12 de junho de 2017

O centro pode aguentar. A primavera francesa

Como Emmanuel Macron se tornou presidente da França praticamente da noite para o dia? Quais são as prováveis consequências de seu governo? A longa época de alternância conivente entre Centro-Esquerda e Centro-Direita, e seu abrupto fim; as realidades do Front National de Le Pen e a resposta da La France insoumise de Mélenchon. O neoliberalismo finalmente chegou à força em Paris e, em caso afirmativo, quais são as implicações para a Europa?

Perry Anderson

NLR 105 • MAY/JUNE 2017

Tradução / A França, geográfica e politicamente a dobradiça da União Europeia, onde o norte e o sul do continente se juntam, tem experimentado uma mudança mais drástica de posição dentro do bloco que qualquer outro Estado-membro. A Alemanha, já com a maior economia e população antes da unificação, tornou-se – novamente – o poder dominante do continente e, conforme seus espíritos mais francos que não guardam segredo, hegemônica na Comunidade. A Espanha, bastante marginalizada pela pobreza e pela ditadura, vivenciou seu ingresso na Comunidade como uma promoção de status rumo à prosperidade e respeitabilidade europeias. Esses países têm razão para sentir satisfação com a UE. A Itália tem uma satisfação menor; sua derrapagem econômica sob a moeda única, todavia, não alterou substancialmente o que sempre foi um papel mais de apoio do que de liderança dentro da Comunidade. A França, por outro lado, esteve na primeira fileira entre os seis membros fundadores – capaz, sob De Gaulle, de fazer os outros cinco se curvarem ante sua vontade, língua e burocracia – ocupando o primeiro escalão de influência dentro da Comissão. Até a virada da década de 1980 ainda era o principal parceiro diplomático da Alemanha, mas viu uma queda inexorável de suas antigas alturas. Em parte, isso foi uma inevitável consequência da reunificação alemã, que automaticamente deu à República Federal uma maior vantagem econômica e demográfica. Mas, em maior medida, as causas de seu enfraquecimento foram endógenas.

Os índices de perda de posição do país, a maioria deles divulgada nos debates nativos, são inúmeros. Muitos remetem à década de 1990, mas ganharam maior proeminência a partir da crise de 2008. Economicamente, o crescimento arrastou-se, perfazendo uma média menor que 1% por ano; o desemprego aumentou para 10% (25% entre os jovens[1]); o orçamento, que nunca esteve no vermelho nos últimos 40 anos, vê agora a dívida pública crescer para 96% do PIB; a renda per capita mal se moveu. Diplomaticamente, Paris tem cada vez mais acatado as opiniões de Berlim na Europa e de Washington no restante do mundo; suas elites carecem de significativa independência em qualquer arena. Culturalmente, o inglês tornou-se a língua franca da União, tanto do ponto de vista oficial quanto popular. Socialmente, nenhum outro grande país na Zona do Euro viu semelhantes níveis de distúrbios sociais e raciais, ou expressões consistentes de insatisfação popular com a situação nacional. Há anos, com os mais breves intervalos, a morosité [“morosidade”] tornou-se o espírito estabelecido.

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Politicamente a V República criada por e para De Gaulle, com uma concentração única do Poder Executivo na Presidência e um Legislativo manipulado para excluir os desordeiros, funcionou mais ou menos suavemente por trinta anos após sua morte, até o fim da época de Miterrand no Élysée. Até então, a era do crescimento acelerado e de rápida elevação dos padrões de vida que sustentavam seu sucesso original tinha acabado desde quando os efeitos do declínio global da metade dos anos 70 começaram a contar. A guinada brusca de Mitterrand em 1983, abandonando o gasto público para impulsionar a economia pela via da austeridade e da estabilização da moeda, trocando o discurso socialista pela retórica de disciplina fiscal, foi amplamente saudado como a colocação do sistema político sobre uma base mais sólida. Ao neutralizar o comunismo francês como um cúmplice menor e impotente frente a esta mudança, e ao desacreditar a tensão revolucionária perniciosa na cultura do país, Miterrand lançou as fundações de uma estável República de centro: não mais dependente do carisma individual de um herói nacional que desconfiava dos partidos, mas agora solidamente ancorada no consenso ideológico entre os principais partidos de que o capitalismo era a única forma sensível de organizar a vida moderna. Com o PCF finalmente eliminado enquanto presença séria da cena política, a França poderia aguardar o tipo de alternância entre a centro-esquerda e a centro-direita, que difeririam nos detalhes, mas concordariam no essencial. Tal era o certificado de uma democracia liberal.

De fato, na superfície, isso aconteceu. No Élysée, Mitterrand primeiro foi sucedido por Chirac e este pelo seu infiel ministro Sarkozy, ao qual, por sua vez, se seguiria Hollande: 19 anos de presidência para a centro-esquerda, 19 anos para a centro-direita. Até 2002, quando o mandato presidencial foi abreviado de sete para cinco anos, coincidindo as eleições para o Executivo com o Legislativo, havia ainda a alternância dentro da alternância – “coabitação” –, quando algum lado capturava o posto de Primeiro-ministro com uma maioria na Assembleia Nacional, enquanto o outro continuava a ocupar a Presidência. Assim foi com Chirac e Balladur sob Mitterrand e com Jospin sob Chirac. Mas abaixo da superfície, por razões culturais profundas, o equilíbrio era sempre menos estável do que parecia. A partir dos anos 80, como em outros lugares do Ocidente, o imperativo contínuo do tempo era a radicalização neoliberal das operações do capitalismo: desregulamentação, privatização, flexibilização. Na França, essa era uma agenda calculada para provocar tensões no interior tanto do eleitorado de centro-direita e quanto do eleitorado de centro-esquerda[2].

O Gaullismo, do qual a centro-direita apresentou-se como herdeira – embora cada mais fictícia – nunca tentou desmontar a versão local do Estado de Bem-Estar do Pós-Guerra, caso houvesse aumento de receitas fiscais, além de sempre assegurar ao menos um terço dos votos da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que os bastiões tradicionais do conservadorismo nas zonas rurais e nas pequenas cidades resistiam às modernas elites tecnocráticas e empresariais nos movimentos do capitalismo francês. O liberalismo nunca foi muito mais do que uma palavra de ordem na França do Pós-Guerra, onde foi tipicamente associado a um laissez-faire desenfreado. A chegada do neoliberalismo – o prefixo “neo” nem sequer era necessário para arrepiar os cabelos – abriu de modo previsível uma falha tectônica no bloco de centro-direita: de um lado, seus componentes empresariais, burocráticos e profissionais, cada vez mais ansiosos para se beneficiar do fim dos grilhões antiquados na busca do lucro; de outro, seus notáveis provincianos, escrivães ou artesãos pequeno-burgueses, para não falar dos trabalhadores, que sofreram ou foram marginalizados por aqueles. Tensões similares cresceram quando numa fase subsequente se acrescentaram aos problemas econômicos as polêmicas morais. Deveria haver um mercado de direitos reprodutivos? Deveria o casamento ser neutro em relação ao gênero?

Inevitavelmente, o advento do neoliberalismo também dividiu o eleitorado de centro-esquerda. Aquelas habilidades de Miterrand tinham levado o Partido Socialista ao quase completo comando da situação, com o remanescente Partido Comunista obrigado a segui-lo no segundo turno do sistema eleitoral. A maioria dos eleitores de centro-esquerda vinha da extremidade baixa da pirâmide de rendimentos: trabalhadores, professores de nível básico, assalariados e funcionários públicos mal remunerados. Acima deles, os profissionais em melhores situações, tais como administradores e semidiretores estatais, respaldados pelo grande e bem-dotado establishment midiático-intelectual do PS. A doutrina de Hayek tinha pouco a oferecer aos primeiros, mas exercia uma crescente atração para estes últimos, persuadidos cada vez mais de que os condutores básicos de uma necessária modernização da sociedade francesa somente poderiam ser a empresa e o mercado. A fissura na centro-direita foi, portanto, reproduzida na centro-esquerda. De cada lado, a camada dominante do bloco se comprometeu a avançar no giro neoliberal que Miterrand havia colocado em movimento no começo dos anos 80. Mas, como ambos precisavam vencer eleições para conquistar o poder, nenhum poderia se arriscar a perder os eleitores essenciais (encampando tão abertamente uma agenda neoliberal) e a provocar reações sociais violentas (perseguindo tão radicalmente os movimentos de contestação). O resultado foi uma sequência insatisfatória de meias medidas, que foram alvo de críticas de todos os órgãos da opinião liberal de mentalidade direitista no estrangeiro – o Financial Times, o Economist, o Frankfurter Allgemeine. O gasto público permanecia alto; o Estado de Bem-Estar Social não era rebaixado a um tamanho decente; negócios não se estabeleciam adequadamente livres; os orçamentos não alcançavam superávits; sindicatos não foram destruídos; os correios, as prisões e tudo o mais permaneciam nas mãos do Estado. Em sua timidez, a centro-direita e a centro-esquerda compartilhavam a responsabilidade pelo fracasso da França em abraçar a modernidade.

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De fato, a simetria era incompleta. Havia uma diferença significativa nos problemas que o neoliberalismo colocava para cada coalizão e nas maneiras com que cada lado os enfrentava[3]. Para a centro-esquerda, o segmento de sua base eleitoral que poderiam colocar mais a perder, caso implementassem uma versão francesa das proezas de Thatcher ou Blair, era mais amplo e socialmente mais vulnerável que o segmento correspondente na base de apoio da centro-direita. Para enfrentar essa dificuldade, o PS necessitou de uma blindagem ideológica de seu curso mais afirmativa, capaz de embelezar e distrair seus objetivos. Este foi o legado de Miterrand: o ideal inspirador da Europa. Era a seu serviço que os franceses foram chamados a se liberalizar e a se modernizar. Em particular, Miterrand – mais sincero que seus sucessores – sabia o que isso significava, visto que confidenciou a seu parente Jacques Attali logo no início: “Estou dividido entre duas ambições: a construção da Europa ou a justiça social. O Sistema Monetário Europeu é uma condição para o sucesso da primeira, porém limita minha liberdade no que diz respeito à segunda”[4]. Uma vez que a UE estava em vigor, toda iniciativa pró-mercado poderia ser exaltada ou justificada como necessária para a solidariedade com Bruxelas. Frequentemente, a centro-direita também encontrou nisso uma oportunidade conveniente, mas ela nunca poderia recorrer à Europa como um trunfo ideológico universal sem renunciar suas reivindicações a alguma memória do Gaullismo. E nem precisava disso. As metas neoliberais caíram mais naturalmente para a maioria do seu eleitorado, exigindo menos adornos.

Entretanto, dos dois blocos, a centro-esquerda era melhor equipada para introduzir as reformas neoliberais. A resistência a estas sempre foi mais provável de vir das classes populares, nas quais estava a maior parte de sua própria base social, em particular – embora não exclusivamente – os sindicatos. De todos estes, somente o colaboracionista CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho) era suficientemente confiável para engolir qualquer coisa. Para a centro-direita, provocar um conflito frontal com os trabalhadores ou movimentos estudantis, sem falar das camadas populares simpáticas a segmentos, era um convite à derrota, como descobriram Juppé em 1995 e De Villepin em 2006. De modo contrário, alegando ainda representar os pobres e oprimidos e interpretar seus melhores interesses, o PS estava numa posição mais favorável para neutralizar tal oposição, como mostrou o sucesso de Valls ao fazer tramitar uma lei trabalhista que agradou aos empresários em 2016. Tampouco foi casualidade que ao longo dos anos a centro-esquerda privatizou muito mais empresas públicas que a centro-direita.

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Inevitavelmente, as dificuldades de longa data, que remontam aos anos 80, no caminho de uma reforma neoliberal do capitalismo francês se intensificaram quando a crise financeira de 2008-09 atingiu o país. A condição deteriorante da economia, à medida que o crescimento caía e o desemprego aumentava, tornou os duros remédios do mercado ainda menos toleráveis aos que sofrem na base da sociedade, porém ainda mais urgentes – para que a França voltasse a ser competitiva de novo, a única rota para a prosperidade geral – aos olhos dos que estão no topo. A crise atingiu a França sob Sarkozy, que se equilibrou o melhor que pôde entre a necessidade de reformas e a necessidade de reeleição, ficando no final sem nenhuma das opções. Com a centro-direita travada, a alternância funcionou uma vez mais, colocando a centro-esquerda no gabinete. Mas se a presidência de Sarkozy foi uma decepção para a centro-direita, Hollande provou-se um desastre para a centro-esquerda, alongando até o ponto de ruptura sua já esgarçada corda bamba entre a promessa eleitoral e a performance política. Depois de fazer campanha com uma retórica mais radical que seus predecessores, anunciando que “meu inimigo é o setor financeiro” e prometendo a revisão do Pacto de Estabilidade escrito por Berlim e Bruxelas, além da taxação dos ricos e ajuda aos pobres, Hollande logo presidia um governo mais conspicuamente atado aos negócios e ligado a Berlim do que Sarkozy, além de confiar ainda mais nas aventuras militares na África e no Oriente Médio como injeções temporárias de adrenalina na nação. O crescimento não conseguiu acelerar, nem o orçamento conseguiu se equilibrar; a renda per capita continuou estagnada; o número de desempregados, ao invés de cair, aumentou.

Um ano depois de sua eleição Hollande já era o presidente mais impopular da história da V República. Sarkozy foi rejeitado por sua arrogância e desapontou as expectativas de seu governo. Mas quando ele concorreu para a reeleição, ele ainda pôde reunir 48,4% dos votos. Hollande, ao contrário, foi desprezado por suas indecências, indignando e perdendo ruidosamente o apoio da vasta maioria dos que votaram nele. Com menos de 12 meses de mandato, os seus índices nas pesquisas caíram para o patamar de apenas um dígito. Um colapso assim na popularidade não tinha precedentes. Parecia certo que a corda bamba estava prestes a romper, precipitando sua queda. No entanto, o senso de autoestima de Hollande era tal que a seis meses do início da disputa eleitoral de 2017, ele ainda cogitava concorrer à reeleição, calculando que poderia usar a autoridade do governo para conservar o apoio do PS e com isso ter uma boa chance de manter a centro-esquerda no poder. Ao menos ele tinha uma razão para estar confiante: era improvável que o partido impedisse um presidente em exercício de ser candidato. Todos esses cálculos foram destroçados pela publicação em outono de um livro de 650 páginas no qual dois jornalistas do Le Monde relataram suas conversas com ele ao longo de cinco anos, de 2011 a 2016. Uma coleção suicida de rancores e vaidades fúteis – incrivelmente não ocultada, mas autopromovida[5] –, cujo efeito foi uma versão francesa das gravações de Nixon. O que permanecia de sua reputação foi destruído. Finalmente, percebendo que sua candidatura não tinha mais esperanças, ele se retirou em seguida da disputa presidencial.

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Com as pesquisas lhe indicando uma ampla vantagem, a centro-direita parecia caminhar para uma vitória fácil e a França se preparava para a costumeira alternância. Na esteira da autodestruição de Hollande, o partido de Sarkozy, renomeado Os Republicanos, promoveu uma primária de dois turnos para escolher o candidato à presidência. Para surpresa geral, nem Sarkozy nem Juppé, o favorito, emergiram vitoriosos. Ao invés disso, o ex-primeiro ministro de Sarkozy, François Fillon, foi quem alterou o quadro, aplicando uma mistura heterodoxa de Gaullismo e Thachterismo – um programa socioeconômico mais radicalmente neoliberal do que já fora apresentado antes na França, em ruptura com os compromissos consensuais do ‘Welfare State’, combinado com uma política externa mais independente que qualquer um dos campos já se atreveu a imaginar desde De Gaulle, em ruptura com os tabus dos EUA e da UE em relação à Rússia e ao Oriente Médio. Com uma folgada liderança nas pesquisas nacionais – no começo de dezembro, alcançava 30% das preferências eleitorais do primeiro turno – parecia quase certo que ele seria o próximo presidente, dado o impulso automático dos partidos em apoiar qualquer um que enfrentasse sua desafiante mais próxima, Marine Le Pen, 7 pontos percentuais atrás dele, mas virtualmente garantida no segundo turno, no qual mais de 60% do eleitorado expressava a intenção de votar no adversário dela, seja lá quem fosse.

