Embora ativistas de base tenham sido frequentemente retratados como agitadores de fora, persiste uma tradição genuinamente local e motivo de orgulho.
Sarah Jaffe
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| Claudia Jones chegando para uma audiência judicial em 1951. George Alexanderson/The New York Times |
No imaginário americano, o comunista sempre foi a figura por excelência do agitador externo.
Não importava o quão nativo fosse um movimento de resistência ou o quão locais fossem seus organizadores, a primeira reação daqueles que enfrentavam os protestos sempre foi culpar um elemento de fora. Isso valia tanto para os protestos em reuniões públicas durante o recesso parlamentar de fevereiro de 2017 quanto para as lutas contra o linchamento ocorridas há mais de 80 anos, durante a Grande Depressão.
Durante grande parte do século passado neste país, esse estrangeiro indesejável — visto como alguém vindo de terras distantes e que deveria ser deportado de volta para lá — era acusado de invadir o local para incitar problemas onde antes não havia nenhum, onde a população local se mostrava dócil e disposta a aceitar qualquer desigualdade cotidiana que lhe coubesse. Embora muitos comunistas fossem, de fato, imigrantes — alvo de perseguição e deportação enquanto o partido existiu —, muitos outros eram nativos, nascidos e criados nas mesmas cidades e vilarejos que seus perseguidores.
O Partido Comunista dos EUA, fundado em 1919, mantinha laços estreitos com o que viria a ser a União Soviética após a Revolução de Outubro de 1917, mas o partido americano também se nutria de décadas de organização radical local. Muitos de seus membros vinham do Partido Socialista, do movimento trabalhista e até mesmo do ativismo anarquista; no entanto, o partido também conquistou uma base entre os afro-americanos, ao demonstrar disposição para abraçar suas lutas por autodeterminação.
Em suma, o comunismo americano foi um movimento que surgiu daquilo que o historiador Robin D. G. Kelley — autor de Hammer and Hoe: Alabama Communists During the Great Depression — chama de "os elementos mais desprezados e despossuídos da sociedade americana". O professor Kelley argumenta que foram os trabalhadores negros atraídos pelo partido que moldaram suas escolhas políticas, tanto quanto as diretrizes variadas provenientes da Internacional Comunista, o órgão de Moscou responsável pelos partidos estrangeiros.
Durante a Depressão, o partido abraçou causas que iam além da busca por melhores salários e condições de trabalho, combatendo também os despejos promovidos por proprietários de imóveis e os abusos do sistema de justiça criminal. No Sul Profundo, a batalha pela liberdade dos "Scottsboro Boys" — nove adolescentes negros falsamente acusados de estupro em 1931 — foi liderada pela International Labor Defense (Defesa Trabalhista Internacional), um braço jurídico do Partido Comunista dos EUA.
Essa postura continua a inspirar ativistas até hoje. Foi o caso Scottsboro que despertou o interesse da organizadora e educadora Mariame Kaba — responsável pelo blog Prison Culture — em saber mais sobre o Partido Comunista dos EUA.
“Eles estavam ajudando nove jovens negros”, disse ela, “e impedindo que fossem assassinados pelo Estado por um crime que não cometeram”.
O partido inspirava lealdade por razões que iam além da simples afinidade com as ideias marxistas. Foram as campanhas que os comunistas conduziram contra a brutalidade policial, a prática do linchamento e as leis de segregação racial (leis Jim Crow) que tornaram sua política relevante para a vida das pessoas comuns. Tanto no Norte quanto no Sul — fosse em palanques improvisados nas ruas do Harlem ou em pequenas glebas cultivadas em regime de parceria agrícola no Alabama —, a organização comunista abordava as necessidades cotidianas e fundamentais da população negra.
