1 de outubro de 2011

As crises do capitalismo democrático

As raízes da Grande Recessão de hoje geralmente estão localizadas nos excessos financeiros da década de 1990. Wolfgang Streeck traça um arco muito mais longo, de 1945 em diante, de tensões entre a lógica dos mercados e os desejos dos eleitores — culminando, ele argumenta, na tempestade internacional da dívida que agora ameaça submergir a responsabilidade democrática sob as ondas da tempestade de capital.

Wolfgang Streeck


NLR 71 • SEPT/OCT 2011

Tradução / O colapso do sistema financeiro norte-americano que ocorreu em 2008 converteu-se em uma crise econômica e política de dimensões globais.[1] Como esse evento mundialmente impactante pode ser conceitualizado? As teorias econômicas predominantes tendem a conceber a sociedade como uma entidade regida por uma tendência geral ao equilíbrio, em que as crises e a mudança não passam de desvios temporários do estado estável de um sistema normalmente bem integrado. Um sociólogo, no entanto, não é obrigado a compartilhar dessa visão. Em vez de interpretar nossa atual atribulação como um distúrbio isolado em uma condição essencialmente estável, vou considerar a "Grande Recessão"[2] e o (quase) colapso subsequente das finanças públicas como a manifestação de uma tensão elementar subjacente à configuração político-econômica das sociedades capitalistas avançadas - uma tensão que faz do desequilíbrio e da instabilidade regra, e não exceção, e que encontrou expressão numa sucessão histórica de distúrbios no interior da ordem socioeconômica. Mais especificamente, vou argumentar que a crise atual só pode ser plenamente compreendida à luz das transformações contínuas e inerentemente conflituosas da formação social que chamamos de "capitalismo democrático".

O capitalismo democrático só se estabeleceu completamente após a Segunda Guerra Mundial e à época apenas nas porções "ocidentais" do mundo, na América do Norte e na Europa Ocidental. Ali funcionou muito bem durante as duas décadas seguintes - tão bem, de fato, que esse período de crescimento econômico ininterrupto ainda domina nossas ideias e expectativas sobre o que o capitalismo moderno é ou poderia e deveria ser. Isso a despeito de, haja vista a turbulência que se seguiu, o quarto de século imediatamente posterior à guerra dever ser reconhecido como verdadeiramente excepcional. Na verdade, creio que não os trente glorieuses mas as várias crises que se seguiram representam a condição normal do capitalismo democrático - uma condição pautada por um conflito endêmico entre mercados capitalistas e políticas democráticas, que recrudesceu com o término do alto crescimento econômico dos anos 1970. Abaixo discutirei a natureza desse conflito, e em seguida abordarei a sucessão de transtornos político-econômicos que ele gerou, ambos os quais precederam e moldaram a atual crise global.

Mercados versus eleitores?

Suspeitas de que capitalismo e democracia possam não se combinar facilmente estão longe de ser novidade. Já no século XIX e em boa parte do século XX, a burguesia e a direita política manifestavam temores de que a "regra da maioria", implicando, inevitavelmente, o predomínio dos pobres sobre os ricos, acabaria por extinguir a propriedade privada e os mercados livres. A classe trabalhadora ascendente e a esquerda política, por sua vez, advertiam que os capitalistas poderiam se aliar às forças reacionárias para abolir a democracia com o intuito de se protegerem de ser governados por uma maioria permanente empenhada na redistribuição econômica e social. Não quero discutir os méritos relativos das duas posições, muito embora a história sugira que, ao menos no mundo industrializado, a esquerda tinha mais razão para temer que a direita sacrificasse a democracia, a fim de salvar o capitalismo, do que tinha a direita para temer que a esquerda abolisse o capitalismo em favor da democracia. Seja como for, nos anos pós-Segunda Guerra havia um pressuposto amplamente compartilhado de que, para que fosse compatível com a democracia, o capitalismo teria de ser submetido a um controle político amplo (compreendendo, por exemplo, a nacionalização de empresas e setores essenciais ou um modelo de "cogestão" que incluísse os trabalhadores, como na Alemanha), a fim de que a própria democracia fosse protegida de restrições impostas pelo livre mercado. Enquanto Keynes, assim como Kalecki e Polanyi até certo ponto, estavam em voga, Hayek parecia condenado a um exílio temporário.

Desde então, no entanto, a teoria econômica predominante ficou obcecada pela "irresponsabilidade" de políticos oportunistas que satisfazem um eleitorado pouco versado em economia, interferindo em mercados naturalmente eficientes em busca de metas - como pleno emprego e justiça social - que mercados genuinamente livres proporcionariam a longo prazo de qualquer jeito, mas que deixam de proporcionar quando distorcidos pela política. Segundo teorias tradicionais da "escolha pública", as crises econômicas basicamente se originam de intervenções políticas que distorcem os mercados visando metas sociais[3]. Nessa visão, as intervenções adequadas são aquelas que deixam os mercados livres de interferência política; as incorretas, que distorcem os mercados, derivam de um excesso de democracia - mais precisamente, da transposição, levada a cabo por políticos irresponsáveis, da democracia para a economia, onde ela não deveria se meter. Hoje, poucos iriam tão longe quanto Hayek, que nos últimos anos de vida advogou a abolição da democracia tal como a conhecemos em defesa da liberação econômica e da liberdade civil. Não obstante, o cantus firmus da atual teoria econômica neoinstitucionalista é profundamente hayekiano. Para funcionar de maneira adequada, o capitalismo requer políticas econômicas pautadas por normas, proteção de mercados, direitos de propriedade constitucionalmente resguardados de interferência política discricionária; autoridades regulatórias independentes; bancos centrais vigorosamente protegidos de pressões eleitorais; e instituições internacionais - como a Comissão Europeia ou o Tribunal de Justiça europeu - que não tenham de se preocupar com reeleição popular. Contudo, essas teorias evitam propositadamente a questão crucial de como chegar a isso, talvez porque seus defensores não tenham respostas, ou ao menos nenhuma que possa ser dada publicamente.

Há vários modos de conceitualizar as causas subjacentes ao atrito entre capitalismo e democracia. Para os presentes fins, vou caracterizar o capitalismo democrático como uma economia pautada por dois princípios ou regimes conflitantes de alocação de recursos: o primeiro opera de acordo com a produtividade marginal, ou com aquilo que é exposto como uma vantagem por um "livre jogo das forças de mercado", e o outro se baseia em necessidades ou direitos sociais, tal como estabelecidos por escolhas coletivas em contextos democráticos. Sob o capitalismo democrático, os governos são teoricamente instados a cumprir ambos os princípios simultaneamente, ainda que eles quase nunca se alinhem de forma substantiva. Na prática, podem negligenciar um princípio em favor do outro por algum tempo, até serem penalizados pelas consequências: governos que deixem de atender demandas democráticas por proteção e redistribuição se arriscam a perder o apoio da maioria, enquanto aqueles que desconsideram as demandas por compensação dos detentores dos recursos produtivos - com relação à produtividade marginal - provocam disfunções econômicas que se tornam cada vez mais insustentáveis, solapando também seu apoio político.

Na utopia liberal da teoria econômica convencional, a tensão entre esses dois princípios de alocação do capitalismo democrático é superada pela conversão da teoria no que Marx teria chamado de "força material". Segundo essa visão, a economia como "conhecimento científico" ensina aos cidadãos e aos políticos que a verdadeira justiça é a justiça do mercado, pela qual todos são recompensados de acordo com sua contribuição, em vez de terem suas necessidades transformadas em direitos. Na medida em que a teoria econômica viesse a ser aceita como teoria social, "viraria realidade" no sentido de ser performativa - revelando assim seu caráter essencialmente retórico como um instrumento de construção social por persuasão. No mundo real, porém, não é tão fácil dissuadir as pessoas de suas crenças "irracionais" em direitos sociais e políticos, em contraposição à lei do mercado e ao direito de propriedade. Até o momento, as noções de justiça social alheias à lógica do mercado têm resistido às tentativas de racionalização econômica, por mais impositivas que elas tenham se tornado na idade de chumbo da expansão do neoliberalismo. As pessoas se recusaram obstinadamente a abrir mão da ideia de uma economia moral, sob a qual possuem direitos que têm precedência sobre as repercussões das transações de mercado[4]. De fato, sempre que podem - como recorrentemente podem em democracias efetivas -, tendem de uma maneira ou de outra a insistir na primazia do social sobre o econômico, na proteção de compromissos e obrigações sociais contra as pressões do mercado por "flexibilidade", na expectativa de que a sociedade satisfaça as aspirações humanas a uma vida fora da ditadura dos "sinais" instáveis dos mercados. Provavelmente, é esse o fenômeno que Polanyi descreveu em A grande transformação como um "contramovimento" em reação à transformação do trabalho em mercadoria.

Segundo a teoria econômica predominante, desarranjos como inflação, déficits públicos e dívida privada ou pública excessiva resultam de um conhecimento insuficiente das leis que regem a economia, essa máquina de geração de riqueza, ou da desconsideração dessas leis na busca egoísta de poder político. Já as teorias de economia política - na medida em que levam a política a sério e não são apenas teorias funcionalistas da eficiência - veem na alocação de mercado apenas um tipo de regime político-econômico entre outros, regido pelos interesses dos detentores dos recursos produtivos escassos e portanto em posição de vantagem no mercado. A alocação política, por sua vez, é preferida por aqueles que têm pouco peso econômico mas têm poder político potencialmente amplo. Dessa perspectiva, a teoria econômica convencional é basicamente a exaltação teórica de uma ordem social político-econômica a serviço daqueles bem-dotados de poder de mercado, visto que equipara os interesses deles com o interesse geral. Ela apresenta as demandas distributivas dos detentores de capital produtivo como imperativos técnicos da boa, no sentido de cientificamente fundamentada, gestão econômica. Para a economia política, a explicação convencional para as disfunções econômicas, segundo a qual elas resultariam de uma clivagem entre princípios tradicionalistas da economia moral e princípios moderno- -racionais, é uma deturpação enviesada, que oculta o fato de que a economia "econômica" também é uma economia moral - mas a economia moral daqueles que ocupam posições privilegiadas no mercado.

Na linguagem da teoria econômica convencional, as crises se afiguram como punição para governos que deixam de respeitar as leis naturais da economia que são as suas autênticas governantes. Em contraposição, uma teoria de economia política digna desse nome concebe as crises como manifestações das "reações kaleckianas" dos detentores de recursos produtivos a políticas democráticas que penetram em seu domínio exclusivo, e que os impedem de explorar ao máximo seu poder de mercado, subvertendo suas expectativas de serem justamente recompensados por suas operações de risco ousadas.[5] A teoria econômica convencional aborda a estrutura social e a distribuição dos interesses e poderes nela operantes como coisas exógenas, considerando-as constantes e com isso tornando ambas invisíveis e, para os fins da "ciência" econômica, naturalmente dadas. A única política que uma teoria dessas consegue conceber envolve tentativas oportunistas, ou na melhor das hipóteses incompetentes, de transgredir as leis econômicas. Toda política econômica boa é por definição apolítica. O problema é que essa visão não é compartilhada por aqueles que consideram a política um recurso imprescindível contra os mercados, cuja operação à rédea solta interfere no que julgam ser a ordem correta das coisas. A menos que eles sejam de alguma forma persuadidos a adotar a doutrina econômica neoclássica como um modelo inequívoco daquilo que a vida social é e deve ser, suas demandas políticas, tais como democraticamente expressas, vão divergir das prescrições da teoria econômica convencional. A questão é que, enquanto uma economia, desde que suficientemente abstraída de forma conceitual, pode ser modelada como tendendo ao equilíbrio, uma economia política não pode, a menos que seja desprovida de democracia e dirigida por uma ditadura platônica de reis-economistas. A política capitalista, como veremos, tem feito o possível para nos conduzir do deserto do oportunismo democrático corrupto para a terra prometida dos mercados autorregulamentados. Até agora, porém, a resistência democrática persiste, e com ela os deslocamentos em nossas economias de mercado, às quais ela continuamente dá ensejo.

Arranjos do pós-guerra

O capitalismo democrático do pós-guerra sofreu sua primeira crise no decênio subsequente ao final dos anos 1960, quando a inflação começou a crescer rapidamente por todo o mundo ocidental,e o declínio do crescimento econômico passou a inviabilizar a fórmula da paz político-econômica entre capital e trabalho que findara os conflitos domésticos após as devastações da Segunda Guerra Mundial. Essa fórmula implicava essencialmente a aceitação dos mercados capitalistas e os direitos de propriedade pela classe trabalhadora organizada em troca de democracia política, o que lhes possibilitava contar com seguridade social e com a melhoria constante de seu padrão de vida. O período ininterrupto de mais de dois decênios de crescimento resultou em percepções populares, profundamente enraizadas, do contínuo progresso econômico como um direito de cidadania democrática - percepções que se converteram em expectativas políticas que os governos se sentiram coagidos a cumprir com a desaceleração do crescimento, mas cada vez menos capazes de cumpri-lo.

A estrutura do arranjo entre trabalho e capital no pós-guerra era fundamentalmente a mesma nos países - sob outros aspectos bem diferentes - em que o capitalismo democrático fora instituído. Compreendia um Estado de bem-estar em expansão, o direito dos trabalhadores à livre negociação coletiva e a garantia política do pleno emprego, subscrita por governos que faziam amplo uso do instrumental econômico keynesiano. Quando o crescimento começou a ratear no final dos anos 1960, porém, ficou difícil manter essa combinação. Enquanto a livre negociação coletiva possibilitava aos trabalhadores, por meio de seus sindicatos, agir de acordo com expectativas, já firmemente arraigadas, de aumentos salariais anuais em caráter regular, o compromisso dos governos com o pleno emprego, bem como com a expansão do Estado de bem-estar, protegia os sindicatos de potenciais perdas de postos de trabalho causadas por acordos salariais que excediam o crescimento da produtividade. Desse modo, a política governamental alavancava o poder de barganha dos sindicatos para além do nível que um livre mercado de trabalho poderia sustentar. No final dos anos 1960 isso se traduziu em uma onda mundial de militância trabalhista, impulsionada por um vigoroso senso de direito político a um padrão de vida ascendente e livre do medo do desemprego.

