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26 de junho de 2026

O capitalismo contemporâneo é brutalmente competitivo

Defensores das teorias do "capitalismo político" e do "capital monopolista" argumentam que o capitalismo está estagnado, cada vez mais improdutivo e dominado pela busca de rendas (rent-seeking). Trata-se de diagnósticos equivocados que colocam a estratégia socialista no caminho errado.

Stephen Maher e Scott Aquanno


Trabalhadores preparam pacotes para envio em um centro de distribuição da Amazon na Cyber ​​Monday, em Robbinsville, Nova Jersey, na segunda-feira, 1º de dezembro de 2025. (Michael Nagle / Bloomberg via Getty Images)

Vivemos atualmente sob a forma mais agressiva de capitalismo da história. A circulação global de capitais força os Estados e os trabalhadores neles residentes a competir por investimentos e empregos — o que gera uma desigualdade galopante e corrói as proteções trabalhistas e ambientais. Paralelamente, os investimentos estão em alta, os gastos com P&D crescem, o desenvolvimento tecnológico avança rapidamente e os lucros atingiram patamares históricos. Esse cenário desafia argumentos de longa data segundo os quais a ascensão do setor financeiro estaria "esvaziando" a produção, minando a competitividade e conduzindo ao declínio econômico. Contradiz também, de forma contundente, teorias como as do "capitalismo político", "capitalismo monopolista" e outras formas de rentismo, que retratam o capitalismo como um sistema estagnado, cada vez mais improdutivo ou em uma fase decadente e "tardia".

Em uma série de artigos recentes, contestamos essas interpretações, argumentando que a concentração de capital, a financeirização e o papel crescente do Estado serviram para intensificar o que Anwar Shaikh denomina "concorrência real". Tais argumentos suscitaram respostas de Dylan Riley — que, juntamente com Robert Brenner, desenvolveu a teoria do "capitalismo político" — e de John Bellamy Foster e Brett Clark, editores da Monthly Review e principais expoentes da teoria do capitalismo monopolista. Riley sustenta que o investimento produtivo vem sendo substituído pela acumulação rentista, garantida pelo acesso privilegiado ao Estado, ao passo que Foster e Clark afirmam que a contínua concentração empresarial consolidou ainda mais o capitalismo monopolista.

Ambos os argumentos falham em seu propósito. Riley desvincula a renda (ou o rendimento) das dinâmicas competitivas de produção e distribuição, confundindo corrupção com o surgimento de um novo regime de acumulação. Já Foster e Clark tratam a ausência dos indicadores esperados de monopólio como algo irrelevante, estendendo o conceito de monopólio a ponto de torná-lo, na prática, infalsificável. Apesar de suas divergências, ambos têm dificuldade em conciliar as teorias da estagnação com a realidade de uma acumulação altamente lucrativa e intensamente competitiva — a qual, defendemos, constitui a causa principal das crises sociais, ecológicas e políticas que se desenrolam ao nosso redor.

Capitalismo político

Em um artigo recente na Sidecar, Dylan Riley reiterou seu argumento de que estamos testemunhando a ascensão do que ele e Robert Brenner chamaram de "capitalismo político". Nesse regime, segundo eles, a extração de renda por meio do controle do Estado está superando o investimento produtivo como o principal meio pelo qual a classe dominante acumula riqueza.

Os capitalistas, escreveu Riley, "prefeririam obter lucros por meio da busca de renda (rent-seeking) e da extração política, sem arriscar sua riqueza em investimentos incertos". Além disso, a situação chegou a tal ponto que "a ameaça mais óbvia ao capitalismo hoje não provém da classe trabalhadora, mas, paradoxalmente, dos capitalistas que, com sucesso crescente, descobriram como lucrar por meio da pilhagem em vez do investimento produtivo". Essas observações ecoam as afirmações abrangentes que Brenner e Riley fizeram em outros textos: a de que, "sob o capitalismo político, o poder político bruto — e não o investimento produtivo — é o principal determinante da taxa de retorno".

A concentração de capital, a financeirização e o papel crescente do Estado têm servido para intensificar o que Anwar Shaikh denomina "concorrência real".

Riley iniciou seu artigo na Sidecar insistindo, acertadamente, que a análise deve se concentrar nas "leis de movimento" do sistema. No entanto, como argumentamos em uma crítica publicada na Jacobin, sua própria análise parece desconectada de tal fundamento. A renda que os capitalistas supostamente extraem precisa vir de algum lugar. Assim como o lucro e os juros, a renda é uma reivindicação sobre um montante finito de mais-valia. Ela deriva do controle sobre alguma condição de produção ou circulação que confere a certos capitalistas o poder de se apropriar de riqueza produzida em outro lugar — uma vantagem que não pode ser eliminada pela concorrência. Se o acesso a essa condição estivesse disponível a todos os capitalistas, a renda desapareceria, uma vez que não conferiria mais uma vantagem exclusiva.

Por ser uma reivindicação sobre uma mais-valia finita, a renda não pode se expandir indefinidamente. Na medida em que é deduzida do lucro, ela não pode crescer a ponto de eliminar o incentivo ao investimento produtivo — o que minaria a própria fonte da renda, bem como a reprodução de todo o sistema. A "extração" pode enriquecer capitalistas específicos, mas simplesmente não pode substituir o investimento produtivo como base geral da acumulação. Como resultado, argumentamos que "a análise de Riley sugere, na prática, que o capitalismo está sendo substituído por alguma forma de 'neofeudalismo', à medida que a acumulação de riqueza por meio da 'pilhagem' mina a concorrência e leva à suspensão das 'leis de movimento' do capitalismo".

Em uma discussão um tanto intrigante sobre a renda, feita em resposta às nossas críticas, Riley tenta contornar esse limite à extração separando a captura de renda da dinâmica de acumulação — argumentando que "existem muitas formas de renda que nada têm a ver com mercados e, portanto, não dependem de monopólios". Mas é difícil ver como isso seria possível. O exemplo que ele oferece — contratos governamentais concedidos a aliados políticos de Trump — dificilmente esclarece a questão. Se o acesso privilegiado ao poder estatal confere a certos capitalistas vantagens indisponíveis a outros, permitindo-lhes extrair riqueza da economia produtiva (como afirma Riley), isso parece se enquadrar perfeitamente na definição de monopólio.

Além disso, os contratos estatais têm sido cruciais para a competitividade e a lucratividade das corporações multinacionais dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Deve-se entender tudo isso simplesmente como "renda"? De fato, os gastos estatais desempenham, há muito tempo, um papel central na teoria do capital monopolista. Como argumentamos, se abandonarmos a conexão estabelecida por Karl Marx entre renda e monopólio — como Riley tenta fazer —, o conceito de renda torna-se tão amplo que “o lucro, enquanto categoria distinta, tende a desaparecer completamente na renda”. Como se para comprovar nosso argumento, Riley acaba chegando a uma definição que poderia abarcar praticamente qualquer política fiscal ou monetária estatal.

O argumento de Riley obscurece o fato de que o Estado não constitui uma fonte autônoma de valor, mas redistribui a riqueza produzida em outros âmbitos. Assim, ele não consegue escapar dos limites à expansão da renda que identificamos. Se a renda, a pilhagem e os valores de ativos inflados politicamente não representam reivindicações sobre a mais-valia, então sobre o que incidem? Se são vistos como fontes de riqueza independentes da produção, o argumento abandona a teoria do valor de Marx e transita para um terreno mais próximo do marginalismo neoclássico. Se, contudo, constituem reivindicações sobre a mais-valia, então as questões permanecem exatamente aquelas que levantamos: como o excedente é produzido, como é distribuído e por que essas formas de apropriação poderiam ser compreendidas como um novo regime de acumulação.

Em sua resposta, Riley salta de exemplos vívidos de corrupção política e enriquecimento pessoal da família Trump para uma afirmação muito mais ampla sobre o “capitalismo político”, no qual toda a economia é dominada por um “setor extrativo” indefinido e de contornos imprecisos. Assim como no artigo original da *Sidecar*, ele não identifica em que consiste esse “setor improdutivo, predatório e extrativo”, nem apresenta qualquer evidência de sua relevância econômica global. Apontar casos de corrupção flagrante é, naturalmente, muito diferente de demonstrar que a extração estatal constitui um regime ou uma lógica de acumulação inteiramente novos. No máximo, portanto, Riley identificou um conjunto específico de empresas que lucram por meio de conexões políticas corruptas, do tipo relatado diariamente em notícias como as que ele cita.

A estrutura analítica de Riley tende a retratar o Estado como um instrumento direto de uma oligarquia dominante restrita. No entanto, organizar o poder de uma classe dominante — cujos membros competem entre si e se preocupam primordialmente com seus próprios resultados financeiros, em vez de com uma estabilidade sistêmica ampla — exige que o Estado mantenha certa distância de capitalistas individuais; é o que teóricos marxistas do Estado chamam de "autonomia relativa". O Estado age de maneira capitalista não porque os capitalistas assim o determinam, mas em decorrência de imperativos estruturais. Precisamos de uma teoria mais sofisticada, que não trate o Estado meramente como corrupto ou capturado por interesses privados, mas sim como um Estado capitalista com funções sistêmicas de apoio à acumulação, garantia de legitimidade e exercício de coerção.

Tal teoria esclarece tanto as possibilidades quanto os limites das reformas. Também nos ajuda a compreender como o Estado passou a expressar uma reação conservadora que fundiu a indignação dos trabalhadores com os custos de uma globalização (altamente lucrativa) a receios quanto à imigração e à erosão do patriarcado. Se o capital tivesse prevalecido, Kamala Harris — e não Trump — seria a presidente. A crise política que deu origem a Trump — e que suas ações caóticas no cargo apenas exacerbaram — decorre, em parte, do fato de que o capital não controla o Estado diretamente.

Há outros problemas fundamentais na noção de capitalismo político. Essa estrutura baseia-se na premissa de que a estagnação eliminou as oportunidades de investimento produtivo. Para Brenner e Riley, a crise da década de 1970 jamais foi superada, o que os obriga a tentar justificar — ou minimizar — o boom dos anos 1990, a recuperação pós-2008 e os atuais lucros recordes, bem como os elevados gastos em P&D e os investimentos em larga escala. Contudo, Riley admite que as Big Techs — tipicamente o alvo central das análises sobre "tecnofeudalismo" e capitalismo rentista — são competitivas, investem pesadamente, são tecnologicamente dinâmicas e não auferem rendas de monopólio. Se isso é verdade, parece restar pouco da tese de que "condições de soma zero" implicam que a acumulação só pode ocorrer por meio da extração.

Apontar casos de corrupção flagrante é, naturalmente, muito diferente de demonstrar que a extração estatal constitui um regime ou uma lógica de acumulação inteiramente novos.

Riley retruca que devemos considerar as taxas de crescimento fora do setor de tecnologia. Mas o que isso revela se a teoria só consegue se sustentar ao deixar de lado o setor mais dinâmico da economia? Devemos também ignorar os grandes investimentos em defesa, energia e logística? Mesmo que haja certo excesso de investimento, levando à desvalorização e à concentração de mercado — ou até mesmo a uma possível crise —, isso reflete a dinâmica normal do desenvolvimento tecnológico no capitalismo. Certamente, não indica um sistema esgotado e estagnado.

Capitalismo monopolista

John Bellamy Foster e Brett Clark, em artigo na nova edição da Monthly Review, responderam às críticas que fizemos à teoria do capital monopolista ao avançarem na direção oposta. Enquanto Riley tenta desvincular a renda do monopólio — acabando por adotar uma definição de renda excessivamente ampla —, Foster e Clark propõem uma definição expansiva de monopólio que, na prática, é infalsificável. Ao fazerem isso, eles confirmam nosso argumento central: diante de uma realidade que não se encaixa na teoria, os teóricos do capital monopolista ampliaram a definição de monopólio para acomodar os fatos. Demonstramos que a noção de concorrência real de Shaikh captura a dinâmica do capitalismo corporativo contemporâneo muito melhor do que o conceito de "capital monopolista".

Como mostramos, a teoria do capital monopolista está estreitamente ligada às teorias convencionais de "concorrência imperfeita", nas quais os mercados reais são avaliados em relação ao ideal de "concorrência perfeita" imaginado nos manuais de economia neoclássica. No cerne dessas teorias está a "teoria quantitativa da concorrência", segundo a qual a intensidade da concorrência é vista como resultado direto do número de empresas em um mercado. A concorrência situa-se em um espectro que tem, em um polo, a concorrência perfeita — caracterizada por inúmeras pequenas empresas — e, no outro, o monopólio perfeito — caracterizado por um único vendedor. À medida que os mercados passam a ser dominados por um número menor de empresas maiores, por meio de processos de concentração e centralização, a narrativa sustenta que o capitalismo deixa sua "fase competitiva" e entra em uma "fase monopolista". Na ausência da disciplina concorrencial, o resultado é baixo investimento, estagnação, preços elevados e superlucros.

Em nosso artigo para a Review of Radical Political Economics (RRPE), analisamos o caso da Amazon, frequentemente citada como exemplo emblemático de empresa monopolista. Teóricos do "tecnofeudalismo", por exemplo, sustentam que a Amazon e outras empresas de tecnologia extraem rendas monopolistas substanciais em virtude de seu controle sobre propriedade intelectual, plataformas e dados pessoais. Assim como no caso do "capitalismo político", a capacidade das empresas de tecnologia de extrair renda dependeria da posse de poder de monopólio: o controle sobre algo que confere uma vantagem de mercado que não pode ser eliminada pela concorrência. Caso contrário, lucros acima da média atrairiam investimentos de outros capitalistas, intensificando a concorrência e fazendo com que os lucros retornassem à média social.

