5 de agosto de 2020

Documentos recém-revelados mostram como a AFL-CIO ajudou a interferência dos EUA na Venezuela

O Centro de Solidariedade da AFL-CIO tem uma longa história de trabalho lado a lado com o governo dos Estados Unidos para minar a democracia e os movimentos sindicais de esquerda em todo o mundo. O centro enfatiza que se afastou dessas táticas da Guerra Fria nos últimos anos. Mas documentos recém-obtidos mostram que o Centro de Solidariedade trabalhou em estreita colaboração com os EUA para minar o governo venezuelano no passado recente.

Tim Gill

Jacobin

O presidente Hugo Chávez se dirige a seus partidários durante uma grande manifestação convocada como demonstração de força para conter uma greve liderada pela oposição que atingiu a indústria de petróleo do país, em 7 de dezembro de 2002 em Caracas, Venezuela. A greve aconteceu após a tentativa fracassada de golpe da oposição contra o presidente no início daquele ano, com apoio dos EUA. (Miraflores / Getty Images)


Este artigo foi atualizado com uma resposta do Centro de Solidariedade da AFL-CIO.

Tradução / Durante a Guerra Fria, o principal objetivo dos EUA era derrotar o comunismo. Para ter êxito, era fundamental se equiparar e derrotar a influência soviética ao redor do mundo. Em muitos lugares, entretanto, movimentos comunistas e socialistas se desenvolveram não como movimentos fantoches de Moscou, mas organicamente – em especial organizações estudantis, trabalhistas e camponesas.

Como resposta, os EUA atuaram em múltiplos fronts, geralmente de forma clandestina, para impedir a ascensão de movimentos de esquerda, sem preocupação com a democracia ou direitos humanos. Uma parte fundamental deste esforço incluía confrontar e marginalizar grupos trabalhistas de esquerda.

Em boa parte do mundo, a Federação Americana do Trabalho e Congresso das Organizações Industriais (AFL-CIO) agiu como um braço internacional da política externa dos EUA, antes e durante a Guerra Fria. Ao fazê-lo, a AFL-CIO buscou enfraquecer grupos de tendências de esquerda ou comunistas, sindicatos e governos – sem se preocuparem com democracia e frequentemente sem escrúpulos no uso ou apoio de brutal violência – na Itália e França nos anos 1940, Guatemala nos anos 1950, Brasil nos anos 1960, Chile nos anos 1970 e muitos outros países.

A federação sindical também se aliou a autoritárias ditaduras de direita, que apoiavam os esforços de política externa anticomunista dos EUA, ao financiar ou trabalhar junto à grupos alinhados com esses regimes. Kim Scipes e William Robinson, por exemplo, forneceram, cada um, um relato detalhado de como a AFL-CIO se alinhou a grupos trabalhistas ligados à ditadura de Marcos nas Filipinas durante os anos 1970 e 1980, um regime que regularmente reprimia, assassinava e desaparecia com sindicalistas e ativistas.

Com a criação do National Endowment for Democracy (NED) [Apoio Nacional Para Democracia] em 1983, a AFL-CIO começou a trabalhar alinhada com esta nova agência semi-governamental com o objetivo de avançar nos interesses da política externa estadunidense sob a tutela da “promoção da democracia”. Atualmente, a AFL-CIO manteve esta parceria e “promoveu democracia” por meio do Centro de Solidariedade (CS), antes conhecido como Center for International Labor Solidarity [Centro Americano de Solidariedade Internacional do Trabalho].

Em seu portal, o CS se descreve seu trabalho como “empoderando trabalhadores para levantarem suas vozes para dignidade no trabalho, justiça em suas comunidades e mais igualdade na economia global”. Nos anos recentes, a AFL-CIO explicitamente buscou se livrar de sua imagem de combatente da Guerra Fria e se apresentar apenas como interessada na promoção apartidária de direitos trabalhistas. Em particular, o ex-presidente John Sweeney, que foi eleito líder da AFL-CIO em 1995, como parte de uma nova proposta na federação, “forçou os mais notórios combatentes da Guerra Fria a se aposentarem”, e no início de sua presidência, “viu no neoliberalismo desimpedido uma maior ameaça aos trabalhadores estadunidenses do que o ‘comunismo’”.

Mas apesar dessas invocações, a AFL-CIO, por meio do CS, continuou a confrontar governos de esquerda no exterior, ao financiar e apoiar grupos opositores à Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela e seus aliados do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

A AFL-CIO argumenta que opera de forma independente do establishment da política externa dos EUA. Mas documentos sobre suas recentes atividades da federação venezuelana, obtidos por meio de requerimentos ao Freedom Information Act (FOIA) [Lei Liberdade de Informação] indicam o contrário. Os documentos sugerem que mesmo com quaisquer mudanças que tenham ocorrido na AFL-CIO desde o fim da Guerra Fria, nos anos recentes, a federação não desistiu totalmente de tentar enfraquecer os mesmos governos que as autoridades dos EUA também se opõem – sem considerar se estes governos realmente respeitam direitos trabalhistas.

Trabalhando junto à golpistas

Muitos intelectuais detalharam como o CS fornece apoio considerável a Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV), uma confederação trabalhista historicamente afiliada ao partido Acción Democrática, de oposição ao governo Chávez. Em 2001 e 2002, o CS garantiu financiamento a CTV, que planejava protestos contra o governo Chávez, pensados para induzir um golpe militar. Em abril de 2002, líderes da CTV marcharam junto com líderes da comunidade empresarial, encabeçadas pela Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecámaras), com políticos da oposição e realizaram atividades para clamar pelo fim do governo chavista.

Apesar de um grupo de membros do exército deter Chávez por quase dois dias, protestos massivos com participação dos pobres e trabalhadores venezuelanos e uma desunião interna entre os arquitetos do golpe, anularam esta tentativa. Por quase toda duração do governo interino, líderes da CTV demandaram a remoção de Chávez. Nos anos seguintes ao golpe, a AFL-CIO seguiu trabalhando com a CTV – tudo com financiamento do NED, o mesmo grupo que financiou a intromissão da AFLC-CIO nos anos 1980 na Guerra Fria. Eva Golinger, detalhou estas relações em seu trabalho sobre como o golpe contra Chávez seguiu com planejamento e coordenação do líder da CTV, Carlos Ortega.

Após o fracasso do golpe, a CTV – novamente com a Fedecámaras – se engajou em um locaute na indústria de petróleo. Isso efetivamente paralisou o país, que é integralmente dependente de energia fóssil para manter sua economia e para angariar moeda estrangeira para importações. Trabalhadores opostos a estes esforços e ao sentimento ampliado anti-Chávez sendo impulsionado no país, formaram uma nova federação sindical com apoio do governo: a Unión Nacional de Trabajadores da Venezuela. Em boa medida, neutralizaram a capacidade da CTV de enfraquecer o governo Chávez, especialmente no setor de trabalho formal.

Ainda assim, a AFL-CIO seguiu apoiando os esforços da CTV em confrontar o governo venezuelano. Segundo documentos recentemente revelados recolhidos a partir de um requerimento via FOIA, fica claro que o CS continuou a desafiar o governo de Chávez e buscou ativamente enfraquecer os esforços trabalhistas praticados pelos socialistas – como recentemente em 2014.


Nestes documentos, o CS retrata o governo Chávez como um regime brutalmente autoritário que limitava liberdade de expressão e acabou com atividades opositoras. Em muitas das descrições do programa, o CS afirma que “o governo [Chávez] aumentou medidas para limitar atividades da oposição política, restringiu a liberdade de expressão e aumentou controle sobre organização e participação popular”. Ainda assim, o CS parece ter reconhecido a realidade de que Chávez de fato tinha muito apoio, escrevendo que ele “comanda tamanho controle sobre as instituições do país precisamente devido à sua mensagem conectada ao profundo ressentimento dos pobres e trabalhadores marginalizados do país”.

Sob o governo Chávez, membros da oposição, que rotineiramente difamam e condenam ele e sua visão de socialismo entre múltiplos meios de comunicação, continuaram a participar de eleições e ganhar algumas (isto é, quando eles realmente decidiram participar das eleições em vez de boicotá-las).

Por exemplo, apesar da oposição ter se retirado das eleições legislativas de 2005 em uma tentativa de demonstrar como o governo de Chávez era autoritário – uma movimentação inclusive desencorajada por diversos funcionários públicos dos EUA – as eleições ocorreram com observadores internacionais garantindo que fossem livres e justas.

Ainda assim, o CS em sua relatoria durante o período, descreve o governo Chávez como um que frauda votos e sistematicamente destrói qualquer movimento oposicionista, escrevendo que “a presença de partidos da oposição foi completamente eliminada na Assembleia Nacional”, e afirmando em uma nota de rodapé que “partidos de oposição se retiraram das eleições parlamentares… Devido às condições injustas da eleição”. Entretanto, posteriormente, nas eleições legislativas de 2010, quando a oposição optou por participar, ganhou 65 das 165 cadeiras. Em resposta as questões acerca destes documentos, o CS disse o seguinte:

Estamos desapontados que, para se enquadrar em suas suposições pré-estabelecidas, você ignorou informações explícitas do programa acerca de nosso trabalho com uma ampla coalisão de sindicatos politicamente diversos, acadêmicos, organizações de direitos humanos e outros grupos da sociedade civil que convencionaram responder as notórias violações de direitos trabalhistas no país. Este é o trabalho fundamental do movimento global sindical e central para nosso trabalho em todos lugares.

Justificativas claramente erradas

Como a AFL-CIO especificamente confrontou socialistas venezuelanos nos anos recentes?

Durante o período de 2006-2014, pelo qual eu recebi documentos da NED detalhando as atividades do CS na Venezuela, ficou claro que o CS buscou combater dois esforços do governo Chávez: as cooperativas trabalhistas e o movimento em direção aos conselhos de trabalhadores

Da perspectiva do CS, estes movimentos foram feitos para deslocar o poder dos sindicatos tradicionais, como a CTV, e exercer controle sobre o trabalho de uma maneira de-cima-para-baixo. Por exemplo, o CS afirma que os conselhos foram “feitos para ‘empoderar’… Mas na verdade estão ligados ao governo e partidos políticos”. Os conselhos eram geralmente ligados ao PSUV, mas é difícil entender o porquê de o CS decidir que isso significava que devesse apoiar os esforços da oposição.


Muito destas informações apresentadas dentro das descrições de programas do CS permanecem repletas de imprecisões. Em particular, a lógica que o levou a se envolver no país é, logo de início, justificada com informações plenamente falsas.

O grupo, por exemplo, se refere à legislação intitulada “Lei da Participação Popular” alegando que somente membros do partido PSUV ou apoiadores socialistas possam participar e fundar conselhos comunitários pelo país. Durante anos, documentos do CS reportam que como “definido na Lei de Participação Popular, conselhos comunitários não podem ser formados por participantes ou os incluir em assembleias gerais que não sejam membros do Partido Socialista Unido da Venezuela, ou que não sejam ‘membros conhecidos’ do ‘Socialismo do Século XX’”. Também alega que a legislação trabalhista foi modelada a partir desta lei – permitindo que apenas membros do PSUV possam formar conselhos de trabalhadores.

Há alguns problemas com isso. Primeiro, a Venezuela nunca viu a introdução de nenhuma lei intitulada “Lei de Participação Popular.”

É possível que o grupo esteja fazendo referência a Lei dos Conselhos Comunitários, que formalizou a existência dos conselhos comunitários de bairros. Chávez via os conselhos como o motor da democracia venezuelana, onde os membros da comunidade poderiam propor projetos, discutir os esforços da comunidade e requisitar financiamento do Estado.

Em segundo lugar, o CS alega que apenas membros do PSUV ou apoiadores conhecidos do socialismo podem participar dos conselhos comunitários. Isso é absolutamente falso.

Como mostrou o trabalho de Gabriel Hetland, apoiadores da oposição rotineiramente formaram conselhos comunitários em áreas onde a oposição mantinha apoio, e eles, assim como os chavistas, reconheceram a importância destes grupos. Se Maduro abandonar o cargo na Venezuela em algum momento próximo, especula-se que os conselhos comunitários irão evaporar.

Os relatórios do CS revelam que seus esforços eram direcionados à organizar conferências e oficinas em que pudessem treinar indivíduos para desafiar diretamente atividades propostas pelo governo Chávez. No relatório de 2012-13, por exemplo, o CS descreve como o grupo “irá apoiar os esforços dos sindicatos industriais para resistirem a imposição de organização num ambiente antidemocrático”. Dentro de suas oficinas de treinamento, eles se comprometem a ajudar indivíduos confrontarem “a imposição dos ‘conselhos de trabalhadores’ acusados de usurpar as funções representativas e subjugando trabalhadores a estruturas organizacionais politizadas e antidemocráticas”.