Nos anos subsequentes, governos de toda parte do mundo ocidental enfrentaram a questão de como fazer com que os sindicatos moderassem as reivindicações salariais para as suas categorias sem ter de retirar a promessa keynesiana de pleno emprego. Nos países em que a estrutura institucional do sistema de negociação coletiva não conduzia aos "pactos sociais" tripartites, a maioria dos governos permaneceu convencida ao longo de toda a década de 1970 de que permitir o aumento do desemprego a fim de conter aumentos salariais reais colocava em risco sua sobrevivência, senão para a estabilidade da própria democracia capitalista. Sua única saída foi uma política monetária acomodatícia que, conquanto permitisse que a livre negociação coletiva e o pleno emprego continuassem a coexistir, fazia-o à custa de elevar a taxa de inflação num ritmo que se acelerou ao longo do tempo.

A princípio, a inflação não era um grande problema para trabalhadores representados por sindicatos fortes e com poder político suficiente para obter indexação salarial de facto. A inflação atinge primordialmente credores e detentores de ativos financeiros, segmentos que em geral não incluem trabalhadores, ou ao menos não incluíam nos anos 1960 e 1970. É por isso que a inflação pode ser descrita como um reflexo monetário do conflito distributivo entre uma classe trabalhadora que demanda garantia de emprego, bem como uma maior participação na renda nacional, e uma classe capitalista que busca maximizar o retorno sobre o seu capital. Uma vez que os dois lados agem de acordo com ideias mutuamente incompatíveis sobre o que lhes é de direito, um deles enfatizando os usufrutos da cidadania e o outro os do poder de posse e mercado, a inflação também pode ser considerada uma expressão de anomia numa sociedade que, por razões estruturais, não consegue chegar a um critério comum de justiça social. Foi nesse sentido que o sociólogo britânico John Goldthorpe sugeriu, no final dos anos 1970, que a inflação alta era inerradicável numa economia de mercado capitalista democrática que permitia que trabalhadores e cidadãos corrigissem efeitos negativos dos mercados mediante ação política coletiva[6].

Para governos que precisam enfrentar as demandas conflitantes dos trabalhadores e do capital num mundo de taxas de crescimento em queda, uma política monetária acomodatícia era um método substituto conveniente para evitar um conflito social de soma zero. Nos anos iniciais do pós-guerra, o crescimento econômico municiara governos em luta contra concepções de justiça econômica incompatíveis com bens e serviços adicionais por meio dos quais podiam neutralizar antagonismos de classe. Agora os governos tinham de se virar com dinheiro adicional, ainda não chancelado pela economia real, como um meio de antecipar recursos futuros por meio do consumo e da distribuição no presente. Essa maneira de pacificar conflitos, apesar de eficaz a princípio, não poderia persistir indefinidamente. Como Hayek nunca cansava de assinalar, inflação acelerada fatalmente ocasiona distorções econômicas por fim incontroláveis nos preços relativos, na relação entre rendas variáveis e fixas e naquilo que os economistas chamam de "incentivos econômicos". Ao provocar reações kaleckianas de detentores de capitais cada vez mais desconfiados, a inflação acaba por gerar desemprego, penalizando os mesmos trabalhadores cujos interesses ela pode inicialmente ter favorecido. A essa altura, no mais tardar, os governos sob o capitalismo democrático estarão sofrendo pressões para abandonar os arranjos salariais redistributivo- -acomodatícios e restituir a disciplina monetária.

Inflação baixa, desemprego em alta


A inflação foi controlada após 1979 (Gráfico 1), quando Paul Volcker, recém-nomeado presidente do Fed pelo presidente Jimmy Carter, elevou as taxas de juros a patamares sem precedentes, fazendo com que o desemprego saltasse para níveis não vistos desde a Grande Depressão. O "putsch" de Volcker foi chancelado em 1984 com a reeleição de Ronald Reagan (que de início, diz-se, teria ficado receoso dos efeitos políticos das diretrizes desinflacionárias agressivas de Volcker). Margareth Thatcher, que havia seguido a esteira dos Estados Unidos, ganhou um segundo mandato em 1983, também a despeito do desemprego elevado e da rápida desindustrialização causados, entre outras coisas, por uma política monetária restritiva. Tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, a desinflação foi acompanhada de ataques abertos aos sindicatos por parte dos governos e dos empregadores, cujos casos emblemáticos foram o triunfo de Reagan sobre a Organização Sindical dos Controladores de Tráfego Aéreo e o de Thatcher sobre o Sindicato Nacional dos Mineiros. Nos anos seguintes, as taxas de inflação permaneceram continuamente baixas em todo o mundo capitalista, ao passo que o desemprego aumentou mais ou menos regularmente (Gráfico 2). Paralelamente, a sindicalização declinou em quase todos os lugares, e as greves se tornaram tão esporádicas que alguns países deixaram de manter estatísticas sobre elas (Gráfico 3).



A era neoliberal teve início com o abandono, pelos governos anglo- -americanos, das lições do capitalismo democrático do pós-guerra, que sustentavam que o desemprego solaparia o apoio político não só ao governo da vez, mas também ao próprio capitalismo democrático. Os experimentos conduzidos por Reagan e Thatcher com seus eleitorados foram observados com grande atenção por formuladores de políticas do mundo inteiro. Entretanto, aqueles que esperavam que o fim da inflação traria o fim do desarranjo econômico logo se decepcionaram. À medida que a inflação recuou, a dívida pública começou a aumentar, e não de forma totalmente inesperada[7]. A dívida pública crescente dos anos 1980 tinha diversas causas. A estagnação do crescimento indispusera os contribuintes mais do que nunca à tributação, e com o fim da inflação também acabaram os aumentos tributários automáticos por meio do "bracket creep". O mesmo se aplicava à contínua desvalorização da dívida pública em razão do enfraquecimento das moedas correntes, um processo que a princípio complementava o crescimento econômico e que passou a substituí-lo cada vez mais, reduzindo a dívida acumulada de um país em relação à sua receita nominal. No lado da despesa, o crescente desemprego, causado pela estabilização monetária, requeria gastos crescentes em assistência social. Ademais, os vários direitos sociais criados nos anos 1970 em troca de moderação dos sindicatos nas negociações salariais - por assim dizer, salários adiados da era neocorporativista - começaram a ser cobrados, onerando cada vez mais as finanças públicas.

Com a inflação não mais disponível como recurso para estreitar a lacuna entre as demandas dos cidadãos e as dos "mercados", o ônus de assegurar a paz social recaiu sobre o Estado. Por algum tempo, a dívida pública se mostrou um equivalente funcional conveniente da inflação: assim como a inflação, a dívida pública tornava possível introduzir recursos ainda não gerados de fato nos conflitos distributivos em curso, propiciando aos governos explorar recursos futuros em acréscimo àqueles já disponíveis. Uma vez que o embate entre a distribuição via mercado e a distribuição social passou do mercado de trabalho para a arena política, a pressão eleitoral substituiu as reivindicações sindicais. Em vez de inflacionar a moeda corrente, os governos começaram a tomar empréstimos em proporções crescentes para atender demandas de benefícios e serviços como um direito dos cidadãos, assim como exigências concorrentes de que a renda refletisse o juízo do mercado e desse modo contribuísse para maximizar o uso lucrativo dos recursos produtivos. A inflação baixa - assim como as taxas de juros baixas que se seguiram à contenção da inflação - favorecia isso, já que assegurava aos credores que os títulos públicos iriam manter seu valor no longo prazo.

Tal como a inflação, porém, o acúmulo da dívida pública não pode perdurar para sempre. Os economistas advertiram há muito tempo que o déficit público tem um efeito de "esvaziamento" [crowding out] sobre o investimento privado, ocasionando taxas de juros altas e crescimento baixo, mas jamais foram capazes de identificar o limiar crítico. Na prática, mostrou-se possível, ao menos por algum tempo, manter as taxas de juros baixas pela desregulamentação dos mercados financeiros e simultaneamente conter a inflação por meio de práticas reiteradas de desmantelamento das ações sindicais[8]. Contudo, os Estados Unidos em particular, com sua taxa de poupança nacional excepcionalmente baixa, logo iriam vender seus títulos públicos não só para os cidadãos, mas também para investidores estrangeiros, incluindo fundos soberanos de variados tipos[9]. Além disso, à medida que aumentavam os ônus da dívida era preciso destinar uma proporção crescente dos gastos públicos ao serviço da dívida, mesmo que as taxas de juros permanecessem baixas. Acima de tudo, chegar-se-ia a um ponto - ainda que imprevisível - em que credores estrangeiros e nacionais começariam a se preocupar em reaver seu dinheiro. No mais tardar, então, as pressões dos "mercados financeiros" pela consolidação dos orçamentos públicos e pelo retorno à disciplina fiscal se fariam sentir.

Desregulamentação e dívida privada

A eleição presidencial americana de 1992 foi dominada pela questão dos dois déficits: o do governo federal e o do país como um todo, no comércio exterior. A vitória de Bill Clinton, cuja campanha se voltara sobretudo para o "duplo déficit", suscitou tentativas de consolidação fiscal em todo o mundo, promovidas de maneira agressiva, sob a liderança dos Estados Unidos, por organizações internacionais como a OCDE e o FMI. De início, a administração Clinton parece ter planejado acabar com o déficit público mediante um crescimento econômico acelerado impulsionado por reformas sociais, tais como o aumento do investimento público em educação[10]. Uma vez que os democratas perderam a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de 1994, porém, Clinton se voltou para uma política de austeridade, envolvendo cortes profundos nos gastos públicos e mudanças nas políticas sociais que, nas palavras do presidente, poriam fim ao "Estado de bem-estar tal como o conhecemos". De 1998 a 2000, pela primeira vez em décadas, o governo federal americano estava administrando um superávit orçamentário.

Isso não é o mesmo que dizer, no entanto, que a administração Clinton tivesse encontrado um meio de pacificar uma economia capitalista democrática sem recorrer a recursos econômicos adicionais ainda não disponíveis. A estratégia de Clinton de gestão do conflito social se valeu intensamente do aprofundamento da desregulamentação do setor financeiro, que havia se iniciado sob Reagan[11]. A crescente desigualdade de renda, causada pela contínua dessindicalização e pelos cortes severos nos gastos sociais, bem como a redução da demanda agregada, causada pela consolidação fiscal, foram contrabalançadas pela criação de oportunidades sem precedentes para que cidadãos e pessoas jurídicas se endividassem. A feliz expressão "keynesianismo privado" foi cunhada para designar aquilo que era, em essência, a substituição da dívida pública pela dívida privada[12]. Em vez de o governo tomar dinheiro emprestado para financiar o acesso igualitário a habitação decente ou para a formação de mão de obra qualificada para o mercado, passou a permitir - às vezes forçá-los a tanto - que cidadãos individuais, sob um sistema de endividamento extremamente generoso, tomassem empréstimos por sua própria conta e risco para pagar seus estudos ou seu acesso a um bairro menos carente.

A política de Clinton de consolidação fiscal e revitalização econômica por meio da desregulamentação financeira teve muitos beneficiários. Os ricos foram poupados de aumentos de impostos, e aqueles espertos o bastante para dirigir seus interesses para o setor financeiro acumularam lucros descomunais nos cada vez mais complexos "serviços financeiros" que passaram a ser autorizados a comercializar de maneira quase irrestrita. Mas os pobres também prosperaram, ao menos alguns deles e por algum tempo. As hipotecas de alto risco [subprime mortgages] se tornaram um substituto - ainda que ilusório no final das contas - para as políticas sociais, que foram sucateadas, bem como para os aumentos salariais, que se tornaram indisponíveis nos segmentos inferiores de um mercado de trabalho "flexibilizado". Para os afro-americanos em particular, a casa própria era não só a realização do "sonho americano" como também um substituto fundamental para as aposentadorias, que muitos eram incapazes de obter no mercado de trabalho e a qual não tinham nenhum motivo para esperar de um governo comprometido com a austeridade permanente.

Durante algum tempo, a posse de um imóvel ofereceu à classe média e até a uma parcela dos pobres uma oportunidade atraente para participar da febre especulativa que nos anos 1990 e no início dos anos 2000 estava tornando os ricos bem mais ricos - por mais traiçoeira que essa oportunidade viesse a se revelar depois. Com a disparada dos preços dos imóveis causada pela demanda crescente de pessoas que em circunstâncias normais jamais teriam condições de comprar uma casa, a utilização de parte ou da totalidade do valor líquido de um imóvel para financiar os custos da escolarização da geração seguinte (que se elevavam com rapidez), ou simplesmente para consumo pessoal (a fim de compensar estagnação ou queda salarial), tornou-se uma prática comum. Tampouco era incomum que os proprietários de imóveis usassem seu novo crédito para comprar uma segunda ou terceira residência, na esperança de lucrar com o aumento ilimitado improvável do valor dos bens imobiliários. À diferença da era da dívida pública, quando se obtinham recursos futuros para uso no presente mediante empréstimos governamentais, esses recursos passaram a ser postos à disposição pela venda, em mercados financeiros liberalizados, de obrigações a pagar que representavam uma parcela significativa dos ganhos futuros dos indivíduos, municiando-os, em troca, do poder instantâneo de comprar o que bem entendessem.

Assim, a liberalização financeira compensou uma era de consolidação fiscal e austeridade pública. O endividamento individual substituiu a dívida pública, e a demanda individual, construída sob altas taxas por um crescente setor caça-níqueis, ocupou o lugar da demanda pública gerida pelo Estado pela sustentação do emprego e dos lucros na construção civil e em outros setores (Gráfico 4). Essas dinâmicas se intensificaram depois de 2001, quando o Fed passou a adotar taxas de juros bastante baixas para evitar uma recessão econômica e o consequente aumento do desemprego. Além de lucros sem precedentes no setor financeiro, o keynesianismo privado sustentou uma economia afluente que se tornou alvo da inveja dos movimentos trabalhistas europeus. De fato, a política de Alan Greenspan de crédito abundante respaldando o crescente endividamento da sociedade americana foi considerada um modelo por líderes sindicais europeus, que notaram com grande entusiasmo que o Fed, diversamente do Banco Central Europeu, era obrigado por lei a promover não só estabilidade monetária como também níveis de emprego elevados. Tudo isso, é claro, terminou em 2008, quando a pirâmide creditícia internacional na qual se apoiara a prosperidade do final dos anos 1990 e do início dos anos 2000 subitamente veio abaixo.