Os comunistas acreditavam que a organização da classe trabalhadora só daria certo se os trabalhadores brancos compreendessem que sua própria libertação estava intrinsecamente ligada ao destino dos trabalhadores negros. Diante dessa ameaça, anticomunistas e segregacionistas empenharam-se em manter as divisões. Eles culpavam os comunistas por fomentar a “miscigenação racial”, evocando temores de cunho sexual de que a igualdade social levaria homens negros a manter relações sexuais com mulheres brancas — os mesmos medos que levaram os chamados “Scottsboro Boys” a julgamento. Por sua vez, quando a população negra lutava por direitos civis, figuras como Bull Connor rotulavam tais reivindicações como sendo de inspiração comunista, recorrendo à velha narrativa de que se tratava de uma ameaça vinda de agitadores externos perigosos.
Tal argumento sugeria, na prática, que os negros precisavam ser incitados por estrangeiros radicais para desafiar os resquícios da escravidão no Sul da era Jim Crow e que, sem esses elementos externos, a América já era — para pegar emprestada uma frase da eleição de 2016 — grandiosa. Essa visão também ignora o fato de que foram os membros negros do Partido Comunista dos EUA — criados em tais circunstâncias — que deixaram claro que suas lutas por independência econômica estavam intrinsecamente ligadas à violência racista que enfrentavam, tanto por parte da polícia quanto de grupos de supremacia branca.
Esses comunistas negros frequentemente precisavam lutar para cobrar do partido coerência com seus ideais declarados, especialmente quando a legenda mudava sua estratégia para tentar atrair liberais brancos. Os debates que ressurgiram durante o ciclo eleitoral de 2016 — sobre a primazia da raça ou da classe na organização de esquerda, particularmente em torno da campanha de Bernie Sanders nas primárias — ecoavam essas batalhas do passado.
Na década de 1930, o partido ensinava seus membros a discutir seus problemas utilizando a linguagem da exploração. Essa linguagem significava que as pessoas "entendiam que o racismo e o que chamavam de chauvinismo masculino não eram simplesmente casos de pessoas agindo mal, sendo controladas psicologicamente ou sendo ignorantes", disse o professor Kelley. "Tratava-se dos benefícios que elas obtinham de relações de exploração."
Essa estrutura de pensamento — revisitada hoje em documentos programáticos como A Vision for Black Lives — argumenta que o racismo, em sua raiz, não diz respeito ao ódio entre grupos, mas sim à forma como o poder é exercido na sociedade. E a classe social, segundo essa análise, é criada por relações de exploração.
Esses argumentos foram defendidos por organizadoras como Claudia Jones, uma líder negra do Partido Comunista dos EUA e jornalista do jornal da legenda, o The Daily Worker. Segundo Charlene Carruthers, diretora nacional do Black Youth Project 100, Jones expôs a ideia hoje conhecida como interseccionalidade décadas antes de o termo se tornar tão onipresente a ponto de ser usado por Hillary Clinton em um tuíte durante a campanha eleitoral. Para Jones, compreender a vida das mulheres negras e a posição econômica e social que ocupavam permitiria uma melhor compreensão do sistema capitalista como um todo. Disso decorria, explica Carruthers, que o trabalho das mulheres negras era central na luta para substituir esse sistema.
No âmbito do movimento sindical organizado — particularmente no *Congress of Industrial Organizations* (CIO) durante a década de 1940 —, os sindicatos liderados por comunistas estiveram sempre na vanguarda da luta pela igualdade racial e de gênero. Por vezes, isso entrava em conflito com os desejos dos membros homens brancos, que ocasionalmente faziam greve contra a inclusão de membros negros. Com a posterior expulsão desses sindicatos — os chamados "sindicatos vermelhos" — da federação, a causa antirracista acabou sendo deixada de lado. Somente na última década, aproximadamente, é que ela voltou a ser uma prioridade para alguns sindicatos.
O apoio do Partido Comunista dos EUA ao pacto de não agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética, no início da Segunda Guerra Mundial — o que parecia uma traição à sua firme postura antifascista —, provocou uma divisão entre os membros do partido. Revelações posteriores à guerra sobre os crimes de Stalin prejudicaram ainda mais o prestígio internacional da legenda. Em grande parte, no Ocidente, os partidos comunistas jamais se recuperaram desses golpes. Paralelamente, o fim da guerra acelerou o colapso dos antigos impérios europeus, e os comunistas frequentemente assumiram papéis de liderança nos novos movimentos anticoloniais.
