25 de julho de 2020

Por que os super-ricos estão ficando cada dia mais ricos

Bilionários como Jeff Bezos não são obscenamente ricos porque trabalham mais ou são mais inovadores. Eles são obscenamente ricos porque seus impérios corporativos drenam os recursos – e todos nós estaríamos melhor sem eles.

Grace Blakeley

Jacobin

À medida que mais áreas de nossas vidas ficam sujeitas ao poder da grande tecnologia, a fortuna de pessoas como Jeff Bezos continuará aumentando. (Wikimedia Commons).

Tradução / Na semana passa, o CEO da Amazon, Jeff Bezos, viu o maior aumento de riqueza em um dia já registrado para um único indivíduo na terra. Em apenas um dia, sua fortuna aumentou em US$ 13 bilhões. Nas tendências atuais, ele está no caminho de se tornar o primeiro trilionário do mundo até 2026.

As pessoas de direita argumentam que a riqueza extrema é fruto do trabalho duro, da criatividade e da inovação que beneficia a sociedade. Mas a desigualdade de riqueza e renda aumentou dramaticamente nas economias mais avançadas nos últimos anos. Hoje, os mais ricos são muito mais ricos do que eram há várias décadas, embora não pareça que eles estejam trabalhando mais.

Economistas da mídia fazem uma versão mais sutil desse argumento. Eles afirmam que o aumento dramático da desigualdade de renda foi impulsionado pela dinâmica da globalização e pelo aumento das “estrelas”. As empresas e os executivos corporativos estão agora competindo em um mercado global de capital e talento; portanto, as recompensas no topo são muito maiores – mesmo quando a concorrência também restringe os salários de muitos no final da distribuição.

De acordo com essa visão, altos níveis de desigualdade são uma recompensa pela alta produtividade. As empresas mais produtivas atrairão mais investimento do que suas concorrentes menos produtivas, e seus gerentes, que estão executando um trabalho muito mais complexo do que aqueles que gerenciam empresas menores, serão recompensados de acordo.

Mas aqui novamente a narrativa encalha quando entra em contato com a realidade. A produtividade não aumentou ao lado da desigualdade nos últimos anos. Nos EUA e no Reino Unido, a produtividade se estabilizou desde a crise financeira de 2008 – e nos EUA, vem diminuindo desde a virada do século.

Há outra explicação para os enormes lucros das maiores corporações do mundo e as enormes fortunas dos super-ricos. Não é maior produtividade. Não é a globalização. Mas o aumento do poder do mercado global.

Muitas das maiores empresas de tecnologia do mundo se tornaram oligopólios globais e monopólios domésticos. A globalização desempenhou um papel aqui, é claro – muitas empresas domésticas simplesmente não podem competir com multinacionais globais. Mas essas empresas também usam seu tamanho para reduzir salários, evitar impostos e arrancar vantagens de seus fornecedores, além de pressionar os governos a fornecer tratamento preferencial.

Jeff Bezos e Amazon são um exemplo disso. A Amazon se tornou a maior empresa da América por meio de práticas anticoncorrenciais que a colocaram em problemas com as autoridades que regulam a concorrência da União Europeia. As práticas de trabalho em seus armazéns são notoriamente apavorantes. E um estudo do ano passado revelou que a Amazon é uma das “entidades mais agressivas que evitam impostos” do mundo.

Parte da razão pela qual a Amazon tem se esforçado tanto para manter sua posição monopolista é que seu modelo de negócios depende de efeitos de rede que só são obtidos em uma determinada escala. Empresas de tecnologia como a Amazon ganham dinheiro monopolizando e depois vendendo os dados gerados pelas transações em seus sites.

Quanto mais pessoas se inscreverem, mais dados serão gerados; e quanto mais dados gerados, mais úteis são esses dados para quem os analisa. A monetização desses dados é o que gera a maior parte dos retornos da Amazon: o Amazon Web Services (AWS) é a parte mais rentável dos negócios.

Longe de representar sua utilidade social, o valor de mercado da Amazon – e a riqueza pessoal de Bezos – reflete seu poder de mercado. E o crescente poder de mercado de um pequeno número de empresas maiores reduziu a produtividade. Essa concentração também restringiu o investimento e o crescimento dos salários, uma vez que essas empresas simplesmente não precisam competir por trabalho, nem são forçadas a inovar para competir com seus rivais.

É muito mais provável que eles usem seus lucros para recomprar suas próprias ações ou adquirir outras empresas que aumentarão sua participação no mercado e lhes darão acesso a mais dados. A recente aquisição da Whole Foods pela Amazon provavelmente será a primeira de muitas dessas mudanças feitas por empresas de tecnologia. Em vez da lógica darwiniana de competir ou morrer, as empresas de tecnologia enfrentam um imperativo diferente: expandir ou morrer.

Os Estados estão apoiando essa lógica com uma política monetária excepcionalmente flexível. As baixas taxas de juros facilitam o empréstimo de grandes empresas para financiar fusões e aquisições. E a flexibilização quantitativa – desencadeada em uma escala sem precedentes para combater a pandemia – serviu simplesmente para elevar os preços das ações, especialmente para as grandes empresas de tecnologia.

À medida que mais áreas de nossas vidas ficam sujeitas ao poder da grande tecnologia, a fortuna de pessoas como Bezos continuará aumentando. Sua riqueza crescente não representará uma recompensa pela inovação ou criação de empregos, mas pelo poder de mercado, que lhes permitiu aumentar a exploração de sua força de trabalho, arrancar vantagens de fornecedores e evitar impostos.

A única maneira real de combater essas desigualdades é democratizar a propriedade dos meios de produção e começar a devolver ao povo as principais decisões de nossa economia. Espera-se que mesmo os social-democratas, que não adotam políticas transformadoras, pudessem adotar medidas como um imposto sobre a riqueza.

“Reconstruir melhor” após a pandemia será impossível sem esse imposto – e a grande maioria dos eleitores trabalhistas e conservadores apóia essa abordagem no Reino Unido por exemplo, segundo uma pesquisa recente. Mas, no entanto, parece que a liderança do Partido Trabalhista está se afastando da ideia.

Em uma entrevista, perguntaram-me por que deveríamos nos preocupar com a riqueza de Jeff Bezos, se isso melhora a situação de todos. Mas as desigualdades extremas geradas pelo capitalismo moderno estão tornando óbvio algo que os marxistas conhecem há décadas: os super-ricos geram sua riqueza às custas dos trabalhadores, do planeta e da sociedade como um todo.

Em uma sociedade racional e justa, os vastos recursos de uma pequena elite seriam utilizados para resolver nossos dramáticos problemas sociais.

Sobre a autora

Grace Blakeley é redatora da Tribune e autora de Stolen: How to Save the World from Financialisation.

24 de julho de 2020

O discurso anti-sexismo de Alexandria Ocasio-Cortez foi um triunfo

O discurso abrasador de Alexandria Ocasio-Cortez conectou poderosamente sua experiência com o sexismo com os problemas mais amplos do patriarcado e do assédio em local de trabalho. Foi prova, mais uma vez, de que é muito bom ter socialistas democráticas no cargo.

Hadas Thier 


Créditos da foto: A deputada Alexandria Ocasio-Cortez fala no plenário da Câmara sobre seu confronto com o deputado Ted Yoho (Still from C-SPAN coverage)


Tradução / Em dez minutos muito satisfatórios, a deputada de Nova Iorque Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) escancarou a sujeira deixada pelo Republicano Ted Yoho no chão da Câmara. A resposta de AOC aos recentes comentários misóginos do deputado da Flórida (e ao seu subsequente não-pedido de desculpas) foi muito mais do que uma “lição liberal sobre decência”. Foi uma acusação abrasadora e eloquente do chauvinismo societário e do assédio no local de trabalho nos EUA – e prova, mais uma vez, os benefícios de ter socialistas democráticas no cargo.

Na semana passada, Yoho – que recentemente votou contra a decisão de estabelecer o linchamento como crime de ódio – disse à AOC que ela era “nojenta”, “louca” e “perigosa” nos degraus do Capitólio por causa de seus comentários ligando taxas de crime à pobreza. E ele então a chamou “vadia da porra” na frente da imprensa. Na manhã de quarta-feira na Câmara, Yoho recitou um não-pedido de desculpas pelo “jeito grosseiro” com o qual falou com AOC, enquanto explicava que “não pode se desculpar pela sua paixão ou pelo seu amor a Deus, a sua família e ao seu país”.

Na quinta-feira de manhã, AOC dilacerou Yoho. Sendo mais objetivo, ela falou sobre as normas da sociedade que aceitam a misoginia. “Isso não é novo”, ela disse, na Câmara. “E esse é o problema.” AOC relembrou os assédios que sofria quando era garçonete e bartender. Ela ainda explicou: “Essa questão não é sobre um incidente. É algo cultural. É uma cultura da....impunidade, da aceitação da violência e da linguagem violenta contra mulheres e de uma estrutura inteira de poder que suporta isso.”

AOC lamentou como Yoho usa sua esposa e filhas como escudos para desviar das críticas pelo seu comportamento sexista, apontando que ela, também, é a filha de alguém. “Esse mal que o Sr. Yoho tentou impor a mim não foi direcionado somente a mim. Quando você faz isso com qualquer mulher, o que o Sr. Yoho fez foi conceder permissão para outros homens fazerem isso com suas filhas ... e estou aqui para dizer que isso não é aceitável.”

Compare a resposta de AOC aos anos de feminismo liberal que prometeu manter o aborto seguro, legal e raro. Ou à proclamação absurda de Biden de que Donald Trump é o primeiro presidente racista do país. A abordagem tradicional do Partido Democrata ao fanatismo da extrema direita é ficar na defensiva, ou personalizar a questão como se os problemas do mundo pudessem ser resumidos à psicose de Trump, à interferência russa, ou aos Republicanos traiçoeiros.

Políticos socialistas democráticos como AOC, no entanto, focam sua atenção nas estruturas mais profundas da desigualdade e da opressão, que forneceram poder e plataformas para pessoas como Ted Yoho. Ocasio-Cortez notou que ela não tem um atrito pessoal com Yoho – o problema real é que sua explosão é algo comum. Ao invés de simplesmente se defender do ataque, ela foi para a ofensiva – amplificando a experiência de milhões de mulheres, e enquadrando o ataque dentro de uma análise do sexismo e da misoginia.