Especificamente, o grupo descreve como suas oficinas iriam ajudar a “coordenar ações de resistência pactuadas” ao movimento do governo diante os conselhos de trabalhadores e cooperativas, bem como ajudando a levantar “conscientização destes problemas entre os membros, montando estratégias de defesas legais… construindo coalizões entre sindicatos e a sociedade civil onde for possível, advogando por políticas para líderes no governo e na Assembleia Nacional, e construindo um apoio da comunidade ampliada”.


Ao elaborar e organizar oficinas e conferências, o CS levou oposicionistas venezuelanos em treinamento por todo o país para eventos financiados e organizados com dinheiro público dos EUA. Eles também financiaram consultores legais e técnicos, em alguns casos, que ajudaram seus aliados no confronto com o governo Chávez.

Em particular, seus programas focavam em trabalhadores do setor formal, incluindo a indústria de petróleo, mineração e manufatura de metais, além de apoiar jornalistas. Eles também financiaram a “manutenção e melhoria” do portal de recrutamento para venezuelanos interessados em atuar contra esforços do governo Chávez e “permitir uma discussão contínua e disseminar informações em como defender direitos básicos trabalhistas e reformas na legislação.”

Em coordenação com seus aliados no país, o CS proveu infraestrutura para juntar aliados locais pela Venezuela com o objetivo de conceber e implementar estratégias de combate ao movimento chavista em direção aos conselhos de trabalhadores e cooperativas. Com financiamento público, o CS “organizou, garantiu o aluguel de estabelecimentos e forneceu suprimentos para o treinamento e transporte dos participantes de Caracas e áreas vizinhas, bem como custos de viagem e diárias para participantes de outras partes da Venezuela.”


Enquanto o CS seguiu trabalhando com a CTV, eles também começaram a trabalhar com o Movimiento Solidaridad Laboral (MSL), formado em 2009, como um aparente grupo trabalhista apartidário oposto às políticas trabalhistas de Chávez e desprovido de qualquer bagagem antichavista associada a CTV e a Fedecámaras. Embora o CS tenha eliminado a maioria dos locais onde seus integrantes estavam listados nos documentos, falharam em se retirar de todas as localidades, confirmando seu trabalho com o MSL em uma área onde esqueceram de eliminar seu nome.

Em seu programa de 2010, o CS afirma sem rodeios que ajudou a formar o corpo diretor, que foi “lançado em uma conferência nacional apoiada pelo CS em julho de 2009”, e que isso iria continuar a ajudar o grupo no “desenvolvimento de… sua plataforma de direitos trabalhistas”.


Ainda assim, enquanto esforçava-se para aparecer como um grupo apartidário, muitas de suas figuras principais, incluindo Rodrigo Penso e Froilán Barrios, antes tinham posições na CTV e ainda eram formalmente filiados. Seu líder nacional e porta-voz, Orlando Chirino, foi recentemente demitido de sua posição na companhia estatal venezuelana de petróleo e se tornou um oponente do presidente Chávez pela esquerda, inclusive concorrendo contra ele na eleição presidencial de 2012.

Após esta formação, o CS parece ter continuado a financiar encontros e sessões de treinamento do MSL, bem como conferências nas quais eles planejavam suas abordagens de combate as políticas trabalhistas de Chávez. O maior esforço do grupo incluiu uma marcha com a CTV contra o governo Chávez em 2011. Essa estratégia foi discutida, desenvolvida e planejada nas conferências do CS que a pensou em favor destes grupos? O propósito explícito dos eventos do CS eram auxiliar estas organizações para “coordenarem ações de resistência unitária” contra o governo Chávez.

Embora o CS tenha permanecido exuberante frente ao grupo em seu início, a organização parece ter se esgotado em poucos anos após sua formação e logo depois da marcha de 2011 junto com a CTV, com pouca presença de público. Isso não é uma surpresa dado que o líder da organização, Orlando Chirino, buscou competir contra Chávez nas eleições presidenciais de 2012 sob o partido Socialismo y Libertad.

Com a aparente dissolução do MSL, parece que o braço internacional da AFL-CIO continuou seu trabalho com a CTV e frações do movimento trabalhista expressamente opostas à Chávez e atualmente, Maduro. Como mostram documentos, para além das ações em 2011, o CS continuou a condenar políticas do governo venezuelano e mobiliza seus esforços com um grande grupo trabalhista anti-Chávez.

O CS respondeu dizendo que eles formam uma “ampla coalisão de sindicatos politicamente diversos, acadêmicos, organizações de direitos humanos e outros grupos da sociedade civil que convencionaram responder as notórias violações de direitos trabalhistas no país”. Entretanto, eles não responderam diretamente acerca do conteúdo de qualquer um dos documentos liberados.

Mais do mesmo

No final das contas, embora a AFLC-CIO tenha buscado se reinventar no mundo pós Guerra Fria, parece que muito deste trabalho permanece similar aos seus esforços durante a Guerra Fria. Desde o início do governo Chávez e no passado recente, o grupo trabalhou com atores claramente da oposição. De sua parte, a CTV continuou a trabalhar para afastar Chávez por vias democráticas e antidemocráticas – tanto apoiando um golpe de Estado e atuando politicamente após seu fracasso, bem como trabalhando com políticos da oposição para derrotar Chávez, com o candidato presidencial, Manuel Rosales, em 2006.

Os EUA atuaram por diferentes ângulos em suas tentativas, por duas décadas, para ganharem dos governos Chávez e, atualmente, Maduro. Isso incluiu o apoio de políticos e ONGs da oposição, apoio a bandas de rock anti-Chávez, a grupos patronais e grupos trabalhistas opostos a Chávez – até mesmo uma operação arruinada envolvendo mercenários privados.

Apesar desta abordagem multifacetada, entretanto, os EUA ainda não conseguiram derrubar o líder da Venezuela. Entre as dificuldades econômicas e agressões crescentes vindas dos EUA sob o governo Trump, o governo Maduro certamente tem ficado mais autoritário. Mas muito antes de Maduro assumir o cargo, e como o chavismo ganhou eleições sucessivamente, autoridades dos EUA sob governos republicanos e democratas buscaram derrubar o governo democraticamente eleito de Hugo Chávez – outra confirmação que o interesse dos EUA na democracia venezuelana permanece subordinado a interesses geopolíticos dos EUA acima de outros interesses.

O CS permanece como o braço da política externa da AFL-CIO e historicamente tem exercido um papel regressivo em muitos países ao redor do mundo, atuando junto à política externa dos EUA contra políticas democráticas e movimentos trabalhistas. O grupo permanece consciente de sua imagem na Guerra Fria e muitos de seus líderes recentes afirmaram que tal intromissão nefasta tinha encerrado. Barbara Shailor, diretora de assuntos estrangeiros da AFL-CIO, por exemplo, disse ao The Nation em 2003, “não vamos ignorar questões acerca do passado, mas realmente estamos focados no que fazemos no presente”.

Os documentos que obtive indicam que isso está longe de ser verdade. O CS continua a intervir em países para impedir, por exemplo, medidas socialistas na Venezuela, incluindo o uso de cooperativas trabalhistas e conselhos de trabalhadores, na última década. Assim como autoridades dos EUA trabalharam para solapar líderes da esquerda em Honduras e Bolívia, podemos ter certeza de que o CS também trabalhou com atores que, também, buscam afastar seus governos.

Sobre o autor

Tim Gill é professor de sociologia na Universidade da Carolina do Norte.

Bolivianos estão revoltados com seu regime golpista ilegítimo

Nove meses após o golpe de direita que derrubou o presidente boliviano Evo Morales, as eleições ainda não foram realizadas e o descontentamento popular com o regime golpista está fervendo. A democracia deve ser restaurada, não importa o que os golpistas e seus aliados em Washington desejem.

Thomas Field

Jacobin

Jeanine Áñez speaks during a press conference at Bolivian Palace of Government in La Paz, 2019. (Gaston Brito Miserocchi / Getty Images)

No final do mês passado, o governo de transição da Bolívia decidiu adiar as eleições mais uma vez, levando o país à sua crise política mais profunda em décadas.

Ao partido mais popular - o Movimento ao Socialismo (MAS) - foi repetidamente negado seu direito de governar. O MAS venceu as últimas quatro eleições da Bolívia por margens históricas: 54-29% em 2005, 64-27% em 2009, 61-21% em 2014 e 47-37% em 2019. As pesquisas atuais apontam para o partido socialista garantindo outra vitória fácil em 2020, de 42 a 27 por cento.

Este último desempenho é impressionante, dada a suposição anterior da direita - compartilhada por muitos dentro do MAS - de que a esquerda entraria em colapso sem seu ex-presidente deposto, Evo Morales, que permanece politicamente ativo desde seu exílio argentino. Além disso, apesar da vitória de Morales em 2019 ter sido prejudicada por alegações duvidosas de fraude de uma Organização dos Estados Americanos (OEA) hostil, a opinião dominante está finalmente chegando à conclusão de que as insinuações da organização financiada pelos EUA sobre má conduta eleitoral no último outono - com base em uma análise estatística desacreditada- foram errados, por incompetência ou design.

A Casa Branca do presidente Trump e o Departamento de Estado aplaudiram a queda da democracia socialista da Bolívia, e seu governo posteriormente lançou um programa de ajuda para apoiar a presidente de transição do país, Jeanine Áñez. Áñez, ex-líder da minoria no Senado da Bolívia, declarou-se presidente em uma câmara vazia com a aquiescência de policiais e militares.

Dois meses depois, a Casa Branca de Trump emitiu uma determinação presidencial especial declarando que o apoio financeiro ao regime de Áñez era “vital para os interesses nacionais dos Estados Unidos”. Isso abriu caminho para que Washington ajudasse a organizar novas eleições por meio do Escritório de Iniciativas de Transição da USAID, que atualmente executa programas de mudança política em dezesseis "estados frágeis", incluindo Colômbia, Líbia, Etiópia, Iraque, Síria, Armênia e Ucrânia.

O retorno da USAID à Bolívia - a agência foi expulsa em 2013 pelo que o presidente deposto de esquerda chamou de “usar a caridade como uma folha de figueira para subjugar, dominar” - foi possível graças a um acordo firmado entre o principal assessor de segurança nacional da Casa Branca para América Latina, Mauricio Claver-Carone, e o ministro do governo de Áñez, Arturo Murillo. Murillo, um provocador de extrema direita, que em 2017 propôs que as mulheres que desejam abortos deveriam “se matar”, recentemente se gabou de que Claver-Carone “abriu muitas portas para nós”, acrescentando indiscretamente que “eu estava na CIA”.

De acordo com a lei da Bolívia que rege mudanças irregulares no governo, novas eleições deveriam ter ocorrido dentro de noventa dias, até 12 de fevereiro de 2020. Mas foi difícil chegar a um acordo entre as partes na esteira do Decreto 4.078 de Áñez, isentando a polícia e militares de acusações de infringir direitos humanos, que foram seguidas logo pelo que a Clínica Internacional de Direitos Humanos de Harvard (IHRC) chama de “Novembro Negro”: massacres de vinte e dois manifestantes anti-golpe em Sacaba, Cochabamba, perto da fortaleza de cultivo de coca de Morales, e Senkata, La Paz, na cidade irmã da classe trabalhadora da capital, El Alto. Tendo sobrevivido ao derramamento de sangue, que foi pontuado por ataques de gás lacrimogêneo da polícia na marcha fúnebre subsequente, todos os partidos finalmente concordaram com novas eleições, que foram marcadas para 3 de maio de 2020.

Enquanto isso, o governo Áñez fomentou a corrupção e governou com mão de ferro, fazendo dezenas de presos políticos sem processos judiciais sérios (de acordo com o estudo do IHRC, as acusações favoritas contra os organizadores anti-golpes são “crimes vagos como sedição ou terrorismo”).

Por exemplo, o regime de fato recusa-se a conceder asilo político a sete altos funcionários do antigo governo, que durante nove meses permaneceram encerrados na Embaixada do México em La Paz, onde estão separados das suas famílias enquanto aguardam garantias de passagem segura para o exílio. Pior ainda, no final de janeiro o regime deteve (sob a acusação de sedição) Patricia Hermosa, advogada de Morales, quando ela tentou registrar o presidente deposto como candidato ao Congresso. Grávida quando foi detida, Patricia perdeu seu filho na prisão.