Seis semanas depois, um raio dificultou tal perspectiva. Em 24 de janeiro, Le Canard Enchaîne revelou que Fillon por anos usava as verbas de seu gabinete parlamentar na Assembleia Nacional para pagar sua esposa, e mais tarde também seus filhos, em troca de serviços imaginários. Imediatamente colocado sob investigação judicial – situação que durante as primárias Fillon havia dito coincidentemente que desqualificava qualquer postulante à presidência, num ataque escassamente velado a Sarkozy, bastante ameaçado por investigações – sua posição nas pesquisas entrou em colapso. Uma semana mais tarde ele despencou para o terceiro lugar e nunca mais se recuperou. A centro-direita, incapaz de forçá-lo a desistir, estava de repente fora do jogo.

Ao eliminar Fillon, Le Canard Enchaîne tornou-se o ‘Grande Eleitor’ do país; sua intervenção efetivamente decidiu a corrida presidencial, cujo resultado era previsível desde o início. A natureza espetacular de seu furo jornalístico praticamente não despertou nenhuma curiosidade quanto a sua origem. No entanto, aí certamente repousa a chave para o desenlace. As malversações de Fillon não estavam de nenhum modo fora do que é comum na classe política francesa. Uma estimativa indica que por volta de cem deputados da Assembleia Nacional usaram suas verbas de gabinete de forma semelhante – talvez, haja mais amantes do que esposas na lista de pagamento. As somas de dinheiro envolvido, consideráveis para os padrões das pessoas comuns, eram pequenas quantias no alto escalão da corrupção política na França – pouco mais do que um ‘furto’, como disse um crítico mordaz. Evidências, entretanto, que requerem acesso a contas bancárias, declarações fiscais e similares, eram mais difíceis de encontrar. Como o Canard adquiriu tudo isso, em um momento tão estratégico? O semanário, reputado como a publicação dos maiores escândalos da França, pode ser comparado ao Private Eye na Grã-Bretanha, com ambos oferecendo uma mistura de sátira e relato. Se o humor elefantino da versão francesa faz sua contraparte britânica parecer sagaz, a principal diferença reside na maior intimidade do Canard com o tenebroso mundo das manobras de bastidores da classe política e as operações manipulatórias dos serviços de inteligência franceses, aos quais serviu mais de uma vez como um solícito instrumento[6]. O momento de sua exposição sobre Fillon foi uma indicação inequívoca de que aquilo não era fruto de meses de investigação paciente e independente, mas simplesmente um pacote – consoante com a orientação política da publicação – entregue a ela por grupos interessados no aparato estatal. Esses poderiam ter sido funcionários indicados pelo PS no Ministério das Finanças, agindo para prejudicar o provável vencedor do campo da oposição; homens de confiança de Sarkozy, dos quais ainda há muitos na polícia, exercendo uma vingança contra Fillon por este ter feito o seu melhor para levantar suspeitas sobre seu rival no caso Jouyet[7]; ou o complexo de segurança diplomático-militar, movendo-se para destruir uma ameaça à unidade franco-germânica na Crimeia e às sanções ocidentais sobre a Rússia, da mesma maneira que seus homólogos americanos puseram em xeque a inclinação de Trump para aproximar-se de Moscou. Seja qual for a fonte do dossiê, seu efeito na eleição foi maior que a combinação de todos os discursos de campanha dos diferentes candidatos.

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O Canard publicou sua história dois dias depois do primeiro turno da primária no Partido Socialista ter revelado toda a extensão da desordem na centro-esquerda. Logo que Hollande desistiu, seu primeiro-ministro Manuel Valls, que há muito estava de olho na oportunidade, anunciou que concorreria à presidência. Admirador mais conhecido de Blair na França, Valls nunca foi popular dentro do partido, sendo tão musculoso quanto direitista, a ponto de clamar abertamente para que se abandonasse qualquer pretensão de socialismo. Ele esperava, entretanto, capitalizar sua posição à frente do governo com a imagem de um inimigo atroz do terrorismo. A aguda inclinação neoliberal e autoritária de seu último ano no cargo, no entanto, provocou bastante revolta na base do partido a ponto de desmontá-lo. Bem à frente no primeiro turno e um vencedor acachapante no segundo turno das primárias foi outro ministro de Hollande, Benoît Hamon, que se demitiu do governo no final de 2014 para concorrer como um candidato da esquerda do partido. Uma figura pálida, desfrutando de pouco ou nenhum apoio do establishment do PS e com escasso apelo para fora do reduzido perímetro de sua base, sua vitória simplesmente anunciou a condição a qual o PS tinha se reduzido: esvaziado e dividido. Valls ainda se recusou a votar nele. Sua investidura como candidato, selada somente depois que Fillon estava efetivamente nocauteado no ringue, levou a centro-esquerda tão claramente para fora do jogo como havia ocorrido com a centro-direita cinco dias antes. Em abril, Hamon conseguiria alcançar apenas 6% do eleitorado.

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Na segunda semana de fevereiro, com a remoção de ambos os polos de alternância, estava claro quem seria o próximo presidente. Em outubro, Emmanuel Macron, ministro da Economia de Hollande, demitiu-se de seu posto para concorrer contra seu patrão. Em abril de 2016, ele criou um movimento batizado com seu próprio monograma, En Marche! (EM), com a óbvia intenção de testar suas possibilidades de capturar o Élysée. Em novembro, ele anunciou devidamente que estava no páreo. Um produto típico das camadas superiores da classe política, uma cria da École nationale d’administration (ENA) – um énarque, portanto – movendo-se sem muito esforço entre o serviço público e o enriquecimento privado, de Inspetor das Finanças a milionário repentino em parceria com Rothschild, ele se juntou ao PS em 2006, retirando-se dele em 2009, para depois fazer as conexões que o alçariam à entourage pessoal de Hollande em 2012, do qual se tornou vice-chefe de gabinete e rapidamente, aos 36 anos, uma liderança ministerial no governo. Seduzido por esse enfant choyé [“rapaz mimado”], Hollande viu nele uma versão mais jovem dele próprio, adornando seu regime com um toque de glamour juvenil. “Macron, c’est moi”, ele disse a seus jornalistas8. No que diz respeito à política, ele não estava errado: pouco ou nada os dividia – como assegurava o histórico de Macron, ele seria um ícone amigável ao mercado para encampar a política de desregulamentação da forma como queria Hollande. Dificilmente importava que ele não fosse mais formalmente um membro do PS, já que privadamente Hollande admitia que o partido era algo do passado. Mas Hollande se enganou ao pensar que Macron seria um príncipe leal, uma vez que este lhe devia sua própria ascensão. De perto, Macron podia ver o provável destino de seu governo e no momento exato não hesitou em afundá-lo em benefício de suas próprias ambições. No momento em que anunciou sua candidatura, ele já tinha reunido em abundância apoiadores nos círculos empresariais, burocráticos, profissionais e intelectuais. Juntamente com um adequado orçamento de guerra e uma ampla cobertura midiática, ele pôde progredir como a encarnação de tudo o que era dinâmico e avançado na França.

Ideologicamente, desde o início, Macron lançou o En Marche! como um movimento que transcendia a ultrapassada oposição entre direita e esquerda na França rumo à criação de uma nova e refrescada política de centro, liberal na economia e social na sensibilidade. Esse era, com certeza, por si só um apelo desgastado, oferecido repetidamente por diversos políticos e correspondente a uma demanda real no meio do espectro da opinião pública, mas que nunca conseguiu acabar de modo bem-sucedido com a dicotomia de esquerda e direita. Em parte por causa da lógica polarizante do sistema eleitoral e, em parte, por causa do fato de que a oposição dominante se dava entre dois blocos em que cada qual poderia legitimamente reivindicar o mesmo prefixo: centro-esquerda e centro-direita. Entretanto, no momento em que ambos estavam desativados, um centro autodeclarado ‘puro’ poderia pela primeira vez comandar o palco. Ao projetar sua construção, Macron teve que lidar com o último pretendente ao papel, o político católico François Bayrou, que concorreu à presidência em todas as eleições desde 2002 (conquistando uma alta pontuação de 18,57% em 2007), e que poderia subtrair eleitores de Macron caso concorresse novamente. O partido político do qual ele provinha, a UDF, foi uma criação de Giscard nos anos 70, e em suas subsequentes metamorfoses (agora se chama UDI), serviu como um tradicional, quando não invariável, aliado do maior partido de extração originalmente gaullista liderado por Chirac – de quem Bayrou tinha sido ministro – e Sarkozy[9]. A UDI sempre foi um componente mais significante do bloco da centro-direita do que qualquer elemento homólogo na centro-esquerda. Como Macron teria dificuldades em esconder sua passagem pelo PS, era ainda mais importante assegurar o apoio de Bayrou, para certificar que sua candidatura tivesse visível endosso no campo oposto, onde a bandeira do centro sempre crescia de modo consistente. Em 22 de fevereiro, Bayrou embarcou sem desnecessária tergiversação. Macron ganhou imediatamente 5 pontos nas pesquisas. O centro agora era verdadeiramente sua propriedade. Bem à frente de Fillon, com um abatido Hamon muito atrás, Macron bloqueou a Presidência.

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Tal não foi, entretanto, a narrativa em francês, e muito menos na mídia internacional. Lá, a eleição apresentou-se como um drama, até mesmo uma disputa nervosa, dominada pela ameaça da Frente Nacional – fascismo levemente dissimulado ou populismo raivosamente tóxico, de acordo com o gosto – chegar ao poder num pesadelo “versão gálica” da vitória de Trump nos EUA. Em parte, a lógica típica da imprensa e da televisão ditou isso. Notícia não é notícia se for algo previsível: excitar frissons de medo vende melhor do que garantias chatas de conforto. Mas também, muito mais importante para os propósitos do segundo turno, era a lógica padrão da ordem estabelecida: quanto mais sensacionalista o perigo da extrema-direita, mais esmagadora a necessidade de todos os cidadãos decentes seguirem atrás do campeão da democracia, cuja identidade poderia com tato ser deixada em branco num primeiro momento, antes de se tornar, para alívio geral, um jovem e encantador banqueiro.

A presente realidade da FN pouco tem a ver com tudo isso. Formada no início dos anos de 1970 pelo ex-paraquedista Jean-Marie Le Pen, foi originalmente um pequeno partido de extrema-direita, de perspectiva antissemítica e anticomunista clássica, que uma década mais tarde conquistou seu primeiro, ainda que modesto, avanço eleitoral (9,65%), arrebatando votos da classe trabalhadora desiludidos com o giro de Miterrand à austeridade. Ideologicamente, a FN permaneceu – e isso não foi tão comum para os partidos de extrema-direita do período – militantemente pró-Europeu e antiestatista, a favor do livre-mercado[10]. Depois de Maastricht, arrefeceu seu entusiasmo pela Europa e gradualmente aumentou sua audiência popular, como o único partido que não estava implicado na visível corrosão do sistema político e na deterioração das condições de vida da população sob tal regime. Em 2002, foi um choque para o establishment quando Le Pen conseguiu passar para o segundo turno da eleição presidencial, antes de ser esmagado pelos incontestáveis 82% de Chirac[11], e cinco anos depois reduziu-se para um décimo do eleitorado. Na sequência desse revés, Le Pen retirou-se, e sua filha Marine assumiu a liderança do partido. Posteriormente, a combinação da Grande Recessão com as habilidades políticas muito maiores de Marine e a queda livre do governo de Hollande, jogou vento em suas velas. Crucial para seu sucesso vindouro foi o reposicionamento de Marine como não apenas um martelo contra a UE, mas também – outra transformação de 180 graus – uma campeã da proteção do Estado de Bem-Estar e da intervenção estatal, contra as devastações do neoliberalismo. Em 2014, a FN chegou ao primeiro lugar nas eleições europeias realizadas na França, com um quarto dos votos.

Sociologicamente, esse crescimento deveu-se à conquista de votos da FN entre a classe trabalhadora, onde o partido veio a ocupar o espaço vago deixado pelo comunismo francês. Não se tratava do proletariado das fábricas sindicalizado de antigamente, largamente destruído pela desindustrialização, mas de seus sucessores atomizados, que trabalham duro em uma sobrevivência precária com contratos de curto prazo em pequenas firmas, geracionalmente separados de seus predecessores na experiência diária e cultura circundante. A FN não conta com professores e funcionários públicos, como o PCF, mas com pequenos empresários, profissionais autônomos ou artesãos. Unidas pela hostilidade aos políticos e tecnocratas da parte de cima e aos imigrantes e vagabundos na parte de baixo, as contradições desse bloco não foram objetivamente menores que as dos dois campos competidores do establishment. Mas eles não foram submetidos ao mesmo teste subjetivo: uma vez que a Frente Nacional foi excluída do sistema político, ela não poderia ser culpada por seus crimes – entre todas as forças organizadas, era a única claramente inocente e também frequentemente a única que parecia falar a verdade. Com Marine, a FN se tornou o primeiro partido da classe trabalhadora francesa. No primeiro turno das eleições desse ano, o número de trabalhadores (37%) que votaram nela esteve muito à frente de qualquer outro partido. No segundo turno, uma maioria de 56%. À medida que a desigualdade de renda e a insegurança empregatícia aumentaram constantemente sob o sistema de alternância em conluio, assim também ocorreu com os que estavam dispostos a votar na FN: 4,8 milhões de votos na eleição presidencial de 2002, 6,8 milhões de votos nas eleições regionais de 2015, 7,7 milhões de votos no primeiro turno em 2017, 10,6 milhões de votos no segundo turno – a última cifra aparece, entretanto, como um produto das distorções impostas pela corrida de duas voltas. Seu real nível de apoio é por volta de um quinto do eleitorado, menos do que aqueles – principalmente trabalhadores também – que se abstêm, votam em branco ou anulam suas cédulas[12]. Nunca houve a mínima chance de Marine vencer a disputa pela presidência. Longe de ser uma mortal ameaça para o sistema em curso, a FN é uma parte eminentemente funcional ao mesmo, juntando toda a opinião respeitável, que de outra forma poderia hesitar ou questioná-la, em uma ansiosa ou autojustificada defesa do status quo: o espantalho ideal de uma república neoliberal.

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Por fora do sistema, no flanco oposto, estava a recente criação de La France insoumise, liderada por Jean-Luc Mélenchon. Mais jovem por uma geração que [Tony] Benn e uma dezena de anos mais novo que [Oskar] Lafontaine, Mélenchon foi a última figura principal dos partidos europeus da Internacional Socialista a se virar – tardiamente, em sua carreira – bruscamente para a esquerda, apesar de descartar o rótulo como demasiado limitante. De um família pied-noir [“pé-negro”, franceses que viviam nas ex-colônias francesas] que se mudou do Marrocos para a França em 1962, depois de uma formação inicial no ramo lambertista do trotskismo francês que produziu muitos quadros do PS, ele se tornou um ardente admirador de Miterrand. Crescendo rapidamente no interior do Partido Socialista, aos 35 anos, tornou-se o senador mais jovem da V República. Ativo nos argumentos internos e nas disputas do partido à esquerda dele, por mais de três décadas permaneceu leal a sua liderança, defendendo a conversão de Miterrand à austeridade, votando por Maastricht, tornando-se um ministro de Jospin e aprovando sua ruinosa mudança para a Constituição.

Em 2005, entretanto, ele se virou contra a proposta da Constituição Europeia, esmagadoramente apoiada pelo PS e rejeitada por uma longa maioria no referendo subsequente. Três anos depois, ele abandonou o partido para criar à esquerda deste uma pequena formação, com a qual negociou uma aliança junto ao PCF para disputar as eleições de 2012, em uma frente de esquerda, a Front de Gauche, concorrendo ele próprio como seu candidato presidencial. A experiência não foi um sucesso: Mélenchon obteve 11% dos votos, uma pontuação um pouco maior do que a combinação de várias pequenas organizações de esquerda em 2002 e a FG atingiu somente 7% nas eleições legislativas. Mélenchon esperava que a Front unisse socialistas desiludidos e comunistas residuais em uma versão francesa do Die Linke na Alemanha (Lafontaine esteve presente em sua fundação); mas o PCF, agarrado em seus acordos locais de longa data com o PS, não tinha a intenção de se unir dessa forma, e nada disso aconteceu.