Assim como Bernie Sanders integrou demandas previamente marginalizadas como o Medicare for All, e Ilhan Omar levou o anti-imperialismo aos salões do Congresso, AOC está ajudando a popularizar o feminismo de esquerda – e ainda está dando confiança para mais e mais pessoas agirem.

Sobre a autora

Hadas Thier is an activist and socialist in New York, and the author of the forthcoming book A People's Guide to Capitalism: An Introduction to Marxist Economics.

23 de julho de 2020

A reforma fatiada

É crítica quase infantil citar que fazer só PIS-Cofins é um remendo

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo


Temos proposta de reforma do PIS-Cofins. O assunto é complicado, e já pipocaram as críticas usuais na imprensa.

Isso é normal, pois ninguém gosta de pagar imposto, muito menos de aumento da carga tributária. Vejamos as principais reclamações.

A primeira crítica é meio utópica, quase infantil: o ideal seria reformar todos os tributos indiretos ao mesmo tempo, fazer “somente” PIS-Cofins seria um remendo. Em resposta a essa crítica vale adaptar Churchill: sim, a reforma fatiada é a pior reforma tributária, exceto todas as outras formas já tentadas no Brasil.

Mais, já escrevi nesta coluna que juntar contribuição federal com imposto estadual e municipal em um só tributo é arriscado, quase irresponsável, pois pode tirar recursos da seguridade social.

A arrecadação de PIS, Cofins, ICMS e ISS pode ser integrada digitalmente, mas mantendo os tributos separados legalmente. Se a nova contribuição federal sobre bens e serviços der certo, ela abrirá caminho para o novo imposto estadual/municipal sobre bens e serviços.

Agora o principal: a proposta do governo onera os serviços para simplificar o sistema. Essa crítica pode estar certa ou errada, dependendo da narrativa adotada.

Hoje os serviços pagam 3,65% sobre faturamento (soma de lucros, salários e gasto com insumos). Com a reforma, os serviços pagarão 12% sobre valor adicionado (lucros e salários). Como o valor adicionado responde pela maior parte do faturamento nos serviços, os serviços pagarão mais imposto em relação à situação vigente.

Porém, se considerarmos somente o valor adicionado, hoje há subtributação de serviços e supertributação da indústria no Brasil. A reforma do governo corrige a distorção, equalizando o tratamento entre os setores. Acho essa visão mais correta, a reforma diminui a desoneração dos serviços.

Outro avanço da reforma é simplificar o PIS-Cofins, fazendo com que toda compra de insumos gere crédito tributário, no valor declarado na nota fiscal, para utilização no pagamento dos impostos devidos na venda do produto. Esse é o padrão nos países avançados que têm imposto sobre valor adicionado, melhorando a produtividade e a competitividade da economia.

Paro para dar parabéns ao governo, especialmente ao pessoal da Receita Federal, que já tinha essa proposta pronta desde 2012 (sim, isso foi outra autocrítica ao PT).

Voltando, a grande dificuldade da proposta do governo é que quem paga menos vai ter que pagar mais e isso será inicialmente transferido ao preço. Em outras palavras, é necessário eliminar a desoneração de serviços no Brasil, mas se isso for feito muito rapidamente, haverá grande elevação de preço em várias atividades, como educação e saúde privada.

A saída do problema é modular a migração para a nova alíquota, evitando aumento abrupto de 3,65% sobre faturamento para 12% sobre valor adicionado. Uma transição de quatro a oito anos diminuirá, mas não eliminará, a chiadeira dos serviços.

O grande desafio da reforma da tributação indireta no Brasil é que a indústria quer se desonerar onerando os serviços, enquanto os serviços querem se desonerar onerando todo mundo com uma nova CPMF.

Nessa briga a indústria tem razão, pois paga relativamente mais tributos do que o resto da economia, mas o governo adotou uma postura intermediária no PIS-Cofins: haverá simplificação, mas não desoneração da indústria. E haverá oneração dos serviços, para alinhar a tributação entre os dois setores. Resta definir transição gradual para evitar tarifaço em uma economia que ainda não saiu da estagnação.​

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

22 de julho de 2020

Lucio Urtubia (1931-2020)

O pedreiro anarquista Lucio Urtubia fez seu nome roubando bancos para financiar revolucionários clandestinos na Espanha. Para ele, não havia nada de criminoso em suas expropriações de empresas como o Citibank – argumentando que “quem rouba um ladrão é mil vezes perdoado”.

Eoghan Gilmartin

Jacobin

Lucio Urtubia foi considerado o Robin Hood pela esquerda francesa e espanhola.

Tradução / Quando Lucio Urtubia foi preso no café de Paris, Les Deux Magots, em 1980, a polícia francesa não conseguia acreditar que esse humilde pedreiro era o cérebro por trás da trama internacional para saquear o Citibank. Nos últimos meses, Urtubia vinha distribuindo milhares de cheques de viagem a grupos revolucionários em toda a Europa, das Brigadas Vermelhas na Itália ao ETA no País Basco. A resposta do Citibank apenas aprofundou suas perdas ao proibir em toda a Europa os cheques de todos os viajantes acima de US$ 10 – cortando assim a receita que normalmente gerava através de taxas e comissões.

Como os cheques de Urtubia se espalharam pela América do Sul após sua prisão, o Citibank ficou desesperado. Decidindo processar pela paz, o maior banco do mundo tinha pouca opções a não ser atender às demandas de seu inimigo: desistir de todas as acusações e entregar uma mala cheia de dinheiro (que Urtubia usaria mais tarde para financiar movimentos sociais na América Latina). Quando os dois lados se reuniram para finalizar o acordo, o chefe de segurança do Citibank se recusou a apertar sua mão, levando Urtubia a dizer aos financiadores: “Vocês são os verdadeiros criminosos. Vocês não sabem fazer nada além de financiar guerras e espalhar a morte.”

Lucio Urtubia, anarquista, antifascista, assaltante de banco e trabalhador da construção civil, morreu em Paris no último sábado, 18 de julho, aos oitenta e nove anos. Após sua morte, o vice-primeiro-ministro da Espanha, Pablo Iglesias, lembrou-se do exílio basco como “um pedreiro revolucionário que lutou a vida toda por um mundo melhor com a alegria de alguém que sabe que está plantando as sementes do futuro”. Considerado Robin Hood dos últimos dias pela esquerda francesa e espanhola, Urtubia se recusou a caracterizar suas ações como roubo, mas, como outros “bandidos sociais” que vieram antes dele, falou em desapropriação – alegando que “quem rouba um ladrão, é um mil vezes perdoado”.

A luta clandestina

Nascido em uma família pobre de esquerda em Navarra em 1932, Urtubia iniciou suas atividades extra-legais roubando o exército franquista enquanto ele fazia seu serviço militar na Espanha pós-Guerra Civil. “Foi uma enorme alegria roubar a pátria”, disse ele mais tarde ao jornalista Jordi Évole. Forçado a fugir da Espanha depois que um membro de sua gangue foi pego, Urtubia foi para Paris em 1954, onde começou a socializar com anarquistas catalães exilados da Confederação Nacional do Trabalho (CNT).

“Eu pensava que era comunista”, disse ele ao El Salto, “porque naquela época todos [na Espanha] que se opunham a Franco eram comunistas”. No entanto, em Paris, ele caiu sob a influência do líder anarquista Quico Sabaté, chefe de um bando de guerrilheiros catalães que fez uma série de ataques ousados a Barcelona controlada por Franco. Em seu livro Bandits Eric Hobsbawm afirmou que: “A chave para a carreira única de Sabaté depois de 1945 estava na superioridade moral que ele estabeleceu sobre a polícia pela política consciente de sempre avançar em direção a eles [e então desencorajá-los]… Pela sua pureza e simplicidade, Sabaté foi preparado para se tornar uma lenda.”

Depois que Sabaté foi preso na França, Urtubia começou a organizar diversos assaltos a bancos – doando grande parte do dinheiro a grupos que trabalhavam com presos políticos na Espanha. No entanto, ao contrário de seu mentor, ele não tinha estômago para a violência e, por fim, optou por se concentrar em falsificações. Durante as décadas de 1960 e 1970, Urtubia continuou trabalhando em tempo integral na construção civil, mas dedicou suas noites para forjar passaportes, carteiras de identidade e cheques para a luta política. Originalmente, os passaportes eram produzidos para refugiados sul-americanos e dissidentes espanhóis. Mais tarde, porém, membros do grupo Baader-Meinhof da Alemanha até os Panteras Negras os usariam.

Urtubia também estava convencido de que suas falsificações poderia ser usada para atingir o coração do sistema capitalista. Em uma reunião com Che Guevara, na capital francesa, em 1962, ele se ofereceu para ajudar Cuba a imprimir milhões de dólares falsificados – que o Estado comunista poderia usar para inundar o mercado e causar uma forte desvalorização da moeda. Che recusou a oferta, mas Urtubia mais tarde tentou colocar em prática uma versão do plano contra Franco – forjando milhares de cheques com o objetivo de desestabilizar os bancos espanhóis e, portanto, o regime.

O nobre bandido

Avida de Urtubia foi objeto de várias biografias, uma graphic novel e um brilhante documentário de 2007 chamado Lucio. Ele foi apelidado de “o último anarquista” – uma figura de uma época passada, imbuída de uma certeza inabalável na justiça de sua causa. Como ele diria na edição espanhola do Vice: “Não me arrependo de nada. Se tivesse que recomeçar minha vida, voltaria a fazer o mesmo. Uma coisa é ser anarquista em algum comitê, outra é estar diante do juiz acusado de terrorismo dizendo a ele: ‘Sim, meritíssimo, eu sou anarquista, porque acredito na anarquia’.”

Após sua prisão pela trama do Citibank, seu caso se tornou uma causa célebre na esquerda francesa – até porque as investigações legais subsequentes confirmaram que o dinheiro ganho com as falsificações estava sendo enviado para movimentos na América Latina e em outros lugares.

No tribunal, ele foi representado por Roland Dumas, “advogado de Picasso” e mais tarde ministro das Relações Exteriores sob François Mitterrand. Dumas também o defendeu das acusações relacionadas ao seqüestro do banqueiro franquista Angel Baltasar Suárez em 1974. O seqüestro foi uma resposta à execução do anarquista Salvador Puig Antich – com Suárez posteriormente libertado ileso. Após protestos contra o julgamento de ativistas antifascistas, o tribunal absolveu os nove acusados de todas as acusações no julgamento de 1981.

