1 de dezembro de 2014

A alemã tranquila

A surpreendente ascensão de Angela Merkel, a mulher mais poderosa do mundo.

George Packer


Herlinde Koelbl fotografa Merkel desde 1991. Koelbl diz que Merkel sempre foi "um pouco desajeitada", mas "você podia sentir sua força desde o começo". Fotografias por Herlinde Koelbl/ Agentur Focus/ Contact Press Images.

Tradução / Tarde de verão no Reichstag. A cúpula de vidro filtra a luz de Berlim, iluminando os turistas na rampa espiralada e penetrando no salão do Parlamento. Metade dos assentos reservados aos deputados está vazia. Da tribuna, uma figura baixinha, um tanto encurvada, de casaquinho fúcsia, calça comprida preta e um penteado semelhante a um capacete “cor de burro quando foge”, lê um discurso. Angela Merkel, chanceler da República Federal da Alemanha, faz todo o esforço para não ser interessante.

“Desde o início da crise na Ucrânia, estamos executando uma política com três vertentes”, diz ela, com os olhos no papel. Sua oratória monocórdica leva a plateia a prestar atenção em outra coisa. “Ao lado da primeira vertente, o apoio à Ucrânia, há uma segunda, que é o empenho incessante para encontrar, por meio do diálogo com a Rússia, uma solução diplomática para a crise.” Durante anos, falar em público sempre lhe foi penoso, sobretudo por não saber o que fazer com as mãos. Com o tempo, ela aprendeu a juntar as pontas dos dedos, formando um losango sobre a barriga.

O prédio do Reichstag foi construído na década de 1880, sob o governo do imperador Guilherme I e do chanceler Otto von Bismarck, quando uma Alemanha recém-unificada ascendia pela primeira vez a uma posição de destaque na Europa. Dois dias antes do fim da Primeira Guerra Mundial, um político social-democrata interrompeu seu almoço no interior do Reichstag, postou-se numa sacada do 1º andar do edifício e declarou a morte da Alemanha imperial: “Vida longa à República Alemã!” O Reichstag foi a sede do turbulento Parlamento durante a República de Weimar e os primórdios do governo nazista, até que, na noite de 27 de fevereiro de 1933, um incêndio suspeito teve início no plenário e quase devastou o edifício. O novo chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, correu para o local em companhia de seu assessor Joseph Goebbels e pôs a culpa do fogo nos comunistas, valendo-se da crise para suspender liberdades civis, esmagar a oposição e consolidar o poder nas mãos do partido nazista. O Parlamento votou por sua própria insignificância, e os nazistas nunca reformaram o prédio. Quando a Segunda Guerra Mundial terminava, os soviéticos – que viam no Reichstag o símbolo do Terceiro Reich – fizeram do edifício um alvo primordial na batalha por Berlim. A fotografia de um soldado do Exército Vermelho hasteando a bandeira de seu país em meio às estátuas neoclássicas do telhado transformou-se na imagem da derrota alemã.

Durante a Guerra Fria, a cúpula arruinada do Reichstag e suas paredes repletas de buracos de balas não passavam de relíquias abandonadas na terra de ninguém que era o Centro de Berlim. O Muro, construído em 1961, ficava a poucos metros dos fundos do edifício, mantido a salvo das intempéries por uma reforma mínima efetuada na década de 60. De modo geral, o Reichstag permaneceu marginalizado até a Queda do Muro, em 1989. À meia-noite de 3 de outubro de 1990, postado do lado de fora do prédio, o presidente Richard von Weizsäcker anunciou – diante de uma multidão de 1 milhão de pessoas – a reunificação da Alemanha, em liberdade e paz. Berlim se tornou a capital do país.

Ao longo da década seguinte, até que o Bundestag, a Câmara dos Deputados, começasse a se reunir ali oficialmente, a reconstrução do Reichstag se deu em meio a um debate franco e carregado de simbolismo – assim como o edifício em ruínas evocava os anos de totalitarismo, sua reconfiguração expressava uma Alemanha reunificada. A cúpula magnífica, projetada por Norman Foster, sugeria transparência e abertura. Obedecendo a um senso de fidelidade histórica, preservou-se a sentença DEM DEUTSCHEN VOLKE (Ao Povo Alemão) – feita do metal de canhões franceses capturados nas Guerras Napoleônicas –, que encimava as colunas da entrada. Após discussões no Parlamento, porém, encomendou-se a um artista teuto-americano a criação de um jardim interno, no qual a frase DER BEVÖLKERUNG (À População), desprovida do tom nacionalista do antigo lema, foi instalada em letras brancas em meio às plantas. Durante a reforma, descobriram nas paredes do 1º andar rabiscos em cirílico feitos por soldados do Exército Vermelho. Depois de novo debate, algumas dessas inscrições foram preservadas: nomes de combatentes, “de Moscou a Berlim, 9/5/45” e mesmo “Meti no cu de Hitler”. Lembretes históricos.

Nenhum outro país exibe a memória de seus conquistadores em seu mais importante edifício público. Os crimes alemães foram únicos, mas único também é seu modo de acertar as contas com a história. Ao integrar slogans dos soldados vitoriosos à sede de seu Parlamento, a Alemanha mostra que aprendeu lições essenciais de seu passado (coisa que os russos não aprenderam). Encarando o século XX, os alemães abraçam uma narrativa de libertação de si próprios do pior de sua história. Em Berlim, as reminiscências estão por toda parte. Basta pegar o metrô na Stadtmitte, entre o Memorial aos Judeus Mortos da Europa e o museu Topografia do Terror, dedicado aos crimes da Gestapo, e dar uma olhadinha nas notícias que o monitor de vídeo exibe: “Há oitenta anos, o PEN Clube de Berlim foi forçado a se exilar.” Qual um aplicado paciente psicanalítico, a Alemanha trouxe seu passado à superfície, discutiu-o infinitamente, aceitou-o, e esse trabalho de muitos anos a libertou, possibilitando-lhe uma vida nova e bem-sucedida.

Da tribuna, Merkel continua falando. Relata uma reunião em Bruxelas do Grupo dos Sete, que acaba de expulsar seu oitavo membro, a Rússia, por causa da guerra na Ucrânia. “Seremos persistentes quando se tratar de estabelecer a liberdade, a justiça e a autodeterminação no continente”, diz. “Nossa tarefa é proteger o caminho soberano da Ucrânia e responder com ideias do século XXI globalizado à ultrapassada noção das esferas de influência, que remonta aos séculos XIX e XX.” Merkel alcançou o ápice de sua retórica – o tom monótono se desacelera, sua mão faz um gesto sutil, esticando os dedos. Para quem não fala alemão, é como se ela estivesse lendo as normas de regulação do sistema ferroviário nacional.

A chanceler recebe um longo aplauso e vai se acomodar atrás da tribuna, entre os ministros de seu gabinete. Merkel perdeu 10 quilos – no início de 2014 fraturou a pélvis num acidente de esqui e, acamada, trocou os sanduíches de linguiça por cenouras. O rosto mais fino, os olhos fundos e as bochechas caídas denunciam seu cansaço. Ela é chanceler desde 2005 e ganhou um terceiro mandato em setembro de 2013, sem nenhum rival à vista.

Discurso encerrado, é a vez da oposição, ou do que resta dela. A coalizão governista, formada pelos democratas-cristãos do CDU – o partido de Merkel – e pelos sociais-democratas do SPD, tem 80% das cadeiras no Bundestag. O Partido Verde, que foi mal na eleição de 2013, tem tido dificuldade para diferenciar sua agenda da de Merkel, a quem com frequência apoia. No momento, a oposição ficou restrita ao Die Linke, o partido de esquerda composto, em sua maioria, de políticos da antiga Alemanha Oriental, com apenas 10% dos assentos. De terninho vermelho brilhante, a marxista ortodoxa Sahra Wagenknecht sobe à tribuna e passa a repreender Merkel pela política externa e econômica, responsável, afirma, por trazer o fascismo de volta à Europa. “Não podemos continuar abusando da posição altamente perigosa, semi-hegemônica, para a qual o país derrapou, no velho e implacável estilo alemão”, declara a deputada. Em seguida, cita o historiador francês Emmanuel Todd: “Sem dar-se conta, os alemães mais uma vez caminham para levar a calamidade aos demais povos europeus e, mais tarde, a si próprios.”

Merkel a ignora. Ri de alguma coisa com seu ministro da Economia, Sigmar Gabriel, e com o ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, ambos sociais-democratas. Enquanto Sahra Wagenknecht acusa o governo de apoiar fascistas em Kiev, Merkel se levanta para conversar com os ministros da fila de trás. Retorna à cadeira e remexe na bolsa vermelho-alaranjada, que destoa do casaquinho. Quando ergue os olhos para a oradora, ela o faz com um misto de tédio e desdém.

A deputada conclui sua catilinária, e os únicos a aplaudi-la são os membros de seu partido, isolados na extrema esquerda do plenário. Um a um, parlamentares do SPD e do Partido Verde se apresentam para defender Merkel. “Como é que a senhora pode nos comparar, a nós, alemães, com os fascistas?”, pergunta uma das líderes dos Verdes, Katrin Göring-Eckardt, e é aplaudida. Outra parlamentar, essa do Die Linke, intervém com uma citação de Bertolt Brecht: “Quem não sabe a verdade é só estúpido, mas quem sabe e diz que é mentira é criminoso.” Katrin se sente injuriada. A vice-presidente do Bundestag exige que a deputada do Die Linke obedeça ao protocolo. Merkel segue ignorando a discussão; em certo momento, chega a voltar as costas para o plenário; em outro, deixa o salão. Mais tarde, os noticiários falarão em cenas dramáticas no normalmente sonolento Bundestag, mas a linguagem corporal de Merkel é inequívoca: o drama foi obra de uma minoria insignificante. A chanceler tem o Parlamento sob controle.

O historiador Fritz Stern considera a era da reunificação “a segunda chance da Alemanha” – uma nova oportunidade para que ela desfrute da posição de o mais poderoso país europeu, depois do catastrófico período que começou um século atrás. Merkel parece perfeitamente adequada às exigências dessa segunda chance. Num país que a retórica apaixonada e a pose de macho conduziram à ruína, o distanciamento analítico e a ausência de um ego aparente são vantagens políticas. Num continente em que o medo da Alemanha está longe de haver desaparecido, a chanceler, com seu ar de pessoa comum, atenua a eventual ameaça que uma Alemanha novamente em ascensão possa ocasionar. Os alemães a chamam de Mutti, “mamãe”. No início o apelido pretendia ser um insulto de seus adversários no CDU, e ela não gostou; mas, tão logo ele pegou, ela o adotou.

Enquanto boa parte da Europa está estagnada, a Alemanha é um gigante econômico, com desemprego baixo e uma sólida base manufatureira. A atual crise monetária da zona do euro transformou a maior nação credora da Europa numa superpotência regional. Se os Estados Unidos mergulham numa desigualdade cada vez mais profunda, a Alemanha preserva sua classe média e um alto nível de solidariedade social. Jovens indignados ocupam as praças em diversos países, mas na Alemanha as multidões se reúnem para concertos ao ar livre e para celebrar a Copa do Mundo. Hoje quase pacifista, a Alemanha ficou de fora de boa parte das guerras recentes, que se revelaram expedições punitivas inúteis para outros países ocidentais. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2014, partidos da extrema esquerda e da extrema direita cresceram por todo o continente; na Alemanha, os vencedores foram centristas cujos rostos insipidamente afáveis sorriam nos cartazes, nenhum deles mais onipresente que o de Merkel, que nem sequer estava na disputa. A política americana está tão polarizada que o Congresso parou de funcionar na prática; o consenso na Alemanha é tão estável que novas leis brotam do Parlamento, ainda que o debate relevante tenha quase desaparecido.

“Autocrítica e autodepreciação integram a história de sucesso alemã – fortalecer-se odiando a si mesmo”, disse-me Mariam Lau, que cobre política para o semanário Die Zeit. “E Merkel também teve de se reeducar. Ela é fruto da autorreeducação da Alemanha.”


Entre os líderes alemães, Angela Merkel configura uma anomalia tripla: é mulher (divorciada, casada de novo, sem filhos), é cientista (química quântica) e é uma Ossi (ou seja, proveniente da Alemanha Oriental). Embora tais atributos façam dela uma outsider na política alemã, eles também ajudaram a impulsionar sua extraordinária ascensão. E, no entanto, na tentativa de explicar seu sucesso, alguns observadores olham para todos os lados, menos para a própria chanceler. Ao longo de sua carreira, a atual chanceler tem feito políticos mais velhos e mais poderosos – quase todos homens – pagarem um preço alto por subestimá-la.

Merkel nasceu em Hamburgo, na Alemanha Ocidental, em 1954. Seu pai, Horst Kasner, era pastor da Igreja Luterana, uma das poucas instituições que operou nas duas Alemanhas. Severo e exigente, ele atravessou a fronteira com a família poucas semanas depois que Angela nasceu – e contra o desejo da mulher –, para assumir missões eclesiásticas na República Democrática Alemã. Naquele ano, quase 200 mil alemães orientais fugiram na direção contrária. A decisão insólita de Kasner valeu-lhe a pecha de “pastor vermelho” por parte de dirigentes da igreja alemã-ocidental. Joachim Gauck, ex-pastor e dissidente alemão-oriental – eleito presidente da Alemanha (cargo em grande parte decorativo) em 2012 –, certa vez disse a um colega que, no lado comunista, os membros da Igreja Luterana mantinham distância de Kasner, integrante da Federação dos Pastores Evangélicos, controlada pelo Estado. Segundo a maioria dos relatos, as motivações de Kasner eram tanto carreiristas como ideológicas.

Angela, a mais velha de três filhos, foi criada nos arredores de Templin, uma cidade de paralelepípedos entre os pinheiros da floresta de Brandemburgo, ao norte de Berlim. Os Kasner moravam no seminário em Waldhof, um complexo de cerca de trinta edificações, muitas do século XIX, pertencente à Igreja Luterana. Waldhof abriga – até hoje – centenas de deficientes físicos e mentais, que lá aprendem um ofício e trabalham na agricultura. Ulrich Schöneich, administrador do local na década de 80, disse que no período comunista o lugar era horrível, com até sessenta homens entulhados num único cômodo, mobiliado apenas com camas de armar. Merkel certa vez comentou ter visto residentes amarrados a bancos, mas acrescentou: “Crescer perto de pessoas com deficiências foi uma experiência importante. Aprendi a tratá-los de um jeito muito normal.”

A formação de Angela num país comunista foi tão normal quanto ela conseguiu fazer que o fosse. “Nunca senti a RDA como meu país natal”, ela afirmou à fotógrafa alemã Herlinde Koelbl em 1991. “Tenho um espírito relativamente ensolarado e sempre tive a expectativa de que minha trajetória de vida seria também relativamente ensolarada, a despeito do que acontecesse. Nunca me permiti ser amarga. Sempre me vali da margem de liberdade que a RDA me permitia [...] Não havia sombra sobre minha infância. E, mais tarde, agi de maneira tal a não me colocar em permanente conflito com o Estado.” Durante sua primeira campanha para a chefia do governo, em 2005, Merkel descreveu seus cálculos de forma mais direta: “Decidi que, se o sistema se tornasse demasiado terrível, eu tentaria fugir. Mas, se as coisas não fossem tão ruins, eu não faria da minha vida uma luta contra o sistema, porque tinha medo do mal que aquilo poderia me causar.”

Ser filha de um pastor protestante do Ocidente implicava privilégios e riscos. Os Kasner tinham dois carros: o onipresente Trabant – um caixote de lata de baixa potência que se tornou objeto de uma Ostalgiekitsch – e um Wartburg, mais luxuoso, que era o carro oficial da igreja. A família recebia roupa e comida de parentes em Hamburgo, assim como Forumschecks, cheques em marcos ocidentais aceitos nas lojas de hotéis de Berlim Oriental que vendiam produtos do Oeste. “Eles pertenciam à elite”, disse Erika Benn, a professora de russo de Angela em Templin. A igreja, porém, mantinha certa independência do Estado, o bastante para que os Kasner vivessem sob suspeita. Durante a infância de Angela, organizações religiosas passaram a ser vistas como agentes da inteligência ocidental. Em 1994, um relatório oficial sobre a repressão na Alemanha Oriental concluiu: “Ao final da RDA, o país de Martinho Lutero havia sido descristianizado.”

Quem mais sofria na família era Herlind, a mãe de Angela, que transmitiu à filha a paixão pelo estudo. Professora de inglês, todo ano ela solicitava um emprego às autoridades educacionais, e elas sempre lhe respondiam não haver vagas disponíveis, embora carecessem de professores de inglês.

Angela era desajeitada, tanto que mais tarde ela se classificaria como “uma idiota motora”. Aos 5 anos, mal conseguia descer uma ladeira sem cair. “O que uma pessoa normal faz automaticamente para mim era, primeiro, um esforço mental, depois, objeto de exaustivos exercícios”, disse certa vez. De acordo com Erika Benn, na adolescência Merkel nunca foi “atirada” nem namoradeira. Não ligava para roupas, “sempre sem cor”, e “o corte de cabelo era uma coisa: ela parecia ter uma panela na cabeça”. Um ex-colega de escola certa vez a caracterizou como membro do Clube das Bocas Virgens, as que nunca foram beijadas – o tal colega se tornou chefe de polícia de Templin e quase perdeu o emprego quando esse comentário foi ventilado. Merkel era uma estudante excepcional, com uma motivação feroz. Um parceiro político de longa data identifica naqueles primeiros anos em Templin a origem do ímpeto da chanceler. “Ela decidiu: ‘Não quer me comer? Tudo bem. Eu é que vou engolir você com as armas de que disponho’”, disse-me ele. “E essas armas eram sua inteligência, sua vontade e seu poder.”

Quando Angela estava na 8ª série, Erika Benn a recrutou para o Clube Russo, treinando-a para a Olimpíada de Língua Russa da Alemanha Oriental. Durante os ensaios de pequenos esquetes, a professora precisava exortar a aluna a erguer os olhos e sorrir ao oferecer um copo d’água a um colega: “Será que você poderia ser um pouco mais simpática?” Merkel saiu-se vencedora em todos os níveis, da competição entre escolas à nacional, feito que conseguiu três vezes, para a glória de Frau Benn, um membro do partido com ambições compatíveis com sua cidadezinha. Em seu apartamento em Templin, Erika Benn, hoje com 76 anos, mostrou com orgulho um certificado de vitória de 1969. “O busto de Lênin está no porão”, acrescentou. Pouco antes de morrer, em 2011, Horst Kasner enviou um recorte de jornal a uma colega de Erika com uma foto da filha ao lado de Vladimir Putin. O presidente da Rússia externava sua admiração pelo fato inédito de poder conversar em sua língua materna com um líder mundial.

In 1970, an incident exposed the fragile standing of the bürgerlich Kasner family. At a local Party meeting, the Russian Club’s latest triumph was announced, and Benn expected praise. Instead, the schools supervisor observed acidly, “When the children of farmers and workers win, that will be something.” Benn burst into tears.

Angela Merkel estudou física na Universidade de Leipzig e concluiu um doutorado em química quântica em Berlim. Como nunca bateu de frente com o partido, foi favorecida no momento de ser aceita na pós-graduação. Ulrich Schoeneich – que, depois da reunificação, tornou-se prefeito de Templin – expressou sua amargura por não terem cobrado de Merkel sua acomodação ao sistema. O pai dele, Harro, também tinha sido pastor protestante, mas, ao contrário de Kasner, discordava publicamente do regime. Schoeneich se recusou a entrar para a Juventude Livre Alemã, a “reserva combatente” do partido, organização à qual a maioria dos adolescentes da RDA aderia, inclusive Angela Kasner, que dela participou até a idade adulta. “Não apenas como um nome a mais, mas como a responsável por agitação e propaganda”, contou ele, mencionando Das Erste Leben der Angela M. [A Primeira Vida de Angela M.], uma recente e controvertida biografia da chanceler. E acrescentou: “Estou convencido de que ela só pôde fazer o doutorado porque era ativa na Juventude Livre Alemã, até mesmo na pós-graduação. Muitos dizem que éramos coagidos, mas eu sou a prova de que ninguém era obrigado a entrar para a organização.” A própria Merkel já admitiu que seu envolvimento era “70% oportunismo”.