Endividamento soberano

Com a derrocada do keynesianismo privado em 2008, a crise do capitalismo democrático do pós-guerra entrou em sua quarta e mais recente etapa, após as sucessivas eras de inflação, de déficits públicos e de endividamento privado (Gráfico 5)[13]. Com o sistema financeiro global prestes a se desintegrar, os Estados-nação buscaram restituir a confiança econômica socializando os créditos podres emitidos como forma de compensar a consolidação fiscal. Somada à expansão fiscal necessária para evitar um colapso da "economia real", a medida resultou em um novo aumento dramático dos déficits públicos e da dívida pública - um desdobramento, cabe notar, que não se deveu de modo algum a gastos extras inconsequentes por parte de políticos oportunistas ou de órgãos públicos desavisados, como insinuado pelas teorias da "escolha pública" e pela vasta literatura de economia institucional produzida nos anos 1990 sob os auspícios, entre outros, do Banco Mundial e do FMI[14].


O salto quântico da dívida pública após 2008, que desfez por completo toda consolidação fiscal porventura alcançada na década anterior, refletiu o fato de que nenhum Estado democrático se atreveu a impor a sua sociedade outra crise econômica da magnitude da Grande Depressão dos anos 1930, como punição para os excessos de um setor financeiro desregulamentado. Mais uma vez, o poder político foi chamado a colocar à disposição recursos futuros a fim de assegurar a paz social do presente, e os Estados, mais ou menos voluntariamente, assumiram a responsabilidade por uma significativa parcela da nova dívida originalmente gerada no setor privado, de modo a tranquilizar os credores privados. Mas se isso efetivamente respaldou as fábricas de dinheiro da indústria financeira, restabelecendo com rapidez seus extraordinários lucros, salários e bonificações, não logrou evitar a desconfiança crescente de parte dos mesmos "mercados financeiros" de que os próprios governos nacionais, no processo de resgatá-los, poderiam ter se expandido além da conta. Mesmo com a crise econômica global longe de seu fim, os credores começaram a exigir ruidosamente um retorno ao equilíbrio monetário por meio de medidas de austeridade fiscal, buscando assegurar-se de que seus investimentos na dívida pública, enormemente ampliados, não seriam perdidos.

Nos três anos após 2008, o conflito distributivo sob o capitalismo democrático se converteu em um cabo de guerra intrincado entre investidores financeiros globais e Estados-nação soberanos. Se no passado trabalhadores disputavam com empregadores, cidadãos com ministros da Economia e devedores privados com bancos privados, as instituições financeiras passaram a enfrentar os mesmos Estados que pouco antes elas haviam chantageado a salvá-las. Mas a configuração subjacente de poderes e interesses se tornou bem mais complexa, e ainda aguarda exame sistemático. Desde o início da crise, por exemplo, os mercados financeiros voltaram a cobrar de diferentes Estados taxas de juros amplamente distintas, aplicando graus diversos de pressão sobre os governos para convencer seus cidadãos a aceitar cortes de gastos sem precedentes - de acordo, mais uma vez, com uma lógica de distribuição centrada no mercado basicamente inalterada. Haja vista o montante da dívida assumida hoje pela maioria dos Estados, até elevações mínimas da taxa de juros dos títulos públicos podem causar um desastre fiscal[15]. Ao mesmo tempo, os mercados precisam evitar impelir os Estados a declarar falência soberana, sempre uma opção para os governos caso as pressões dos mercados se tornem fortes demais. É por isso que há de se encontrar Estados dispostos a socorrer outros que estejam sob maior risco: para se proteger de uma elevação geral das taxas de juros dos títulos públicos que o primeiro calote acarretaria. Uma ordem similar de "solidariedade" entre Estados em favor dos investidores é promovida onde o calote soberano atinge bancos situados fora do país insolvente, o que poderia forçar os países de origem dos bancos a uma vez mais nacionalizar enormes cifras de dívida podre a fim de estabilizar suas economias.

Há ainda outras formas pelas quais a tensão entre as demandas por direitos sociais e as operações dos mercados livres se manifesta hoje no capitalismo democrático. Alguns governos, inclusive a administração Obama, têm tentado retomar o crescimento econômico por meio do endividamento - na esperança de que políticas de consolidação futuras sejam amparadas pelos dividendos desse crescimento. Outros podem estar prevendo em segredo um retorno da inflação, que dissolveria a dívida acumulada mediante uma expropriação suave dos credores - assim como o crescimento econômico, isso atenuaria as tensões políticas decorrentes das medidas de austeridade. Ao mesmo tempo, os mercados financeiros podem estar à espera de uma batalha promissora contra a interferência política, que de uma vez por todas restabeleça a disciplina de mercado e acabe com todas as tentativas políticas de subvertê-la.

Outras complicações provêm do fato de que os mercados financeiros precisam da dívida pública, uma vez que são investimentos seguros: pressionar com demasiado rigor por orçamentos equilibrados pode privá-los de oportunidades altamente desejáveis de investimento. As classes médias dos países capitalistas avançados têm investido boa parte de suas economias em títulos públicos, ao passo que muitos trabalhadores fizeram investimentos pesados em aposentadorias suplementares. Orçamentos equilibrados provavelmente implicariam que os Estados precisariam tirar das suas classes médias, na forma de impostos mais altos, aquilo que elas passaram a poupar e investir, entre outras coisas, na dívida pública. Os cidadãos não só deixariam de auferir juros, mas também não poderiam mais transmitir suas economias aos filhos. Contudo, ainda que isso deva deixá-los interessados em que os Estados fiquem, se não isentos de dívidas, ao menos confiavelmente aptos a cumprir suas obrigações para com seus credores, também pode fazer com que eles tenham de pagar pela liquidez de seus governos na forma de profundos cortes em benefícios e serviços públicos, dos quais em parte também dependem.

Por mais complexas que sejam as clivagens nas diretrizes internacionais para a dívida pública que começam a surgir, o preço da estabilização financeira provavelmente será pago por outros que não os detentores de dinheiro, ou ao menos de dinheiro real. A reforma das aposentadorias públicas, por exemplo, será acelerada por pressões fiscais, e na medida em que governos derem calote em qualquer canto do mundo as aposentadorias privadas serão igualmente atingidas. O cidadão comum irá pagar - pela consolidação das finanças públicas, pela bancarrota de Estados estrangeiros, pelas crescentes taxas de juros da dívida pública e, se necessário, por mais um resgate de bancos nacionais e internacionais - com suas economias particulares, com cortes em benefícios públicos, com redução de serviços públicos e com impostos mais altos.

Deslocamentos sucessivos

Nas quatro décadas desde o fim do crescimento do pós-guerra, o epicentro da tensão tectônica no âmbito do capitalismo democrático migrou de uma localização institucional para outra, ocasionando uma sequência de distúrbios econômicos diferentes mas sistematicamente relacionados. Nos anos 1970, o conflito entre as demandas democráticas por justiça social e as demandas capitalistas por distribuição segundo a produtividade marginal, ou "justiça econômica", se deu primordialmente nos mercados de trabalho nacionais, onde a pressão salarial dos sindicatos, no contexto de regimes de pleno emprego politicamente garantidos, provocou inflação acelerada. Quando aquilo que era, no fundo, uma forma de redistribuição mediante desvalorização da moeda corrente se tornou economicamente insustentável, forçando os governos a extingui-la com um alto risco político, o conflito ressurgiu na arena eleitoral. A partir daí ele ocasionou uma disparidade cada vez maior entre gastos públicos e receitas públicas e por consequência uma dívida pública rapidamente crescente, em resposta a demandas dos eleitores por benefícios e serviços para além daquilo que uma economia capitalista democrática poderia ser capaz de conceder ao seu "Estado taxador"[16].

Quando os esforços para refrear a dívida pública se tornaram inevitáveis, porém, eles tiveram de ser acompanhados, em nome da paz social, por desregulamentação financeira, por meio da facilitação do acesso ao crédito pessoal, como uma rota alternativa a atender demandas - com força normativa e política - dos cidadãos por segurança e prosperidade. Isso também não perdurou muito mais do que uma década até que a economia global quase cambaleasse sob o fardo de promessas irrealistas de pagamento futuro por consumo e investimento no presente, autorizadas pelos governos em contrapartida à austeridade fiscal. Desde então, o embate entre as noções populares de justiça social e a insistência econômica em justiça de mercado uma vez mais mudou de âmbito, dessa vez ressurgindo em mercados de capitais internacionais e nas complexas disputas que ora ocorrem entre instituições financeiras e eleitorados, entre governos e organizações internacionais. A questão agora é até que ponto os Estados poderão ainda impor os direitos de propriedade e as expectativas de lucro dos mercados aos seus cidadãos, ao mesmo tempo evitando ter de declarar bancarrota e resguardando o que ainda possa restar de sua legitimidade democrática.

Transigência com a inflação, aceitação da dívida pública e desregulamentação do crédito pessoal não passam de expedientes temporários para governos defrontados com um conflito aparentemente incoercível entre os dois princípios de alocação contraditórios sob o capitalismo democrático: de um lado direitos sociais, de outro produtividade marginal tal como dimensionada pelo mercado. Esses três expedientes funcionaram por algum tempo, mas logo começaram a causar mais problemas do que resolviam, indicando que uma reconciliação duradoura entre estabilidade social e econômica nas democracias capitalistas é um projeto utópico. Tudo o que os governos conseguiram alcançar ao lidar com as crises de suas épocas foi movê-las para novas arenas, onde reapareceram sob novas formas. Não há nenhum motivo para acreditar que esse processo - a sucessiva manifestação das contradições do capitalismo democrático em variedades de desarranjo econômico sempre novas - tenha terminado.

Desarranjo político

A essa altura, parece evidente que a capacidade de gestão política do capitalismo democrático declinou acentuadamente nos últimos anos, mais em certos países do que em outros mas também de maneira abrangente, no sistema político-econômico global emergente. Em consequência, riscos parecem estar se ampliando, tanto para a democracia quanto para a economia. Desde a Grande Depressão, os formuladores de políticas raras vezes - talvez jamais - depararam com tanta incerteza como hoje. Um exemplo é o fato de que os mercados esperam não só consolidação fiscal mas também, e ao mesmo tempo, prognósticos razoáveis de futuro crescimento econômico. Não é claro como ambas as coisas podem ser combinadas. Embora o prêmio de risco da dívida pública da Irlanda tenha caído quando o país se comprometeu com uma severa redução de seu déficit, algumas semanas depois voltou a subir, presumivelmente porque o programa de consolidação irlandês parecia tão estrito que tornaria a recuperação econômica impossível[17]. Ademais, há uma convicção amplamente compartilhada de que a próxima bolha já está se formando em algum lugar de um mundo mais do que nunca inundado de crédito oferecido a juros baixos. Não se pode mais oferecer créditos hipotecários de alto risco para investimentos, pelo menos não por enquanto. Mas restam ainda os mercados de matérias-primas ou a nova economia da internet. Nada impede que as empresas financeiras se utilizem do excedente de dinheiro proporcionado pelos bancos centrais para ingressar em quaisquer negócios que aparentem ser os novos segmentos em crescimento, em proveito de seus clientes prediletos e, é claro, de si mesmas. Enfim, com o malogro da reforma regulatória do setor financeiro sob quase todos os aspectos os requisitos de capital aumentaram um pouco, e os bancos que eram grandes demais para falir em 2008 também podem contar com essa condição em 2012 ou 2013, o que os deixa com a mesma capacidade de extorquir o mesmo público que tão astuciosamente conseguiram explorar naquele ano. Mas agora pode ser impossível repetir o socorro público ao capitalismo privado nos moldes de 2008, quanto mais não seja porque as finanças públicas já estão esticadas até o limite.

Contudo, na atual crise a democracia está tanto em risco quanto a economia, se não mais. Não só a "integração sistêmica" das sociedades contemporâneas - ou seja, o funcionamento eficaz de suas economias capitalistas - se precarizou, mas também sua "integração social"[18]. Com o advento de uma nova fase de austeridade, a capacidade dos Estados- nação de fazer a mediação entre os direitos dos cidadãos e os requisitos de acumulação de capital foi severamente afetada. Governos de toda parte enfrentam resistência mais forte a aumentos de impostos, particularmente em países altamente endividados, nos quais será preciso gastar dinheiro público novo por muitos anos para pagar bens consumidos há muito tempo. Além disso, com a interdependência global cada vez mais estreita, já não é possível ter a pretensão de que as tensões entre economia e sociedade, entre capitalismo e democracia, podem ser geridas no interior das comunidades políticas nacionais. Hoje nenhum governo pode governar sem prestar detida atenção às obrigações e constrangimentos internacionais, inclusive aqueles dos mercados financeiros que forçam os Estados nacionais a impor sacrifícios à sua população. As crises e as contradições do capitalismo democrático se tornaram definitivamente internacionalizadas, manifestando-se não só dentro dos Estados mas também entre eles, em combinações e permutações inauditas.