Esse processo, pelo qual a taxa de lucro é equalizada concorrencialmente, é central para a teoria da concorrência real. Sob essa ótica, a concorrência não depende do número de empresas em um setor ou de seu porte, mas sim da mobilidade do capital. Grandes corporações, providas pelo grande capital financeiro do poder de fogo necessário sempre que preciso, estão mais bem equipadas para romper barreiras que protegem mercados geradores de retornos acima da média. Nessa perspectiva, a concorrência não é necessariamente enfraquecida à medida que as empresas crescem; pelo contrário, a concentração e a centralização amplificam a força da concorrência, uma vez que a "guerra entre empresas" passa a ocorrer em maior escala.

Como demonstramos, a Amazon precisa competir para atrair vendedores — reduzindo o tempo de rotação do capital e oferecendo acesso ampliado a mercados — e para atrair clientes, oferecendo preços baixos e entregas extremamente rápidas. Consequentemente, a empresa é compelida a maximizar a eficiência, intensificar o ritmo de trabalho, explorar a mão de obra e acelerar a circulação de mercadorias. Um ponto crucial é que também demonstramos que a Amazon não tem obtido, de forma persistente, lucros acima da média. Em nosso artigo recente para a Socialist Register, mostramos que o mesmo ocorre com as outras principais empresas de tecnologia. Em suma, não há evidências de que barreiras à mobilidade do capital tenham suspendido a equalização competitiva das taxas de lucro, como exigem as teorias do tecnofeudalismo ou do capital monopolista.

Foster e Clark não abordam essas evidências, nem nossa análise mais ampla sobre o desenvolvimento da Amazon ou os argumentos específicos dos teóricos do monopólio que criticamos. Em vez disso, eles saltam repetidamente da existência de corporações gigantes para a conclusão de que elas detêm poder de monopólio. Foster e Clark deslocam o foco das taxas de lucro para afirmações genéricas sobre o porte das empresas, concentração, centralidade de plataforma e planejamento estratégico, citando dados sobre concentração corporativa compilados por Foster, Robert W. McChesney e R. Jamil Jonna em 2011. No entanto, tal abordagem pressupõe justamente aquilo que precisa ser demonstrado. A existência de grandes empresas é, obviamente, um fato incontestável; o que questionamos é a afirmação de que a concentração equivale, por definição, a monopólio.

A existência de grandes empresas, naturalmente, não está em questão; o que contestamos é a afirmação de que a concentração equivale inerentemente a monopólio.

Para sustentar esse argumento, Foster e Clark deixam de lado as evidências empíricas para interpretar o que Marx realmente pensava, alegando que ele endossava a teoria quantitativa da concorrência. No entanto, a única passagem do Volume I de O Capital que eles citam foi retirada de seu contexto. A teoria da concorrência de Marx é desenvolvida ao longo dos três volumes de O Capital, e é somente no Volume III que ele examina plenamente o seu funcionamento em todo o sistema. Mesmo a passagem citada por Foster e Clark refere-se a uma situação específica no processo de desenvolvimento capitalista, na qual pequenos capitais — incapazes de atingir a escala mínima de investimento, que é crescente — são excluídos de setores transformados pela indústria moderna e se aglomeram em esferas onde ela penetrou apenas parcialmente. "Aqui", escreve Marx, "a concorrência grassa em proporção direta ao número e em proporção inversa à magnitude dos capitais rivais".

A palavra "aqui" é importante. Como observa Howard Botwinick, Marx está descrevendo a rivalidade desesperada entre numerosos pequenos capitais confinados a uma esfera econômica cada vez mais restrita, e não enunciando uma lei geral. Com o estabelecimento da indústria moderna, contudo, a concorrência passa a operar cada vez mais por meio da escala, do desenvolvimento tecnológico, do aumento da produtividade e da capacidade de ingressar em novos mercados — tudo isso facilitado pelo acesso ao crédito. Apenas algumas frases depois, Marx identifica a tendência mais ampla: "Na medida em que se desenvolvem a produção e a acumulação capitalistas, desenvolvem-se também as duas alavancas mais poderosas da centralização: a concorrência e o crédito". Em outras palavras, a concorrência e o crédito desenvolvem-se paralelamente à acumulação, ao mesmo tempo em que impulsionam a concentração e a centralização.

Foster e Clark nos criticam por não reconhecermos que a rivalidade persiste no capitalismo monopolista — uma característica daquilo que eles denominam "monopólio real". Mas essa é precisamente a questão abordada em nosso artigo na RRPE. Como apontamos, essas teorias reconhecem a rivalidade oligopolística dentro de um sistema de conluio, fixação de preços, estagnação e lucros extraordinários. Contudo, isso não corresponde à realidade do capitalismo moderno. É em resposta a essa realidade que uma nova geração de teóricos do monopólio — de Lina Khan aos defensores do tecnofeudalismo — expandiu o conceito de monopólio para abarcar a própria concorrência. Assim, Khan apresenta a Amazon, de forma célebre, como um "paradoxo": por um lado, é uma empresa gigante que opera em um mercado concentrado, mas, por outro, adota um comportamento aparentemente competitivo. A solução delas é tornar a teoria quantitativa verdadeira por definição: grandes empresas são consideradas monopólios, quer aumentem ou reduzam preços, expandam ou estagnem, invistam ou não. Se abandonarmos a teoria quantitativa, no entanto, o paradoxo também desaparece: a explicação mais simples é que essas empresas estão competindo, exatamente como a teoria da concorrência real preveria.

A resposta de Foster e Clarke confirma em grande parte essa tendência, chegando a creditar Khan como um teórico do "monopólio real". Elas reconhecem que empresas monopolistas competem para reduzir custos e expandir vendas, podendo até investir em escala enorme. Mas é difícil perceber como tal comportamento de "monopólio" pode ser distinguido da concorrência. Como argumentam, lucros elevados contam como evidência de rendas de monopólio, enquanto lucros baixos são atribuídos a uma estratégia de monopólio de longo prazo; o subinvestimento confirma a estagnação do monopólio, e o alto investimento confirma a consolidação do monopólio. Qualquer resultado corrobora a teoria. A distinção decisiva que Foster e Clarke estabelecem entre concorrência real e "monopólio real" é que as empresas monopolistas evitam a redução de preços. No entanto, elas não abordam as evidências que apresentamos de que a concorrência de preços está, de fato, ocorrendo. Tampouco confrontam as implicações de sua própria afirmação: se as empresas estivessem praticando preços de monopólio, deveriam obter lucros acima da média — mas, como demonstramos, isso não acontece.

O único indicador que Foster e Clark apresentam em defesa da tese do capitalismo monopolista é a inflação. No entanto, a inflação não é uma medida de monopólio nem um índice direto da estrutura de mercado. Os preços podem subir devido à demanda e à criação de crédito, aos salários e à luta de classes, a interrupções na oferta e choques cambiais, à política fiscal e monetária e a inúmeros outros fatores. O poder de mercado pode permitir que as empresas mantenham margens de lucro (markups) mais elevadas e, consequentemente, um nível de preços mais alto, mas não consegue explicar uma inflação persistente, a menos que essas próprias margens continuem a aumentar. Portanto, a persistência da inflação não demonstra o desaparecimento da concorrência de preços. O argumento de Foster e Clark falha no nível mais básico: a inflação, por si só, não nos diz se as empresas detêm poder de monopólio, coordenam preços ou permanecem sujeitas à concorrência.

Foster e Clark encerram com uma longa citação de um ensaio de 1981 de Paul Sweezy, a qual, segundo eles, "expõe uma teoria do monopólio real". Contudo, essa passagem estabelece expectativas muito mais definidas do que o conceito elástico de Foster e Clark sugere. A teoria do capital monopolista, escreve Sweezy, confronta-se com as "realidades" do capitalismo maduro: "sobreacumulação e estagnação, capacidade produtiva ociosa e subinvestimento, lucros excedentes e subconsumo". É difícil conciliar isso com o reconhecimento, por parte de Foster e Clark, de que as empresas de tecnologia apresentam investimentos maciços, rápido desenvolvimento tecnológico, expansão da capacidade, reestruturação dos processos de trabalho e ausência de superlucros monopolistas consistentes.

As evidências, portanto, contradizem as tendências identificadas por Sweezy de forma muito mais direta do que Foster e Clark admitem. Em vez de um capitalismo monopolista maduro que escapa à disciplina da concorrência — como Sweezy e Paul Baran teriam esperado —, a Amazon exemplifica a concorrência intensificada prevista por Marx e Shaikh.

Concorrência e lucros

O grande valor político da teoria da concorrência real reside na clareza que ela proporciona sobre a luta por uma alternativa ao capitalismo que seja mais sustentável e democrática. Ao ler a resposta de Foster e Clark, pergunta-se por que é tão importante fazer malabarismos teóricos para fundamentar nossa análise no "capital monopolista". Argumentamos que tratar o mau funcionamento do capitalismo — em vez de seu funcionamento rotineiro — como o problema central pode apontar para uma política restrita de revitalização do capitalismo, em vez de construir as capacidades necessárias para superá-lo. Isso não significa que todo teórico ou agente que tenha invocado o conceito de monopólio — de Che Guevara e Vladimir Lenin a Sweezy e Foster — seja reformista. O problema é que, ao obscurecer o papel central da concorrência como motor da acumulação de capital, da exploração do trabalho e da destruição ambiental, a estrutura teórica do capital monopolista também pode obscurecer a importância fundamental, para a estratégia socialista, de romper com a concorrência.

A Amazon é prejudicial aos trabalhadores não por ser um monopólio, mas por ser uma empresa capitalista implacavelmente competitiva.

A própria resposta de Foster e Clark reflete essa ambiguidade. Por um lado, eles insistem que o monopólio é indissociável do próprio capitalismo e que as políticas anticapitalistas e antimonopolistas estão intrinsecamente ligadas. Por outro lado, apresentam medidas antitruste que intensificariam a concorrência como potencialmente benéficas para os trabalhadores. No entanto, a Amazon já é ferozmente competitiva. Seus preços baixos e entregas rápidas são alcançados por meio de uma pressão implacável para reduzir custos, acelerar a circulação, disciplinar fornecedores e intensificar o trabalho. A Amazon é prejudicial aos trabalhadores não por ser um monopólio, mas por ser uma empresa capitalista implacavelmente competitiva. A automação, a vigilância e a disciplina no trabalho são mais bem compreendidas como armas na luta belicosa entre capitalistas por lucros do que como consequências do poder monopolista. E, como Paul Burkett — colaborador ocasional de Foster — demonstrou de forma contundente, esses mesmos imperativos competitivos impulsionam a destruição ambiental.

Isso ressalta a necessidade de uma transformação sistêmica. A questão, nesse sentido, não é se devemos buscar reformas, mas sim que tipo de reformas deve ser priorizado e por quê. Para os socialistas, a resposta a essas perguntas depende da capacidade de integrar essas ações a uma luta mais ampla para transferir poder aos trabalhadores, construir capacidades democráticas e abrir caminho para além da disciplina do mercado capitalista. Como escreveram Leo Panitch e Sam Gindin, devemos "nos libertar da noção de que é apenas por meio da competitividade que podemos enfrentar o desenvolvimento de nossas capacidades produtivas". De fato, "aceitar a concorrência como objetivo... é desistir do projeto socialista antes mesmo de começar". Isso significa revitalizar e transformar o movimento trabalhista como eixo central de uma política de classe mais ampla e, não menos importante, imaginar e construir instituições capazes de ampliar o controle democrático sobre os investimentos. À medida que a crise climática se acelera, a falha de investidores e estados capitalistas em promover uma transição verde torna mais evidente do que nunca a necessidade de alocar recursos de acordo com as necessidades sociais e ecológicas, em vez de seguir imperativos competitivos de mercado.

Colaboradores

Stephen Maher é professor assistente de economia na SUNY Cortland e coeditor da Socialist Register. É coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock, com Scott Aquanno, e autor de Corporate Capitalism and the Integral State: General Electric and a Century of American Power.

Scott Aquanno é professor assistente de ciência política na Ontario Tech University. É coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock, com Stephen Maher, e autor de Crisis of Risk: Subprime Debt and US Financial Power from 1944 to Present.

9 de fevereiro de 2026

Sob o capitalismo, a democracia para na economia

Em Escape From Capitalism, a economista Clara Mattei oferece uma defesa intransigente de uma visão marxista da sociedade e argumenta a favor do controle democrático da economia.

Stephen Maher e Scott Aquanno


Em Escape From Capitalism, Clara Mattei defende que os socialistas precisam ir além da social-democracia, insistindo que a democracia, e não o lucro, deve guiar as decisões econômicas. (Angela Weiss / AFP via Getty Images)

Resenha de Escape From Capitalism: An Intervention de Clara Mattei (Simon & Schuster, 2026)

O modo dominante de análise socialista do capitalismo contemporâneo frequentemente se concentra em sua corrupção ou decadência por meio da financeirização, monopolização, desregulamentação ou influência corporativa sobre a política. O parasitismo financeiro, a extração de renda por senhores “tecnofeudais” e a corrupção política são vistos como aberrações que minaram a vitalidade competitiva do capitalismo, resultando em desigualdade econômica crescente e precariedade da classe trabalhadora, culminando no atual pesadelo neofascista trumpista.