Ulrich Schoeneich não obteve permissão para terminar o colegial, e passou boa parte da juventude pagando o pato pela oposição de sua família ao regime. Angela Kasner tinha outros planos para o futuro e fez, no máximo, uma oposição passiva. Evelyn Roll, uma das biógrafas da chanceler, descobriu um documento da Stasi de 1984 que a descrevia como “bastante crítica em relação ao Estado”, e prosseguia: “Desde a fundação do Solidariedade na Polônia, ela foi uma entusiasta de suas reivindicações e ações. Ainda que Angela identifique na União Soviética uma ditadura a que todos os demais países socialistas obedecem, ela é fascinada pela língua russa e pela cultura soviética.”

Rainer Eppelmann, corajoso clérigo dissidente do comunismo, conheceu Merkel logo após a Queda do Muro e se recusa a criticá-la: “As pessoas, em sua maioria, apenas sussurravam. Nunca diziam o que pensavam, o que sentiam, do que tinham medo. Até hoje, não temos plena consciência do efeito disso nos indivíduos.” Eppelmann acrescenta: “Para ser fiel a suas esperanças, ambições, crenças e sonhos, era preciso ser herói 24 horas por dia. Ninguém consegue.”

Depois de 1989, quando Merkel teve a oportunidade de entrar na política democrática, essas mesmas qualidades lhe foram úteis, mas de outra maneira. Eppelmann explica: “Uma pessoa acostumada a sussurrar pode ter mais facilidade para aprender uma vida nova: espera para ver, em vez de pôr tudo para fora de uma vez – ou seja, reflete antes de falar. Quem sussurra pensa: ‘Como é que posso dizer isso sem me prejudicar?’ É como um jogador de xadrez. Tenho a impressão de que ela pensa com mais cuidado e está sempre alguns lances à frente do adversário.”


Em 1977, aos 23 anos, Angela se casou com o físico Ulrich Merkel, mas o casamento logo fracassou, acabando em 1981. Passou a década final da RDA como química quântica na Academia de Ciências da Alemanha Oriental, uma sombria instalação de pesquisa em frente a um quartel da Stasi. Era a única mulher na seção de química teórica – observadora sagaz e curiosa a respeito de tudo.

Pessoas que acompanharam sua carreira atribuem a chave de seu sucesso político ao hábito de pensar em termos científicos. “Ela é praticamente a melhor analista de qualquer situação que eu possa imaginar”, afirma um alto funcionário do governo. “Examina vários vetores, extrapola e diz: ‘As coisas estão indo nessa direção.’” Treinada para ver o mundo invisível das partículas e das ondas, Merkel aborda os problemas de maneira metódica, traçando comparações, imaginando cenários, pesando riscos, prevendo reações e, então, mesmo depois de tomada a decisão, deixa-a descansar antes de agir. Certa vez, ela contou um episódio de sua infância: havia ficado em pé no trampolim durante toda a aula de natação – só pulou na piscina quando a campainha tocou.

Distanciamento científico e cautela podem ser qualidades complementares numa ditadura. No caso de Merkel, a essas características juntaram-se os modos reticentes, com uma pitada de ironia, de uma mulher navegando por um mundo masculino. She once joked to the tabloid Bild Zeitung, with double-edged self-deprecation, “The men in the laboratory always had their hands on all the buttons at the same time. I couldn’t keep up with this, because I was thinking. And then things suddenly went ‘poof,’ and the equipment was destroyed.” Throughout her career, Merkel has made a virtue of biding her time and keeping her mouth shut.

“Ela não é uma mulher de emoções fortes”, diz Bernd Ulrich, subeditor do Zeit. “Emoção demais perturba a razão. She watches politics like a scientist.” He called her “a learning machine.” Volker Schlöndorff, the director of “The Tin Drum” and other films, got to know Merkel in the years just after reunification. “Before you contradict her, you would think twice—she has the authority of somebody who knows that she’s right,” he said. “Once she has an opinion, it seems to be founded, whereas I tend to have opinions that I have to revise frequently.”

De manhãzinha, Merkel deixava seu apartamento em Prenzlauer Berg – um bairro boêmio perto do Centro – e pegava o trem para a Academia de Ciências. Em vários trechos, seu trem corria paralelamente ao Muro, os telhados de Berlim Ocidental quase ao alcance da mão. Às vezes, ia para o trabalho em companhia de um colega, Michael Schindhelm. “Todo dia, desde cedo, você se confrontava com o absurdo desta cidade”, ele lembrou. Schindhelm considerava Merkel a pesquisadora mais séria da seção de química teórica, invariavelmente frustrada pela falta de acesso a publicações e cientistas ocidentais. Sempre que os colegas desciam para saudar a caravana que trazia do aeroporto alguma autoridade do mundo comunista, ela ficava trabalhando. “Queria mesmo chegar a algum lugar”, recorda o ex-colega. “Outros só queriam saber de ficar naquele nicho confortável, enquanto o país ia para o brejo.”

Em 1984, Schindhelm e Merkel passaram a dividir um escritório e, entre um e outro café turco que ela fazia, aproximaram-se. Os dois tinham uma visão relativamente crítica da Alemanha Oriental. Schindhelm estudara cinco anos na União Soviética e, quando as primeiras notícias da perestroika de Mikhail Gorbachev começaram a chegar, Merkel perguntou ao colega se ele via potencial de mudança naquele movimento. Ambos sentiam que o mundo além-Muro era mais desejável do que aquele em que viviam. (Years later, Schindhelm, who became a theatre and opera director, was revealed to have been coerced by the Stasi into serving as an informer, though he apparently never betrayed anyone.)

One day in 1985, Merkel showed up at the office with the text of a speech by the West German President, Richard von Weizsäcker, given on the fortieth anniversary of the end of the Second World War. Weizsäcker spoke with unprecedented honesty about Germany’s responsibility for the Holocaust and declared the country’s defeat a day of liberation. He expressed a belief that Germans, in facing their past, could redefine their identity and future. In the West, the speech became a landmark on the country’s return to civilization. But in East Germany, where ideology had twisted the history of the Third Reich beyond recognition, the speech was virtually unknown. Merkel had procured a rare copy through her connections in the Church, and she was deeply struck by it.

Being an East German meant retaining faith in the idea of Germany even though many West Germans, who needed it less, had given up on reunification. As East Germany decayed, its citizens had nothing else to hold on to, whereas Westerners had been taught to suppress feelings of nationhood. “People were really lacking identity—there was an enormous vacuum to making sense of your existence,” Schindhelm said. Merkel’s excitement about the speech showed that “she had a very particular passion for Germany as a country, its history and culture.”

No ano seguinte, Merkel foi autorizada a ir ao casamento de um primo em Hamburgo. Depois de experimentar os trens milagrosamente confortáveis da Alemanha Ocidental, ela voltou a Berlim Oriental convencida de que o sistema socialista estava condenado. “Voltou muito impressionada, mas voltou”, disse Schindhelm. “Ficou na Alemanha Oriental não por lealdade ao Estado, mas porque era onde tinha sua rede de conhecidos, sua família.” Merkel, aos 30 e poucos anos, ansiava por 2014, quando, aos 60 anos, receberia a aposentadoria e teria permissão para viajar à Califórnia.


A segunda vida de Angela Merkel começou na noite de 9 de novembro de 1989. Em vez de se juntar à multidão delirante que afluía ao recém-aberto Muro, ela foi com uma amiga a sua sauna das quintas-feiras. Mais tarde cruzou o lado ocidental pelo controle da Bornholmer Strasse, mas, em vez de se encaminhar, como os demais, às lojas elegantes da Kurfürstendamm, logo voltou para casa – trabalhava no dia seguinte e precisava levantar cedo. Nos meses seguintes, porém, nenhum alemão-oriental agarrou as novas liberdades com mais fervor do que Angela Merkel. Poucos princípios irredutíveis ficaram evidentes em sua carreira política, mas um deles é o direito de perseguir a própria felicidade. “Não são muitos os sentimentos que ela preza, mas a liberdade é um deles”, afirmou Katrin Göring-Eckardt, a líder do Partido Verde. “E isso, claro, tem a ver com a experiência de alguém que cresceu numa sociedade que censurava os jornais, bania os livros e proibia as viagens.”

Um mês depois da Queda do Muro, Merkel visitou o Despertar Democrático, um novo grupo político cujo escritório ficava perto de seu apartamento. “Posso ajudar?”, perguntou. E logo a encaminharam para instalar os computadores que haviam sido doados pelo governo alemão-ocidental. Voltava sempre, embora de início quase ninguém tenha notado sua presença. Era um momento em que as coisas acontecem rapidamente e o acaso e as circunstâncias podem fazer toda a diferença. Em março de 1990, o líder do Despertar Democrático, Wolfgang Schnur, foi denunciado como informante da Stasi e, numa reunião de emergência, Rainer Eppelmann, o clérigo dissidente, foi escolhido para substituí-lo. Merkel foi incumbida de cuidar da multidão ruidosa de jornalistas, e ela o fez com tamanha calma e confiança que, passadas as eleições daquele mês na Alemanha Oriental, Eppelmann sugeriu o nome dela para porta-voz do primeiro e último primeiro-ministro eleito democraticamente no país: Lothar de Maizière.

“Ela era fleissig – o contrário de preguiçosa”, lembra Eppelmann. “Nunca se colocava em primeiro plano. Entendia que tinha um trabalho a fazer ali, e que precisava fazê-lo bem, mas que não era a chefe.” De Maizière já tinha um porta-voz, e Merkel se tornou a porta-voz assistente. “O Número 1 só se exibia, enquanto era ela quem fazia todo o trabalho”, conta Eppelmann. E assim Merkel ganhou a confiança de De Maizière, que passou a levá-la consigo em visitas a capitais estrangeiras. Certa ocasião, ele descreveu Merkel como uma “típica cientista da RDA”, de “saia longa, sandálias com tiras de couro e cabelo batidinho”. Depois de uma viagem ao exterior, ele pediu que seu staff a levasse para comprar roupas.

o começo dos anos 90, o cineasta Volker Schlöndorff, diretor de O Tambor, frequentou jantares mensais de um pequeno grupo de pessoas – do Leste e do Oeste – que incluía Merkel e seu parceiro, Joachim Sauer, outro cientista. (Eles viriam a se casar em 1998.) A cada encontro os convivas se reuniam numa casa diferente. O anfitrião falava de sua formação, e assim se sabia um pouco de como era a vida de um e outro lado. Schlöndorff viu em Merkel uma interlocutora muito séria, mas espirituosa. Num fim de tarde, na casa de campo extremamente modesta que ela e Sauer haviam construído perto de Templin, os dois foram passear pelos arredores. “Conversamos sobre a Alemanha, sobre o futuro do país”, Schlöndorff lembra. “Fui irônico e sarcástico, mas aquilo não colava com ela. Era como se me dissesse: ‘Olha, vamos falar sério, não se pode brincar com esses assuntos.’”

A determinação de entrar para a política é o principal mistério de uma vida opaca. Angela Merkel raras vezes fala sobre si mesma em público e nunca explicou essa decisão. Não foi um plano de longo prazo. Como a maioria dos alemães, ela não previu o colapso repentino do comunismo nem as oportunidades que ele acarretou. Mas, chegado o momento, Merkel, aos 30 e poucos anos, viu-se solteira e sem filhos, trabalhando numa instituição sem futuro da Alemanha Oriental. Uma mulher ambiciosa como ela há de ter compreendido que a política seria a esfera mais dinâmica da nova Alemanha. Schlöndorff resume: “Hesitante, ela agarrou a oportunidade.”

Na verdade, a reunificação significou a anexação do Leste pelo Oeste, o que demandava que se dessem a alemães-orientais postos importantes no governo. O fato de Merkel ser mulher e jovem fazia dela uma opção bastante atraente. O Despertar Democrático se fundiu ao CDU antes da primeira eleição na Alemanha reunificada, em outubro de 1990, e ela conquistou uma cadeira de deputada. Mexeu seus pauzinhos e foi apresentada ao chanceler Helmut Kohl, a quem De Maizière sugeriu seu nome para o gabinete. Para surpresa de Merkel, ela foi nomeada ministra da pasta Mulheres e Juventude – um posto, segundo admitiu a um jornalista, que não a interessava minimamente. Não era feminista nem tinha como causa a defesa da paridade econômica para a antiga Alemanha Oriental. Na verdade, não tinha agenda política. De acordo com Karl Feldmeyer, repórter de política do Frankfurter Allgemeine, ela era movida por um “instinto perfeito para o poder”.

Kohl, à época no auge, apresentava Merkel a dignitários estrangeiros como uma peça rara, diminuindo-a ao chamá-la de mein Mädchen – “minha garota”. Foi preciso ensiná-la a usar cartão de crédito. As reuniões de gabinete eram dominadas pelo chanceler e Merkel, embora sempre bem preparada, raramente falava. Em seu Ministério, no entanto, era respeitada pela eficiência com que absorvia informações, e temida por seu temperamento e falta de papas na língua. Segundo sua biógrafa Evelyn Roll, ela ganhou o apelido de “Angie, a cobra”, e a fama de ser pouco receptiva a críticas. Em 1994, ao ser nomeada para o Meio Ambiente, ela exonerou o mais importante funcionário do Ministério quando ele sugeriu que ela precisaria de sua ajuda para tocar o trabalho.

Em 1991, Herlinde Koelbl deu início a seu projeto Vestígios do Poder – ao longo de uma década, ela fotografaria políticos alemães, para registrar em que medida a vida pública os modificaria. A maior parte dos homens – como Gerhard Schröder, social-democrata que se tornou chanceler em 1998, e Joschka Fischer, que foi seu ministro das Relações Exteriores – pareceu inflar de orgulho. Herlinde disse que Merkel permaneceu ela mesma: “Um tanto desajeitada em sua linguagem corporal.” Todavia, acrescentou, “podia-se sentir sua força desde o começo”. No primeiro retrato, com o queixo ligeiramente caído, ela olha para a câmera; não demonstra propriamente timidez, e sim prudência. As fotografias sucessivas revelam uma confiança crescente. Nas sessões, Merkel estava sempre com pressa, sem tempo para conversa mole. “Schröder e Fischer são vaidosos”, diz Koelbl. “Merkel não, continua sem vaidade. E isso a ajudou, porque, se você é vaidoso, vê tudo de forma subjetiva. Se não é, é mais objetivo.”

Fazer política numa democracia era um jogo que Merkel tinha de aprender com o mesmo método que ensinara seu corpo a controlar sua “idiotia motora”, aos 5 anos. Tornou-se uma estudante tão aplicada que preocupou alguns colegas da antiga Alemanha Oriental. Petra Pau, deputada do Die Linke, certa feita flagrou-a dizendo: “Nós, alemães-ocidentais...” Mas o que fez de Merkel uma figura potencialmente transformadora na política alemã foi que, no fundo, ela não era parte daquilo. O CDU era mais receptivo que o SPD a alemães-orientais de mentalidade liberal. Mas era também um patriarcado enfadonho, cuja base era o sul católico da Alemanha. “Mentalmente, ela nunca integrou o CDU”, observa Feldmeyer, o jornalista do Frankfurter Allgemeine. “É estranha a tudo no partido. Ele não passa de uma ferramenta para o poder dela.”

Alan Posener, do jornal conservador Die Welt, disse: “A pauta que motiva a base do CDU nada significa para ela” – questões como “mães que trabalham fora, casamento gay, imigração, divórcio”. O mesmo vale para a aliança transatlântica com os Estados Unidos, a pedra fundamental da segurança da Alemanha Ocidental. Posener disse que Merkel estudou os detalhes dessa aliança “no manual do CDU”. Michael Naumann, editor de livros e jornalista que foi ministro da Cultura de Schröder, comenta: “A atitude dela em relação aos Estados Unidos é uma atitude aprendida.” Dirk Kurbjuweit, biógrafo de Merkel e jornalista da revista Spiegel, afirma: “Ela de fato preza a liberdade, porque sofreu com a falta dela na RDA. Por outro lado, aprendeu a democracia – não é uma democrata inata, como ocorre com os americanos.”

Os políticos da Alemanha Ocidental da geração de Merkel se formaram nas rebeliões culturais subsequentes às revoltas de 68, que mal chegaram a ela. Certa noite, num jantar em meados da década de 90, Merkel pediu ao ex-radical Schlöndorff que lhe explicasse a violência cometida pelo grupo Baader-Meinhof. Ele lhe disse que os jovens queriam romper com a cultura autoritária que vigorava na Alemanha, mesmo com a derrota dos nazistas. Quanto mais explicava, menos ela parecia se solidarizar: não era contra a autoridade, a não ser aquela do tipo praticado na Alemanha Oriental. No Ocidente, os jovens reclamavam do quê? Para Merkel, os alemães-ocidentais pareciam crianças mimadas.

A despeito de todo o terreno que ela teve de recuperar em sua educação política, ser alemã-oriental lhe deu certas vantagens: tinha a autodisciplina, a força de vontade e o silêncio como ferramentas essenciais. “Para sobreviver e ter sucesso, cometer erros estava fora de questão”, disse Feldmeyer.

No início de sua carreira política, Merkel contratou a jovem Beate Baumann, do CDU, para administrar seu escritório. Baumann, até hoje sua conselheira mais influente, era a Número 2 perfeita: leal, discreta e a única que se dirigia à chefe com total franqueza. “Baumann não podia ser uma política, e Merkel não estava familiarizada com o Ocidente”, disse Bernd Ulrich, do Zeit. “Ela era sua intérprete para tudo que fosse tipicamente alemão-ocidental.” Cansadas das atitudes intimidatórias e presunçosas de Kohl, as duas praticavam uma forma de “crueldade invisível”: jogavam duro, mas saboreavam as vitórias em particular, sem provocar inimizades desnecessárias. “O estilo delas”, diz Ulrich, “não é o de House of Cards.” Numa única e rara oportunidade, Merkel mostrou os dentes. Em 1996, durante negociações sobre uma lei relativa a lixo atômico, Gerhard Schröder, a dois anos de se tornar chanceler, classificou de “lamentável” o desempenho dela como ministra do Meio Ambiente. Na sessão de fotos daquele ano, Merkel afirmou a Herlinde Koelbl: “Eu vou encurralá-lo, como ele fez comigo. Ainda preciso de tempo, mas esse dia vai chegar.” Foram necessários nove anos para que se cumprisse seu veredicto.


Em 1998, em meio a uma recessão, Schröder derrotou Kohl e se tornou chanceler. No verão seguinte, Volker Schlöndorff, numa recepção ao ar livre em sua casa em Potsdam, apresentou Merkel a um produtor de cinema e, meio brincando, chamou-a de “a primeira chanceler da Alemanha”. Merkel fuzilou-o com o olhar, como se ele a tivesse forçado a mostrar suas cartas – Como você se atreve?–, o que convenceu Schlöndorff de que ela de fato queria o cargo. O produtor, um integrante do CDU, mal pôde acreditar. Schlöndorff comentou: “Esses caras cujo partido estava no poder desde sempre não podiam imaginar que uma mulher pudesse se tornar chanceler – e ainda por cima uma alemã-oriental.”

Em novembro de 1999, o CDU foi engolido por um escândalo de financiamento de campanha, acusado de não declarar doações em dinheiro e de possuir contas bancárias secretas. Tanto Kohl como seu sucessor na chefia do partido, Wolfgang Schäuble, estavam implicados, mas Kohl era tão reverenciado que ninguém no CDU ousava criticá-lo. Merkel, que ascendera ao posto de secretária-geral do partido depois da derrota nas eleições, viu sua oportunidade. Telefonou para Karl Feldmeyer e disse: “Eu gostaria de dar algumas declarações para o seu jornal.”

“A senhora sabe o que quer dizer?”, perguntou Feldmeyer.

“Tenho tudo por escrito.”

Feldmeyer sugeriu que, em vez de uma entrevista, ela publicasse um artigo. Cinco minutos mais tarde, um fax chegou, e Feldmeyer espantou-se ao ler seu conteúdo. Merkel, uma figura relativamente nova no CDU, conclamava o partido a romper com seu líder de tanto tempo: “É hora de aprender a andar e se lançar em futuras batalhas contra os oponentes políticos sem ‘o velho cavalo de guerra’, como tantas vezes Kohl referia-se a si próprio”, escreveu Merkel. “Nós, que hoje carregamos a responsabilidade pelo partido – e não tanto Helmut Kohl –, decidiremos que caminhos tomar na nova era.” Ela publicou o artigo sem avisar Schäuble, o presidente do CDU, envolvido no escândalo. Num gesto que misturava virtude protestante com crueldade, a “garota” de Kohl se desprendia de seu genitor político e apostava a própria carreira num oferecimento explícito para ocupar seu lugar. Deu certo. Em poucos meses, Merkel era eleita presidente do partido, e Kohl se retirava para a história. “Ela enfiou a faca nas costas dele e girou duas vezes”, diz Feldmeyer. Foi o momento em que pela primeira vez muitos alemães se deram conta da existência de Angela Merkel.