Como lemos quase todo dia nos jornais, "os mercados" passaram a ditar por vias sem precedentes o que Estados supostamente soberanos e democráticos ainda podem fazer por seus cidadãos e o que devem lhes recusar. As mesmas agências de classificação de risco sediadas em Manhattan que contribuíram de maneira fundamental para ocasionar o desastre da indústria de dinheiro global agora estão ameaçando rebaixar as notas dos títulos de Estados que aceitaram um grau antes inimaginável de endividamento novo para resgatar aquela indústria e a economia capitalista como um todo. A política ainda restringe e distorce mercados, mas apenas, parece, num plano muito distante da vivência cotidiana e das capacidades organizacionais das pessoas comuns - os Estados Unidos, armados até os dentes não só de porta-aviões mas também de um suprimento ilimitado de cartões de crédito, ainda têm a China para comprar sua dívida ascendente; todos os demais países têm de escutar o que "os mercados" lhes dizem. Desse modo, os cidadãos cada vez mais percebem seus governos não como seus agentes, mas de outros Estados ou de organizações internacionais tais como o FMI ou a União Europeia, incomensuravelmente mais isolados da pressão eleitoral do que era o tradicional Estado-nação. Em países como Grécia e Irlanda, qualquer coisa que se assemelhe a democracia será efetivamente suspensa por muitos anos. Para proceder "responsavelmente", no sentido definido por mercados e instituições internacionais, os governos nacionais terão de impor uma rígida austeridade, a preço de se tornarem cada vez mais irresponsáveis para com seus cidadãos[19].

A democracia não está sendo sequestrada apenas nos países atualmente sob ataque dos "mercados". A Alemanha, que ainda se encontra numa situação econômica relativamente confortável, comprometeu-se com décadas de cortes nos gastos públicos. Além disso, o governo alemão mais uma vez terá de fazer com que os seus cidadãos provenham liquidez para países sob risco de calote, não só para salvar bancos alemães, mas também para estabilizar a moeda comum europeia e evitar um aumento geral da taxa de juros da dívida pública, como é provável que ocorra caso o primeiro país entre em colapso. O alto custo político disso pode ser dimensionado pela queda progressiva do capital eleitoral do governo de Angela Merkel, que redundou numa série de derrotas em importantes eleições regionais ao longo de 2010. A retórica populista, que insinua que talvez os credores também devessem pagar uma parcela dos custos, tal como expressa pela chanceler alemã no início daquele ano, foi prontamente abandonada quando "os mercados" manifestaram seu assombro aumentando ligeiramente a taxa de juros da dívida pública nova. Agora a conversa é sobre a necessidade de passar, nas palavras do ministro da Economia alemão, do antiquado "governo", que não está mais à altura dos novos desafios da globalização, para a "governança", denotando em particular uma permanente redução da autoridade orçamentária do Bundestag[20].

As expectativas políticas ora apresentadas aos Estados democráticos pelos seus novos mandantes podem ser impossíveis de satisfazer. Os mercados e as instituições internacionais exigem que não só os governos como também os cidadãos se comprometam credulamente com a consolidação fiscal. Partidos políticos que se oponham à austeridade precisam ser derrotados de modo retumbante nas eleições nacionais, e tanto o governo como a oposição devem se comprometer publicamente com "finanças sadias", caso contrário o custo do serviço da dívida vai aumentar. Entretanto, pleitos em que os eleitores não tenham nenhuma opção efetiva poderão ser percebidos como inautênticos, o que talvez cause toda sorte de desarranjos políticos, da diminuição do comparecimento às urnas e a ascensão de partidos populistas aos distúrbios nas ruas.

As arenas do conflito distributivo foram se tornando cada vez mais distantes da política popular. Nem os mercados de trabalho nacionais dos anos 1970, com as múltiplas oportunidades que ofereciam para mobilizações políticas corporativistas e coalizões interclasses, nem a política de gastos públicos dos anos 1980 ficavam além da apreensão ou do alcance estratégico do "homem do povo". Desde então, os campos de batalha em que se dá o embate das contradições do capitalismo democrático ficaram cada vez mais complexos, tornando extremamente difícil para qualquer um que não pertença às elites políticas e financeiras reconhecer os interesses subjacentes e identificar seus próprios interesses[21]. Embora esse quadro possa gerar apatia no nível das massas e com isso tornar a vida das elites mais fácil, não se pode contar com isso num mundo em que a aquiescência cega aos investidores financeiros é postulada como o único procedimento racional e responsável. Para aqueles que se recusam a ser dissuadidos de outras racionalidades e responsabilidades sociais, um mundo desses pode parecer simplesmente absurdo - a ponto de que a única conduta racional e responsável seja fazer o maior número de estragos possível na haute finance. Ali onde a democracia tal como a conhecemos está efetivamente suspensa, como em países como Grécia, Irlanda e Portugal, tumultos nas ruas e insurreições populares podem ser o derradeiro modo de expressão política que resta para os desprovidos de poder de mercado. Devemos manter a esperança, em nome da democracia, de que em breve teremos a oportunidade de observar mais alguns exemplos?

As ciências sociais pouco ou nada podem fazer para ajudar a dirimir as tensões e as contradições estruturais subjacentes aos desarranjos econômicos e sociais do momento. O que podem fazer, em todo caso, é lançar luz sobre elas e identificar os encadeamentos históricos por meio dos quais as atuais crises sejam plenamente compreendidas. Também podem - e devem - evidenciar o drama de Estados democráticos que estão sendo transformados em agências de cobrança de dívidas a serviço de uma oligarquia global de investidores, que comparada à "elite do poder" de C. Wright Mills parece um esplêndido exemplo de pluralismo liberal[22]. Mais do que nunca, o poder econômico parece ter se tornado poder político, enquanto os cidadãos parecem estar quase inteiramente despojados de suas defesas democráticas e de sua capacidade de imprimir à economia interesses e demandas que são incomparáveis com os dos detentores de capital. De fato, levando em conta a sucessão das crises do capitalismo democrático desde os anos 1970, parece haver uma possibilidade real de um novo arranjo - mesmo que temporário - do conflito social no capitalismo avançado, desta vez inteiramente a favor das classes proprietárias ora firmemente entrincheiradas em sua fortaleza politicamente indevassável: a indústria financeira internacional.

Notas:

[1] O texto foi apresentado em abril de 2011 nas Max Weber Lectures, promovido pelo European University Institute de Florença. Agradeço a Daniel Mertens por sua assistência de pesquisa.
[2] Sobre a expressão, ver Reinhart, Carmen e Rogoff, Kenneth. This time is different: eight centuries of financial folly. Princeton, Nova Jersey, 2009. [ Links ]
[3] A formulação clássica se encontra em Buchanan, James e Tullock, Gordon. The calculus of consent: logical foundations of constitutional democracy. Ann Arbor, Michigan, 1962. [ Links ]
[4] Cf. Thompson, Edward. "The moral economy of the English crowd in the eighteenth century". Past & Present, vol. 50, n. 1, 1971; Scott, James. The moral economy of the peasant: rebellion and subsistence in Southeast Asia. New Haven (Connecticut), 1976. O conteúdo exato de tais direitos obviamente varia entre diferentes contextos sociais e históricos.
[5] In a seminal essay, Michał Kalecki identified the ‘confidence’ of investors as a crucial factor determining economic performance: ‘Political Aspects of Full Employment’, Political Quarterly, vol. 14, no. 4, 1943. Investor confidence, according to Kalecki, depends on the extent to which current profit expectations of capital owners are reliably sanctioned by the distribution of political power and the policies to which it gives rise. Economic dysfunctions—unemployment in Kalecki’s case—ensue when business sees its profit expectations threatened by political interference. ‘Wrong’ policies in this sense result in a loss of business confidence, which in turn may result in what would amount to an investment strike of capital owners. Kalecki’s perspective makes it possible to model a capitalist economy as an interactive game, as distinguished from a natural or machine-like mechanism. In this perspective, the point at which capitalists react adversely to non-market allocation by withdrawing investment need not be seen as fixed and mathematically predictable but may be negotiable. For example, it may be set by a historically changeable level of aspiration or by strategic calculation. This is why predictions based on universalistic, i.e., historically and culturally indifferent, economic models so often fail: they assume fixed parameters where in reality these are socially determined.
[6] Goldthorpe, John. "The current inflation: towards a sociological account". In: Hirsch, Fred e Goldthorpe, John (orgs.). The political economy of inflation. Cambridge (Massachusetts), 1978.
[7] Já nos anos 1950, Anthony Downs notou que nas democracias as demandas dos cidadãos por serviços públicos tendem a exceder a provisão de recursos disponíveis ao governo; cf., por exemplo, "Why the government budget is too small in a democracy". World Politics, vol. 12, n. 4, 1960. Ver também O'Connor, James. "The fiscal crisis of the state". Socialist Revolution, vol. 1, n. 1-2, 1970.
[8] Cf. Krippner, Greta. Capitalizing on crisis: the political origins of the rise of finance. Cambridge (Massachusetts), 2011.
[9] Cf. Spiro, David. The hidden hand of American hegemony: petrodollar recycling and international markets. Ithaca, Nova York, 1999.
[10] Cf. Reich, Robert. Locked in the cabinet. Nova York, 1997.
[11] Stiglitz, Joseph. The roaring nineties: a new history of the world's most prosperous decade. Nova York, 2003. [ Links ]
[12] Crouch, Colin. "Privatised keynesianism: an unacknowledged policy regime". British Journal of Politics and International Relations, vol. 11, n. 3, 2009. [ Links ]
[13] O gráfico mostra a evolução da crise no principal país capitalista, os Estados Unidos, onde as quatro etapas se desdobraram de maneira típico-ideal. Para outros países é preciso fazer ponderações que reflitam suas condições específicas, entre as quais suas posições na economia global. Na Alemanha, por exemplo, a dívida pública começou a se elevar acentuadamente já nos anos 1970. Isso corresponde ao fato de que ali a inflação era baixa muito tempo antes de Volcker, em razão da independência do Bundesbank e das políticas monetaristas por ele adotadas já em 1974 (cf. Scharpf, Fritz. Crisis and choice in European social democracy. Ithaca, 1991).
[14] Para uma coletânea representativa, ver Poterba, James e Von Hagen, Jürgen (orgs.). Institutions, politics and fiscal policy. Chicago, 1999. [ Links ]
[15] Para um Estado com dívida pública correspondente a 100% do pib, um aumento de dois pontos percentuais na taxa média dos juros que ele tem de pagar a seus credores elevaria seu déficit anual na mesma proporção. Um déficit no orçamento corrente de 4% do pib consequentemente aumentaria pela metade.
[16] Schumpeter, Joseph. "The crisis of the tax state" [1918]. In: Swedberg, Richard (org.). The economics and sociology of capitalism. Princeton, 1991. [ Links ]
[17] Em outras palavras, nem mesmo os "mercados" estão dispostos a apostar seu dinheiro no mantra supply-side[da doutrina macroeconômica assim denominada, literalmente "do lado da oferta"], segundo o qual o crescimento é estimulado por cortes nos gastos públicos. Por outro lado, quem poderá dizer quanta dívida nova é suficiente - e quanta é além da conta - para que um país cresça mais rápido do que sua dívida antiga?
[18] Os conceitos foram elaborados por David Lockwood em "Social integration and system integration". In: Zollschan, George e Hirsch, Walter (orgs.). Explorations in social change. Londres, 1964. [ Links ]
[19] Cf. Mair, Peter. Representative versus responsible government. Colônia, 2009 (Max Planck Institute for the Study of Societies, Working Paper 09/8).
[20] "Nós precisamos", afirmou Wolfgang Schäuble (Financial Times, 05/12/2010), "de novas formas de governança internacional, governança global e governança europeia". O ministro reconheceu que se o parlamento alemão fosse solicitado a abrir mão de sua jurisdição sobre o orçamento imediatamente, "não se conseguiria uma votação favorável", mas "se nos dessem alguns meses para trabalhar nisso, e se nos dessem a esperança de que outros Estados-membros também anuiriam, eu veria uma possibilidade". Schäuble estava falando, convenientemente, como vencedor do concurso promovido pelo Financial Times para eleger o ministro da Economia europeu do ano.
[21] Por exemplo, os apelos políticos à "solidariedade" redistributiva são agora dirigidos a nações inteiras, instadas por organismos internacionais a apoiar outras nações inteiras, a exemplo do pedido de que a Eslovênia ajude Irlanda, Grécia e Portugal. Isso escamoteia o fato de que aqueles que estão sendo apoiados por essa espécie de "solidariedade internacional" não são as pessoas do povo, mas sim os bancos, nacionais e estrangeiros, que de outro modo teriam de aceitar perdas ou lucros menores. Também elide diferenças de renda entre as nações: se os alemães são em média mais ricos do que os gregos (ainda que alguns gregos sejam bem mais ricos do que quase todos os alemães), os eslovenos são em média bem mais pobres do que os habitantes da Irlanda, que estatisticamente tem uma renda per capita mais alta do que quase todos os países do euro, inclusive a Alemanha. Essencialmente, o novo alinhamento do conflito traduz conflitos de classes na forma de conflitos internacionais, contrapondo nações que estão sujeitas às mesmas pressões dos mercados financeiros por austeridade pública. Pede-se a cidadãos comuns que demandem "sacrifícios" de outros cidadãos comuns que por acaso são de outros Estados, em vez de demandálos daqueles que há muito tempo voltaram a auferir seus "bônus".
[22] Wright Mills, C. The power elite. Oxford, 1956.

Sobre o autor

Wolfgang Streeck é diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Sociedades (Colônia, Alemanha).

25 de setembro de 2011

O fim de Oslo

Palestina na ONU

Judith Butler



Dentre as várias frases espantosas que Barack Obama pronunciou no recente discurso em que se opôs ao requerimento dos palestinos à ONU, a mais espantosa talvez tenha sido “a paz não virá de declarações e resoluções”. No mínimo, é frase estranhíssima, enunciada por presidente cuja ascensão ao poder foi construída de repetidos recursos à retórica. O argumento do presidente contra o poder de declarações e resoluções não passou de golpe retórico para minimizar o poder dos golpes retóricos. 

Mais importante, foi esforço para tentar conseguir que o governo dos EUA continue como guardião e negociador de qualquer negociação de paz; o discurso foi meio para tentar reafirmar o prestígio e o poder do guardião negociador, hoje confrontado ao mais potente desafio que lhe apareceu, em décadas. 

Ainda mais importante, aquele discurso foi esforço para neutralizar e drenar a força retórica das manifestações populares e públicas que se empenham em expor o fracasso das negociações de paz, que trabalham para quebrar o contexto e modelo de Oslo e para internacionalizar o processo político, para facilitar a criação do estado palestino. 