Hobsbawm escreveu sobre Sabaté que “considerações de alta política, estratégia e tática dificilmente afetavam homens de sua espécie”. Ele poderia facilmente estar falando de Urtubia, cuja “propaganda do ato” fazia ele praticar o anticapitalismo no dia-a-dia, como expropriador. Ainda aos oitenta e quatro anos, Urtubia alegou que ele não havia desistido de tal trabalho – embora ele não conseguisse mais elaborar suas atividades. “Ninguém tem a solução”, ele insistiu para Évole, “e por esse motivo, todos devemos lutar.”

Sobre o autor

Eoghan Gilmartin é escritor, tradutor e colaborador da Jacobin, com sede em Madri.

21 de julho de 2020

A história esquecida da esquerda judaica anti-sionista

As raízes do sionismo moderno estão no colonialismo. Esta foi a base da oposição da esquerda judaica ao sionismo nas décadas de 1930 e 40, com o fundamento de que é uma forma de nacionalismo e imperialismo de direita que se opõe fundamentalmente ao internacionalismo da classe trabalhadora.

Uma entrevista com
Benjamin Balthaer


Um comício do Bundist em Bruxelas por volta de 1935. Foto: Arquivos YIVO.

Tradução
/ A pressão do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para anexar à força até 30% da Cisjordânia ocupada está expondo a violência inerente à imposição de um Estado étnico judeu sobre uma população palestina indígena. Embora o plano esteja atrasado por enquanto, a organização de direitos humanos B’Tselem relata que, em preparação para a anexação, Israel já aumentou as demolições de casas palestinas na Cisjordânia em junho, destruindo trinta naquele mês, um número que não inclui as demolições em Jerusalém Oriental.

O roubo e a destruição de casas palestinas, no entanto, é apenas uma peça de um projeto colonial muito maior – e mais antigo. Como escreve a palestina Sandra Tamari, “os palestinos foram forçados a suportar as políticas de expulsão e apropriação de terras de Israel por mais de 70 anos”. Hoje, essa realidade evoluiu para um sistema de apartheid aberto: os palestinos em Israel são cidadãos de segunda classe, com Israel agora codificando oficialmente que a autodeterminação é apenas para judeus. Os palestinos na Cisjordânia e em Gaza estão sujeitos à ocupação militar, cerco, bloqueio e lei marcial – um sistema de dominação violenta possibilitado pelo apoio político e financeiro dos EUA.

Os anti-sionistas argumentam que essa realidade brutal não é apenas produto de um governo de direita ou do fracasso em obter uma solução de dois Estados. Em vez disso, ela se origina do próprio projeto sionista moderno, estabelecido em um contexto colonial e fundamentalmente dependente da limpeza étnica e da dominação violenta do povo palestino. Judeus ao redor do mundo estão entre aqueles que se autodenominam anti-sionistas, e que se opõem veementemente à alegação de que o Estado de Israel representa a vontade – ou interesses – do povo judeu.

Sarah Lazare conversou com Benjamin Balthaser, professor associado de literatura multiétnica da Universidade de Indiana em South Bend. Seu artigo recente, “Quando o antissionismo era judeu: subjetividade racial judaica e a esquerda literária anti-imperialista da Grande Depressão à Guerra Fria“, examina a história apagada do anti-sionismo entre a esquerda judaica da classe trabalhadora nos anos 1930 e 1940. Balthaser é o autor de um livro de poemas sobre a velha esquerda judaica chamado Dedicação, e uma monografia acadêmica intitulada Modernismo Anti-imperialista. Ele está trabalhando em um livro sobre judeus marxistas, pensamento socialista e anti-sionismo no século XX.

Ele conversou com Lazare sobre as origens coloniais do sionismo moderno, e a disputa da esquerda judaica, com o fundamento de que é uma forma de nacionalismo de direita que se opõe fundamentalmente ao internacionalismo da classe trabalhadora, sendo uma forma de imperialismo. De acordo com Balthaser, essa tradição política enfraquece a afirmação de que o sionismo reflete a vontade de todo o povo judeu e oferece sinais para os dias atuais. “Para os judeus nos EUA que estão tentando pensar sobre sua relação não apenas com a Palestina, mas também sobre seu próprio lugar no mundo como uma minoria étnico-cultural diaspórica historicamente perseguida, temos que pensar de que lado estamos, e com as quais forças globais queremos nos alinhar”, diz ele. “Se não quisermos ficar do lado dos algozes de extrema direita, do colonialismo e do racismo, há uma fonte cultural judaico e político ao qual podemos recorrer”.

Sarah Lazare

Você pode explicar qual a ideologia do sionismo? Quem a criou e quando?

Benjamin Balthaser

Algumas coisas precisam ser elucidadas. Antes de tudo, há uma longa história judaica que precede a ideologia do sionismo e que olha para Jerusalém, o antigo reino da Judéia, como um local de anseio cultural, religioso e, pode-se dizer, messiânico. Se você conhece a liturgia judaica, existem referências que remontam a milhares de anos à terra de Sião, a Jerusalém, o antigo reino que os romanos destruíram.

Houveram tentativas desastrosas ao longo da história judaica, de “retornar” à terra da Palestina, a mais famosa foi a Sabbatai Zevi, no século XVII. Mas na maior parte, ao longo da história judaica, “Israel” foi entendido como uma espécie de local cultural e messiânico, mas não havia nenhum desejo de realmente se mudar fisicamente para lá, fora de pequenas comunidades religiosas em Jerusalém e, é claro, o pequeno número de judeus que continuaram a viver na Palestina sob o Império Otomano – cerca de 5% da população.

O sionismo contemporâneo, particularmente o sionismo político, utiliza esse grande desejo cultural e texto religioso para se legitimar, e é aí que vem a confusão.

O sionismo moderno surgiu no final do século XIX como um movimento nacionalista europeu. Eu acho que essa é a maneira de se entender isso. Foi um desses muitos movimentos nacionalistas europeus de minorias oprimidas que tentaram construir a partir das diversas culturas da Europa Ocidental e Oriental, Estados-nação etnicamente homogêneos. E havia muitos nacionalismos judaicos no final do século XIX e no início do século XX, dos quais o sionismo era apenas um.

Houve o Bund judeu, que foi um movimento socialista de esquerda que ganhou destaque no início do século XX, articulando um nacionalismo desterritorializado na Europa Oriental. Eles sentiam que seu lugar era a Europa Oriental, sua terra era a Europa Oriental, sua língua era o iídiche. E eles queriam lutar pela liberdade na Europa, onde realmente viviam. E eles sentiram que sua luta pela libertação era contra governos capitalistas opressores na Europa. Se o Holocausto não tivesse destruído o Bund e outros grupos de socialistas judeus na Europa Oriental, poderíamos estar falando sobre o nacionalismo judaico em um contexto muito diferente hoje.

Claro, houve experimentos soviéticos, provavelmente mais famosos em Birobidjã, mas também um muito breve na Ucrânia, para criar zonas autônomas judaicas dentro dos territórios em que os judeus viviam, ou em outro lugar dentro da União Soviética, enraizado na ideia iídiche de doykait, hereditariedade diaspórica e de língua e cultura iídiche.

O sionismo foi um desses movimentos nacionalistas culturais. O que o fez ser diferente foi que ele se enxertou no colonialismo britânico, uma relação explicitada com a Declaração de Balfour em 1917, e realmente tentou criar um país a partir de uma colônia britânica – o Mandato Palestina – e usar o colonialismo britânico como uma forma de ajudar a se estabelecer no Oriente Médio. A Declaração Balfour foi essencialmente uma forma de usar o Império Britânico para seus próprios fins. Em algum nível, você poderia dizer que o sionismo é uma mistura tóxica de nacionalismo europeu e imperialismo britânico enxertado em um reservatório cultural de tropos e mitologias judaicas que vêm da liturgia e cultura judaica.

Sarah Lazare

Um dos fundamentos do sionismo moderno é que ele é uma ideologia que representa a vontade de todos os judeus. Mas em seu artigo, você argumenta que a crítica ao sionismo era bastante comum na esquerda judaica nas décadas de 1930 e 40, e que essa história foi totalmente apagada. Você pode falar sobre mais sobre essas críticas e quem as fez?

Benjamin Balthaser

A parte engraçada sobre os EUA, e eu diria que isso é um consenso na Europa, é que antes do fim da Segunda Guerra Mundial, e mesmo um pouco depois, a maioria dos judeus menosprezava os sionistas. E não importava se você fosse um comunista, não importava se você fosse um judeu reformista, o sionismo não era popular. Haviam muitos motivos diferentes para os judeus estadunidenses não gostarem do sionismo antes dos anos 1940.

Há a crítica liberal do sionismo mais famosa articulada por Elmer Berger e o Conselho Estadunidense para o Judaísmo. A ansiedade entre essas pessoas era que o sionismo seria basicamente um tipo de lealdade dupla, que abriria os judeus para a alegação de que não são estadunidenses de verdade e que, na verdade, frustraria suas tentativas de assimilar a cultura estadunidense dominante.

Elmer Berger também transmitiu a idéia de que os judeus não são uma cultura ou um povo, mas simplesmente uma religião e, portanto, nada têm em comum uns com os outros fora da fé religiosa.

Esta, eu argumentaria, é uma idéia assimilacionista que vem dos anos 1920 e 1930, e tenta se assemelhar a uma noção protestante de “comunidades de fé”.

Mas para a esquerda judaica – a esquerda comunista, socialista, trotskista e marxista – a crítica ao sionismo veio de dois lados: uma crítica do nacionalismo e do colonialismo. Eles entenderam o sionismo como um nacionalismo de direita e, nesse sentido, burguês. Eles viam como algo relacionado com outras formas de nacionalismo – uma tentativa de alinhar a classe trabalhadora com os interesses da burguesia.

Naquela época houve uma conhecida história de Vladimir Jabotinsky nas Missas Novas em 1935, em que o crítico marxista Robert Gessner chama Jabotinsky de um pequeno Hitler no Mar Vermelho. Gessner chama os sionistas de nazistas e a esquerda em geral via o nacionalismo judaico como uma formação de direita tentando criar uma cultura militarista unificada que alinhasse os interesses da classe trabalhadora judaica com os da burguesia judaica.

