar de todos os erros criminosos de Stálin, o Exército Vermelho repeliu a Wehrmacht e marchou vitoriosamente para Berlim sem o auxílio de uma Revolução Ocidental. O fascismo europeu foi essencialmente destruído pela União Soviética (242 divisões alemãs desdobradas na Frente Oriental a apenas 22 na primeira Frente Ocidental na Itália). O capitalismo foi abolido em mais da metade do continente, por um impulso burocrático vindo de cima – as operações polonesas e finlandesas se estenderam ao Elba. Posteriormente, o comando das massas na tomada do poder. Os Estados assim criados viriam a ser manifestamente cognatos (não idênticos, mas afins) com a URSS em seu sistema político básico. O estalinismo, em outras palavras, se mostrou ser não somente um aparelho, mas um movimento – capaz não só de manter o poder em um ambiente atrasado dominado pela escassez (URSS), mas de realmente conquistá-lo em ambientes ainda mais atrasados e pobres (China e Vietnã) – de expropriar a burguesia e iniciar o lento trabalho da construção socialista, mesmo contra a vontade do próprio Stálin. Com isso, uma das equações da interpretação de Trotski, sem dúvidas, caiu. O estalinismo, como um fenômeno amplo – isto é, um Estado proletário governado por um estrato burocrático autoritário –, não representava meramente uma degeneração de um Estado anterior de (relativo) privilégio de classe, também poderia ser uma geraçãoespontânea, produzida por forças de classe revolucionárias em muitas sociedades atrasadas, sem qualquer tradição de democracia burguesa ou proletária. Essa possibilidade – cuja realização foi a transformação do mapa mundial após 1945 – nunca foi levantada por Trotski.

O estalinismo hoje

Nesses dois aspectos críticos, portanto, a interpretação de Trotski do estalinismo encontrou seus limites. No entanto, eles permaneceram em consonância com a sua ênfase temática central: a natureza contraditória do estalinismo, hostil, ao mesmo tempo, à propriedade capitalista e à liberdade proletária. Seu erro foi, ironicamente, apenas ter pensado que essa contradição poderia confinar-se à própria URSS, enquanto o estalinismo em um só país provou ser uma contradição nos próprios termos. Ao apontarmos aqui os caminhos pelos quais o estalinismo continuou a atuar como um “fator revolucionário internacional”, não deveria ser necessário recordar, ao mesmo tempo, as formas em que também continuou a atuar como um fator reacionário internacional. Todo ganho imprevisível teve um preço incalculável. A multiplicação de Estados proletários burocratizados, cada um com o seu próprio egoísmo nacional sagrado, conduziu inexoravelmente a conflitos econômicos, políticos e agora até mesmo armados entre eles. A proteção militar da URSS, que pode se estender às revoluções socialistas ou às forças nacionais de libertação no Terceiro Mundo, também aumenta objetivamente os perigos da guerra nuclear global. A abolição do capitalismo na Europa Oriental desencadeou as fúrias do nacionalismo contra a Rússia, que, por sua vez, respondeu às aspirações populares da região com a série mais puramente reacionária de intervenções externas, repressoras e regressivas, da burocracia soviética em todo o mundo. A Checoslováquia e a Polônia são apenas os últimos exemplos.

Acima de tudo, porém, enquanto o modelo básico estalinista de uma transição para além do capitalismo possa ter se propagado com sucesso através das zonas atrasadas da Eurásia, a sua grande extensão geográfica e prolongamento temporal – completa com a repetição da demência da Yezhovschina (“Processos de Moscou”) na “Revolução Cultural”, e o “Kampuchea Democrático” – tem prejudicado profundamente a própria ideia do socialismo no Ocidente avançado, principalmente com a sua absoluta negação da democracia proletária, inibindo a classe trabalhadora de derrubar o capitalismo dentro das estruturas da democracia burguesa, fortalecendo decisivamente os bastiões do imperialismo do final do século XX. Rien ne se perd, alas (“Nada está perdido, infelizmente.”).Nós ainda temos que resolver as contas com a ameaça permanente do “campo socialista”, que agiu como o acelerador decisivo da descolonização burguesa na África e na Ásia na época do pós-guerra. Sem o Segundo Mundo das décadas de 1940 e 1950, não haveria o Terceiro Mundo na década de 1960. As duas principais formas de progresso histórico registradas dentro do capitalismomundial nos últimos cinquenta anos – a derrota do fascismo e o fim do colonialismo – têm sido diretamente dependentes da presença e performance da URSS nas políticas internacionais. Nesse sentido, pode-se argumentar que, paradoxalmente, as classes exploradas fora da União Soviética podem ter se beneficiado mais diretamente de sua existência do que a classe trabalhadora dentro da União Soviética. Assim, em uma escala histórica mundial, os custos decisivos do estalinismo foram internos, e os ganhos, externos.