Há razões pelas quais contestar a oportunidade do requerimento dos palestinos nos termos em que foi apresentado, mas não são as razões que Netanyahu ofereceu nos seus comentários doentios, sinistros e arrogantes. 

No interior do próprio debate palestino, vários questionaram o requerimento levado à ONU. Para vários, o requerimento deixou absolutamente de fora o direito de retorno dos palestinos da diáspora; não denunciou a discriminação estrutural que os palestinos sofrem hoje, dentro das atuais fronteiras de Israel; pode ter abandonado Gaza;  deslegitima a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), elevando a Autoridade Palestina ao poder de estado; exclui da mesa de negociações a “Solução Um Estado”; e, erradamente, entrega-se à dependência da ONU como árbitro e ‘avalista’ do estado palestino, em vez de reafirmar que a autodeterminação dos palestinos é a única base legítima de qualquer estado a ser criado. 

Críticos como Ali Abunimah, editor da Electronic Intifada, argumentam que a ONU já várias vezes demonstrou que não passa de instrumento para paralisar o que interesse aos EUA paralisar, considerado o poder de veto que governa o Conselho de Segurança e afirma o poder discricionário das grandes potências; por tudo isso, é provável que o requerimento agora encaminhado à ONU seja derrotado por um único veto, dos EUA.

Mesmo assim, efeito que já se faz sentir como consequência dessas “declarações e resoluções” é que já não é possível tomar os Acordos de Oslo de 1993 como paradigma para futuras negociações. De fato, espera-se para os próximos dias o esfacelamento definitivo do tal paradigma. 

Oslo não apenas sempre garantiu aos EUA posição privilegiada como intermediário imprescindível de todas as “negociações de paz” como, de fato, foi o instrumento que patrocinou diretamente o massivo crescimento das colônias exclusivas para judeus israelenses em terra palestina – porque Oslo não declarou, em 1993, o status de ilegalidade, nos termos da legislação internacional vigente, das colônias israelenses erguidas em territórios palestinos ocupados. 

Nos anos de Oslo, o número de colonos judeus que Israel fixou em territórios palestinos ocupados dobrou: de 241.500 colonos em 1992, para 490.000 em 2010 (incluindo Jerusalém Leste). Oslo, de fato, ao não tomar posição em nenhuma das “questões de status permanente”, efetivamente implantou a ocupação como regime, na prática, eterno, sem fim à vista. 

Além disso, os Acordos de Oslo também “oficializara” o princípio segundo o qual qualquer alteração de status da Palestina Ocupada dependeria do “consentimento” de Israel. Desde Oslo, portanto, o poder de Israel para decidir o futuro dos palestinos foi sobreposto ao direito legal internacionalmente reconhecido, dos palestinos, à autodeterminação.

O efeito imediato mais potente da decisão dos palestinos de levar seu requerimento à ONU é que assim se decretou o  fim dos Acordos de Oslo como paradigma obrigatório e insuperável. 

Mas continua aberto o importante debate sobre se o requerimento à ONU ofende ou, no mínimo, atropela o direito dos palestinos à autodeterminação, direito político mais abrangente e mais relevante. Os que se opõem à internacionalização do processo destacam que há o risco de metade de todos os palestinos perderem direitos, caso a ONU reconheça o estado palestino nos termos do pedido encaminhado por Abbas. 

Poderão a ONU e o reconhecimento do estado palestino assegurar aos próprios palestinos o direito à autodeterminação sem interferência externa? 

Se a Autoridade Palestina converter-se em sinônimo de Estado Palestino, não se estará decretando o sacrifício do direito de retorno para milhões de palestinos da diáspora? 

E a ONU e a Autoridade Palestina não estarão abandonando Gaza e direitos de minorias, ‘esquecidos’ dentro de Israel? 

Se os direitos à autodeterminação são direito coletivo de todos os palestinos, argumenta Omar Barghouti, nesse caso a ONU terá de preservar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como representante legítima de todo o povo palestino. 

A crítica mais devastadora veio de Joseph Massad, para quem o requerimento encaminhado à ONU, para que reconheça o estado palestino, apaga todas as lutas e reivindicações históricas do povo palestino. Massad escreveu, na página online de al-Jazeera:

A questão posta à mesa para que a ONU decida, pois, não é se a ONU deve reconhecer o direito do povo palestino a um estado nos termos do Plano de Partição da ONU de 1947, que garantiria aos palestinos 45% da Palestina histórica, nem a estado palestino pelas fronteiras de 5/6/1967 que acompanham a Linha Verde, que garantiria aos palestinos 22% da Palestina histórica. 

Reconheça o que reconhecer, qualquer reconhecimento pela ONU significa, sempre, negar os direitos da maioria do povo palestino em Israel, na diáspora, em Jerusalém Leste e até em Gaza. A ONU ‘reconhecerá’, no máximo, os direitos de alguns poucos palestinos da Cisjordânia a viver num bantustão, em área equivalente a uma fração do território da Cisjordânia, que mal chega a 10% da Palestina histórica. Israel festejará qualquer decisão que a ONU adote.

Isso talvez explique pesquisas que mostram que mais de 60% dos israelenses aprovam o requerimento de Abbas do reconhecimento do estado palestino e têm posições mais à esquerda que a de Obama. 

Fato é que estamos no meio de mudança histórica. Por mais que cresçam as disputas entre os que advogam a favor de uma demanda política, nascida do movimento social, e que exige que se preserve o direito à autodeterminação; e os que visam a internacionalizar o processo, metendo a ONU no papel onde antes esteve Oslo, nos dois casos diminui muito o poder dos EUA, o poder de Oslo e o poder do autonomeado “Quarteto” – que já parece esfacelado, com a ONU potencialmente cada vez mais distanciada da União Europeia, dos EUA e da Rússia. 

Nada, na retórica de Obama, conseguirá limitar esses efeitos. 

Se não houver mais, estará inaugurado um novo conjunto de dinâmicas, brotadas do movimento para levar à ONU o requerimento dos palestinos, e essas dinâmicas podem, na atual conjuntura, revelar-se mais importantes e mais valiosas, do que se consegue antever hoje. 

Ainda que não apareça imediatamente nenhum tipo de estado palestino (e há razões para esperar que logo apareça iniciativa brotada diretamente de um movimento palestino mais inclusivo, que não descarte o direito à autodeterminação), já se podem ver nitidamente os estertores finais de um ‘processo de paz’ que foi usado como pretexto para a expansão colonial de Israel, e para o descarte repetido de todas as aspirações dos palestinos. 

É bem provável que surja algo que Obama antigamente chamava de “esperança”, e derrote a tragédia temporal da ocupação, da expulsão, do confisco e da desqualificação.

1 de setembro de 2011

A ecologia da economia política de Marx

Não é segredo hoje que estamos enfrentando uma emergência ambiental planetária, colocando em risco a maioria das espécies do planeta, incluindo a nossa, e que essa catástrofe iminente tem suas raízes no sistema econômico capitalista. No entanto, os perigos extremos que o capitalismo inerentemente representa para o meio ambiente são frequentemente compreendidos de forma inadequada, dando origem à crença de que é possível criar um novo "capitalismo natural" ou "capitalismo climático" no qual o sistema deixa de ser o inimigo do meio ambiente e se torna seu salvador. O principal problema com todas essas visões é que elas subestimam a ameaça cumulativa à humanidade e à Terra decorrente das relações de produção existentes. De fato, a enormidade total da crise ecológica planetária, eu argumentarei, só pode ser entendida de um ponto de vista informado pela crítica marxista do capitalismo.

por John Bellamy Foster

Monthly Review

Monthly Review Volume 63, Number 4 (September 2011)

Este artigo é uma versão ampliada de uma palestra concedida a 3 de julho de 2011 na University College London no âmbito da Conferência Marxism 2011 promovida bienalmente pelo Socialist Workers Party.

Tradução / Não é já segredo que estamos diante de uma emergência planetária ambiental, colocando em risco a maioria das espécies do planeta, incluindo a nossa, e que esta catástrofe iminente tem suas raízes no sistema econômico capitalista. No entanto, os perigos extremos que o capitalismo inerentemente representa para o meio ambiente são muitas vezes inadequadamente entendidos, dando origem à crença de que é possível a criação de um novo "capitalismo natural" ou "capitalismo climático", em que o sistema deixaria de ser o inimigo do meio ambiente, tornando-se seu salvador [1]. O principal problema com todas essas visões é que elas subestimam a ameaça cumulativa para a humanidade e para a Terra decorrente das relações de produção existentes. Na verdade, como vou aqui defender, a dimensão completa da crise ecológica planetária só pode ser entendida a partir de um ponto de vista informado pela crítica marxista do capitalismo.

Uma fraqueza comum de muitas críticas ambientais radicais do capitalismo é que elas estão ligadas a noções abstratas do sistema com base em condições do século XIX. Como resultado, muitos dos fundamentos historicamente específicos das crises ambientais relacionados com as condições do século XX (e XXI) não foram suficientemente analisados. A própria crítica ecológica indispensável de Marx foi limitada pelo período histórico em que ele escreveu, ou seja, a fase competitiva do capitalismo, e, assim, ele não foi capaz de captar certas características cruciais da destruição ambiental que estavam a surgir com o capitalismo monopolista. Na análise seguinte, por isso, vou discutir não apenas a crítica ecológica fornecida por Marx (e Engels), mas também a de economistas políticos marxistas e radicais mais tardios, incluindo figuras como Thorstein Veblen, Paul Baran, Paul Sweezy, e Allan Schnaiberg.

Marx e a Raubbau Capitalista

Raramente é reconhecido que o primeiro ensaio político-econômico de Marx - "Debates sobre a lei de roubo de madeira", escrito em 1842, durante sua editoria do jornal Rheinische Zeitung – se centrou na questão ecológica. A maioria das pessoas encarceradas, na Prússia dessa época, eram camponeses condenados por pegar madeira morta nas florestas. Na realização desse atos, os camponeses limitavam-se ao exercício do que tinha sido um direito costumeiro, mas que fora anulado com a disseminação da propriedade privada. Observando os debates sobre esta questão na Dieta Renana (a assembleia provincial da Renânia), Marx comentou que a disputa se centrava sobre qual a melhor forma de proteger os direitos de propriedade dos terratenentes, enquanto os direitos consuetudinários da população em relação à terra eram simplesmente ignorados. Camponeses empobrecidos eram vistos como o "inimigo da madeira", porque o exercício de seus direitos tradicionais para reunir lenha, principalmente como combustível para cozinhar e aquecer suas casas, transgredia os direitos de posse dos detentores de propriedade privada [2].

Não foi muito depois disso que Marx começou sua pesquisa sistemática sobre economia política. Não deve, portanto, surpreender-nos que já em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 ele estava focando a questão da acumulação primitiva, ou seja, da desapropriação dos camponeses que estavam sendo retirados da terra no curso do desenvolvimento capitalista. Foi esta separação dos trabalhadores da terra, como meio de produção, que ele mais tarde referiria, em ‘O Capital’, ser a "condição histórica do modo de produção capitalista" e sua "fundação permanente", a base para o surgimento do proletariado moderno [3]. O capitalismo começou como um sistema de invasão da natureza e da riqueza pública.

Aqui é importante reconhecer que, na raiz da crítica de Marx à economia política, esteve a distinção entre valor de uso e valor de troca. Toda mercadoria, explicou nas páginas de abertura de ‘O Capital’, tinha tanto um valor de uso como um valor de troca, com o último cada vez mais dominando o primeiro. O valor de uso foi associada com as exigências da produção em geral e com a relação humana básica com natureza, ou seja, às necessidades humanas fundamentais. O valor de troca, ao contrário, foi orientado para a busca do lucro. Isto estabeleceu uma contradição entre a produção capitalista e a produção em geral (isto é, as condições naturais de produção).

Esta contradição foi muito evidente, nos tempos de Marx, naquilo que veio a ser conhecido como o Paradoxo Lauderdale, em homenagem a James Maitland, o oitavo conde de Lauderdale (1759-1839). Lauderdale foi um dos primeiros economistas políticos clássicos, autor da obra ‘Um inquérito sobre a natureza da riqueza pública e sobre os meios e as causas do seu aumento’ (1804). A riqueza pública, explicou ele, consiste em valores de uso, que, como a água e o ar, muitas vezes existem em abundância, enquanto que as riquezas privadas se sustentam em valores de troca, o que exigia a sua escassez. Sob tais condições – imputou ele a este sistema - a expansão das riquezas privadas passou a ir de par com a destruição de riqueza pública. Por exemplo, se o abastecimento de água que anteriormente estava disponível gratuitamente passa a ser monopolizado, sendo uma taxa cobrada nos poços, então a riqueza medida da nação seria aumentada, à custa da riqueza pública.

"O senso comum da humanidade", declarou Lauderdale, "revoltar-se-ia" a qualquer proposta de aumentar as riquezas particulares "criando uma escassez de qualquer produto geralmente útil e necessário para o homem". Mas a sociedade burguesa em que vivia, como ele reconheceu, já estava fazendo isso mesmo. Assim, colonos holandeses tinham, em períodos particularmente férteis, queimado "especiarias" ou pago a nativos para "recolher as flores jovens e folhas verdes das árvores de noz-moscada" para as matar; enquanto que os plantadores de Virgínia, por determinação legal, queimavam uma certa parte das suas culturas para manter o preço. "Assim existe realmente este princípio, compreendido por aqueles cujo interesse os leva a tirar vantagem disso", escreveu ele, "de que apenas a impossibilidade de concertação geral protege o patrimônio público contra a rapacidade da avareza privada" [4].