Essa é uma crítica do sionismo. A outra crítica do sionismo, que acho mais contemporânea à esquerda hoje, é que o sionismo é uma forma de imperialismo. Se você olhar os panfletos, revistas e discursos feitos sobre a esquerda judaica nas décadas de 1930 e 1940, verá que os sionistas estavam se alinhando com o imperialismo britânico.

Eles também estavam muito cientes do fato de que o Oriente Médio foi colonizado, primeiro pelos otomanos e depois pelos britânicos. Eles viram a luta palestina pela libertação como parte de um movimento anti-imperialista global.

Claro, os comunistas judeus se viam não como cidadãos de um Estado-nação, mas como parte do proletariado global: parte da classe trabalhadora global, parte da revolução global. E então para eles pensarem em sua terra natal como esta pequena faixa de terra no Mediterrâneo – independentemente de qualquer afinidade cultural com Jerusalém – seria apenas contra tudo o que eles acreditam.

Como o Holocausto começou para valer na década de 1940, e os judeus estavam fugindo da Europa de qualquer jeito que conseguiam, alguns membros do Partido Comunista defendiam que os judeus deveriam ter permissão para ir para a Palestina se estivessem fugindo da aniquilação e a Palestina é o único lugar natural onde eles poderiam ir.

Mas isso não significa que ele poderiam criar um Estado-nação lá. Eles precisam se relacionar da melhor maneira possível com as pessoas que vivem lá. Houve um partido comunista da Palestina que defendeu a colaboração judaica e palestina para expulsar os britânicos e criar um Estado binacional – que, por uma série de razões, incluindo a natureza segregada do assentamento judaico, se mostrou mais difícil na prática do que na teoria.

Em todo caso, a esquerda judaica nas décadas de 1930 e 40 entendeu, criticamente, que a única maneira de o sionismo surgir na Palestina seria por meio de um projeto colonial e da expulsão dos palestinos nativos da terra. Em um discurso de Earl Browder, presidente do Partido Comunista, no hipódromo de Manhattan, ele declara que um Estado judeu só pode ser formado por meio da expulsão de 250 mil palestinos, o que os participantes acharam muito chocante na época, mas na verdade acabou sendo uma sub-contagem dramática.

Sarah Lazare

Você escreveu em seu recente artigo o seguinte: “Talvez a narrativa mais difundida sobre o sionismo, mesmo entre estudiosos e escritores que reconhecem seu status marginal antes da guerra, é que o Holocausto mudou a opinião judaica e convenceu os judeus”. Você identifica alguns furos importantes nesta narrativa. Você pode explicar quais são?

Benjamin Balthaser

Eu alteraria um pouco para dizer que estou realmente falando sobre a esquerda comunista e marxista neste contexto. Eu cresci em uma família de esquerda onde as opiniões estavam definitivamente divididas sobre a questão do sionismo – mas, no entanto, havia uma idéia difundida de que o Holocausto mudou opiniões universalmente, e todos entraram na linha assim que os detalhes do Holocausto foram revelado, sionista e anti-sionista.

É inegavelmente correto dizer que sem o Holocausto provavelmente não haveria Israel, nem que fosse pelo simples fato de que houve um fluxo maciço de refugiados judeus após a guerra que, sem dúvida, teriam permanecido na Europa de outra forma. Sem esse fluxo de judeus que poderiam lutar na guerra de 1948 e povoar Israel logo depois, é duvidoso que um Estado independente de Israel pudesse ter tido sucesso.

No entanto, uma coisa que achei a mais surpreendente ao passar pela imprensa de esquerda judaica na década de 1940 – publicações do Partido Trotskista Socialista dos Trabalhadores, do Partido Comunista e escritos de Hannah Arendt – é que mesmo depois que o escopo do Holocausto foi amplamente compreendido, a posição oficial ainda era anti-sionista.

Eles podem ter apelado para que os judeus fossem autorizados a se reinstalar nas terras de onde foram expulsos ou massacrados, com plenos direitos e plena cidadania, para imigrar para os EUA, ou mesmo ter permissão para emigrar para a Palestina se não houvesse outro lugar para ir (como era frequentemente o caso). Mas eles ainda eram totalmente contra a divisão e o estabelecimento de um Estado exclusivamente judeu.

O que é importante entender sobre aquele momento é que o sionismo foi uma escolha política – não apenas das potências imperiais ocidentais, mas também da liderança judaica. Eles poderiam ter lutado mais arduamente pela imigração judaica para os EUA. E muitos dos líderes sionistas realmente lutaram contra a imigração para os EUA.

Houve uma série de histórias relatadas na imprensa comunista judaica sobre como os sionistas colaboraram com os britânicos e estadunidenses para forçar os judeus a irem para a Palestina, quando eles preferiam ir para os EUA ou a Inglaterra. Há uma citação famosa de Ernest Bevin, o secretário britânico de relações exteriores , que disse que a única razão pela qual os EUA enviaram judeus à Palestina foi “porque eles não querem muitos mais deles em Nova York”. E os sionistas concordaram com isso.

Embora isso possa parecer uma história antiga, é importante porque perturba o senso comum em torno da formação de Israel. “Sim, talvez pudesse ter havido paz entre judeus e palestinos, mas o Holocausto tornou tudo isso impossível.” E eu diria que esse debate depois de 1945 mostra que houve um longo momento em que havia outras possibilidades, e outro futuro poderia ter acontecido.

Ironicamente, a União Soviética fez mais do que qualquer outra força isolada para mudar as mentes da esquerda marxista judaica sobre Israel no final dos anos 1940. Andrei Gromyko, o embaixador da União Soviética nas Nações Unidas, saiu em 1947 e apoiou a partilha depois de declarar que o mundo ocidental não fez nada para impedir o Holocausto, e de repente há essa reviravolta. Todas as publicações de esquerda judaica que denunciavam o sionismo estavam, literalmente no dia seguinte, abraçando a divisão e a formação do Estado-nação de Israel.

Você tem que entender que, para muitos comunistas judeus e até socialistas, a União Soviética era a terra prometida – não o sionismo. Este foi o lugar onde eles tinham, segundo a propaganda, erradicado o anti-semitismo.

O Império Russo foi o lugar mais anti-semita ao longo do final do século XIX e início do século XX, antes do surgimento do nazismo. Muitos dos membros do Partido Comunista Judeu ou suas famílias eram da Europa Oriental e tinham memórias muito vivas da Rússia como o epicentro do anti-semitismo. Para eles, a Revolução Russa foi uma ruptura na história, uma chance de recomeçar. E, é claro, isso foi depois da Segunda Guerra Mundial, quando a União Soviética tinha acabado de derrotar os nazistas.

O fato da União Soviética abraçar o sionismo realmente foi um choque para o mundo judaico de esquerda. A União Soviética mudou sua política cerca de uma década depois, abraçando abertamente o anti-sionismo na década de 1960. Mas, para este breve momento crucial, a União Soviética foi firmemente a favor da partilha, e isso parece ser o que realmente mudou a esquerda judaica.

Sem esse tipo de legitimação, acho que todos nós estamos começando a ver a esquerda judaica retornar de uma forma importante às posições que originalmente ocupava, que é que o sionismo é um nacionalismo de direita, e que também é racista e colonialista. Estamos vendo a esquerda judaica retornar aos seus princípios iniciais.

Sarah Lazare

Essa é uma boa resposta para algumas perguntas que gostaria de fazer sobre a relevância da história anti-sionista para os dias atuais. Para muitas pessoas, o plano de Israel de anexar enormes pedaços de terras palestinas na Cisjordânia, ainda mostra a violência do projeto sionista de estabelecer o domínio judaico sobre a população palestina. Estamos vendo alguns sionistas liberais proeminentes como Peter Beinart proclamar publicamente que a solução de dois Estados está morta e um Estado baseado em direitos iguais é o melhor caminho. Você vê agora como um momento importante para se conectar com a história do anti-sionismo judeu? Você vê aberturas ou possibilidades para mudar a mente das pessoas?

Benjamin Balthaser

De certa forma, a carta de Beinart estava setenta anos atrasada. Mas ainda é uma virada cultural muito importante, na medida em que ele faz parte de uma instituição judaica liberal. Eu também diria que estamos em um momento histórico diferente. Nas décadas de 1930 e 40, você pode realmente falar sobre um tipo de sentimento revolucionário global e uma verdadeira esquerda judaica localizada em organizações como o Partido Comunista, o Partido Socialista dos Trabalhadores e o Partido Socialista. E você pode ver isso novamente na década de 1960.

Estudantes por uma Sociedade Democrática, que também tinha uma filiação judaica muito considerável, apoiaram formalmente o anti-sionismo na década de 1960, junto com o Partido Socialista dos Trabalhadores, e formaram alianças com o Comitê de Coordenação Estudantil Não-Violento, que também havia contratado um oficial anti-sionista no final dos anos 1960.

Você pode pensar em uma estrutura revolucionária global na qual a libertação palestina fosse uma parte articulada – você pode pensar na Frente Popular para a Libertação da Palestina e na Organização para a Libertação da Palestina como parte da estrutura dos movimentos revolucionários globais.

Hoje estamos em um espaço muito mais fragmentado. Na mesma página, porém, estamos vendo o renascimento, ou talvez a continuidade, dos movimentos palestinos pelos direitos civis, com a sociedade civil palestina fazendo um apelo à descolonização – ambos fora de suas próprias tradições de libertação, mas também buscando modelos de luta pela liberdade sul-africana.

Para os judeus contemporâneos que são progressistas e se veem na esquerda, eles estão percebendo de repente que realmente não há mais centro, não há mais posição sionista liberal. O centro realmente caiu.

E nos deparamos com esta decisão muito difícil: que ou você vai estar do lado da libertação, ou do lado da direita israelense, que tem uma intenção eliminacionista e genocida que sempre esteve lá, mas é claramente aparente agora. E então acho que pessoas como Beinart estão acordando e dizendo: “Não quero estar do lado dos algozes”.

A história da velha esquerda judaica e da nova esquerda judaica da década de 1960 nos mostra que isso não é novo. Qualquer luta de libertação virá dos próprios oprimidos, então o movimento de libertação palestino vai definir seus termos para as lutas. Mas para os judeus nos EUA que estão tentando pensar sobre sua relação, não apenas com a Palestina, mas também sobre seu próprio lugar no mundo como uma minoria étnico-cultural diaspórica historicamente perseguida, temos que pensar de que lado estamos, e com quais forças globais queremos nos alinhar.