Ao mesmo tempo, tais relatos apontam para uma política social-democrata de compromisso de classe, na medida em que se presume que trabalhadores e capitalistas industriais “produtivos” — isto é, seus patrões — compartilham o interesse em “restaurar a competitividade” controlando os monopólios tecnológicos ou a especulação financeira excessiva, ao mesmo tempo que expandem os gastos governamentais. A estratégia socialista, portanto, deveria se orientar para a revitalização do capitalismo americano, ainda que sob uma roupagem um pouco mais progressista.

O livro Escape From Capitalism, de Clara Mattei, oferece uma importante correção a essas perspectivas. Em muitos aspectos, este é o livro que estávamos esperando, oferecendo uma introdução ao capitalismo, bem como uma crítica à economia neoclássica, ao mesmo tempo que rejeita enquadramentos populistas simplistas que apontam a ganância corporativa, as grandes finanças ou o poder monopolista como os principais problemas políticos a serem superados. Mattei insiste que o problema é o próprio capitalismo: não um sistema falho que precisa de reparos, mas um sistema que funciona corretamente e precisa ser abolido.

Como ela argumenta, existe uma contradição fundamental entre “a lógica do lucro” e “a lógica da necessidade”. Longe de sinalizar um problema para o sistema, o capital se beneficia — e até mesmo exige — da privação da maioria. A miséria dos trabalhadores e o crescente autoritarismo, portanto, não são falhas do capitalismo, mas consequências de seus impulsos básicos. A competitividade, por sua vez, é um problema, não uma solução, para os trabalhadores.

A miséria dos trabalhadores e o crescente autoritarismo não são, portanto, fracassos do capitalismo, mas consequências de seus impulsos básicos.

Manter a exploração, argumenta Mattei, exige políticas específicas — a saber, a austeridade, por meio da qual o Estado disciplina os trabalhadores ao impor a insegurança material. A formação da economia convencional (mainstream), mostra ela, esteve indissociavelmente ligada à sua capacidade de legitimar a austeridade, mascarando interesses capitalistas sob pretensões de neutralidade. Tais alegações de objetividade, somadas à dependência de modelos matemáticos complexos, despolitizaram as questões econômicas, facilitando sua entrega às mãos de "especialistas" não eleitos e reforçando formas de governança autoritária.

Para Mattei, alcançar uma democracia genuína exige reconhecer o sistema econômico, a política econômica e a teoria econômica como espaços inevitavelmente políticos, onde o poder de classe é constituído e exercido. Analisar o capitalismo historicamente, como faz Mattei, revela o funcionamento do poder em cada uma dessas áreas e mostra que nenhum desfecho é predeterminado, lançando um desafio poderoso ao fatalismo que, hoje, representa uma das principais barreiras à mobilização da classe trabalhadora.

A ordem capitalista

O livro começa explicando, com invejável clareza, como a “ordem capitalista” se constrói sobre dois “pilares básicos”: os mercados de trabalho e a propriedade privada dos meios de produção, que sustentam o “teto” do lucro. Mattei faz questão de observar que os mercados preexistiam ao surgimento do capitalismo propriamente dito. O que marca a ruptura qualitativa decisiva com os sistemas econômicos anteriores não é meramente um aumento quantitativo no comércio, mas a dependência generalizada do mercado, em que “nossa sociedade agora depende do mercado para nossa sobrevivência e reprodução”.

Ecoando a análise de Karl Marx sobre a “chamada acumulação primitiva”, Mattei enfatiza que o surgimento histórico do capitalismo não guardava qualquer semelhança com o reconfortante mito neoclássico da expansão pacífica dos mercados em paralelo ao aumento da produtividade. A consolidação dos direitos de propriedade absolutos ocorreu por meio de expropriações violentas e generalizadas pelas mãos do Estado — eventos “escritos nos anais da humanidade com sangue e fogo”, na poderosa formulação de Marx. Longe de os mercados substituírem os Estados, Mattei insiste que as leis coercitivas da concorrência e do poder estatal têm atuado em conjunto para sustentar a ordem capitalista.

Mattei argumenta que o capitalismo, desde o seu início, tem sido marcado pela acumulação de riqueza em um polo e pela acumulação de miséria no outro — o que Marx chamou de “lei geral absoluta da acumulação capitalista”. Isso fundamenta o argumento de Mattei de que a lógica do lucro é fundamentalmente incompatível com a lógica da necessidade.

O propósito da produção capitalista não é a criação de valores de uso para sustentar o florescimento humano, mas a acumulação incessante de valor de troca por uma classe através do controle que exerce sobre o trabalho de outra. Tratar a degradação neoliberal da classe trabalhadora como um sintoma do fracasso do capitalismo, em vez de uma extensão de sua lógica intrínseca, é despolitizar o antagonismo entre necessidade e lucro, capital e trabalho. Implica que um capitalismo forte e competitivo beneficia necessariamente os trabalhadores e, portanto, que os interesses dos trabalhadores e dos capitalistas não são inerentemente opostos. Na verdade, a força do capital sempre se baseou na subordinação das necessidades humanas ao imperativo do lucro.

Como argumenta Mattei, o crescimento econômico representa “a progressão lógica da classe capitalista”. O desenvolvimento tecnológico é impulsionado pelo imperativo de maximizar a exploração, permitindo que cada trabalhador produza mais em um determinado período de tempo. Na ausência de organização trabalhista, o sistema tenderá a automatizar os empregos mais bem remunerados, deixando trabalhadores desempregados, engrossando as fileiras dos desempregados e aumentando a pressão competitiva sobre todos os salários. Enquanto isso, se os salários crescerem mais rápido que a produtividade — levando a taxas decrescentes de exploração e retornos menores para os capitalistas — a falta de lucro resultará em redução de investimentos e demissões, expandindo novamente o exército de reserva de desempregados.

Assim, os trabalhadores, em última análise, não podem vencer no capitalismo: salários mais altos significam apenas que a “corrente dourada que eles mesmos criaram”, que liga suas fortunas ao poder do capital, foi, por um tempo, “afrouxada um pouco”. O crescimento, em outras palavras, não é uma situação vantajosa para o capital e para os trabalhadores, como frequentemente se afirma. A disciplina de classe está intrínseca à sua própria lógica. A política da classe trabalhadora, portanto, não pode se limitar à luta por salários mais altos, mas deve visar a uma fuga completa do capitalismo.

Essa fundamentação na teoria econômica marxista permite que a análise de Mattei vá além das exortações populistas sobre a “ganância” da “classe bilionária”, que normalmente se concentram na distribuição de renda em vez dos processos subjacentes pelos quais a riqueza é produzida. A estratificação de renda, ela demonstra, é distinta da classe social. Esta última não se refere a quanto dinheiro alguém ganha, mas de onde ele vem — ou seja, à posição de alguém dentro das relações sociais de produção.

Da mesma forma, essa estrutura ajuda a fundamentar as desigualdades raciais e de gênero nas relações de classe que estruturam as hierarquias tanto entre quanto dentro desses grupos. A aparente força das abordagens populistas reside na alegação de que uma teoria econômica mais substancial, que iluminaria as raízes estruturais das desigualdades de riqueza e poder, é “muito difícil”, “muito complicada” ou “muito assustadora” para o consumo em massa. No entanto, o texto de Mattei não se baseia em jargões que possam afastar os não iniciados, nem sacrifica a urgência política. Ao focar nas fontes sistêmicas das relações de poder em nossa sociedade, Mattei aponta o caminho para as mudanças sistêmicas necessárias para alcançar uma democracia genuína.

Particularmente importante é a compreensão de Mattei sobre a competição como a força central que impulsiona a acumulação, rejeitando os argumentos do “capital monopolista” que há muito dominam a economia heterodoxa. Longe de estar confinada a um estágio inicial do capitalismo, a competição permanece a fonte do extraordinário dinamismo e resiliência do sistema. O domínio do mercado, afirma ela, é inerentemente temporário e está sempre sob pressão dos rivais. A corrida pela inovação e a tendência à redução de preços “não podem ser interrompidas” — e, de fato, são reproduzidas em uma escala maior e mais destrutiva à medida que as unidades de capital crescem por meio da concentração e da centralização.

Crucialmente, a competição não é de forma alguma um benefício para os trabalhadores, como sugere a economia neoclássica, supostamente permitindo-lhes escolher um empregador diferente caso seu trabalho não seja justamente remunerado. Pelo contrário, ela ancora a “lei geral” de Marx, compelindo as empresas a maximizar a exploração e garantindo a produção de uma população excedente. Para Mattei, a competição é fundamental para a “lógica do lucro”, disciplinando os trabalhadores e reforçando sua dependência do mercado.

Ela insiste que a exploração dos trabalhadores, tanto nos centros urbanos quanto nas periferias, é a essência do capitalismo global.

Os argumentos de Mattei coincidem com nosso próprio trabalho sobre financeirização, bem como sobre a corporação Amazon. Como demonstramos em "A Ascensão e Queda das Finanças Americanas", na medida em que a financeirização aumentou a mobilidade do capital, facilitando sua circulação geográfica e entre setores, ela intensificou o dinamismo competitivo do sistema em escala global. Quanto mais facilmente o capital pode ser retirado de ativos com retornos relativamente baixos e alocado àqueles com retornos relativamente altos, mais intensas se tornam as disciplinas competitivas sobre todos os investimentos para maximizar os retornos.

Da mesma forma, nossa pesquisa sobre a Amazon — um exemplo fundamental citado por Mattei — mostrou como, longe de ser um monopólio, como frequentemente se afirma, essa empresa é, na verdade, ferozmente competitiva. Em vez dos altos preços, da estagnação tecnológica, da ineficiência e dos lucros inflados que a teoria do monopólio esperaria, a Amazon foi compelida a lutar continuamente para sustentar e renovar sua posição por meio de inovação e reestruturação incessantes — especialmente minimizando o tempo e os custos de circulação, ajudando assim a maximizar a produção de lucro no menor tempo possível, e reduzindo drasticamente os preços.

Isso desafia a hipótese “tecnofeudal”, que implica que muitos males econômicos e sociais contemporâneos podem ser atribuídos ao mau funcionamento do capitalismo como resultado do poder monopolista de um grupo de empresas de tecnologia que drenam valor dos capitalistas “produtivos”. Tais relatos se baseiam amplamente no trabalho de Lina Khan, guru antitruste e ex-comissária da Comissão Federal de Comércio (FTC) durante o governo de Joe Biden, embora disfarçados em uma linguagem de tom mais radical.

A implicação é que “restaurar a concorrência” beneficiaria tanto os trabalhadores quanto os capitalistas industriais. Contudo, paradoxalmente, a Amazon — talvez mais do que qualquer outra empresa — ilustra precisamente o quão prejudicial a concorrência é para os trabalhadores. A competição acirrada de preços levou à exploração mais implacável por meio da pressão incessante para baixo sobre os salários e das inovações contínuas na automação, vigilância e disciplina dos processos de trabalho em armazéns que empregam milhares de trabalhadores — cenas que lembram trechos de O Capital: Volume 1. Tampouco é provável que enfrentar as finanças “especulativas” produza o “bom” capitalismo liderado pela indústria pelo qual os liberais anseiam. A análise de Mattei nos ajuda a perceber que os enormes prejuízos causados ​​aos trabalhadores no período neoliberal são resultado da competição, e não da sua ausência.

Austeridade e o Estado capitalista

Se muitos na esquerda veem o capitalismo atual como doente, a social-democracia europeia (ou mesmo sua prima muito mais limitada, o New Deal) é frequentemente apresentada como a cura — ampliando o argumento de que trabalhadores e capitalistas têm um interesse comum em “restaurar” um capitalismo forte e competitivo. De fato, os regimes social-democratas são frequentemente considerados como tendo resolvido a contradição entre capitalismo e justiça social, e entre as prioridades do lucro privado e as da democracia e igualdade. Mesmo quando esses regimes impõem uma austeridade cada vez mais severa, eles são invocados como prova de que podemos ter crescimento econômico ilimitado e acomodar as demandas democráticas por redistribuição de renda e pelo Estado de bem-estar social.

Para Mattei, no entanto, a intensificação da austeridade que marcou a crise desses regimes não é meramente uma escolha política ou um fracasso político, mas uma necessidade estrutural imposta pela própria “lógica do lucro”, que afirma visivelmente seu antagonismo à “lógica da necessidade”. Combater a austeridade, portanto, não pode significar instalar um capitalismo mais progressista, mas requer transcendê-la por completo. Em vez de defender o capitalismo, cabe aos socialistas expor os limites da reforma dentro dele — e argumentar em favor de uma ordem econômica e social diferente.

Como argumenta Mattei, as economias capitalistas exigem uma gestão política autoritária para sustentar as relações de poder e exploração de classe. A política macroeconômica, demonstra ela, nada mais é do que um sistema de controle social: ajustar os mecanismos, puxar as alavancas e, de fato, apertar os parafusos da política para garantir o poder da classe dominante, enquanto se acomodam as demandas dos trabalhadores dentro dos limites da acumulação lucrativa. Especialmente crucial é o papel do Estado na imposição da austeridade, que sustenta a dependência dos trabalhadores em relação aos mercados — e, portanto, aos empregadores capitalistas — ao privá-los dos meios de sobrevivência fora do trabalho assalariado.