Todavia, esses efeitos foram, obviamente, processos largamente objetivos e involuntários, em vez de produtos de intenções conscientes da burocracia soviética (mesmo a destruição do fascismo, que, certamente, não constou como parte dos planos de Stálin em 1940). Tais efeitos testemunham, não obstante, a lógica contraditória de um “Estado proletário degenerado” – colossalmente distorcido, mesmo que ainda persistentemente anticapitalista –, que Trotski erroneamente suspendeu na fronteira soviética.

No final da década de 60, a URSS até chegou a alcançar algo semelhante a uma parceria estratégica com o imperialismo, o que Trotski achou impossível sob o domínio burocrático. Com isso, a URSS provou ser capaz de ampliar a vital ajuda econômica e militar às revoluções socialistas e aos movimentos de libertação nacional no exterior – assegurando a sobrevivência da Revolução Cubana, permitindo a vitória da Revolução Vietnamita e garantindo a existência da Revolução Angolana. Tais ações, inteiramente conscientes e deliberadas – em contraste diametral com as opções de Stálin em Espanha, Iugoslávia ou Grécia –, foram precisamente as que Trotski descartara para a União Soviética quando a considerou como uma inequívoca e omnipresente força contrarrevolucionária além de suas próprias fronteiras.

O segundo equívoco da interpretação de Trotski foi mais radical. Para ele, o estalinismo era essencialmente um aparato burocrático, erguido acima de uma decadente classe trabalhadora, em nome do mito “nacional-reformista” do socialismo em um só país. Trotski julgou os partidos estrangeiros da Comintern, após 1933, como simplesmente instrumentos subordinados ao PCUS, incapazes de fazer uma revolução socialista em seus respectivos países, pois realizá-la significaria agir contra as diretrizes de Stálin. O máximo que ele concedia era que – em casos absolutamente excepcionais – as massas insurgentes, contra a vontade de tais partidos, poderiam obrigá-los a tomar o poder. Ao mesmo tempo, Trotski olhou para frente, sobretudo para o Ocidente industrializado, como a arena do futuro sucesso socialista, inspirado pelos partidos antiestalinistas no despertar da Segunda Guerra Mundial. De fato, como sabemos, a história seguiu outro caminho. A revolução espalhou-se, mas para as regiões atrasadas da Ásia e dos Balcãs. Ademais, essas revoluções foram uniformemente organizadas e lideradas pelos partidos comunistas locais que professavam lealdade a Stálin – chineses, vietnamitas, iugoslavos, albaneses –, e modeladas, em suas estruturas internas, pelo PCUS. Longe de serem movidos passivamente pelas massas de seus respectivos países, esses partidos mobilizaram ativa e verticalmente uma imensa meada de consequências e conexões internacionais, progressivas e regressivas, revolucionárias e contrarrevolucionárias, que se seguiram ao destino que sucedeu a Revolução de Outubro, que originou o fenômeno que ainda hoje nós chamamos de estalinismo.

Notas

[1] O Novo Curso, Ann Arbour, 1965, p. 45.

[2] Ibid, p. 45.

[3] Ibid, p. 22.

[4] Ibid, p. 24.

[5] A Natureza de Classe do Estado Soviético, Londres, 1968, p. 4.

[6] Ibid, p. 32.