Marx via o Paradoxo Lauderdale, decorrente da "razão inversa entre dois tipos de valor" (valor de uso e valor de troca), como uma das principais contradições da produção burguesa. Todo o padrão de desenvolvimento capitalista foi caracterizado pelo desperdício e destruição da riqueza natural de sociedade [5]. "Pela sua mesquinhez", escreveu ele, "a produção capitalista é completamente desperdiçadora de material humano, do mesmo modo que a sua forma de distribuição de seus produtos através do comércio, e a sua forma de concorrência, a tornam muito desperdiçadora de recursos materiais, de forma que ela perde para a sociedade [riqueza pública] o que ganha para os capitalistas individuais [riquezas privadas]" [6]

A dominação do valor de troca sobre o valor de uso no desenvolvimento capitalista e o impacto ecológico que isso implica também podem ser vistos na fórmula geral do capital de Marx, M-C-M’. O capitalismo é comumente descrito como um sistema de produção de mercadorias simples, C-M-C, em que o dinheiro é simplesmente um intermediário num processo de produção e de troca, começando e terminando com valores de uso particulares incorporadas em produtos concretos. Em contraste, Marx explicou que a produção e troca capitalistas tomam a forma de M-C-M', em que o capital-dinheiro é avançado para o trabalho e os materiais com que se produz uma mercadoria, que pode ser vendida por mais dinheiro, ou seja, M', ou M + Dm (mais-valia), no final do processo. A diferença crucial aqui é que o processo nunca termina realmente, porque o dinheiro ou valor abstrato é o objetivo. O M' é reinvestido no período seguinte, resultando em M'-C-M'', o que leva a M’’-C-M'’’, no período a seguir a esse, e assim por diante.

Sob este sistema, a fim de manter uma determinada percentagem da riqueza, o capitalista deve procurar continuamente a sua expansão. A lei do valor, portanto, constantemente sussurra para cada capitalista individual e para a classe capitalista como um todo: "Vá em frente! Vá em frente!" Isso, no entanto, requer o revolucionamento incessante da produção, para substituir a força de trabalho e promover o lucro, ao serviço de uma acumulação cada vez maior. Além disso, enquanto a produção cresce, "o círculo de consumo dentro da circulação" deve crescer proporcionalmente. Intrínseca à relação capital, insistiu Marx, está a recusa em aceitar quaisquer limites absolutos para o seu avanço, que foram tratados como meros obstáculos a serem transpostos. Estas proposições, intrínsecas à Economia Política de Marx, constituíram as bases para o que mais tarde Schnaiberg viria a chamar o modelo de "produção em rodagem perpétua" (treadmill of production) [7].

A contribuição ecológica mais notável de Marx, no entanto, está em sua teoria da ruptura metabólica. Com base no trabalho do grande químico alemão Justus von Liebig, Marx argumentou que, ao enviar alimentos e fibras a centenas e milhares de quilômetros de distância, para os novos centros urbanos de produção industrial, nos quais a população estava cada vez mais concentrada, o capital acabou roubando a terra de seus nutrientes, tais como o azoto, o fósforo e o potássio, que em vez de ser devolvidos para a terra foram criar poluição nas cidades. Liebig chamou a isto de "Raubbau" ou de sistema de roubo. Como afirmou Ernest Mandel em sua Teoria Econômica Marxista:

“Cientistas sérios, nomeadamente o alemão Liebig, tinham chamado a atenção para um fenômeno realmente preocupante, o crescente esgotamento do solo, o Raubbau, resultante dos gananciosos métodos capitalistas de exploração destinados a obter o maior lucro no menor tempo. Enquanto que as sociedades agrícolas, como a China, o Japão, o Egito antigo, etc., tinham conhecido uma forma racional de fazer a agricultura, que conservava e até aumentava a fertilidade do solo ao longo de milhares de anos, o Raubbau capitalista tinha sido capaz, em certas partes do mundo, de esgotar a camada fértil do solo... em meio century” [8].

Para Marx, esta Raubbau capitalista tomou a forma de uma "racha irreparável" dentro da sociedade capitalista no metabolismo entre a humanidade e a Terra - "um metabolismo prescrito pelas leis naturais da própria vida" - exigindo sua "restauração sistemática como uma lei reguladora da produção social”. Na industrialização da agricultura, sugeriu ele, a verdadeira natureza da "produção capitalista" foi revelada como sendo a de que "só se desenvolve minando simultaneamente as fontes originais de toda a riqueza - o solo e o trabalhador".

A fim de compreender o significado desta crítica ecológica para a crítica geral do capitalismo de Marx, é necessário reconhecer que o processo de trabalho e de produção foi, ele próprio, designado, em sua análise, como uma relação metabólica entre os seres humanos e a natureza. A definição primária de Marx do socialismo/comunismo foi, portanto, de uma sociedade em que "os produtores associados regulam o metabolismo humano com a natureza de forma racional... realizando-a com o mínimo dispêndio de energia". Junto com isso, ele desenvolveu a concepção mais radical que é possível da sustentabilidade, insistindo em que ninguém, nem mesmo todos os países e povos do mundo tomados em seu conjunto, é proprietário da Terra; que esta está simplesmente legada à confiança e precisa ser mantida para sempre em linha com o princípio do boni patres familias (bons chefes de família). Sua crítica ecológica global, portanto, requeria que, em vez das fendas abertas desenvolvidos sob o capitalismo, houvessem ciclos metabólicos fechados entre a humanidade e a natureza. Isto permitiu-lhe incorporar conceitos termodinâmicos em sua compreensão da economia e da sociedade [9].

A totalidade dos conhecimentos ecológicos de Marx ia, naturalmente, para além dos pontos anteriormente referidos. O espaço, no entanto, não nos permite o tratamento completo deles aqui. Ainda assim, vale a pena observar que a sua análise, juntamente com a de Engels, também tocou em questões críticas como o "esbanjamento" de combustíveis fósseis e de outros recursos naturais; a desertificação; a desflorestação e mudanças climáticas regionais - já compreendidas por cientistas do tempo de Marx, como resultantes, em parte, da degradação dos ambientes locais produzida pelo homem [10].

O Capital Monopolista e o Meio Ambiente

Elementos da crítica ecológica geral de Marx refletiram desenvolvimentos na ciência material, proporcionando inspiração direta e indireta para uma série de importantes cientistas materialistas e filósofos da ciência, nas décadas que se seguiram. As coisas eram bem diferentes, porém, dentro da Economia Política marxista, onde a crítica de Marx ao Raubbau capitalista foi raramente reconhecida (ou aproveitada) entre finais do século XIX e o encerramento do século XX [11].

As principais descobertas da economia política marxista e radical na esfera ecológica, no século XX, podem ser vistas como decorrentes de respostas para as novas condições associadas com a fase monopolista do capital, e com o regime ambiental alterado que este trouxe à existência. Os primeiros teóricos do capitalismo monopolista foram Rudolf Hilferding, na Alemanha, e Thorstein Veblen, nos Estados Unidos. Hilferding, embora construindo a sua análise diretamente sobre a Economia Política de Marx, tinha, surpreendentemente, muito pouco a dizer sobre as condições ambientais. Em contraste, Veblen – um economista socialista influenciado por Marx, mas não em si mesmo um marxista - viu a transição da livre concorrência para a idade da corporação monopolista como tendo imensas implicações para o meio ambiente, o uso dos recursos e o desperdício econômico.

Em seu último trabalho, de 1923, Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times (A Propriedade Absentista e a Empresa de Negócios em Tempos Recentes), Veblen sublinhou que "o plano americano" de exploração dos recursos foi um de acumulação por invasão, tanto do meio ambiente como das populações indígenas. Em linha com o Paradoxo de Lauderdale, ele tomou a forma de "uma prática constante de conversão de toda a riqueza pública para o ganho privado, em um plano de apreensão legalizada". O "costume", escreveu ele, foi "tomar em conta cada necessidade pública como um meio de ganho privado, e capitalizá-la enquanto tal".

Na fase de livre concorrência, Veblen argumentou, os "recursos básicos" tinham sido sobrexplorados "acelerando as saídas e baixando os preços", levando a "um esgotamento rápido, com desperdício, da oferta natural". Isto formou o palco para a entrada do capital monopolista, ou propriedade absentista (absentee ownership), com seus métodos mais colusivos de transformar a riqueza pública em ganho privado, por meio de uma regulação cuidadosa da escassez e dos preços de monopólio. Esta evolução foi especialmente evidente na madeira, carvão e indústrias de petróleo, cada uma das quais inicialmente envolvendo um prodigioso desperdício, levando por fim ao seu controle monopolista por um número relativamente pequeno de proprietários absentistas. Como resultado destes desenvolvimentos, Veblen observou, a "empresa de madeireiro, durante o período a partir de meados do século XIX, destruiu bastante mais madeira do que a que utilizou" [12].

As mais importantes idéias ecológicas de Veblen, no entanto, tiveram a ver com a transformação do valor de uso e do consumo sob o novo regime do grande negócio. Uma característica do capitalismo monopolista foi a virtual eliminação da concorrência de preços pelas empresas, que foi acompanhada pela restrição das saídas de produtos. Isso permitiu a formação monopolista (ou oligopolista) de preços, que produziu grandes ganhos para as empresas gigantes. Com a guerra de preços efetivamente proibida, a "estratégia competitiva" foi principalmente "confinada a duas linhas principais de atuação: reduzir o custo de produção de uma saída restrita; aumentar as vendas sem baixar os preços". Veblen apontou que a própria eficácia do capital monopolista na contenção dos custos de produção - mantendo os salários baixos e, portanto, em termos marxistas, aumentando a taxa de mais-valia - significava que, a qualquer preço dado, a margem disponível para aumentos nos custos de vendas (sem cortar as margens de lucro) era expandido. Assim, uma parte cada vez maior do custo total dos produtos foi associada com a promoção de vendas, em oposição à produção da mercadoria [13]. As implicações disso para a estrutura de valor de uso da economia foram profundas. "Um resultado", afirmou,

“tem sido um aumento muito substancial e progressivo dos custos de vendas; muito sensivelmente maior do que aquele que uma inspeção dos livros revelaria. Os produtores têm dado continuamente mais atenção para a negociabilidade de seus produtos, de modo que muito do que aparece nos seus livros como custo de produção deve ser devidamente qualificado como produção de aparências vendáveis. A distinção entre a fabricação e a mercantilização foi progressivamente esbatida, desta forma, até que, sem dúvida, é agora verdade que o custo de fabrico de muitos artigos destinados ao mercado está principalmente por conta da produção de aparências vendáveis” [14].

Ele viu isso como especialmente aplicável à “voga dos ‘bens empacotados’”:

A concepção e promulgação de recipientes vendáveis, - que o mesmo é dizer, de recipientes capazes de vender um conteúdo com base nos méritos do seu próprio efeito visual - tornou-se uma grande parte e, diz-se, um ramo muito lucrativo, do negócio da publicidade. Ela emprega um número formidável de artistas e redatores, bem como de porta-vozes itinerantes, demonstradores, intérpretes; mais do que um psicólogo de eminência foi retido pelas agências de publicidade para consulta e aconselhamento crítico sobre a viabilidade comercial competitiva de recipientes rivais e das etiquetas e notas doutrinárias que as embelezam. O custo de tudo isso é muito apreciável... É provavelmente seguro dizer que os recipientes são responsáveis por metade do custo de fabrico dos devidamente chamados «bens empacotados», e por algo que se aproximará também de metade do preço final pago pelo consumidor. Em alguns ramos, como, por exemplo, nos cosméticos e nos remédios caseiros, essa proporção é, sem dúvida, ultrapassada por uma margem muito substancial [15]

O resultado da infiltração de "arte de vender" na produção foi a proliferação de desperdícios econômicos definidos por Veblen, em The Theory of the Leisure Class (A Teoria da Classe Ociosa), como "despesas" que "não servem a vida humana ou o bem-estar humano como um todo". Na verdade, grande parte da procura inicial de bens adquiridos sob o capitalismo monopolista foi devida a "comparações pecuniárias acintosas", ou seja, a distinções de status decorrentes de ter algo para além do alcance de outras pessoas, bem como às diversas formas de "consumo conspícuo" e "desperdício conspícuo" associadas a isso. Quanto mais uma pessoa pudesse exibir ostentativamente a sua vida, maior o prestígio social de cada um. A publicidade corporativa incentivou essas comparações invejosas, primeiro entre os ricos e depois dentro das classes média e trabalhadora, muitas vezes incutindo nas pessoas um medo de perda de status social [16]

É crucial entender que o problema, levantado por Veblen, da transformação do consumo e da distorção dos valores de uso, sob o capitalismo, não desempenhara nenhum papel significativo no trabalho anterior, de Marx ou de seus seguidores imediatos (ou mesmo no de outros críticos do sistema no século XIX). É certo ter Engels escrito que, sob o capitalismo, "o efeito útil" de uma mercadoria "retira-se para segundo plano, tornando-se o único incentivo o lucro a ser feito sobre a sua venda" [17]. Implícita nessa visão estava a noção de que os valores de uso poderiam ser subordinados aos valores de troca e a estrutura de consumo às forças de produção. No entanto, em nenhum lugar em O Capital Marx fornece qualquer análise da "interação de produção e consumo resultante da mudança técnica" e das relacionadas transformações da estrutura de valor de uso da economia. O motivo foi que, no capitalismo competitivo do século XIX, os bens de consumo dos trabalhadores (diferentemente dos bens de luxo dos capitalistas) ainda não foram submetidos ao colossal "esforço de venda", que viria a surgir totalmente apenas com o capitalismo de monopólio [18]. Enquanto o desperdício foi lugar comum no capitalismo competitivo - decorrente da irracionalidade e da duplicação inerentes à competição em si - tais desperdícios não têm o mesmo papel "funcional" para a acumulação que mais tarde viriam a adquirir, sob o capitalismo monopolista, onde o principal problema já não era a eficiência da produção, no lado da oferta, mas a geração de mercados, no lado da procura. Por esta razão, publicidade e marketing em geral, juntamente com fatores como a diferenciação dos produtos, desempenharam apenas um papel minúsculo no século XIX. A análise destes desenvolvimentos teve assim de aguardar pela sua aparição, no início do século XX. Esta análise foi realizada primeiro por Veblen, e depois - numa síntese entre Marx e Veblen - em Monopoly Capital (Capital Monopolista), de Baran e Sweezy, em 1966.