Então a COVID-19 chegou, como disse um morador de El Alto, “como o maná do céu para esses fascistas”. Em meio a preocupações legítimas de saúde pública, e inicialmente com a aquiescência morna do parlamento do país majoritariamente do MAS - um reminiscência de 2014 - as eleições foram adiadas para agosto e depois para setembro. Simbolizando a intensificação do impasse no país, a assembléia legislativa até agora se recusou a ratificar o adiamento mais recente do executivo não eleito até 18 de outubro.

A cada adiamento das eleições na Bolívia, a situação política e social do país se deteriora. Furiosos ao ver sua democracia destruída e seu restabelecimento repetidamente adiado, na semana passada os maiores movimentos sociais do país convocaram uma greve geral e bloqueios de estradas em todo o país.

Entre os movimentos que defendem o retorno à democracia estão o chamado Pacto de Unidade, que ajudou a levar o MAS de Evo Morales ao poder há quatorze anos, além de organizações sindicais como a federação nacional dos trabalhadores (COB, Central dos Trabalhadores da Bolívia), a federação de trabalhadores do campo (CSUTCB, Confederação Sindical Unificada dos Trabalhadores Rurais da Bolívia) e poderosas associações de bairros de bairros operários de todo o país (FEJUVEs, Federação dos Conselhos de Bairro). “Já sofremos dois massacres”, disse-me um organizador melancolicamente, acrescentando com um toque de esperança que seu país parece estar entrando em “um período de luta... um momento muito profundo de inflexão”.

O sucesso dos manifestantes e o destino da democracia boliviana dependem de dois atores poderosos com um compromisso irregular com os direitos humanos: os militares bolivianos e o governo Trump. O apoio ao regime por parte do exército, que ostenta uma tradição antiimperialista ainda fumegante, poderia vacilar, como evidenciado pela dependência quase exclusiva do regime da polícia nacional a Áñez para seu golpe, instalação e sobrevivência.

De sua parte, o governo Trump claramente tendeu a favor de Áñez, mas há sinais de que o Congresso está começando a recuar. Em 7 de julho, sete senadores norte-americanos escreveram uma carta ao secretário de Estado Mike Pompeo, exigindo que o apoio financeiro de Washington ao governo de transição fosse condicionado ao respeito aos direitos humanos e a eleições imediatas, as únicas duas obrigações legais que Áñez tem sob a constituição boliviana.

Com Añez (e seu principal incentivador, o presidente Trump) usando a pandemia global como desculpa para adiar uma derrota eleitoral quase certa, o futuro do hemisfério depende da disposição do Congresso de defender a democracia no país e no exterior.

Sobre o autor

Thomas Field é autor de From Development to Dictatorship: Bolivia and the Alliance for Progress in the Kennedy Era. Ele é co-editor de Latin America and the Global Cold War, deve ser lançado no início de 2020.

3 de agosto de 2020

O governo neoliberal do Equador está tentando banir Rafael Correa das eleições de 2021

O ex-presidente Rafael Correa é o político mais popular do Equador - mas o governo de Lenín Moreno está tentando proibir seu partido de concorrer nas eleições do próximo ano. Diante de uma revolta em massa contra as reformas apoiadas pelo FMI e da repulsa por sua má gestão da COVID-19, o presidente Moreno está usando processos judiciais falsos para frustrar o processo democrático.

Denis Rogatyuk

Jacobin

Ex-presidente do Equador Rafael Correa, 2013. (Wikimedia Commons).

Tradução / Nas últimas semanas, a guerra judicial travada contra o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, atingiu novos níveis de crueldade – e desespero. Em 20 de julho, o tribunal nacional do Equador ratificou sua decisão anterior que condenava Correa a oito anos de prisão em “casos de suborno”, alegando que o presidente de esquerda havia operado uma rede de corrupção durante seu mandato no governo.

Isso aconteceu apenas um dia após a decisão do Conselho Eleitoral Nacional e do Controlador-Geral Pablo Celi – ambos alinhados ao governo neoliberal de Lenín Moreno – de cancelar o registro da frente eleitoral de Correa e impedi-lo de participar das eleições gerais de 2021. Na semana passada, esta decisão foi revogada pelo Tribunal Eleitoral, mas são esperados novos movimentos judiciais contra o partido.

Apesar da ânsia do regime de Moreno em dobrar as leis eleitorais e os procedimentos legais a fim de frustrar o líder mais popular do país, o núcleo de apoiadores de Correa permaneceu intacto. Em 8 de julho, nasceu uma nova coalizão que incorporou os líderes e apoiadores de sua Revolução Cidadã, junto com outras forças opostas ao regime de Moreno. Desde o seu lançamento há quatro semanas, esta coalizão Unión por la Esperanza [Unidade pela Esperança] atraiu movimentos sociais, organizações menores de esquerda, grupos indígenas e coletivos de estudantes e mulheres sob sua bandeira.

Ao mesmo tempo, o governo enfrenta nova instabilidade com a renúncia de Otto Sonnenholzner como vice-presidente e sua substituição por María Alejandra Muñoz. Embora vários outros ministros também tenham pedido sua renúncia a Moreno, a saída de Sonnenholzner marca, pela primeira vez na história do Equador, que três vice-presidentes foram substituídos em um único mandato presidencial. Sua renúncia foi acompanhada por rumores crescentes de que ele pretende disputar a presidência nas eleições de 2021. Junto com a piora da situação socioeconômica e ondas intermináveis ​​de casos COVID-19 em todo o país, o Equador encontra-se no caminho para se tornar um Estado falido.

Um caso legal cheirando a desespero

Acampanha de perseguição política contra Correa provavelmente supera aquelas já instigadas contra outros líderes de esquerda na América Latina, como Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirchner na Argentina e seu próprio ex-vice-presidente Jorge Glas. Destaca-se por seu absoluto absurdo, a flagrante falta de devido processo legal e o cinismo descarado do regime neoliberal em fazer acusações bizarras.

O Tribunal Nacional de Justiça (TCNJ) ratificou a sentença de oito anos de prisão contra Correa em 20 de julho, após o indeferimento de um recurso da equipe jurídica de Correa, chefiada por Fausto Jarrín. A promotoria, comandada pela Procuradora-Geral Diana Salazar, tem sistematicamente alegado que o ex-presidente operou uma “rede de corrupção” durante seu último mandato de 2013-17, com seu então partido Alianza PAIS servindo como a organização de fachada para receber subornos de até US$ 7,8 milhões de empresas privadas como a notória gigante da construção brasileira Odebrecht.

A promotoria tem se concentrado consistentemente em apenas uma peça de suposta evidência material – US$ 6.000 que Correa pegou emprestado do fundo presidencial e depois reembolsou. Antes desta sentença, Correa enfrentou vinte e cinco outras acusações, que vão desde suborno a corrupção e até sequestro.

Como no caso do “caso do suborno”, a equipe jurídica de Correa e seus aliados têm consistentemente apontado a falta de qualquer prova substancial ou devido processo legal, violações do código penal do Equador e recusa em admitir as principais evidências que contradizem os depoimentos contra Correa.

Jorge Glas, vice-presidente de Correa durante seu último mandato, foi perseguido de forma semelhante em um processo judicial que não respeita seus direitos. O processo tem estado repleto de irregularidades, como a falta de qualquer direito de recurso, uma sentença acima do normal e uma transferência para uma prisão de segurança máxima, apesar das evidências de deterioração do seu estado de saúde.

Ao mesmo tempo, outros líderes históricos da Revolução Cidadã pilotada por Correa foram perseguidos pelo regime autoritário de Moreno. O ex-ministro das Relações Exteriores, Ricardo Patiño, a ex-presidente da Assembleia Nacional, Gabriela Rivadeneira, e a ex-integrante da Assembleia Constituinte, Sofia Espin, foram forçados a buscar asilo no México. Outros como Virgilio Hernández e o atual prefeito de Pichincha, Paola Pabón, foram detidos e encarcerados por vários meses após a revolta em massa liderada pelos indígenas contra o Fundo Monetário Internacional (FMI) de Moreno – apoiado pelas reformas de austeridade em outubro de 2019.

A perseguição contra Correa e seus aliados há muito tem como objetivo impedi-los de participar das eleições presidenciais programadas para fevereiro de 2021. No entanto, a força eleitoral de Correa e da Revolução Cidadã (estimada entre 35 e 40% do eleitorado) efetivamente o torna o movimento político mais forte do Equador, independentemente do status de seus líderes. Somente com a eliminação de sua representação política legal o regime de Moreno e seus aliados de direita podem impedir seu retorno ao poder.

Fraude Eleitoral

Desde a dissolução inicial do partido Alianza PAIS em outubro de 2017 e a criação do movimento Revolução Cidadã, o regime de Moreno e os seus aliados dentro do judiciário vem tentando enterrar sistematicamente o legado do correísmo, em particular bloqueando o seu registo para concorrer à eleição.

As primeiras tentativas vieram em janeiro de 2018, quando Correa e os vinte e nove membros da Assembleia Nacional do Equador que o apoiavam tentaram formar a lista eleitoral da “Revolução Cidadã”. Isso foi rejeitado pelo conselho eleitoral, alegando que essa frase já era usada por “outro movimento” (provavelmente o remanescente alinhado a Moreno no Alianza PAIS, um partido que em algum momento tinha ele e Correa).

Depois disso, os apoiadores de Correa tentaram se registrar sob o nome de “Revolução Alfarista”, usando o nome do líder da revolução liberal do Equador, Eloy Alfaro, presidente de 1895-1901 e 1906-1911. Isso também foi rejeitado por ser enganoso, com o fundamento de que Alfaro pertencia à tradição política liberal – não à socialista.

Incapaz de registrar o nome do próprio partido, Correa e seus aliados se uniram ao pequeno Movimento Acordo Nacional em maio de 2018, com Ricardo Patiño sendo eleito seu novo secretário. No entanto, após um conflito interno com a liderança existente – uma facção que se recusou a reconhecer os novos elementos alinhados a Correa – esta organização também foi abandonada.

Finalmente, em dezembro de 2018, foi firmado um acordo entre o movimento Revolução Cidadã e o Fuerza Compromiso Social (FCS), anteriormente liderado pelo aliado de Moreno, Ivan Espinel, para que os líderes do movimento Revolução Cidadã se integrassem ao partido e participassem das eleições locais de 2019.

O resultado foi um sucesso relativo, já que o partido mobilizou milhões de votos e obteve vitórias importantes nas províncias de Pichincha e Manabí (a segunda e a terceira mais populosas do país) apesar da hostilidade dos meios de comunicação privados e públicos e da perseguição em curso contra Correa. Apesar desses sucessos, ou talvez devido a eles, o regime de Moreno continuou a buscar novas maneiras de impedir que Correa e seus aliados participassem das principais eleições presidenciais de 2021.

Essa tentativa aumentou no início de 2020 com a decisão dos “casos do suborno” em março e sua ratificação em julho. Isso ameaça impedir Correa de ocupar cargos públicos nos próximos vinte e cinco anos, embora possa haver mais recursos, dada a campanha contínua da equipe jurídica de Correa. No início de julho, Pablo Celi exigiu que o Conselho Nacional Eleitoral eliminasse o FCS da lista de partidos políticos legais, junto com três outros partidos menores.

Embora a constituição equatoriana proíba explicitamente o controlador de influenciar a decisão do conselho eleitoral, isso não impediu que os aliados de Moreno o fizessem. Seguiu-se um jogo de pingue-pongue jurídico entre o Tribunal de Contenções Eleitorais (TCE, o órgão judicial que supervisiona a implementação das leis eleitorais) e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o primeiro rejeitando inicialmente o recurso do último para proibir o partido.

Sob pressão da Procuradora-Geral Diana Salazar e de Pablo Celi, a CNE resolveu eliminar o FCS em 19 de julho, a menos que Correa e sua equipe pudessem apelar da decisão e apresentar as provas necessárias para manter o status jurídico do partido.

Desde então, o pingue-pongue jurídico ocorreu entre o TCE e o CNE. O TCE rejeitou a proibição do FCS duas vezes entre meados de julho e início de agosto. No entanto, os esforços para impedir a participação da frente eleitoral pró-Correa devem continuar até a campanha eleitoral de fevereiro de 2021.

Uma nova esperança?

Nesse sentido, parece que não há fim para a disputa judicial contra Correa e seu partido. No entanto, mesmo que o regime consiga eliminar o FCS, seus esforços para atingir essa organização podem ter sido em vão. A coalizão Unidade pela Esperança foi fundada no início de julho em um encontro online entre Correa e outros representantes da Revolução Cidadã, bem como várias organizações progressistas, movimentos sociais e indivíduos que se opõem a Moreno.