A trajetória de Claudia Jones também é ilustrativa nesse contexto. Nascida em Trinidad em 1915, ela mudou-se para Nova York com a família na década de 1920. Em 1948, foi presa por seu ativismo político, julgada com base nas leis McCarran e Smith, encarcerada por vários anos e, por fim, deportada, estabelecendo-se em Londres. Ela foi uma das muitas vítimas do "Medo Vermelho" (*Red Scare*), que sufocou o comunismo americano e desencadeou expurgos, listas negras, deportações e algumas execuções de grande repercussão.
O medo inflamado em relação a comunistas estrangeiros, como a Sra. Jones, encontra eco hoje na retórica sobre imigrantes criminosos e no alarmismo em torno do "terror islâmico radical". As técnicas do macarthismo ressurgiram, desta vez para evocar a ameaça do terrorismo em vez da do comunismo.
No entanto, apesar de todo o esforço empreendido para aniquilar a ideia de que um sistema diferente seria possível, o espectro do comunismo ainda nos assombra. O Partido Comunista dos EUA alcançou seus maiores êxitos enquanto o país tentava se reerguer da Grande Depressão. Hoje, enquanto ainda buscamos uma saída para os escombros deixados pela crise de 2008, as ideias de esquerda voltaram a ganhar força. Foram as condições materiais de vida das pessoas, aponta a Sra. Kaba, que as tornaram receptivas a algo radicalmente diferente durante as décadas de 1930 e 1940. Foi essa realidade econômica que levou milhões de pessoas a prestar atenção tanto na retórica nacionalista bombástica do Sr. Trump quanto na mensagem socialista democrática de Bernie Sanders.
Essa mesma realidade levou organizadores como Will Emmons, de Lexington (Kentucky), a fundar novos grupos como a Kentucky Workers League (Liga dos Trabalhadores de Kentucky), que, segundo Emmons, busca inspiração explícita no Partido Comunista dos anos 30 e na atuação dos Panteras Negras nos anos 60. O grupo organizou ações diretas para defender pessoas ameaçadas de despejo e oferece programas comunitários, como auxílio nas tarefas escolares em uma biblioteca local. Também realizou uma campanha de solidariedade com trabalhadores de uma fábrica da Lexmark — empresa sediada em Lexington —, contatando funcionários no México e pressionando a empresa localmente a negociar com o sindicato da categoria. Desde a vitória do Sr. Trump, o grupo tem se voltado para a proteção de imigrantes da comunidade contra a deportação.
O ano de 2016 testemunhou uma revolta contra a política tradicional, com os partidos convencionais falhando em oferecer soluções significativas para as pessoas que enfrentavam dificuldades em todos os Estados Unidos. Após a eleição, a Sra. Carruthers afirmou que organizações como o Black Youth Project 100 precisam ampliar o escopo de sua atuação, mantendo-se fiéis à sua visão política. Tentar agradar à suposta maioria branca dominante enquanto se ignoram as necessidades materiais de negros, imigrantes, pessoas transgênero e outras comunidades marginalizadas não aplacará as tentativas trumpistas de fomentar o medo do "estranho" considerado antiamericano.
O poder do agitador radical — seja ele local ou alguém de fora — sempre residiu na capacidade de expor o abismo entre a narrativa da grandeza americana e a realidade vivida pelas pessoas. O que os comunistas americanos fizeram de melhor foi demonstrar a eficácia com que movimentos de base podem desafiar o racismo, a violência estatal e a exploração econômica enfrentados pelas pessoas no dia a dia, conectando essas lutas a uma visão mais ampla de um mundo justo.
Sarah Jaffe (@sarahljaffe) é pesquisadora do Nation Institute e autora de Necessary Trouble: Americans in Revolt.

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