[7] A Revolução Traída, Nova Iorque, 1945, p. 112.

[8] Ibid, p. 276.

[9] Em Defesa do Marxismo, Nova Iorque 1965, p.

Texto de uma comunicação apresentada em Paris, em 1982.

1 de março de 1983

"Nossa própria marca de socialismo"

Gabriel García Márquez


I/138 • Mar/Apr 1983

Tradução / É possível rever como suas ideias políticas se desenvolveram? Seu pai era conservador. A Colômbia passou por um século de guerra civil intermitente após sua independência da Espanha em 1819. Dois partidos políticos consolidaram-se na década de 1840: os Conservadores cuja filosofia tradicionalista se baseava na família, igreja e Estado; e os Liberais que eram livres-pensadores, anticlericais e liberais econômicos. A mais sangrenta das guerras entre estes dois partidos foi a “Guerra dos Mil Dias” (1899 – 1902), que deixou o país falido e devastado. Na Colômbia dizem que ser Conservador ou Liberal depende do que seu pai é, mas o seu obviamente não influenciou em nada na política porque você optou pela esquerda muito cedo. Esta postura política foi uma reação contra sua família?

Não contra a minha família em si, porque é preciso lembrar que, embora meu pai fosse um conservador, o meu avô era um liberal. Minhas ideias políticas provavelmente vieram dele para começar, porque, em vez de me contar contos de fadas quando eu era jovem, ele me contava histórias horríveis da última guerra civil que os pensadores livres e anticlericais travaram contra o governo conservador. Meu avô também me contou sobre o massacre dos trabalhadores da banana que ocorreu em Aracataca no ano em que nasci. Então você vê que minha família me influenciou mais para a rebelião do que para a manutenção da ordem estabelecida.

Você se lembra onde e quando leu seus primeiros textos políticos?

Na minha escola secundária em Zipaquirá. Estava cheia de professores que haviam sido ensinados por um marxista no Teachers Training College sob o governo de esquerda do Presidente Alfonso López nos anos 1930. O professor de álgebra nos dava aulas de materialismo histórico durante o intervalo, o professor de química nos emprestava livros de Lênin e o professor de história nos falava sobre a luta de classes. Quando saí daquela fria prisão, eu não tinha a menor ideia de onde estavam o norte e o sul, mas eu tinha duas convicções muito fortes. Uma era que os bons romances devem ser uma transposição poética da realidade, e a outra era que o futuro imediato da humanidade estava no socialismo.

Você já foi membro do partido comunista?

Pertenci a uma cela por pouco tempo quando eu tinha 20 anos, mas não me lembro de ter feito nada de interessante. Eu era mais um simpatizante do que um verdadeiro militante. Desde então, meu relacionamento com os comunistas têm muitos altos e baixos. Estamos muitas vezes em lados opostos porque cada vez que adoto uma postura que eles não gostam, os jornais deles realmente me atacam. Mas eu nunca os condenei publicamente, mesmo nos piores momentos.

Nós viajamos juntos pela Alemanha Oriental em 1957 e, apesar de termos depositado nossas esperanças no socialismo, não gostamos do que vimos. Essa viagem alterou sua convicção política?

Isso afetou minhas ideias políticas de forma bastante decisiva. Se você pensar bem, registro minhas impressões sobre essa viagem em uma série de artigos para uma revista de Bogotá. Os artigos foram copiados e publicados cerca de vinte anos depois – não, imagino, por qualquer interesse jornalístico ou político, mas para mostrar as supostas contradições em meu desenvolvimento político pessoal.

Havia alguma contradição?

Não, não havia. Tornei a obra oficial e a incluí nos volumes de minhas obras completas vendidas em edições populares em todas as esquinas da Colômbia. Eu não mudei uma única palavra. Além disso, acho que uma explicação das origens da atual crise polonesa pode ser encontrada naqueles artigos que os dogmáticos da época disseram haverem sido pagos pelos Estados Unidos. O engraçado é que esses dogmáticos de hoje, 24 anos mais tarde, estão presentes nas confortáveis poltronas do establishment político e econômico burguês, enquanto a história está me dando razão.