A economia neoclássica tem sido importante para legitimar essa ordem, tornando a exploração invisível e ocultando o caráter de classe da política estatal sob um véu de conhecimento científico objetivo. A chamada “economia pura” reforça o estreitamento da democracia à “esfera política”, da qual “a economia” é excluída. Ao fazer isso, despolitiza até mesmo a esfera política, facilitando a concentração de poder nas mãos de tecnocratas, que são vistos como solucionadores imparciais de problemas puramente técnicos.

Os estados capitalistas implementam três formas de austeridade: fiscal, por meio da contenção dos gastos sociais; monetária, por meio da política de taxas de juros; e industrial, por meio de limitações aos direitos trabalhistas. Como já foi amplamente observado, o “ataque às liberdades sindicais” tem sido fundamental para intensificar a exploração durante o período neoliberal, juntamente com os cortes nos programas de bem-estar social. Menos óbvio é o papel da austeridade monetária, que se tornou cada vez mais importante com o fortalecimento dos bancos centrais nas últimas décadas. Como explica Mattei, a política monetária é guiada pela chamada curva de Phillips, que postula uma relação inversa entre inflação e desemprego: quando uma sobe, a outra cai.

Aumentar as taxas de juros aumenta o desemprego, pressionando os salários para baixo à medida que a competição entre os trabalhadores por empregos se intensifica. O objetivo explícito é manter o que os economistas chamam de NAIRU — o nível “ideal” de desemprego necessário para garantir a docilidade da classe trabalhadora. O que é codificado como “controlar a inflação”, argumenta Mattei, significa, na verdade, “proteger os lucros” e atingir uma meta de exploração. O desemprego, enfatiza ela, não é um estado natural da condição humana, mas uma característica necessária do sistema capitalista e uma escolha política.

A austeridade não é uma aberração neoliberal, mas sim uma característica permanente da governança macroeconômica, que constitui a estrutura dentro da qual todos os gastos públicos devem operar.

O fato de a austeridade, em inúmeros casos, não ter impulsionado um crescimento econômico significativo levou os críticos keynesianos da esquerda a ridicularizarem tais políticas como “fracassos”. Em vez disso, apontam para a necessidade de estimular a demanda agregada e impulsionar o emprego por meio da redistribuição e da expansão fiscal. A crítica de Mattei, no entanto, é que a austeridade não é uma tentativa equivocada de gerar crescimento, nem de fato fracassou. Sua implementação não é produto de incompreensão técnica ou teoria errônea; é um mecanismo profundamente político para a manutenção da ordem capitalista. E longe de ser contingente, a austeridade é um imperativo estrutural necessário para sustentar a disciplina de classe que sustenta a lucratividade.

A austeridade, portanto, “não é uma aberração neoliberal”, mas uma característica duradoura da governança macroeconômica, formando a estrutura dentro da qual todos os gastos públicos devem operar. A política econômica estatal, nesse sentido, não é simplesmente um efeito da mudança de ideias econômicas, mas uma estratégia capitalista forjada no cadinho da luta de classes. Embora o Estado possa responder às demandas dos trabalhadores organizando reformas, a austeridade impõe limites rígidos ao alcance dessas reformas, para que não comprometam a mercantilização do trabalho da qual o capitalismo depende.

Embora Mattei infelizmente não explore essa história, sua estrutura ajuda a esclarecer os limites estruturais da política social-democrata. A social-democracia visa garantir reformas que beneficiem os trabalhadores sem desafiar a propriedade privada dos meios de produção ou os limites da democracia capitalista. Apesar de nominalmente comprometidos com o socialismo, a história dos partidos social-democratas desde a Segunda Guerra Mundial não é de um avanço gradual rumo ao socialismo, mas sim de aceitação do “capitalismo administrado” como o horizonte político final.

O imperativo de limitar as demandas dos trabalhadores ao que o capital pudesse suportar, e sua absorção pela máquina do Estado capitalista, reforçou as estruturas burocráticas e hierárquicas desses partidos. Essas estruturas sufocaram o ativismo e confinaram o engajamento político aos canais eleitorais, em vez de cultivar as capacidades democráticas necessárias para a transição socialista. Essa orientação foi sustentada pela ascensão da economia keynesiana, que permitiu a esses partidos alegar que as reformas beneficiariam, e não ameaçariam, os lucros. Eles se posicionaram como melhores gestores do capitalismo do que seus rivais conservadores, apresentando seus programas como uma situação vantajosa para o capital e para o trabalho.

A social-democracia sempre se apoiou nas formas de austeridade identificadas por Mattei para impor a disciplina de mercado. Os programas sociais precisavam ser calibrados, por meio da contenção fiscal ou da força compensatória da política monetária, para garantir que não minassem a obrigação de trabalhar assalariado. As demandas dos trabalhadores também eram contidas por meio da austeridade industrial, especialmente por meio de arranjos corporativistas que integravam sindicatos e associações empresariais ao Estado.

Essas instituições gerenciavam o conflito de classes administrando "políticas de renda" que impediam que o crescimento salarial comprimisse os lucros. Mas foi o fim do boom do pós-guerra e a crise da década de 1970 que realmente trouxeram o peso da austeridade. A queda nos lucros exigiu uma exploração crescente por meio de cortes nos salários reais e nos gastos sociais. Subitamente, os mecanismos corporativistas que ancoravam os acordos distributivos, bem como a disciplina de classe, tornaram-se instrumentos para garantir a contenção salarial, à medida que os regimes social-democratas abraçavam a “nova realidade” da competitividade global. Tendo aceitado por muito tempo as restrições do capitalismo como limites políticos fundamentais, esses partidos não tinham nem a imaginação nem a capacidade de forjar uma alternativa à austeridade neoliberal e à reforma de mercado.

A análise de Mattei, portanto, ajuda a explicar por que os regimes social-democratas nunca conseguiram “desmercantilizar” o trabalho, como teorizou o sociólogo dinamarquês Gøsta Esping-Andersen. Certamente, esses Estados desmercantilizaram certos serviços sociais — saúde, transporte, educação — ao fornecê-los gratuitamente no momento do uso, em vez de por meio da compra no mercado. Essas reformas representam grandes vitórias para os trabalhadores e podem ajudar a elucidar como seria um sistema social emancipado da dependência do mercado e orientado para atender às necessidades sociais. Contudo, mesmo os Estados de bem-estar social mais abrangentes não desmercantilizaram — e não poderiam desmercantilizar — o próprio trabalho.

Fornecer aos trabalhadores os meios para sobreviver sem exercer trabalho assalariado seria equivalente a conceder-lhes um fundo de greve ilimitado. Na prática, a participação da força de trabalho nesses regimes não foi menor do que nos modelos “liberais”, como seria de se esperar se a obrigatoriedade do trabalho assalariado tivesse sido realmente atenuada, mas sim maior. Na verdade, os regimes social-democratas integraram os trabalhadores mais profundamente às relações de mercado. Mesmo nos regimes de bem-estar social mais robustos, toda a sociedade, e todos os gastos estatais, permaneceram dependentes da competitividade e da lucratividade.

Globalização e império

No penúltimo capítulo do livro, Mattei volta-se para a análise do capitalismo como um sistema global, buscando explicar as hierarquias persistentes no mercado mundial e, ao mesmo tempo, enfatizando que os conflitos mais decisivos no capitalismo global não se dão entre Estados, mas sim dentro deles. A exploração dos trabalhadores, tanto nas economias centrais quanto nas periféricas, insiste ela, é a essência do capitalismo global.

Isso significa que é um equívoco sugerir que as classes trabalhadoras no centro global de alguma forma “exploram” trabalhadores e camponeses em Estados periféricos, como às vezes é sugerido por relatos contemporâneos sobre o “modo de vida imperial”. Tais argumentos frequentemente se baseiam em versões da tese da “aristocracia operária”, segundo a qual empresas monopolistas no Norte Global efetivamente subornaram os trabalhadores por meio de salários mais altos e padrões de consumo financiados pela superexploração dos trabalhadores no Sul Global. Essa estrutura acaba sugerindo, perversamente, que os trabalhadores nos Estados centrais se beneficiaram da globalização, em vez de serem suas principais vítimas. Na verdade, longe de bloquear as forças da verdadeira competição, a globalização tem intensificado essas forças, aumentando a dependência do mercado e consolidando a austeridade em todos os lugares.

Ao mesmo tempo, Mattei estrutura seu capítulo em torno da “dependência” da periferia global e do “desenvolvimento do subdesenvolvimento” por meio da estrutura do sistema internacional. Essas teorias, que surgiram inicialmente na década de 1960, argumentam que as economias centrais drenam sistematicamente o valor da periferia por meio de “trocas desiguais”, já que esta exporta produtos primários baratos e importa bens caros de alto valor agregado.

A exploração é, portanto, entendida como operando principalmente por meio do comércio internacional, e não pelas relações de classe dentro de cada sociedade. Conclui-se que as classes trabalhadoras no centro provavelmente não serão forças de mudança transformadora; pelo contrário, é mais provável que apoiem a dominação imperial da periferia, da qual depende sua posição privilegiada. Assim, em sua obra seminal "O Capital Monopolista", Paul Baran e Paul Sweezy argumentaram que a capacidade de ação revolucionária, se surgisse em algum lugar, surgiria dos movimentos de libertação nacional no chamado Terceiro Mundo — que, por sua vez, poderiam inspirar populações marginalizadas nos Estados Unidos a empreender lutas nacionais análogas. Isso exigia alianças de classe nacionais entre trabalhadores, camponeses e burguesias nacionais para transformar o sistema econômico internacional.

A aparente tensão entre essas duas perspectivas torna a análise de Mattei um tanto obscura em alguns momentos. Embora a teoria da dependência tenha descrito com precisão os termos do comércio mundial nas décadas de 1950 e 1960, a história subsequente — que não é discutida por Mattei — aponta fortemente para a primazia da luta de classes dentro dos Estados, em vez do conflito entre eles.

Na década de 1950, foi o Estado americano que financiou a chamada industrialização por substituição de importações (ISI), por meio da qual indústrias nacionais protegidas substituíram as importações do núcleo, como parte de um projeto mais amplo de integração das economias periféricas à ordem global liderada pelos EUA. E foram as burguesias periféricas que, fortalecidas pelo subsequente processo de desenvolvimento econômico, passaram a favorecer o descarte dessas proteções, buscando uma integração mais plena ao império americano.

De fato, como argumentaram Leo Panitch e Sam Gindin, o Império Americano operou, em grande medida, como um “império por convite”. Ao supervisionar a emergência de um capitalismo global integrado, costurado por fluxos transfronteiriços de comércio e investimento, o Estado americano passou a articular os interesses gerais do capital global, corroendo quaisquer burguesias distintamente “nacionais”.

Dessa forma, a reestruturação do Império Americano corroeu os alicerces para compromissos de classe no centro e na periferia. Embora o sistema de Bretton Woods do pós-guerra tenha imposto certas restrições à movimentação de capital, fornecendo uma estrutura estável para a integração global e a consolidação do Império Americano, sua substituição por um regime de livre circulação de capitais após a crise da década de 1970 permitiu que os capitalistas circulassem investimentos globalmente a custo praticamente zero. Com a capacidade do capital de realocar a produção para onde os custos de mão de obra e regulamentação fossem mais baixos, tornou-se cada vez mais difícil para os trabalhadores obrigá-lo a participar de acordos distributivos internos.

Sem disposição para desafiar a internacionalização do capital, a social-democracia, em vez disso, a acolheu por meio de estratégias de “competitividade progressiva” que visavam atrair o capital para investir internamente através de subsídios e qualificação da força de trabalho nacional. Mas a expansão da mão de obra qualificada na periferia e a adaptação de tecnologias avançadas a zonas de baixos salários levaram ao deslocamento do emprego industrial do centro para a periferia, ao aumento da precariedade e da desigualdade e à crescente pressão sobre os programas do Estado de bem-estar social.

A análise histórica de Mattei não explora as histórias interligadas da social-democracia, do desenvolvimentismo e do Império Americano.

O aprofundamento da integração global dentro do Império Americano intensificou a disciplina competitiva e reforçou a austeridade monetária, fiscal e industrial. Os efeitos foram precisamente o oposto do que a teoria da dependência havia previsto: desindustrialização e pressão descendente sobre os salários, a segurança no emprego e os padrões de vida entre os trabalhadores mais privilegiados nos estados centrais, juntamente com a industrialização na periferia.

A integração global das finanças que uniu o sistema aprisionou os estados à austeridade fiscal e aumentou a pressão para reduzir impostos e cortar gastos sociais. Tais cortes em programas para trabalhadores coincidiram com isenções fiscais maciças para os ricos, reforçando a distribuição ascendente da renda. A globalização também fortaleceu a austeridade industrial, tensionando severamente os direitos trabalhistas e os regimes de negociação coletiva, ao mesmo tempo que impôs limites rígidos à mobilização dos trabalhadores, ao crescimento salarial e a todas as formas de democracia industrial. Enquanto isso, um sistema de câmbio flutuante altamente volátil impôs exigências rigorosas aos bancos centrais mais poderosos e aos tecnocratas que os administravam, para intervenção contínua no combate à inflação e na manutenção da estabilidade cambial — e, assim, para garantir a disciplina de classe por meio da austeridade monetária.