Anos mais tarde, num jantar, Michael Naumann perguntou a Kohl: “Herr Kohl, o que ela quer de fato?”

“Poder”, foi a resposta concisa. A outro amigo, Kohl disse que seu apoio à jovem Merkel tinha sido o maior erro de sua vida: “Trouxe comigo a minha assassina”, disse ele. “Enrolei a cobra no braço.”

Em 2002, Merkel se viu à beira de perder uma votação no CDU que definiria o candidato a chanceler nas eleições daquele ano. Às pressas, ela agendou um café da manhã com seu rival, o líder bávaro Edmund Stoiber, na terra natal dele. Disciplinada o bastante para controlar as próprias ambições, Merkel disse a Stoiber que estava retirando sua candidatura em favor da dele. Ao evitar uma derrota que teria prejudicado seu futuro dentro do partido, Merkel acabou fortalecendo sua posição. Stoiber perdeu para Schröder, e ela foi em frente, suplantando uma série de pesos-pesados do Oeste. Esperava até que cometessem um erro ou que se engolissem uns aos outros, antes de se livrar de cada um deles com um peteleco.

John Kornblum, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha que continua morando em Berlim, disse: “Se você cruzar o caminho dela, vai acabar morto. Ela não é fácil. Há toda uma lista de machos alfa que pensaram poder derrubá-la. Todos mudaram de ramo.” No quinquagésimo aniversário de Merkel, em 2004, o político conservador Michael Glos publicou uma homenagem a ela:

Cuidado: despretensão pode ser uma arma! [...] Um dos segredos do sucesso de Angela Merkel é que ela sabe lidar com homens vaidosos. Sabe que o momento certo de abater um pavão é quando ele está cortejando a fêmea. Angela Merkel é uma caçadora paciente de pavões. Com a paciência de um anjo, ela espera o momento adequado.

A política alemã estava entrando numa nova era. À medida que o país se tornava mais “normal”, já não precisava de líderes que também fossem figuras paternas dominadoras. “Merkel teve a sorte de viver numa época em que a figura do macho estava em declínio”, diz Ulrich. “Os homens não notaram isso, mas ela sim. Não precisou lutar contra eles.” E acrescenta: “Se tem uma coisa que ela conhece, essa coisa é o macho a ser abatido. É o que ela come no café da manhã, no lugar dos cereais.” A aparência física pouco atraente, combinada à opacidade emocional, tornou difícil aos rivais reconhecer a ameaça que ela representava. “Não é fácil conhecê-la, e essa é a razão do seu sucesso”, afirma o parceiro político de longa data. “It seems she is not from this world. Psychologically, she gives everybody the feeling of ‘I will take care of you.’ ”

Quando Schröder antecipou as eleições em 2005, Merkel se tornou a candidata do CDU à Chancelaria. Na política dos machos, Schröder e Fischer – valentões de rua que adoravam uma discussão política e vinhos caros, com um total de sete ex-mulheres, somando os dois – tinham precedência. Ambos desprezavam Merkel, e o sentimento era recíproco. Segundo Dirk Kurbjuweit, da Spiegel, Schröder e Fischer às vezes riam como “garotos num playground” quando Merkel discursava no Bundestag. Em 2001, depois da publicação de fotos que mostravam Fischer, ainda jovem militante nos anos 70, atacando um policial, Merkel o condenou, declarando-o inepto para a vida pública até que “pagasse” por seus erros – um comentário que muitos alemães acharam demasiado veemente. Durante a campanha de 2005, Fischer disse em conversas particulares que Merkel era incapaz para o exercício do cargo.

À época, Schröder governava numa coalizão com os verdes, e o público se cansara da prolongada estagnação econômica. Durante boa parte da campanha, o CDU liderou com folga, mas os sociais-democratas diminuíram a diferença e, no dia da eleição, os dois partidos apareceram praticamente empatados no voto popular. Alan Posener, do Welt, viu Merkel naquela noite, no quartel-general do CDU. Ela parecia ter murchado, ladeada por políticos que dispensara no passado e que não escondiam sua alegria. Merkel havia cometido dois erros quase fatais. O primeiro, pouco antes da invasão do Iraque – impopular na Alemanha e repudiada por Schröder –, ao publicar um artigo no Washington Post intitulado “Schröder não fala por toda a Alemanha”, no qual por pouco não declarou apoio à guerra. “Mais uma frase a favor de Bush e contra Schröder, e hoje ela não seria chanceler”, opina Ulrich. O segundo, pelo fato de muitos de seus conselheiros, defensores do livre mercado, advogarem mudanças tributárias e trabalhistas que iam muito além do que os alemães aceitariam. Passados quinze anos, ela ainda não conseguia detectar as inclinações da opinião pública.

Na noite da eleição, Schröder, Fischer e outras lideranças partidárias se reuniram num estúdio de tevê para discutir os resultados. Merkel, parecendo exausta e em choque, permanecia quase muda. Schröder, cabelos castanhos tingidos e penteados para trás, sorria irônica e maliciosamente e, na prática, declarou-se o vencedor. “Continuarei sendo chanceler”, disse. “O senhor acredita mesmo”, perguntou a um dos moderadores, “que meu partido aceitaria uma oferta da senhora Merkel para conversar, se ela diz que gostaria, ela própria, de se tornar chanceler? Sejamos objetivos.” Muitos telespectadores pensaram que ele estivesse bêbado. Enquanto Schröder seguia se gabando, Merkel foi aos poucos ganhando vida, como se a performance do chanceler a divertisse. Ela pareceu se dar conta de que a fanfarronice de Schröder acabava de lhe garantir a chancelaria. Com um leve sorriso, pôs Schröder no devido lugar. “Falando clara e simplesmente, o senhor não ganhou hoje”, disse. De fato, o CDU tinha uma vantagem minúscula. “Com um pouco de tempo para refletir, até os sociais-democratas vão acabar aceitando essa realidade. E prometo que não vamos virar as regras democráticas de cabeça para baixo.”

Dois meses depois, Angela Merkel tomava posse como primeira chanceler da Alemanha.


Aqueles que conhecem Merkel dizem que ela é tão animada e divertida em privado quanto soporífera em público – uma cisão no modo de se apresentar que ela aprendeu ainda jovem, como alemã-oriental. (Por intermédio de seu porta-voz, Merkel, que dá poucas entrevistas – quase sempre para publicações alemãs e todas elas anódinas –, recusou uma conversa comigo.) Em papos off the record com jornalistas alemães, ela reproduz diálogos inteiros que teve com outros líderes mundiais e faz excelentes imitações. Entre seus alvos preferidos já figuraram Kohl, Putin, o recentemente falecido rei Abdullah, da Arábia Saudita, o papa Bento XVI e Al Gore. (“Ah have to teach mah people,” she mimics, in a Prussian approximation of central Tennessee.) Após uma reunião com Nicolas Sarkozy, durante a crise do euro, Merkel contou a um grupo de jornalistas que o pé do presidente francês balançava o tempo todo.

Schlöndorff once asked Merkel what she and other leaders discuss during photo ops. The Chancellor described one such moment with Dmitri Medvedev, who briefly interrupted Putin’s fifteen-year reign as Russia’s President. She and Medvedev were posing for the cameras in Sochi when, gesturing toward the Black Sea, she said, in the Russian she had learned from Frau Benn, “President Putin told me that every morning he swims a thousand metres out there. Do you do things like that?” Medvedev replied, “I swim fifteen hundred metres.” To Schlöndorff, the story showed that, “even when she is involved, she is never so totally involved that she could not observe the way people behave and be somehow amused by it.”

“Ela é mestre na arte de ouvir”, diz o parceiro político de longa data. “Numa conversa, fala 20% do tempo, e você, oitenta. Dá a todo mundo aquela impressão de ‘eu quero ouvir o que você tem a dizer’. Mas a verdade é que forma seu juízo em três minutos, e às vezes acha que os dezoito restantes são um desperdício de tempo.” She is like a computer—‘Is this possible, what this man proposes?’ She’s able in a very quick time to realize if it’s fantasy.”

Merkel também é capaz de causar embaraço a seus subordinados. Certa vez, num quarto de hotel de Viena, ela contava a assessores da chancelaria e do Ministério das Relações Exteriores histórias engraçadas de viagens que fizera quando estudante. Os assessores se dobravam de tanto rir, até que ela os cortou: “Eu já contei essa história a vocês.” Eles insistiram que não, nunca tinham ouvido aquilo, mas não adiantou: madame chanceler os estava chamando de bajuladores. Depois das eleições de 2013, ela encontrou o líder social-democrata Sigmar Gabriel, que hoje é seu ministro da Economia. Gabriel a apresentou a um de seus assessores, dizendo: “Ele é quem tem estado de olho em mim nos últimos anos, para garantir que eu não faça nenhuma besteira em público.” Merkel emendou na lata: “E tem funcionado, de vez em quando.”

“Schadenfreude”, rir da desgraça alheia, “é a maneira que ela tem de se divertir”, afirma Kurbjuweit, da Spiegel.

Como chanceler, Angela Merkel tem procurado ficar o mais próximo possível da opinião pública alemã. Segundo Posener, depois de quase perder para Schröder, ela disse a si mesma: “Quero ser tudo para todas as pessoas.” Tanto críticos como apoiadores a descrevem como uma estrategista talentosa, mas desprovida de uma visão mais ampla. Kornblum, o ex-embaixador, certa vez perguntou a um assessor de Merkel sobre a visão de longo prazo de sua chefe. “Sua visão de longo prazo é de cerca de duas semanas”, foi a resposta. O termo pejorativo mais frequentemente empregado contra ela é “oportunista”. Quando perguntei a Katrin Göring-Eckardt, a líder do Partido Verde, se a chanceler tinha algum princípio, ela fez uma pausa e respondeu: “Ela valoriza muito a liberdade. Todo o resto é negociável.” (Outros alemães acrescentaram à lista o apoio firme a Israel.)

“As pessoas dizem que não há um projeto, que não há uma ideia”, diz o alto funcionário – aquele que afirmara não conhecer melhor analista que ela –, “que são nove anos de um zigue-zague de jogadas inteligentes.” Mas, completa, “ela diria que os tempos não favorecem estratégias ambiciosas”. Americans don’t like to think of our leaders as having no higher principles. We want at least a suggestion of the “vision thing”—George H. W. Bush’s derisive term, for which he was derided. But Germany remains so traumatized by the grand ideologies of its past that a politics of no ideas has a comforting allure.

O desafio mais assustador enfrentado por Angela Merkel tem sido a crise na zona do euro, que ameaçou derrubar economias do sul da Europa e pôs em risco a integridade da moeda única. Para ela, a crise confirmou o perigo que iniciativas muito ambiciosas podem representar. Kohl, que pensava em termos históricos, atrelou a Alemanha a uma moeda europeia sem a união política que poderia fazer com que isso funcionasse. “Acabou virando uma máquina infernal”, afirma o alto funcionário. “Ela ainda está tentando consertá-la.”

As decisões tomadas por Merkel no momento mais agudo da crise refletem cálculos de um político mais preocupado com seus eleitores do que com seu lugar na história. No final de 2009, quando se soube que a dívida grega chegara a níveis críticos, ela demorou a se comprometer a colocar dinheiro dos contribuintes alemães num fundo de resgate. A Alemanha tinha, de longe, a economia mais forte da Europa, com uma indústria e exportações robustas que se beneficiaram do enfraquecimento do euro. No governo de Schröder, reformas trabalhistas e da previdência social haviam tornado o país mais competitivo, e Merkel colheu os benefícios. Ao longo de toda a crise, ela mergulhou em minúcias econômicas e se recusou a ir além do que os eleitores alemães – que tendiam a ver os gregos como perdulários e preguiçosos – estariam dispostos a aceitar, ainda que essa demora prolongasse o problema e ameaçasse o próprio euro. O romancista e jornalista Peter Schneider a comparou a um motorista na neblina: “Você só vê 5 metros adiante, e não 100; portanto, é melhor ser cauteloso, não dizer muita coisa, dar um passo de cada vez. Ou seja, visão nenhuma.”

Karl-Theodor zu Guttenberg, que foi ministro da Defesa entre 2009 e 2011, disse que Merkel optou por uma abordagem “maquiavélica” da crise. Manteve todas as possibilidades pelo máximo de tempo possível e, depois, encobriu suas decisões numa “nuvem de complexidade”. “Isso lhe possibilitou mudar de opinião diversas vezes, mas, à época, ninguém notou”, disse o ex-ministro. No fim, sob a pressão de outros líderes europeus e do presidente Obama, Merkel endossou em maio de 2010 um plano que, mediante a compra de títulos gregos pelo Banco Central Europeu, impediria um default da Grécia – como, aliás, o Federal Reserve havia feito durante a crise financeira norte-americana. Em troca, os países do sul da Europa se submeteram a regras orçamentárias estritas e à supervisão de seus bancos centrais pela União Europeia. Merkel percebeu que não podia permitir que a crise da zona do euro arruinasse o projeto de unidade europeia. “Se o euro acabar, a Europa acaba”, declarou. O euro foi salvo, mas à custa de políticas ruinosas de austeridade e de alto desemprego. Em boa parte da Europa, predomina o ressentimento em relação à filha do pastor protestante, vista como uma puritana rígida e dona da verdade, enquanto o apoio à União Europeia cai a seus níveis históricos mais baixos.

O compromisso com uma Europa unida não provém de um idealismo de Merkel, mas de sua percepção dos interesses alemães – uma forma branda de nacionalismo que reflete a confiança e a força crescente do país. O problema alemão histórico, o país que Henry Kissinger descreveu como “grande demais para a Europa, mas pequeno demais para o mundo”, só pode ser superado com uma Europa unida. Segundo Kurbjuweit, o biógrafo, “ela precisa da Europa porque – e isto é duro de dizer, mas é verdade – a Europa torna a Alemanha maior”.

Yet Merkel’s austerity policies have helped make Europe weaker, and Europe’s weakness has begun affecting Germany, whose export-driven economy depends on its neighbors for markets. The German economy has slowed this year, while European growth is anemic. Nevertheless, Germany remains committed to a balanced budget in 2015, its first since 1969, and is standing in the way of a euro-zone monetary policy of stimulating growth by buying up debt. In recent weeks, with global markets falling, a divide has opened between Merkel and other European leaders.

After 2005, Merkel had to mute her free-market thinking at home in order to preserve her political viability. Instead, she exported the ideas to the rest of the Continent, applying them with no apparent regard for macroeconomic conditions, as if the virtues of thrift and discipline constituted the mission of a resurgent Germany in Europe. Merkel é obcecada com questões demográficas e de competitividade. Adora ler gráficos. Em setembro, um dos seus principais assessores me mostrou uma pilha de gráficos que ela acabara de examinar. Mostravam o desempenho relativo de diferentes economias europeias com base numa variedade de indicadores. Em termos do custo unitário do trabalho, destacou ele, a Alemanha possui índices bem abaixo da média da zona do euro, mas a população alemã – a maior da Europa – está estagnada e envelhecendo. “Um país como esse não pode se endividar mais e mais”, concluiu o assessor.

Stefan Reinecke, do diário esquerdista Tageszeitung, observa: “Não importa o discurso que esteja fazendo, depois de meia hora, quando todo mundo já dormiu, Merkel diz três coisas: que a Europa tem apenas 7% da população mundial, 25% da produção econômica, mas 50% do gasto com o bem-estar social – e precisamos mudar isso.” Ela se queixa de que a Alemanha não tem um Vale do Silício. “Não existe um Facebook ou uma Amazon alemães”, diz o assessor. “Além disso, há essa tendência que você pode ver em Berlim: somos tão afluentes que imaginamos que sempre vai ser assim, mesmo sem saber de onde virá a riqueza. Somos totalmente acomodados.”

O fato de a Alemanha ser forte demais, enquanto a Europa é demasiado fraca, deixa os alemães extremamente inquietos. Mas Merkel jamais discute o problema. Joschka Fischer – que já a elogiou em outras questões – critica esse silêncio. “Intelectualmente, é um desafio muito grande transformar a força nacional em força europeia”, diz ele. “E a maioria da elite política e econômica na Alemanha, incluindo a chanceler, não tem a menor ideia de como fazer isso.”


Os dois líderes mundiais com quem Merkel mantém as mais importantes e complexas relações são Obama, a quem ela respeita com certa relutância, e Putin, por quem ela nutre profunda desconfiança. Quando o Muro caiu, Putin era um major da kgb lotado em Dresden. Valendo-se de seu alemão fluente e de um revólver, impediu que uma multidão de alemães-orientais invadisse o escritório da KGB e pilhasse documentos secretos, que posteriormente destruiu. Doze anos mais tarde, um Putin bem mais conciliador falou ao Bundestag “na língua de Goethe, Schiller e Kant”, declarando a Rússia um “país europeu amistoso” cujo “principal objetivo é uma paz estável no continente”. Louvou a democracia, condenou o autoritarismo e foi ovacionado por uma plateia que incluía Angela Merkel.

Depois de décadas de guerra, destruição e ocupação, as relações entre Alemanha e Rússia retornavam à dinâmica mais amistosa que prevalecia antes do século XX. Os formuladores das políticas alemãs falaram em “parceria estratégica” e numa “reaproximação pela via da integração econômica”. Em 2005, Schröder aprovou a construção de um gasoduto que cruzava o mar Báltico até a Rússia. Ele e Putin ficaram amigos, e Schröder caracterizou o russo como um “democrata impecável”. Na última década, a Alemanha se tornou uma das maiores parceiras comerciais da Rússia, que agora fornece 40% do gás consumido na Alemanha. Duzentos mil cidadãos russos vivem na Alemanha, e a Rússia possui extensos vínculos com o empresariado alemão e com o SPD.

Como na juventude viajava de carona pelas repúblicas soviéticas, conversando na língua local, Merkel – mais do que os outros políticos ocidentais – é sensível às aspirações e aos ressentimentos russos. Em seu escritório, há um retrato emoldurado de Catarina, a Grande, a imperatriz nascida na Prússia que no século XVIII conduziu a Rússia a uma época de ouro. Como ex-alemã-oriental, porém, a chanceler tem poucas ilusões a respeito de Putin. Depois que ele discursou no Bundestag, Merkel disse a um colega: “É a típica conversa da KGB. Nunca confie nesse sujeito.” Ulrich, do Zeit, afirma: “Ela sempre foi cética em relação a Putin, mas não o odeia. Odiar seria emoção demais para ela.”

Quando Putin e Merkel se encontram, nas vezes em que conversam em alemão – ele fala melhor a língua dela que ela a dele –, o russo corrige seu próprio intérprete, para que a interlocutora saiba que nada lhe escapa. O tipo de macho que Putin representa desperta nela uma espécie de interesse científico. Em 2007, na residência do presidente russo em Sochi, os dois discutiam sobre o fornecimento de energia. O anfitrião chamou seu labrador preto, Koni, para dentro da sala onde ocorria a conversa. Quando o cachorro se aproximou de Merkel, a chanceler ficou paralisada. Certa ocasião, em 1995, um cachorro a mordera, e aquele trauma não há de ter escapado ao anfitrião, que se recostou na poltrona para desfrutar do momento, as pernas bem abertas. “Tenho certeza de que ele vai se comportar”, disse. Merkel teve a presença de espírito de responder, em russo: “Bom, ele pelo menos não come jornalistas.” A imprensa alemã ficou furiosa com o tratamento dispensado à chanceler e estava “disposta a dar um murro em Putin”, segundo um repórter que estava presente. Mais tarde, Merkel interpretou o comportamento dele: “Eu entendo por que Putin precisa fazer isso. É para provar que é homem”, disse. “Teme a própria fraqueza. A Rússia não tem nada, não tem uma política nem uma economia bem-sucedida. Ela só tem isso.”

No começo de 2008, quando George W. Bush tentou trazer a Ucrânia e a Geórgia para a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, Merkel bloqueou a iniciativa, preocupada com a reação russa e com a desestabilização que aquilo poderia provocar na fronteira oriental da Europa. No mesmo ano, depois de a Rússia invadir duas regiões da Geórgia – Abecásia e Ossétia do Sul –, ela mudou de ideia e se mostrou aberta à entrada da Geórgia na Otan. Merkel continuou tentando manter o equilíbrio entre a unidade europeia, a aliança com os Estados Unidos, os interesses comerciais da Alemanha e as relações com a Rússia. Atribui-se ao imperador Guilherme I a observação de que somente Bismarck, que atrelou a Alemanha a um conjunto de alianças que se contrabalançavam, era capaz de tamanho malabarismo, mantendo quatro ou cinco bolinhas no ar. Seu sucessor, Leo von Caprivi, queixou-se de que mal conseguia equilibrar duas; em 1890, pôs fim ao tratado da Alemanha com a Rússia, contribuindo para o cenário que levou à Primeira Guerra Mundial.