E o que você achou das assim chamadas "Democracias dos Povos"?

A premissa central desses artigos é que as Democracias dos Povos não eram autenticamente socialistas nem jamais o seriam se seguissem o caminho em que estavam, pois o sistema não reconhecia as condições específicas prevalecentes em cada país. Era um sistema imposto de fora pela União Soviética através de partidos comunistas locais dogmáticos e sem imaginação, cujo único pensamento era impor o modelo soviético em uma sociedade onde ele não se encaixava.

Passemos para outra de nossas experiências compartilhadas - nossos dias na Prensa Latina, a agência de notícias cubana. Você e eu nos demitimos quando o antigo Partido Comunista Cubano começou a tomar conta de muitas das instituições da Revolução. Você acha que tomamos a decisão certa? Ou você acha que foi apenas um percalço em um longo processo que não conseguimos ver assim?

Penso que nossa decisão de deixar a Prensa Latina foi correta. Se tivéssemos ficado, com nossas opiniões, teríamos acabado sendo colocados para fora com uma dessas etiquetas em nossa testa – contrarrevolucionária, lacaio imperialista e assim por diante – que os fanáticos dogmáticos da época costumavam colar em você. O que eu fiz, se você se lembra, foi me afastar para as margens. Observei de perto e com atenção a evolução do processo cubano enquanto escrevia meus livros e filmagens no México. Minha opinião é que, embora a Revolução tenha tomado um rumo difícil e às vezes contraditório após as turbulências iniciais, ela ainda oferece a perspectiva de uma ordem social mais democrática, mais justa e mais adequada às nossas necessidades.

Você tem certeza? As mesmas causas não produzem os mesmos efeitos? Se Cuba adota o sistema soviético como modelo (Estado monopartidário, centralismo democrático, sindicatos controlados pelo governo, organizações de segurança exercendo um controle rigoroso sobre a população), a "ordem justa e democrática" não será tão difícil de ser alcançada lá quanto na União Soviética? Você não tem medo disso?

O problema com esta análise é seu ponto de partida. Você parte da premissa de que Cuba é um satélite soviético e eu não acredito que seja. Penso que a Revolução Cubana está em estado de emergência há 20 anos graças à hostilidade e incompreensão dos Estados Unidos, que não tolerarão um sistema alternativo de governo a 145 quilômetros da costa da Flórida. Isto não é culpa da União Soviética, sem cuja ajuda (quaisquer que sejam seus motivos e objetivos) a Revolução Cubana não existiria hoje. Embora a hostilidade persista, a situação em Cuba só pode ser julgada em termos de um estado de emergência que os obriga a agir defensivamente e fora de sua esfera natural de interesse histórico, geográfico e cultural. Quando a situação voltar ao normal, poderemos discuti-la novamente.

Fidel Castro apoiou a intervenção soviética na Tchecoslováquia em 1968 (com certas reservas, é verdade). Qual foi a sua posição?

Fiz um protesto público na ocasião e faria o mesmo novamente caso a mesma situação surgisse. A única diferença entre minha posição e a de Fidel Castro (não concordamos em tudo) é que ele acabou justificando a intervenção soviética e eu nunca o faria. Entretanto, a análise que ele fez em seu discurso sobre a situação interna das Democracias Populares foi muito mais crítica e contundente do que a que eu fiz nos artigos de que estávamos falando há pouco. Em todo caso, o futuro da América Latina não é e nunca será feito na Hungria, na Polônia ou na Tchecoslováquia, mas na própria América Latina. Pensar em qualquer outra coisa é uma obsessão europeia, e algumas de suas perguntas políticas também são uma bofetada dessa obsessão.

Nos anos 1970, após a famosa autocrítica do poeta cubano Heberto Padilla, Padilla foi detido pela polícia de segurança para discutir posturas políticas “suspeitas” em seu trabalho, e libertado um mês depois de confessar publicamente as tendências contrarrevolucionárias. Isto lançou uma enchente de críticas por parte de intelectuais europeus e latino-americanos. O acontecimento foi visto como um divisor de águas na relação entre escritores e a Revolução – seja como o surgimento do stalinismo latente, seja como uma prova de que o intelectual burguês traiu seu dever de estar ao lado de uma revolução sitiada. Alguns de seus amigos, inclusive eu mesmo, nos distanciamos do regime cubano.

