22 de setembro de 2026

A volatilidade do mercado de títulos do Tesouro é o capital disciplinando o Estado

Com o aumento das preocupações com a inflação, os custos de empréstimo para o Estado subiram acentuadamente. A volatilidade do mercado de títulos é o capital reprimindo os "gastos desenfreados" do Estado, impulsionados por dívidas, onde os trabalhadores pagarão o preço dessa austeridade.

Stephen Maher e Scott Aquanno

Jacobin

A recente instabilidade nos mercados de títulos do Tesouro revelou um paradoxo surpreendente: um dos principais pilares do poder financeiro dos EUA passou a restringir o próprio Estado, ilustrando os limites de sua autonomia em relação ao capital. (Yuri Gripas/Abaca/Bloomberg via Getty Images)

Desde a crise financeira de 2008, a política econômica estadunidense tem se baseado na convicção aparentemente inabalável de que os mercados globais de dívida pública dos EUA eram à prova de balas. Esse fato supostamente permitiria ao Estado operar com déficits enormes indefinidamente, financiando cortes maciços de impostos para os ricos, mesmo com os gastos militares se aproximando de US$ 1 trilhão.

A mesma confiança sustentava a ideia de que o Federal Reserve possuía poder de fogo praticamente ilimitado para conter crises econômicas. No entanto, nas últimas semanas, essa suposição começou a parecer consideravelmente menos segura. Afinal, até mesmo o Estado está sujeito à disciplina do capital.

Com o aumento das preocupações com a inflação — e, talvez ainda mais importante, com as dúvidas sobre a disposição do Fed em agir para contê-la — os custos de empréstimo para o Estado subiram acentuadamente. Na semana passada, a taxa dos títulos do Tesouro estadunidense com vencimento em dez anos ultrapassou o limite simbólico de 5%, seu nível mais alto desde 2007. Embora Donald Trump tenha seguido exigindo veementemente a redução das taxas de juros, o Fed viu pouca alternativa a não ser aumentá-las, indicando, inclusive, que novos aumentos estão por vir.

A medida expôs a falta de visão das sugestões de que a era da “independência” dos bancos centrais chegou ao fim. De fato, a necessidade de que o Fed possa impor austeridade monetária independentemente dos resultados eleitorais decorre não apenas de regras institucionais ou da cultura política, mas dos imperativos estruturais do próprio capitalismo. À medida que as políticas de Trump se depararam com essas restrições, seus esforços para subordinar o Fed à sua vontade ruíram.

Queda do petrodólar?

Muitos interpretarão esse desdobramento como mais um passo no colapso do império estaunidense. As ameaças do Irã de vender petróleo em renminbi levaram a prognósticos sobre o iminente fim do regime do “petrodólar”, frequentemente retratado como o ápice das iniciativas de “desdolarização” lideradas especialmente pelos BRICS. No entanto, a ideia de que o império estadunidense se baseia em um “complexo hidrocarboneto-dólar” é um mito.

O status do dólar não deriva do fato de que qualquer mercadoria específica seja cotada em dólares, mas sim de seu papel dentro do sistema de crédito global e da força da economia estadunidense. Grandes fluxos de investimento privado para os Estados Unidos têm sustentado a demanda por dólares, mesmo com a redução gradual da participação do dólar nas reservas oficiais. Além disso, o fato de o dólar ancorar os mercados de crédito significa que os balanços patrimoniais de empresas e bancos centrais estão atrelados a obrigações e ativos em dólares. A dívida é tão importante — talvez até mais fundamental — para impulsionar o capitalismo global quanto a energia fóssil.

Sem dúvida, o aumento das taxas de juros terá pouco impacto sobre a inflação — a menos que haja um aumento drástico o suficiente para desencadear uma recessão, como o “Choque Volcker” de 1979, que inaugurou o período neoliberal com mão de ferro. O aumento das taxas não reabrirá o Estreito de Ormuz nem reverterá a alta dos preços do petróleo que agora se espalha pela economia. Tampouco a política monetária pode desfazer as tarifas caóticas de Trump, que também geraram pressões inflacionárias significativas.

Na verdade, a imposição de austeridade monetária pelo Fed é necessária para proteger a estabilidade de um sistema financeiro global que permanece profundamente dependente do dólar. Com enormes déficits fiscais exigindo emissões cada vez maiores de títulos do Tesouro, a falha em aumentar as taxas de juros poderia agravar a onda de vendas no mercado de títulos, levantando dúvidas sobre se o Fed ainda possuía independência suficiente para impor disciplina. Como o dólar é a moeda mundial, essa turbulência nos mercados de títulos do Tesouro reverberaria pelos mercados de crédito, financiamento e ativos em toda a economia global.