Além do movimento Revolução Cidadã de Correa, a nova coalizão envolve o Centro Democrático liderado pelo jornalista e ex-prefeito de Guayas, Jimmy Jairala, que estava alinhado com o governo de Correa de 2013 a 2017; o Fórum Permanente de Mulheres Equatorianas; a Confederação dos Povos Indígenas e Organizações Camponesas (FEI) dirigida por José Agualsaca MP; a Frente Patriótica Nacional liderada pelo ex-embaixador no Brasil, Horácio Sevilla; e SurGente liderado pelo ex-ministro do Trabalho de Correa, Leonardo Berrezueta. Em recente entrevista ao El Ciudadano, Ricardo Patiño mencionou mais de vinte outros movimentos políticos e sociais que buscam ingressar na coalizão.

Embora não haja detalhes sobre os possíveis candidatos a presidente e vice-presidente, os ex-líderes da Revolução Cidadã provavelmente terão destaque.

A formação da Unidade pela Esperança, bem como as circunstâncias socioeconômicas mais amplas, têm alguma semelhança com a primeira formação do Alianza PAIS antes das eleições presidenciais de 2006, com algumas das principais demandas populares sendo a formação de uma assembleia constituinte e uma nova constituição.

Cada caso é marcado por uma profunda crise institucional, uma crise econômica agravada pela implementação de um severo programa de austeridade do FMI e o surgimento espontâneo de um movimento de massa anti-austeridade. Vimos isso com a revolta indígena em outubro de 2019, assim como com o levante de Forajidos em 2005, quando os movimentos sociais indígenas e urbanos derrubaram o presidente Lucio Gutiérrez após a implementação das reformas socioeconômicas apoiadas pelo FMI.

No entanto, a oposição não está unida. O partido Pachakutik, que tradicionalmente afirma representar a população indígena do país por meio da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), até o momento se opõe veementemente a qualquer cooperação formal com Correa e seus movimentos.

Isso se baseia principalmente em dois fatores – a história dos conflitos do movimento com o governo Correa e seu próprio alinhamento recente com as forças tradicionais de direita, cujo exemplo mais proeminente foi sua aliança eleitoral com o magnata conservador Guillermo Lasso, durante as eleições de 2017.

Para decepcionar mais ainda, Leônidas Iza, o líder indígena da província de Pichincha e um dos principais organizadores da revolta de outubro de 2019, recentemente afirmou que “o correismo não é um representante da esquerda no Equador e, em vez disso, favorece os grandes grupos econômicos de poder”- uma referência às suas afirmações de longa data de que o governo de Correa não era radical o suficiente no trato com grandes corporações (especialmente no setor de mineração).

Resta saber se Pachakutik repetirá sua desastrosa estratégia eleitoral de 2017 e se vai se alinhar com a direita ou reconhecerá a necessidade de uma frente popular contra o neoliberalismo e o retorno de um governo progressista ao poder.

A estratégia das duas principais alianças políticas de direita – o Partido Social Cristão e a aliança CREO liderada por Lasso – também permanece obscura, uma vez que ambos apoiaram, de uma forma ou de outra, as políticas econômicas de Moreno e se alinharam contra Correa.

Um futuro incerto

Embora o aparato jurídico do governo Moreno tenha se mostrado eficiente em manter seus oponentes políticos à margem, o mesmo não pode ser dito sobre o manejo da pandemia da COVID-19, da economia ou mesmo de suas próprias instituições.

A abrupta renúncia do vice-presidente Otto Sonnenholzner foi acompanhada pelas do chanceler José Valencia e do Secretário de Comunicação, Gustavo Isch (a quinta renúncia ao cargo em três anos). Ao mesmo tempo, as estatísticas oficiais do COVID-19 eram de 83.193 casos ativos no final de julho e 5.623 mortos – ainda assim, os números reais são potencialmente muito maiores devido à devastação que o surto causou na cidade de Guayaquil ao longo de abril e maio. Finalmente, as reformas e a austeridade recomendadas pelo FMI permanecem em vigor e continuam a ser implementadas pelo regime de Moreno, apesar dos potenciais danos ao sistema de saúde sobrecarregado.

Esta crise política e econômica geral no país está criando um vácuo de poder sem precedentes, com o futuro do governo altamente incerto apenas seis meses antes das eleições. Ao tentar eliminar o legado de Rafael Correa e o caminho eleitoral para seu retorno, Moreno e seus aliados também encarceraram, expurgaram e exilaram os líderes políticos mais capazes de lidar o país na crise atual.

Por sua vez, Correa promete preencher o vazio de autoridade com um governo popular baseado nas ideias de Sumak Kawsay (Bem Viver), em oposição à repressão e a austeridade. Este último é o curso de ação consagrado pelo tempo, historicamente favorecido por governos autoritários em todo o continente. Pelo bem do Equador, só podemos esperar que Moreno não consiga fazer o mesmo.

Sobre o autor

Denis Rogatyuk é jornalista da El Ciudadano, escritor, colaborador e pesquisador com várias publicações, incluindo Jacobin, Tribune, Le Vent Se Leve, Senso Comune, GrayZone e outros.

2 de agosto de 2020

A Revolução Portuguesa e a libertação das mulheres

Após a queda do regime fascista de Portugal em 1974, um movimento radical surgiu para desafiar a quase total falta de direitos concedidos às mulheres. A violenta repressão do primeiro protesto do movimento mostrou o quão difícil seria sua luta - mas seu ativismo ajudou a criar uma transformação duradoura.

Rafaela Cortez

Jacobin

O grupo feminista Movimento da Libertação daa Mulheres (MLM) de Portugal.

Quando Isabel Telinhos saiu do apartamento toda arrumada no dia 13 de janeiro de 1975 - salto alto, saia justa, cílios postiços e uma peruca loira cacheada como Marilyn Monroe - ela não tinha ideia do que aconteceria em seguida.

“Trouxe meu filho comigo e tudo, como todas essas outras mulheres. Era para ser um pequeno protesto, apenas alguns jornalistas, para que pudéssemos conversar sobre os problemas e conseguir alguma cobertura em revistas.” O protesto ocorreu após diversas ações do grupo feminista Movimento de Libertação das Mulheres de Portugal. “Sentimos que precisávamos de um alerta radical. Se não for radical, nada muda. Em qualquer situação política, as ações devem ser radicais”.

Já se passaram mais de quarenta e cinco anos desde aquela fatídica tarde de segunda-feira em 1975. O MLM organizou uma apresentação no Parque Eduardo VII, o maior parque central de Lisboa. Mas quando chegaram as cerca de quinze mulheres, foram recebidas por uma multidão de homens: “Uma multidão que rapidamente se transformou em horda”, lembra o conceituado jornalista português Adelino Gomes. “Não era apenas um grupo de pessoas assobiando para essas mulheres. Era uma horda”, frisa Adelino. “Em certo um ponto, quando elas começaram a andar, esses homens começaram a persegui-las, e a coisa toda saiu do controle.”

Adelino Gomes é conhecido em Portugal pela cobertura da Revolução dos Cravos, ou 25 de Abril, o golpe militar de 1974 em que o Movimento das Forças Armadas dissidentes (Movimento das Forças Armadas, ou MFA) derrubou o regime fascista de cinco décadas. Inicialmente instruída a ficar em casa, a população logo inundou as ruas em apoio ao MFA e distribuiu cravos vermelhos aos soldados. Adelino relatou os últimos suspiros da ditadura para uma emissora para a qual os censores oficiais o proibiram de trabalhar. Ao percorrer o caminho do Terreiro do Paço ao Largo do Carmo, repetia ao microfone exatamente o que ouvia da multidão: “Abaixo a guerra colonial! Abaixo o fascismo! ”

Encontrando-o na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, perguntei-lhe porque tinha estado lá para a ação de MLM. “Bem, tinha todos os fatores que o tornavam interessante. Era um protesto, em primeiro lugar; das mulheres, em segundo lugar; de um movimento de libertação das mulheres, terceiro; um movimento onde elas não apenas listariam suas demandas, mas literalmente incendiariam os símbolos da opressão das mulheres. ”

E havia muitos deles. Isabel Telinhos recorda, sobretudo, as brochuras pornográficas, os tachos e as panelas, mas também as coroas de cabelo de noiva, as vassouras, os panos de pó, os brinquedos sexistas, a Carta de Orientação ao Casado de Francisco Manuel de Melo (carta do século XVII onde o autor defende, entre outras coisas, que o melhor livro para uma mulher é o travesseiro e o aro de bordado), e ainda os Códigos Civil e Penal.

“Quero dizer, se você não cobrisse isso, ou você era um idiota e deveria deixar o jornalismo, ou estava completamente (o que era muito provável) distraído - e digo isso como uma crítica profunda - distraído com tudo o mais que estava acontecendo naquele momento. E depois havia um outro fator, que, para o bem ou para o mal, está sempre presente: estava logo ali na esquina”, ri Adelino.

Ele não está exagerando. A redação da Rádio Clube Português ficava a cinco minutos a pé do Parque Eduardo VII. Madalena Barbosa, feminista emblemática e fundadora do Movimento de Libertação das Mulheres, também tinha um apartamento ao virar da esquina, onde muitas mulheres se refugiaram naquele dia. De acordo com vários relatos, cerca de dois mil homens as perseguiram segurando cartazes que diziam "Fora com elas!" e "Isso é ridículo." “Eles estavam me cercando... gritando 'vamos despi-la!'... tentando tombar a van onde nossos filhos brincavam de cabeça para baixo”, Isabel me conta. “E você sabe que quando se trata de grandes multidões, você só precisa de uma pessoa para tentar algo antes que todo mundo comece a fazer.”

Se o comportamento terrível dos homens parece difícil de entender, a razão pela qual eles estavam lá não é tão misteriosa. Poucos dias antes, em 11 de janeiro, o semanário líder Expresso publicou um artigo sem assinatura que anunciava em tom de brincadeira que “segundo informações confiáveis”, o encontro apresentaria “o strip-tease de uma noiva, de uma dona de casa e de uma vampira, que usaria a flor de laranjeira, [uma flor tradicionalmente associada à pureza e à castidade] o avental e o biquíni como combustível para o fogo.” E, de fato, esses estereótipos estavam lá: a noiva, a dona de casa e a vamp, um arquétipo sexista que retrata as mulheres como objetos sexuais. Isabel Telinhos, com sua peruca loira e saia justa, foi a vampira daquele dia. “Elas são os que mais recebem vaias”, disse ela.

Mas a verdade começa e termina aí. Anos depois do protesto, ainda há rumores de que sutiãs foram queimados - ideia rejeitada por todos os presentes. A ativista feminista Maria Antónia Palla, uma das primeiras mulheres jornalistas de Portugal, lembra a fofoca: “É tudo mentira. Acho que nunca descobrimos quem começou a espalhar isso, mas é mentira... Fiquei lá até o fim, até irmos todas para o apartamento da Madalena Barbosa, e isso não existia”. Isabel concordou: “Ninguém ia queimar sutiãs”.

Nada foi queimado naquele dia - o incêndio nunca aconteceu. Mas, o que realmente aconteceu naquela tarde de 1975, nove meses após a revolução, foi que as mulheres que saíram às ruas para protestar por seus direitos foram forçadas a fugir. Elas foram insultadas, assediadas, agredidas e perseguidas.

Quarenta e cinco anos depois, Isabel admite que existem alguns detalhes que ela não consegue mais identificar. Mas ela se lembra vividamente de quando se virou para um homem que queria despi-la e conseguiu gritar de volta: "'Bem, vamos despi-lo primeiro!' Era isso. Eu nem pensei duas vezes. Eu só senti que precisava me defender.” Ela passou horas a fio no Parque Eduardo VII naquele dia, gritando de volta para a multidão, tentando encontrar uma saída. “É terrível como - em meio à alegria e liberdade trazida pelo 25 de Abril, onde todos se reuniam em sindicatos para lutar por seus direitos - tantos homens foram lá porque ouviram que as mulheres estavam se despindo. Isso foi brutal”, Isabel lamentou ao telefone. “O espetáculo que os homens deste país, sem discriminação de cultura, classe ou ideologia, deram ontem à tarde no Parque Eduardo VII, veio mais uma vez para confirmar que há uma razão para a existência de movimentos feministas”, escreveu a jornalista Lourdes Féria no Diário de Lisboa do dia seguinte. “Alguns fotógrafos dos jornais correram de um lado para o outro, quase babando de luxúria enquanto gritavam: ‘Onde elas estão? Eles já se despiram?'”