Você não o fez. Você não assinou o telegrama de protesto que enviamos – você voltou para Cuba e se tornou amigo de Fidel. O que o levou a adotar uma atitude muito mais favorável em relação ao regime cubano?


Uma informação melhor sobre o que realmente aconteceu, e uma visão política madura que me permitiu ver a situação com mais calma, paciência e compreensão humana.

Muitos escritores na América Latina, além de você mesmo, falam do socialismo (marxista-leninista) como uma alternativa desejável. Você não acha que isto é um socialismo um tanto “antiquado”? O socialismo não é mais uma abstração generosa, mas uma realidade bastante pouco atraente. Você concorda que, depois do que aconteceu na Polônia, ninguém pode acreditar que a classe trabalhadora esteja no poder nesses países?

Você vê uma terceira opção para nosso continente entre o capitalismo decadente e o "socialismo decadente"?

Eu não acredito em uma terceira opção. Acredito que há muitas alternativas – talvez até tantas alternativas como há países em nossas Américas, incluindo os Estados Unidos. Estou convencido de que temos que encontrar nossas próprias soluções. Podemos nos beneficiar, sempre que possível, do que outros continentes alcançaram em suas longas histórias turbulentas, mas não devemos continuar copiando-as mecanicamente como temos feito até agora. É assim que podemos eventualmente alcançar nossa própria marca de socialismo.

Por falar em outras opções, como você vê a atuação do governo de Mitterrand na América Latina?

Em um almoço no México recentemente, o Presidente Mitterrand perguntou a um grupo de escritores: “O que você espera da França? A resposta deles provocou uma discussão que se desviou para quem era o principal inimigo de quem. Os europeus na mesa, convencidos de que estavam à beira de uma nova escultura do mundo ao estilo de Ialta, disseram os Estados Unidos era seu principal inimigo. Respondi à pergunta do Presidente (a mesma que você está perguntando agora) dizendo: “Como cada um de nós tem seu próprio Inimigo Número Um, o que precisamos na América Latina é de um Amigo Número Um”. A França socialista pode ser esse amigo”.

Você acredita que a democracia como ela existe nos países capitalistas desenvolvidos é possível no Terceiro Mundo?

A democracia no mundo desenvolvido é um produto de seu próprio desenvolvimento e não o contrário. Tentar implantá-la em seu estado bruto em países (como os da América Latina) com culturas bastante diferentes é tão mimético e irreal como tentar implantar o sistema soviético ali.

Então, você acha que a democracia é uma espécie de luxo para os países ricos? Lembre-se que a democracia carrega consigo a defesa dos direitos humanos pelos quais você lutou tanto...

Não estou falando de princípios democráticos, mas de formas democráticas.

A propósito, qual é o resultado de sua longa batalha pelos direitos humanos em termos de sucesso e fracasso?

É muito difícil de medir. Não há resultados precisos e imediatos com trabalhos como o meu no campo dos direitos humanos. Muitas vezes eles vêm quando menos se espera e devido a uma combinação de fatores onde é impossível avaliar o papel desempenhado por sua própria ação particular. Este trabalho é uma lição de humildade para um escritor famoso como eu, que está acostumado ao sucesso.

Qual de todas as ações que você praticou lhe deu a maior satisfação?

A ação que me deu maior satisfação pessoal imediata foi a que empreendi pouco antes da vitória sandinista na Nicarágua. Tomás Borge, que agora é Ministro do Interior, me pediu para pensar em uma boa maneira de pressionar Somoza para permitir que sua esposa e filha de 7 anos deixassem a Embaixada da Colômbia em Manágua, onde haviam pedido asilo. O ditador estava recusando a eles um salvo-conduto, porque eles eram a família de não menos uma pessoa do que o último membro fundador sobrevivente da Frente Sandinista.