A análise histórica de Mattei, contudo, se restringe em grande parte à década de 1920. Assim, o livro não explora as histórias interligadas da social-democracia, do desenvolvimentismo e do Império Americano. Avaliar os regimes social-democratas é crucial para fundamentar seu argumento sobre a natureza estrutural da austeridade, precisamente porque esses regimes são tipicamente entendidos como seu oposto. Sua crise e retrocesso a partir da década de 1970 tiveram tudo a ver com sua longa adesão ao Império Americano e sua fundamental relutância em desafiar o capitalismo.

Juntos, esses compromissos tornaram o retrocesso das conquistas dos “Trinta Anos Gloriosos” do pós-guerra praticamente inevitável, à medida que o investimento se liberalizava. De fato, a globalização impôs o que Gindin descreveu como uma “polarização de opções” às classes trabalhadoras: romper com a globalização e começar a caminhar rumo a um maior controle democrático sobre o investimento ou aceitar a reestruturação neoliberal. Isso está em estreita consonância com o argumento de Mattei, mas a urgência de sua perspectiva e sua relevância para os debates atuais são enfraquecidas por seu engajamento limitado com a conjuntura.

Socialismo e formação de classes

O ponto principal — e crucial — de Mattei é que os trabalhadores não têm interesse em fortalecer o capital. Focar nos supostos “fracassos” da austeridade, do monopólio, da especulação financeira e similares obscurece o dano social produzido pelo funcionamento normal do capitalismo. Essas perspectivas enquadram a política como uma luta dentro do capitalismo, em vez de contra ele, e apresentam a classe trabalhadora como uma potencial aliada de uma fração supostamente “progressista” do capital que, espera-se, possa adotar políticas pró-trabalhadores que aumentem a lucratividade e a competitividade.

Na realidade, os crescentes níveis de precariedade da classe trabalhadora não são sinais do colapso do capitalismo, mas sim condições de sua força. Embora o crescimento econômico possa permitir que os trabalhadores conquistem salários mais altos e melhores padrões de vida, a satisfação das necessidades é subordinada à lucratividade. A social-democracia legitima o capitalismo ao ilustrar o quão humano ele supostamente pode ser. Mas os limites rígidos impostos a esses regimes, e a necessidade estrutural da austeridade, da privação e da exploração, revelam um sistema guiado não pela produção de bens úteis, mas pela lei desumana e "fantasmagórica" ​​do valor.

São essas contradições da acumulação, e não o colapso do capitalismo, que, segundo Mattei, alimentaram a ascensão de uma extrema-direita autoritária nos Estados Unidos, na Europa e em outros lugares. A raiva gerada por décadas de pressão para baixo sobre os padrões de vida e o encolhimento dos estados de bem-estar social por meio de uma austeridade cada vez mais severa — ambas muito funcionais para o capital — criaram um terreno fértil para a política de extrema-direita.

Contudo, uma vez no poder, essas forças apenas aprofundaram a austeridade, muitas vezes desencadeando ataques verdadeiramente brutais contra trabalhadores e pobres. Além disso, como o poder de classe e a exploração no cerne da ordem capitalista são em grande parte invisíveis, e como a intensificação da dependência do mercado por meio da austeridade acirra a competição entre os trabalhadores, movimentos como o MAGA conseguiram canalizar essas frustrações em ressentimento contra migrantes e outros Outros racializados e generificados, em vez de contra o próprio capital.

Mattei argumenta de forma contundente que superar esse mundo de alienação universal exige uma luta pela democracia: a afirmação de um controle coletivo e consciente sobre a vida econômica e social. Isso, segundo ela, implica um projeto interligado de democratização da teoria econômica, da política econômica e da própria economia. A luta contra a austeridade, na visão de Mattei, não se trata meramente de implementar uma política econômica diferente, mas de caminhar rumo a uma ordem econômica completamente diferente. Para sustentar isso, é necessária uma teoria econômica que priorize o que a economia neoclássica oculta: a exploração, o desemprego e a austeridade não são leis da natureza, mas do capitalismo.

Na medida em que os programas de assistência social inevitavelmente se deparam com a lógica do lucro, sustentá-los exige inerentemente uma ruptura com o próprio capitalismo. Qualquer governo de esquerda enfrentará, em última instância, uma escolha crucial entre recuar para a austeridade ou seguir em frente. Quando esse momento chegar, os trabalhadores devem estar organizados e preparados para a necessária ruptura com o capitalismo. Priorizar a lógica da necessidade implica, portanto, uma luta continuamente crescente pela democracia e um desafio cada vez mais radical ao capital.

É fundamental, então, que as lutas por reformas sejam enquadradas em termos socialistas — não como projetos para fortalecer o capital ou impulsionar a competitividade, mas como esforços para construir as capacidades necessárias para romper com a ordem capitalista. Central a essa tarefa, contudo, é a formação de classe, que está ausente da análise de Mattei. Como Marx e Friedrich Engels enfatizaram no Manifesto Comunista, isso implica “a formação do proletariado em classe e, portanto, em partido político”. Certamente, a classe trabalhadora sempre existe em algum sentido abstrato “objetivo”. Mas, em termos práticos, ela está fragmentada em uma enorme gama de níveis de renda, ocupações, níveis de escolaridade, condições de gênero e raça, e assim por diante.

A formação de classe é o processo político pelo qual esses indivíduos passam a se reconhecer como parte de uma classe com interesses comuns, opostos à lógica do lucro. Esse é o papel distintivo de um partido socialista: desenvolver as capacidades democráticas dos trabalhadores por meio da educação política, do debate e da ação coletiva. Dessa forma, o partido não apenas representa a classe trabalhadora, mas a constitui ativamente como uma força política capaz de transformar a sociedade.

Priorizar a lógica da necessidade implica uma luta cada vez maior pela democracia e um desafio cada vez mais radical ao capital.

Essa lacuna na análise de Mattei a leva a ignorar uma dimensão crucial da crítica à social-democracia: os partidos social-democratas articulam a classe trabalhadora e seus interesses de uma maneira que se distancia substancialmente de uma concepção socialista. Mais importante ainda, isso envolve obscurecer o antagonismo entre a lógica do lucro e a lógica da necessidade, ao insinuar que lutar por necessidades sociais não implica necessariamente opor-se ao próprio capitalismo.

Na ausência de uma análise da formação de classe, Mattei tende a confundir as demandas econômicas imediatas dos trabalhadores — como salários mais altos ou mesmo o abandono de seus empregos — com a política explicitamente socialista. Assim, ela enquadra o Choque Volcker de 1979, quando o Federal Reserve elevou as taxas de juros para quase 20%, provocando desemprego em massa para conter a inflação, como uma supressão não apenas das demandas salariais dos trabalhadores, mas também de nascentes “alternativas anticapitalistas”. No entanto, o que esse evento e suas consequências realmente revelaram foram os limites de um modelo sindical que restringia suas demandas à militância salarial, em vez de construir poder nas fábricas, muito menos promover uma transformação política mais ampla. Como o capital detinha o controle total sobre os investimentos, quando os lucros entraram em conflito com o aumento dos salários reais, a exploração teve que ser intensificada.

A questão mais interessante, então, é por que as alternativas anticapitalistas não estavam seriamente na agenda. O que faltava no movimento operário e na política da classe trabalhadora que poderia ter aberto espaço para um caminho diferente da austeridade neoliberal? Certamente não se tratava de precisar de mais do que já existia naquele momento: mais votos para os Democratas, mais partidos sectários marginais ou mesmo maior densidade sindical não teriam detido o ataque neoliberal. O que era necessário, em vez disso, era um movimento socialista de massas, organizado, enraizado na classe trabalhadora, que possuísse poder real e fosse capaz de oferecer uma alternativa crível.

Na ausência disso, à medida que as batalhas defensivas dos trabalhadores na década de 1970 foram derrotadas, a maioria viu pouca escolha a não ser se adaptar às restrições da competitividade e da lucratividade. A profunda derrota da classe trabalhadora que definiu a era neoliberal não é, portanto, apenas resultado da repressão do capital e do Estado, mas também de limitações persistentes dentro do próprio movimento operário. Não basta, então, simplesmente repetir continuamente as lutas do passado. Para avançar, é necessário transformar os sindicatos em órgãos de luta de classes — o que, por sua vez, exige a coordenação de um partido.

Isso levanta outra questão crucial que Mattei apresenta, mas não desenvolve. Se o capitalismo se define pela dependência do mercado, escapar dele implica substituí-la por planejamento econômico. O problema das cooperativas de trabalhadores e das instituições financeiras comunitárias é que elas permanecem sujeitas à disciplina de mercado. Como resultado, reproduzem a lógica do lucro: pressão para baixo sobre os salários, externalização dos custos ambientais e interesse competitivo na austeridade. Superar isso exige substituir a competição entre empresas privadas por uma coordenação em nível macro.

Como observa Mattei, esse tipo de planejamento seria drasticamente diferente daquele realizado dentro das corporações, que alocam investimentos com base em taxas de retorno e sinais de preço. Planejar para atender às necessidades sociais em escala macro é infinitamente mais complexo. Em vez de “desmembrar os bancos”, isso significa idealizar e lutar por um projeto de desenvolvimento da capacidade do Estado de administrar as finanças como um serviço público. Diante da incapacidade do capital privado de mobilizar investimentos para a transição verde urgentemente necessária, não se trata mais apenas de sonhar com um futuro mais justo e equitativo — é essencial evitar a catástrofe.

Colaboradores

Stephen Maher é professor assistente de economia na SUNY Cortland e coeditor do Socialist Register. É coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock com Scott Aquanno e autor de Corporate Capitalism and the Integral State: General Electric and a Century of American Power.

Scott Aquanno é professor assistente de ciência política na Ontario Tech University. Ele é coautor de "The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock" com Stephen Maher e autor de "Crisis of Risk: Subprime Debt and US Financial Power from 1944 to Present".

10 de abril de 2025

Nova ordem?

Sobre as tarifas de Trump.

Steve Maher e Scott Aquanno

Sidecar


Em 2 de abril, Donald Trump anunciou a imposição de tarifas abrangentes a países de todo o mundo, atingindo aliados e inimigos com enormes barreiras comerciais, no que equivalia a um ataque direto à ideologia do "livre comércio". Uma tarifa de 34% seria imposta à China, 20% à União Europeia, 49% ao Camboja, 48% ao Laos, 46% ao Vietnã e assim por diante: números elaborados de acordo com uma fórmula matemática simplificada, na qual o déficit comercial de bens dos EUA com qualquer país era dividido pelo valor das importações americanas daquele país, e esse número era então dividido pela metade. O Wall Street Journal lamentou que Trump estivesse "explodindo o sistema comercial mundial" e voltando à "velha era do protecionismo comercial". O Financial Times descreveu isso como "um ato surpreendente de automutilação" que "viraria de cabeça para baixo a ordem econômica global e mancharia a prosperidade dos EUA". Os investidores logo entraram em colapso. Os principais índices de ações despencaram e cerca de US$ 10 trilhões em valor de mercado foram apagados.

Com a alta dos rendimentos dos títulos, uma Casa Branca nervosa pareceu mudar de rumo, reduzindo a alíquota tarifária para 10% para a maioria dos países, com a notável exceção da China, onde a taxa foi elevada para 125%. Novos aumentos estão suspensos por noventa dias. Uma vez encerrado esse período de espera, não está claro se o plano original de Trump para o "Dia da Libertação" será descartado, diluído ou reintegrado. Mas mesmo em sua forma atual, as tarifas representam uma grande mudança na economia global – que comentaristas de todo o espectro têm dificuldade em interpretar.

A ideia de que a agenda de Trump é ditada pelas gigantes da tecnologia se perdeu, já que poucas empresas têm mais a perder com as tarifas do que a Amazon e a Tesla. Tampouco é verdade, como alguns argumentam, que as tarifas sejam uma resposta ao declínio do capitalismo americano. Antes da posse de Trump, a economia americana era relativamente robusta, com alto crescimento da produtividade, fortes investimentos e gastos em P&D, e retornos massivos para suas multinacionais. Outros especularam que Trump queria pressionar os estados a aderirem a um "Acordo de Mar-a-Lago" global, no qual o dólar seria enfraquecido para impulsionar a competitividade industrial americana. Mas isso também é implausível, visto que desestabilizaria profundamente o sistema do dólar, que é um dos principais pilares do poder global dos EUA, que Trump está determinado a fortalecer.

As tarifas de Trump parecem, à primeira vista, representar uma ruptura com o papel histórico do Estado americano na supervisão do capitalismo global. Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA têm perseguido firmemente um único projeto hegemônico: construir um "império informal" composto por estados oficialmente independentes e soberanos, interligados por fluxos transfronteiriços de comércio e investimento. Os EUA lideraram a criação do sistema de Bretton Woods, cujos controles e salvaguardas permitiram a outros países alguma flexibilidade na implementação de políticas fiscais e monetárias independentes, proporcionando uma estrutura estável para buscar maior integração, eliminando tarifas e, eventualmente, barreiras não tarifárias. Na década de 1970, o próprio Bretton Woods foi deixado de lado e substituído pelos fluxos contínuos de comércio e investimento da globalização neoliberal: uma ordem integrada, unida pela livre circulação de capitais sob a liderança americana.