Muitas das pessoas que lá estiveram ainda têm dificuldade em explicar o que aconteceu. Afinal, eram apenas algumas dezenas de mulheres, muitas acompanhadas de seus filhos, fazendo algo muito semelhante ao que os movimentos feministas faziam no exterior. Manuela Tavares, co-fundadora e diretora da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), que escreveu a mais completa tese de doutorado sobre feminismo em Portugal, explica que as ativistas estavam, de certa forma, tentando imitar o que as feministas francesas fizeram no anos 1960 e 1970: “Houve um ato realmente simples em que colocaram uma coroa de flores na Tumba do Soldado Desconhecido, mas dedicada à sua esposa. Porque mais desconhecida do que o soldado desconhecido é a esposa do soldado desconhecido”, ela ri. A inscrição dizia: Il y a plus inconnu que le soldat inconnu: sa femme ("Há alguém ainda mais desconhecido do que o soldado desconhecido: sua esposa"). E, de certa forma, elas queriam receber o mesmo tipo de atenção.

Abuso das liberdades

O Movimento de Libertação das Mulheres foi fundado em 7 de maio de 1974, menos de um ano antes do protesto que nunca aconteceu. Mais cedo naquele dia, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa haviam sido absolvidas do caso que ficou conhecido como “As Três Marias”, onde foram acusadas de “abuso da liberdade de imprensa”e “ultraje à decência pública 'graças ao' conteúdo pornográfico” do seu livro recém-publicado, Novas Cartas Portuguesas.

Concluída em 1972, Novas Cartas Portuguesas não é uma obra literária de fácil digestão. É uma homenagem ao clássico do século XVII As Cartas Portuguesas, obra com cinco apaixonadas e angustiadas cartas de amor supostamente escritas por uma freira portuguesa, Mariana Alcoforado, ao oficial francês que a seduziu e abandonou para evitar escândalo. Não é apenas uma coleção de cartas ou poemas, embora certamente seja ambos, e não pode ser simplesmente descrito como um manifesto feminista, embora, de certa forma, seja.

O livro foi assinado coletivamente pelas Três Marias (até hoje ninguém sabe qual Maria escreveu o quê). Elas não estavam falando apenas pelas três, mas por todas as Marias, Marianas e Maria Anas; por todas as mulheres reprimidas em um país profundamente católico que não tinha nada a oferecer a elas além de um papel matrimonial e de apoio. Novas Cartas Portuguesas rompe com a autoridade patriarcal do regime fascista, criticando não só o lugar da mulher na sociedade, mas também a continuação do projeto colonial de Portugal.

“Compraz-se Mariana com o seu corpo, lia Manuela Tavares quando a visitei na UMAR (originalmente chamada de União de Mulheres Antifascistas e Revolucionárias), um lugar onde várias gerações de feministas se encontraram desde sua fundação em 1976. Caminhamos pelo “Jardim das Três Marias” para chegar a um sala aberta cheia de livros e fileiras e mais fileiras de arquivos e pôsteres sobre prostituição, violência sexual e violência doméstica. A chuva caía calmamente lá fora quando começamos a falar sobre o protesto, MLM e Novas Cartas Portuguesas.

“Acredito que o Novas Cartas Portuguesas foi um tapa na cara de uma sociedade conservadora produto de quarenta e oito anos de fascismo, de trevas”, diz Manuela. “Foi um poderoso apelo à ação.” Lendo para mim suas partes favoritas do livro, ela revela que ela começou a levantar bandeiras vermelhas antes mesmo de sua publicação, quando um funcionário da gráfica reclamou do conteúdo para seu gerente. Vários exemplares ainda chegaram à circulação em Lisboa, mas então os censores oficiais conseguiram o livro, que foi imediatamente banido. O Ministério Público estadual instaurou um processo judicial contra as autoras e Romeu de Melo, diretor da editora.

O processo se referia ao conteúdo pornográfico do livro como o principal motivo para apreender o livro, mas Duarte Vidal, o advogado de defesa de Maria Isabel Barreno, acreditava que o verdadeiro objetivo era censurar suas duras críticas ao governo fascista. Em sua defesa, argumentou: “Naturalmente preocupado que uma acusação de natureza política contra os três talentosas escritoras fosse mais um escândalo, que se soma a tantos outros que humilham a imagem do país... os censores portugueses, com um maquiavelismo típico das suas consciências pobres, encaminharam as três escritores à polícia encarregada da investigação de crimes comuns, como autoras de um livro pornográfico”.

Se a ideia era evitar outro escândalo, o tiro saiu pela culatra. Cópias do livro foram contrabandeadas para fora de Portugal e traduzidas em várias línguas, e durante os dois anos em que o processo se arrastou, o caso tornou-se uma célebre causa internacional, gerando protestos mundiais em apoio às escritores. Em 1973, a primeira Conferência Internacional Feminista de Planejamento em Cambridge votou unanimemente pelo apoio às Três Marias como a primeira ação feminista internacional.

A audiência da sentença foi adiada e depois adiada novamente. Finalmente, em 7 de maio de 1974, poucos dias após a revolução, as Três Marias foram absolvidas de todas as acusações. Naquela mesma noite, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno decidiram dar início a um movimento de libertação feminina - MLM. Esta foi “a primeira associação feminista em Portugal que colocou o problema do aborto, da sexualidade e da violência contra as mulheres na agenda política do país”, afirma Manuela. Mas, apesar de sua popularidade no exterior e da urgência das questões que elas estavam discutindo - e neste momento, milhares de mulheres estavam morrendo nos cem a duzentos mil abortos clandestinos inseguros realizados a cada ano - o movimento não foi necessariamente bem recebido.

Irene Flunser Pimentel, historiadora e investigadora da Universidade NOVA de Lisboa, afirma que “estas mulheres do MLM sofreram com o atraso extremo de Portugal nunca tendo tido um movimento estritamente feminista”. Feminismo, ela argumentou, "era para mulheres burguesas privilegiadas." Havia a ideia na esquerda de que "a luta de classes tinha uma solução e que as mulheres que faziam parte desse movimento feminista eram burguesas e não tinham a menor ideia sobre a vida e as lutas das mulheres proletárias".

"No início do século XX, em Portugal”, acrescenta, “o movimento das sufragistas femininas republicanas lutou principalmente pelo direito ao voto e à instrução”. No entanto, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 1970, 31 por cento das mulheres ainda eram analfabetas, o dobro dos homens. “Ninguém lia. Era muito difícil alcançar as pessoas porque, na época, você as alcançava por meio de panfletos”.

Mas essa não é a única razão por trás da falta de reconhecimento do MLM em Portugal. Se hoje a palavra “feminismo” ainda é um tanto controversa, naquela época era quase “suja”. Maria de Lourdes Pintasilgo - uma lutadora ao longo da vida pelos direitos das mulheres, criadora da Comissão sobre a Condição da Mulher e até agora a única mulher primeira-ministra de Portugal - não gostava do termo. Ela escreveu que “‘feminismo’é uma palavra arcaica, com má reputação e sem força dinâmica.”

Relembrando as lutas feministas em 1978, Madelena Barbosa explica porque ganhou má fama: “Quarenta e oito anos de salazarismo significaram a doutrinação das mulheres com o mito da maternidade abnegada, a esposa dedicada e virgem incorrupta, enquanto a censura nos impedia de conhecer a realidade das lutas das mulheres em todas as partes do mundo... Feminismo tornou-se assim um termo de conotações negativas e risíveis para as mulheres portuguesas que, na sua maioria, até hoje, ainda não sabem o real significado político das lutas das mulheres. ”

Irene concorda que a censura teve um papel destrutivo no que a portuguesa conquistou durante o liberalismo republicano do início do século XX: “Uma das coisas principais do Estado Novo, para além da polícia secreta, proibição de partidos políticos, e tudo mais, era censura. ... Houve um grande hiato - quarenta e oito anos é muito tempo. Não acho que as pessoas percebam como esse tipo de longevidade molda a memória e a mentalidade coletivas.

“Segunda classe”

O Código Civil aprovado em 1966 foi mais do que claro sobre o papel pretendido paras as mulheres. Uma seção sobre “Poder conjugal” proclamava: “O marido é o chefe da família, e cabe a ele, nessa qualidade, representá-la e decidir em todos os atos da vida conjugal”.

Como me diz a historiadora Irene Flunser Pimentel - perita no Estado Novo fascista e co-autora de um livro sobre as mulheres portuguesas no século XX -, o papel das mulheres sob o primeiro-ministro António de Oliveira Salazar limitava-se ao casamento, ao trabalho doméstico e à educação dos filhos : “O que estava no Código Civil, afinal.” Na época, o Código Civil de Portugal encarnava a ideia do homem como chefe de família, “e tudo partia daí. Porque se o homem era o chefe da família, quem lhe devia obediência? Sua esposa e filhos. Todas as regras vinham daí. ”

Em uuma entrevista de 2016 ao Diário de Notícias, Irene lamenta que, embora o estatuto de “portugueses de segunda categoria”, normalmente utilizado para referir -se aos portugueses nascidos nas colônias, tenha terminado em 1950, “as mulheres continuaram a ser de segunda categoria até 1976”, dois anos após a Revolução dos Cravos que proclamou a liberdade para todos.

Com a derrubada da ditadura, em meio a um processo revolucionário em curso, o Código Civil ainda afirmava que os homens podiam abrir a correspondência das mulheres, ou que a perda da virgindade (a virgindade feminina, claro) era motivo para a anulação do casamento. Os homens tinham autoridade quase completa sobre suas esposas, filhos e propriedades.

E se aos olhos da lei as mulheres ainda eram inferiores aos homens, na cabeça das pessoas não havia muita dúvida: “Foi uma triste demonstração de misoginia portuguesa que provou que, afinal, o 25 de Abril ainda não havia conseguido combater as mentalidades existentes”, suspira Adelino Gomes, referindo-se aos acontecimentos daquela tarde de janeiro. “Vou usar uma palavra aqui: eles 'provocaram' o 'homem ibérico'. E o 'homem ibérico' nem precisa ser provocado para mostrar suas verdadeiras cores.” Adelino refere-se a um infame processo judicial em 1989, quando duas turistas foram violadas no Algarve. O Supremo Tribunal de Justiça decidiu que, embora o caso fosse moralmente repreensível, as duas jovens “contribuíram muito para a sua concretização”, pois “não hesitaram em pedir carona aos transeuntes, mesmo no território dos chamados homens ibéricos.” “São expressões da tristeza cultural e civilizacional desta comunidade”, reclama Adelino.

Não seria a última vez, provocado ou não, que o “homem ibérico” se revelaria. Nem seria a última vez que a culpa cairia sobre as vítimas. Ainda em 2017, o desembargador Neto de Moura justificou a violência doméstica com base no caso extraconjugal da vítima. O julgamento, que atraiu uma tempestade de críticas, dizia:

"Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem.
Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte.
Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte.
Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.º) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.
Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso se vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.
Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida."

O homem ibérico ainda não está extinto. As revisões subsequentes dos códigos Civil e Penal não puderam desfazer a misoginia profundamente semeada que ainda pode ser encontrada, até hoje, em nossas instituições. Quase cinquenta anos depois, a luta que as Três Marias e as mulheres do MLM começaram ainda está longe de acabar.

Aborto não é crime

O Movimento de Libertação das Mulheres não durou muito depois do protesto que as trouxe ao Parque Eduardo VII: “Houve grandes contradições e acabaram por se separar”, diz Manuela. “No geral, achamos que o MLM fez o que podia”, escreveu Madalena Barbosa em 1978. Afinal, para um movimento tão efêmero, o MLM incomodou muita gente. E teve grandes implicações no tecido social, cultural e político português.

“Todas essas mulheres pertenciam aos mesmos círculos”, observa Irene, “que podem não ter estado no MLM per se, mas também eram feministas e tinham as mesmas demandas. Quando conheci a Madalena Barbosa, ela já fazia parte de um centro de documentação feminista, do qual eu também fazia. Lá, encontrei muitas daquelas mulheres lutando pela descriminalização do aborto”.

A descriminalização do aborto foi uma das demandas mais radicais do MLM. Em 1975, Maria Teresa Horta, Célia Metrass e Helena de Sá Medeiros publicaram o primeiro livro sobre o aborto em Portugal - “Aborto: Direito ao Nosso Corpo”. O livro defendia que “o aborto não é um problema moral, religioso ou médico, mas sociopolítico. ... A decisão de fazer o aborto só cabe à gestante que tem (ou deveria ter) o direito de controlar o próprio corpo”.

Embora nunca tenha feito parte do MLM, Maria Antónia Palla também lutou a maior parte da sua vida pela descriminalização. Nos anos 60, Maria Antónia Palla foi uma das primeiras mulheres inscritas no sindicato dos jornalistas. Ela também foi uma das primeiras mulheres admitidas na redação do Diário Popular, jornal do qual foi demitida em maio de 1968 por cobrir a revolta estudantil em Paris sem permissão.