Quando, em março de 2014, a Rússia anexou a Crimeia e incitou uma guerra separatista no leste da Ucrânia, coube a Merkel obter sucesso naquilo que líderes alemães anteriores haviam fracassado catastroficamente.


A agressão russa à Ucrânia espantou os alemães, assombrados pela história e defensores da obediência às regras. “Putin surpreendeu todo o mundo, Merkel inclusive”, disse-me o assessor graduado da chanceler. “A rapidez, a brutalidade, a frieza. É tão século XX – os tanques, a propaganda, os agentes provocadores.”

Suddenly, everyone in Berlin was reading Christopher Clark’s “The Sleepwalkers,” about the origins of the First World War. The moral that many Germans drew was to tread carefully—small fires could quickly turn into conflagrations. During a discussion about the First World War with students at the German Historical Museum, Merkel said, “I am regarded as a permanent delayer sometimes, but I think it is essential and extremely important to take people along and really listen to them in political talks.”

Embora tenha descartado qualquer reação militar, a chanceler declarou que as ações da Rússia eram inaceitáveis – a integridade territorial era parte inviolável da ordem europeia no pós-guerra – e exigiam uma resposta séria do Ocidente. Pela primeira vez depois de ocupar o cargo, Merkel não tinha o público a seu lado. As primeiras pesquisas de opinião mostravam que a maioria dos alemães queria que ela adotasse uma posição intermediária entre o Ocidente e a Rússia. Uma minoria substancial – sobretudo na antiga Alemanha Oriental – se solidarizava com o argumento russo de que a expansão da Otan havia forçado Putin a agir defensivamente, e que os líderes ucranianos eram provocadores fascistas. Helmut Schmidt, o ex-chanceler social-democrata, manifestou opiniões nesse sentido, assim como Gerhard Schröder – que agora atuava como lobista para uma companhia controlada pela gigante russa de petróleo e gás, a Gazprom, e que havia comemorado seu septuagésimo aniversário com Putin, em São Petersburgo, um mês depois de a Rússia anexar a Crimeia. The attitude of Schmidt and Schröder deeply embarrassed the Social Democrats.

Um fosso se abriu entre a opinião popular e a elite. Cartas de protesto inundaram as redações de jornais que defendiam o endurecimento contra a Rússia. Merkel, fiel a seu estilo, nada fez para aproximar os dois lados. A crise provocava em grande parte da população uma mescla de indiferença e ansiedade. Ukraine was talked about, if at all, as a far-off place, barely a part of Europe (not as the victim of huge German crimes in the Second World War). Eles se ressentiam de ter seu belo sono perturbado. “A maioria quer paz e uma vida confortável”, disse Alexander Rahr, conselheiro da companhia de petróleo e gás alemã Wintershall. “Não querem conflito nem uma nova Guerra Fria. E, para tanto, gostariam que os Estados Unidos se mantivessem bem longe da Europa. Se a Rússia quer a Ucrânia, com a qual poucos se solidarizam, que fique com ela.” De certo modo, a culpa histórica da Alemanha – que inclui a morte de mais de 20 milhões de soviéticos na Segunda Guerra Mundial – contribui para a passividade do país. A sense of responsibility for the past demands that Germany do nothing in the present. Ulrich, of Die Zeit, expressed the point brutally: “We once killed so much—therefore, we can’t die today.”

Alemães e russos compartilham memórias tão terríveis que qualquer sugestão de conflito conduz ao impensável. Michael Naumann analisou a crise ucraniana no contexto desse “vínculo emocional gigantesco entre criminoso e vítima”, no qual a Alemanha sempre assume a posição mais fraca. Em 1999, Naumann, então ministro da Cultura de Schröder, tentou negociar a devolução de milhões de objetos de arte que os russos levaram da Alemanha Oriental depois da Segunda Guerra Mundial. Durante as negociações, ele e seu colega russo, Nikolai Gubenko, falaram do próprio passado. Naumann, nascido em 1941, ficou órfão de pai no ano seguinte, na Batalha de Stalingrado. Gubenko, também de 1941, perdeu o pai em ação. Cinco meses depois, sua mãe seria enforcada pelos alemães.

“Xeque-mate”, o russo disse ao alemão. E os dois choraram.

“Não havia nada a negociar”, Naumann recorda. Gubenko disse: “Enquanto eu viver, não vamos devolver coisa nenhuma.”

Angela Merkel, como é de seu feitio, tem uma visão da Rússia desprovida de sentimentalidade. Alexander Lambsdorff, deputado alemão do Parlamento Europeu, comentou: “Ela pensa na Rússia como um poder hegemônico tradicional que, subjugado por um tempo, agora reemergiu.” A Ucrânia obrigou a chanceler a praticar um malabarismo digno de Bismarck, e ela começou a dedicar duas ou três horas diárias à crise. Em público, pouco disse, esperando que o mau comportamento russo mudasse a opinião pública alemã. Precisava cuidar de sua coalizão no Bundestag, que incluía os sociais-democratas, mais favoráveis aos russos. E tinha de manter a Europa unida, o que significava afinar-se com 27 outros líderes e entender as limitações de cada um – como sanções à Rússia afetariam os mercados financeiros londrinos; se os franceses concordariam em suspender a entrega de navios de assalto anfíbios já vendidos aos russos; se a Polônia e os países do Báltico se sentiam seguros do apoio da Otan; a influência da propaganda russa na Grécia; a dependência búlgara de gás russo. Para que as sanções surtissem efeito, a Europa tinha de permanecer unida.

Merkel também precisava manter aberto o canal com Putin. Mesmo depois de a União Europeia ter aprovado a primeira leva de sanções, em março de 2014, a política da Alemanha não era isolar a Rússia – os vínculos entre os dois países são muito fortes. A chanceler é o mais importante interlocutor de Putin no Ocidente; eles conversam no mínimo toda semana. “Ao longo dos últimos meses, ela falou mais com Putin que Obama, Hollande e Cameron somados”, diz o alto funcionário. Merkel pode ser dura a ponto de se tornar desagradável e, ao mesmo tempo, oferecer a Putin saídas para a encrenca em que ele se meteu. Acima de tudo, ela tenta entender como ele pensa. “Com a Rússia, mesmo agora que a gente sente muita raiva, eu me forço a conversar independentemente dos meus sentimentos”, disse ela no Museu Histórico Alemão, durante uma reunião com estudantes. “Toda vez que faço isso, fico surpresa com a quantidade de pontos de vista que se pode ter sobre uma questão que para mim é bastante clara. Aí, tenho de lidar com esses outros pontos de vista, e isso também pode trazer uma solução nova.” Soon after the annexation of Crimea, Merkel reportedly told Obama that Putin was living “in another world.” She set about bringing him back to reality.

A German official told me, “The Chancellor thinks Putin believes that we’re decadent, we’re gay, we have women with beards”—a reference to Conchita Wurst, an Austrian drag queen who won the 2014 Eurovision song contest. “That it’s a strong Russia of real men versus the decadent West that’s too pampered, too spoiled, to stand up for their beliefs if it costs them one per cent of their standard of living. That’s his wager. We have to prove it’s not true.” It’s true enough that, if Merkel were to make a ringing call to defend Western values against Russian aggression, her domestic support would evaporate. When eight members of a European observer group, including four Germans, were taken hostage by pro-Russian separatists in April—practically a casus belli, had they been Americans—the German government simply asked Putin to work for their release. Merkel was playing the game that had been successful for her in German politics: waiting for her adversary to self-destruct.

On at least one phone call, Putin lied to Merkel, something that he hadn’t done in the past. In May, after Ukrainian separatists organized a widely denounced referendum, the official Russian statement was more positive than the stance that Merkel believed she and Putin had agreed on in advance. She cancelled their call for the following week—she had been misled, and wanted him to sense her anger. “The Russians were stunned,” the senior official said. “How could she cut the link?” Germany was the one country that Russia could not afford to lose. Karl-Georg Wellmann, a member of parliament from Merkel’s party, who sits on the foreign-affairs committee, said that, as the crisis deepened and Germans began pulling capital out of Russia, Kremlin officials privately told their German counterparts that they wanted a way out: “We went too far—what can we do?” In Moscow restaurants, after the third vodka, the Russians would raise the ghosts of 1939: “If we got together, Germany and Russia, we would be the strongest power in the world.”

Em 6 de junho, na Normandia, nas comemorações do septuagésimo aniversário do Dia D, Merkel e Putin se encontraram pela primeira vez desde o começo da crise. Obama, Hollande, Cameron e Petro Poroshenko, o recém-eleito presidente da Ucrânia, também estavam presentes. As fotografias que saíram na imprensa mostraram o desgosto da alemã ao cumprimentar o russo – os lábios franzidos, as sobrancelhas arqueadas –, ao passo que Putin tinha uma expressão que parecia tentar agradar a colega. Sob a ótica do poder, ela estava ganhando. “Esse isolamento político é prejudicial a ele”, disse o assessor graduado de Merkel. “Putin não gosta de ser excluído.” (A Rússia tinha acabado de ser suspensa do Grupo dos Oito.) Mais tarde, a chanceler orquestrou uma conversa rápida entre Putin e Poroshenko. No aniversário do Dia D, a líder da Alemanha estava no centro dos acontecimentos. Como disse Kurbjuweit: “Foi espantoso ver todos os vencedores da Segunda Guerra Mundial, ver a perdedora e o país responsável por tudo aquilo – e, no entanto, a líder é ela, é com ela que todo o mundo quer falar! Isso é muito estranho. E só é possível, acho, porque é a Merkel – porque ela é tão simpática e tranquila.”

A última bolinha que a chanceler precisa manter no ar é a americana. A opinião de Merkel sobre Barack Obama melhorou na mesma proporção em que a popularidade dele caiu. Em julho de 2008, como candidato presidencial, Obama quis discursar no Portão de Brandemburgo em Berlim – coração histórico da cidade e local reservado a chefes de Estado e de governo, não a senadores americanos. Merkel não permitiu, e Obama falou sobre a unidade entre Europa e Estados Unidos na Coluna da Vitória, no Tiergarten, para o delírio de 200 mil fãs – uma multidão que a chanceler jamais teria conseguido reunir, que dirá encantar. “O que a desagrada em Obama é sua retórica extravagante”, diz o alto funcionário. “Merkel não confia nela e não é boa nesse tipo de coisa. O que ela diz é ‘quero ver ele cumprir o que promete’.”

Nos primeiros anos do governo Obama, Merkel era frequentemente comparada a ele, levando a pior. Essa crítica a irritava. Segundo a revista Stern, a piada favorita da chanceler é aquela em que Obama caminha sobre as águas. “Ela de fato não acha que ele seja um bom parceiro”, afirma Torsten Krauel, articulista do Welt. “Julga-o um acadêmico, uma voz solitária incapaz de construir coalizões.” O relacionamento dela com Bush era bem mais caloroso, disse-me o parceiro político de longa data. Um homem efusivo como Bush provoca uma reação, ao passo que Obama e Merkel são como “dois assassinos de aluguel numa mesma sala. Não precisam conversar – ficam calados, são matadores”. For weeks in 2011 and 2012, amid American criticism of German policy during the euro-zone crisis, there was no contact between Merkel and Obama—she would ask for a conversation, but the phone call from the White House never came.

À medida que foi conhecendo Obama, Merkel passou a ver com mais simpatia as semelhanças entre os dois – duas pessoas analíticas, cautelosas, distantes, de um humor seco. Benjamin Rhodes, subconselheiro para segurança nacional de Obama, contou-me que “o presidente acha que não há outro líder no mundo com quem tenha trabalhado mais de perto do que com ela”. Obama é a antítese dos líderes fanfarrões que Merkel se especializou em deglutir no café da manhã. Numa viagem a Washington, ela se reuniu com vários senadores, incluindo os republicanos John McCain, do Arizona, e Jeff Sessions, do Alabama. Achou-os mais preocupados em se mostrarem duros com o ex-adversário de Guerra Fria do que com os acontecimentos na Ucrânia. Para Merkel, a Ucrânia era um problema prático a ser resolvido. Essa era a visão de Obama também.

No dia em que falei com Rhodes, 17 de julho, a tevê em seu escritório no subsolo da Casa Branca mostrava os destroços do avião da Malaysia Airlines espalhados por um campo no leste da Ucrânia. A causa do acidente ainda não estava definida, mas Rhodes disse: “Se os russos abateram o avião, e se havia americanos e europeus a bordo, isso vai mudar o jogo.” Na Alemanha, a reviravolta foi imediata. A visão de combatentes separatistas pilhando os passageiros mortos – era um avião civil, com vítimas holandesas – afetou os alemães mais do que meses de combates entre ucranianos. Embora a crise estivesse começando a prejudicar a economia alemã, Merkel tinha agora 75% da opinião pública a seu favor. No final de julho, a UE concordou em aprovar uma nova e abrangente leva de sanções financeiras e energéticas contra a Rússia.

Since then, Russian troops and weapons have crossed the border in large numbers, and the war has grown worse. In a speech in Australia last week, Merkel warned that Russian aggression was in danger of spreading, and she called for patience in a long struggle: “Who would’ve thought that twenty-five years after the fall of the Wall . . . something like that can happen right at the heart of Europe?” But, on the day she spoke, the E.U. failed to pass a new round of sanctions against Russia. Guttenberg, the former defense minister, said, “We are content with keeping the status quo, and kicking the can up the road—not down—and it keeps falling back on our feet.”


The close coöperation behind the scenes between Washington and Berlin coincides with a period of public estrangement. Germans told me that anti-Americanism in Germany is more potent now than at any time since the cruise-missile controversy of the early eighties. The proximate cause is the revelation, last fall, based on documents leaked by Edward Snowden to Der Spiegel, that the National Security Agency had been recording Merkel’s cell-phone calls for a decade. Merkel, ever impassive, expressed more annoyance than outrage, but with the German public the sense of betrayal was deep. It hasn’t subsided—N.S.A. transgressions came up in almost every conversation I had in Berlin—particularly because Obama, while promising that the eavesdropping had stopped, never publicly apologized. (He conveyed his regret to Merkel privately.) “Grampear o telefone dela foi mais que falta de educação”, disse Rainer Eppelmann, o ex-dissidente alemão-oriental: “É coisa que não se faz. Amigos não espionam amigos.” (Representantes do governo norte-americano com quem conversei, ainda que preocupados com os efeitos do vazamento da informação, reviraram os olhos ante a ingenuidade e a hipocrisia alemãs, já que a espionagem é praticada pelos dois lados.)

Funcionários do governo alemão propuseram aos americanos um acordo de não espionagem, mas ouviram um não. Os Estados Unidos não mantêm um acordo desse tipo com país nenhum, nem mesmo dentro dos chamados Five Eyes – os aliados de língua inglesa que compartilham virtualmente toda informação coletada por seus serviços de inteligência. Segundo os alemães, os Estados Unidos teriam convidado a Alemanha a integrar os Five Eyes, mas depois voltaram atrás. Os americanos negam ter feito o convite. “Isso nunca foi discutido a sério”, disse uma autoridade graduada do governo Obama. “Os Five Eyes não são um mero acordo, e sim toda uma infraestrutura desenvolvida ao longo de mais de sessenta anos.”

“I tend to believe them,” the German diplomat said. “The Germans didn’t want Five Eyes when we learned about it. We’re not in a position, legally, to join, because our intelligence is so limited in scope.”

Em julho de 2014, funcionários do Serviço Federal de Inteligência da Alemanha, o BND, prenderam em seu escritório de Munique um burocrata suspeito de espionagem para os Estados Unidos. O sujeito fora flagrado querendo fazer negócios com os russos via Gmail. Quando os alemães pediram aos colegas americanos informação sobre ele, a conta no Gmail foi abruptamente encerrada. Levado a interrogatório, o burocrata admitiu ter passado documentos (aparentemente inócuos) a um agente da CIA na Áustria durante dois anos, tendo recebido 25 mil euros pelo serviço. Os alemães retaliaram de forma inédita: expulsaram o chefe da CIA em Berlim. Por ter acontecido logo depois das revelações sobre a NSA, esse segundo escândalo foi pior que um crime – foi uma asneira. Angela Merkel ficou fora de si. Nenhum funcionário do governo americano, em Washington ou Berlim, parece ter aquilatado os benefícios da operação de espionagem e seu potencial custo político. Obama não sabia do espião. “O presidente espera das pessoas que levem em consideração a dinâmica política ao tomarem decisões sobre o que fazemos ou não fazemos na Alemanha”, disse Rhodes, o subconselheiro de segurança nacional de Obama.

The spying scandals have undermined German public support for the NATOalliance just when it’s needed most in the standoff with Russia. Lambsdorff, the E.U. parliamentarian, told me, “When I stand before constituents and say, ‘We need a strong relationship with the U.S.,’ they say, ‘What’s the point? They lie to us.’ ” Germany’s rise to preëminence in Europe has made Merkel a committed transatlanticist, but “that’s useless now,” Lambsdorff said. “It deducts from her capital. Rebuffing Washington is good now in Germany.”

O presidente americano preocupou-se o bastante para enviar a Berlim, no final de julho, seu chefe de gabinete, Denis McDonough, a fim de apaziguar o governo alemão. Depois de uma reunião de quatro horas, os dois países concordaram em elaborar regras mais claras na espionagem e no compartilhamento de informações de inteligência. Mas os detalhes ainda precisam ser definidos, e a proporção de alemães que hoje expressa uma opinião favorável aos Estados Unidos mal chega a 50% – o nível mais baixo em toda a Europa, só ultrapassado pela sempre hostil Grécia.

In a sense, German anti-Americanism is always waiting to be tapped. There’s a left-wing, anti-capitalist strain going back to the sixties, and a right-wing, anti-democratic version that’s even older. In the broad middle, where German politics plays out today, many Germans, especially older ones, once regarded the U.S. as the father of their democracy—a role that sets America up to disappoint. Peter Schneider, the novelist and journalist, expressed the attitude this way: “You have created a model of a savior, and now we find by looking at you that you are not perfect at all—much less, you are actually corrupt, you are terrible businessmen, you have no ideals anymore.” With the Iraq War, Guantánamo, drones, the unmet expectations of the Obama Presidency, and now spying, “you actually have acted against your own promises, and so we feel very deceived.”


Por trás do antiamericanismo e da solidariedade com a Rússia, pode estar acontecendo algo mais profundo. Durante a Primeira Guerra, Thomas Mann interrompeu A Montanha Mágica e dedicou-se a ensaios apaixonados sobre a Alemanha e a guerra, publicados em 1918, pouco antes do armistício. Nessas Considerações de um Apolítico, Mann abraça o caráter nacional e a filosofia da causa alemã. Como artista, alia-se à Alemanha – “cultura, alma, liberdade, arte” – contra a civilização liberal da França e da Inglaterra (apoiada por Heinrich, seu irmão mais velho), uma civilização na qual a atividade intelectual sempre foi politizada. A tradição alemã era autoritária, conservadora, “apolítica”, mais próxima do espírito russo que do materialismo raso da Europa democrática. A guerra representava a antiga rebelião contra o Ocidente. A Alemanha imperial se recusou a aceitar a imposição forçada dos princípios universais da igualdade e dos direitos humanos. Embora Thomas Mann tenha se tornado um defensor dos valores democráticos em seu exílio durante os anos do nazismo, ele nunca renegou essas Considerações.

Várias pessoas em Berlim sugeriram que esse livro difícil e esquecido possa dizer algo sobre a Alemanha da era Merkel. A reunificação pacífica do país e sua força durante a crise do euro podem estar conduzindo a Alemanha de volta a uma identidade que é mais antiga que a República Federal do pós-guerra, cuja constituição foi escrita sob pesada influência americana. “A Alemanha Ocidental era um bom país”, disse-me o colunista e escritor Georg Diez. “Era jovem, sexy, ousada, ocidental – americana. Mas talvez fosse apenas uma casca. A Alemanha está se tornando mais alemã, menos ocidental. Ela descobriu suas raízes nacionais.”

Diez não quis dizer que isso seja positivo. Disse apenas que a Alemanha está se tornando menos democrática, porque, em essência, o que os alemães querem é estabilidade, segurança, crescimento econômico – querem, acima de tudo, que os deixem em paz, enquanto alguns cuidam do seu dinheiro e mantêm o país longe das guerras. Têm, pois, exatamente a chanceler que desejam. “Merkel tirou a política da política”, concluiu ele.