Se não quisermos ficar do lado dos algozes de extrema direita, do colonialismo e do racismo, há um recurso cultural judaico ao qual podemos recorrer – um recurso político ao qual recorrer. Esta história da esquerda judaica anti-sionista demonstra que um importante papel histórico na diáspora tem sido a solidariedade com outros povos oprimidos.

Esse é o lugar de onde temos obtido mais força historicamente. Portanto, não vejo isso como: “Não vamos reproduzir o Partido Comunista das décadas de 1930 e 1940”. Estamos dizendo: “Vamos produzir algo novo, mas o passado pode ser um recurso cultural que podemos usar hoje.”

Sarah Lazare

Quem ou o que é responsável pelo apagamento desse histórico de anti-sionismo na esquerda judaica?

Benjamin Balthaser

Eu não culparia apenas a União Soviética ou o sionismo pelo apagamento, porque também temos que pensar na Guerra Fria e como ela destruiu a velha esquerda judaica, e empurrou-a para a clandestinidade e destruiu suas organizações. Portanto, acho que também temos que ver como a virada para o sionismo foi entendida como algo que normalizaria os judeus em uma era do pós-guerra.

Com a execução dos Rosenbergs, a Ameaça Vermelha do final dos anos 1940 e dos anos 50, e a proibição virtual do Partido Comunista, que havia sido meio judaico ao longo das décadas de 1930 e 1940 , para grande parte do establishment judaico, alinhar-se com o imperialismo estadunidense era uma forma de os judeus normalizarem sua presença nos EUA. E espero que esse momento tenha passado em algum grau.

Podemos ver o vazio e a esterilidade de nos alinharmos a um projeto imperial estadunidense, com pessoas como Bari Weiss e Jared Kushner. Por que alguém como Bari Weiss, que se descreve como liberal, quer se aliar às forças mais reacionárias da vida estadunidense?

É uma matriz sangrenta de assimilação e branquitude que emergiu da suburbanização da Guerra Fria na década de 1950. Israel fez parte da barganha do diabo. Sim, você pode se tornar estadunidense de verdade: você pode ir para boas universidades estadunidenses, pode ingressar nos subúrbios, ter um “american way of life” na vida, contanto que faça uma pequena coisa por nós, que é apoiar o imperialismo dos EUA.

Esperamos que, com o surgimento de novas organizações de base nos EUA, entre judeus e não judeus que estão questionando o papel dos EUA no apoio ao sionismo, esse cálculo pode começar a mudar. Com a ascensão da Voz Judaica pela Paz, IfNotNow, os Socialistas Democráticos da América (DSA) e o movimento do Black Lives Matter, todos assumindo uma posição séria contra o apoio dos EUA ao sionismo, o bom senso na comunidade judaica começou a se mover em uma direção diferente, particularmente entre a geração mais jovem. A batalha está muito longe de chegar ao fim, mas isso me deixa um pouco otimista quanto ao futuro.

Sobre o autores

Benjamin Balthaser é professor associado de literatura multiétnica dos EUA na Universidade de Indiana, South Bend. Ele é o autor de Anti-Imperialist Modernism and Dedication (Modernismo e Dedicação Anti-Imperialista).

Sarah Lazare é editora web do In These Times. Ela tem experiência em jornalismo independente e publica artigos no The Intercept, The Nation e Tom Dispatch.

20 de julho de 2020

Sheila Rowbotham: E. P. Thompson, feminismo e os anos 1960

Em entrevista, a historiadora feminista de longa data Sheila Rowbotham reflete sobre as décadas na esquerda - lidando com a realidade de ser uma socialista da classe média - sobre sua relação com E. P. e Dorothy Thompson e sobre a influência do livro clássico “A formação da Classe Operária Inglesa”.

Uma entrevista com 
Sheila Rowbotham


Membras do Movimento Nacional por Libertação das Mulheres, em uma marcha por direitos iguais no Dia Internacional da Mulher, em Londres, 1971. Foto por Daily Express/Hulton Archive /Getty

Entrevistada por 
Alex N. Press e Gabriel Winant

Tradução / Sheila Rowbotham é uma historiadora feminista socialista e autora de muitos livros. Ela foi entrevistada recentemente pelo redator da equipe Alex Press e pelo historiador Gabriel Winant no podcast da Jacobin, Casualties of History, onde falou sobre sua história na esquerda e seu relacionamento com E. P. e Dorothy Thompson. 

Você pode ouvir Casualties of History assinando a Rádio Jacobin aqui, e você pode ouvir o episódio com Rowbotham aqui. A transcrição foi editada por questões de comprimento e clareza.

Alex N. Press

Você se tornou de esquerda no início dos anos 1960, em meio à atmosfera da Campanha de Desarmamento Nuclear (CND) e das consequências duradouras de 1956. Como esses anos deram forma ao seu desenvolvimento político?

Sheila Rowbotham

Eu acho que estar envolvida em um movimento foi algo fundamental, porque o CND congregava diferentes tipos de pessoas em seu interior. Havia membros da União Nacional de Professores, que costumavam andar muito solenemente e pareciam incrivelmente velhos. Havia também pessoas que usavam jaquetas de couro e calça jeans. Era uma época em que ainda existia uma contracultura beatnik. Além disso, participavam também sindicalistas.

Havia, portanto, uma grande mistura de pessoas e a política não era sectária; tinham pessoas que eram socialistas cristãs, outras eram anarquistas, e havia uma tradição de ação direta através do “Comitê dos 100” – ações diretas pacíficas que eram provenientes da influência gandiana. Fazíamos coisas como ficar sentados em protesto e, em uma determinada ocasião, marchamos até uma sede regional do governo. Compartilhávamos a ideia de que estávamos desafiando a falta de democracia no Estado, ao mesmo tempo em que fazíamos um protesto moral.

Gabriel Winant

Em sua descrição daqueles anos, você escreve – e acho que está se referindo especificamente à New Left Review – que não conseguia entender como eles poderiam ser socialistas, sem se incomodar em estarem pessoalmente distantes de pessoas da classe trabalhadora. Estou curioso para saber como você lidou com a questão de ser uma socialista de classe média conforme foi desenvolvendo sua orientação política.

Sheila Rowbotham

Eu acho que eu tinha essa consciência porque eu vim de uma cidade industrial do Norte. As pessoas vieram do Sul, particularmente de Londres. As famílias do meu pai e a da minha mãe não tiveram educação formal. Meu pai era um engenheiro mecânico de mineração que subiu e desceu na vida. Ele trabalhou nas minas quando não conseguiu um emprego nos anos 1930 e depois se tornou um vendedor. Não havia uma tradição de livros em nossa casa. Tínhamos vários livros que chegaram lá por acaso, porque meu pai tinha ido a leilões e os livros chegavam em lotes, e eu costumava lê-los.

Eu tinha um professor de história muito bom na escola, que era liberal. Durante minha infância, havia uma ênfase tão forte na ideia de classe, devido à cultura dos romances, dos jovens revoltados – havia um sentimento rebelde de que classe era algo sobre o qual as pessoas estavam protestando. Então, acho que compreendi isso antes de ter alguma ideia da política de esquerda. Fazia parte de ser contra tudo o que pareceu já existir.

Alex N. Press

Como era o seu relacionamento com o meio social da New Left Review?

Sheila Rowbotham

Quando eu estava na universidade, tínhamos um grupo chamado Universities and Left Review. E era uma situação mais fluida. O meu então namorado se chamava Bob Hawthorne e ele era um amigo íntimo de Gareth Stedman Jones. Eu conheci Gareth no meu primeiro ano na universidade. Na verdade, eu conheci Gareth em um encontro às cegas – fui convidada por um amigo para conhecer um amigo de alguém, e Gareth e eu nos conhecemos.

Eu não era de esquerda, e ele estava pichando contra a Guerra da Argélia nas ruas. Não foi, portanto, o encontro às cegas mais bem-sucedido, porque eu era aquele tipo de pessoa mística hippie beatnik, e disse que pichava em Paris – ou seja, que eu pichava para conseguir dinheiro. E ele pichava slogans políticos. E foi só quando o encontrei novamente através de Bob que realmente conheci Gareth. Mas ele era estudante e um pouco mais novo que Perry [Anderson] e as pessoas que começaram a New Left Review.

Alex N. Press 

Então, depois de um tempo como trotskista, você descreve que foi atraída pelo socialismo libertário e pela libertação das mulheres.

Sheila Rowbotham

Na verdade, eu não era trotskista. A principal influência não foi o trotskismo e não foi a New Left Review, embora alguns de meus contemporâneos estivessem conectados a isso. Foi a política da Nova Esquerda, que eu li a partir das revistas Reasoner e New Reasoner que Dorothy e Edward [Thompson] tinham. Eu sempre tive amigos provenientes de muitos grupos diferentes, então desenvolvi a ideia de que sou amigável com pessoas de diferentes convicções políticas e consegui isso participando de um movimento no qual havia essa grande mistura de pessoas. Havia um compromisso moral, e o compromisso de viver e trabalhar com pessoas da classe trabalhadora, algo que Dorothy e Edward fizeram.

Em boa parte da minha vida também vivi em territórios da classe trabalhadora e trabalhei com pessoas da classe trabalhadora. Eu queria superar as divisões de classe que existem entre as pessoas. Desde tenra idade, senti que tais divisões eram inúteis e estúpidas. E parecia óbvio que as desigualdades afetavam as pessoas desde muito jovens. Eu lecionei na escola antes de dar aula na Universidade de Manchester, de forma que pude ver os obstáculos que são impostos às meninas e meninos da classe trabalhadora em processo de aprendizado.

Alex N. Press

Você poderia falar um pouco sobre seu relacionamento com Dorothy e E.P. Thompson?

Sheila Rowbotham

Eu os conheci quando tinha dezenove anos através de um tutor para quem fui enviada – porque eu era um problema. Ele disse, você deveria ir ver esses meus amigos, Dorothy e Edward Thompson, que moram perto de Halifax, eles escrevem sobre coisas como o cartismo.