Alterando a tática, quatro anos mais tarde, Mélenchon criou um movimento inteiramente novo, La France insoumise, para concorrer à presidência novamente, desta vez independente de qualquer outra força. A mudança foi mais do que meramente organizacional. Fascinado por algum tempo pelo sucesso dos governos heterodoxos na América Latina, Mélenchon extraiu uma inspiração particular do exemplo de Rafael Correa no Equador, assim como ele um ex-ministro de um partido social-democrata, pioneiro na ideia de uma “revolução cidadã”, que reescreveu a Constituição, redistribuiu riqueza e protegeu o meio ambiente. Esse era o caminho a seguir para abandonar os esquemas exaustos da tradicional esquerda europeia rumo a um populismo radicalmente progressista, convocando o povo a lutar contra as elites no controle de um sistema econômico e político falido. Impressionado com a visão estratégica de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, com quem se encontrou na Argentina em 2013, Mélenchon começou a aplicar suas lições em casa[13]. Com uma plataforma não muito diferente de Correa – a primeira de suas demandas foi o chamado pela VI República, a ser fundada por uma Assembleia Constituinte que acabe com a “monarquia presidencial” e o sistema eleitoral manipulado, criando uma democracia parlamentar equitativa com direito de recall e referendos[14] – La France insoumise substituiu as bandeiras vermelhas e o hino da Internationale pela bandeira tricolor e a Marseillaise em seus comícios, apelando a todos os patriotas, independente de classe ou idade, a se levantar contra a ordem decadente da V República. Tomando emprestado o grito que derrubou Ben Ali na Tunísia, “Dégagez!” – “Saia!” – tornou-se o leitmotiv da campanha. Amplamente reconhecido como vitorioso nos debates televisivos, com uma verve retórica incomparável em comícios massivos, projetado de cidade a cidade por hologramas, Mélenchon conquistou o maior crescimento – cerca de 7% – entre os candidatos nas semanas finais da campanha.

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Foi um feito impressionante. A votação final para o primeiro turno viu os quatro candidatos à frente proximamente agrupados: Macron com uma clara liderança de 24%; os outros três separados por uma margem um pouco maior que um ponto percentual, Le Pen 21,3%, Fillon 20,01%, Mélenchon 19.58%[15]. A virada populista da France insoumise foi recompensada. Mélenchon ultrapassou Le Pen em sua posição de longa data de política mais popular entre os jovens da nação, conquistando 30% do grupo de idade 18-24 anos, e entre os desempregados, obtendo 31%, com um forte grau de apoio também entre os jovens imigrantes nas banlieues suburbanas. Em quatro das dez maiores cidades da França – Marseille, Toulouse, Montpellier, Lille – ele ficou em primeiro. Com uma porcentagem um pouco abaixo do que conquistou Podemos na Espanha no verão anterior (21%), fazendo campanha com um programa muito mais radical, reduziu Hamon para um patamar um pouco acima dos 6%. La France insoumise conquistou aquilo que o movimento espanhol buscava e não conseguiu fazer, derrotar o Partido Socialista nas urnas[16]. Mas não conseguiu ultrapassar a FN, uma vez que Marine manteve uma grande vantagem entre os trabalhadores manuais e não-manuais, e nos dois estratos de menor renda. Somando as duas formações, a FN e a LFI conquistaram 40% dos que escolheram um nome na cédula em abril de 2017. Outros 24% se abstiveram ou votaram em branco[17]. Nenhum outro país da Europa Ocidental tinha assistido à tamanha rejeição radical da ordem estabelecida. Dois de cada cinco eleitores, para estremecimento dos comentaristas mainstream, estavam aparentemente prontos para embarcar em qualquer aventura “insensata”[18]. Onde isso pode terminar?

Na realidade, as duas forças antissistêmicas, ao invés de se agregarem em uma insurgência populista comum, se anulam mutuamente. Por mais semelhantes que sejam as críticas ao sistema social e econômico, as diferenças morais e ideológicas insuperáveis ​​sobre a imigração os separam em extremos opostos do espectro político, onde cada um demoniza livremente o outro[19]. Enquanto a FN tem a vantagem na competição entre os dois, ela fornece o fantasma necessário para a unidade ritual em torno da Quinta República, realizando na segunda rodada da eleição presidencial o mesmo serviço que quinze anos antes. Desta vez, no entanto, o apelo por uma união sagrada foi menor. Mélenchon recusou-se a incentivar seus eleitores a seguir um vitorioso tão desagradável para eles, que não necessitava de seu apoio. E dois quintos não o fizeram, engrossando o maior nível de abstenções em quase cinquenta anos. Macron cruzou a linha de chegada com uma enorme margem, praticamente o dobro da votação de Le Pen – se nacionalmente não atingiu o nível de Chirac, alcançou-o em Paris, com um pontuação usbeque de 90%, gratificante o suficiente. Para um eleitorado total de 47,5 milhões, Macron ganhou 20,7 milhões, 16,2 milhões se abstiveram ou votaram em branco e 10,6 milhões optaram por Le Pen.

O que os números deixaram claro foi a origem política e o contexto social do apoio a Macron. No primeiro turno, ele levou 47% dos que votaram em Hollande em 2012 e 43% dos votos de quem votou em Bayrou, em cada caso praticamente o dobro de qualquer outro candidato, contra apenas modestos 17% dos que votaram em Sarkozy. No segundo turno, de longe o seu maior resultado, 71% estavam entre os que votaram em Hamon. Socialmente, ele liderou nas duas categorias de renda mais altas no primeiro turno[20]. Em outras palavras, o grosso de seu apoio foi uma versão reciclada do bloco de centro-esquerda que colocou Hollande no poder. Não exatamente o mesmo, porque, desta vez, parte desertou para Mélenchon e um pequena parcela permaneceu fiel a Hamon. Tais perdas foram compensadas por eleitores de Bayrou que tinham migrado em números similares para Sarkozy em 2012 e por cerca de um terço da UDF, que depois de abandonada por Bayrou, permaneceu com a centro-direita. O peso relativo dos dois componentes no campo vitorioso, portanto, mudou: a coalizão de Macron fica mais ao centro. Mas, dentro dela, não há dúvida quanto ao partido que ofereceu a maior parte de pessoal-chave e de software político-organizacional ao novo governante. O pequeno círculo político em torno dele derivou da equipe reunida por Strauss-Kahn, antes de sua desgraça na corrida presidencial de 2012, e de ex-assessores do Ministério da Economia de um governo do PS. Paradoxalmente, as contingências de vaidade e o jornalismo escandalizante – Le Monde e Le Canard entre eles – produziram o mais irônico de todos os resultados: o presidente menos popular na memória vivente, dirigindo a administração mais desacreditada, resultou em uma sucessão encabeçada por um figura vinda da mesma estrebaria, que ele criou e imaginou como seu Doppelgänger. Ele iria se arrepender de sua confiança em “Macron, c’est moi”, mas o grau de continuidade política entre os dois está lá para todos verem.

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Com luzes de neon hype de uma jubilante imprensa internacional e uma sicofanta imprensa doméstica, Macron é apresentado como a versão francesa de Trudeau, Obama e (ou para os que têm memórias seletivas) Blair. As similaridades de ideologia e imagem são reais. Mas há diferenças significativas. Pessoalmente, embora muito tenha sido feito de seu charme, metade do país tem se provado imune a ele: na véspera do primeiro turno, 46% da população expressava sua aversão por ele, já que sua campanha deixara entre muitos uma impressão de arrogância, pretensão e estridência. Arrogância: um énarque dos énarques, exalando dinheiro e desdém pelos peixes menores, cercado por gente de seu tipo – cinco de cada sete membros de seu círculo também se formaram na ENA. Pretensão: seu manifesto banal de campanha autointitulou-se nada menos que Révolution — um confete sobre si mesmo, inconsciente da ridicularização de suas alegações de intimidade com a mais fina flor da literatura e filosofia nacionais (“Eu sou muito Camusiano”), misturadas com torturantes pronunciamentos de grandiloquência patriotard[21]. Estridência: a vibração de um tele-evangelista, braços levantados elevando a sua voz ao volume máximo durante os comícios. Uma vez investidas na dignidade da presidência, estas deficiências estarão certamente sob um controle maior.

Atrás dele, conforme atestam as evidências disponíveis, há uma implacável vontade e uma inteligência política que superam seus análogos atlânticos. Nenhum deles chegou ao poder com tanta velocidade, com tantas bravatas e com tão pouco lastro. E nem é a única vantagem de Macron sobre eles. Tanto o escritório que ele capturou, quanto o campo em que ele confronta lhe oferecem uma maior liberdade de manobra. Os poderes da presidência francesa, sem os constrangimentos de eleições de meio-termo ao Congresso ou uma Suprema Corte refratária, ultrapassam os poderes dos presidentes americanos e são imunes à rebelião da oposição parlamentar britânica: a designação dos franceses como presidentes “reais” não é pura metáfora. Além dessas prerrogativas familiares, há uma clareira excepcional aberta antes dele. Por mais de três décadas, as reformas neoliberais da França foram uma sequência de passos difíceis na direção desejada (que nunca poderia ganhar um impulso conclusivo por causa da alternância entre centro-direita e centro-esquerda, cada lado se esforçando o máximo possível para avançar, cada um impedido por parte significativa de sua base constituinte) e bloqueada pelo sistema eleitoral caracterizado pela competição bipolar. Em 2017, com o derretimento do PS e a extenuação de seu rival, há repentinamente toda a chance para esse impasse ser quebrado.

Historicamente, nenhum presidente recém-eleito da V República conseguiu ganhar uma maioria na Assembleia Nacional, e pouco deles venceram de modo tão esmagador. Mas a maioria sempre foi uma construção partidária, composta por deputados representando um partido pré-existente ou uma coalizão de partidos, e desde os anos 80, sujeita a pressões contraditórias ou demandas de seu eleitorado. Macron, alcançando dois terços dos votos no segundo turno, poderia estar confiante quanto a sua governabilidade – deliberadamente reforçada pela mudança constitucional de 2001 – visto que na esteira da vitória um ingressante no Executivo pode confiar na varredura do Legislativo também. Mas, ao contrário de seus antecessores, ele só pode produzir uma Assembleia a seu gosto praticamente do nada, guarnecida com novatos e trânsfugas de sua máquina recém-nascida, La République en marche, tão dependente de seu criador como uma vez foram os membros da Forza Italia de Berlusconi. Se o núcleo inicial dessa construção vem do PS, reforçado com contribuições do MoDem de Bayrou e algumas lantejoulas da ‘sociedade civil’, o objetivo estratégico é se ampliar com a cooptação de lideranças da direita. Encorajados pela escolha antecipada de um companheiro seu como primeiro-ministro (Édouard Philippe, outro énarque), e outro, Bruno Le Maire, como ministro das Finanças, um bom número de deputados já está ansioso para saltar dentro de seu barco e, certamente, mais deverão fazê-lo. Logicamente, o resultado deveria ser um centro hegemônico com uma super-maioria, capaz afinal de realizar a modernização da França de acordo com suas melhores prescrições.

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Com este sistema eleitoral excludente ainda em vigência, no plano institucional há pouco o que se possa fazer para detê-lo. Em 1958, com 20,4% dos votos, De Gaulle assegurou 198 deputados, enquanto o PCF com 19,2% obteve apenas 10 deputados. Na primeira semana de junho, o resultado na Assembleia tornou-se tão previsível que, no primeiro turno das eleições legislativas, mais da metade do eleitorado sequer se preocupou em votar – 51,29% se abstiveram com outros 2,23% votando em branco ou rasurando suas cédulas: um número sem precedente não somente na França, mas em qualquer país da Europa Ocidental desde a II Guerra Mundial. Com o apoio de apenas 15,39% do eleitorado La République en marche terá certamente o domínio sobre 80% do legislativo, a maior avalanche partidária da história da V República[22]. Os Republicanos, desmoralizados pela desgraça de Fillon e enfraquecidos pelas deserções, estão sem ânimo ou posição para causar maiores problemas. Nas ruas, os sindicados – à exceção da CFDT – tentarão resistir, mas, tendo provado incapacidade para bloquear a legislação trabalhista El Khomri sob Hollande, é improvável que eles façam algo melhor com Macron, ao menos no início, no período de lua de mel de um novo governo. Domesticamente, Macron colherá os benefícios do atual crescimento do ciclo econômico, e não há dúvidas de que seja capaz de impulsionar a maior parte de seu programa, uma versão francesa da agenda de Schröder em 2010 – desregulamentação do mercado de trabalho, corte nos gastos públicos, prioridade para as start-ups, redução dos impostos corporativos, simplificação do sistema de bem-estar social – sem excessiva dificuldade. Ele será cuidadoso em fazer isso, procurando ser mais uma variante compensatória do que disciplinadora do neoliberalismo, com alguns pagamentos paralelos aos menos favorecidos. Com uma dívida doméstica ainda bastante baixa – 57% do PIB, contra 53% da Alemanha e 88% da Grã-Bretanha – há muito espaço para uma bolha de crédito. Animado por um governante que é um dos seus, o espírito animal do capital poderá ser reavivado, elevando os investimentos.

Se os resultados corresponderão às expectativas é outro assunto. O boom exportador da Alemanha, que fez o país retornar a um crescimento moderado e diminuiu o desemprego, foi viabilizado pela repressão salarial, não pela Agenda 2010, cuja contribuição para a recuperação foi mínima. Além disso, houve aumento da desigualdade e da precarização – em comparação com a França, mais que o dobro da porcentagem de trabalhadores ganha menos que dois terços do salário médio. Uma cultura política Biedermeier e a comparação com os vizinhos menos afortunados deixaram o país socialmente sedado. Não há condições que possam prontamente ser replicadas na França. Um competitivo superávit nas exportações aos moldes germânicos está fora de cogitação, um falácia de composição. A cultura política francesa, por mais que os últimos trinta anos ingloriosos a tenham diluído ou dopado, ainda é terreno potencialmente mais explosivo que as tranquilas paisagens do outro lado do Reno. Se o crescimento e o emprego aumentassem mais rapidamente, uma atmosfera de Segundo Império poderia se instalar no país uma vez mais. Mas isso está longe de ser garantido.

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Crucial para o sucesso de tal perspectiva é o mais importante lado da agenda de Macron, para a qual a reforma doméstica é concebida como um adiantamento. A maior aposta em vista é o futuro da Eurozona. Há muito tempo o consenso em Paris é que a união monetária em sua presente forma não só causou problemas para as economias mais fracas do cinturão mediterrâneo, como também dificuldades para o crescimento francês: a imposição de um limite máximo de 3% para qualquer déficit só é tolerável porque é contornável com a cumplicidade de Bruxelas23. Na disputa à presidência, a proposta mais marcante, citando uma opinião respeitável, para lidar com essa dor de cabeça de longo prazo veio do campo de Hamon, onde Thomas Piketty e outros espíritos esboçaram um projeto de “Tratado para a Democratização da Zona do Euro” – 22 artigos, com uma buliçosa apresentação. O T-Dem, como eles o batizaram, criaria um Parlamento da Zona do Euro composto por deputados de cada parlamento nacional, escolhidos por cada partido na proporção de seu respectivo peso nele (preenchido com uma pequena parcela, similar a Estrasburgo), que votaria impostos para um orçamento comum na Zona do Euro a fim de servir ao “crescimento duradouro, coesão social e convergência econômica”, mutualizar todas as dívidas públicas acima de 60% do PIB e eleger um ministro das Finanças da Eurozona, que administraria o orçamento resultante. Para afiançar aos eleitores do residual PS de que esse pacote seria de seu agrado, Piketty e seus co-autores explicaram, números na mão, que em tal parlamento da Zona do Euro, a esquerda poderia contar com uma sólida maioria24. A ingenuidade política do esquema – como se, além de todas as outras disposições, cada uma menos aceitável que a outra para a opinião alemã, esse cálculo se tornasse mais palatável para os social-cristãos bávaros ou os liberais holandeses – não precisa de muita ênfase.

A versão de Macron era prudentemente mais vaga, pedindo por um parlamento da Zona do Euro – ainda menos realista, composto apenas por todos os “membros de cada parlamento nacional”, um corpo que se desdobraria em milhares, reunindo uma vez por mês – e um ministro das Finanças da Zona do Euro que lançasse um atrevido plano de investimentos, sem especificar de onde viriam os recursos para algo assim25. Para o Ministro das Finanças em Berlim, essa visão poderia provavelmente ser esquecida como uma promessa de campanha que não devesse ser levada muito a sério. A classe política alemã está bem consciente de que Macron é seu interlocutor ideal, que provavelmente será aperfeiçoado, e fará todo o possível para fortalecê-lo – Schäuble mesmo declarou durante as eleições que “faria de tudo para ajudar”. Assim, alguma concessão sobre a Zona do Euro está praticamente assegurada. Mas é provável que essa concessão seja bastante cosmética, muito aquém de outra assembleia impotente, ou ministro manda-chuva, duplicando as estruturas existentes na União. Como as coisas estão, qualquer coisa mais séria enfrentaria firme oposição não somente da República Federal, mas dos parlamentos holandeses, filandeses, etc. O equilíbrio de forças em um sistema de poder neoliberal, mas ainda não neofederal, milita contra mudanças dramáticas.