“Eu estava envolvida principalmente na defesa da liberdade de imprensa, mas sempre me interessei pelas questões femininas”, ela me conta. Em 1974, ela e a colega Antónia de Sousa começaram a produzir uma série de documentários sobre a situação da mulher em Portugal, até fevereiro de 1976, ou seja, quando decidiram fazer um episódio sobre o aborto. Em “O Aborto Não É um Crime”, decidiram filmar uma mulher que optou por fazer o aborto em casa, com a ajuda de médicos de uma clínica em Cova da Piedade.

As imagens mostraram-se muito explícitas para os telespectadores, que responderam com uma tempestade de críticas à emissora pública RTP. A série foi rapidamente cancelada e os autores formalmente acusados de “ultraje à moral pública” e “incitamento ao crime”: “Ficou claro, nesses dois anos, que havia liberdade para tudo, mas não para as mulheres decidirem se queriam ter filhos, ou que as mulheres decidissem o que se passava com o seu corpo”, suspira Maria Antónia.

Milhares de mulheres sofreram desnecessariamente com interrupções clandestinas da gravidez. Muitas não tinham como pagar pela anestesia e, mesmo quando pagavam, ela era geralmente administrada por parteiras sem qualificação para fazê-lo. É irônico, Maria Antónia aponta, “que no meio de tudo isso, é minha reportagem que é indecente”.

A audiência aconteceu em 1979, três anos depois de o programa ir ao ar na RTP: “Pelo menos ajudou a avançar a causa e, nessa medida, senti que não era totalmente inútil. Mas é muito desagradável ficar esperando por um julgamento por três anos.” Quando finalmente foi chamada, ela admite a sorte que teve: “Tanto a juíza quanto a promotora eram feministas. Elas mecheram alguns pauzinhos e conseguiram pegar o caso, porque havia esse [outro] promotor que queria me condenar”. Ela ri porque, após o julgamento, ela e o promotor até se tornaram amigos.

Em 1976, Albino Aroso, médico e secretário de Estado do governo provisório de Francisco de Sá Carneiro, publicou a Lei do Planeamento Familiar, que permitia às mulheres o acesso a estas consultas. Esta medida rendeu-lhe a alcunha de “Pai do Planeamento Familiar”, “mas queríamos muito mais”, acrescenta Maria Antónia. “Queríamos uma lei que descriminalizasse o aborto.”

E ainda assim, o aborto não seria descriminalizado tão cedo. Demorou trinta e um anos depois que O Aborto Não é Um Crime foi ao ar, antes de realmente deixar de ser [um crime]. Depois de uma derrota estreita em um referendo de 1998, nrepetido em 2007, 59,3 por cento da população respondeu “sim” à descriminalização das rescisões voluntárias - embora apenas nas primeiras dez semanas de gravidez. A descriminalização foi aprovada no parlamento pouco depois, com votos a favor dos socialistas, dos comunistas, do bloco de esquerda e dos verdes.

Embora tenha sido uma vitória para o movimento feminista, há questões levantadas na primeira brochura do Movimento de Libertação das Mulheres em 1975 que ainda não foram respondidas até hoje. Além de exigir a revisão do Código Civil e o direito a salário igual para trabalho igual, as ativistas também exigiram, por exemplo, o reconhecimento do trabalho doméstico pelo Estado, ou creche gratuita para todas as mulheres. “Curiosamente, ainda hoje, a imagem que as pessoas têm do MLM é que éramos todas mulheres tolas, assim como as feministas do início do século XX eram chamadas de loucas e histéricas, quando isso era instrumental”, diz Maria Isabel Barreno em entrevista de 2006 para o Público. “Hoje, os princípios que defendemos são considerados normais e respeitáveis e defendidos por todas as organizações políticas.”

Para a historiadora Irene Flunser Pimentel, a descriminalização do aborto é um dos maiores legados do MLM. “Talvez seja uma ilusão da minha parte, infelizmente, porque foi um movimento muito isolado e, acima de tudo, derrotado. Mas não há dúvida de que essas mulheres na linha de frente iniciaram um esforço que teria muitas ramificações posteriormente, como na questão do aborto”. Mas não apenas o aborto. Irene também menciona a reforma do Código Civil de 1977, substituindo o “poder conjugal” pelo “dever de cooperação” para ambos os cônjuges. Isso se deve muito à Comissão da Condição da Mulher, agora denominada Comissão da Igualdade e dos Direitos da Mulher, da qual Madalena Barbosa também fez parte.

“No longo prazo, [a reforma do Código Civil] foi talvez a maior mudança, pelo menos aos olhos da lei. Claro, a principal questão é que há uma grande lacuna entre a lei e a ação - hoje seria muito interessante analisar como essas mudanças fluíram de cima para baixo.”

O que faremos com nossa liberdade?

Para Adelino Gomes, o legado do MLM representa “o farol para um caminho que ainda não foi trilhado. Ainda hoje, eu estava olhando as fotos das três [a noiva, a dona de casa e a vamp], tão jovens e tão corajosos, e isso me emociona. É a luta inacabada de mulheres como Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno - mulheres de sensibilidade poética e literária que lutaram com a literatura, que usaram as armas da sua condição”.

Isabel Telinhos, que se arrumou toda naquela tarde de segunda-feira, acredita que o legado do protesto de 1975 não ficou apenas papel. “Na época, conseguimos chamar a atenção de muitas pessoas e ajudar muitas mulheres a perceberem que a vida era mais do que apenas lavar roupa”, disse ela por telefone. Pouco antes de desligarmos, ela acrescentou: “Foi bom. Foi maravilhoso."

Todos com quem conversei concordam que há um longo caminho pela frente. Por exemplo, Irene diz que “hoje em dia, as mulheres trabalham tanto quanto os homens e só Deus sabe quantas horas mais quando chegam em casa, e há estudos sobre isso”. Ela reclama que as mulheres não têm tempo para estudar, para pensar, para o lazer, "para tudo!"

Um caminho menos percorrido é o combate à violência doméstica. Irene compara a falta de discussão sobre esta questão desfavoravelmente à França: “Aqui, a violência doméstica só é discutida e tratada em termos de leis, quando deveria ser algo sobre todos deveríamos falar”. É como se o velho ditado português, “não se põe a colher entre marido e mulher” - ou seja, apenas cuide da sua vida - ainda valesse. Mas, Irene brinca, "de acordo com a lei, você precisa colocar a colher!"

Conseguimos muitas liberdades em 25 de Abril mas, como me disse Maria Antónia Palla, “a liberdade é algo pelo qual devemos lutar todos os dias”. Naquele dia em 1974, ela “estava na rua às 7h. Foi muito emocionante.” Ela estava no Largo do Carmo, onde o Estado Novo se rendeu ao Movimento das Forças Armadas, e voltou direto para a redação de O Século Ilustrado onde trabalhava: “Só que eu não sabia o que escrever. Quer dizer, eu estava colocando uma folha de papel e jogando no chão, outra folha de papel, outra no chão.” Por fim, ela propôs uma frase que, até hoje, ainda está em sua mente: “Agora que a liberdade é nossa, o que vamos fazer com ela?”

Sobre a autora

Rafaela Cortez é uma jornalista radicada em Lisboa que escreve sobre direitos humanos e as vidas, lutas e peculiaridades das pessoas que conhece.

1 de agosto de 2020

O sociólogo que poderia nos salvar do coronavírus

Ulrich Beck foi um profeta da incerteza - e o intelectual mais importante para a pandemia e suas consequências.

Adam Tooze
Adam Tooze, colunista da Foreign Policy e diretor do Instituto Europeu da Universidade de Columbia.

Foreign Policy

JON BENEDICT para a FOREIGN POLICY/GETTY IMAGES

Tradução / Todos conhecemos o roteiro de Chernobyl. O derretimento de um reator mal projetado foi seguido da tentativa pelo decrépito regime soviético de esconder o desastre. Milhões de pessoas foram colocados em risco. A verdade veio a público. O regime pagou o preço e sua legitimidade foi arruinada. O colapso sobreveio.

Para os liberais, é um agradável conto de moralidade. A ditadura fracassa quando confrontada com os desafios da modernidade. A luz do dia é o melhor desinfetante.

Na eclosão do COVID-19, nos perguntamos se esse seria o Chernobyl do presidente chinês Xi Jinping. Mas após os abusos iniciais impulsionados pela política local de Wuhan, a liderança nacional da China reafirmou seu domínio. O pior momento foi no dia 7 de fevereiro, quando centenas de milhões de chineses foram à Internet para protestar contra o tratamento dispensado a Li Wenliang, o médico whistle-blower que havia morrido da doença. Desde então, Pequim assumiu o controle, tanto da doença quanto da narrativa midiática. Longe de ser um momento de perestroika, tonaram-se mais rígidas a disciplina e censura do partido.

Na primavera do hemisfério norte, os funcionários da Casa Branca provavelmente estavam assistindo Chernobyl, a minissérie da HBO, e se perguntando sobre seu próprio chefe. Recentemente, o historiador Harold James colocou a questão: estariam os Estados Unidos vivendo seu momento final soviético, com o COVID-19 como a crise terminal do presidente Donald Trump? Se esse for o caso, não será por causa de uma dissimulação mal feita. Os estadunidenses não vivem nem no final da Ucrânia soviética nem na era de Watergate, quando uma revelação sórdida poderia destruir um presidente. Trump é obviamente culpado pela irresponsabilidade de menosprezar a doença. No entanto, ele fez isso sob todos os holofotes das câmeras de TV. O presidente se deleitou enquanto desrespeitava as recomendações de especialistas em saúde pública, calculando corretamente que uma grande parte de sua base não estava preocupada com normas convencionais de verdade ou razão.

Mesmo que nem a China de Xi nem os Estados Unidos de Trump sejam equivalentes à União Soviética em seu declínio, a referência a Chernobyl permanece relevante para a nossa situação na pandemia de COVID-19.

O que deveria nos interessar não é tanto a queda da União Soviética, mas as preocupações mais mundanas dos europeus ocidentais que, em 1986, se viram no caminho da nuvem de radiação de Chernobyl. À medida que as notícias do desastre vazavam, eles enfrentavam muitas das mesmas questões que nos assombram em 2020. Quais testes são confiáveis? É seguro sair de casa? As crianças podem brincar em caixinhas de areia? Que alimentos são seguros? Quanto tempo vai durar a incerteza? Quais são as escolhas que temos? O que exatamente é um becquerel? Quantos de nós estamos a salvo? Quais relatórios, dados e recomendações deve-se ler, dentre sua vasta gama? Em quem se deve confiar?

Em termos de Curies por quilômetro quadrado, a radiação foi pior em dois cinturões: um estendendo-se para noroeste na Escandinávia e outro para o sul na Eslovênia, Áustria e Baviera. Não há séries da HBO sobre a vida sob a nuvem radioativa naquele verão. O que temos é um livro, Sociedade de Risco, publicado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, com excelente timing, na primavera alemã de 1986.

Beck argumenta que a onipresença de ameaças em larga escala de escopo global, anônimas e invisíveis constitui o denominador comum de nossos novos tempos: “Um destino de perigos emergiu na modernidade, uma espécie de contra-modernidade, que transcende todos os nossos conceitos de espaço, tempo e diferenciação social. O que ontem ainda estava longe será encontrado hoje e no futuro ‘na porta de casa’”. A questão, tão vividamente exposta por crises como Chernobyl e a presente pandemia de coronavírus, é como navegar neste mundo. A relevância das respostas de Beck é ainda mais saliente em nossos dias do que na década de 1980.

Beck foi, sob muitos aspectos, uma figura emblemática da Alemanha do pós-guerra. Depois de seu nascimento em 1944, perto da costa do Báltico, na cidade pomerana de Stolp, agora Slupsk na Polônia, a família de Beck fugiu do Exército Vermelho para se instalar na próspera cidade industrial de Hannover. Ele estudou sociologia não na famosa e radical Frankfurt, ou na Universidade Livre de Berlim, mas em Freiburg e Munique. No início da década de 1980, ele foi nomeado como professor de sociologia na pitoresca Bamberg, rio acima de Frankfurt. Após o sucesso da Sociedade de Risco, Ulrich Beck emergiria como o cientista social mais amplamente reconhecido da Alemanha depois de Jürgen Habermas.