Então liguei para eles e fiquei extremamente nervosa. Edward e Dorothy disseram que eu deveria ir visitá-los, então eu fui. Quando cheguei na casa deles, não vi Edward, só a Dorothy, que tinha cerca de trinta anos na época. Ela estava usando um pulôver preto com gola tipo polo e meia-calça preta, algo que as mulheres intelectuais de esquerda vestiam muito naquela época, não as pessoas que minha mãe conhecia. Eles não me conheciam ou tinham ideia de por que eu estava lá, mas me deram as boas-vindas.

Eu costumava visitá-los bastante e ler todos os estudos deles. Então, eu li A formação da classe operário inglesa nas provas. Um livro de história como nenhum outro que eu já tinha lido antes. Eu tinha lido coisas como Rebeldes Primitivos, de Eric Hobsbawm, e algumas histórias da esquerda. Mas o livro de Edward era simplesmente extraordinário – ficava encantada com todas aquelas pessoas – e muitos dos lugares que ele trazia eram lugares com os quais eu estava familiarizada, porque eles ficam perto de Leeds.

Gabriel Winant

Parece que a revolução da história social desempenhou um papel importante em seu próprio desenvolvimento político ao longo dos anos 1960. Estou curioso para saber como você entendeu a relação entre sua identidade em evolução como historiadora e pesquisadora profissional, e sua relação com os movimentos radicais da época.

Bom, nós costumávamos ir à chamada Sociedade da História do Trabalho. Era um pouco congestionado, mas tinha uma perspectiva alternativa da história. Naquele momento, tivemos a ideia de que poderia haver um tipo diferente de história. Havia pessoas questionando o escopo da história – todos os movimentos anticoloniais estavam desafiando as ideias de como a história deveria ser escrita. E, é claro, fomos muito influenciados pelos direitos civis nos Estados Unidos – sabíamos sobre o movimento negro nos Estados Unidos e a luta pelos direitos civis, e depois sobre o Black Power.

Portanto, a ideia de que a cultura era uma área em que você precisava contestar como as pessoas estavam sendo definidas era algo que estava no ar. Era algo muito importante no final dos anos 1960, quando alguns de nós começamos a falar sobre a libertação das mulheres. A ideia de escrever um tipo diferente de história me parecia fazer sentido, porque eu sabia dos desafios da história do trabalho e da influência de Thompson na história, que não se referiam apenas às estruturas políticas que a classe trabalhadora criou, que estavam mergulhadas na vida cotidiana e na experiência de trabalhadores individuais – mas também ao fato de que o povo estava se organizando de várias maneiras diferentes, não necessariamente de uma maneira formal para obter apenas o voto, mas para conseguir as coisas de qualquer maneira que podiam, fosse através de sociedades secretas, ações de multidões ou organização sindical.

Gabriel Winant

Você escreve sobre o final dos anos 1960 - e com isso, acredito que está descrevendo a si mesma: "É assustador iniciar novas jornadas sem qualquer mapa. Talvez a parte mais difícil seja decidir ao que se agarrar e o que largar. Parecia haver uma atmosfera que iria aniquilar a história, como se o passado estivesse comprometido demais para ser reconhecido". Estou curioso para saber como esse conjunto de perguntas tomou forma para você no momento em que desenvolvia, ao que parece, sua própria política libertacionista das mulheres.

Sheila Rowbotham

Eu acho que eu posso ter voltado a uma professora que eu tive na escola que era liberal e metodista. Ela era realmente preocupada com esse tipo de absolutismo que quer se livrar de tudo. Eu acho que ela sentiu que eu provavelmente me tornaria uma pessoa assim. Então ela passou muito tempo me fazendo ler pessoas como [Edmund] Burke e pessoas que conversavam sobre algum tipo de conexão orgânica ao longo do tempo, com o passado.

Eu acho que sempre tive as duas coisas: uma, é uma atração pelas pessoas com faixas, derrubando tudo; outra, pelo mundo virado de cabeça para baixo. Mas também algum tipo de estima pela continuidade e pelo vínculo com o passado. Uma das coisas boas foi que Edward conheceu uma mulher muito velha que realmente se sentou aos joelhos do orador Henry Hunt, o radical. E assim, sinto-me muita satisfeita porque posso dizer que sou uma mulher que conheceu um homem que conheceu uma mulher que conheceu Henry Hunt e que o levou de volta ao início do século XIX.

Gabriel Winant

Estou curioso para perguntar mais sobre a política de libertação das mulheres nesse período e o que isso significou para você. Mais uma vez, gostaria de ler uma citação para enquadrar isso. Você escreveu: “Enfatizamos, por exemplo, a proximidade e a proteção de um pequeno grupo e o sentimento de irmandade. Dentro do pequeno grupo, tem sido importante que toda mulher tenha espaço e ar para que seus sentimentos e ideias cresçam. A suposição é a de que não existe uma única forma correta que possa ser aprendida de cor e transmitida para as pessoas. Antes, sabemos que nossos sentimentos e ideias se movem e se transformam em relação a outras mulheres. Todos precisamos nos expressar e contribuir; nossas opiniões são válidas porque vêm de dentro de nós e não porque retemos a correção recebida. As palavras que usamos buscam uma abertura e honestidade sobre nosso próprio interesse no que dizemos. Isso é o oposto da maioria das linguagens de esquerda, que estão constantemente se distinguindo como corretas e, então, cobrindo-se com uma objetividade determinada“. Para mim, isso parece uma dinâmica muito viva. Estou curioso para saber o que, em sua própria experiência, você estava descrevendo e a que tipo de prática política se deve esse insight?

Sheila Rowbotham

Ouvimos dizer dos americanos que havia essa coisa chamada “conscientização”. E tentamos fazê-la, embora tivéssemos a preocupação de que ela não deveria ser feita tão puramente quanto nós sentimos que ela estava sendo feita nos Estados Unidos, porque ainda havia uma sensação de que talvez devêssemos sair, organizar e distribuir folhetos, tentar envolver mais mulheres da classe trabalhadora e chegar às pessoas.

Então, nós tínhamos grupos que falavam sobre todos os nossos sentimentos. E essas reuniões eram realmente fortalecedoras, porque uma das questões daquela época era de que fomos criadas nos anos 1950, num momento em que as mulheres não sentiam muita conexão umas com as outras. Fomos criadas para competir e ser atraentes para os caras. Se nos sentíamos atraídas por homens, era isso que deveríamos estar fazendo. Se você era uma pessoa que estava questionando isso como mulher, você geralmente costumava andar mais com homens, como eu, quando era estudante. Então, as pessoas que eu conhecia, com as quais discuti ideias, eram homens.

E eu sempre tive algumas amigas que se depararam e também estavam interessadas em ideias. Mas isso realmente mudou com o desenvolvimento da luta por libertação das mulheres. Minha lista de contatos, na qual tinha um monte de caras que eram amigos e algumas mulheres, se tornou menos masculina, contando com mais e mais mulheres que se tornaram realmente amigas íntimas.

Tornou-se uma maneira de aprofundar o entendimento sobre as mulheres que não eram necessariamente completamente iguais a você e, muitas vezes isso era um pouco aleatório, com quem você terminava ficando em um grupo de conscientização. Mas como tínhamos que conversar pessoalmente, isso permitia uma maior compreensão de onde as pessoas vinham. Tínhamos experiência para entender por que elas podiam tomar uma posição específica.

Uma das coisas um tanto agonizantes sobre essa forma de política, que era um pouco problemática, era que nem sempre funcionava que você se sentisse igualmente amigável com todos no grupo. Portanto, havia um tipo de tensão oculta em torno do fato de que, talvez, houvesse desigualdades de amizade. Mas as amizades que persistiram nesta política ainda continuam. Estamos na casa dos setenta anos e ainda temos contato com muitas pessoas que conhecemos no movimento de mulheres. Foi mais do que apenas um momento de descoberta da emergência do movimento de mulheres – é algo que continua ao longo do tempo.

Alex N. Press

Houve um número razoável de críticas feministas à marca da história social-humanista popularizada por Thompson. Isso é algo que você tentou abordar em seu próprio trabalho?

Sheila Rowbotham

Na verdade, não. Você quer dizer porque não havia muitas referências a mulheres em A formação da classe operária inglesa? Bem, não havia. Mas na verdade parecia haver muitas referências a mulheres, porque, naquela época, tínhamos que ler pessoas como J. H. Plumb – história em que realmente não havia absolutamente nenhuma mulher. O fato de haver algumas em A formação da classe operária inglesa chamou minha atenção.

Havia uma tendência de Edward de sentir que as mulheres eram um assunto sobre o qual ele não queria escrever, porque sabia que Dorothy estava interessada em mulheres, bem como na política do cartismo. E então havia um sentimento de que ele não queria assumir a área de Dorothy, na verdade. Porque não era que ele não estava ciente ou interessado na posição das mulheres.

Eles particularmente não gostavam da libertação das mulheres. Eles achavam que éramos classe média demais. Eles achavam que éramos indulgentes por falar sobre nossas vaginas e vidas sexuais, e pensavam que éramos incrivelmente privilegiadas porque eles haviam passado pela guerra e nós tínhamos muitas opções. Foi isso que Edward sentia, você sabe; por que diabos existe esse movimento de mulheres jovens?

E depois que eles foram para a Índia, em meados dos anos 1970, começaram a mudar em relação à libertação das mulheres. Eles nunca deixaram de ser amigáveis comigo ou com outras pessoas, como Catherine Hall. Não tinha como eles serem hostis ao feminismo. Eles eram hostis numa espécie de desconfiança comunista antiga do feminismo, na verdade. Eles eram favoráveis a emancipação das mulheres, mas estavam muito preocupados que uma abordagem exclusivamente da classe média dominasse, porque sentiam que – e particularmente essa é a visão de Dorothy – as mulheres da classe trabalhadora valorizavam coisas como a família, porque a família era o lugar delas, onde elas recebiam muito apoio e parentesco, e era uma fonte de apoio e poder. E eles suspeitavam muito de coisas como “abolir a família” pela qual nossa geração foi influenciada.

Alex N. Press

Você disse que a política deles começou a mudar depois que eles foram para a Índia. Você poderia falar sobre como eles mudaram?

Sheila Rowbotham

Sim, eles mudaram. Eles conheceram muitas feministas socialistas indianas envolvidas na resistência à repressão na Índia com a Sra. [Indira] Gandhi. Foi através deles que conheci Radha Kumar, que era uma socialista feminista amiga deles. Por causa da conexão da família de Edward com a Índia, os laços com a esquerda indiana eram muito fortes para ele. Por isso, herdei através deles muitos amigos, incluindo Radha Kumar.