Às margens do sistema, podem ser encontradas respostas mais radicais ao que a União se tornou. Na França, a moeda única não é apreciada pelo populismo, de esquerda ou de direita, embora a direita tenha levado algum tempo para mostrar uma posição contrária mais clara que a esquerda. Na campanha eleitoral, Mélenchon chegou a se aproximar do passado para enfrentar uma saída, mas tanto ele como Le Pen – cientes de que a perspectiva assusta muitos eleitores, especialmente os mais velhos – negaram qualquer intenção de rompimento unilateral. O que então? Apenas Mélenchon colocou a questão em seu quadro apropriado. O problema da reformulação da união monetária não é uma questão técnica, como tipicamente foi retratada, mas uma questão geopolítica. A França teria peso demográfico e econômico, se tivesse vontade política, para provocar um inexplicável Banco Central Europeu – a verdadeira ferida, não o euro – a agendar e compelir a Alemanha, uma sociedade envelhecida que não tem tanta força como parece, a aceitar a democratização social e política da União, sob pena de rompê-la[26]. Era a relação de forças que deveria em última instância importar. A França, junto com a Europa, pode permanecer à mercê das elites burocráticas e financeiras até que recupere seus nervos. Nenhuma linguagem poderia ser mais estranha ao novo governante do país. Por que lutar com a Alemanha, quando é tudo o que a França e a Europa deveriam ser?

Notas

1 Dois quintos dos desempregados são desempregados de longa duração; 86% dos novos empregos em 2016 eram temporários, quatro quintos deles em contratos de menos de um mês: “The economy that France’s next president will inherit”, Financial Times, 8 de maio de 2017.

2 Para uma análise mais aguçada, ver Bruno Amable e Stefano Palombarini, L’illusion du bloc bourgeois. Alliances sociales et avenir du modèle français, Paris, 2017.

3 O excelente relato de Amable e Palombarini presta suficiente atenção nisso.

4 Attali, Verbatim I, Paris 1993, p. 399.

5 Em outubro de 2015, ele ainda considerava um segundo mandato como garantido. Foram especialmente prejudiciais seus ataques ao judiciário (“covardes”), a seus ministros (“inaudíveis”, “diáfanos”, “não-indentificáveis”), ao mundo da cultura (“difícil e ingrato”), para não falar da lamentável imagem que ficou quando a conversa tratou de suas duas amantes: [ver o livro de] Gérard Davet e Fabrice Lhomme, “Un Président ne devrait pas dire ça . . . “, Paris: Stock, 2016, pp. 155, 388–9, 81–95, 125, 129 ff.

6 Para abundante documentação sobre a interpenetração de pessoal e a conivência da revista com o PS sob Miterrand, pelo qual seus editores eram apaixonados, e seu papel particularmente odioso como uma engrenagem para os esforços de seu governo em ocultar sua responsabilidade pelo afundamento de Rainbow Warrior e o assassinato de um ativista de Greenpeace na Nova Zelândia, nos quais Le Canard trabalhou zelosamente para atribuir aos britânicos mais do que aos serviços secretos franceses, ver o registro pouco apetitoso em Karl Laske e Laurent Valdiguié, Le vrai Canard. Les dessous du Canard enchaîné, Paris 2008, pp. 245–347.

7 Ver Davet e Lhomme, ‘Un Président . . . ’, pp. 445–56.

8 Davet e Lhomme, ‘Un Président . . . ’, p. 357: “mais tarde, essa pérola: ‘Emmanuel Macron é um ser que não é dual’”, p. 366.

9 Depois de sua performance na eleição de 2007, Bayrou saiu da UDF para criar seu próprio partido, MoDem, com o objetivo de oferecer uma marca menos conservadora de centrismo.

10 Jornalistas estrangeiros, encantados que Macron conseguisse tocar a ‘Ode to Joy’ de Beethoven, adotado pela UE como seu hino oficial, poderiam ter se surpreendido ao aprender que no final dos anos 80 o mesmo kitsch musical ressoou através dos amplificadores dos comícios de Jean-Marie Le Pen para a FN.

11 Para os bastidores da eleição, manipulação constitucional de Jospin, seu fiasco nas urnas, e a degradação inútil da esquerda no segundo turno de 2002, ver The New Old World, London and New York 2009, pp. 174–7.

12 Antes de 2017, estimou-se que menos de um em cada sete trabalhadores na realidade votam pela FN, tão extensa era a abstenção proletária: Patrick Lehingue, ‘“L’électorat” du Front National. Retour sur deux ou trois “idées reçues”’, in Gérard Mauger e Willy Pelletier, eds, Les classes populaires et le FN, Paris 2016, pp. 33–7, que reconhece, entretanto, que mais da metade do eleitorado da FN é a classe trabalhadora de um tipo ou outro, e que mais trabalhadores estão representados em listas eleitorais do que em qualquer partido. Esta camada de apoio concentra-se no Norte e Nordeste; no extremo-Sul, há mais conservadores, vindos de uma pequena burguesia bastante influenciada pelo catolicismo.

13 Veja seu próprio relato em Jean-Luc Mélenchon, Le choix de l’insoumission, Paris 2016, pp. 310–6. “Em suma, Chávez, Correa, Mujica, Laclau e Mouffe libertaram minha linguagem e minha imaginação política. O capítulo latino-americano de sua experiência foi o que me permitiu, antes de outros, substituir a velha fixação nos assalariados organizados. Na Espanha, Podemos fez a mesma tentativa. Todos os seus líderes aprenderam da América Latina revolucionária. Tanto na França quanto na Europa, quantos participaram nessa agitação em conjunto de ideias? Pouquíssimos! A maioria ainda está presa nos velhos esquemas da tradicional esquerda europeia, apesar do evidente fracasso de métodos”: pp. 315–6. Chantal Mouffe seria uma presença proeminente nas plataformas de Mélenchon.

14 Detalhado em Mélenchon, L’Avenir en commun. Le programme de la France insoumise et son candidat, Paris 2016, pp. 23–7.

15 No último mês da campanha, Fillon subiu nas pesquisas, sem no entanto se aproximar de Macron, ao mobilizar o neo-consevadorismo católico que nos anos recentes tem mostrado surpreendente crescimento entre os jovens educados, fornecendo boa parte da energia para seu triunfo nas primárias da centro-direita.

16 Sua tarefa foi, certamente, mais fácil: na Espanha, o PSOE era mais oposição ao governo de centro-direita do que comparativamente desacreditado por uma debacle da centro-esqueda.

17 Para os dados completos, ver o Ipsos Report, Premier tour. Sociologie des électorats et profils des abstentionnistes, 23 April 2017.

18 Para uma típica reação de explosão, ver a versão francesa da antiga Elizabeth Drew, ou do atual Philip Stephens: Alain Duhamel, “La tentation de l’aventu”’, Libération, 20 April 2017.

19 Não é em igual medida: onde o incêndio da FN foi dirigido de maneira esmagadora para a porta giratória dos partidos principais, ridicularizados por Marine como uma indistiguível UMPS, Mélenchon freqüentemente tomou a FN como seu principal alvo. Houve também uma assimetria na questão central que os dividia: onde a FN propôs soluções claramente xenofóbicas para a imigração, a FI – como a maioria da esquerda europeia em geral – desprovida de respostas comparativamente específicas – tenta evitar o assunto completamente. L’Avenir en Commun, seu programa para as eleições de 2017, contém 83 tópicos: a imigração mundial não é encontrada em qualquer um deles.

20 Para esses dados, ver Ipsos Report, Deuxième tour. Sociologie des électorats et profil des abstentionnistes, 7 May, 2017.

21 Os voos da mostra: “Eu aprendi de Colette o que era uma flor, de Giono um vento frio em Provença e a verdade dos personagens. Gide e Cocteau eram meus companheiros insubstituíveis”; “Tomei o caminho de caracteres em Flaubert, Hugo. Estava consumido pela ambição dos jovens sangues de Balzac”; ‘Andre Breton, que amava Paris tão bem, chegou um dia por casualidade no sertão do Lot e gritou: deixei de querer estar em outro lugar. Nunca me cansarei de contemplar a imóvel e fugitiva alma da França’; ‘no espírito da França há uma aspiração ao universal que é ao mesmo tempo uma indignação incessante ante a injustiça e a opressão, e uma determinação para dizer aos demais que nós pensamos no mundo, aqui, agora e em nome de todos. O espírito dos enciclopedistas dirigidos por Diderot oferece a quintessência desta louca ambição, embora a ambição seja nossa” Emmanuel Macron, Révolution, Paris 2016, pp. 14, 19, 45, 51–2. Em todos os lugares, numa publicação gerida por um verterano do Le Monde, Balibar, Ricoeur, Deleuze, Bourdieu são colocados a serviço de maneira similar, como naturalmente Camus, Chateaubriand, Char, etc. Macron par Macron, Paris 2017, pp. 18–22, 31, 41, 46, 84–5, 91. Depois de tudo, “Política é um estilo, uma magia”, explica a seu interlocutor.

22 Dos votos emitidos, LREM-MoDem levou cerca de 32%, Les Républicains 16%, FN 13%, La France Insoumise 11 %, PS 7%. Com 3% a mais de votos que a FN, Les Républicains poderia ter dez vez mais deputados. Pouco menos que uma farsa são essas figuras que reclamam que a FN é antidemocrática.

23 Para o imperturbável cinismo mútuo da Comissão e de Hollande em demandar e aceitar o teto, ambos sabendo perfeitamente bem que a França não respeitaria isso, meramente com o objetivo de desencorajar outros Estados-membro de descumpri-lo, ver o intercâmbio de Hollande com seus entrevistadores chateados: Davet e Lhomme, ‘Un Président . . . ’, pp. 516–7. A única regra do império da lei ritualmente sustentada pela União é a de que leis pode ser ignoradas quando for necessário.

24 Stéphanie Hennette, Thomas Piketty, Guillaume Sacriste e Antoine Vauchez, Pour un traité de démocratisation de l’Europe, Paris 2017, pp. 61–2, 74–5, 31–8.

25 Révolution, pp. 235–6.

26 Le choix de l’insoumission, pp. 381–3.

8 de junho de 2017

A revolução antifascista na Itália

Relembrando o Partido da Ação, um dos maiores movimentos antifascista da Itália

Stefanie Prezioso

Jacobin

Partisans italianos em Milão, abril de 1945.

Tradução / Nas duas últimas décadas, a Resistência Italiana tem estado no centro de um acalorado debate público, sendo alvo de esforços tanto políticos quanto históricos para “repudiar radicalmente o papel e o significado” do antifascismo na história contemporânea da Itália. Como escreveu Pier Giorgio Zunino em 1997, “para a história italiana da segunda metade do século XX, o vilão é o antifascismo.”

De fato, frequentemente identificado com a variante do Comintern (Internacional Comunista), o antifascismo das décadas de 20, 30 e 40 do século XX é rotulado de “antidemocrático” devido a sua “cegueira” em relação aos outros “inimigos da democracia”, como pontuou o revisionista italiano Renzo de Felice. Ataques à Resistência, que durou 20 meses, são essencialmente concentrados no seu caráter minoritário (vendo, assim, os partidos antifascistas como uma mera reedição do Partido Nacional Fascista) e na “crueldade” da “violência” cometida durante a guerra civil e nos meses seguintes à Libertação.

A Itália é um país onde a “memória negativa” desta experiência se funde com os usos políticos desta memória. Neste contexto, o que é questionado “década após década” é o caráter central deste período para a história dos dominados.

Isto ocorreu porque entre 8 de setembro de 1943 – a data em que o governo pós-fascista de Badoglio assinou um armistício com os Aliados, desencadeando uma ocupação alemã do norte e do centro da Itália – e 25 de abril de 1945 – a data da libertação final das grandes cidades do norte da Itália – a Resistência não foi apenas uma guerra de libertação nacional, mas também uma guerra civil e uma guerra de classes – uma guerra social que envolveu a própria população.

Claro, nem todo “o povo” estava nos “maquis”, como o título do livro do líder comunista Luigi Longo, Un popolo alla macchia, pode sugerir. Mas uma grande parte da população italiana pensava que o fim do fascismo deveria significar um desafio não apenas ao regime, mas também ao Estado italiano formado após o Risorgimento, e, de fato, a sociedade burguesa como um todo. Neste sentido, o antifascismo representava realmente um conflito positivo, com um potencial político e social que se projetou para o futuro.

Neste contexto de questionamento radical à ordem existente, o Partido da Ação (Partito d'Azione ou Pd'A), durante a sua breve existência, teve um papel muito específico. Criado em 1942 e dissolvido em 1947, nos vinte meses de guerra civil o Pd'A defendeu a transformação radical da sociedade italiana.

Esta defesa também se transformou em prática; na guerra de Resistência que se seguiu, principalmente no norte da Itália, de setembro de 1943 em diante, o Partido da Ação fez uma contribuição relativamente sem paralelo, oferecendo o maior número de combatentes à luta armada. Giovanni de Luna capturou essa realidade com sua referência ao “partido do tiro”. O Pd'A fez a maior contribuição para as insurreições de abril de 1945, em particular em Turim.

A encarnação viva de um "vento do norte" revolucionário também estabeleceu um duradouro sistema de valores fundado no antifascismo. Considerava o antifascismo não apenas em termos conjunturais - como uma luta contra o regime que Mussolini havia estabelecido a partir de 1922 em diante - mas como um dever perpétuo.

A encarnação de um revolucionário “vento do norte”, azionismo também assentou um duradouro sistema de valores fundado no antifascismo. Ele considerou antifascismo não apenas em termos conjunturais – como a luta contra o regime que Mussolini tinha estabelecido de 1922 em diante – mas como um dever perpétuo.

Isto foi sintetizado em abril de 1934 por Carlo Rosselli, fundador do movimento Justiça e Liberdade (Giustizia e Libertà ou GL), secular e não comunista. Uma figura cuja memória foi sempre parte do Pd'A depois de seu assassinato em 1937 por fascistas, Rosselli falava do antifascismo como uma “luta por toda a eternidade”.

“Nós estamos em guerra”
O azionismo estava enraizado no antifascismo do revolucionário liberal Piero Gobetti, que morreu em 1926 sob os golpes dos squadristi fascistas; assim como sua atualização política do início dos anos 1930 pelo GL, o movimento do revolucionário Carlo Rosselli e, entre outros, Emilio Lussu, membro do Partito d’Azione sardo. Vivendo em Paris na década de 1930, Rosselli e Lussu eram ambos fugitivos da ilha de Lipari, onde foram confinados pelo regime fascista.

Para Piero Gobetti o fascismo era “a autobiografia da nação.” Em 23 de novembro de 1922, em um artigo intitulado “Elogio à guilhotina”, ele escreveu:

Fascismo... foi a autobiografia da nação. A nação que acredita na colaboração de classes; a nação que renuncia à luta política, por causa de sua própria preguiça... Fascismo na Itália é uma catástrofe, e é uma indicação de uma clara infantilidade, pois marca o triunfo da facilidade, da confiança exagerada, do otimismo, dos entusiasmos.

Essa interpretação enfatizava os elementos de continuidade entre a Itália liberal e a Itália fascista e a ideia de um Risorgimento falho – significando um processo incompleto de unificação política e modernização econômica. De acordo com esta perspectiva, o fascismo era o resultado de uma revolução liberal/burguesa falha, e a expressão de um país atrasado e “sem cultura” cuja única experiência política era com sistemas de governo que combinavam clientelismo, paternalismo, transformismo e autoritarismo.

O fascismo era então a expressão de uma “doença antiga, enraizada no passado distante da história italiana. ” Esta interpretação combinava com a ideia de que era necessário não apenas lutar contra o fascismo em si, mas contra tudo que o fez possível. Isto enfatizava o papel da classe dominante italiana na afirmação e na estabilização do regime.

Durante a década de 1930, esta linha de interpretação iria se desenvolver no contexto de uma luta antifascista travada em segredo no exílio. Esta luta confrontava um regime claramente estabelecido e um país disciplinado, nos anos que o historiador revisionista Renzo de Felice descreveu em termos de “consenso”.

O revolucionário socialista Carlo Rosselli desenvolveu sua própria análise do fascismo baseada nas reflexões de Gobetti e outros, discutindo o desenvolvimento do que ele chamou, a partir do início da década de 1930, de “a revolução antifascista”, e refinando seu repertório de ações.