Não é à toa que Beck foi apelidado de “sociólogo zeitgeist”. O mundo intelectual ao qual ele estava reagindo no início da década de 1980 na Alemanha Ocidental era de considerável incerteza. O ímpeto reformista das décadas de 1960 e 1970 havia diminuído. O governo do chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Kohl tinha pouco da energia do presidente dos EUA, Ronald Reagan, ou da primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher. Habermas caracterizou o período em termos intelectuais e políticos como die neue Unübersichtlichkeit − a nova obscuridade. O movimento mais comum foi caracterizar o período como uma era de “pós-” − pós-industrial, pós-moderno, pós-colonial. Contudo, como Beck disse, o uso do termo “pós” era um marcador de nossa prostração, o equivalente intelectual do bastão de um cego tateando no escuro. Diante do desafio de fornecer uma definição positiva, Beck escolheu a sociedade de risco.

No início da década de 1980, o tema do risco estava no ar. A escalada da tensão da Guerra Fria criou uma sensação generalizada de ameaça. A campanha contra o DDT, cujo o best-seller Silent Spring de Rachel Carson deu grande destaque, exacerbou a sensibilização sobre a poluição química invisível. O incidente de Three Mile Island em 1979 evidenciou o perigo de acidentes nucleares. Nos Estados Unidos em 1982, Mary Douglas e Aaron Wildavsky esboçaram sua teoria cultural do risco, apoiada no trabalho antropológico anterior de Douglas. Charles Perrow alertou que, ao conviver com sistemas complexos e massivos, como os sistemas de controle de tráfego aéreo, represas e reatores nucleares, os acidentes devem ser admitidos como normais.

A contribuição de Beck em Sociedade de Risco consiste em uma persuasiva interpretação sociológica desse senso generalizado de ameaça indefinida, mas onipresente, tanto como uma questão de experiência pessoal e coletiva quanto de uma época histórica. Mais do que isso, a Sociedade de Risco é uma espécie de manifesto, propondo uma nova atitude perante – e uma nova política para – a realidade contemporânea.

A primeira onda de modernização do Ocidente foi levada adiante por uma superação entusiástica da tradição e uma subordinação confiante da natureza por meio da ciência e da tecnologia. Em uma constatação desorientadora no final do século XX, essas mesmas energias, essas mesmas ferramentas eram então fonte não apenas de nossa emancipação, mas também de nossa autoameaça. Recuar seria colocar em risco os benefícios da modernização. Não podemos negar os benefícios da medicina moderna. Mas tampouco podemos negar seus riscos e efeitos colaterais, intencionais e não intencionais. Era necessária uma “abordagem científica da ciência” – na falta de uma descrição melhor. O desafio desta era, que Beck batizou de segunda modernidade ou modernidade reflexiva, seria encontrar maneiras de empregar as ferramentas da modernidade – da ciência, da tecnologia e do debate democrático – sem sucumbir às sempre presentes tentações de olhar para trás, para uma era mais familiar, ou viver na negação.

Não é uma tarefa fácil. Não existe uma fórmula liberal familiar para lidar com os riscos contemporâneos criados pelo desenvolvimento tecnológico moderno. Não se trata de denunciar ditaduras ou populismos xucros. Na verdade, há todas as razões para pensar que os problemas da sociedade de risco serão mais agudos precisamente para aqueles que se julgam particularmente razoáveis e modernos, porque não podem escapar de seus dilemas e paradoxos.

Beck compartilhou com o movimento ambientalista das décadas de 1970 e 1980 da consciência ascendente dos gigantescos riscos produzidos pelo desenvolvimento econômico moderno. Foi a questão nuclear que catapultou a sociedade de risco para a consciência pública. Porém, a década de 1980 também testemunhou o surgimento de uma consciência generalizada tanto da mudança climática quanto do “paradigma das doenças emergentes”. Se a mudança climática foi resultado de emissões de carbono, o surgimento de vírus como o HIV e o coronavírus SARS-CoV-2 teriam origem na intrusão de humanos em delicados ecossistemas florestais e nos vastos criadouros de animais do complexo agroindustrial. Como cidadãos de sociedades modernizantes bem-sucedidas, enfrentamos riscos generalizados que fundamentalmente diluem a fronteira entre o social e o natural. Beck poderia ser corretamente apontado como um dos primeiros pensadores do que hoje conhecemos por Antropoceno.

Beck vai um passo além, no entanto. Se é verdade que agora enfrentamos riscos ubíquos gerados e lançados sobre nós pelas forças da modernidade, embora não acessíveis aos nossos sentidos imediatos, como podemos lidar com isso? Até que você comece a sofrer de envenenamento por radiação, até que seu feto sofra uma mutação horrível, até que você descubra seus pulmões cheios de pneumonia, a ameaça da radiação ou de um inseto misterioso é irreal, inacessível a olho nu ou percepção imediata.

Na sociedade de risco, tornamo-nos radicalmente dependentes do conhecimento científico especializado para definir o que é e o que não é perigoso antes que nos deparemos com esse perigo. Tornamo-nos, como Beck coloca, “incompetentes nas questões” da nossa “própria aflição”. Alienados de nossas faculdades de avaliação, perdemos uma parte essencial de nossa “soberania cognitiva”. O nocivo, o ameaçador, o hostil estão à espreita em todos os lugares, mas se trata-se de algo hostil ou amistoso está “além de nosso poder de julgamento”. Assim, enfrentamos um choque duplo: uma ameaça à nossa saúde e sobrevivência e uma ameaça à nossa autonomia para avaliar essas ameaças. À medida que reagimos e lutamos para retomar o controle, não temos alternativa senão “tornarmo-nos modestos especialistas particulares interinos em riscos da modernização”. Fazemos um curso intensivo de epidemiologia e nos informamos sobre o “R zero”. Contudo, esse esforço apenas nos leva mais adentro no labirinto.

A lógica experiencial regular do pensamento cotidiano é invertida. Ao invés de partir da experiência imediata e então abstrair para afirmações gerais sobre o mundo, as notícias do dia começam com referências a fórmulas matemáticas, testes químicos e pareceres médicos. Quanto mais dependemos da ciência, mais nos distanciamos da realidade imediata. Cada encontro com nossos concidadãos, enquanto realizamos nossas atividades ordinárias, é obscurecido por um cálculo de riscos virtuais e da probabilidade de contaminação. O resultado é paradoxal. O caminho da ciência nos leva a um reino no qual forças ocultas, como os deuses e demônios da antiguidade, ameaçam nossas vidas terrenas. Uma estranha mistura de medo e cálculo nos persegue em nossos “próprios sonhos”. Enquanto a religião animista dotava a natureza de espíritos, agora vemos o mundo através das lentes das causalidades latentes e onipresentes. “Substâncias perigosas e hostis se escondem atrás de fachadas inofensivas. Tudo deve ser visto com um duplo olhar e só pode ser corretamente compreendido e julgado por meio dessa duplicação. O mundo do visível deve ser investigado, relativizado e avaliado em relação a uma segunda realidade, existente apenas conceitualmente e oculta no mundo”.

Como aprendemos durante a pandemia COVID-19, uma das principais funções de uma máscara facial é lembrar a si mesmo dos perigos invisíveis e sinalizar aos outros que estamos levando esses riscos a sério. Nos Estados Unidos, elas se tornaram algo como um dogma, uma forma de indicar publicamente que se pertence àqueles que levam “a ciência” a sério.

“Como o olhar do exorcista, o olhar do contemporâneo atormentado pela poluição é direcionado a algo invisível”. “Poluentes e toxinas onipresentes” assumem o papel dos espíritos. Em nosso esforço para enfrenta-los, desenvolvemos nossos “próprios rituais de evasão, mandingas, intuições, suspeitas e certezas”. Claro, isso não é exorcismo, insistimos. Trata-se de ciência, medicina, engenharia, tecnologia. Entretanto, fazer referência a essas autoridades não resolve efetivamente nosso problema. Porque na maioria dos assuntos com os quais nos preocupamos, parece que a ciência fala com muitas vozes. A ciência é, na melhor das hipóteses, um coro turbulento e obstinado, composto por muitas pessoas com ideias diferentes sobre a melodia que deveriam cantar. Como descobrimos em 2020, para nosso horror, é ingênua ou está de má-fé qualquer pessoa que professa acreditar que a medicina, a ciência e o conhecimento especializado em saúde pública nos dirão por si mesmos como agir. Apesar da perplexidade e do déficit de informação, não podemos nos esquivar da responsabilidade do julgamento político pessoal e coletivo.

Quanto mais sabemos, ademais, mais percebemos que não somos os únicos a emitir juízos. Cada parte interessada está selecionando e escolhendo suas fontes. É uma exposição esclarecedora, mas também chocante, sobre como é feita realmente a salsicha do conhecimento moderno. Isso, como Beck nos lembra, “não seria tão dramático e poderia ser facilmente ignorado se pelo menos não se estivesse lidando com riscos muito reais contra si próprio”.

É claramente um mundo profundamente moderno, saturado de tecnologia e expertise. Mas não é uma imagem simples da modernidade, na qual a razão científica marcha para a vitória contra a superstição e a censura. Quem dera fosse tão simples. Pelo contrário, nos encontramos em um mundo no qual o racionalismo e o ceticismo se voltam contra si mesmos. O conhecimento não vem cuidadosamente embalado na forma da verdade nitidamente reconhecível, mas em “misturas” e “amálgamas”. Ele é transportado por “agentes do conhecimento com suas combinações e oposições, suas fundamentações e argumentações, seus erros, suas irracionalidades”, tudo o que obviamente contribui para definir a possibilidade de eles saberem sobre as coisas que eles afirmam saber.

Como observa Beck, “é um desenvolvimento de grande ambivalência. Ele representa a oportunidade de emancipar a prática social do poder da ciência por meio da própria ciência”. Conseguimos uma compreensão muito mais realista da geração dos resultados científicos e da produção das vacinas. Mas a desilusão e o ceticismo resultantes também têm o potencial de imunizar “ideologias prevalecentes e pontos de vista interessados contra afirmações científicas esclarecidas, abrindo a porta para uma feudalização das práticas do conhecimento científico por meio de interesses econômicos e políticos e ‘novos dogmas’”.

O progresso tecnológico está revolvendo a natureza e gerando um contragolpe massivo e perigoso. No momento em que mais precisamos dele para nos orientar, a ciência e as decisões do governo baseadas nela perdem sua base de legitimidade. À medida que toda a extensão desse choque se instala, desencadeia-se um terceiro processo de desestabilização: começamos a questionar as narrativas mais gerais de progresso e história com base nas quais entendemos nosso presente.

A abertura de Beck à ambiguidade e à complexidade do desenvolvimento global, sua insistência na surpreendente multiplicidade e qualidade de reações potenciais à sociedade de risco: tudo isso faz com que seu livro continue um mapa relevante para ler nossa situação atual. Se voltarmos a 1986, Beck antecipou três maneiras pelas quais as sociedades lidam com os riscos que ele identificou.

O próprio Beck teve esperança no que ele chamou de uma micropolítica cosmopolita. Esta era uma extensão lógica do seu modelo de modernidade reflexiva, na qual não somente a ciência havia perdido seu trono, mas também a esfera anteriormente demarcada da política nacional, dominada por parlamentos, governos soberanos e estados territoriais. O que a Europa testemunhou no começo da década de 1980 foi um duplo movimento que, por um lado, reduziu dramaticamente a intensidade do conflito político entre partidos na esfera parlamentar e, ao mesmo tempo, politizou domínios anteriormente não políticos, como relações de gênero, a vida familiar e o ambiente, esferas que Beck chamou de “subpolítica” ou “micropolítica”. Para Beck, isso não era motivo de lamento. O desafio era revigorar as subpolíticas em qualquer escala que elas operassem. Tal escala poderia ser intensamente local, como por exemplo, conflitos sobre projetos de estrada ou de pistas de aeroportos. Mas também poderia ser de escopo global. Ulrich Beck O sociólogo

A descoberta do SARS em 2003 na China foi, para Beck, uma demonstração de uma micropolítica global em ação. Novas redes de “atores de risco” lideradas por médicos, pesquisadores e especialistas em saúde pública independentes superaram os esforços iniciais do Estado chinês para manter tudo em segredo. Se o Partido Comunista Chinês (PCC) teve seu momento Chernobyl, foi esse. A política ambiental de baixo para cima[2] e o ativismo por justiça social foram, para Beck, o modelo para o novo modo de política. Mas pode-se pensar também sobre o esforço notável envolvido em estabilizar uma instituição como o Painel Intergovernamental de Mudança Climática enquanto autoridade global no mapeamento da emergência climática, envolvendo um esforço incansável e massivo de políticas científicas. Vez após vez, cientistas do clima ao redor do mundo, usando modelos diferentes, partindo de pressuposições distintas, pagos por governos com interesses opostos, lutaram para reconciliar suas diferenças e definir espaços razoáveis de concordância. A realidade desse tipo de ciência parece mais com o funcionamento de um sistema complexo de arbitragem legal do que com a imagem imaculada de uma bancada de laboratório.