Na Grã-Bretanha, conheci uma operária de vestuário chamada Gertie Roche. Ela fez parte do Partido Comunista [PC] e saiu em 1956. Na verdade, eles sempre disseram que era interessante como as pessoas que são lembradas por ter deixado o partido em 1956 são intelectuais da classe média como eles mesmos. Mas, na verdade, em Yorkshire, haviam muitos sindicalistas da classe trabalhadora que saíram em 1956, incluindo essa mulher maravilhosa, Gertie Roche, que continuou envolvida na libertação das mulheres.

Foi muito engraçado, na verdade, porque me lembro de ir a uma reunião no início dos anos 1970, em Leeds, e ela estava lá, e mulheres comunistas vieram. E, é claro, a divisão tinha sido tão amarga e profunda que eles nunca mais se falaram, desde o momento em que ela deixou o PC e eles continuaram. De certa forma, acho que o movimento de mulheres reuniu essas mulheres mais velhas novamente porque elas se encontraram nas mesmas reuniões de novo.

Há outra conexão interessante com a Gertie Roche. Gertie me deu o jornal de Claudia Jones, que teve que deixar os Estados Unidos por causa do caça às bruxas de McCarthy. Então ela estava em Londres e começou uma revista, e Gertie me deu os exemplares desta revista que Claudia havia lhe dado. Esse tipo de conexão, entre alguém como Claudia Jones e a mulher do sindicato em Leeds, não é o tipo de vínculo que as pessoas normalmente entendem, mas eu achei interessante. As pessoas sempre estão conectadas à esquerda. E, no entanto, com o tempo, essas interconexões são esquecidas.

Gabriel Winant

Alguns minutos atrás, você estava descrevendo o - ceticismo talvez seja uma palavra muito forte - mas as maneiras pelas quais Dorothy e Edward se mantiveram afastados da política feminista de sua geração. Me parece que parte de seu trabalho histórico - você diria que foi endereçado de alguma maneira para resolver esses dilemas ou separações?

Sheila Rowbotham

Eles não gostaram de Women, Resistance and Revolution. Eles pensaram que eu estava marchando rumo a um objetivo premeditado. De certa forma, isso era verdade: pensei que tínhamos visto a luz e resolvido tudo no movimento de libertação das mulheres. Eu escrevi em 1969, quando os primeiros grupos estavam surgindo. Havia uma sensação de que estávamos indo a algum lugar, de que todos esses outros movimentos revolucionários haviam falhado, mas estávamos indo para um lugar que iria resolver tudo. E eles ficaram realmente irritados com isso, porque sentiam que era essa coisa no marxismo que eles não gostavam, que é o tipo de pombo-correio onisciente que sempre sabe para onde está indo. Eu não sabia disso, mas fiquei incrivelmente chateada porque eles não gostaram.

Fiquei mais detalhista à medida que envelheci, e à medida que menos pessoas passaram a ler meus livros. Muita gente leu Women, Resistance and Revolution, e ele saiu em vários idiomas diferentes. Mas os Thompsons gostaram de Hidden From History, que escrevi porque estava ensinando mulheres na educação para adultos na Associação de Educação dos Trabalhadores. As mulheres não gostaram dos longos capítulos de Women, Resistance and Revolution. Então, eu escrevi [Hidden From History] com muitos capítulos curtos, o que significa que foi para muitas escolas.

Gabriel Winant

Eu também queria lhe perguntar sobre a revista Black Dwarf, na qual você foi uma figura-chave.

Sheila Rowbotham

A aproximação com a Black Dwarf se deu por meio de Tariq. Eu estive com Tariq Ali na universidade e ficamos amigos depois que ele saiu e eu saí. Ele me apresentou ao Clive Goodwin em uma reunião do grupo do May Day Manifesto, ao qual Edward e Dorothy estavam conectados. Eu inicialmente costumava vender o Black Dwarf, por um longo período de tempo, e eventualmente fui colocada no conselho editorial.

Eu não acho que Edward tenha gostado muito disso, na verdade. Ele pensou que era muito londrino e muito revolucionário, como um tipo de exibicionismo, eu acho. O que ele e Dorothy mostraram bastante simpatia foi, muito mais tarde, quando eu fiz uma coisa chamada Jobs for a Change, porque eu trabalhava para o Greater London Council [GLC], e Ken Livingstone e John McDonnell estavam lá.

Eu estava em uma coisa chamada Unidade de Planejamento Popular com Hilary Wainwright. Existem muitas tentativas para tentar pensar em como você fundamenta ideias de uma estratégia econômica alternativa e como democratiza o processo de planejamento e criação de uma economia socialista alternativa? Então, essas duas questões estavam conectadas.

Gabriel Winant

Estou curioso sobre o que você acha das principais lições que aprendeu nesses anos. Conversamos bastante sobre o final dos anos 1960, mas, você sabe, para avançar no tempo...

Continue seguindo em frente, eu acho. Por acaso, me envolvi com a esquerda em um período de inatividade, por isso não tinha expectativas muito fortes. Frequentávamos a seção de juventude do Partido Trabalhista e costumávamos panfletar, e poucas pessoas vinham às nossas reuniões devido a distribuição de folhetos. Mas de repente houve um grande aumento da militância e agitação e muitas pessoas se envolveram em manifestações no final dos anos 1960.

Então, acho que o ímpeto continuou, certamente nos anos 1970 e, mesmo no início dos anos 1980, houve muita resistência a Margaret Thatcher, nos primeiros anos. Foi com a abolição do GLC, em 1986, que uma espécie de percepção bastante sombria nos ocorreu, de que talvez as coisas não iriam acontecer tão rapidamente quanto pensávamos.

Eu acho que, desde então, houve muitas décadas horríveis. É realmente difícil ser mais velha, porque você acaba pensando, “oh, todo esse tempo se passou, e tanto esforço”, e, no entanto, na verdade não atingimos mudanças significativas. Algumas mudanças ocorreram, mas quase não eram as que estávamos pensando. Penso que as mudanças que foram realmente importantes têm mais a ver com cultura e atitudes, mas não com mudanças significativas em termos de desigualdade.


Gabriel Winant

Isso certamente parece verdade também nos Estados Unidos, mas se extraimos algo de A formação da classe operária inglesa, é que os movimentos populares, mesmo derrotados, nunca desaparecem.

Isso é absolutamente verdade, sim.

Colaboradores

Sheila Rowbotham é historiadora socialista e feminista britânica, autora de livros como Women, Resistance and Revolution, Women’s Consciousness, Man’s World e Hidden from History: 300 years of Women’s Oppression and the Fight Against It. Foi professora de Gênero, História do Trabalho e Sociologia na Universidade de Manchester, na Inglaterra.

Alex N. Press é editora assistente da revista Jacobin.

Gabriel Winant é historiador da saúde e do movimento trabalhista, ex-membro do sindicato Unite Here.

O plano de anexação de Israel é a última etapa de uma longa e violenta história de desapropriação

O governo de Benjamin Netanyahu perdeu seu primeiro prazo para anexar parte da Cisjordânia, mas esse esquema apoiado por Trump para roubo de terras ainda está firmemente em cima da mesa. O objetivo de Netanyahu e de seus patrocinadores nos EUA é simples: eles querem liquidar as aspirações nacionais palestinas.

Greg Shupak


Muro que separa a Cisjordânia de Israel em 2004. Justin McIntosh / Wikimedia Commons

Tradução / O plano aprovado por Israel, com apoio dos EUA, de anexar grande parte da Cisjordânia, uma completa violação do direito internacional e ato de roubo racista, visa impedir as aspirações nacionais palestinas. A medida, baseada no chamado “acordo do século”,de Trump, é menos um roteiro para a paz do que uma tentativa de liquidar o direito palestino à autodeterminação.

O acordo diz que procura resolver a questão palestina. Espera-se que eles se desmilitarizem, sem que Israel faça o mesmo, e aceitem um Bantustão [como eram chamados os enclaves do apartheid na África do Sul] inviável, em lugar de um Estado próprio, em troca do cumprimento de uma longa lista de condições absurdas estabelecidas por seus opressores, incluindo a renúncia ao direito dos refugiados voltarem para seus lares, deixando Israel e os EUA escolherem quem governa Gaza, ou manter o território inabitável.

Com a anexação, Israel reivindicará soberania em cerca de 30% do território da Cisjordânia, incluindo a maior parte do vale do Jordão e mais de 230 assentamentos ilegais de Israel – um padrão de roubo colonial, dadas as anexações anteriores de Israel em Jerusalém e nas Colinas de Golã, na Síria – 77% do território da Palestina histórica que atualmente forma Israel.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse inicialmente que declararia a nova rodada de anexações em 1º de julho, mas seu governo adiou a mudança por período não especificado, enquanto Netanyahu tenta navegar em sua posição tênue na política doméstica ao lidar com a Covid-19. Ele também quer indicações precisas das formas de furto de terras que serão permitidas por seus chefes em Washington. No entanto, todas as indicações são de que a liderança israelense quer aproveitar a oportunidade para consolidar logo esta fase da colonização, para que as condições não mudem.

Para compreender a jogada da anexação, é preciso reconhecer que um impulso duplo em direção ao expansionismo e à superioridade demográfica está no centro da ação sionista de Israel. O desafio, para os estrategistas israelenses, tem sido aumentar a quantidade de terra que controlam na histórica Palestina, garantindo uma maioria judaica – “terra máxima com um número mínimo de árabes”, nas palavras do historiador Nur Masalha. Por exemplo, o projeto Trump envolve a transformação de mais de 260 mil palestinos de cidadãos de Israel em sujeitos de um futuro enclave palestino.

As anexações que provavelmente ocorrerão este ano são o capítulo mais recente da engenharia demográfica que sempre foi central no sionismo. Seu fundador, Theodor Herzl, escreveu em 1895 : “Tentaremos expelir a população pobre [palestina] para o outro lado da fronteira, buscando emprego para essa população nos países de trânsito, mas negando-lhe qualquer emprego”. O estado sionista colonial na Palestina é o que ele imaginou.