Aos 60 anos, Angela Merkel é a estadista mais bem-sucedida da história alemã moderna. Sua popularidade oscila em torno de 75% – dado inaudito para uma época de ressentimentos contra líderes eleitos. A simplicidade permanece sendo sua assinatura política, temperada com virtude protestante e retidão prussiana. Uma vez, na companhia de um grupo de jornalistas num bar de hotel no Oriente Médio, ela disse: “Dá para acreditar? Aqui estou eu, a chanceler! O que estou fazendo aqui? Na minha adolescência narda, imaginávamos os capitalistas com capotes pretos, cartola, charuto e pés grandes, como nos desenhos. Agora, aqui estou eu, e eles têm que me ouvir!” É claro que há um bocado de cálculo em sua imagem pública. “Ela toma tanto cuidado em não se mostrar pretensiosa que isso já é uma espécie de pretensão”, diz o alto funcionário.

Merkel ainda mora no Centro de Berlim, num apartamento alugado em frente a um canal que ladeia o Museu Pergamon, o grande prédio neoclássico que abriga peças da Antiguidade. A plaquinha de bronze do interfone do prédio traz o nome do marido – PROF. DR. SAUER –, e um único policial monta guarda do lado de fora. No imenso escritório no gigantesco edifício de concreto e vidro da sede da Chancelaria, Merkel trabalha numa escrivaninha comum perto da porta, preferindo-a à mesa de 4 metros que Schröder mandou instalar na outra extremidade da sala. “É uma mulher neuroticamente ocupada”, diz o parceiro político de longa data. “Nunca dorme mais que cinco horas. Posso ligar para ela à uma da manhã. Vai estar acordada, lendo – papelada burocrática, não literatura.”

Ela recebe convidados na Chancelaria com comida caseira alemã: sopa de batatas e repolho recheado. Quando sai para comer em seu restaurante italiano preferido, vai com uns poucos amigos e não desvia os olhos da conversa para cumprimentar o público, que sabe deixá-la em paz. Quando o marido liga para a Filarmônica para comprar ingressos (Merkel e Sauer têm paixão por Wagner e Webern), insiste em pagar com seu cartão de crédito. O casal entra e toma seus lugares quase sem ser notado. Uma amiga minha certa vez se sentou ao lado de Merkel no salão de beleza que a chanceler frequenta, e as duas conversaram sobre cabelos. “A tintura é a coisa mais importante para uma mulher”, disse a chanceler, cujo penteado já não é alvo de gozação.

Há pouco tempo, o presidente Joachim Gauck apareceu nas manchetes ao conclamar a Alemanha a assumir suas responsabilidades globais com mais seriedade, incluindo seu papel nas questões militares. Foi o tipo de discurso que Merkel (que nem o comentou) jamais faria, sobretudo depois de uma pesquisa encomendada pelo Ministério das Relações Exteriores ter revelado que 60% da população mostravam-se céticos quanto a um maior envolvimento do país no mundo. Os jornalistas alemães acham quase impossível cobrir Angela Merkel. “É um sacrifício encontrar assunto”, diz Ulrich Schulte, que escreve para o Tageszeitung. A Merkel que eles admiram e apreciam em particular, mas são proibidos de citar, desaparece em público. Qualquer assessor ou amigo que trair sua confiança é banido de imediato. A mídia alemã, num reflexo dos tempos, é cada vez mais centrista, preocupada com “bem-estar físico” e outros tópicos relacionados a comportamento. Quase todos os repórteres de política com quem falei votaram em Merkel, apesar da sensação de que ela está tornando irrelevante o trabalho deles. Não havia razão para não votar nela.

Enquanto isso, a chanceler neutralizou a oposição, em grande parte apropriando-se de seu programa. Além disso, acolheu as reivindicações dos sindicatos, baixou a idade mínima para a aposentadoria de certas categorias e aumentou o auxílio do Estado às mães e aos idosos. (Merkel disse a Dirk Kurbjuweit, da Spiegel, que, à medida que a Alemanha envelhecia, ela dependia cada vez mais do voto dos idosos.) Em 2011, o desastre nuclear de Fukushima, no Japão, chocou a chanceler, que recuou em sua posição sobre energia nuclear: decidiu que a Alemanha vai abolir esse tipo de energia ao longo da próxima década, e ao mesmo tempo seguirá liderando as maiores economias industriais do mundo em matéria de energia solar e eólica. (Um quarto da energia gerada no país provém hoje de fontes renováveis.) Nesse meio-tempo, vem tentando abolir de seu partido certas ideias que expressam intolerância – por exemplo, quando discorre sobre a necessidade de dar melhor acolhida a imigrantes. Os apoiadores dos sociais-democratas e do Partido Verde têm cada vez menos motivos para votar, e o comparecimento às urnas diminuiu. O escritor Peter Schneider, líder estudantil de 1968, afirma: “Essa é a genialidade de Angela Merkel: na verdade, ela tornou sem sentido as diferenças entre os partidos.”

No final de 2014, nas eleições em três estados antes pertencentes à Alemanha Oriental, um novo partido de direita mostrou força – o Alternativa para a Alemanha, AfD –, conquistando 10% dos votos. O AfD quer que a Alemanha se retire da zona do euro e se opõe às políticas liberais de Merkel em relação ao casamento gay e à imigração. Ao mover seu próprio partido para o centro, a chanceler criou espaço na política alemã para um populismo equivalente ao da Frente Nacional francesa e ao do Partido da Independência do Reino Unido. Se a economia alemã continuar desacelerando, porém, ela terá dificuldade em seguir pairando sobre a política partidária na incontestada condição de Mutti, a torcedora Número 1 da equipe campeã da Copa do Mundo.

Por enquanto, a questão política mais premente em Berlim é se ela vai ou não se candidatar a um quarto mandato em 2017. Joschka Fischer descreveu a Alemanha sob Merkel como um país que retornou ao período Biedermeier – os anos entre o final das Guerras Napoleônicas, em 1815, e as revoluções de 1848 –, quando a Europa Central desfrutava de paz e o foco da classe média consistia na riqueza crescente e no estilo de decoração. “Ela está governando a Alemanha numa época em que o sol brilha todos os dias, e esse é o sonho de todo político democraticamente eleito”, afirmou ele. “Mas não há debate intelectual.” Sugeri que todo Biedermeier tem um fim. “Sim”, ele concordou, “em geral termina em desastre.”

Um consenso político fundado no sucesso econômico, com cidadãos satisfeitos, uma imprensa favorável e uma líder imensamente popular, que raras vezes se afasta da opinião pública – a Alemanha de Merkel lembra os Estados Unidos de Dwight Eisenhower. Mas se hoje tal quadro talvez cause inveja aos americanos, preocupados com o declínio nacional, aos alemães mais afeitos à reflexão provoca certa inquietação: a democracia alemã não tem idade suficiente para ter direito a descanso.

“Nós recebemos dos americanos a democracia, como um presente, eu diria, durante as décadas de 40 e 50”, disse Kurbjuweit. “Mas não tenho certeza de que as atitudes democráticas estejam solidamente enraizadas em meu país. Nós, alemães, precisamos praticá-las. Ainda estamos em período de treinamento.” Kurbjuweit has just published a book called “There Is No Alternative.” It’s a phrase that Merkel coined for her euro policy, but Kurbjuweit uses it to describe the Chancellor’s success in draining all the blood out of German politics. “I don’t say democracy will disappear if Merkel is Chancellor for twenty years,” he said. “But I think democracy is on the retreat in the world, and there is a problem with democracy in our country. You have to keep the people used to the fact that democracy is a pain in the ass, and that they have to fight, and that everyone is a politician—not only Merkel.”

O projeto Jacobin

Abrindo uma série sobre novas mídias radicais, o fundador do mais imaginativo e bem-sucedido jornal socialista dos EUA do novo século explica como ele foi criado, qual tem sido sua estratégia editorial e política e por que ele encontrou uma resposta tão calorosa.



Novas massas, novas mídias

Os últimos anos têm visto a erupção de uma revolta urbana inesperada após a outra — em Nova York, Atenas, Madri, Cairo, Kiev, São Paulo, Istambul, Hong Kong. As ocasiões, formas e composições destas foram particulares, embora os padrões de inspiração e emulação de longa distância também sejam claros. Essas insurgências populares têm sido o fenômeno mais marcante dentro de uma gama mais ampla de diferentes tipos de resistência à ordem estabelecida do capital, as "novas massas" cujos componentes potenciais ou reais foram pesquisados ​​por Göran Therborn na NLR 85; artigos sobre as explosões no Brasil e na Turquia se seguiram. Junto com o surgimento de novas massas veio, no mesmo período, a chegada de novas mídias, desafiando o sistema de desigualdade em suas próprias maneiras. Com esta edição, começamos uma série de entrevistas e relatórios sobre estes também. Sua aparência também foi local em origem e variada em tipo. Mas pelo menos três grandes determinantes podem ser detectados por trás deles. O primeiro é o cenário político e econômico alterado desde a rodada contínua de guerras imperiais no Oriente Médio e, acima de tudo, a crise financeira de 2008 e suas consequências globais. O segundo é a facilidade tecnológica e o alcance da publicação na internet, transformando as possibilidades de startups intelectuais bem julgadas e aventureiras. O terceiro é a renovação geracional, trazendo novos grupos de pensadores radicais, escritores e ativistas para a batalha ideológica. Levadas internacionalmente, essas forças se sobrepuseram para produzir um amplo espectro de formas de expressão: diários, semanais, mensais, trimestrais, boletins e blogs, podcasts de áudio ou vídeo online. Abrimos a série publicando uma entrevista com Bhaskar Sunkara, fundador em seus vinte e poucos anos de um dos empreendimentos socialistas mais notáveis ​​da década, o elegante periódico americano Jacobin, que em quatro anos de sua criação agora alcança mais de meio milhão de leitores em seu site — um exemplo para rebeldes criativos em todos os lugares.

Bhaskar Sunkara

O projeto Jacobin

Entrevista

Você poderia nos contar sobre sua formação e trajetória pessoal?

Nasci em junho de 1989. Meus pais vieram de Trinidad para os EUA cerca de um ano antes de eu nascer. A família da minha mãe, originalmente trabalhadores contratados de Punjab e Bihar, estava na ilha desde o século XIX, mas meu pai chegou lá de Andhra Pradesh quando jovem, treinando como médico. Nos EUA, porém, suas qualificações médicas não contavam para nada, então ele se tornou um trabalhador administrativo; minha mãe trabalhava como telemarketing. Então eu tinha uma origem típica de imigrante de classe média baixa. Éramos algumas das pessoas menos ricas na cidade específica do Condado de Westchester onde estudei, mas era um subúrbio bem rico. Tive meus primeiros indícios de engajamento político no ensino médio, com os comícios contra a guerra no Iraque. Mas meu desenvolvimento político real veio principalmente por meio da minha leitura. Meus pais trabalhavam até tarde, então depois da escola eu passava algumas horas na biblioteca. Li 1984 e A Revolução dos Bichos, e ler sobre Orwell e o POUM me fez me interessar pela Guerra Civil Espanhola, e também por Trotsky. Era um tipo de politização muito distanciada — aos 12 ou 13 anos, Minha Vida era mais importante para mim do que ir a protestos ou o que quer que seja. Acho que é a inconstância da classe média — tive sorte de não ter lido Ayn ​​Rand ou Milton Friedman antes de ler Trotsky. A partir daí, trabalhei na trilogia Deutscher, li a New Left Review, o trabalho de Lucio Magri, Perry Anderson, Ralph Miliband e outros. Aos 17, entrei para o capítulo de Nova York do Democratic Socialists of America.[1] Editei The Activist, o blog do ramo jovem do DSA, o que me deu alguma experiência em edição e comissionamento. Foi também onde conheci muitas pessoas que se tornariam escritores e editores da Jacobin — Chris Maisano e Peter Frase, por exemplo, que também estavam na ala esquerda do DSA.

A origem dos seus pais influenciou sua posição política?

Eles sempre apoiaram os populistas de esquerda, em um sentido muito amplo. Pessoas como minha mãe, de origem rural em Trinidad, sentiam-se positivas sobre qualquer um que comandasse um estado desenvolvimentista de qualquer tipo, ou mesmo figuras com políticas vagamente progressistas; o mesmo acontecia com meu pai, vindo da Índia. Eles gostavam de Castro e Clinton em igual medida. Eles não eram muito ativamente políticos, mas sempre houve apoio passivo para o tipo de ideias em que eu estava me interessando. Além disso, a geração deles tendia a ter livros espalhados que se associariam à esquerda — tínhamos muito C. L. R. James em casa, já que ele era de Trinidad, mas também The Wretched of the Earth, e assim por diante. Na verdade, ouvi falar dos jacobinos haitianos antes de ouvir falar dos franceses. Os jacobinos negros provavelmente estavam no fundo da minha mente quando comecei a pensar na revista.

Quando foi isso?

Enquanto eu estava na faculdade. Estudei relações internacionais na George Washington University em DC, onde me envolvi mais com o movimento anti-guerra e o ativismo estudantil. Entre meu segundo e terceiro anos, fiquei doente e tive que tirar dois semestres de folga — eu estava vomitando três ou quatro vezes por dia. Fiquei fora durante todo o ano de 2009. Durante esse tempo, eu me disciplinei autodidatamente. Eu lia alguns livros de não ficção por semana, bem como uma obra de ficção. A ficção era inútil, eu me arrependo disso. Mas eu li o cânone do marxismo ocidental e do pensamento socialista de forma mais geral, fazendo muitas anotações. No verão de 2010, quando fiz 21 anos, eu estava me sentindo melhor e me preparando para voltar para a escola, e foi quando eu concebi Jacobin. Eu passei um ano fazendo muito pouco além de pensar e ler dentro desse nicho muito particular, e eu tinha esse excesso de ideias para trabalhar e peças que eu queria encomendar. Inicialmente seria uma revista online, mas então senti que havia uma tal abundância de coisas na web que teria mais impacto se também fosse um diário impresso. Lançamos online em meados de setembro de 2010, e a primeira edição impressa saiu no início de 2011. Na época, eu não tinha nenhuma ideia específica de como administrar uma publicação — ainda tenho minhas primeiras planilhas de despesas e lembro de me preocupar em ter gasto todo o meu orçamento anual de US$ 240 muito rápido.

E quanto à revista como um projeto político — o que você pretendia fazer que não estava sendo feito por outras publicações?

Para mim, era uma forma de representar uma política que não era nem leninista nem o tipo de opinião liberal-esquerdista ampla que você encontra, digamos, em The Nation ou In These Times. Não é um meio termo: eu queria demarcar uma visão que fosse intransigentemente socialista, mas que casasse um pouco da acessibilidade do The Nation com a seriedade política de publicações mais à esquerda. Muito do que eu estava aprendendo durante o ano que passei lendo era como transmitir essas ideias da forma mais simples possível. Os jovens marxistas têm uma tendência a usar muito jargão, em parte como uma muleta para a insegurança; há algumas coisas para as quais precisamos de terminologia especializada, mas muitas dessas ideias não são realmente muito complexas. Então eu estava pensando sobre a melhor forma de popularizá-las e torná-las mainstream. A Jacobin foi criada para ser ousado, jovem, fácil de ler. O visual da revista também fazia parte disso — publicações como Monthly Review ou Dissent, por exemplo, tendem a ter parágrafos extremamente longos, e não há um "dek" abaixo do título explicando o que está no artigo.

O design tem sido uma característica realmente integral da Jacobin. Qual era a filosofia por trás disso?

O que eu estava buscando originalmente nas primeiras edições — e falhei, já que não tinha habilidade técnica — era tornar as coisas o mais acessíveis e atraentes possível; então havia cor, fotografia e arte, havia uma tentativa consciente de romper com as antigas fontes Courier New, o estilo preto e branco dos sds ou dos zines dos anos oitenta e noventa. Mas foi realmente somente quando Remeike Forbes se juntou a nós em 2011 que nossa identidade visual tomou forma. Remeike projetou o logotipo do Toussaint que usamos desde a edição 6; originalmente, o nome da publicação não era para ser historicamente localizado de uma maneira particular — era mais um significante flutuante.

Quem mais esteve envolvido nos estágios iniciais?

Para começar, eu mais ou menos fiz o trabalho editorial e de produção sozinho, e havia um grupo de escritores que contribuíram. Era uma coleção bastante heterogênea de pessoas — Peter Frase, um dos nossos editores, gosta de dizer que deveria escrever um ensaio chamado "Considerações sobre o marxismo da Internet", porque a maneira como as coisas se desenvolveram foi totalmente não orgânica. Conheci Frase e Maisano do ativismo DSA. Depois, havia Seth Ackerman e Mike Beggs, cujos escritos eu tinha visto na lista de discussão Left Business Observer de Doug Henwood, e com quem entrei em contato, pedindo que contribuíssem. Eu tinha lido o blog "Jewbonics" de Max Ajl, e tínhamos estado em contato por causa da nossa raiva compartilhada de certos blogueiros liberais. Outros eu encontrei aleatoriamente na internet, como Gavin Mueller. Esses e alguns outros — meus escritores mais confiáveis, e pessoas a quem eu estava constantemente pedindo conselhos de qualquer maneira — compunham o conselho editorial. Remeike entrou em contato comigo no final de 2011, dizendo o quanto ele gostava da política da publicação e se oferecendo para criar uma camiseta para nós; mas então, quando ele viu o quão ruim a revista física parecia, ele se ofereceu para assumir o design do resto dela. Megan Erickson e Connor Kilpatrick também entraram a bordo em 2011, e no ano seguinte Alyssa Battistoni, que tem sido uma editora-chave de comissionamento, se juntou. Foi somente nos últimos meses que alguém trabalhou em tempo integral, no entanto — e apenas três pessoas recebem salário.

Qual é a relação entre os componentes impressos e online da revista?

Temos um volume tremendo de conteúdo online — uma ou duas peças por dia, de modo que, ao longo do ano, postamos mais de 500 peças originais, sem contar postagens cruzadas, reimpressões e assim por diante. Há um ditado soviético: quantidade é uma qualidade própria e, de muitas maneiras, esse é o espírito do modelo que criamos. Tentamos atrair tráfego da web e, em seguida, tentamos transformar uma certa proporção de visitantes do site em assinantes. Dito isso, as peças da web são de altíssima qualidade; mas tendem a ser mais curtas e mais sensíveis ao tempo. No geral, estamos caminhando para um padrão em que a edição impressa tem conteúdo temático — então a edição do outono de 2014 é sobre a cidade — enquanto o site é para todo o resto.

E como funciona o processo editorial para ambos?

Com a revista impressa, muitas vezes Remeike ou eu criamos uma ideia ou tema amplo, e o apresentamos ao conselho editorial, que então sugere comissões específicas. Então, uma ou duas pessoas do conselho se voluntariam para servir como editor da edição, então haverá uma pessoa de contato rastreando as comissões. Dependendo de quem for o editor, às vezes ele assume as primeiras rodadas de edição impressa, mas na maioria das vezes isso é algo que eu faço. Geralmente, o papel dos outros editores é comentar textos e trabalhar nas edições impressas, embora onde eles têm áreas de especialização, eles originarão muitos artigos — Max Ajl sobre o Oriente Médio, por exemplo. Com o conteúdo online, é um fluxo tão constante que não há tempo para processos deliberativos. Agora chegamos a um ponto em que somos inundados com envios — talvez dez por dia — então filtramos esses e obtemos cerca de cinco artigos por semana a partir disso.

Você poderia nos dizer quem são seus colaboradores, em termos sociológicos? E politicamente?

Eu diria que todos os nossos escritores se encaixam em uma ampla tradição socialista. Às vezes, recorremos a social-democratas e liberais, mas cada artigo é coerente com a visão dos editores — então, podemos publicar um artigo de um liberal defendendo o sistema de saúde de pagador único, porque eles estão pedindo a desmercantilização de um setor; e, como acreditamos na desmercantilização de toda a economia, ele se encaixa. Mais sociologicamente, há muitos estudantes de pós-graduação, jovens professores adjuntos ou professores titulares. Também temos alguns organizadores e pesquisadores sindicais envolvidos, como Chris Maisano, e pessoas trabalhando em ONGs ou em torno de direitos de moradia, esse tipo de coisa.

E eles têm predominantemente menos de 35 anos, digamos?