Em janeiro de 1932, a primeira edição do Quaderni di Giustizia e Libertà declarou a necessidade de se passar da “fase de um antifascismo negativo e indistinto” para a afirmação de um “antifascismo construtivo que compreenda e transcenda a experiência fascista e as experiências da Europa pós I Guerra Mundial. ”

Baseada nos princípios mazzinianos de “pensamento e ação”, a GL se apresentou, em uma circular de março de 1931 dirigida “Aos trabalhadores”, como um “movimento revolucionário” que visava derrubar o fascismo por meios insurrecionais. Carlo Rosselli e os membros da GL concebiam seu engajamento político como uma ruptura radical com o fascismo, mas também com a Itália pré-fascista.

Neste sentido, eles constantemente repetiam que não estavam lutando para retornar para “l’Italietta di Facta” [referindo-se ao primeiro ministro liberal Luigi Facta, anterior a Mussolini]. O que unia os militantes da GL era “a revolta contra os homens, a mentalidade e os métodos do mundo político pré-fascista (“Per l’unificazione politica del proletariato,” GL, 14 de maio de 1937).

Isto também servia para os socialistas italianos, que se haviam reduzido à impotência. É possível notar isso na severa análise feita por Emilio Lusso sobre o colapso dos Socialistas frente à ascensão do fascismo no seu artigo “Orientamenti”, de fevereiro de 1934:

As massas foram brilhantemente guiadas rumo à catástrofe… Foram necessários apenas alguns saqueadores mercenários, arregimentados em tão pouco tempo, para destruir os resultados de quarenta anos de organização proletária. Não foi necessária uma rajada de metralhadora, mas apenas os barulhos de um caminhão de leite para fazer debandar o que deveria ter sido o exército revolucionário.

A renovação do socialismo e a luta antifascista eram vistas então como duas etapas interdependentes e inextricavelmente ligadas. A GL defendia a derrota das configurações políticas pré-fascistas, apresentando-se em termos de “unidade de ação” entre socialistas, republicanos e liberais e buscava reanimar as lutas no território italiano, se necessário usando meios ilegais e violentos.

De 1930 em diante, as células da GL eram formadas principalmente nas cidades do norte da Itália e em círculos intelectuais. Este foi o único movimento não comunista que construiu uma verdadeira rede e o Pd’A (formalmente constituído em 1942) iria se basear nela, na medida em que construía suas forças ao redor de figuras como Riccardo Bauer, Ernesto Rossi, Francesco Fancello, Nello Traquandi, Umberto Ceva, Vincenzo Calace, Dino Roberti, Giuliano Viezzoli, Ferruccio Parri e muitos outros. Mesmo que esta base social e militante fosse formada principalmente entre intelectuais, este pequeno círculo se tornaria uma tropa firme, pronta para pegar em armas.

GL, o Pd’A e a Revolução
De fato, o fascismo colocou os jovens intelectuais (liberais e/ou socialistas), como bases do GL e o Pd’A em uma situação paradoxal. O regime estabelecido por Mussolini colocou a luta na “retaguarda” pela defesa das liberdades democráticas como a ordem do dia. Não há dúvida de que o engajamento antifascista de liberais como Ernesto Rossi ou Riccardo Bauer foi construído precisamente ao redor desta revolta primária, mais moral do que política.

Mas foi precisamente neste momento em que a luta pela liberdade se emancipou de seus marcos históricos e teóricos a partir dos quais tinha surgido. Ela se distanciou das revoluções dos séculos dezoito e dezenove e adotou noções mais complexas que definitivamente a posicionaram no período iniciado em outubro de 1917.

Piero Gobetti estava novamente no coração desta forma de se conceber o antifascismo, que combinava liberalismo com exortações à revolução. Durante o curso de sua breve vida, ele consistentemente enfatizava que o seu liberalismo era enraizado na experiência concreta das lutas dos de baixo, sendo os conselhos de fábrica de Turim em 1919-20 e os sovietes na Rússia as suas expressões mais completas, segundo sua visão.

Assim, Gobetti via o movimento dos trabalhadores como “a liberdade a caminho de se estabelecer” e a revolução de outubro como “a afirmação do liberalismo” porque esta quebrou “uma escravidão secular” ao criar uma “democracia agrária”, um estado no qual “o povo acredita”.

Autonomia, demandas antiburocráticas, voluntarismo, “livre iniciativa vindo de baixo” e o papel do indivíduo – e não das “massas” – eram os segredos internos deste liberalismo libertário e revolucionário, ligado à revolução social e completamente ancorado no século vinte. A GL seguiu por este mesmo caminho na década de 1930. Assim, a questão colocada era “reconciliar o potencial político e social da revolução russa com o legado cientifico, humanista e liberal do Ocidente”.

Se o fascismo refletia a imaturidade moral, política e cultural dos italianos – em resumo, uma “falta de caráter” – então construir uma nova ordem política deve inevitavelmente proceder através de uma luta revolucionária. Esta era a luta em que minorias ativas iriam ter um papel exemplar e que iria “então se espalhar em amplas camadas da população”.

Um dos desafios colocados era como pensar um processo revolucionário em um país que nunca tinha visto nenhum fenômeno revolucionário de larga escala, uma vez que o “Risorgimento popular e revolucionário” foi varrido por monarquia, clero, feudalismo agrário e financistas.

A partir desta perspectiva, a revolução antifascista poderia ser um segundo Risorgimento “social e moral”, que iria resultar na emancipação dos trabalhadores. Durante a década de 1930 – em particular para o GL de Carlo Rosselli – a revolução se tornou mais claramente proletária e o antifascismo se tornou sinônimo de anticapitalismo.

Este não era um anticapitalismo abstrato, mas sim “concreto e histórico”, fundado na observação e na convicção de que a democracia liberal havia exaurido seu papel histórico. A crise da democracia após a I Guerra Mundial e a crise do capitalismo se tornaram então fatores potentes na interpretação da luta que deveria ser travada.

O Pd’A se estruturava ao redor de temas ligados às origens do fascismo e à revolução antifascista, questões que Carlo Rosselli em particular havia proposto no interior do GL. Ainda que o início da I Guerra Mundial tenha destruído as redes de contato constituídas no exílio (principalmente da França), ela também criava o terreno na qual essas novas orientações políticas poderiam ser testadas na prática.

Como pontuou Leonardo Paggi, podemos ver aqui “o papel de liderança da guerra não apenas como fator de destruição da velha ordem, mas também como o local de reconstrução de uma nova”.

De fato, a “guerra fascista” (de 1940 – 43) iria ter um papel fundamental em conduzir o surgimento de uma consciência política e social propriamente antifascista, em proporções cada vez maiores. Tanto a onda de greves em março de 1943 quanto as manifestações de alegria em 25 de julho do mesmo ano, quando os italianos comemoraram a notícia da queda de Mussolini, são provas disto.

Além disso, durante a guerra civil de 1943 a 1945, o antifascismo, construído sobre vinte anos de fascismo e que se enraizou em um país devastado e “martirizado”, transformou-se em um movimento real, conduzido por homens e mulheres e por suas esperanças e expectativas. O motivo imediato para a formação do Partido da Ação foi, claro, a guerra. No entanto, ele também foi conduzido pela necessidade sincera de uma luta incessante, durante e através da guerra, contra tudo que, no processo de construção da Itália moderna, levou ao desastre.

Desde a sua criação em junho de 1942, o Pd’A se apresentou como o ponto de convergência entre diversos elementos do antifascismo não comunista de orientações liberais e socialistas. O Pd’A era, antes de tudo, composto por membros do movimento liberal-socialista fundado por Guido Calogero e Aldo Capitini entre os círculos de jovens intelectuais da Itália central em 1937, cujo programa de 1940 chamava para a formação de uma “frente comum pela liberdade”.

Em julho de 1943 os militantes do GL se somaram a essa corrente, que se tornou um movimento socialista de unidade sob a direção de Emilio Lussu depois do assassinato de Carlo Rosselli em 1937. Em março de 1943 o GL, o Partido Socialista e o Partido Comunista assinaram um pacto de unidade na ação, defendendo “uma insurreição nacional para esmagar a política de guerra do fascismo”.

Como enfatiza em seu livro Giovanni de Luna (que infelizmente ainda não foi traduzido), as diferentes almas do Partido da Ação eram unidas pela concepção politica que seus militantes construíram – uma política ligada inextricavelmente à moralidade – e pela constante busca de meios de ação para responder as necessidades concretas da Itália, principalmente os seus camponeses, trabalhadores e camadas intelectuais, e assim mudar radicalmente a ordem política e social.

Vem daí o “preconceito republicano” do partido e seus chamados para mudar a economia e a estrutura estatal da Itália. Dentre os sete pontos do programa político de 1942 do Pd’A, podemos mencionar: descentralização do poder a nível local; a nacionalização dos monopólios; reforma agrária; liberdade sindical; separação entre Igreja e Estado. O historiador italiano Claudio Pavone lembrou como o “Partido da Ação falava em seu programa de sua intenção de estabelecer um socialismo para os novos tempos” e como este partido tinha expressado a “utopia como a aspiração pelo máximo”.

A questão dos meios de luta estava no centro dos debates do congresso nacional do Pd’A de 5 a 7 de setembro de 1943 – um congresso realizado antes que o armistício [entre o governo Badoglio pós-golpe e os anglo-americanos] fosse declarado e com tropas alemãs tendo se espalhado pelo território italiano de julho a setembro. A ideia de uma guerra de libertação nacional foi transformada aqui no entendimento de que seria necessário travar uma guerra de grande escala. As brigadas do GL iriam constituir o braço armado do Pd’A, sob o comando de Ferruccio Parri.

Estas brigadas foram concebidas como locais para a consolidação e/ou emergência de uma consciência social e política, mesmo que o recrutamento para as brigadas do Pd’A fosse bem mais seletivo do que aquele das Brigadas Garibaldi, lideradas pelos comunistas. Dante Livio Bianco escreveu:

O verdadeiro trabalho político nas brigadas não consistia tanto em dar ‘palestras’ ou em forçar os combatentes a ler a imprensa política, mas sim em tocar (e era isto o que era feito – meramente tocar) os pontos chave, revelá-los e fazê-los emergir do genérico, confuso e indistinto e assim trazê-los – mesmo em sua forma mais básica – à consciência individual, desta forma criando novos motivos para a ação.

Mas o debate também incluía a definição da própria luta: era uma luta pela libertação nacional e/ou pela revolução “democrática”? Para os militantes do Pd’A, uma estava necessariamente lado a lado com a outra, mas os conteúdos desta revolução democrática eram definidos de forma diferente mesmo dentro do partido – mais radicalmente entre os antigos militantes do GL e em termos mais liberais entre os outros.

Mas todos concordavam em fazer uma oposição intransigente ao regime pós-fascista de Badoglio sob o “Reino do Sul” [ regiões ocupadas pelos Aliados depois de setembro de 1943] e em buscar incansavelmente uma unidade de ação entre os partidos de esquerda. Durante a guerra da Resistência, os azionisti pensavam que a situação concreta na Itália poderia resultar em um processo “de características revolucionárias”.

“Você é a favor da revolução ou de reformas, ” escreveu o secretário para o norte da Itália Leo Viliani, “e nós somos pela revolução”. A revolução se tornou mesmo uma “revolução permanente,” “cujos objetivos não podem nunca ser determinados de uma vez por todas, mas estão sendo continuamente redefinidos”.

No entanto, o retorno do líder comunista Palmiro Togliatti à Itália no final de 1944 e o realinhamento internacional das forças Aliadas – que agora estavam claramente focadas no futuro da reconstrução da Europa Ocidental – marcaram o fim das esperanças “revolucionárias” do azionismo e a revolução antifascista. O discurso de Palmiro Togliatti em Salerno seria o seu canto do cisne.

Nesta cidade do sul da Itália, o líder comunista asseverou a necessidade da unidade de todos os antifascistas, independentemente de suas orientações políticas ou religiosas, e propôs que a questão institucional (monarquia ou república?) fosse adiada para depois da guerra. O antifascismo revolucionário e jacobino do azionismo havia verdadeiramente respondido às aspirações das camadas populares, camponesas e da classe trabalhadora do norte da Itália, mas isto seria derrotado pela nova situação do antifascismo “diplomático” dos Aliados, para o qual o Partido Comunista de Togliatti adicionou um ímpeto decisivo, pouco antes dos Aliados alcançarem Roma em junho de 1944.

Começou a emergir assim a imagem de uma Resistência “traída” ou pelo menos “inconclusa”, significando “a incompletude de um ideal que nunca foi plenamente realizado, mas ainda assim continuou a alimentar esperanças e despertar forças para a renovação”. Como escreveu Marco Revelli: “ (…) o verdadeiro pecado mortal do antifascismo consistiu em sua luta contra as raízes, contra a tradição da Itália, em sua carga destrutiva que dissolvia as categorias fundamentais de pátria e família”.

O “pecado mortal” do azionismo não foi apenas que ele manteve esta memória viva, mas sim que ele foi capaz de transmitir esta experiência no tempo, assim como as questões que ele colocou para a Itália do passado, do seu próprio presente e do futuro. Este era especialmente o caso de Piero Calamandrei (um dos pais da Constituição italiana de 1948), Giorgio Agosti, Leo Valiani, Aldo Garosci, e Alessandro Galante Garrone.

Claro, o Pd’A foi uma breve experiência, sem dúvida ligada à sua variedade de almas políticas e sua incapacidade de criar uma substância comum para a revolução antifascista que considerava tão necessária. Mas o azionismo continua uma pedra no sapato daqueles que esperam ver o potencial subversivo da Resistência morto com o passar dos anos.

E de fato, com as comemorações do 25 de abril, o que está posto na agenda novamente é o fato de que este passado pode de novo se tornar uma força no presente. Sem dúvida, é neste sentido que o azionismo e sua “revolução antifascista” continuam sendo um ponto de encontro para a esquerda oposicionista italiana hoje. A palavra de ordem “Resistência agora e sempre!” foi cantada mais uma vez em abril de 2017, renovando o potencial subversivo do azionismo militante e a força viva da sua “revolução permanente”.

Colaborador

Stefanie Prezioso é professora assistente na Universidade de Lausanne e autora de numerosos trabalhos sobre o antifascismo europeu.

Como Corbyn venceu

Não ligo se ele não venceu realmente  —  ele venceu. Jeremy Corbyn nos deu um modelo que podemos seguir nos próximos anos.

Bhaskar Sunkara

Jacobin

Foto de Carl Court.

Os conservadores podem ainda estar no poder no final da noite, mas Jeremy Corbyn venceu hoje. Sim, eu sei que isso é um giro sem-vergonha, mas me escute: as últimas semanas reivindicaram a abordagem da esquerda trabalhista, e seus colaboradores internacionais, sob Corbyn.

Esta é a primeira eleição em que o Partido Trabalhista ganha assentos desde 1997, e o partido obteve sua maior votação proporcional desde 2005 — tudo isso saindo de uma desvantagem de vinte e quatro pontos no começo do processo eleitoral. Desde que Corbyn assumiu a liderança no final de 2015, ele sobreviveu a ataque após o ataque de seu próprio partido, culminando em uma tentativa de golpe fracassada contra ele. Como líder trabalhista, não pôde confiar em seus próprios colegas de parlamento ou na burocracia de seu partido. A pequena equipe em torno dele foi bombardeada com vazamentos internos hostis e desinformação, sem falar de uma campanha sem precedentes de difamação na mídia.

Todos os grupos de interesse da elite do Reino Unido tentaram derrubar Jeremy Corbyn, mas ainda assim ele continua de pé. E hoje à noite consolidou uma posição muito mais forte em relação aos centristas do seu partido do que em qualquer momento desde que foi eleito líder trabalhista.

Certo, Corbyn pode não ser primeiro-ministro amanhã. Ele era um “candidato defeituoso”, não era um orador excepcional, cometeu sua cota de gafes, e gosta de comer feijão frio. Tudo isso é verdade. Mas, além da hostilidade externa e da oposição de seu próprio grupo parlamentar, vale a pena lembrar que Corbyn tornou-se líder trabalhista no pior momento desde a criação do partido (1900).

O partido foi desacreditado pelas administrações Blair-Brown [2]  — por suas aventuras militares catastróficas no Iraque, por sua agenda doméstica de privatização e por sua resposta à crise financeira. Os Blairitas haviam conseguido o que queriam: o Partido Trabalhista parecia, cada vez mais, com um partido social liberal, e menos com um partido social-democrata, abraçando o setor financeiro e preparando-se para “modernizar” o estado do bem-estar — destruindo-o. Mas, na época, a esquerda não conseguiu lançar um desafio sério a essa política, e havia eleitores de classe profissional a cortejar.