Embora o sionismo tenha tido várias correntes, as duas que eram hegemônicas desde antes da criação do estado de Israel – o sionismo trabalhista e o sionismo revisionista – procuraram, como destaca Avi Shlaim, “criar um estado judeu em uma terra já habitada por outro povo”, mesmo que diferissem sobre exatamente quanto da Palestina histórica os sionistas deveriam controlar, ou as táticas a serem usadas na busca de seus objetivos.

Tem sido uma empresa colonial desde o início, baseada no desenraizamento da população palestina original e na sua substituição por pessoas de outros lugares. Como Joseph Massad diz, ao longo de sua história, o sionismo “permaneceu descarado (...) seu compromisso de construir um estado judeu demograficamente exclusivo, inspirado na Europa cristã, uma noção permeou (...) por uma epistemologia religioso-racial de supremacia sobre os árabes palestinos, não muito diferente da usada pelo colonialismo europeu com sua ideologia de supremacia branca sobre os nativos.”

Nos anos que antecederam e imediatamente após a criação de Israel, os sionistas foram claros sobre suas intenções e até sobre a legitimidade das reivindicações quanto à Palestina. Vladimir Jabotinsky, o fundador do sionismo revisionista, argumentou que os sionistas que procuravam se comprometer com os palestinos estavam iludidos na opinião “de que os árabes são algum tipo de tolos que podem ser enganados (...) e abandonarão seu direito de primogenitura na Palestina.”

Mais tarde, David Ben-Gurion, sionista trabalhista e o primeiro primeiro-ministro de Israel, admitiu: “Se eu fosse um líder árabe, nunca faria acordos com Israel. Isso é natural, nós tomamos o país deles”. Para ele, transformar os palestinos em minoria em sua terra natal não foi suficiente: “Não pode haver um estado judeu estável e forte enquanto houver uma maioria judaica de apenas 60%”. Encolher a população palestina e ampliar a de Israel tem sido uma característica fundamental do sionismo, não apenas na teoria, mas também na prática. A criação de Israel envolveu forças sionistas expulsando 750 mil palestinos na Nakba (“catástrofe”, em árabe) de 1947-1948. Cinco milhões de palestinos e seus descendentes ainda são refugiados apoiados pela ONU.

Segundo a BADIL, uma ONG que tem status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da ONU, outros 2,25 milhões de palestinos se tornaram refugiados desde 1948 – mais de um milhão deles foi expulso de suas casas durante a conquista da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental por Israel em 1967 e mais 718 mil foram deslocados internamente.

Israel impede que os refugiados exerçam seu direito de volta a suas casas, enquanto, por outro lado, a Lei do Retorno de Israel permite que qualquer pessoa na Terra que seja considerada judia pelo Estado possa migrar para Israel e se tornar automaticamente um cidadão. Se a justiça para os refugiados palestinos fosse realizada, provavelmente haveria uma maioria palestina em ambos os lados da Linha Verde, o que seria uma derrota histórica para o movimento sionista.

Israel foi além de garantir que os refugiados permaneçam refugiados para construir seu Estado Nacional. Seu terrível muro de separação é funcionalmente uma barreira de anexação, já que 85% dele separam terras palestinas. Israel encolhe Gaza ao tomar posse da terra palestina na Faixa e chamá-la de “zona tampão”, privando os palestinos que vivem lá de suas casas e agricultura.

De acordo com o grupo israelense de direitos humanos B´Tselem, a política israelense em Jerusalém Oriental é projetada para pressionar os palestinos a sair da cidade, para moldar “uma realidade geográfica e demográfica que frustraria qualquer tentativa futura de desafiar a soberania israelense”. Desde 1967, como a ONG ressalta, Israel revogou a residência permanente em Jerusalém Oriental de aproximadamente 14,5 mil palestinos. É quase impossível para os palestinos obter licenças de construção ou reforma na cidade e, em 1973, a lei de Israel determinou uma proporção demográfica de 73/26 para o povo judeu em Jerusalém.

Netanyahu deixou claro que pretende continuar cultivando a colônia, deixando Israel legalmente responsável pelo menor número possível de palestinos – os corolários lógicos da “terra máxima com um número mínimo de árabes”, são “árabes máximos na terra mínima” e “controle máximo e responsabilidade mínima”. Netanyahu disse a um jornal de direita que Israel anexará o vale do Jordão sem que os 50 mil a 65 mil palestinos que vivem lá se tornem cidadãos de Israel, para que eles não tenham voz sobre quem os governa e como.

No entanto, insiste que o “controle de segurança” israelense ainda se aplicará a Jericó, por exemplo, uma cidade palestina no vale do Jordão. O primeiro-ministro acrescentou que nem permitirá a paródia descontínua e não-soberana de um hipotético “Estado” palestino que Trump prometeu. Em outras palavras, o plano EUA-Israel é continuar a dominar os palestinos, negando-lhes direitos democráticos e nacionais elementares.

Embora Israel tenha anexado terras roubadas aos palestinos, e matado-os regularmente em grande número, aumentou sua própria população e o território a seu alcance, estabelecendo ilegalmente 620 mil pessoas na Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

A história da espoliação da Palestina não foi meramente dirigida pela supremacia racial-religiosa por si. Significa também aumentar a riqueza da classe dominante de Israel e de seus parceiros capitalistas internacionais. Após a Nakba, Israel aprovou a Lei de Propriedade dos Ausentes, que define os palestinos etnicamente como “ausentes”, criando um pretexto para Israel roubar suas terras, casas e contas bancárias.

A lei criou a categoria absurda do “presente-ausente”, para que Israel pudesse confiscar a propriedade dos palestinos que ainda estavam na Palestina, mas haviam sido deslocados internamente. Esses passos criaram simultaneamente uma barreira adicional à volta dos palestinos e enriqueceram os israelenses.

A empresa estatal israelense de água Mekorot leva água dos palestinos da Cisjordânia para abastecer os israelenses – incluindo aqueles que vivem em assentamentos ilegais – para fins domésticos, agrícolas e industriais. Muitas vezes, vende essa água de volta aos palestinos a preços exagerados que podem absorver metade da renda mensal de uma família pobre.

Os assentamentos israelenses controlam pouco mais de 85% das terras mais férteis da Cisjordânia: o vale do Jordão, em particular, é uma região agrícola rica em recursos. O norte do Mar Morto, também alvo do assalto à mão armada do “acordo do século”, contém jazidas de magnésio, potássio e bromo que podem ser avaliadas em centenas de milhões de dólares anualmente. As anexações que as sanções da trama de Trump permitem, observa a B’Tselem, deixarão que Israel continue pilhando terras e recursos palestinos valiosos.

Mesmo que a aliança EUA-Israel permita a criação de “enclaves palestinos autogovernados”, a ideia é que Israel controle as passagens de fronteira, o espaço aéreo e o mar, determinando as condições sob as quais o capital, trabalho e recursos naturais fluam dentro e fora de toda a Palestina histórica. Da mesma forma, os palestinos ainda ficariam sujeitos à permissão de Israel para qualquer construção ou desenvolvimento. Essa dinâmica permitirá que Israel mantenha os palestinos em seu campo econômico, permitido à classe dominante israelense controlar as atividades produtivas entre o rio Jordão e o mar.

Todas essas agressões devem ser vistas em um contexto global e regional que as torna possíveis. Durante décadas, os EUA deram a Israel as ferramentas políticas, econômicas e militares para praticar seus crimes contra os palestinos, porque Israel atua como um cão de ataque dos interesses imperialistas dos EUA.

Israel, agora, está em posição de anexar, não apenas porque a Casa Branca de Trump está dando permissão para fazê-lo, mas também porque Trump foi precedido por uma administração Obama que foi uma das mais pró-sionistas da história. Enquanto isso, algumas nações europeias podem preferir disciplinar Israel – de maneira relativamente leve – pela anexação, mas a União Europeia está dividida sobre o que fazer. É questionável se alguma resposta eventual equivaleria a mais do que uma repreensão moderada.

As condições no Oriente Médio também são adequadas para anexação: quase todos os governos árabe, que há muito tempo são facilitadores tácitos da pilhagem israelense, agora estão abertamente em aliança com Israel, baseada em laços econômicos e inimizade compartilhada com o Irã. Essas relações significam que Israel sabe que pode fazer o que quiser com os palestinos sem arriscar qualquer reação dos estados da região. A Jordânia fez algum barulho sobre o fim de seu tratado de paz com Israel, mas é improvável que siga essa retórica, dada a dependência da monarquia jordaniana aos EUA.

O objetivo da anexação é extinguir a causa palestina, mas não terá sucesso. Os palestinos não passaram por um século de colonização e mais de setenta anos de exílio e apatridia, apenas para serem comprados por Donald Trump. Até os membros mais interessados ​​da burguesia palestina se recusaram a morder a isca. A anexação e o documento de Trump em que se baseia prometem exacerbar, em vez de resolver, as demandas palestinas. Em vez de concordar com os termos de rendição que agora lhes são impostos, os palestinos certamente continuarão sua luta corajosa e de princípios contra os desígnios de EUA-Israel.

O principal efeito da anexação seria formalizar o que já é a realidade de fato no terreno: um Estado para controlar toda a Palestina histórica. Um governo de Joe Biden provavelmente retornaria ao status quo pré-Trump, no qual o apoio dos EUA ao roubo de terras por Israel permanece tácito.

Se Biden se tornar presidente, Israel pode ser levemente incomodado por murmúrios sobre o reinício da pantomima do processo de paz, com pouco efeito real. A Europa pode se opor a algo tão abertamente provocador quanto a anexação, mas a UE está tão profundamente envolvida com Israel que não está prestes a abandonar o projeto mais amplo do colonialismo sionista.

A reparação palestina e a descolonização da Palestina não serão presenteadas nas salas de conferência de Bruxelas e Washington. Isso só pode ser realizado através de uma combinação de resistência palestina em massa com apoio regional e solidariedade internacional dentro do núcleo do imperialismo. À medida que as manobras entre EUA e Israel tornam ainda mais a ideia de uma solução de dois estados uma piada cruel, a luta palestina se torna cada vez mais propensa a reivindicar direitos iguais em um único Estado em toda a Palestina histórica. Nesse sentido, com cada anexação e cada novo assentamento, o sionismo pode estar semeando a própria destruição.

Colaborador

Greg Shupak leciona sobre mídia na Universidade de Guelph, no Canadá. Ele é o autor de The Wrong Story: Palestine, Israel, and the Media (OR Books).

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