Por meio desse processo, o Estado americano passou a representar não apenas os interesses de sua burguesia doméstica, mas também os do capital global, impondo um "estado de direito" internacional para proteger os direitos de propriedade e coordenar as diferentes nações. Isso envolveu a negociação de acordos de livre comércio, bem como a criação de uma rede de instituições internacionais – o FMI, o Banco Mundial e a OMC – que transformaram as estruturas internas dos Estados-nação individuais, à medida que assumiam a responsabilidade de garantir as condições para a acumulação internacionalizada. Criar um mundo contínuo de acumulação de capital também significava controlar a inflação e esmagar a mão de obra. Isso exigiu a centralização do poder estatal americano nas agências executivas mais diretamente responsáveis ​​por administrar essa internacionalização, especialmente o Federal Reserve, o Departamento do Tesouro e o Escritório do Representante Comercial dos EUA – cujo isolamento das pressões eleitorais ajudou a desviar os desafios protecionistas.

A lucratividade dessa nova ordem global sustentou uma aliança simbiótica entre o capital financeiro e o industrial. Ao permitir o aumento da mobilidade do capital, a financeirização desencadeou poderosas forças competitivas que serviram para disciplinar tanto Estados quanto trabalhadores – restaurando lucros e resolvendo a crise da década de 1970. O Estado neoliberal se afastou da legitimação para atender às necessidades de acumulação, revertendo programas sociais por meio da imposição de austeridade permanente, enquanto esvaziava as instituições democráticas por meio da burocratização do poder estatal. Como resultado, a política social-democrata chegou a um impasse, pois nenhum setor do grande capital estava disposto a apoiar um compromisso com os trabalhadores que pudesse ter relegitimado a acumulação. O fracasso da esquerda em oferecer uma saída plausível para o agravamento das consequências sociais pavimentou o caminho para as vitórias eleitorais de Trump. A crise de legitimação da qual o trumpismo emergiu foi resultado da força do capital americano, não de seu declínio.

Trump agora tenta explorar a relativa autonomia do Executivo, um baluarte histórico da agenda da globalização, para minar a própria ordem global. As tarifas têm sido, há muito tempo, uma ideia fixa pessoal para Trump, que parece acreditar que elas são a chave para o rejuvenescimento nacional. No entanto, há também uma dinâmica política mais profunda em ação aqui. Partes da direita nacionalista se uniram em torno da visão de que o papel dos EUA como gestores do sistema mundial tem um custo muito alto. "Trabalhadores americanos", argumentam eles, sofreram com a desindustrialização, bem como com a pressão descendente sobre salários e migração; pequenas e médias empresas têm lutado para lidar com importações baratas e um dólar alto; e a sociedade em geral tem visto recursos excessivos canalizados para a manutenção de um complexo estado imperial.

Trump apresenta esses problemas como resultado de concessões feitas por governos anteriores a fim de trazer outros estados para o sistema liderado pelos EUA. Ele afirma que elas diminuíram a supremacia econômica e política americana – como indicado pelo déficit comercial do país, especialmente em relação à China, cuja ascensão econômica deu credibilidade a essa narrativa. A solução, dizem-nos, é reverter os "maus acordos comerciais" e reconstruir a capacidade produtiva após décadas de deslocalização e internacionalização da produção: um plano que envolveria tirar o financiamento do seu pedestal e substituí-lo, em certa medida, por empresas manufatureiras nacionais.

Mas isso é muito difícil de ser feito e quase certamente não funcionará. A globalização não pode ser revertida com uma simples canetada. Seu desmantelamento envolveria muito mais do que a simples imposição de tarifas; exigiria uma série de controles de capital, bem como uma política industrial abrangente – medidas que constituiriam um desafio às frações dominantes do capital mais sério do que qualquer coisa que Trump esteja disposto a contemplar. Sua decisão abrupta de mudar de rumo ao se deparar com os limites estruturais dos mercados financeiros ressalta o fato de que a autonomia do Estado neoliberal permanece estritamente relativa. Somente um governo com uma clara determinação de assumir o capital e as forças sociais e políticas para perseguir esse desafio de forma significativa seria capaz de concretizar tais ambições.

Isso não significa, no entanto, subestimar o impacto das tarifas – tanto as que já foram implementadas quanto as que ainda estão por vir. A política comercial instável de Trump terá efeitos duradouros sobre o investimento e a confiança das empresas, e nos próximos meses poderemos ainda assistir a uma guerra comercial em espiral – uma situação que a globalização liderada pelos EUA há muito tempo impede. Mesmo que Trump recue totalmente ou perca a Casa Branca para os democratas na próxima eleição, outros estados ainda terão perdido a fé na administração americana, o que dificultará o retorno ao regime anterior de livre comércio. Enquanto isso, as tarifas certamente gerarão pressões inflacionárias, agravando as crises sociais que ajudaram a impulsionar Trump ao poder e aumentando a probabilidade de uma recessão.

Dados os efeitos nocivos da globalização sobre os trabalhadores, não é surpreendente que setores do movimento trabalhista – principalmente o líder do sindicato United Auto Workers, Sean Fain – tenham apoiado as tarifas como forma de subverter a ordem vigente. Mas as tarifas por si só dificilmente são suficientes para reverter a globalização, e essas tarifas específicas não farão nada para fortalecer o poder da classe trabalhadora nem melhorar os padrões de vida; na verdade, podem muito bem fazer o oposto. A deslocalização não significaria necessariamente o retorno de "bons empregos" para o coração do norte, nem interromperia o processo de desenvolvimento tecnológico responsável por grande parte das perdas de empregos na indústria. Provavelmente, assumiria a forma de investimento no sul, onde os salários são baixos e não são sindicalizados, o que ameaça minar ainda mais a solidariedade de classe.

Há também uma forte chance de que as políticas de Trump sirvam para desacreditar os desafios da esquerda ao livre comércio e à globalização no futuro distante. Concentrar-se apenas em tarifas desvia a atenção da tarefa mais urgente de construir um movimento da classe trabalhadora que possa lutar pela redistribuição de renda, melhoria da segurança no emprego, programas sociais e uma transição verde. O que está em jogo aqui não é a "competitividade americana", mas sim a necessidade de democratizar o investimento. Isso envolveria impor limites à capacidade do capital de disciplinar Estados e trabalhadores por meio da ameaça de "saída". Mas também significaria desenvolver mecanismos de planejamento por meio dos quais as forças populares pudessem exercer controle sobre os recursos da sociedade. Sem tais mecanismos, seria impossível construir um sistema comercial que servisse aos trabalhadores dentro e fora dos EUA.

24 de outubro de 2024

Na década de 1970, a esquerda desperdiçou uma boa crise

Em Counterrevolution, Melinda Cooper lê a crise econômica dos anos 1970 como uma revolta da elite, em vez de uma prova da insustentabilidade da ordem do New Deal. Seus argumentos se baseiam na rejeição do marxismo como uma estrutura analítica e do socialismo como um horizonte político.

Stephen Maher, Scott Aquanno


Uma vista de Wall Street e do Federal Hall no Distrito Financeiro da Cidade de Nova York, 1976. (Coleção Donaldson / Arquivos Michael Ochs / Getty Images)

Resenha de Counterrevolution: Extravagance and Austerity in Public Finance de Melinda Cooper (Zone Books, 2024)

A longa crise dos anos 1970 demonstrou que o “capitalismo administrado” keynesiano não era mais viável. As contradições acumuladas dessa ordem exigiam uma reestruturação na forma do capitalismo neoliberal. A ascensão das finanças neste novo regime foi crítica para apoiar a globalização, restaurar a disciplina de classe, aumentar a taxa de exploração e impulsionar os lucros — mesmo quando menos trabalhadores americanos estavam empregados em empregos industriais e a vida da classe trabalhadora se tornou cada vez mais precária. Essas mudanças históricas estimularam o desenvolvimento de uma série de novas teorias, desde a especulação de que o estado-nação estava em declínio nas mãos de corporações multinacionais todo-poderosas, até noções de “esvaziamento” da economia produtiva como um setor financeiro parasitário e/ou improdutivo substituindo a produção de commodities pela acumulação de valor “fictício”. Ambas as vertentes teóricas tendiam a minimizar o papel do estado interconectado e do poder financeiro na restauração da acumulação.

O mais emblemático tem sido o trabalho do sociólogo histórico Robert Brenner, que estranhamente persistiu em afirmar que a crise dos anos 1970, de fato, nunca foi resolvida. Em vez disso, ele insiste, estamos vivendo uma crise de cinco décadas (e contando). Mais recentemente, ele argumentou (junto com o coautor Dylan Riley) que isso culminou no “capitalismo político”, no qual a prodigalidade dos bancos centrais sustenta um setor financeiro improdutivo que faz pouco mais do que extrair valor da economia industrial “real”. O que temos visto desde 2008, ele afirma, não é tanto recuperação econômica, mas sim “escalada de pilhagem” nas mãos do estado e de uma elite financeira parasitária. Brenner foi, de fato, apenas o pioneiro em uma nova indústria acadêmica; escritores como Cédric Durand, Jodi Dean e até mesmo Yanis Varoufakis logo seguiram o exemplo, alegando que o capitalismo está dando lugar a um "neofeudalismo" no qual a extração de rendas, em vez da produção de mais-valia, é o principal nexo de exploração.

Aparentemente, a Counterrevolution: Extravagance and Austerity in Public Finance de Melinda Cooper representa um passo à frente na teorização do capitalismo contemporâneo. Cooper oferece um rico relato histórico de como o estado americano veio a promulgar simultaneamente extravagância e austeridade: "imprimindo dinheiro" e realizando gastos massivos para apoiar a valorização dos preços dos ativos, beneficiando principalmente uma elite super-rica, ao mesmo tempo em que impunha austeridade rigorosa aos trabalhadores. Isso, ela argumenta, foi o resultado de uma "contrarrevolução" por meio da qual os capitalistas e seus ideólogos afiliados tomaram o controle das capacidades fiscais e monetárias do estado em meio à crise dos anos 1970. Mesmo quando o fim do padrão-ouro eliminou todas as restrições econômicas sobre os gastos do estado e criou novas oportunidades para a expansão da social-democracia, ela afirma que o poder de uma oligarquia estreita foi garantido pela "independência" do banco central, que serviu para bloquear demandas populares indesejadas para usar suas capacidades para financiar programas sociais.

Cooper argumenta que a ascensão da economia de ativos alterou fundamentalmente a lógica do capital. Neste novo regime, a inflação de ativos substituiu a produção como a principal fonte de "criação de riqueza", levando ao declínio industrial e à consolidação do poder por uma oligarquia estreita, semi-hereditária e apoiada pelo estado. Ela vê as finanças como rigidamente separadas da economia "real", ignorando seu papel na revitalização do capitalismo após a crise dos anos 1970. A globalização e o império dos EUA são ignorados, e os lucros são mencionados apenas duas vezes no texto.

Assim, apesar da crítica explícita de Cooper ao argumento de que o capitalismo está dando lugar ao "neofeudalismo", sua própria análise se alinha intimamente com as visões de Durand, Dean e Varoufakis. Trabalhadores, ela sugere, poderiam “conquistar” o estado existente para financiar uma “revolução” — entendida como gastos irrestritos em programas sociais dentro do capitalismo. Essa perspectiva subestima a força do capitalismo, apaga os limites da social-democracia e subestima drasticamente a escala da tarefa política enfrentada por socialistas e progressistas.

Contra-revolução

Cooper adota o enquadramento keynesiano convencional da crise da década de 1970, segundo o qual as demandas salariais dos trabalhadores espremiam os lucros industriais. Embora essas demandas pudessem ser atenuadas convocando o "exército de reserva" de membros principalmente racializados da classe trabalhadora que haviam sido deixados de fora do acordo do New Deal, a disseminação da revolta na forma do movimento pelos direitos civis minou essa estratégia. Para recuperar os lucros, as empresas industriais foram obrigadas a aumentar os preços, levando a uma espiral inflacionária de salários e preços. A inflação crescente, por sua vez, corroeu os valores dos ativos financeiros. Em resposta, os capitalistas industriais e financeiros se uniram para restaurar a disciplina, travando uma guerra de classes para retomar o controle do estado, expandindo e intensificando seus esforços de lobby. Ao fazê-lo, essas elites e seus aliados políticos estavam armados com uma gama de novas ideias econômicas. Apesar da crítica explícita de Cooper ao argumento de que o capitalismo está dando lugar ao "neofeudalismo", sua própria análise se alinha intimamente com as visões de Durand, Dean e Varoufakis.

A política da “contrarrevolução” que se seguiu consistiu em implementar uma combinação de economia do “lado da oferta” e da “Escola da Virgínia”. Cooper traça como a política de austeridade da “Escola da Virgínia”, por um lado, e o que ela chama de “gasto tributário” do lado da oferta, por outro, se uniram para formar a política econômica no coração dos Partidos Republicano e Democrata. A economia do lado da oferta gira em torno do uso de incentivos fiscais para direcionar o investimento em classes de ativos específicas. Como fornecer isenções fiscais significa perder receitas fiscais, em termos econômicos elas constituem uma forma de gasto — efetivamente transferindo dinheiro público para os bolsos dos proprietários de ativos, incluindo corporações, incorporadores imobiliários e indivíduos ricos. No entanto, por outro lado, a Escola da Virgínia enfatizou a disciplina orçamentária e a austeridade, clamando proeminentemente por limites constitucionais para impostos e gastos.