O fato de a imposição de austeridade monetária ser necessária para o capitalismo global aponta para a natureza ilusória da alternativa keynesiana pró-trabalhadores imaginada por alguns na esquerda. O Fed não se viu diante de uma escolha simples entre uma política de juros baixos, favorável aos trabalhadores, e uma política de juros altos, favorável às empresas. Aumentar as taxas de juros claramente tem custos reais para os trabalhadores. Por outro lado, se o Fed tivesse continuado a seguir um caminho mais acomodativo, as taxas de juros de longo prazo nos EUA provavelmente teriam subido ainda mais, aumentando os custos de empréstimo e ameaçando gerar maior tensão nos mercados de títulos do Tesouro. E uma grave crise do Tesouro — ou o surgimento de um “ciclo vicioso” no qual o Fed se tornasse o principal comprador da dívida estadunidense — dificilmente seria algo bom para os trabalhadores. Dado o atual equilíbrio de forças de classe, os trabalhadores certamente arcariam com os custos da restauração da estabilidade.

Quem paga?

A volatilidade do mercado financeiro representa o capital reprimindo o desperdício estatal dos EUA. A questão agora é quem pagará por essa austeridade.

Em vez de uma falta de disciplina da classe trabalhadora, a questão hoje é um regime macroeconômico que combinou cortes de impostos para o capital e enormes gastos militares com guerra e tarifas. Embora Trump tenha tentado preencher parcialmente o rombo fiscal cortando agressivamente o Medicaid, a assistência alimentar e outros programas de assistência social, esses cortes só puderam ir até certo ponto. À medida que a inflação, o aumento dos custos de juros e a volatilidade nos mercados do Tesouro reduzem a margem de manobra, essas prioridades entram cada vez mais em conflito. Ou o capital absorve uma parcela maior do ajuste por meio de impostos mais altos e uma reordenação das prioridades fiscais, ou os trabalhadores serão forçados a pagar por meio de uma combinação de inflação, altas taxas de juros, desemprego e novos cortes na assistência social.

Os riscos vão além da crise de acessibilidade. As mesmas pressões que impõem a necessidade de ajustes também afetam diretamente a capacidade de enfrentar a crise existencial das mudanças climáticas.

A descarbonização exige investimentos enormes em energia, habitação, transporte e infraestrutura ao longo de extensos horizontes temporais, o que se torna muito mais difícil devido à crescente pressão sobre as finanças públicas. Os pagamentos líquidos de juros já ultrapassaram os gastos militares, excedendo US$ 1 trilhão por ano, e a previsão é de que aumentem rapidamente com o crescimento da dívida e dos custos de empréstimo. No entanto, é impossível imaginar o enfrentamento da crise ecológica sem uma expansão maciça do investimento estatal. Aumentar impostos, redefinir prioridades orçamentárias e monetizar a dívida podem criar espaço para iniciar esse projeto, mas seria um erro subestimar a veemência com que o capital se oporá a tudo isso, sem falar na expansão do planejamento estatal que uma transição verde exigiria.

Alcançar um futuro sustentável depende, portanto, do fortalecimento da classe trabalhadora para enfrentar o capital e o imperialismo. Embora a estabilização dos mercados de títulos do Tesouro seja imprescindível no curto prazo para evitar uma contração econômica mais ampla e conter os custos de empréstimos para as famílias, a atual turbulência nos EUA demonstra o quão drasticamente a margem de manobra até mesmo do Estado é limitada pelos mercados financeiros.

O episódio reforça as lições extraídas há muito tempo pelos teóricos marxistas do Estado Ralph Miliband e Nicos Poulantzas: o Estado capitalista possui autonomia real, mas essa autonomia permanece decididamente relativa. Para os socialistas, as contradições decorrentes desse fato não podem ser superadas simplesmente pela escolha de melhores políticas monetárias. É precisamente por isso que o Estado não pode ser simplesmente controlado por socialistas eleitos para governá-lo. O desafio, em vez disso, é operar dentro de um Estado que é limitado pelo capitalismo, enquanto se constrói simultaneamente o poder necessário para transformar essas limitações — uma tarefa nada fácil.

Colaboradores

Stephen Maher é professor assistente de economia na SUNY Cortland e coeditor do Socialist Register. É coautor, com Scott Aquanno, de The Fall and Rise of American Finance (Verso, 2024) e autor de Corporate Capitalism and the Integral State: General Electric and a Century of American Power (Palgrave, 2022).

Scott Aquanno é professor assistente de ciência política na Ontario Tech University. É coautor, com Stephen Maher, de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock (Verso, 2024) e autor de The Crisis of Risk: Subprime Debt and US Financial Power from 1944 to Present (Edward Elgar, 2021).

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