Acho que sim, com algumas exceções. Como publicamos mais de 500 artigos por ano, publicamos muitos escritores novos. Provavelmente é mais fácil entrar em contato conosco do que com outros meios, embora talvez isso se torne mais difícil com o tempo. Mas também há muitas outras pessoas que publicamos e pedimos conselhos, como Robert Brenner, Vivek Chibber, Kathi Weeks. Há muita boa vontade das gerações anteriores da esquerda — as pessoas veem como nosso projeto se sobrepõe ao delas, mas também como ele atinge um público diferente.

Quais são as estatísticas vitais da Jacobin: número de assinantes, leitores impressos e online, distribuição?

Este é o tópico sobre o qual mais gosto de falar. Nossa base de assinantes está atualmente um pouco acima de 7.000 — embora, é claro, varie devido à maneira como os ciclos de renovação das publicações impressas funcionam. Ainda assim, no momento, estamos tendo um ganho líquido de 80 assinantes por semana, e imagino que atingiremos 10.000 assinantes em 2015. A maioria dos nossos assinantes está nos EUA, mas também temos alguns no Reino Unido, África do Sul e em outros lugares do mundo anglófono. Com relação aos leitores da web, temos uma média de cerca de 600.000 visitantes únicos por mês; ocasionalmente, ele aumenta, de modo que chegamos perto de um milhão de visualizações de página em trechos. A distribuição de cópias impressas para livrarias e bancas de jornal é obviamente muito menor: cerca de 1.000 no total. O mercado mudou na última década, com a morte dessas grandes lojas, então estar nas bancas de jornal é apenas uma questão de exposição, na verdade — temos um incentivo para fazer as pessoas comprarem edições diretamente do nosso site.

E quanto às finanças? Tudo vem de assinaturas?

Sim, é principalmente baseado em assinaturas. Somos uma organização sem fins lucrativos, então recebemos algumas doações, que representam menos de 20 por cento do nosso orçamento. Mas operamos quase inteiramente com nossa renda de assinaturas e usamos doações para desenvolvimento ou expansão.

Você mencionou que a maioria dos assinantes da Jacobin estão nos EUA. Qual é o padrão em termos de dispersão regional?

O maior número está na cidade de Nova York, e há uma base muito grande de assinantes na Bay Area — Oakland, São Francisco. Também temos um bolsão desproporcionalmente grande em Chicago, em parte por causa do nosso trabalho com o Chicago Teachers' Union e nossa cobertura da greve.[2] Em termos per capita, temos muitos assinantes em lugares como Cambridge, MA — cidades universitárias que são inundadas com estudantes de pós-graduação subempregados, que são nosso ganha-pão. As pessoas geralmente se surpreendem ao ouvir o quão dispersa é a base de assinantes, mas acho que isso vem menos de qualquer alcance orgânico que possamos ter do que do fato de que, neste país de 330 milhões de pessoas, estamos vendendo a revista principalmente na internet, em oposição a centros radicais em algumas áreas urbanas selecionadas.

E você pode nos contar sobre os grupos de leitura jacobinos?

Temos cerca de cinquenta grupos de leitura, internacionalmente, quarenta ou mais dos quais estão nos EUA e Canadá. Eles são muito dispersos geograficamente — temos quatro nas Carolinas, temos grupos no Alabama, Iowa, Texas... uma das razões pelas quais os temos nesses tipos de lugares é que eles não têm capítulos existentes de organizações socialistas. Então a Jacobin é o único player na cidade, os únicos tentando reunir as pessoas como socialistas abertos. É uma dinâmica interessante. Em um lugar como Salt Lake City, nosso grupo terá eventos em uma Igreja Unitária, porque comparados aos mórmons, eles são a força progressista na cidade.

De onde vem o ímpeto para esses grupos — é dos próprios leitores ou é algo que você está promovendo ativamente?

Bem, são ambos. Deixamos as pessoas saberem que temos recursos que elas podem usar — ​​programas de amostra, revistas gratuitas — e que podemos ajudar a encontrar espaço, com logística. Mas são os coordenadores que estão realmente no local e que se sentem motivados a começar o grupo de leitura. Obviamente, estamos fazendo tudo o que podemos para encorajar esses grupos. Eles agora estão conectados uns aos outros em uma espécie de comunidade, falando sobre suas leituras e discutindo-as online. O processo é muito orgânico, embora tentemos oferecer orientação e uma estrutura.

Você falou sobre sua própria formação, mas quais são os pontos de referência intelectual para a revista em geral?

Um deles seria definitivamente Michael Harrington, mesmo que discordemos dele politicamente. Aqueles de nós que estão na ala esquerda do DSA frequentemente lutam contra muitas ideias harringtonistas, como sua brandura em relação à burocracia sindical e ao Partido Democrata. Estamos muito mais confortáveis ​​com ações políticas independentes, e eu esperaria por uma ruptura com os democratas muito mais do que Harrington esperava. Mas intelectualmente, acho que ele é muito subestimado como um popularizador do pensamento marxista. Para mim e para alguns outros, Ralph Miliband é outra influência importante, porque, mais do que ninguém, ele representou aquele meio termo que mencionei antes, entre o leninismo e a social-democracia. Embora eu não queira falar por todos os outros, vários de nós viemos de tradições intelectualmente inspiradas pelo trotskismo, sem nunca nos tornarmos trotskistas — o que é semelhante a Miliband ou alguém como Leo Panitch nesse aspecto. Estávamos muito interessados ​​na experiência do Partido Comunista Italiano e outros partidos de massa na Europa, e nos teóricos do eurocomunismo — algo que nos distingue de muitos trotskistas. Os radicais da Segunda Internacional também foram muito importantes para nós — desde o tempo antes do SPD votar pelos créditos de guerra em 1914, é claro! Então lemos Lenin, mas também The Road to Power, de Kautsky. No geral, viemos de várias tradições de esquerda, mas você poderia dizer que houve uma espécie de convergência entre aqueles que vêm de meios pós-maoístas e pós-trotskistas, e aqueles de tradições social-democratas de esquerda.

E quanto ao estilo literário, havia modelos ou escritores específicos que você tinha em mente?

Não houve nenhuma influência em particular. Se houver algum, tentamos evitar o estilo tradicional de escrita de esquerda, minimizando o jargão, e buscamos, em vez disso, ser mais agressivos, mais confiantes — e mais programáticos.

Que considerações estão envolvidas na sua cobertura — a escolha dos temas, bem como o equilíbrio geral entre política, economia e cultura?

Em geral, tentamos publicar coisas que nos interessam. Recentemente, publicamos um artigo sobre o aniversário da revolução portuguesa, que sempre foi um tópico que me fascinou; pensei que não interessaria necessariamente aos outros, mas foi um grande sucesso, porque temos um público que pensa seriamente sobre a mudança social e a transformação no Ocidente, e o legado da revolução portuguesa paira mais alto em seu pensamento do que se poderia imaginar.[3] Acho que os primeiros anos de uma publicação são sobre fazer as pessoas gostarem do que você gosta. E uma das razões pelas quais agora recebemos tantos envios é porque há pessoas que leem a Jacobin há três anos e que agora estão prontas para escrever artigos para a Jacobin. Nós essencialmente treinamos um novo grupo de colaboradores.

E a cultura?

Geralmente tentamos evitar conteúdo cultural. Na medida em que cobrimos cultura, é cultura de massa. Então, vamos publicar algo sobre o último filme Planeta dos Macacos ou o último filme do Superman, cobrindo a cultura de massa de uma forma que lembra Michael Gold — meu escritor stalinista favorito dos anos 1930.[4] Nosso conteúdo cultural é intencionalmente muito diretamente político, muito polêmico. Mas nunca cobriríamos uma ópera ou uma peça, ou cultura de vanguarda.

Porque?

Talvez seja apenas uma reação — não gosto da Escola de Frankfurt. Em todo caso, há muitos bons lugares para obter esse tipo de cobertura. Uma das vantagens da Jacobin é que ela é grosseiramente política e programática, de uma forma que outros locais não são. Quando fazemos críticas, fazemos bem, mas também garantimos que haja uma lição política para pessoas que não estão particularmente interessadas na cultura por si só. Obviamente, se fôssemos uma revista cultural, estaríamos falhando espetacularmente; mas, felizmente, há outras revistas muito boas que se concentram na cultura.

Isso nos leva à questão de como você vê a Jacobin se encaixando no ecossistema mais amplo de publicações de esquerda nos EUA.

Nós nos relacionamos fraternalmente com essas outras publicações. Um periódico como o n+1 opera em um nível estilístico muito superior ao que poderíamos fazer. Dito isso, acho que somos a única publicação nesta esfera que é diretamente política. O n+1 pode abordar a política por meio da literatura, enquanto outros locais podem, de alguma forma, ser políticos. Mas a Jacobin não é nada sem sua política — não tem significado duradouro de outra forma. De certa forma, somos mais parecidos, no contexto dos EUA, com Against the Current, Monthly Review ou New Politics, não apenas porque viemos da mesma tradição marxista, mas porque são periódicos diretamente políticos. Mas, na verdade, não vejo a Jacobin como parte de um cenário editorial mais amplo. Não é um periódico teórico como o Historical Materialism; é fundamentalmente uma publicação voltada para as massas, sem se esforçar para ser uma publicação de movimento ampla e com muitas reportagens como In These Times ou The Nation. De certa forma, estamos tentando ser o equivalente ao que The New Republic é para os liberais. Nem me importo em usar a palavra "middlebrow". A Jacobin é diferente de tudo neste espaço: é explicitamente marxista, é programaticamente socialista, mas nosso objetivo é falar com o maior número de pessoas possível.

Você publicou muito sobre questões internacionais, mas seria justo dizer que a Jacobin é principalmente orientada para o contexto doméstico dos EUA?

É e não é. Em termos de número bruto de artigos, acho que publicamos mais sobre o Oriente Médio e o Norte da África de uma perspectiva marxista do que quase qualquer outra pessoa, especialmente online. E esse também é um dos nossos conteúdos mais populares, alcançando centenas de milhares de pessoas. Mas eu também diria que pode ser muito fácil, como radicais americanos, olhar para o exterior constantemente — olhar para outros problemas e formações políticas em oposição ao nosso fraco e fragmentado movimento socialista neste país. Acho que o melhor serviço que podemos oferecer às pessoas na chamada periferia e em outros lugares é construir um movimento socialista vibrante que combata o imperialismo dos EUA em casa. Também acho que há algo mais difícil e também mais nobre em focar nas lutas nos Estados Unidos, em oposição às lutas mais avançadas em outros lugares. Isso é algo que enfatizamos, em comparação com outras publicações: que entendemos as particularidades americanas e temos alguma noção do que seria necessário para realmente construir um movimento aqui.

Os grupos de leitura Jacobin fazem parte desse esforço?

Quando comecei a revista, queria que as pessoas a lessem porque se consideravam membros ativos de um projeto político. Eu tinha muito receio de que a Jacobin fosse vista apenas como um produto de consumo, algo que parece bom e é agradável de ler, e especialmente cauteloso com nosso sucesso entre os tipos literários liberais de esquerda — é bom que os estejamos conquistando, é claro, mas não queríamos que vissem a Jacobin como uma versão mais radical de n+1, ou fossem atraídos por nós porque somos menos pessimistas do que The Baffler. O projeto político mais amplo de reconstruir o movimento socialista nos EUA é a única razão para a revista existir em primeiro lugar. Então, nossa estratégia é produzir os recursos necessários para esse projeto, e criar espaços onde as pessoas possam se encontrar e discutir ideias é uma maneira de usar a revista para instigar algo mais real e concreto, e menos efêmero do que a experiência da leitura. No momento, não há para onde as pessoas possam ir se quiserem falar sobre política socialista, além de se juntar a uma organização de quadros. Eu pessoalmente acho que ingressar em uma organização de quadros no período atual é um salto que poucos estariam dispostos a dar — não tenho nada contra aqueles que o fazem, eles geralmente fazem um trabalho bom e honrado; mas os grupos de leitura jacobinos são uma boa alternativa, ou pelo menos um complemento, para que as pessoas possam se conectar e discutir ideias sem os fardos organizacionais frequentemente impostos por esse tipo de ativismo. Eu penso nisso como uma ação de espera. Talvez em dez, quinze, vinte anos, haverá organizações que assumirão grande parte da energia que, de outra forma, iria para coisas como os grupos de leitura — e isso será uma coisa boa.

Até que ponto a Jacobin está se alimentando de mudanças na cultura política dos EUA nos últimos anos?

Acho que houve uma espécie de mudança. Você não encontra mais tantas pessoas defendendo ativamente o sistema — há uma sensação de desânimo, uma sensação de que o sistema não pode ser mudado, mas há menos defesa ativa. Isso aconteceu na minha geração, e acho que deixa uma abertura para mostrar às pessoas que há uma alternativa. Definitivamente, há um público para a ideia de que a miséria que as pessoas estão vivenciando é, na verdade, muito fácil de consertar — tecnicamente, temos muitos recursos para fazer isso, as únicas barreiras são políticas. Geracionalmente, acho que também houve uma mudança na percepção do socialismo. Quando o Muro de Berlim caiu, havia essa ideia de que isso abriria caminho para um pensamento socialista democrático não mais limitado pelos paradigmas da Guerra Fria. Mas imediatamente ficou claro que isso não era verdade — houve uma tremenda virada para a direita, e na década de 1990 a vida das pessoas no antigo Bloco Oriental, e no mundo em desenvolvimento de forma mais geral, era consideravelmente pior do que quando a União Soviética existia. Podemos agora estar chegando ao ponto, no entanto, em que o socialismo não está mais tão intimamente associado à URSS. Por exemplo, de acordo com uma pesquisa Pew de 2011, as pessoas nos EUA entre 19 e 30 anos têm sentimentos mais positivos em relação ao socialismo do que ao capitalismo. Claro, o que eles querem dizer com socialismo é algo como o estado de bem-estar social escandinavo, mas isso ainda é um progresso em relação a uma associação com gulags e paradas militares.

Ao mesmo tempo, a mudança para a esquerda que as pessoas tendem a ver no cenário editorial de Nova York é frequentemente exagerada — é definitivamente um desenvolvimento bem-vindo, mas estamos falando de círculos bem pequenos. Muitos dos ganhos mais significativos que foram feitos organizacionalmente estão à direita. Os progressistas frequentemente descrevem isso como astroturf, mas há um grau de energia popular no Tea Party que os ajudou a fazer incursões, por exemplo, contra os direitos reprodutivos. Houve algumas mudanças, e há uma abertura para nós na esquerda, mas eu diria que estamos bem no começo do que precisamos fazer.

Qual era a relação da Jacobin com o Occupy?

A maioria de nós estava envolvida como indivíduos — estávamos em universidades ou grandes centros urbanos onde as ocupações aconteciam. Na época, tínhamos apenas um ano de existência e uma circulação de menos de 1.000. Não desempenhamos nenhum papel direto na organização, embora tenhamos apresentado um painel que se tornou um dos eventos mais famosos do Occupy, em parte porque a freelancer do New York Times Natasha Lennard perdeu o emprego depois de participar dele. Fizemos algumas peças online sobre o Occupy que foram muito lidas na época também. Certamente abriu espaço para a Jacobin, em parte porque as pessoas estavam procurando por algo que não fosse nem a política prefigurativa dos anarquistas nem o liberalismo no estilo MoveOn.org. Apenas em virtude de sermos socialistas, oferecemos uma alternativa política mais convincente — não apenas a crítica moral e ética do capitalismo, mas uma transição plausível para uma sociedade sucessora.

Você falou sobre a Jacobin operando no meio termo entre o leninismo e a social-democracia. O que isso significa em termos de estratégia — implica um tipo de política de neo-Frente Popular?

É verdade que não veríamos os liberais como nossos inimigos, e imaginaríamos uma ação comum com eles sempre que possível. Também é útil fazer uma distinção entre o Partido Democrata e uma parte de sua base. A corrente principal do partido, representada por Obama, assim como os tipos mais tecnocráticos do DLC, têm visões econômicas diametralmente opostas a uma parte substancial da base, que ainda compra amplamente o New Deal, a Great Society, o bem-estar, os bens sociais e assim por diante. Se quisermos construir um movimento de oposição socialista ou mesmo liberal de esquerda hoje, um à esquerda dos democratas tradicionais, seus votos e apoio terão que vir de algumas dessas pessoas — são elas com quem precisamos nos envolver e direcionar nosso ativismo.

Não há uma tensão, no entanto, entre as perspectivas social-democratas e socialistas radicais oferecidas na Jacobin?

Eu não acho. Um dia, em um cenário de sonho onde você tem um movimento socialista pressionando por propriedade social total, digamos, e ele está encontrando oposição ativa da burguesia, então você teria um choque. Mas esse debate está muito no futuro. No curto e médio prazo, não acho que haja uma tensão entre os dois polos. Há tensões com nossos apoiadores liberais, no entanto. Uma das razões pelas quais a Jacobin cresceu tanto é que estamos atraindo liberais que estão interessados ​​em ideias de esquerda, e no momento servimos a um propósito útil para eles — ter alguém inteligente à esquerda deles permite que assumam sua posição natural como centristas. Mas não está claro se obteríamos esse tipo de apoio dessas pessoas se houvesse realmente um movimento adequado promovendo visões diametralmente opostas às deles, ou pelo menos desafiando seu domínio dentro de um movimento de esquerda mais amplo.

Qual é a visão da Jacobin sobre o governo Obama?

Obama obviamente representa um elemento centrista na política dos EUA — há muito mais pessoas reacionárias do que ele, o que tem sido usado pelos liberais para bloquear qualquer oposição ou movimento à esquerda de Obama. Rejeitamos esse tipo de chantagem e nos opomos totalmente ao governo Obama. Como anti-imperialistas, nos opomos a qualquer intervenção em qualquer circunstância por estados capitalistas — então nos opomos, em termos muito estridentes, às intervenções na Líbia e agora na Síria. Ao mesmo tempo, não há dúvida de que muitas pessoas que votaram em Obama nos estados indecisos porque não queriam ver a direita ser eleita estavam agindo de forma bastante racional. Em 2012, não tínhamos realmente uma posição editorial, mas a visão geral entre nós era que não havia candidato para votar naquela eleição em particular — a maioria de nós em estados não indecisos votou em candidatos de terceiros. Parecia fazer sentido votar em Obama em um estado indeciso, onde não havia opção de voto progressista, como muitos sindicatos e formações progressistas fizeram. Mas a lógica dessa posição era impedir qualquer oportunidade possível de eleger um candidato de esquerda no futuro.

Não há um dever político de concentrar os ataques na Casa Branca, como Inimigo Número Um?

Claro — temos apontado isso e continuamos a fazê-lo. Ao contrário da maioria dos que nos deixaram, definitivamente não entramos na onda dos progressistas por Obama. Há uma diferença muito grande entre encolher os ombros para as pessoas que votam em Obama em lugares como Virgínia e realmente elogiar a presidência de Obama como algo que apresenta esperança. Fundamentalmente, nossa principal tarefa é tentar construir movimentos de protesto; mas isso não é algo que você pode querer do nada — a velha linha de Marx é que as pessoas criam sua própria história, mas não sob condições de sua própria escolha, e acho que isso se aplica muito agora. O que é necessário é construir movimentos até chegarmos a um ponto em que as opções eleitorais sejam realmente viáveis.

O que vem a seguir para Jacobin?

Tenho um plano de três e cinco anos. Dentro de três anos, devemos conseguir atingir uma circulação paga estável de 25.000, o que seria muito maior do que os picos históricos de qualquer outra publicação do nosso tipo, com nossa política. Em algum momento, atingiremos um limite máximo, a menos que as condições políticas mudem, mas acredito que isso aconteça bem acima de 25.000. Se você pensar em uma publicação como a Adbusters, que oferece principalmente uma política anticonsumista, ela teve uma circulação máxima de mais de 100.000. Ela fez isso por meio de sua atração e seus visuais. Há muitas formas pelas quais a Jacobin pode atingir uma circulação paga muito alta. Já concebi uma maneira, que é ressuscitar o "Appeal Army" de J. A. Wayland. O Appeal to Reason, representante da ala direita do Partido Socialista da América na época, era a publicação socialista de maior circulação na história dos EUA e, no início dos anos 1900, tinha a quarta maior circulação no país — mais de meio milhão, mais de um milhão para edições especiais. Parte disso se deveu à rede de voluntários que vendiam suas assinaturas. Acho que poderíamos usar coisas assim, que as editoras burguesas não seriam capazes de fazer, para aumentar nossa circulação. Além disso, temos planos de enviar um quarto de milhão de malas diretas nos próximos dois anos. E queremos desenvolver nossa infraestrutura no back-end — nosso paywall, sistemas de gerenciamento de assinantes e assim por diante são em grande parte proprietários e construídos de acordo com nossas necessidades. Com os grupos de leitura, o objetivo é arrecadar dinheiro suficiente para que possamos contratar um segundo organizador. É muito difícil para uma pessoa coordenar tantos grupos. E eu obviamente gostaria de contratar mais equipe editorial e de produção, para distribuir mais o fardo e pagar mais aos escritores.