Para Baran e Sweezy, o principal problema sob o capitalismo monopolista era a absorção do enorme excedente econômico, resultante da produtividade em constante expansão do sistema. Este excedente econômico poderia ser absorvido de três formas: o consumo capitalista, o investimento ou o desperdício [19]. O consumo capitalista foi limitado pela compulsão a acumular por parte da classe capitalista, enquanto que o investimento, em si próprio, foi limitado pela saturação do mercado (devido, principalmente, à compressão do consumo de base salarial e a condições de maturidade industrial). Assim, o capitalismo, na sua fase monopolista, foi ameaçado por um problema de mercados e por uma declinante taxa de utilização, tanto da capacidade produtiva como do trabalho empregável [20]. Sob tais circunstâncias, uma dependência aprofundada em relação ao desperdício econômico serviu para manter os mercados em funcionamento, tornando-se uma parte necessária da economia de monopólio capitalista.

Baran e Sweezy argumentaram que desperdício econômico tomou várias formas, nomeadamente, os gastos militares e no esforço de vendas, este último incluindo: "A publicidade, a variação na aparência dos produtos e embalagens, a 'obsolescência planejada', mudanças de modelo, planos de crédito, etc.." O esforço de vendas precedeu a fase monopolista do capitalismo, mas foi só sob o capital monopolista que assumiu “dimensões gigantescas".

A forma mais óbvia do esforço de vendas foi, é claro, a publicidade, que cresceu, por saltos e arranques, ao longo do século XX. Talvez a "função dominante" da publicidade para o sistema, como observaram Baran e Sweezy, seja "a de travar, em nome dos produtores e vendedores de bens de consumo, uma guerra implacável contra a economia e em favor do consumo" [21]. No entanto, a publicidade, reconheceram eles, era apenas a ponta do iceberg, no que respeita ao marketing moderno, que hoje também inclui a segmentação, a pesquisa de motivação, a gestão de produtos, a promoção de vendas e o marketing direto [22]. Segundo a Blackfriars Communications, os Estados Unidos, em 2005, gastaram para cima de $1 trilhão (milhão de milhões) de dólares, ou cerca de 9 por cento do PIB, em várias formas de marketing [23].

No entanto, o principal impacto estrutural do esforço de vendas no sistema de Baran e Sweezy, nisso seguindo Veblen, encontrava-se "no surgimento de uma condição na qual os esforços de vendas e de produção se interpenetram de tal forma a ponto de serem virtualmente indistinguíveis”. Isto marcou “uma mudança profunda no que constituem custos socialmente necessários de produção, bem como na própria natureza do produto social”. Nestas circunstâncias, as constantes mudanças de modelo, obsolescência de produtos, embalagens dispendiosas, etc., tudo serviu para reorganizar as relações de consumo - alterando a estrutura de valor de uso do capitalismo e ampliando os desperdícios incorporados na produção. Eles estimaram que só as mudanças de modelo automóvel custaram ao país uns 2,5 por cento do seu PIB. Em comparação com isso, as despesas dos fabricantes de automóveis em publicidade foram minúsculas. "No caso da indústria automobilística", escreveram eles, "e, sem dúvida, há muitos outros casos semelhantes, a este respeito, de longe, a maior parte do esforço de vendas é realizado não por trabalhadores obviamente improdutivos, tais como vendedores e redatores de publicidade, mas por trabalhadores aparentemente produtivos: fabricantes de ferramenta e moldes, desenhistas, mecânicos, operários de linha de montagem" Eles concluíram: "O que é certo é a declaração negativa, que, não obstante a sua negatividade, constitui uma das ideias mais importantes a serem obtidas na Economia Política: uma produção cujo volume e composição são determinados pelas políticas de maximização de lucros das empresas oligopolistas, nem corresponde às necessidades humanas, nem custa a quantidade mínima possível de esforço e de sofrimento humanos" [24].

Adotando uma perspectiva relacionada, Michael Kidron estimou conservativamente, em seu Capitalism and Theory (Capitalismo e Teoria) que, em 1970, 61 por cento da produção dos EUA poderia ser classificada como desperdício econômico - ou seja, recursos desviados para os militares, a publicidade, a finança e os seguros, desperdício nos negócios, consumo conspirativamente luxuoso, etc. [25]. Cada vez mais, o que estava sendo produzido sob o capitalismo monopolista eram valores de uso formais ou especificamente capitalistas, cuja "utilidade" primária estava no valor de troca por eles gerado para as corporações [26].

Padrões racionais de bem-estar humano e de utilização de recursos, Baran e Sweezy alegaram, exigem uma abordagem completamente diferente para a produção. Já em 1957, em The Political Economy of Growth (A Economia Política do Crescimento), Baran sugeriu que o excedente econômico ótimo, em uma economia planejada, seria menor do que o seu máximo potencial - exigindo assim um ritmo mais lento de crescimento econômico - devido, entre outras razões, à necessidade de reduzir determinados "tipos nocivos de produção (mineração de carvão, por exemplo)" [27]. Da mesma forma, Sweezy argumentara, na década de 1970, que a necessidade de cada trabalhador ter um carro para ir ao trabalho não era um produto da natureza humana, mas sim gerada artificialmente, como resultado de todo o "complexo automobilístico-industrial" da chamada sociedade capitalista "modernizada". O sistema de transportes privatizado (mas publicamente subsidiado) "externaliza" custos tais como a poluição do ar, a degradação urbana e as mortes no tráfego, para serem suportados pelo resto da sociedade, enquanto gera lucros enormes para as empresas. Em contraste, uma sociedade mais racional produziria valores de uso sociais: "funcionais, esteticamente atraentes e duráveis," aptos a satisfazer necessidades humanas genuínas, utilizando "métodos de produção compatíveis com processos de trabalho humanizados" [28].

Outros pensadores, no mesmo período, desenvolveram noções relacionadas. John Kenneth Galbraith desenvolveu a sua famosa tese do "efeito de dependência", aplicável ao capitalismo oligopolista em The Affluent Society (A Sociedade da Abundância), em 1958. Ele argumentou que o próprio processo de "produção de bens cria as necessidades que esses bens se presumem querer satisfazer" - uma tese projetada para derrubar a teoria neoclássica da soberania do consumidor. Joan Robinson na sua Palestra Richard T. Ely para a Associação Econômica Americana em 1971 (com Galbraith a presidir) levantou a questão da "segunda crise da teoria econômica". Erroneamente supondo que Keynes havia fornecido a solução para "a primeira crise", isto é, o nível ou a quantidade de produção, Robinson passou a afirmar que agora era a hora de nos voltarmos para a "segunda crise", isto é, para a qualidade ou o conteúdo da produção. Produção militar, poluição, desigualdade e pobreza foram todos sendo gerados, argumentou ela, não apesar de, mas por causa das estratégias adotadas para expandir o crescimento capitalista. No mesmo ano, Barry Commoner, em seu The Closing Circle (O Círculo que se Encerra), destacou os perigos ecológicos associados, em particular, com a indústria petroquímica, que ele argumentou estar profundamente enraizada num modo de produção cada vez mais tóxico, impulsionado pelo lucro [29].

Elementos desta crítica geral ecológica do capitalismo monopolista foram reunidos, em 1980, por Allan Schnaiberg, no seu tratado The Environment: From Surplus to Scarcity (O Meio Ambiente: do Excedente para a Escassez), um dos trabalhos fundadores da sociologia ambiental. Já na década de 1970, os ambientalistas começaram a falar de impacto ambiental, como resultado de três fatores: a população, a riqueza (ou consumo), e a tecnologia, com os dois últimos fatores, o consumo e a tecnologia, representando o papel da economia [30]. A estrutura do livro Schnaiberg foi claramente derivada desta conceção, com os capítulos de dois a cinco a focarem, sucessivamente, sobre a população, a tecnologia, o consumo e a produção. O brilho de Schnaiberg esteve em basear-se na Economia Política marxista e radical para mostrar que os primeiros três destes fatores foram condicionados pelo quarto, fazendo do que ele chamou "produção em rodagem perpétua" (treadmill of production) o problema fundamental do meio ambiente. Ele escreveu sobre o "capital monopolista em rodagem perpétua", e insistiu: "Tanto o volume como a fonte da produção em rodagem perpétua... são a indústria capital monopolista de alta energia".

Para Schnaiberg, a fase monopolista do capitalismo foi orientada para a economia de trabalho, pela produção intensiva em energia. Constantemente deslocando o trabalho e produzindo cada vez maior excedente econômico, que transbordou os cofres das empresas, o sistema gerou um problema crescente de procura efetiva - que então tentou resolver através da introdução de vários meios extraordinários de expansão do consumo. O consumo contemporâneo, argumentou ele em termos galbraithianos, não revelou tanto as preferências dos consumidores quanto as exigências de rentabilidade das empresas - com as escolhas do consumidor circunscritos pelo marketing moderno e pelas tecnologias da rodagem perpétua. A conclusão realista de Schnaiberg foi a de que as tentativas de enfrentar o problema ecológico concentrando-se sobre a população, o consumo, ou a tecnologia, inevitavelmente falharão - já que o problema real era a própria rodagem perpétua da produção [31].

A rodagem perpétua da produção (ou da acumulação), como já vimos, pode ser explicada, nos termos de Marx, utilizando a fórmula geral para o capital, ou M-C-M', a qual, no período seguinte de produção, torna-se M'-C-M'', e no período posterior a esse M''-C-M''', ad infinitum. Para Marx, o capital era um sistema de auto-expansão de valor. Como Sweezy viria a dizer, "ele não tinha nenhum mecanismo de frenagem que não fossem as periódicas crises econômicas" [32]. Esta é a base da crítica padrão ecológica dirigida ao capitalismo, que enfatiza o efeito de escada do crescimento capitalista, em relação à capacidade de suporte limitada do planeta. Por isso, é assumido que justamente para resolver o problema ecológico, é necessário intervir para abrandar, parar, inverter, e, finalmente, desmantelar o mecanismo de rodagem perpétua, especialmente no centro do sistema. No entanto, a perspectiva padrão da rodagem perpétua, se tomada por si só, tende a reduzir o problema ecológico a uma questão quantitativa, desenfatizando os aspectos mais qualitativos da dialética, representados hoje pela promoção de valores de uso especificamente capitalistas e, assim, do desperdício econômico.

Aqui é útil salientar que o C na relação a M-C-M’, representando o aspecto de concreto valor de uso da mercadoria, agora se transformou, sob controle monopolista, em um valor de uso especificamente capitalista, que podemos designar como CK – para representar a subordinação quase completa do valor de uso ao valor de troca no desenvolvimento da mercadoria. O problema de M-C-M' torna-se então um de M-CK-M', em que os problemas qualitativos, tal como os quantitativos, da acumulação/destruição ecológica se afirmam através da criação de valores de uso formais. Nos bens empacotados de hoje, o pacote, concebido para vender a mercadoria e incorporado nos custos de produção, é agora a maior parte da mercadoria. Assim, os comercializadores da Sopa Campbell comumente se referem à sopa como o simples substrato do produto. Ou, para usar um exemplo mais economicamente significativo, desde os anos 1930, o custo de produção do veículo a motor tem sido apenas uma pequena parte do preço de venda final, a maioria do qual está relacionada com marketing e distribuição. Como Stephen Fox depôs, no seu Mirror Makers: A History of American Advertising (Fabricantes de Espelhos: Uma História da Publicidade Americana), os carros de hoje são "bens empacotados de duas toneladas, variando pouco, por debaixo da epiderme do seu estilo cada vez mais estrambólico." O automóvel médio vendido nos Estados Unidos hoje tem menor eficiência de combustível que o Ford Modelo T [33]. Tudo isso sugere que o valor de uso, C, associado com as condições de produção em geral, tem cada vez mais dado lugar, sob o capitalismo monopolista, ao valor de uso especificamente capitalista, CK - incorporando todos os tipos de recursos socialmente improdutivos, com o objectivo de gerar maior volume de vendas, e, portanto, a realização de lucro, M'.

É esta redução implacável do consumo às necessidades de acumulação de capital, por meio da alienação do valor de uso (por exemplo, fazendo com que o embrulho de plástico faça parte do preço de produção de um pedaço de pão) que está por trás dos piores aspectos do que é erroneamente pensado como o "consumismo": a procura aparentemente infinita de produtos supérfluos, mesmo tóxicos, associados com a sociedade do descartável em que hoje vivemos [34]. De que outra forma explicar que, em todo o mundo, mais de 500 bilhões, talvez até um trilhão, de sacos de plástico de compras (dados de graça) são consumidos em cada ano, que cerca de 300 bilhões de quilos de embalagens são descartados todos os anos nos Estados Unidos, e que 80 por cento de todos os bens dos EUA são usados uma vez e depois jogados fora? Muito disso é lixo tóxico; os norte-americanos descartam sete bilhões de toneladas de PVC (policloreto de vinila) plástico - o mais perigoso produto plástico - anualmente. Em 2008, o Centro de Saúde, Meio Ambiente e Justiça divulgou um relatório indicando que uma cortina de chuveiro comum nova, que usa plástico PVC, lança 108 compostos voláteis separados no ambiente doméstico ao longo de vinte e oito dias de uso comum, criando um nível de acumulação destes compostos dezasseis vezes superior ao que foi recomendado pelo Conselho “Green Building” dos EUA [35].

Para além da sua natureza tóxica, o desperdício econômico e ecológico incorporado no processo de produção e consumo é enorme. "Para dizer que «o capitalismo tem sido, simultaneamente, o mais eficiente e o mais desperdiçador sistema produtivo da história»", escreveu Douglas Dowd em The Waste of Nations (Os Resíduos das Nações), “é apontar para o contraste entre a grande eficiência com que uma fábrica particular produz e empacota um produto, como pasta de dentes, e a ineficiência artificial e maciça de um sistema econômico que faz com que as pessoas paguem pelo dentífrico um preço do qual mais de 90 por cento se deve ao marketing, não à produção [36].