Cooper mostra que não havia contradição necessária entre essas duas ideologias. Em vez disso, austeridade para trabalhadores e gastos para os ricos surgiram como pilares complementares de um paradigma de política coerente para restaurar o poder dos proprietários de ativos após a crise. Daí a mistura peculiar de "extravagância e austeridade" que definiu o neoliberalismo e remodelou a política de classe nos Estados Unidos: gastos deficitários massivos e baixas taxas de juros para aumentar os valores dos ativos, por um lado, e cortes cada vez mais profundos nos gastos sociais, por outro. Certamente, a implementação desse paradigma dependia do controle da inflação e da restauração da disciplina de classe, o que exigia o aumento draconiano nas taxas de juros conhecido como "Choque Volcker". As taxas de juros disparadas aumentaram os custos dos empréstimos, desacelerando assim o investimento e o consumo, levando a demissões e alto desemprego. Na década de 1990, confiante de que a classe trabalhadora havia sido subjugada, o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, sentiu que era seguro reduzir as taxas e mantê-las lá — garantindo um fluxo de investimento em classes de ativos financiadas pelo estado, aumentando ainda mais seus preços.

Isso envolveu uma expansão substancial dos poderes do Federal Reserve, que foi possível pela eliminação da "restrição do ouro" na política monetária. Após 1971, o valor do dólar foi desvinculado do ouro, criando um regime de taxa de câmbio puramente "flutuante". Teoricamente, esse movimento permitiu que o estado imprimisse uma quantidade ilimitada de dólares. Como Cooper argumenta, isso criou a necessidade de encontrar uma nova âncora para o dólar, de modo a impedir o uso dessa capacidade de gastos para financiar a expansão dos programas do New Deal. Uma resposta veio na forma de "independência" do banco central, que garantiu que as alavancas da criação de dinheiro permaneceriam nas mãos certas. A função central do banco central seria manter a disciplina de classe e, assim, conter a inflação salarial que corroeu os valores reais dos ativos, ao mesmo tempo em que facilitava a inflação dos preços dos ativos. Este último, portanto, constituiu um "estímulo não keynesiano" ao crescimento econômico.

Com a consolidação do neoliberalismo, portanto, o estado foi efetivamente transformado em uma máquina política para extração econômica, drenando recursos da sociedade como um todo e canalizando-os para os bolsos dos super-ricos. A noção de despesa tributária é fundamental para esta análise: por meio deste processo, o estado não estava meramente “recuando” ao promulgar políticas de laissez-faire, nem implementando isenções fiscais pontuais, mas estava se envolvendo em gastos ativos e contínuos para sustentar o aumento contínuo nos preços dos ativos. Na ausência de cortes de compensação nos gastos, os cortes de impostos levam a déficits e, portanto, são indistinguíveis dos gastos deficitários. Como esses gastos assumem a forma de políticas tributárias direcionadas que incentivam o investimento em classes de ativos protegidas, o código tributário molda ativamente a alocação de capital no mercado. Os cortes de impostos, portanto, podem ser vistos como uma forma de política industrial.

Para Cooper, essa política industrial paradoxalmente levou ao declínio da indústria, à medida que o investimento migrou do capital fixo para ativos financeiros. Na verdade, Cooper leva seu argumento sobre o declínio industrial a um extremo particular — chegando até a sugerir que o capitalismo não é mais um modo de produção. Como ela diz, "o próprio capital mudou de um regime de acumulação, organizado em torno da produção e mensurável em termos de crescimento, para um regime de valorização do preço dos ativos, girando em torno dos ganhos de capital". Cooper argumenta que essa mudança fundamental na lógica do capital significa que "as taxas de crescimento e os lucros industriais [são] uma medida fraca das tendências econômicas dominantes". Mas essa é uma afirmação que ela só pode sustentar ignorando todas as evidências históricas e dados econômicos que podem desafiar sua análise — incluindo a forte recuperação dos lucros industriais na década de 1990, que resultou em parte da financeirização, bem como da recuperação pós-COVID da economia dos EUA.

Dada a distribuição desigual da propriedade de ativos, os principais beneficiários desse novo regime capitalista foram os ricos. Mas embora os formuladores de políticas inicialmente tivessem como objetivo reiniciar o investimento industrial, a implementação da economia do lado da oferta acabou transformando a própria classe capitalista. Cronogramas de depreciação acelerada, por exemplo, visavam impulsionar os lucros corporativos industriais e aumentar o investimento, mas acabaram enriquecendo uma geração de magnatas imobiliários como Donald Trump. Além disso, a revogação dos impostos sobre herança significou que a família se tornou mais importante para a valorização transgeracional dos ativos, que poderiam ser repassados ​​aos herdeiros com pouco ou nenhum custo. O papel da família em garantir a continuidade da inflação de ativos também levou à ascensão dos negócios familiares privados, em oposição à corporação pública, como uma forma cada vez mais central de organização capitalista.

Uma nova oligarquia hereditária, apoiada por um estado extrativista e com pouca conexão com a economia industrial, veio para suplantar os gerentes industriais e banqueiros comerciais do capitalismo fordista. Embora a nova aristocracia apoiasse tanto democratas quanto republicanos, ela desempenhou um papel particularmente crucial no financiamento de políticas de extrema direita. A centralidade da família e da empresa privada para essa nova classe fez dela o veículo perfeito para uma política reacionária definida em torno da nostalgia pela família branca, masculina e única provedora dos anos do pós-guerra. Cooper demonstra convincentemente que a ênfase na família nessa política não era meramente uma questão de "valores", mas interesses econômicos concretos. De fato, os aristocratas encontraram parceiros dispostos em uma classe média que passou a ser definida em torno da propriedade de ativos e, portanto, do aumento dos preços dos ativos, especialmente da habitação. Proprietários de pequenos negócios dentro dessa classe também dependiam extensivamente do trabalho familiar.

Um dos aspectos mais fascinantes de Counterrevolution é a ilustração de Cooper da natureza de gênero e racializada do ataque neoliberal à classe trabalhadora. Como ela mostra, qualquer solidariedade substancial entre sindicatos do setor público e privado no final da década de 1970 foi minada quando a direita apelou com sucesso aos homens "operários" ao enquadrar o ataque aos sindicatos cada vez mais militantes do setor público como uma reafirmação da masculinidade sobre as mulheres privilegiadas, financiadas pelos contribuintes e racializadas, que constituíam uma grande parte da força de trabalho sindicalizada do setor público.

Políticas subsequentes de "lado da oferta" foram frequentemente vendidas como parte de um esforço para reconstruir a autoridade masculina branca, veículos para restaurar os papéis tradicionais de gênero na família e a família com apenas um ganha-pão. A direita também capitalizou o ressentimento da classe média contra o apoio estatal aos beneficiários de assistência social racializados. Impostos altos, inflação e o declínio do patriarcado foram vistos como problemas inter-relacionados do estado de bem-estar social liberal. A "contrarrevolução" não foi o resultado contingente do ativismo empresarial, mas necessária para restaurar a acumulação de capital.

Os grupos sociais que se ressentiram da ordem do New Deal também se viram prejudicados pela crise financeira de 2008. Enquanto a classe trabalhadora multirracial suportou o peso da Grande Recessão, os pequenos negócios e os tipos de proprietários únicos — muitos dos quais empregavam mão de obra imigrante barata — também sofreram, mesmo apesar da generosidade das leis estaduais de falência. Isso alimentou o ressentimento pequeno-burguês contra as grandes corporações, as finanças e o estado. Dessa crise, argumenta Cooper, surgiu o bloco social que se tornaria a base do movimento MAGA: pequenos empresários comprometidos com o status legal precário dos migrantes e ressentidos com o grande governo, impostos e finanças.

Gerenciar a crise de 2008 exigiu a extensão radical do poder do estado para sustentar o paradigma neoliberal, poderes que o governo federal expandiu ainda mais durante a pandemia. Agora, as autoridades do Fed "se sentiam livres para quebrar o último tabu da independência do banco central — a proibição de monetizar a dívida federal". Ou seja, o Fed começou a "imprimir dinheiro" para apoiar a continuação da inflação de ativos. Para Cooper, isso prova que, no contexto de desemprego e subutilização da capacidade econômica, os gastos do estado são limitados apenas pela política. Se o estado pode gastar para sustentar os preços dos ativos, por que não pode fazê-lo em programas sociais, mesmo sem aumentar os impostos? O estado capitalista, ao que parece, tem a capacidade de sustentar a social-democracia sem limites. Uma transição socialista, na qual a produção seria reorganizada para atender às necessidades sociais em vez do lucro privado, e as estruturas de classe de propriedade e privilégio seriam fundamentalmente transformadas, tornou-se, portanto, desnecessária.

Finanças, indústria e capitalismo

Apesar de todas as suas virtudes, Counterrevolution sofre de dois problemas centrais. O mais gritante é que o livro efetivamente não contém nenhuma análise econômica. De fato, não há essencialmente nenhuma menção aos lucros — na verdade, Cooper rejeita explicitamente a ideia de que o lucro é fundamental na regulação da economia capitalista. Consequentemente, o papel das finanças no fortalecimento do capitalismo após a crise dos anos 1970 não pode ser avaliado. Nem, por falar nisso, Counterrevolution oferece qualquer discussão sobre a financeirização da corporação, que foi crítica para a globalização da produção que facilitou a recuperação pós-crise.

Da mesma forma, Cooper também negligencia mencionar o papel de diferentes ativos financeiros dentro de um sistema financeiro em mudança. Ao se recusar a se envolver com a forma como os ativos, definidos vagamente em Counterrevolution, são integrados ao sistema financeiro, bem como ao resto da economia capitalista, Cooper pode reduzir as finanças a simplesmente uma ferramenta por meio da qual uma elite improdutiva e parasitária extrai valor com o apoio do estado. Ironicamente, esta é uma posição que tem uma forte semelhança não apenas com as visões de Brenner e Riley, mas até mesmo com as teorias do neofeudalismo que Cooper critica explicitamente.

O segundo grande problema é a teorização de Cooper sobre o estado. Para Cooper, o estado simplesmente se tornou o instrumento de uma elite relativamente unificada. A “contrarrevolução” de Cooper tomou forma quando as corporações pressionaram um estado passivo, eventualmente conquistando-o e forçando-o a fazer suas vontades. O estado parece essencialmente neutro, apenas fazendo coisas capitalistas porque capitalistas particulares o forçam a fazer. Cooper, portanto, sustenta o que Leo Panitch costumava chamar de “teoria do garçom do estado” — a ideia de que, “depois de ter comido dois ou três bebês no café da manhã”, uma elite capitalista unitária liga para o presidente “toda manhã e, em meio a arrotos satisfeitos, dá... instruções sobre o que o governo deve realizar naquele dia”. Essa caracterização apaga a interconexão estrutural do estado com o capitalismo, desenvolvendo capacidades à medida que navega pelas contradições e crises do sistema. Na realidade, o estado deve ser relativamente autônomo de capitalistas particulares para organizar o que Nicos Poulantzas chamou de "equilíbrio instável de compromisso" em torno do interesse geral de longo prazo do sistema como um todo.

Na análise de Cooper, a crise dos anos 1970 não decorreu de restrições estruturais à capacidade do capitalismo de sustentar o compromisso de classe do New Deal. Em vez disso, ela entende a reestruturação neoliberal daquela década como o resultado de uma "revolta empresarial". Cooper adota a interpretação keyensiana convencional da crise como tendo surgido de demandas salariais excessivas da classe trabalhadora, que espremeram os lucros corporativos. No entanto, ela trata os lucros em declínio não como uma barreira econômica fundamental, mas sim como meramente criando as condições para uma reação política. À medida que os salários crescentes consumiam os lucros, as corporações eram forçadas a aumentar os preços para proteger suas margens. A inflação resultante, por sua vez, corroeu o valor dos ativos financeiros, levando as finanças a unir forças com a indústria em torno dos objetivos de conter o crescimento salarial e impulsionar os preços dos ativos. Para Cooper, isso não representava uma crise especificamente "econômica", mas era meramente o catalisador para uma aliança empresarial para desfazer o New Deal e disciplinar os trabalhadores.

Na realidade, a crise da década de 1970 estava enraizada na exaustão da onda de desenvolvimento tecnológico do pós-guerra. A queda da produtividade levou à queda dos lucros, forçando o capital a encontrar maneiras de aumentar a taxa de exploração. Embora o capital inicialmente tenha tentado fazer isso aumentando o investimento, esses esforços não deram frutos. A queda dos lucros significou, em última análise, queda do investimento e estagnação econômica. A restauração do crescimento, portanto, dependia da revitalização da lucratividade por meio do corte de impostos e da obrigatoriedade dos trabalhadores a aceitar a reestruturação, que eles foram temporariamente capazes de bloquear travando batalhas defensivas. É incorreto sugerir que a ascensão das finanças foi uma questão de capitalistas direcionando o investimento para longe da produção e em direção à especulação sobre valores de ativos.

A diferença entre essa interpretação dos eventos e a de Cooper é impressionante. Não apenas esta última teoria, marxista, permite uma avaliação mais realista da força do trabalho — que não estava nem perto de uma posição para impor uma crise em todo o sistema — mas também ilustra a importância da política socialista. Na ausência de uma capacidade política mais ampla para forçar pelo menos alguma democratização do investimento, a militância salarial contínua era um beco sem saída: o sistema simplesmente não conseguia mais sustentar o crescimento real dos salários.