A base de membros de massa do partido deteriorou-se, assim como seus vínculos com um movimento sindical enfraquecido. A Escócia estava perdida. A única voz anti-establishment nas comunidades anteriormente dominadas pelo partido trabalhista (insatisfeitas com os anos de políticas econômicas neoliberais) era o partido de direita UKIP (anti-União Européia).

Esta foi a situação que Corbyn herdou. E no entanto, contra todas as probabilidades, sua equipe trouxe o Partido Trabalhista de volta à vida. Eles reconstruíram a base de massa do partido, transformando-o no maior partido da Europa, com mais de meio milhão de membros. Momentum, a organização de base criada para apoiar o esforço, organizou dezenas de milhares em comunidades em toda a Grã-Bretanha. As batalhas com o centro e a direita do partido acabaram também ajudando de certa forma, servindo para distanciar a imagem da liderança de um establishment desacreditado. Muitos membros do partido chegaram a se regozijar com a ira da imprensa bilionária.

O partido formulou uma plataforma robusta de esquerda pela primeira vez em décadas. Mesmo quando começou a naufragar nas pesquisas, estava formando o núcleo de uma oposição real, uma alternativa real.

E mesmo se não nos preocupássemos com o programa e apenas quiséssemos ver os Tories fora do governo, é difícil imaginar que um líder trabalhista da direita teria conseguido fazer melhor do que Corbyn. Owen Smith teria inspirado o aumento da participação juvenil que converteu o que deveria ter sido uma vitória conservadora avassaladora em um parlamento sem maioria? Angela Eagle ou qualquer adversário da “esquerda suave” teria conseguido manter País de Gales em mãos trabalhistas? Qualquer outra força que não a esquerda trabalhista teria conseguido começar a reconquistar a Escócia do canto de sereia do Partido Nacional Escocês?

Corbyn salvou esta eleição ao reverter a deriva conservadora do Partido Trabalhista das últimas décadas e mantendo firme suas convicções de esquerda. Seu sucesso fornece um modelo para o que os socialistas democráticos precisam fazer nos próximos anos.

O crescimento dos trabalhistas confirma o que a esquerda vem há muito argumentando: as pessoas gostam de uma defesa direta e honesta dos bens públicos. O manifesto trabalhista foi ousado — o mais socialista em décadas. Um documento direto, que pedia a nacionalização de setores chaves, acesso para todos à educação, habitação e serviços de saúde, e medidas para redistribuir renda das corporações e dos ricos para as pessoas comuns. £ 6,3 bilhões para as escolas primárias, proteção das aposentadorias, matrícula gratuita nas universidades, construção de habitação pública popular — ficou claro o que o Partido Trabalhista faria para os trabalhadores britânicos. O plano foi atacado na imprensa por sua simplicidade antiquada — “para muitos, e não para poucos” — mas ressoou com os desejos populares, com uma visão de justiça que parecia óbvia para milhões.

A esquerda trabalhista lembrou-se de que não se ganha cortejando um centro imaginário — ganha-se fazendo com que as pessoas saibam que você compreende a indignação delas e oferecendo a elas um fim construtivo para o qual canalizar essa indignação. “Exigimos os frutos completos do nosso trabalho”, o vídeo de campanha do partido dizia tudo.

Se o programa econômico imediato do Partido Trabalhista já foi inspirador, [3] a liderança também reavivou uma visão de política social-democrata que olha para além do capitalismo. O mais impressionante sobre o Corbynismo não é que seja um capitalismo do bem-estar social em um era em que o neoliberalismo reina supremo, mas que seus protagonistas vêem os limites inerentes das reformas sob o capitalismo e discutem idéias que visam expandir o escopo de democracia e desafiem a propriedade e controle do capital, não apenas suas riqueza. Que outro grupo de centro-esquerda, após os “anos dourados” da social-democracia (1945–1975), elaborou planos para expandir o setor cooperativo, criar empresas de propriedade comunitária e restaurar o controle do Estado em setores-chave da economia?

Os planos estavam longe de ser exaustivos, mas colocariam o Reino Unido em um curso de transformações socialistas mais profundas no futuro. Esse é um sonho ambicioso, que levará décadas para se concretizar, mas vai muito além do trabalhismo tradicional.

A esquerda trabalhista não é uma mera corrente “social-democrata”. Enquanto o que a social-democracia se transformou no período do pós-guerra muitas vezes tentava atenuar o conflito de classes em favor de acordos tripartites entre o capital, o trabalho e o Estado, a nova social-democracia de Corbyn foi construída sobre o antagonismo de classe e estimula ativamente os movimentos de baixo. Mas o Partido Trabalhista não poderia simplesmente apresentar um programa viajante e fantasioso. Tinha que lidar com questões que os socialistas geralmente não enfrentam. E foi bem sucedido ao apelar ao senso comum dos “muitos” que eles queriam representar.

Quando a questão do terror e da segurança foi levantada durante a campanha, Corbyn mostrou não só que a esquerda não é fraca nessas questões, como, na verdade, em muitos aspectos somos mais críveis do que nossos oponentes. Durante anos, foi dado como certo que, quando se trata de terrorismo, a escolha que a esquerda enfrenta era ou se apegar aos nossos princípios puros e sofrer eleitoralmente por causa deles, ou imitar a retórica belicosa da Direita.

Corbyn encontrou um outro caminho em meio à loucura. Na sequência dos terríveis ataques de Manchester e Londres, o líder trabalhista não teve medo de conectar o imperialismo britânico no exterior e a proliferação do terror islâmico. Corbyn expandiu suas críticas para outros aspectos da política externa britânica: um conjunto de alianças profundamente enraizadas com os Estados do Golfo no centro da reação do Oriente Médio.

Corbyn foi bombardeado pela extrema esquerda por seu pedido de uma resposta proporcional da polícia ao terror. Mas ele delineou uma alternativa ampla, que fala das causas sociais por trás do terrorismo, e usou isso para atacar a xenofobia violenta e alarmista dos Tories. Ao fazê-lo, ele transformou o debate sobre o terrorismo de maneira fundamental. Sempre haverá pessoas alienadas e irritadas envolvidas em atividades anti-sociais, mas Corbyn ofereceu uma maneira de ver atos terroristas como assuntos de segurança a serem tratados em suas raízes, e não como um choque de civilizações.

Não vamos subestimar os eleitores. Depois de anos de guerras e violência sem fim, a maioria deles está pronta para a paz. Corbyn ofereceu-lhes o que eles queriam, e não foi punido por isso.

Mesmo com uma diminuição da maioria conservadora, as coisas não serão só rosas amanhã. Momentaneamente humilhados, os Tories ainda governam. Seus aliados nas elites dos negócios e na mídia se reagruparão. Eles apresentarão novos planos para atacar as pessoas trabalhadoras e os bens públicos.

Mas o partido de Corbyn está melhor posicionado do que qualquer outra formação trabalhista recente para ser uma oposição crível, enraizada em uma visão de esquerda não-envergonhada — para oferecer esperanças e sonhos às pessoas, não apenas medo e expectativas decrescentes. Ah, e também: Bernie teria ganho.

7 de junho de 2017

Sado-austeridade vs. social-democracia moderada

Glen Newey



Esta eleição foi feita, como Proudhon disse sobre a revolução de 1848, sem uma ideia, além de abrandar os conservadores no poder e protegê-los contra a explosão do Brexit. Sua estratégia supunha que as pessoas se decidissem sobre a competência dos líderes do partido, e que os eleitores estavam consertados com o Brexit, então a falta de clareza em outros lugares não importaria (embora o governo pareça sem ideias sobre o Brexit também). Daí o manifesto Conservador sem cortes.

O Instituto para Estudos Fiscais (IFS), testou os números dos dois manifestos, dos Conservadores (Tories) e dos Trabalhistas (Labour). Como convém à sua neutralidade, o IFS deseja que a peste desabe sobre as duas casas, embora, como sugere o estudo, os Tories nem casa tenham para que se deseje peste sobre ela. No caso dos Tories, o IFS é obrigado a outra vez fazer projeções da política atual.

Alguns dados do IFS são interessantes de ler. O plano de gastos do Labour põe a Grã-Bretanha na metade inferior do ranking das economias desenvolvidas no que tenha a ver com a razão gasto público/PIB, bem abaixo de distopias coletivistas como Islândia, França, Singapura, Nova Zelândia e Alemanha. O Labour aumentaria o gasto público em £81 bilhões, ou 3% do PIB, até 2021-22. Em cinco anos, quer ter eliminado o déficit de despesas correntes. Os Conservadores estão prometendo orçamento equilibrado "à altura da metade da próxima década"; pelas projeções do IFS os Conservadores, como os Trabalhistas, ainda enfrentarão déficit no início dos anos 2020.

Os Tories chegaram ao poder em 2010 prometendo que até 2015 o déficit estaria debelado; e a proporção do déficit em relação ao PIB estaria já diminuindo. Pois só faz aumentar, apesar de sete anos de muita sado-austeridade. Muito da teoria a favor da sado-austeridade de quando Cameron estava no poder vinha do trabalho dos economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, que sugeriram que o crescimento engriparia quando a razão dívida/PIB ultrapasse 90%. Casava muito bem com a missão ideológica de Cameron de encolher o Estado. Estudos posteriores desacreditaram a tese de Reinhart e Rogoff; haviam subestimado o crescimento em níveis de dívida superiores a 90%. Mesmo assim a austeridade avança, apesar do colapso dos intelectuais que a conceberam, como avançam também os repetidos fracassos dos Conservadores que por nada no mundo conseguem domar a dívida. Seu manifesto agora não especifica nenhum objetivo para a dívida.

O IFS acha que os £25 bilhões/ano extras em investimento de infraestrutura do Labour podem ser alcançados sem ultrapassar a sua meta da dívida. Mas duvida, porém, que os aumentos de impostos sobre os ricos que o Labour planeja venham a gerar os £49 milhões de que fala o Manifesto Trabalhista, porque rico sonega e evade, em termos fiscais.

O elefante que não vocifera nos dois manifestos é o Brexit, cujo efeito na renda nacional é imponderável. Estudo da London School of Economics ano passado sobre o impacto macroeconômico do Brexit descobriu que levará a PIB menor do que se o país permanecesse na União Europeia, mas não zero, nem haverá crescimento negativo.

O Labour planeja aumentar o investimento líquido do setor público, de 2% para cerca de 3% do PIB. É comparável com a média de 4% entre 1945 e 1979. O principal objetivo de investir em capital humano e outros é aumentar a produtividade – fraqueza notória da economia do Reino Unido, que não se deve, como reza um dos mitos da direita, à indolência do operário britânico, mas à correlação negativa entre produtividade e longos períodos laborais (operários no Reino Unido trabalham em média 300 horas por ano a mais que os operários alemães). Investir em produtividade promove o crescimento.

Diferente do Partido Trabalhista, que propõe taxas de impostos mais altas para os que ganham mais, os Tories permanecem fiéis na defesa intransigente dos que são obrigados a lidar com uns poucos milhões/ano. David Metter, CEO da empresa privada de finanças Skanska Innisfree, levou para casa não muito mais de £8 milhões em 2010; a empresa dele é principal credora de um contrato PFI de £7 bilhões, a ser liquidado até 2049, para construir nos hospitais de Bart e Royal London. O buraco nos fundos do Serviço Nacional de Saúde é em grande parte resultado do caro, ruinoso PFI – o qual, verdade seja dita, é resultado dos anos Blair e Brown. Estima-se que só esse contrato contribua com cerca de £250 bilhões para a dívida (atualmente de £1,8 trilhão).

Independente do que digam Lynton Crosby e sua ensandecida "árvore mágica que dá dinheiro", como linha de ataque (imediatamente abraçada por Theresa May e Amber Rudd semana passada), e do que diga a imprensa militante de direita, os Trabalhistas está está oferecendo um programa social-democrata cuidadosamente moderado.

6 de junho de 2017

A inesperada sobrevida do comunismo americano

Embora ativistas de base tenham sido frequentemente retratados como agitadores de fora, persiste uma tradição genuinamente local e motivo de orgulho.

Sarah Jaffe


Claudia Jones chegando para uma audiência judicial em 1951. George Alexanderson/The New York Times

No imaginário americano, o comunista sempre foi a figura por excelência do agitador externo.

Não importava o quão nativo fosse um movimento de resistência ou o quão locais fossem seus organizadores, a primeira reação daqueles que enfrentavam os protestos sempre foi culpar um elemento de fora. Isso valia tanto para os protestos em reuniões públicas durante o recesso parlamentar de fevereiro de 2017 quanto para as lutas contra o linchamento ocorridas há mais de 80 anos, durante a Grande Depressão.

Durante grande parte do século passado neste país, esse estrangeiro indesejável — visto como alguém vindo de terras distantes e que deveria ser deportado de volta para lá — era acusado de invadir o local para incitar problemas onde antes não havia nenhum, onde a população local se mostrava dócil e disposta a aceitar qualquer desigualdade cotidiana que lhe coubesse. Embora muitos comunistas fossem, de fato, imigrantes — alvo de perseguição e deportação enquanto o partido existiu —, muitos outros eram nativos, nascidos e criados nas mesmas cidades e vilarejos que seus perseguidores.

O Partido Comunista dos EUA, fundado em 1919, mantinha laços estreitos com o que viria a ser a União Soviética após a Revolução de Outubro de 1917, mas o partido americano também se nutria de décadas de organização radical local. Muitos de seus membros vinham do Partido Socialista, do movimento trabalhista e até mesmo do ativismo anarquista; no entanto, o partido também conquistou uma base entre os afro-americanos, ao demonstrar disposição para abraçar suas lutas por autodeterminação.

Em suma, o comunismo americano foi um movimento que surgiu daquilo que o historiador Robin D. G. Kelley — autor de Hammer and Hoe: Alabama Communists During the Great Depression — chama de "os elementos mais desprezados e despossuídos da sociedade americana". O professor Kelley argumenta que foram os trabalhadores negros atraídos pelo partido que moldaram suas escolhas políticas, tanto quanto as diretrizes variadas provenientes da Internacional Comunista, o órgão de Moscou responsável pelos partidos estrangeiros.

Durante a Depressão, o partido abraçou causas que iam além da busca por melhores salários e condições de trabalho, combatendo também os despejos promovidos por proprietários de imóveis e os abusos do sistema de justiça criminal. No Sul Profundo, a batalha pela liberdade dos "Scottsboro Boys" — nove adolescentes negros falsamente acusados ​​de estupro em 1931 — foi liderada pela International Labor Defense (Defesa Trabalhista Internacional), um braço jurídico do Partido Comunista dos EUA.

Essa postura continua a inspirar ativistas até hoje. Foi o caso Scottsboro que despertou o interesse da organizadora e educadora Mariame Kaba — responsável pelo blog Prison Culture — em saber mais sobre o Partido Comunista dos EUA.

“Eles estavam ajudando nove jovens negros”, disse ela, “e impedindo que fossem assassinados pelo Estado por um crime que não cometeram”.

O partido inspirava lealdade por razões que iam além da simples afinidade com as ideias marxistas. Foram as campanhas que os comunistas conduziram contra a brutalidade policial, a prática do linchamento e as leis de segregação racial (leis Jim Crow) que tornaram sua política relevante para a vida das pessoas comuns. Tanto no Norte quanto no Sul — fosse em palanques improvisados ​​nas ruas do Harlem ou em pequenas glebas cultivadas em regime de parceria agrícola no Alabama —, a organização comunista abordava as necessidades cotidianas e fundamentais da população negra.

Os comunistas acreditavam que a organização da classe trabalhadora só daria certo se os trabalhadores brancos compreendessem que sua própria libertação estava intrinsecamente ligada ao destino dos trabalhadores negros. Diante dessa ameaça, anticomunistas e segregacionistas empenharam-se em manter as divisões. Eles culpavam os comunistas por fomentar a “miscigenação racial”, evocando temores de cunho sexual de que a igualdade social levaria homens negros a manter relações sexuais com mulheres brancas — os mesmos medos que levaram os chamados “Scottsboro Boys” a julgamento. Por sua vez, quando a população negra lutava por direitos civis, figuras como Bull Connor rotulavam tais reivindicações como sendo de inspiração comunista, recorrendo à velha narrativa de que se tratava de uma ameaça vinda de agitadores externos perigosos.