Mas é principalmente um projeto político. Queremos atingir o maior número possível de pessoas, não apenas para ter uma alta circulação, mas como uma forma de lançar uma bandeira para uma certa variedade de socialismo — atraindo pessoas para ele, politizando-as da melhor forma possível e, esperançosamente, desempenhando algum pequeno papel no surgimento de movimentos que nos levarão a um ponto em que uma revista como a Jacobin tenha, no máximo, uma função auxiliar. Porque não achamos que uma revista deva desempenhar o papel de uma organização. No final das contas, o que um movimento socialista precisa é de militantes ativos nas ruas e, eventualmente, de um partido de massa.

Esse é o plano de cinco anos?

Mais como o plano de vinte e sete anos... Eu ficaria muito feliz se, quando eu morrer, houvesse uma corrente de oposição nos EUA de 5 a 7 por cento que se identificasse como socialista ou apoiasse um candidato socialista. Se isso acontecesse no centro do mundo imperialista, criaria muito espaço para outros e permitiria que o elo fraco do capitalismo fosse quebrado em outro lugar. Seríamos capazes de pressionar e fazer nossos próprios grandes avanços nessas condições e estar preparados para não apenas reagir, mas nos beneficiar das crises capitalistas.

1 O DSA surgiu de uma divisão no Partido Socialista da América, que se tornou ferozmente anticomunista durante a Guerra do Vietnã e mudou seu nome para Social-Democratas dos EUA em 1972; um grupo reunido em torno de Michael Harrington deixou o SDUSA em 1973, e em 1982 sua organização se fundiu com o NAM, um tributário populista da nova esquerda dos anos 60, e uma tendência mais esquerdista mais próxima do Solidariedade de hoje.
2 Ver Class Action: An Activist Teacher's Handbook, Nova Iorque 2014 — um folheto produzido pela Jacobin em conjunto com a CTU — e Micah Uetricht, Strike for America: Chicago Teachers Against Austerity, Londres e Nova Iorque 2014.
3 Mark Bergfeld, "The Next Portuguese Revolution", Jacobin online, 22 de maio de 2014.
4 Michael Gold (1894-1967): pseudônimo de Itzok Granich, partidário da CPUSA e colunista do Daily Worker, conhecido por críticas cruéis à literatura burguesa.

23 de novembro de 2014

Le Journal e Le Club: Mediapart

Tariq Ali

London Review of Books


Tradução / Há algumas semanas, caminhei da Bastille à rue Saint-Antoine, em Paris, pensando em como as últimas décadas se vingaram tão rápido do seu passado. O espetáculo que hoje obscurece qualquer outro na França é o colapso da civilização política cujas fundações remontam a 1789. A França radical – sua intelligentsia, seus partidos políticos, seu cinema e sua imprensa – sofre um processo de neoliberalização. O editorial manifesto de Jean-Marie Colombani sobre o 11 de Setembro de 2001 no Le Monde – “Nous sommes tous Américains” (“Somos todos americanos”) – acabou por ser uma profecia. Será possível que a memória histórica do país seja em breve apagada e os célebres anos 1789, 1793, 1815, 1830, 1848, 1871, 1936 e 1968 deturpados ou esquecidos?

Os novos liberais, os historiadores François Furet e Pierre Nora, os políticos Jospin e Hollande, prepararam bem o terreno para a direita francesa. Manuel Valls, atual primeiro ministro socialista, expõe sua admiração por Tony Blair e está mano a mano com a Frente Nacional de Marine Le Pen no quesito humilhar minorias. Há algo mais que uma França de Vichy no ar, só que com muçulmanos e ciganos no lugar dos judeus.

Quantos passantes sabem que o monumento no centro da place de la Bastille homenageia os mártires da Revolução de Julho de 1830? O rei insistira em levar a cabo ordenanças impopulares, dissolvendo a recém-eleita Câmara dos Deputados, retirando os votos da classe média e suspendendo a liberdade de imprensa. Erigiram-se as barricadas. Carlos X, como outros nobres da sua linhagem que procuram asilo, fugiu para Londres, deixando para trás os corpos de mais de duzentos cidadãos, mortos na luta pela liberdade de imprensa.

Hoje a imprensa francesa está em maus lençóis. Le Figaro não é tão tendencioso como o Telegraph, mas está quase lá. Os jornais corporativistas Le Monde e Libération estão em declínio. É verdade que o Le Monde Diplomatique ainda circula todo mês, porém ao que depender de estatísticas e políticas globais, é muito ilustre e muito enfadonho para causar qualquer impacto relevante na política francesa.

O desafio à imprensa veio de um site chamado Mediapart: , lançado em 2008 para denunciar a corrupção incrustada nas instituições da Quinta República Francesa e nos partidos políticos. Ideia de Edwy Plenel, ex-editor do Le Monde, e três colegas experientes – François Bonnet (o editor), Gérard Desportes e Laurent Mauduit –, donos de uma vasta experiência e, mais importante, de uma boa lista de contatos. Com o jornalista Fabrice Arfi, eles exibem uma investigação meticulosa e completa similar a do jornalista britânico Paul Foot, na antiga revista Private Eye.

O Mediapart funciona com um modelo de assinatura: por seu primeiro euro, você pode ter acesso ao site por 15 dias; depois, custa nove euros por mês. Em 2011, o site lucrou 500 mil euros mesmo sem anúncios; 95% da receita do site vêm de seus assinantes. Há duas páginas principais: Le Journal, com matérias dos jornalistas, e Le Club, o blog dos assinantes que comentam e interagem com os editores. Todo dia há edições às 9h, 13h e 19h, em versões em inglês e espanhol. French Leaks, um site do Mediapart, é o Wikileaks do país.

O Mediapart começou durante o mandato de Sarkozy: o escândalo Bettencourt, envelopes abarrotados de euros sendo entregues diretamente a Sarkozy e Eric Woerth, seu então ministro do orçamento. Depois houve o dinheiro que Sarkozy recebeu de Gaddafi (que queria sua reeleição), e o encobrimento do caso Karachi, quando onze engenheiros franceses foram mortos (provavelmente pelo ISI), porque a propina da venda dos submarinos franceses não tinha sido paga por inteiro para os poderosos do Paquistão. O Mediapart não parou com Sarkozy. O governo socialista, eleito em 2012, foi submetido a rigoroso escrutínio e os resultados impressionam. Jérôme Cahuzac, um cirurgião plástico, rei dos transplantes de cabelo e ministro adjunto da economia, conclamou a população a economizar. O Mediapart revelou que ele tinha mais de um milhão de euros numa conta secreta na Suíça. Cahuzac mentiu à Hollande, ao parlamento francês e à mídia. O Mediapart insistiu, agora com o apoio do resto da imprensa. Ele foi finalmente demitido.

Os escritórios do Mediapart, na rue Saint-Antoine,comportam uma equipe de 33 jornalistas. Funcionam como um jornal diário sans papier. Com 100 mil assinantes (e 2,5 milhões de visitas por mês), o Mediapart gosta de dizer que eles têm metade da circulação do Le Monde e do Le Figaro juntas. E os jornalistas são pagos de forma adequada. O site não depende do trabalho barato de estagiários. “Nós lutamos”, assim me disse Planel. “O Mediapart é produto de uma dupla crise: a crise econômica da velha imprensa e a crise da democracia da França em especial, mas que também acho que acontece em todo continente europeu.”

22 de novembro de 2014

Os nossos amigos em Riade

Os Estados Unidos são aliados da Arábia Saudita não apesar da ordem política autoritária do país, mas por causa disso.

Toby C. Jones

Jacobin

Tradução / Na quarta-feira passada, um tribunal penal na Arábia Saudita condenou à morte o clérigo xiita xeque Nimr al-Nimr, um dos mais visíveis dissidentes políticos do reino. As autoridades sauditas justificaram o veredito em termos de segurança nacional. Declarado culpado por vagas acusações de sedição, Al-Nimr foi julgado num tribunal criado para julgar casos de terrorismo.

Como é frequentemente o caso na Arábia Saudita, o que é considerado a regra da lei e segurança nacional é geralmente o teatro do absurdo. O veredito da execução, que podia ser comutado para uma sentença de prisão prolongada, é o produto de um sistema baseado na exclusão política, um sistema que sacrifica os seres humanos de modo a manter a autoridade centralizada e o privilégio da elite.

Al-Nimr foi preso e posteriormente condenado não por ser um perigo para a sociedade saudita, mas porque há muito tem sido um crítico da opressão, ativista contra a discriminação sectária e tem conduzido protestos exigindo reformas da ordem política injusta. Al-Nimr tem sido uma figura proeminente no apoio ao que tem sido um movimento de protesto em grande parte não visto, mas, no entanto, persistente nas comunidades predominantemente xiitas da Arábia Saudita oriental.

Desde 2011, pouco depois de cidadãos terem se mobilizado contra o Al-Khalifa no vizinho Barém, os xiitas sauditas também vieram para as ruas. Como resposta, as autoridades tomaram medidas enérgicas criminalizando um vasto campo de ativistas, policiando de forma agressiva as comunidades xiitas e perseguindo, prendendo ou matando montes de ativistas.

Al-Nimr só coloca uma ameaça para o próprio regime. A repressão de Estado, sob a capa de um discurso de segurança e sedição, é um fraco esforço para mistificar este facto fundamental. Feitas as apostas de exprimir raiva contra o regime, especialmente pela comunidade xiita, é digno de nota que os protestos de rua continuaram diariamente desde que foi conhecida a sentença contra Al-Nimr.

Claro que mesmo observadores ocasionais da política da Arábia Saudita não ficam surpreendidos com a decisão de executar um proeminente clérigo xiita. Com efeito, o reino é largamente conhecido por ser um centro de extremismo religoso e sectarismo. E é bem verdade que o anti-xiismo tem história na Arábia Saudita.

Os xiitas, que perfazem 15 por cento da população saudita, têm sido, historicamente, apontados, quer pelos zelotas religiosos quer pelo governo central, como um regime imperial. A comunidade tem enfrentado discriminação e exclusão sistemáticas desde a expansão imperial de Al-Saud da Arábia Central desde o início do século XX.

Mas as patologias sectárias, mesmo na Arábia Saudita, têm histórias particulares. E estão longe de estar tão disseminadas como poderíamos pensar. É certo que o sentimento discriminatório se tornou mais entranhado na última geração, mas as piores variedades de anti-xiismo, sobretudo as que defendem a violência e apoiam a regionalização de uma guerra sunita-xiita são uma minoria pequena, mas poderosa.

O anti-xiismo hoje não é tanto o produto de uma interpretação retrógrada ou ortodoxa do Islão – largamente rotulada de Wahabismo – como é a convergência de várias forças políticas, sendo a mais importante de todas, um estado vulnerável.

Confrontados com uma quantidade de ameaças internas e externas – o desejo de influência no Golfo por parte do Irão; a ascensão do poder xiita no Iraque pós-invasão; a revolta no Barém, o estado satélite da Arábia Saudita; e, sobretudo, o surgimento de uma série de desafios domésticos à autoridade saudita desde 2003, inclusive a crítica à enorme corrupção do Estado e à ausência de direitos políticos – os líderes de Riade responderam fomentando o anti-xiismo discriminatório. Em vez de alargar a participação ou de acabar com as desigualdades, o impulso do regime foi o de continuar a política da escalada sectária.

Visto desta forma, o veredicto contra Al-Nimr não é tanto sobre segurança nacional ou um reflexo do sentimento profundamente conservador anti-xiita, mas um sinal da vulnerabilidade do regime.

É tentador dizer que, ao ameaçar executar Al-Nimr, o Estado pretende dissuadir outros dissidentes xiitas de desafiarem a sua autoridade. Certamente que isto é verdade. Mas o regime está também a atirar isco para os piores reaccionários no seu seio, numa prática de diversão e legitimando politicamente as formas agressivas e virulentas de sectarismo que se têm estabelecido na região. O efeito óbvio é que o anti-xiismo, dentro e fora do país, ganhou e continuará a ganhar maior aceitação como ganhou com a subida do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS). De forma mais subtil, o gambito saudita baseia-se também numa clara compreensão que outras potenciais formas de desacordo – contra acusações de corrupção ou frustração por o que é um estado securitário forte - podem ser desviadas ou afastadas ateando o anti-xiismo e sacrificando corpos xiitas.

A sectarização da política saudita é também política e económica e ligada à “relação especial” do reino com os Estados Unidos. Desde a rebelião no Barém, em 2011, os Estados Unidos continuaram a apoiar os regimes árabes autocráticos no Golfo em vez da democracia e dos direitos humanos. As justificações incluem prioridades em torno da “segurança”, a necessidade de conter o Irão e assegurar que o petróleo circula do Golfo para os mercados globais.

Com estas prioridades em mente, é muito improvável que os funcionários americanos façam grande coisa para desafiar Riade quanto ao veredicto sobre Al-Nimr ou alterar o seu comportamento sectário no geral. Os críticos instaram os Estados Unidos para repensarem os seus laços estratégicos com Riade. Mas fazendo tal, isso obrigaria a confrontar não só as contradições na política americana, especialmente dado que está próximo de um estado saudita que apoiou a escalada do ISIS mesmo que indirectamente, mesmo quando agora reclama estar comprometido com a destruição do estado islâmico.

De qualquer modo, a falta de vontade dos Estados Unidos de confrontar o papel da Arábia Saudita no ascenso do ISIS, à parte os comentários do secretário de estado John Kerry que pareciam reconhecer isto, dá campo ao comportamento contraditório do reino. Quaisquer que sejam os limites do poder americano, a realidade é que Washington nunca pressionou significativamente os sauditas acerca da sua cumplicidade na propagação do sectarismo ou do terrorismo anti-xiita pós 2003.

Para além destas contradições, é importante manter à vista o papel que o governo dos Estados Unidos e que o capital americano desempenharam no aumento da autocracia e das políticas discriminatórias na Arábia Saudita, em primeiro lugar.

Al-Nimr é oriundo de uma pequena aldeia chamada Awamiyya na província oriental da Arábia Saudita, um sítio com forte influência americana. É na parte oriental que vive quase toda a comunidade xiita do reino e onde quase todo o petróleo está situado. Para um regime preocupado com ameaças internas, os desafios xiitas ao poder têm significado, não só pelo seu conteúdo, mas também por causa da sua localização. O governo dos Estados Unidos e o capital americano sabem tudo isto muito bem.

Embora os interesses políticos e empresariais americanos se tenham rendido ao controlo directo dos recursos de petróleo da Arábia Saudita no começo dos anos 80, eles estiveram presentes na província oriental, no interior e em torno das comunidades xiitas, desde finais dos anos 30 e ao longo de grande parte do século XX.

Receosa da mão-de-obra saudita politicamente mobilizada em meados do século XX, a Arabian American Oil Company (que era conhecida por empregar funcionários da CIA) coordenou-se intimamente com os líderes sauditas entre 1940 e 1970 na construção de uma ordem política centralizada e discriminatória, antidemocrática e anti-operária destinada a criar corpos disciplinados e dóceis num local onde havia grande falta de legitimidade política. A verdadeira ordem política que as autoridades sauditas aspiram sustentar por meio de julgamentos espectáculo e penas capitais é o legado desta cooperação do século XX.

Os políticos americanos já não pensam em termos dos interesses de uma companhia petrolífera americana que controla o petróleo saudita. Mas os seus interesses económicos e políticos práticos mudaram muito pouco. Desde finais dos anos 70, estas ligações proliferaram, sobretudo através da venda de armas e do entrelaçar do complexo industrial bélico americano com a riqueza do petróleo saudita. Não há maior máquina para reciclar os petrodólares sauditas e do golfo árabe do que massivos e caros sistemas de armamento. Estas vendas estão largamente justificadas com a linguagem da segurança e invocando ameaças regionais como Saddam Hussein e qualquer que seja o regime que vigore em Teerão. A realidade, no entanto, é que elas são extremamente lucrativas.

Embora na última década tenham, por vezes, surgido ressentimentos com a política americana, Riade permanece comprometido na sua relação com Washington. O contrário também é verdade. Os políticos americanos continuam a ver a Arábia Saudita como indispensável não porque tenha mostrado vontade de mudar ou desenvolver uma ordem política mais inclusiva e tolerante, mas antes pelo contrário.

Reclamar democracia na Arábia Saudita ou simplesmente uma abordagem mais crítica ao modo como a política doméstica de Riade desafia a catástrofe regional seria abrir-se à possibilidade de um governo que não subordinasse os interesses dos seus cidadãos às necessidades energéticas americanas. Mas esse é um risco que o governo e o capital dos Estados Unidos não têm intenção de correr.

15 de novembro de 2014

Servir ao povo

A falta de moradia não é um acidente. É o resultado de um sistema econômico brutal e de políticas governamentais conscientes.

Ari Paul

Jacobin

Garry Knight / Flickr

Tradução / Arnold Abbott, de noventa anos, tem ganhado as manchetes após ser preso por estar organizando atos de alimentação para moradores de rua em espaço público na sua cidade. O prefeito da cidade, Jack Seiler, acredita que o mais apropriado para o idoso seria uma sentença dequatro meses, ele conta aos repórteres que Abbott ‘’decidiu que esses indivíduos não deveria ter nenhuma interação com o governo, que eles deveriam ser simplesmente alimentados nos parques públicos. Nós discordamos.’’

Além da natureza ‘’Davi e Golias’’ do caso, os absurdos de tal injunção são inúmeros. Não seria uma clara Primeira Emenda da liberdade para as pessoas convocar? Poderia um estado que se diz democrático realmente evitar atos de caridade? E como o estado decide quem é sem-teto? Por exemplo, poderia um couch-surfer ser considerado sem abrigo e assim, sob essa lógica grotesca, ser um risco para a segurança pública?

Embora possa ser fácil de descartar isso como mais uma ocorrência estranha no famoso ‘’Sunshine State’’, Florida não se reduz a mais um estado insensível dos EUA. Ao redor do país os municípios tem implementado uma variedade de métodos e estatutos para perseguir e criminalizar aqueles que não possuem abrigo: a proibição da mendicância, estabelecendo ‘’qualidade de vida’’, confiscando bens pessoais, jogando ao leu construções em expansão (o que soa um tanto desencorajador), e até mesmo matar um homem por ter acampado no deserto.

O objetivo, claro, é empurrar esses ‘’incoveniente’’ para a periferia ao invés de resolver o problema subjacente. E o problema é de fato terrível: a falta de moradia está em ascensão a nível nacional.

Aproximadamente cinquenta mil pessoas estão sem moradia na cidade de Nova Iorque. O número dos sem-teto em Washington DC deverá aumentar 16% nesse inverno. E em Massachusetts o número disparou em 40% desde 2007. (Uma exceção surpreendente é Utah, onde um governo republicano começou simplesmente a fornecer moradia para os sem abrigo.) Na maioria das vezes, o número das pessoas sem teto aumenta quando pessoas ricas passam a possuir certas áreas, suas riquezas deslocam os locatários que, eventualmente, não podem mais alugar qualquer lugar.

A situação na florida não tem sido nada mais do que esclarecedora. Ela mostra como a miséria não somente é produzida por acidentes e erros do mecanismo do mercado, mas também por uma politica precisamente fria do estado. Austeridade não é um triunfo dos valores de mercado sobre o tão chamado ‘’grande governo’’, mas sim um desvio dos recursos do estado que deveriam prestar serviços as pessoas que passam por necessidade, ao invés disso essas forças atuam contra essas pessoas. Vale-refeição são cortados, no entanto, subvenções federais para os departamentos de polícia continuam fluindo.

Muitas vezes, alguns esquerdistas coíbem-se da ideia de caridade com o fundamento de que se trata de uma suspensão temporária do sofrimento causado pela desigualdade estrutural, um desperdício de tempo e energia e, que seria mais adequado se, de fato, houvesse atitudes que fizessem a sociedade mais justa e igualitária. Caridade também viria a introduzir relações de subordinação: ao invés de afirmar seus direitos à moradia e comida, os que são marginalizados aceitam a caridade alheia.

O assalto da austeridade sobre a caridade é, no entanto, um lembrete de que ela pode ser um ato subversivo. Alivia-se o sofrimento daqueles do lado perdedor do capitalismo, enganando a ‘’ordem natural’’ do Darwinismo Social, Também pode fortalecer os lados entre ativistas e aqueles que procuram por justiça. No entanto, caridade pode ser um meio para se se organizar contra políticas que garantem a desigualdade.