Todavia, como Beck reconheceu, haviam também outras duas possibilidades. Uma delas era a possibilidade de uma política retro, no estilo de volta para o futuro. Uma política que visaria restaurar a certeza do desenvolvimento social e o domínio da política organizada e da razão científica que guiou a primeira modernidade. A “guerra ao terror” dos Estados Unidos foi uma tentativa nesse sentido, transformando um risco de segurança do século XXI em uma guerra convencional contra o regime de Saddam Hussein no Iraque. Foi um desastre. O exemplo de esforço mais bem sucedido de controlar a sociedade de risco dentro do enquadramento de uma modernidade industrial clássica é a China. A sua resposta à crise do COVID-19 pôs isso em plena exposição. O COVID-19 foi contido e o domínio do PCC assegurado através da mobilização galopante de disciplina societal, aplicação direcionada de gastos médicos e poder estatal, tudo revestido com o disfarce do que o regime chama de Marxismo do século XXI, uma narrativa autoconfiante de modernização e progresso. Não há espaço para questionar o épico moderno que é o sonho da China. A falta de uma atitude positiva é suficiente para gerar suspeita.

Outra resposta, bastante comum nos Estados Unidos de hoje em dia, é uma fuga do redemoinho vertiginoso de racionalidade auto-reflexiva em direção a novos tabus, superstição, rigidez e negação. Segundo Beck, essa resposta não deveria ser compreendida como um remanescente de costumes tradicionais, mas como uma nova superstição surgida em resposta a novas ameaças. Dada a incerteza crescente da sociedade de risco, não é nem um pouco surpreendente que alguns reajam dessa forma. Durante a resposta ao COVID-19, era fácil se ver dividido entre dois campos descritos por Beck em seu artigo sobre Chernobyl: “Alguns se recusam a sequer perceber os perigos, enquanto outros insistem vigorosamente em condenações indiscriminadas em nome da ‘auto-proteção’ ou da preservação da ‘vida nessa terra’”. Como decidir entre essas posições? A polarização de visões nos argumentos circulares da sociedade de risco poderia se estender facilmente para a própria ciência. Se, em uma versão falibilista honesta, “a ciência é somente um erro dissimulado em suspenso… então de onde se tira o direito de acreditar somente em alguns riscos?” Um ceticismo realista sobre a autoridade científica se misturou facilmente com uma ofuscação geral dos riscos. Como Beck admitiu em Sociedade de Risco, foi um “fio da navalha”, no qual debates sobre riscos invisíveis se transformaram em um “tipo de seção espírita moderna” na qual o indicador do tabuleiro de Ouija se movia de acordo com análises científicas e contracientíficas rivais.

“Quando o invisível for introduzido”, escreveu Beck, “não serão somente os espíritos dos poluentes que determinarão o pensamento e a vida das pessoas. Tudo isso pode ser disputado, pode polarizar, ou pode ser fundido. Emergem novas comunidades e comunidades alternativas, cujas visões de mundo, normas e certezas se agrupam em torno do centro de ameaças invisíveis.” Como não pensar em nossa luta contínua acerca das máscaras faciais?

E então há a negação. Fora de um cenário totalitário, um problema social tal qual uma luta trabalhista não pode ser facilmente resolvida por negação. Mas riscos percebidos “sempre podem ser atenuados[3] (desde que ainda não tenham ocorrido)”. Salvo o desastre propriamente dito, a ansiedade crescente pode ser aliviada, basta só afastar o perigo da consciência. O risco é uma questão de percepção; logo, ele começa “no conhecimento e nas normas, e pode então ser ampliado ou reduzido no conhecimento e nas normas, ou simplesmente deslocados da tela da consciência”. A consciência de riscos modernos não era uma via de mão única. Era de dois sentidos. “Épocas turbulentas e gerações podem ser sucedidas por outras para as quais o medo, domado por interpretações, é um elemento básico do pensamento e da experiência. Aqui, as ameaças são cativadas na gaiola cognitiva de sua sempre instável ‘não-existência’”. Gerações posteriores olhariam para trás e zombariam dos medos que outrora “tanto perturbavam os ‘velhos’”. Há um refrão comum na resposta ao COVID-19, visto notavelmente entre os populistas das Américas, seja nos Estados Unidos, no México ou no Brasil: A gente vai ter que se acostumar. Afinal de contas, vivemos com a gripe. Vai passar.

Como Beck avisou há mais de 30 anos atrás, podemos estar “no começo de um processo histórico de habituação. Pode ser que a próxima geração, ou a geração depois da próxima, não se incomode mais com imagens de defeitos congênitos, como aquelas dos peixes e pássaros cobertos de tumores que circulam agora ao redor do mundo, assim como não estamos mais incomodados hoje com valores violados, com a nova pobreza e um permanente alto nível de desemprego em massa”. A notícia da Casa Branca no verão de 2020 é que os estrategistas de Trump estão esperando ansiosamente pelo dia em que as notícias de dezenas de milhares de novos casos por dia não mais provoquem manchetes.

Beck era, no fundo, mais um sociólogo do que um teórico crítico ou um teórico político normativo. Ele não denunciou o desenvolvimento da negação ou da irracionalidade, mas o mapeou e explicou. Lidando com a sociedade de risco, é preciso considerar sua força motriz mais básica: a emoção poderosa que é o medo. A questão básica que colocava era a seguinte:

Como podemos lidar como medo, se não podemos superar as causas do medo? Como podemos viver no vulcão da civilização sem esquece-lo deliberadamente, mas também sem sufocarmos nos medos – e não só nas fumaças que o vulcão expele?

Em 2020, essa questão é ainda mais premente do que em 1986.

Beck não está mais conosco para nos ajudar com a resposta. Ele morreu repentinamente de um ataque do coração no dia de ano novo em 2015, enquanto caminhava da Universidade Ludwig Maximilian de Munique para casa.

Sociedade de Risco tornou-o uma das figuras emblemáticas das ciências sociais europeias de seu tempo. O livro foi traduzido para 35 idiomas. Há nada menos do que 8.000 artigos se referindo à obra de Beck em periódicos acadêmicos chineses. Surpreendentemente, Sociedade de Risco só apareceu na língua inglesa em 1992 e, se comparado a sua reputação na Europa e na Ásia, o impacto de Beck na cena acadêmica nos Estados Unidos foi pequeno. Para o mainstream das ciências sociais estadunidenses, faltava-lhe rigor. Começando na década de 1980, a economia comportamental e as ciências sociais experimentais ganharam cada vez mais destaque na explicação da maneira como as pessoas formam julgamentos na incerteza. Para empreendedores intelectuais da esquerda estadunidense, que estão no mercado em busca de importações continentais exóticas, Beck não era radical o suficiente. Eles preferiam suas teorias em francês. Em termos políticos, Beck, assim como seu amigo e colaborador Anthony Giddens, estavam associados, durante as décadas de 1990 e 2000, com o Primeiro Ministro Britânico da Terceira Via, Tony Blair, e com a coalizão verde-vermelha na Alemanha.

Mas a recepção tímida de Beck nos Estados Unidos não se explica somente em termos de política acadêmica. É preciso também se perguntar se o alcance da imagem da condição cultural contemporânea se estendia através do Atlântico. O próprio Beck se inspirou nas políticas ambientais estadunidenses das décadas de 1960 e 1970, que lideraram o mundo no direcionamento da pesquisa científica para propósitos críticos. O híbrido de tecnologia e religião New Age do Vale do Silício poderia ser mencionado como uma instância clássica da segunda modernidade de Beck – magos da tecnologia imensamente ricos sem medo de buscar esclarecimento onde quer que possam encontra-lo, seja na yoga, em dietas mirabolantes ou em idas xamânicas ao festival Burning Man. Mas a política nacional dos Estados Unidos compunha um cenário bem diferente. Como entender um sistema político agitado por discussões sobre a interpretação de uma constituição do século XVIII, os méritos de ensinar a versão bíblica da criação e a veracidade da ciência climática? Havia bastante oposição às políticas climáticas na Europa vinda de empresas de combustíveis fósseis interessadas em si mesmas, mas poucas vozes no mainstream questionando o consenso científico estabelecido laboriosamente. E nos Estados Unidos, tudo isso veio disfarçado em um nacionalismo quase-teológico, incorporado no modo de vida sacrossanto do país.

Nos Estados Unidos de 2020, diante da confluência da religião evangélica, a presidência de Trump e teorias de conspiração como a QAnon, é tentador concluir que o anúncio de Beck sobre a vinda da segunda modernidade foi prematuro. É tentador reunir as tropas liberais e anunciar que, nos Estados Unidos de hoje, não são as lutas da modernidade reflexiva – a auto-geração de incerteza e risco – que precisam ser lutadas, mas sim as batalhas da primeira modernidade, contra a superstição, o atavismo e o obscurantismo.

Essa perspectiva pode ser atraente. Porém, ela ignora o fato óbvio de que o vortex de tele-evangelismo, a presidência de reality show e memes virais da internet são produtos de nosso capitalismo de alta tecnologia, inimagináveis em uma era anterior. Responde-los com um recuo ao racionalismo é entrar no que o sociólogo britânico Will Davies chamou recentemente de “Iluminismo kitsch.” O que estamos vivendo é realmente a segunda modernidade de Beck, porém, em uma versão mais conflituosa e catastrófica do que ele jamais imaginou. Daí, talvez, o atrativo do cenário de Chernobyl. Quão agradável é imaginar que nossos problemas são aqueles do regime soviético tardio e que o que precisamos é simplesmente uma dose de liberdade e perestroika, quando o caminho real do progresso é mais ambíguo e mais abrangente, porque implica o país como um todo.

Se eram poucos os leitores de Beck nos Estados Unidos, o mesmo não era verdade na Ásia Oriental, onde desde a década de 1980, o sociólogo alemão cultivou seguidores devotos. Beck foi, notavelmente, atraente para cientistas sociais coreanos dedicados a crítica de seu modelo nacional de modernidade autoritária. Para Beck, o entusiasmo com o qual seu conceito de segunda modernidade foi adaptado para cientistas sociais asiáticos era prova viva do dinamismo e abertura da realidade que ele tentava descrever. Nessas colaborações, foi posto em movimento um processo que provincializou conceitos e a história europeia sem condena-los a irrelevância. Japão, Coréia do Sul e China passavam por uma revolução industrial mais rápida do que qualquer coisa experimentada no Ocidente. Eles eram grandes laboratórios do Antropoceno e da apropriação desmedida da natureza.

Em julho de 2014, Beck visitou Seul e discorreu sobre as implicações de seu modelo da sociedade de risco para pensar sobre crises como o acidente nuclear em Fukushima em 2011, a tragédia do naufrágio de Sewol na Coréia em 2014 e a praga da poluição aérea na China. Beck estava particularmente interessado em sugerir caminhos possíveis para a Ásia Oriental superar criativamente o legado amargo da história do século XX, se não no nível da política nacional, então através da subpolítica da cooperação entre megacidades da região que estavam a emergir rapidamente como centros globais. A administração progressiva da cidade de Seul inaugurou um laboratório urbano para incorporar as ideias de Beck em seu planejamento urbano. Chocados pela sua morte repentina na primavera de 2015, seus colaboradores sul-coreanos realizaram um culto budista comemorativo no qual o prefeito de Seul, na época um dos líderes da oposição coreana, fez a oração fúnebre.

Sem dúvida, Beck apreciaria o gesto sincrético. Cinco anos depois, ele estaria ainda mais feliz vendo o mundo todo aprendendo a lidar com a crise do COVID-19 com um governo sul-coreano progressista. Diante da oposição amarga de grupos de interesse médicos, o governo da Coréia do Sul mobilizou efetivamente coalisões de empresas e cientistas para entregar testagens e mapeamentos rápidos e efetivos. Em vez de se apoiar em clichês sobre conformidade confuciana à normas coletivas, eles buscam construir confiança através de transparência e entrega eficaz. Além de conter a epidemia, o governo do Partido Democrático realizou uma eleição nacional no meio da crise e ganhou por muito. O país oferece um exemplo, no que resta dessa pandemia, de como acertar na sociedade de risco.

Adam Tooze é professor de história e diretor do Instituto Europeu da Universidade de Columbia. Seu último livro é Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World, e ele está atualmente trabalhando na história da crise climática.

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