Tal argumento sugeria, na prática, que os negros precisavam ser incitados por estrangeiros radicais para desafiar os resquícios da escravidão no Sul da era Jim Crow e que, sem esses elementos externos, a América já era — para pegar emprestada uma frase da eleição de 2016 — grandiosa. Essa visão também ignora o fato de que foram os membros negros do Partido Comunista dos EUA — criados em tais circunstâncias — que deixaram claro que suas lutas por independência econômica estavam intrinsecamente ligadas à violência racista que enfrentavam, tanto por parte da polícia quanto de grupos de supremacia branca.

Esses comunistas negros frequentemente precisavam lutar para cobrar do partido coerência com seus ideais declarados, especialmente quando a legenda mudava sua estratégia para tentar atrair liberais brancos. Os debates que ressurgiram durante o ciclo eleitoral de 2016 — sobre a primazia da raça ou da classe na organização de esquerda, particularmente em torno da campanha de Bernie Sanders nas primárias — ecoavam essas batalhas do passado.

Na década de 1930, o partido ensinava seus membros a discutir seus problemas utilizando a linguagem da exploração. Essa linguagem significava que as pessoas "entendiam que o racismo e o que chamavam de chauvinismo masculino não eram simplesmente casos de pessoas agindo mal, sendo controladas psicologicamente ou sendo ignorantes", disse o professor Kelley. "Tratava-se dos benefícios que elas obtinham de relações de exploração."

Essa estrutura de pensamento — revisitada hoje em documentos programáticos como A Vision for Black Lives — argumenta que o racismo, em sua raiz, não diz respeito ao ódio entre grupos, mas sim à forma como o poder é exercido na sociedade. E a classe social, segundo essa análise, é criada por relações de exploração.

Esses argumentos foram defendidos por organizadoras como Claudia Jones, uma líder negra do Partido Comunista dos EUA e jornalista do jornal da legenda, o The Daily Worker. Segundo Charlene Carruthers, diretora nacional do Black Youth Project 100, Jones expôs a ideia hoje conhecida como interseccionalidade décadas antes de o termo se tornar tão onipresente a ponto de ser usado por Hillary Clinton em um tuíte durante a campanha eleitoral. Para Jones, compreender a vida das mulheres negras e a posição econômica e social que ocupavam permitiria uma melhor compreensão do sistema capitalista como um todo. Disso decorria, explica Carruthers, que o trabalho das mulheres negras era central na luta para substituir esse sistema.

No âmbito do movimento sindical organizado — particularmente no *Congress of Industrial Organizations* (CIO) durante a década de 1940 —, os sindicatos liderados por comunistas estiveram sempre na vanguarda da luta pela igualdade racial e de gênero. Por vezes, isso entrava em conflito com os desejos dos membros homens brancos, que ocasionalmente faziam greve contra a inclusão de membros negros. Com a posterior expulsão desses sindicatos — os chamados "sindicatos vermelhos" — da federação, a causa antirracista acabou sendo deixada de lado. Somente na última década, aproximadamente, é que ela voltou a ser uma prioridade para alguns sindicatos.

O apoio do Partido Comunista dos EUA ao pacto de não agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética, no início da Segunda Guerra Mundial — o que parecia uma traição à sua firme postura antifascista —, provocou uma divisão entre os membros do partido. Revelações posteriores à guerra sobre os crimes de Stalin prejudicaram ainda mais o prestígio internacional da legenda. Em grande parte, no Ocidente, os partidos comunistas jamais se recuperaram desses golpes. Paralelamente, o fim da guerra acelerou o colapso dos antigos impérios europeus, e os comunistas frequentemente assumiram papéis de liderança nos novos movimentos anticoloniais.

A trajetória de Claudia Jones também é ilustrativa nesse contexto. Nascida em Trinidad em 1915, ela mudou-se para Nova York com a família na década de 1920. Em 1948, foi presa por seu ativismo político, julgada com base nas leis McCarran e Smith, encarcerada por vários anos e, por fim, deportada, estabelecendo-se em Londres. Ela foi uma das muitas vítimas do "Medo Vermelho" (*Red Scare*), que sufocou o comunismo americano e desencadeou expurgos, listas negras, deportações e algumas execuções de grande repercussão.

O medo inflamado em relação a comunistas estrangeiros, como a Sra. Jones, encontra eco hoje na retórica sobre imigrantes criminosos e no alarmismo em torno do "terror islâmico radical". As técnicas do macarthismo ressurgiram, desta vez para evocar a ameaça do terrorismo em vez da do comunismo.

No entanto, apesar de todo o esforço empreendido para aniquilar a ideia de que um sistema diferente seria possível, o espectro do comunismo ainda nos assombra. O Partido Comunista dos EUA alcançou seus maiores êxitos enquanto o país tentava se reerguer da Grande Depressão. Hoje, enquanto ainda buscamos uma saída para os escombros deixados pela crise de 2008, as ideias de esquerda voltaram a ganhar força. Foram as condições materiais de vida das pessoas, aponta a Sra. Kaba, que as tornaram receptivas a algo radicalmente diferente durante as décadas de 1930 e 1940. Foi essa realidade econômica que levou milhões de pessoas a prestar atenção tanto na retórica nacionalista bombástica do Sr. Trump quanto na mensagem socialista democrática de Bernie Sanders.

Essa mesma realidade levou organizadores como Will Emmons, de Lexington (Kentucky), a fundar novos grupos como a Kentucky Workers League (Liga dos Trabalhadores de Kentucky), que, segundo Emmons, busca inspiração explícita no Partido Comunista dos anos 30 e na atuação dos Panteras Negras nos anos 60. O grupo organizou ações diretas para defender pessoas ameaçadas de despejo e oferece programas comunitários, como auxílio nas tarefas escolares em uma biblioteca local. Também realizou uma campanha de solidariedade com trabalhadores de uma fábrica da Lexmark — empresa sediada em Lexington —, contatando funcionários no México e pressionando a empresa localmente a negociar com o sindicato da categoria. Desde a vitória do Sr. Trump, o grupo tem se voltado para a proteção de imigrantes da comunidade contra a deportação.

O ano de 2016 testemunhou uma revolta contra a política tradicional, com os partidos convencionais falhando em oferecer soluções significativas para as pessoas que enfrentavam dificuldades em todos os Estados Unidos. Após a eleição, a Sra. Carruthers afirmou que organizações como o Black Youth Project 100 precisam ampliar o escopo de sua atuação, mantendo-se fiéis à sua visão política. Tentar agradar à suposta maioria branca dominante enquanto se ignoram as necessidades materiais de negros, imigrantes, pessoas transgênero e outras comunidades marginalizadas não aplacará as tentativas trumpistas de fomentar o medo do "estranho" considerado antiamericano.

O poder do agitador radical — seja ele local ou alguém de fora — sempre residiu na capacidade de expor o abismo entre a narrativa da grandeza americana e a realidade vivida pelas pessoas. O que os comunistas americanos fizeram de melhor foi demonstrar a eficácia com que movimentos de base podem desafiar o racismo, a violência estatal e a exploração econômica enfrentados pelas pessoas no dia a dia, conectando essas lutas a uma visão mais ampla de um mundo justo.

Sarah Jaffe (@sarahljaffe) é pesquisadora do Nation Institute e autora de Necessary Trouble: Americans in Revolt.

1 de junho de 2017

Panteras em Argel

Era junho. Lembro-me muito claramente. Posso me ver caminhando por uma rua lateral entre a Casbah e o setor europeu de Argel em direção ao Victoria, um pequeno hotel de terceira categoria. Subi quatro lances de escada e bati. A porta se abriu e lá estava Eldridge Cleaver, e além dele, estirado na cama, sua esposa, Kathleen, grávida de oito meses. A sensação de admiração que senti naquele dia nunca me deixou.

Elaine Mokhtefi


Vol. 39 No. 11 · 1 June 2017

Em 1951, deixei os EUA para ir para a Europa. Eu estava trabalhando como tradutora e intérprete no novo mundo pós-guerra de organizações internacionais: agências da ONU, órgãos sindicais, associações estudantis e de jovens. Meu plano era visitar a França brevemente, mas fiquei quase dez anos. Para qualquer pessoa que vivesse em Paris, a guerra da Argélia era inevitável. Onde estavam suas simpatias? De que lado você estava? Em 1960, em uma conferência internacional da juventude em Accra, fiz amizade com os dois representantes argelinos: Frantz Fanon, um embaixador itinerante do Governo Provisório da República da Argélia, e Mohamed Sahnoun do movimento estudantil argelino exilado. Após a conferência, voei para Nova York, onde conheci Abdelkader Chanderli, o chefe do Gabinete Argelino, como era conhecida a missão argelina não oficial na ONU. Chanderli me convidou para me juntar à sua equipe, fazendo lobby para que os estados-membros da ONU apoiassem a independência da Argélia.

Em 1962, com a independência declarada, voltei para a Argélia. As vagas deixadas por quase um milhão de europeus em fuga significavam que havia empregos em todos os ministérios e setores. Em pouco tempo, eu estava trabalhando no escritório de imprensa e informação do presidente Ahmed Ben Bella, onde recebi jornalistas estrangeiros, agendei compromissos e distribuí informações aos repórteres da Europa e dos EUA que estavam chegando. Até aprendi a falsificar a assinatura de Ben Bella para seus admiradores.

Fiquei depois do golpe que levou Houari Boumediene ao poder em 1965. Eu tinha feito um lar na Argélia; estava feliz com minha vida e meu trabalho na imprensa nacional. Em 1969, os eventos tomaram um rumo extraordinário. Tarde da noite, recebi um telefonema de Charles Chikerema, o representante da União Popular Africana do Zimbábue, um dos muitos movimentos de libertação africanos com um escritório na cidade. Ele me disse que o Pantera Negra Eldridge Cleaver estava na cidade e precisava de ajuda.

Era junho. Lembro-me muito claramente. Posso me ver caminhando por uma rua lateral entre a Casbah e o setor europeu de Argel em direção ao Victoria, um pequeno hotel de terceira categoria. Subi quatro lances de escada e bati. A porta se abriu e lá estava Cleaver, e além dele, estirado na cama, sua esposa, Kathleen, grávida de oito meses. A sensação de admiração que senti naquele dia nunca me deixou. As deficiências do Partido dos Panteras Negras são claras o suficiente em retrospecto, mas eles levaram a batalha para as ruas, exigiram justiça e estavam preparados para pegar em armas para proteger sua comunidade. Seus slogans – "O céu é o limite", "Poder para o povo" – ressoavam pelos guetos negros nos EUA. Eles denunciavam o imperialismo americano enquanto a guerra no Vietnã ganhava força.

Cleaver havia chegado secretamente a Argel usando documentos de viagem cubanos. Depois de emboscar um carro da polícia em Oakland, ele fugiu da fiança e foi para Havana, onde passou seis meses como hóspede clandestino antes de ser "descoberto" por um jornalista. Os cubanos o colocaram em um avião para Argel sem informar os argelinos. Cleaver sentiu que sua vida estava em jogo. Ele tinha sido garantido em Havana que tudo tinha sido esclarecido com o governo argelino, que ele seria recebido de braços abertos e autorizado a retomar as atividades políticas negadas a ele em Cuba. Mas seus assessores na embaixada cubana em Argel agora estavam dizendo a ele que os argelinos não estavam dispostos a lhe oferecer asilo.

Eu nunca soube que as autoridades recusassem requerentes de asilo, qualquer que fosse sua nacionalidade. Como eu era o único americano que as autoridades locais conheciam, muitas vezes eu era chamado para interpretar e explicar, e para assumir a responsabilidade por americanos que chegavam sem perceber que quase ninguém na Argélia falava inglês. Mais tarde naquele dia, conversei com o oficial encarregado dos movimentos de libertação, o comandante Slimane Hoffman, um especialista em tanques que desertou do exército francês para se juntar ao Armée de Libération Nationale (ALN) e era próximo de Boumediene. Expliquei que Cleaver desejava permanecer no país e realizar uma coletiva de imprensa internacional. Hoffman concordou imediatamente, mas insistiu que a presença de Cleaver fosse anunciada pelo Serviço de Imprensa da Argélia. "Você salvou minha vida", Cleaver me disse repetidamente; ele estava convencido de que os cubanos o haviam armado.

A coletiva de imprensa prosseguiu, em um salão lotado de estudantes, membros da imprensa local e internacional, diplomatas e representantes dos movimentos de libertação do mundo. Julia Hervé, filha de Richard Wright, veio de Paris para interpretar do inglês para o francês. Eu fiz o mesmo, para o inglês, para os Cleavers. "Somos parte integrante da história da África", disse Cleaver na conferência. "A América Branca nos ensina que nossa história começa nas plantações, que não temos outro passado. Temos que retomar nossa cultura!"

A partir de então, éramos uma equipe. Cleaver era alto — ele me parecia imponente — e sexy, com um senso de humor perfeitamente desenvolvido e olhos verdes expressivos. Ele e eu tínhamos um relacionamento, nada de sexo, mas muita troca de confidências. Quando os Cleavers chegaram, eu estava trabalhando no Ministério da Informação organizando o primeiro Festival Cultural Pan-Africano, que reuniria músicos, dançarinos, atores e intelectuais de todos os países da África e da diáspora negra, incluindo membros dos Panteras dos EUA. Por mais de uma semana, as ruas de Argel transbordaram, as apresentações encheram o dia e continuaram até altas horas. Entre os artistas estavam Archie Shepp, Miriam Makeba, Oscar Peterson e Nina Simone, cuja primeira apresentação tivemos que cancelar depois que Miriam Makeba e eu a encontramos completamente bêbada em seu quarto de hotel. Os ajudantes de palco locais ficaram chocados: eles nunca tinham visto uma mulher bêbada. A delegação dos Panteras ficou no Aletti, o melhor hotel no centro de Argel, e recebeu uma loja — eles a chamaram de Centro Afro-Americano — na rue Didouche Mourad, uma das duas principais vias comerciais da cidade, onde distribuíram literatura do partido e exibiram filmes até tarde da noite. Cleaver e seus companheiros — a maioria deles também refugiados da justiça dos EUA — foram rapidamente integrados à comunidade cosmopolita dos movimentos de libertação. Os Panteras podem não ter notado, ou talvez não se importassem, que a própria Argélia era uma sociedade conservadora e fechada, que as mulheres não eram realmente livres, que uma forma de racismo antinegro existia entre a população e que a generosidade do establishment argelino exigia certos códigos de conduta e reciprocidade por parte de seus convidados. Os Panteras ignoravam tudo o que não queriam lidar. Após o festival, a delegação retornou à Califórnia, enquanto os exilados iam direto ao assunto. Recebi convites para Cleaver se encontrar com os embaixadores do Vietnã do Norte, China e Coreia do Norte, bem como representantes do movimento de libertação palestino e da Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul (o Vietcong). Eu o acompanhei nessas visitas: ele era digno e lúcido, agindo como um diplomata experiente, apesar de seu passado como evadido escolar, estuprador e condenado. Ele também podia se fechar e se retirar para um lugar inacessível.

Pouco depois da chegada de Cleaver, o embaixador da Coreia do Norte o convidou para Pyongyang para participar de uma "conferência internacional de jornalistas contra o imperialismo americano". Cleaver foi a estrela da conferência e ficou por mais de um mês. Uma manhã, logo após seu retorno, ele apareceu no Ministério da Informação, onde eu fazia parte de uma pequena equipe trabalhando em uma revista política para distribuição internacional. Ele estava usando óculos escuros e caiu em uma cadeira ao lado da minha mesa. Então, sem nenhum preâmbulo, ele abaixou a voz: "Eu matei Rahim ontem à noite." Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Rahim, também conhecido como Clinton Smith, havia escapado da prisão na Califórnia com um colega de cela, Byron Booth, em janeiro de 1969. Eles sequestraram um avião para Cuba e se juntaram a Cleaver. Pouco depois de mandar Cleaver para Argel, os cubanos também despacharam Rahim e Booth.