Na verdade, isso é o que motivou parte dos protestos do Occupy Wall Street, especialmente durante as consequências do furacão Sandy. Enquanto algumas pessoas viram os trabalhos de assistências como um provedor de serviços fragmentados, a ideologia do movimento centralizou-se no conceito de oferecer ajuda aos afetados pelo furacão, enquanto o estado falhava em prover assistência.

Um dos objetivos foi criar novos tipos de solidariedade, uma oportunidade para os movimentos que em sua maioria possuía integrantes brancos para se juntar a uma causa comum com comunidades negras de baixa renda, no entanto, outros objetivos eram mais a de acordo com uma visão de organização socialista radical – usando caridade para mostrar o modo como as prioridades do estado estão amarradas às vontades da elite.

Em certo sentido, Abbott, está mostrando um estado que usa a violência contra aqueles que fazem caridade ao invés de resolver um sistema que cria falta de moradia. E as noticias de Ft. Lauderdale não é somente um incidente isolado, como a Rádio Pública Nacional informou, tais leis anti-caridade estão apenas se tornando mais prevalecentes. Os trabalhadores de caridade que estão com mais frequência sendo presos não irão somente provar para o mundo que o capitalismo tem criado crises de falta de moradia, mas que tamanho sofrimento é cuidadosamente e fortemente imposto ao público pelo governo que serve aos poderosos.

É nesse sentido que caridade pode tomar um papel transformador – não simplesmente apaziguando aqueles que necessitam, mas denunciando um sistema que vira as costas para os direitos básicos desses cidadãos. Combater superficialmente ordenanças ”anti-sem-abrigo” e apenas distribuir caridade não será o suficiente. Nós devemos nos organizar para a erradicação das faltas de moradia e da própria fome.

Sobre o autor


Ari Paul is a journalist in New York City who has covered politics for the Nation, VICE News, the Guardian, the Forward, the New York Observer, Al Jazeera America, and the Brooklyn Rail.

13 de novembro de 2014

Vítimas do capitalismo

O trabalho cada vez mais desumanizador causou uma epidemia de suicídios na França

Uma entrevista com
Patrick Ackermann

Katy Warner / Flickr

Tradução / No início deste ano, uma mulher com pouco mais de 50 anos que trabalhava como gerente na empresa de correios francesa foi encontrada enforcada em seu escritório em Paris. Apesar de nenhum bilhete suicida ter sido encontrado, a morte foi ligada ao anúncio de dois dias antes sobre a participação da empresa no "Horizon 2020", um plano de investimento da União Europeia, parte de uma série de reestruturações que irão mudar o status dos trabalhadores na empresa.

A tragédia é parte de uma epidemia de suicídios em grandes empresas francesas. Uma delas é a France Télécom (renomeada Orange em 2013), gigante das telecomunicações cujas "ondas de suicídio" coincidiram com a privatização e reestruturação da empresa.

Doze empregados da France Télécom se mataram em 2008, 19 em 2009, 27 em 2010 e seis em 2011. Apesar de um novo acordo sobre as condições de trabalho ter sido negociado com os sindicatos, os suicídios voltaram a ocorrer, com 11 casos em 2013 e dez desde o início de 2014.

Suicídios relacionados ao trabalho são um fenômeno internacional, como evidenciados pela enxurrada de mortes nas fábricas de produção da Foxconn no sul da China em 2010 ou pelo fenômeno do "karoshi", morte por excesso de trabalho, no Japão. A França se destaca pelo grande número destas ocorrências, pela cobertura da mídia sobre a questão e pelos intensos debates jurídicos e políticos que se seguiram. Com uma taxa de suicídios de 14,7 por 100.000 habitantes, a França também tem um dos índices mais altos da Europa, o dobro do Reino Unido e três vezes maior do que Espanha e Itália.

A conexão entre o suicídio e as condições de trabalho é extremamente difícil de ser estabelecida e é geralmente o resultado de longos processos judiciais realizados pela família da vítima contra a empresa. Mas na France Télécom algumas pessoas deixaram cartas, que depois foram publicadas na imprensa francesa, que culpavam o trabalho de forma explícita. Os chefes reagiram tentando individualizar as causas dos suicídios, atribuindo-as a problemas mentais ou emocionais dos indivíduos e desassociando-as de qualquer relação com o local de trabalho.

Uma nova estrutura sindical criada em 2007, o Observatório do Estresse e da Mobilidade Forçada (L’Observatoire du stress et des mobilités forcées), tem tido um papel crucial para o reconhecimento dos suicídios ligados ao trabalho como um fenômeno social na França. Frente à hostilidade das empresas e dos sindicatos tradicionais, o Observatório tem conseguido trazer a atenção pública aos suicídios.

Em entrevista, Patrick Ackermann, líder sindicalista no Solidaires Unitaires Démocratiques (SUD) e um dos fundadores do Observatório, comenta o trabalho que tem sido desenvolvido com relação aos suicídios.

Sarah Waters

You started working at France Télécom nearly thirty years ago. Can you tell me a little about what it has been like working for this company?

Patrick Ackermann

When I joined France Télécom in 1987 as a supervisor on the telephone lines, it was a cutting-edge, dynamic company with a young workforce who were driven by a sense of public service. We believed that we were part of a grand project to deliver fair and equal access to telephone services across the country.

As a public-sector company, we shared a distinctive working culture based on a sense of universal mission, of the general interest, and of egalitarianism. There was a sense of pride and patriotism in what we did and the workforce was marked by a strong sense of solidarity.

Like other telecommunications companies, we faced pressures from the European Union during the 1990s to privatize and open up our capital to financial markets. Because trade unions were very strong at France Télécom and because they resisted privatization, the French government delayed this process until much later than in other European countries.

The privatization of France Télécom began in 1996 when shares were placed on financial markets, although the state retained majority ownership until much later. Employees accepted this partial privatization on the grounds that they would retain their public service status as fonctionnaires, which meant they could keep certain benefits, including job security, and that they couldn’t be legally fired.

After privatization, company bosses engaged in a frenzied acquisition of telecommunications companies outside of France and as a result, the company accumulated massive debts. The dotcom crash led to a dramatic collapse in the value of its shares and created further financial woes for the company.

By 2001, France Télécom was designated as the most indebted company in the world, and Moody’s downgraded its shares to the status of junk bonds. This meant that when Didier Lombard took over as CEO in 2005, he had one overriding objective: to slash costs through massive lay-offs.

Twenty-two thousand jobs were to be shed in two years. Since 80 percent of workers were fonctionnaires and therefore unsackable, management resorted to more insidious psychological tactics to force them to leave the company. They engaged in what might be described as terror tactics that targeted individuals by every means possible.

Some employees received a barrage of e-mails from managers exhorting them to find work elsewhere. Others were forced to change jobs or move to new cities on a continuous basis as managers sought to destabilize their working life. Others were subject to interviews where they were criticized and humiliated in front of others.

Under French law, these methods are defined as harcèlement moral, or psychological harassment.

Você pode me falar sobre as circunstâncias em que o Observatório foi criado?

Patrick Ackermann

Sabíamos que havia um mal-estar generalizado entre muitos trabalhadores da France Télécom. Então aconteceram os primeiros suicídios em 2008. As vítimas eram de todos os escalões: gestores, técnicos, operadores de call-center e administradores. Entre estes, alguns membros do sindicato.

Pedimos para a gerência investigar a situação, mas eles se recusaram. A maioria dos outros sindicatos estavam relutantes em intervir na questão dos suicídios. Tivemos a ideia de criar um novo tipo de estrutura sindical que monitoraria os suicídios, providenciando evidências claras sobre o que estava acontecendo e usando isso para confrontar a chefia.

Foi uma luta para tirar a ideia do papel. Estávamos isolados, sem recursos e encarando grande hostilidade. Os outros sindicatos achavam inapropriado ou até mesmo grosseiro da nossa parte em querer registrar os suicídios dos trabalhadores. Acho que subestimaram completamente a dimensão social do problema.

Desde o início nos preocupamos em não focar em casos individuais, mas de olhar para as causas fundamentais e tratar a questão como um fenômeno social generalizado.

O que o Observatório fez para abordar a crise dos suicídios?

Queríamos investigar a causa dos suicídios, acumular evidência e publicar os nossos achados. Uma das nossas primeiras iniciativas foi enviar um questionário online para todos os empregados da France Télécom com o intuito de medir os níveis de estresse no trabalho.

Os resultados comprovaram níveis críticos de estresse entre os trabalhadores. Dois a cada três empregados sofriam de estresse relacionado ao trabalho e um a cada dois queriam deixar a empresa. Obviamente a chefia rejeitou esta evidência, mencionando um questionário anterior feito por eles mesmos entre os empregados, apesar desses resultados nunca terem sido divulgados.

Como vocês usaram a mídia e a opinião pública como uma ferramenta na campanha?

Para cada suicídio que acontecia, contatávamos a imprensa. No começo, apenas tabloides ou jornais direitistas como Le Figaro se interessaram. No entanto, pouco depois, a grande imprensa e a televisão começaram a prestar atenção.

Em julho de 2009 houve um caso de suicídio de um engenheiro de 51 anos que deixou uma carta que foi publicada pela imprensa. Sua carta culpava o trabalho explicitamente como o motivo de sua morte, e dizia: "Eu estou tirando a minha vida por causa do meu trabalho na France Télécom. É o único motivo". Ele também se referiu a uma "gestão através do terror" e ao estresse constante no trabalho. O suicídio desencadeou uma petição e uma manifestação dos funcionários de Marselha, onde ele trabalhava. A isso seguiu-se uma mobilização a nível nacional.

Uma série de programas televisivos tratou dos suicídios e o governo francês começou a se preocupar. O ministro do trabalho da época, Xavier Darcos, pediu que Didier Lombard, então CEO da France Télécom, organizasse uma entrevista coletiva como uma tentativa de acalmar a situação. Durante a coletiva, Lombard declarou: "Essa moda de suicídio precisa parar". Muitas pessoas ficaram chocadas com a sua insensibilidade.

Por que você acha que os sindicatos tiveram tanta dificuldade em lidar com os suicídios ligados ao trabalho?

O Observatório conseguiu articular o sofrimento das pessoas no espaço de trabalho que não é necessariamente ligado às condições materiais ou físicas, mas a uma sensação de angústia profundamente enraizada. Isso vem de formas de gestão que submetem os indivíduos a pressões psicológicas e destrói o relacionamento deles ou delas com o trabalho e com os demais. Os sindicatos têm dificuldade em abordar este tipo de sofrimento porque ele é invisível e intangível.

É interessante que, na France Télécom, muitas das vítimas tinham um perfil semelhante: a maioria era composta por homens na casa dos 50 anos de idade que trabalhavam na France Télécom há mais de 30 anos e foram pressionados pela chefia a juntarem-se à "linha de frente" da empresa, vendendo produtos e serviços no call center. Lá eles eram submetidos a vigilância intensa, eram punidos se chegavam alguns minutos atrasados e tinham de pedir permissão para irem ao banheiro.

Estes técnicos perderam todo o senso de autoestima, autonomia e profissionalismo. Em vez de procurar beneficiar-se da experiência profissional deles, a empresa tentou apagar isso e reduzi-los a robôs falantes.

Até que ponto estes suicídios são uma maneira nova e extrema de protesto que reflete o colapso da tradicional mobilização coletiva?

Na France Télécom, os sindicatos foram consideravelmente enfraquecidos durante o período da privatização. A gestão procurou destruir as formas existentes de solidariedade entre os trabalhadores, incluindo a participação sindical. A mensagem passada era que cada trabalhador estava sozinho frente a chefia e tinha de carregar a responsabilidade pessoal pelos sucessos ou fracassos econômicos da empresa. A velha cultura de solidariedade e representação coletiva tinha de ser eliminada.

Os suicídios geralmente possuem uma dimensão social que procura alcançar fins estratégicos além da morte de uma pessoa. As cartas deixadas pelos indivíduos podem denunciar as condições de trabalho, apontar o dedo para os chefes ou pedir uma ampla mudança social. Em alguns casos, foi deixado um conjunto detalhado de documentos para permitir que outras pessoas preparem um processo legal contra a empresa. Esses são objetivos geralmente associados a protestos sociais.

O Observatório conseguiu mudar as coisas dentro da France Télécom e também num plano político mais amplo?

Sim, em 2010 os sindicatos e a gerência participaram de uma série de negociações para preparar um novo acordo sobre as condições de trabalho. Foi o próprio governo francês que insistiu que os executivos da France Télécom participassem dessas negociações.

Os novos acordos de trabalho determinam princípios para proteger o indivíduo do estresse excessivo e das pressões no trabalho. Estes princípios eram, na teoria, muito admiráveis, mas na prática o acordo nunca foi implementado e fez muito pouco em termos de mudanças concretas.

No nível nacional, o governo ajudou a formar, em 2013, um novo Observatório Nacional de Suicídios, que monitora os níveis de suicídios por todo o país e providencia recomendações políticas para o governo.

Um dos nossos principais sucessos foi processar legalmente os chefes da France Télécom. No fim de 2009, fizemos uma queixa oficial contra a France Télécom e iniciamos uma ação legal contra a empresa.

Como resultado, Didier Lombard foi colocado sob investigação judicial em relação aos 80 suicídios e tentativas de suicídio na empresa durante seu período como CEO. O vice CEO de Lombard e seu gerente de recursos humanos também estavam no banco de réus. O veredito do caso será anunciado em 2015.

Em março de 2014, o Observatório colocou a France Télécom em "alerta grave" depois de acontecerem dez suicídios na empresa desde o início do ano. Como você explica essa nova onda de suicídios?

É importante destacar, antes de tudo, que nem todos estes suicídios foram ligados às condições de trabalho. Eu também adicionaria que foram feitas algumas melhoras no trabalho.

A gerência não usa mais táticas psicológicas que focam no indivíduo. A empresa registra, agora, cada caso de suicídio e nos comunica, depois de se recusar por muitos anos a reconhecer que os suicídios no trabalho sequer aconteciam.

Ainda assim, a empresa ainda pratica uma política de demissões em massa que causa desespero entre os trabalhadores. Ela está realizando os maiores cortes de pessoal feitos por qualquer empresa francesa nas últimas duas décadas. Os objetivos econômicos ainda são buscados ao custo de vidas humanas.

Sobre o autor

Patrick Ackermann is trade union leader within the leftist Solidaires Unitaires Démocratiques (SUD) and one of the founders of the Observatory of Stress and Forced Mobility.

Sobre a entrevistadora

Sarah Waters is a senior lecturer in French studies at the University of Leeds.

1 de novembro de 2014

De Michael Brown a Assata Shakur, o estado racista da América persiste

Aqueles que resistem são tratados como terroristas - como em Ferguson este ano, e como eu e outros ativistas negros fomos nos anos 60 e 70.

Angela Davis

The Guardian

Manifestantes confrontam policiais após a absolvição de George Zimmerman pelo assassinato de Trayvon Martin. Photograph: Zhao Hanrong/Xinhua Press/Corbis

Tradução / Embora a violência racista do Estado seja um tema constante na história da população de descendência africana da América do Norte, ela se tornou digna de nota durante a administração do primeiro presidente afro-americano, cuja própria eleição foi amplamente interpretada como a proclamação do advento de uma nova era, pós-racial.

A simples persistência dos homicídios de jovens da população negra cometidos pela polícia contradiz a suposição de que constituiriam aberrações isoladas. Trayvon Martin, na Flórida, e Michael Brown, em Ferguson, Missouri, são apenas os casos mais conhecidos de um número incontável de pessoas negras assassinadas pela polícia ou por comitês de vigilância durante a administração Obama. E, por sua vez, representam um fluxo contínuo de violência racista, tanto oficial como extralegal, que vai das patrulhas de pessoas escravizadas e da Ku Klux Klan àspráticas contemporâneas de filtragem racial e aos comitês de vigilância atuais.

Há mais de três décadas, Assata Shakur recebeu asilo político em Cuba, onde desde então vive, estuda e trabalha como integrante produtiva da sociedade. No início dos anos 1970, nos Estados Unidos, Assata foi falsamente acusada em diversas ocasiões e foi vilipendiada pela mídia, que a apresentava por meio de termos sexistas como “a ave-mãe” do Black Liberation Army [Exército de Libertação Negra], que por sua vez era retratado como grupo com insaciável propensão à violência. Incluída na lista de dez pessoasmais procuradas pelo FBI, ela foi acusada de assalto à mão armada, assalto a banco, sequestro, assassinato e tentativa de assassinato contra um policial. Embora tenha enfrentado dez processos judiciais diferentes e já tivesse sido declarada culpada pela mídia, todos exceto um desses julgamentos – o caso resultante de sua captura – terminaram em absolvição, impasse no corpo de jurados ou indeferimento. Sob circunstâncias bastante questionáveis, ela foi por fim condenada como cúmplice no assassinato de um policial da força estadual de Nova Jersey. 

Quatro décadas depois da campanhaoriginal contra ela, o FBI decidiu demonizá-la mais uma vez. No ano passado, no marco de quarenta anos do tiroteio na rodovia New Jersey Turnpike, durante o qual o policial da força estadual Werner Foerster foi assassinado, Assata foi incluída de maneira cerimoniosa na lista de dez terroristas mais procurados pelo FBI. Para muitas pessoas, essa medida do FBI foi bizarra e incompreensível, levando à pergunta óbvia: que interesse teria o FBI em apontar uma mulher negra de 66 anos, que tem vivido discretamente em Cuba pelas últimas três décadas e meia, como uma das terroristas mais perigosas domundo – dividindo espaço na lista com indivíduos cujas supostas ações provocaram ataques militares ao Iraque, ao Afeganistão e à Síria? 

Uma resposta parcial – talvez até determinante – a essa pergunta pode ser revelada quando se amplia o alcance da definição de “terror”, tanto no espaço quanto no tempo. Seguindo a denominação feita pelo governo do apartheid da África do Sul de Nelson Mandela e do Congresso Nacional Africano como “terroristas”, o termo foi abundantemente aplicado a ativistas pela libertação negra nos Estados Unidos no fim dos anos 1960 e no início dos anos 1970. 

A retórica da lei e da ordem do presidente Nixon implicava a classificação de grupos como o Partido Panteras Negras como terroristas, e eu mesma fui identificada dessa forma. Mas foi apenas quando George W. Bush declarou uma guerra global contra o terror, após o 11 de Setembro de 2001, que terroristas passaram a representar o inimigo universal da “democracia” ocidental. Envolver Assata Shakur retroativamente em uma suposta conspiração terrorista contemporânea é também colocar sob o abrigo da “violência terrorista” as pessoas quereceberam o legado de Assata e que se identificam com a luta permanente contra o racismo e o capitalismo. Além disso, o anticomunismo histórico direcionado a Cuba, onde Assata vive, tem sido articulado com o antiterrorismo de forma perigosa. O principal exemplo disso é o caso dos Cinco Cubanos.

Tal uso da guerra contra o terror para designar de modo amplo o projeto de democracia ocidental do século XXI tem servido como justificativa para o racismo contra pessoas muçulmanas; tem legitimado ainda mais a ocupação israelense da Palestina; tem redefinido a repressão a imigrantes; e tem levado indiretamente à militarização dos departamentos locais de polícia no país. Esses departamentos – inclusive em campi de universidades e faculdades – têm adquirido excedentes militares das guerras no Iraque e no Afeganistão por meio do Programa de Excedente de Bens do Departamento de Defesa. Por isso, em resposta ao recente assassinato de Michael Brown pela polícia, manifestantes que contestavam a violência policial racista enfrentaram policiais vestidos em uniformes de camuflagem, empunhando armas militares e dirigindo veículos blindados.

A resposta global ao assassinato de um adolescente negro em uma pequena cidade do Centro-Oeste dos Estados Unidos pela polícia sugere uma crescente conscientização quanto à persistência do racismo estadunidense em um momento em que ele supostamente estaria em declínio. O legado de Assata representa uma ordem para ampliar e aprofundar as lutas contra o racismo. Em sua autobiografia publicada neste ano, ao evocar a tradição de luta radical do povo negro, ela nos pede: “Levem-na adiante./ Transmitam-na às crianças./ Transmitam-na. Levem-na adiante.../ Até a liberdade!”.

Angela Davis é Professora Emérita Distinta, História da Consciência e Estudos Feministas, na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. Ela escreveu o prefácio de Signs: An Autobiography

O guia essencial da Jacobin

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