Tomás Borge e eu entregamos o problema por várias horas até que chegamos a um ponto útil: a menina tivera uma vez uma infecção renal. Perguntamos a um médico como suas condições atuais afetariam isso, e sua resposta nos deu o argumento que procurávamos. Menos de 48 horas depois, mãe e filha estavam no México, graças a um salvo-conduto concedido por razões humanitárias, não políticas.

Meu caso mais desanimador, por outro lado, foi quando ajudei a libertar dois banqueiros ingleses que haviam sido sequestrados pela guerrilha em El Salvador em 1979. Seus nomes eram Ian Massie e Michael Chaterton, e eles iriam ser executados dentro de 48 horas porque nenhum acordo havia sido alcançado entre as duas partes.

O General Omar Torrijos me telefonou em nome das famílias dos homens sequestrados e me pediu que ajudasse a salvá-los. Transmiti a mensagem para os guerrilheiros através de inúmeros intermediários e ela chegou a tempo. Prometi que as negociações do resgate seriam retomadas imediatamente, e eles concordaram. Depois pedi a Graham Greene, que mora em Antibes, que fizesse os contatos do lado inglês.

As negociações entre a guerrilha e o banco duraram 4 meses. Tinha sido acordado que nem Graham Greene, nem eu participaríamos das negociações propriamente ditas, mas, sempre que houvesse um contratempo, um ou outro lado entraria em contato comigo para tentar retomar as negociações.

Os banqueiros foram libertos, mas nem Graham Greene, nem eu recebemos uma única palavra de agradecimento. Não foi muito importante, é claro, mas fiquei bastante surpreso. Após pensar muito, eu inventei uma explicação – Greene e eu arranjamos as coisas tão bem que os ingleses devem ter pensado estarmos em conluio com os guerrilheiros.

Muitas pessoas vêem em você uma espécie de embaixador itinerante no Caribe - um embaixador de boa vontade, é claro. Você é um amigo pessoal de Castro, mas também de Torrijos no Panamá, de Carlos Andrés Pérez na Venezuela, de Alfonso López Michelson na Colômbia, dos sandinistas na Nicarágua... Você é um interlocutor privilegiado para todos eles.

O que o motiva para assumir este papel?


As três figuras que você menciona estavam no poder ao mesmo tempo – um momento muito crucial para o Caribe. Foi uma coincidência muito feliz, e uma grande pena que eles não pudessem ter cooperado por mais tempo. Houve um momento em que os três, trabalhando com Castro e um presidente como Jimmy Carter nos Estados Unidos, poderiam, sem dúvida, ter colocado esta área de conflito no caminho certo. Havia um diálogo contínuo e muito positivo entre eles. Eu não só testemunhei isso, mas ajudei sempre que pude.

Penso que a América Central e o Caribe (para mim eles são a mesma coisa e não entendo porque são chamados de duas coisas diferentes) atingiram um estágio de desenvolvimento e um ponto em sua história quando estão prontos para sair de sua estagnação tradicional. Mas também acredito que os Estados Unidos frustrarão qualquer tentativa desse tipo porque isso significa renunciar a privilégios muito antigos e importantes.

Por todas suas limitações, Carter foi a melhor parte neste diálogo que o Caribe teve nos últimos anos, e o fato de sua presidência ter coincidido com a de Torrijos, Carlos Andrés Pérez e López Michelsen foi realmente muito importante. Foi esta situação particular e convicção que me encorajou a me envolver, por mais modesta que fosse a minha. Meu papel foi simplesmente o de um intermediário não oficial em um processo que teria ido muito mais longe se não fosse a eleição catastrófica de um presidente americano que representa interesses diametralmente opostos.

Torrijos costumava dizer que meu trabalho era “diplomacia secreta”, e ele costumava dizer em público que eu tinha uma maneira de fazer as más notícias parecerem boas. Eu nunca soube se isso era uma reprovação ou um elogio.

Que tipo de governo você gostaria de ver em seu próprio país?

Qualquer governo que fizesse os pobres felizes. Pense nisso!

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