Cleaver me disse que Rahim havia roubado o dinheiro dos Panteras e estava planejando "se separar". Ele e Booth, que testemunhou o assassinato, enterraram o corpo em uma encosta arborizada um pouco fora da cidade, perto do mar. Assim que ele terminou de me contar isso, ele colocou o boné com o qual estava brincando e saiu do escritório. Eu não conseguia tirar o rosto de Rahim da minha mente. Eu estava bravo com Cleaver por imaginar que eu precisava saber de alguma coisa disso. Ele achava que eu poderia ajudá-lo se as autoridades argelinas descobrissem o assassinato e decidissem agir? Vários dias depois, um amigo francês me disse que tinha visto Rahim e Kathleen Cleaver "se beijando" em um cabaré quando Cleaver estava na Coreia do Norte. Meu amigo não sabia que Rahim havia "desaparecido". Quando vi Cleaver novamente, ele me disse que os restos mortais enterrados às pressas haviam sido descobertos e acrescentou que devia ser óbvio, pelo afro e pelas tatuagens, que a vítima era afro-americana. Naquela época, Booth já havia deixado o país. Um amigo francês dos Panteras foi chamado à sede da polícia para identificar o corpo, mas ninguém das autoridades argelinas entrou em contato com os Panteras ou comigo, embora eu tivesse certeza de que o assassinato havia sido registrado.

Os Panteras se financiaram graças a doações de apoiadores e aos adiantamentos de Cleaver em projetos de livros. Seus royalties de Soul on Ice, a confissão desafiadora que o tornou famoso, foram bloqueados pelo governo dos EUA. Durante o almoço, um dia na primavera de 1970, Cleaver implorou para que eu encontrasse uma maneira de o que os Panteras agora chamavam de "Seção Internacional do BPP" ser reconhecido como um movimento de libertação patrocinado, permitindo-lhe acesso a uma série de privilégios e um estipêndio mensal. Passei o problema para M'hamed Yazid, que foi o primeiro representante do governo provisório argelino em Nova York. Ele falava inglês fluentemente e era casado com Olive LaGuardia, sobrinha do ex-prefeito da cidade de Nova York.

M’hamed nos convidou para almoçar em sua casa nos arredores de Argel, construída no período otomano. Sentamos em uma mesa no jardim, os Cleavers, Don Cox – o antigo líder militar do BPP, conhecido como ‘DC’ ou ‘o marechal de campo’ – e eu. M’hamed nos encantou com histórias de sua vida em Nova York, enquanto avaliava seus convidados. A entrevista correu bem e logo depois ele ligou para dizer que os Panteras tinham sido designados para uma vila anteriormente ocupada pela delegação vietcongue no setor El Biar da cidade. Eles receberiam conexões telefônicas e telex e carteiras de identidade argelinas; não precisariam de vistos de entrada ou saída; e receberiam uma dotação mensal em dinheiro.

Por que as autoridades decidiram apoiar os Panteras mais abertamente? Talvez eles servissem como moeda de troca nas negociações com Washington sobre as reservas de petróleo e gás da Argélia. Havia razões ideológicas também. Era óbvio para todos que viviam lá que a Argélia não era neutra na luta entre as superpotências. Os laços com a União Soviética datavam da guerra de libertação e da generosidade do bloco oriental em fornecer armas, treinamento e educação.

Cleaver estava no topo do mundo após receber reconhecimento formal. Em maio, ele enviou sua esposa grávida para dar à luz na Coreia do Norte. As maravilhas do sistema de saúde coreano, pensava-se, eram insuperáveis, e a decisão fortaleceria os laços do BPP com Pyongyang. Enquanto isso, Cleaver conheceu uma linda jovem argelina chamada Malika Ziri, que estava constantemente ao seu lado. Apegar-se publicamente a um americano negro pelo menos 15 anos mais velho que ela em uma sociedade onde a discrição era a regra exigiria imensa autoconfiança. Os Panteras eram estrelas em Argel, mas sua extravagância também era vista com críticas. Eles se serviram de recursos escassos — direitos básicos aos olhos dos americanos — aos quais outros movimentos de libertação não tinham acesso: casas, carros, cobertura da mídia, celebridades visitantes. Eles namoravam abertamente mulheres atraentes, tanto argelinas quanto estrangeiras. Ainda consigo imaginar Sekou Odinga, um exilado da filial nova-iorquina dos Panteras, passando pela rue Didouche em um conversível vermelho brilhante com a capota abaixada, com um adorável americano de cabelos ruivos ao volante.

A inauguração oficial da sede da Seção Internacional ocorreu em 13 de setembro de 1970. "Esta é a primeira vez na luta dos negros na América que eles estabeleceram representação no exterior", disse Cleaver à multidão na "embaixada". Algumas semanas depois, Sanche de Gramont, um jornalista franco-americano, publicou uma reportagem de capa na revista New York Times intitulada "Our Other Man in Algiers".

Logo após a inauguração da embaixada, Timothy Leary, o sumo sacerdote do LSD ('ligue, sintonize, saia'), e sua esposa chegaram à cidade. Leary havia sido libertado de uma prisão nos EUA pelo Weather Underground, que havia recebido US$ 25.000 (alguns dizem US$ 50.000) da Brotherhood of Eternal Love, um grupo hippie da Califórnia que fabricava e distribuía maconha de alta qualidade e LSD. Nixon havia chamado Leary de "o homem mais perigoso da América". Cleaver e eu demos a Slimane Hoffman uma versão atenuada da história de Leary, enfatizando sua carreira como professor de Harvard. Cleaver garantiu a Hoffman que ele era capaz de controlar o uso de drogas de Leary e seus ataques de eloquência sem sentido. O comandante nos desejou boa sorte.

Minha primeira impressão foi que os Learys eram hipsters idosos. Não sei o que eu esperava: algo mais louco, mais extravagante e emocionante. Em nome da revolução, Cleaver decidiu que Leary tinha que denunciar as drogas, e Leary concordou em participar de uma sessão de filme do BPP voltada para o público dos EUA. Cleaver abriu a entrevista dizendo que a ideia de que as drogas eram um caminho para a libertação era uma invenção de "caras ilusórios": o caminho real era por meio de organizações como os Weathermen e o BPP, que estavam envolvidos em ação direta. A resposta de Leary foi cautelosa. ‘Se tomar qualquer droga adia por dez minutos a revolução, a libertação de nossas irmãs e irmãos, nossos camaradas, então tomar drogas deve ser adiado por dez minutos... No entanto, se cem agentes do FBI concordassem em tomar LSD, trinta certamente desistiriam.’

Os Panteras decidiram que Leary deveria se juntar a uma delegação convidada para o Levante pelo Fatah, o partido de Yasser Arafat, então a força dominante na OLP. Leary deveria se esconder lá, foi argumentado, não na Argélia. O grupo, liderado por Don Cox, desembarcou no Cairo em outubro sem incidentes, depois foi para Beirute, onde foram hospedados em um hotel frequentado pela imprensa ocidental. Leary foi localizado e o hotel foi sitiado. A delegação foi seguida por todos os lugares e tornou-se impossível para eles visitarem os campos de treinamento do Fatah na Jordânia e na Síria, conforme planejado. Eles retornaram ao Cairo, onde Leary, paranoico e histérico, tornou-se ‘incontrolável’, DC relatou, escalando muros, escondendo-se atrás de prédios, levantando os braços e gritando nas ruas. O embaixador argelino os colocou em um avião de volta para Argel.

De lá, eles alugaram um carro e começaram a passar um tempo em Bou-Saada, um oásis no Saara onde, à vontade em tapetes feitos à mão, festejavam com LSD. A Argélia é um país imenso, quatro quintos deserto, mas nunca se está completamente sozinho. Os Learys sorriam alegremente e acenavam para os pastores atônitos que os encontravam. Os Panteras não aprovavam essas escapadas e em janeiro de 1971 "prenderam" os Learys, colocando-os sob guarda por vários dias. Cleaver filmou os prisioneiros e emitiu um comunicado à imprensa que foi distribuído nos EUA: "Algo está errado com o cérebro de Leary... Queremos que as pessoas se recomponham, fiquem sóbrias e se dediquem ao negócio sério de destruir o império babilônico... Para todos aqueles que buscaram inspiração e liderança no Dr. Leary, queremos dizer que seu deus está morto porque sua mente foi explodida pelo ácido."

Quando ele foi libertado, Leary reclamou com as autoridades argelinas e fomos convocados por Hoffman. A atmosfera estava pesada até que Cleaver e DC apresentaram sacos de drogas recuperados de Leary e seus visitantes — o suficiente para 20.000 ataques. O queixo de Hoffman caiu. Tim estava cansado de nós e queria seguir em frente. Ele não escondia mais sua antipatia por DC e por mim; sentíamos o mesmo por ele. No início de 1971, ele foi embora sem se despedir.

Deve ter havido trinta Panteras, homens, mulheres e crianças, na Seção Internacional. Eles operavam em estilo militar com regulamentos rígidos, planilhas diárias e relatórios de atividades. Eles mantinham contato com grupos de apoio na Europa e outras organizações de libertação em Argel. Eles realizavam sessões de treinamento em autodefesa e instrução sobre armas. Pouco antes da embaixada abrir, Huey Newton, o lendário líder do BPP que passou quase três anos na prisão por homicídio culposo por matar um policial, recebeu liberdade condicional, aguardando um novo julgamento. Quando ele foi solto da prisão, dez mil pessoas apareceram para recebê-lo. Mas o homem que retomou a liderança do BPP não estava preparado para a transformação que ocorreu em sua ausência. O partido havia se tornado uma potência que o FBI estava determinado a destruir, travando guerra contra seus membros, atacando sedes de capítulos, soltando um exército de informantes pagos e circulando informações falsas. A reação de Newton foi exigir controle total, dispensando grupos e condenando indivíduos que não se alinhassem.

Com a tentativa de contenção veio a auto-engrandecimento. Ele estava morando em uma cobertura, havia assumido uma boate e estava andando com um bastão de arrogância. No início de 1971, ele deveria aparecer em um programa matinal de TV em São Francisco e pediu a Cleaver que se juntasse a ele para demonstrar sua aliança e dissipar a tensão crescente. A Seção Internacional se reuniu e decidiu por unanimidade usar a ocasião para confrontar Newton. Quando Cleaver apareceu na tela, ele exigiu que Newton anulasse seus decretos de expulsão e pediu a remoção do tenente de Newton, David Hilliard. Newton interrompeu a transmissão e então ligou para Cleaver. "Você é um punk", ele disse e o expulsou do BPP. Capítulos e membros nos EUA tomaram partido.

Cleaver havia gravado a transmissão e o telefonema. Ele me pediu para ir ouvir a gravação, preocupado com a reação argelina. Eu não achava que eles se envolveriam: "Não é problema deles, é seu, Eldridge." Os Panteras retiraram a placa do BPP na entrada de sua embaixada e começaram a se chamar de Rede de Comunicações do Povo Revolucionário. Eles esperavam permitir a troca de informações entre grupos de esquerda ao redor do mundo e produzir um jornal para distribuição nos EUA e na Europa. Para avaliar os danos causados ​​pela separação Newton/Cleaver e lançar a rede, Kathleen e eu fomos para os EUA em outubro de 1971 em uma turnê de palestras de um mês pelo país. Logo percebemos que o partido estava entrando em colapso.

O grupo em Argel seguiu em frente. Não houve reação dos argelinos, nenhum sinal de que eles estavam acompanhando os eventos no BPP, embora Newton tivesse enviado uma mensagem formal a Boumediene denunciando Cleaver. Então, em 3 de junho de 1972, recebi uma ligação do chefe da FLN me dizendo que um avião havia sido sequestrado em Los Angeles e estava indo para Argel. Os sequestradores exigiram que Cleaver os encontrasse no aeroporto. Eles estavam segurando US$ 500.000 em dinheiro de resgate, que eles obtiveram em troca da liberação dos passageiros. Ficamos na pista, Cleaver, DC, Pete O'Neal (o antigo chefe do Kansas City Panthers) e eu, e observamos Roger Holder, um jovem afro-americano, e sua companheira branca, Cathy Kerkow, descendo lentamente os degraus da aeronave. Todos estavam animados até percebermos que os argelinos haviam pegado os sacos de dinheiro e não estavam dispostos a colocá-los nas mãos ansiosas de Cleaver. O dinheiro foi devolvido aos EUA; Roger e Cathy receberam asilo e se tornaram parte da comunidade local de exilados dos EUA.

Em 1º de agosto, outro avião sequestrado chegou, este de Detroit. Os sequestradores, negros, mas novamente não Panteras, receberam US$ 1 milhão da Delta Airlines para libertar os passageiros do avião em Miami. Desta vez, as autoridades em Argel mantiveram os Panteras à distância e, mais uma vez, enviaram o dinheiro de volta para os EUA. Os Panteras ficaram furiosos: eles estavam "vibrando com os tons de notas de dólar", Cleaver admitiria mais tarde. Eles escreveram uma carta aberta a Boumediene: "Aqueles que nos privam deste financiamento estão nos privando de nossa liberdade". DC disse a seus camaradas que eles eram loucos e renunciou à organização: "O governo não vai arriscar o futuro de seu país por um punhado de negros e um milhão de dólares. Haverá problemas". Ele estava certo. Repreender o chefe de estado da Argélia em público mostrou falta de respeito. A polícia invadiu a embaixada, confiscou as armas dos Panteras, cortou as conexões telefônicas e de telex e fechou-a por 48 horas. Quando a guarda foi levantada, Cleaver foi chamado por um oficial sênior e severamente repreendido. A atmosfera se acalmou em poucos dias: a Argélia não estava pronta para abandoná-los.

Cleaver e seus colegas sabiam pouco sobre o país que os acolheu. Eles nunca se aventuraram além de Argel. Eles não liam a imprensa local nem ouviam rádio. Exceto por amigas, eles conheciam poucos argelinos e nunca visitavam casas argelinas. Eles sabiam pouco sobre o passado colonial da Argélia, as devastações da guerra ou o subdesenvolvimento que o regime estava tentando enfrentar. Eles se viam como agentes livres, capazes de protestar e usar a mídia à vontade. Alguns deles até propuseram organizar uma manifestação em frente aos escritórios de Boumediene. Cleaver teve que lembrá-los de que isso era Argel, não Harlem. Eles não tinham uma compreensão real de seus anfitriões, suas políticas ou suas reservas sobre seus convidados americanos, e os subestimaram.

Os argelinos, por sua vez, não tinham certeza de como lidar com os Panteras. A Argélia era uma luz de liderança no Terceiro Mundo, ativa no grupo de nações não alinhadas. Ela estava hospedando e treinando movimentos de libertação da América Latina, África e Ásia. Havia muito em jogo para a FLN se deixar levar por esses exilados americanos. E ela não podia permitir que sequestradores internacionais fizessem a Argélia parecer uma nação que não obedecia às regras internacionais.

Com uma organização moribunda nos EUA e o apoio internacional desaparecendo rapidamente, os Panteras de Argel estavam quase sem Estado. "A Seção Internacional", Cleaver escreveu mais tarde, "tinha se tornado um navio afundando". Ele deixou a embaixada. Malika tinha sido substituída por uma série de mulheres argelinas. Uma delas, para meu espanto, era uma vizinha minha de véu que nunca saía do nosso prédio desacompanhada. Ele a cortejou enquanto ela pendurava a roupa na sacada e a encontrou no meu apartamento enquanto Kathleen estava na Europa, buscando asilo para toda a família.

"Cada um com o seu" era uma fórmula que Cleaver usava em muitas ocasiões. Quando ele a usava agora, ele estava sinalizando sua retirada da esquerda organizada. A comunidade de exilados começou a olhar para sua sobrevivência individual. Eles começaram a deixar a Argélia no final de 1972. Alguns se estabeleceram na África subsaariana, alguns tentaram uma existência clandestina dentro dos EUA; outros, incluindo Cleaver, partiram para a França com passaportes falsos: em poucos anos ele estaria de volta aos EUA, um cristão renascido. Ninguém foi expulso da Argélia. O grupo de sequestradores de Detroit partiu em meados de 1973; Roger e Cathy foram os últimos a ir em janeiro de 1974. Cox, o marechal de campo, retornou a Argel naquele ano e viveu e trabalhou lá por mais quatro anos. A chegada dos Panteras na Argélia foi mais do que uma educação ou uma experiência para mim. Eu acreditava neles, eu os amava e compartilhava seus objetivos. Eu odiava vê-los partir.

Eu tinha feito os arranjos para a partida de Cleaver: encontrei o passaporte com o qual ele viajaria, os passadores que o levariam em segurança através das fronteiras nacionais, o esconderijo no sul da França e os apartamentos em Paris. Em pouco tempo, ele foi acolhido por pessoas influentes lá. Sua residência francesa e imunidade legal foram resolvidas pelo ministro das finanças, Valéry Giscard d'Estaing, pouco antes de ele se tornar presidente. Então parei de ouvir falar dele. Cada um na sua, lembrei a mim mesmo.

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