William Morris, que viu os primórdios do capitalismo monopolista, se referiu à "massa de coisas que nenhum homem sensato poderia desejar, mas que o nosso trabalho inútil produz - e vende" [37]. Hoje temos que reconhecer que muitos desses bens supérfluos representam enormes custos para o meio ambiente e para a saúde humana. Na verdade, muitos dos nossos valores de uso mais comuns, como Commoner explicou, são produtos da moderna química - introdução de produtos químicos sintéticos que são cancerígenos, mutagênicos e teratogênicos na produção, no consumo e no meio ambiente. Estes bens são baratos de produzir (sendo intensivos em energia e química, mas não em mão de obra), vendem e geram altas margens de lucro para as corporações. O facto de muitos deles serem praticamente indestrutíveis (não biodegradáveis) e, se incinerados - para impedir que assoberbem os aterros sanitários - emitirem dioxinas e outras toxinas mortais, é visto pelo sistema econômico como, simplesmente, uma questão lateral [38].

Em face de tais contradições, a economista radical Juliet Schor escreveu sobre o "paradoxo da materialidade", sugerindo que as pessoas em nossa sociedade não são demasiado materialistas, mas sim, na verdade, insuficientemente materialistas. Nós já não retemos, reutilizamos e reparamos os produtos, porque fomos ensinados a esperar que eles se quebrem ou desmoronem devido à obsolescência do produto, e a descartá-los então imediatamente. De facto, como uma sociedade, estamos presos a um padrão ainda mais profundo de obsolescência psicológica, promovido pelo marketing moderno, incentivando-nos a jogar fora o que acabamos apenas de comprar, assim que deixe de ser "novidade" [39].

O Significado da Revolução

A crítica ecológica gerada, no século XX, pela teoria do capital monopolista - cujos contornos essenciais tenho procurado apresentar aqui - somente acrescenta força adicional à clássica crítica ecológica de Marx ao capitalismo. Todos os dias estamos destruindo mais e mais riqueza pública - ar, água, solo, ecossistemas, espécies - na busca de riquezas particulares, o que torna o consumo em um simples complemento da acumulação, assumindo assim formas mais distorcidas e destrutivas.

A ruptura metabólica na relação da humanidade com a Terra, que Marx descreveu no século XIX, já evoluiu para múltiplas rupturas ecológicas, transgredir os limites entre a humanidade e o planeta. Não é apenas a escala de produção, mas ainda mais a estrutura dessa produção, que está em causa na versão contemporânea do Raubbau capitalista. "Tal é a dialética do processo histórico", escreveu Baran, "que, no quadro do capitalismo monopolista, as mais abomináveis e destrutivas características da ordem capitalista se tornam as próprias bases da sua contínua existência – tal como escravidão foi a condição sine qua non de seu surgimento" [40].

É a necessidade histórica de combater a destrutividade absoluta do sistema do capital, nesta fase - substituindo-o, como Marx previu, por uma sociedade de igualdade substantiva e sustentabilidade ecológica - que, estou convencido, constitui o sentido essencial da revolução em nosso tempo.

Notas:

[1] Paul Hawken, Amory Lovins, e L. Hunter Lovins, Natural Capitalism (New York: Little, Brown, and Co., 1999); L. Hunter Lovins e Boyd Cohen, Climate Capitalism (New York: Hill and Wang, 2011).

[2] Marx e Engels, Collected Works (New York: International Publishers, 1975), vol. 1, pp. 224–63; Franz Mehring, Karl Marx (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1979), pp. 41–42.

[3] Karl Marx, Early Writings (London: Penguin, 1974), pp. 309–22; Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), p. 754.

[4] James Maitland, Earl of Lauderdale, An Inquiry into the Nature and Origin of Public Wealth and into the Means and Causes of its Increase (Edinburgh: Archibald Constable and Co., 1819), pp. 37–59; Lauderdale’s Notes on Adam Smith, ed. Chuhei Sugiyama (New York: Routledge, 1996), pp. 140–41.

[5] Karl Marx, The Poverty of Philosophy (New York: International Publishers, 1964), pp. 35–36.

[6] Marx, Capital, vol. 3, p. 180.

[7] Karl Marx e Frederick Engels, Selected Works in One Volume (New York: International Publishers, 1968), p. 90; Karl Marx, Grundrisse (London: Penguin, 1973), p. 408; Allan Schnaiberg, The Environment: From Surplus to Scarcity (New York: Oxford University Press, 1980), pp. 220–34.

[8] Ernest Mandel, Marxist Economic Theory (New York: Monthly Review Press, 1968), vol. 1, p. 295.

[9] Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), pp. 283, 290, 348, 636–39, 860; Marx, Capital, vol. 3, pp. 911, 949, 959. Sobre Marx e a termodinâmica, leia-se Paul Burkett e John Bellamy Foster, “Metabolism, Energy, and Entropy in Marx’s Critique of Political Economy”, Theory and Society, 35, no. 1 (Fevereiro de 2006), pp. 109–56.

[10] Sobre específicas idéias ecológicas de Marx, nestas áreas, veja-se John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000), pp. 165-66, 169. Engels e Marx abordaram a questão da mudança climática local, principalmente em relação às mudanças de temperatura e precipitação resultantes de desflorestação. Ver as notas de Engels sobre Carl Fraas em Karl Marx e Friedrich Engels, MEGA IV, 31 (Amsterdam: Akadamie Verlag, 1999), pp. 512-15; Paul Hampton, "Classical Marxism and Climate Impacts”, Workers’ Liberty, August 5, 2010 ; Clarence J. Glacken, "Changing Ideas of the Habitable World", em Carl O. Sauer, Bates Marston e William L. Thomas, Jr., eds., Man’s Role in the Changing Face of the Earth (Chicago: University of Chicago Press, 1956), pp. 77-81.

[11] Sobre a relação da Ecologia de Marx com desenvolvimentos científicos posteriors, veja-se John Bellamy Foster, The Ecological Revolution (New York: Monthly Review Press, 2009), pp. 153–60. A argumentação de Liebig-Marx sobre o metabolismo ecológico foi influente nas discussões sobre Economia Política marxista até ao final do século XIX - por examplo, nas obras de August Bebel e de Karl Kautsky – mas perdeu-se de vista durante a maior parte do século XX (uma excepção é K. William Kapp em The Social Costs of Private Enterprise [Cambridge, Massachusetts; Harvard University Press, 1950], pp. 35–36).

[12] Thorstein Veblen, Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times (New York: Augustus M. Kelley, 1964), pp. 127, 168, 171–72, 190.

[13] Ibid., pp. 285–88, 299–300.

[14] Ibid., p. 300.

[15] Ibid., pp. 300–301.

[16] Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class (New York: New American Library, 1953), pp. 78–80; Veblen, Absentee Ownership…, p. 309.

[17] Marx and Engels, Collected Works, vol. 25, p. 463.

[18] Paul M. Sweezy, “Cars and Cities,” Monthly Review, 24, n.º 11 (Abril 1973), pp. 1–3, republicado em 51, n.º 11 (Abril de 2000); Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966), pp. 131–32.

[19] Baran e Sweezy, Monopoly Capital, p. 79.

[20] Sobre “A Decrescente Taxa de Utilização sob o Capitalismo”, veja-se István Mészáros, Beyond Capital (New York: Monthly Review Press, 1995), pp. 547–79.

[21] Baran e Sweezy, Monopoly Capital, pp. 114–15, 128. A concepção de desperdício económico de Baran e Sweezy (baseada na análise de Marx sobre trabalho improdutivo) era complexa, tomando em conta: (1) o desperdício como apercebido do ponto de vista do capital em geral (mas não reconhecido como tal pelo capitalista individual), e (2) o desperdício na perspetiva de uma sociedade racional, representando o ponto de vista da sociedade como um todo (equivalente à definição de Veblen). Para uma discussão detalhada, veja-se John Bellamy Foster, The Theory of Monopoly Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1986), pp. 97–101.

[22] Para uma análise exaustiva do marketing modern, veja-se Michael Dawson, The Consumer Trap (Urbana: University of Illinois Press, 2003).

[23] Metrics 2.0 Business and Market Intelligence, “U.S. Marketing Spending Exceeded $1 Trillion in 2005”, 26 de junho de 2006; Dawson, The Consumer Trap, 1. A estimative da Blackfriars Communications é, claramente, muitíssimo subestimada, uma vez que eles não incorporam todos os efeitos da gestão de produto, isto é, a penetração do esforço de vendas no processo de produção.

[24] Baran e Sweezy, Monopoly Capital, pp. 131, 137–39. Pode defender-se que o argumento de Baran e Sweezy’s (como o de Veblen) estava dirigido à crítica do capitalismo do ponto de vista de uma sociedade socialista racional, em linha com o que eles denominaram “a confrontação da realidade com a razão” (Monopoly Capital, p. 134), não sendo, portanto, um argumento ecológico per se. No entanto, é precisamente esta “confrontação da realidade com a razão” que hoje em dia unifica os argumentos pela ecologia e pelo socialismo. Veja-se, por exemplo, Paul M. Sweezy, “Capitalism and the Environment”, Monthly Review, 41, n.º 2 (Junho de 1989), pp. 1-10.

[25] Michael Kidron, Capitalism and Theory (London: Pluto Press, 1974), pp. 35–60.

[26] Henryk Szlajfer, “Waste, Marxian Theory, and Monopoly Capital,” in John Bellamy Foster e Henryk Szlajfer, ed., The Faltering Economy (New York: Monthly Review Press, 1984), pp. 302­04, 310-13; John Bellamy Foster, The Theory of Monopoly Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1986), pp. 39-42.

[27] Paul A. Baran, The Political Economy of Growth (New York: Monthly Review Press, 1957), p. 42.

[28] Paul M. Sweezy, “Comment,” in Assar Lindbeck, The Political Economy of the New Left (New York: Harper and Row, 1977), pp. 144-46.

[29] John Kenneth Galbraith, The Affluent Society (New York: New American Library, 1984), pp. 121–23; Joan Robinson, Contributions to Modern Economics (Oxford: Blackwell, 1978), pp. 1-13; Barry Commoner, The Closing Circle (New York: Alfred A. Knopf, 1971).

[30] Esta foi a famosa formula IPAT: Impacto = População x Riqueza (Affluence) x Tecnologia. Sobre a história da formula IPAT, veja-se Marian R. Chertow, “The IPAT Equation and Its Variants: Changing Views of Technology and Environmental Impact,” Journal of Industrial Ecology 4, n.º 4 (Outubro de 2000), pp. 13-29.

[31] Schnaiberg, The Environment, pp. 245-47; John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), pp. 193-206. A análise de Schnaiberg, baseando-se embora fortemente na Economia Política marxista, nunca aborda diretamente o problema fundamental da interpenetração entre o esforço de vendas e a produção, levantado tanto por Veblen como por Baran e Sweezy. Em trabalhos subsequentes, o seu modelo foi de-historicizado e reduzido a uma forma mais reificada e mecânica, com sistemática desenfatização da sua ligação à teoria marxista do capitalismo monopolista e mesmo da própria crítica do capitalismo. Assim, no seu último livro publicado - Kenneth A. Gould, David N. Pellow e Allan Schnaiberg, The Treadmill of Production (Boulder: Paradigm Publishers, 2008) – o capitalismo tem apenas uma aparição muito fugaz. No entanto, Schnaiberg nunca repudiou as suas concepções anteriores e continuou a tratar The Environment como a sua clássica e fundamental contribuição.

[32] Paul M. Sweezy, “Socialism and Ecology,” Monthly Review, 41, n.º 4 (Setembro de 1989), p. 7.

[33] Dawson, The Consumer Trap, pp. 88–92; Douglas Dowd, The Waste of Nations (Boulder: Westview Press, 1989), pp. 65–66; Stephen Fox, The Mirror Makers: A History of American Advertising and Its Creators (New York: William Morrow, 1984), p. 173; “Car Mileage: 1908 Ford Model T - 25 MPG 2008 EPA Average All Cars - 21 MPG”; Research and Innovative Technology Administration, Bureau of Transportation Statistics, Table, 4-23, “Average Fuel Efficiency of U.S. Light Duty Vehicles”. Baran e Sweezy referiram-se em Monopoly Capital, pp. 136–37, ao declíneo dos automóveis norte-americanos em eficiência de consumo entre 1939-1961.

[34] A evolução do fabrico de pão no capitalismo monopolista, incluindo a mudança das suas embalagens, foi usada por Baran para explicar como o esforço de vendas, o desperdício e despesas improdutivas são enxertadas no processo de produção da capital monopolista. Veja-se Baran, The Political Economy of Growth, XX.

[35] Susan Freinkel, Plastics: A Toxic Love Story (Boston: Houghton Mifflin, 2011), pp. 145–46; Annie Leonard, The Story of Stuff (New York: Free Press, 2010), pp. 68–71; Heather Rogers, “Garbage Capitalism’s Green Commerce,” in Leo Panitch e Colin Leys, eds., The Socialist Register, 2007 (New York: Monthly Review Press, 2007), p. 231.

[36] Douglas Dowd, The Waste of Nations (Boulder: Westview Press, 1989), p. 65.

[37] William Morris, News from Nowhere and Selected Writings and Designs (London: Penguin, 1962), pp. 121–22.

[38] Commoner, The Closing Circle, pp. 138–41; veja-se também John Bellamy Foster, The Vulnerable Planet (New York: Monthly Review Press, 1994), pp. 112-18.

[39] Juliet Schor, Plenitude (New York: Penguin, 2010), pp. 27, 40-41. Veja-se também Raymond Williams, Problems in Materialism and Culture (London; Verso, 1980), p. 185.

[40] Baran, The Political Economy of Growth, XV.

John Bellamy Foster (n. 1953) é professor de Sociologia na Universidade de Oregon (E.U.A.) e o atual diretor da revista marxista norte-americana Monthly Review. Discípulo de Paul Sweezy e continuador da escola de pensamento crítico por este fundada (com Paul Baran e Harry Magdoff), tem publicado numerosos livros sobre a crise ecológica e sua interseção com a economia política do capitalismo. Merecem destaque: The Vulnerable Planet: A Short Economic History of the Environment (1994), Marx’s Ecology: Materialism and Nature (2000), Ecology Against Capitalism (2002), The Ecological Revolution: Making Peace with the Planet (2009), The Ecological Rift: Capitalism's War on the Earth, com Brett Clark e Richard York (2010), What Every Environmentalist Needs To Know about Capitalism: A Citizen's Guide to Capitalism and the Environment, com Fred Magdoff (2011).

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...