Além disso, como mostramos em outro lugar, com base em extensa pesquisa de arquivo, o estado não é de forma alguma apenas a ferramenta passiva do lobby corporativo. Em vez disso, o que observamos na década de 1970 é um estado capitalista executando sistematicamente suas funções de gerenciamento de crise em meio a grande incerteza. Embora não discutido por Cooper, por quase uma década, autoridades estaduais tatearam no escuro por uma resolução, enquanto Richard Nixon, Gerald Ford e Jimmy Carter buscavam conter a inflação por meio de vários esquemas de controle de salários e preços. As empresas de forma alguma possuíam interesses unificados, objetivos e autoevidentes que buscavam simplesmente impor ao estado. Em vez disso, uma colaboração extensiva entre estado e corporações ocorreu em torno de como lidar com a crise — típica da estrutura de “estado integral” que uniu o poder do estado e das corporações por um século. A Business Roundtable e outros lobbies relutantemente apoiaram os controles como a melhor entre as más opções, esperando o momento certo e esperando que a inflação caísse sem a necessidade de uma ação mais drástica — o que eventualmente veio na forma do Choque Volcker.

A “contrarrevolução” não foi o resultado contingente do ativismo empresarial, mas necessária para restaurar a acumulação de capital. No último ano de sua presidência, Carter finalmente aceitou a necessidade de arquitetar uma recessão por meio do aperto monetário. Os negócios seguiram adiante, apesar das preocupações sobre a dor que isso causaria. Por fim, o Choque Volcker restaurou a disciplina e abriu caminho para a globalização, abrindo a vasta força de trabalho de baixa renda da periferia global para a exploração e cortando os custos trabalhistas.

Como a integração das finanças globais forneceu a infraestrutura para as empresas industriais circularem o investimento internacionalmente e, portanto, foi crítica para restaurar seus próprios lucros, as empresas industriais aceitaram o fortalecimento das finanças que isso implicava. Longe de esvaziar a produção, as finanças permitiram que as corporações multinacionais construíssem redes globais de produção, intensificando a disciplina competitiva em todas as empresas para maximizar a eficiência e a exploração do trabalho. As finanças e a indústria certamente não eram separadas, mas se tornaram cada vez mais intimamente emaranhadas.

Como argumentamos em nosso livro recente, é simplesmente incorreto sugerir que a ascensão das finanças foi uma questão de capitalistas direcionando o investimento para longe da produção e para a especulação sobre valores de ativos. A ideia de que o período neoliberal foi marcado pelo declínio dos lucros corporativos, investimentos ou gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) é simplesmente um mito. Pelo contrário, foram os lucros muito altos dos anos neoliberais que possibilitaram tanto retornos fortes para os investidores na forma de dividendos e recompras de ações, o que impulsionou os preços dos ativos, quanto um aumento acentuado no investimento corporativo e gastos em P&D, juntamente com salários altíssimos da gerência. Se isso representasse um declínio no capital industrial, os capitalistas ficariam surpresos ao ouvir isso. Cooper, portanto, sugere que a produção estava sendo esvaziada e substituída por uma nova lógica de inflação de ativos no exato momento em que a financeirização estava facilitando o rejuvenescimento do capital industrial.

Os valores dos ativos certamente se tornaram mais significativos para a acumulação durante o período neoliberal. No entanto, para nós, a ascensão do que chamamos de "acumulação baseada em ativos" estava ligada à reestruturação do sistema de crédito e à produção de mais-valia. Naturalmente, o fortalecimento das finanças se refletiu em sua capacidade de capturar uma parcela maior do excedente social total. Uma maneira importante de fazer isso é por meio da propriedade de ações e títulos (ativos por excelência). De fato, o mercado de ações hoje não é tanto um veículo para levantar capital, mas sim um mecanismo para distribuir mais-valia aos investidores. Claro que isso pode ser feito por meio de pagamentos de dividendos, mas também pode ser alcançado por meio de recompras de ações — ou seja, uma empresa elevando o preço de suas ações recomprando suas próprias ações. O aumento do preço das ações, portanto, transfere efetivamente mais-valia da empresa para os investidores, uma das maneiras mais importantes pelas quais os financiadores "obtêm sua parte" do excedente produtivo.

Claramente, a capacidade de uma empresa de realizar tais despesas está relacionada à sua lucratividade subjacente. Como seria de se esperar, o período em que as finanças foram hegemônicas viu um aumento nas recompras de ações. Mas isso não sugere de forma alguma que a indústria esteja sendo "esvaziada" à medida que os investidores simplesmente saqueiam as empresas industriais. Tudo o que mudou é quais capitalistas estão de posse do excedente. Independentemente de os gestores industriais ou os proprietários de ativos financeiros controlarem esses fundos, uma parte será consumida, outra poupada e outra reinvestida onde os retornos forem os mais altos. É difícil ver como essa interconexão entre capital-dinheiro e economia industrial poderia ser rompida. Mesmo que a oligarquia neofeudal de Cooper consumisse todos esses ganhos, isso ainda implicaria comprar coisas, gerar lucros para o capital industrial e convocar novos investimentos.

A crescente importância dos ativos financeiros na economia também estava ligada à transformação do sistema de crédito. O mais importante a esse respeito foi o desenvolvimento das chamadas finanças baseadas no mercado, a partir da década de 1980. Como explicamos em nosso livro, isso envolveu uma mudança do empréstimo bancário tradicional para um modelo no qual o processo de criação de crédito ocorria por meio da troca complicada de ativos financeiros entre uma série de partes. A espinha dorsal do sistema eram ativos estáveis, especialmente títulos do Tesouro e títulos lastreados em hipotecas, que serviam como garantia para dar suporte à extensão do crédito. Para que o sistema funcionasse, os investidores tinham que aceitar esses ativos como "bons como ouro". Portanto, quando o valor dos títulos lastreados em hipotecas foi posto em dúvida em meio ao caos da crise de 2008, o estado teve que dar suporte ao seu valor, para que todo o sistema de crédito não entrasse em colapso. Esses ativos eram simplesmente fundamentais demais para falhar.

O valor desses ativos financeiros, portanto, tem que ser entendido em termos de sua interconexão com o sistema financeiro e seu papel em garantir a criação e circulação de crédito em toda a economia — o que Cooper falha totalmente em fazer. Portanto, é muito enganoso ver o resgate de 2008 como uma questão de "pilhagem crescente" do público, projetada para enriquecer os mais ricos, sustentando a inflação de ativos. É claro que é verdade que o estado agiu para apoiar o valor dos principais ativos no centro do sistema financeiro baseado no mercado, e que isso enriqueceu aqueles que possuíam esses ativos. No entanto, focar apenas neste efeito dos esforços de gerenciamento de crise do estado é perder a floresta por causa das árvores. Ao reforçar esses valores de ativos, os funcionários do Fed e do Tesouro estavam agindo como achavam que precisavam, com o apoio de "centristas" em ambos os partidos políticos e em meio a grande incerteza, para evitar um colapso financeiro completo e potencialmente outra Grande Depressão. Alcançar uma sociedade democrática envolve controlar o investimento, não apenas expandir os programas de bem-estar.

A interconexão cada vez mais profunda entre o sistema financeiro e o estado que resultou levou ao que chamamos de "estatização das finanças". Isso envolveu estender os apoios que o estado havia oferecido ao setor bancário tradicional após a crise dos anos 1930 para os "bancos paralelos" no centro das finanças baseadas no mercado. Ao mesmo tempo, no entanto, isso veio com novas regulamentações rígidas sobre os maiores bancos, que foram considerados "grandes demais para falir" e efetivamente fundidos com o poder do estado — questionando ainda mais a interpretação desse processo como uma mera questão de "pilhagem". Mais tarde, durante a COVID-19 e as crises bancárias regionais, esse processo de estatização avançou ainda mais à medida que os mercados de "repo" e até mesmo os mercados de títulos corporativos não financeiros passaram a ser ainda mais firmemente envoltos no poder do estado. Tudo isso é melhor compreendido como a gestão de crise de um estado relativamente autônomo.

É claro que a flexibilização quantitativa alimentou a inflação geral dos preços dos ativos, especialmente ações. Isso levou à ascensão do regime pós-2008 que chamamos de "novo capital financeiro", marcado pela concentração historicamente sem precedentes de propriedade nas mãos das três grandes empresas de gestão de ativos: State Street, Vanguard e especialmente BlackRock. Essas empresas são hoje as maiores proprietárias de quase todas as empresas de capital aberto na economia dos EUA. Ao contrário das afirmações de Cooper sobre a importância decrescente do capital industrial e dos lucros, esse regime está ancorado no controle de corporações industriais e na produção de mais-valia. Como gestores de fundos "passivos", os Três Grandes não podem negociar além de rastrear índices. Consequentemente, sua principal preocupação é a produção de mais-valia dentro das empresas que possuem. Essas empresas não são rentistas parasitas que esvaziam suas empresas de portfólio, mas exercem seu poder para pressionar essas empresas a maximizar a eficiência e os lucros — intensificando a lógica competitiva implacável que sempre foi central para a financeirização.

Embora a consolidação do novo capital financeiro tenha envolvido a ascensão de empresas de private equity, estas não são nem de longe tão poderosas quanto os grandes gestores de ativos públicos. Com certeza, as empresas de private equity são, em última análise, orientadas para vender as empresas que possuem. Claramente, tais empresas muitas vezes não sobrevivem intactas ao processo, pois seus ativos são reorganizados de forma competitiva e lucrativa. Mas seria uma simplificação grosseira ver essas empresas como meros parasitas, muito menos reduzir todo o processo de reestruturação desde 2008 à ascensão de uma oligarquia hereditária extrativista. Embora a análise de Cooper sobre a crescente importância das empresas privadas e seu apoio à extrema direita nos Estados Unidos seja interessante, este continua sendo apenas um componente do novo capital financeiro que surgiu em 2008. Como tal, essas observações não podem apoiar suas conclusões extremas sobre a reformulação geral da classe capitalista e as mudanças políticas que a acompanharam no período atual.

O desafio socialista

Para Cooper, o desafio político é promulgar um “estilo de revolução muito diferente daquele que associamos ao marxismo clássico”: um que não envolva transformar o estado ou as relações sociais que ele reproduz, mas usar o estado existente para financiar gastos sociais expansivos por meio da “impressão de dinheiro”. Isso aparentemente fornece as bases para um compromisso social-democrata: se tais gastos não incorrem em custos para o capital (ou qualquer outra pessoa), por que enfrentariam oposição?

No entanto, essa visão superestima drasticamente o escopo da reforma dentro do capitalismo e ignora o ponto central de que alcançar uma sociedade democrática envolve controlar o investimento, não apenas expandir os programas de bem-estar. De fato, onde o dinheiro impresso é alocado é em si uma questão de conflito político e poder social. Imprimir dinheiro em si não altera as estruturas de propriedade ou as relações de classe, nem muda o fato de que a economia é organizada em torno da maximização do lucro e da competitividade de mercado.

Entender o papel dos bancos centrais na ligação do poder estatal e do sistema financeiro é uma fronteira crítica para a teoria do estado, particularmente em meio à expansão dos poderes dessas instituições e suas ligações com o sistema financeiro. Na medida em que Counterrevolution avança nisso, é um empreendimento louvável. Infelizmente, no entanto, Cooper acaba ecoando a conclusão de que o banco central é essencialmente uma questão de “escalada de pilhagem”, ou pior, uma transição para algum tipo de ordem feudal-oligárquica pós-capitalista. Pelo contrário, contabilizar o poder dos bancos centrais dentro do capitalismo contemporâneo deve servir para combater as percepções comuns de que o capitalismo está em declínio. Na última década e meia, essas instituições demonstraram repetidamente sua capacidade de sustentar e reconstruir as finanças capitalistas, apesar de crises, contradições e desafios sem precedentes. E, ao fazerem isso, seu poder dentro do estado foi continuamente reforçado.

Cooper se baseia em algumas das teorias pós-keynesianas mais importantes sobre dinheiro, finanças e crédito. No entanto, só podemos entender o papel crítico desempenhado pelos bancos centrais no capitalismo hoje se os situarmos dentro das "leis do movimento" básicas do sistema. O próprio Marx deixou apenas alguns fragmentos sobre bancos centrais e o sistema de crédito, muitas vezes em capítulos que são apenas meros esboços. Desenvolvimentos subsequentes dentro das escolas marxista e pós-keynesiana oferecem lições importantes que nos ajudam a entender como as finanças têm sido essenciais para a flexibilidade e o dinamismo do capitalismo, desafiando previsões repetidas, ao longo de quase um século e meio, de seu fim iminente sob o peso supostamente inexorável de suas próprias contradições internas. Como mostramos em nosso livro, essas teorias são importantes para nos ajudar a entender o funcionamento das finanças e sua profunda interdependência com a indústria. Portanto, é lamentável que Cooper retrate os dois como rigidamente separados. Reorganizar a produção para atender às necessidades sociais e ecológicas, em vez do lucro privado, exige colocar o investimento sob controle público.

Reorganizar a produção para atender às necessidades sociais e ecológicas, em vez do lucro privado, exige colocar o investimento sob controle público. Isso, por sua vez, requer transformar radicalmente o estado para que ele possa se tornar o órgão central de uma economia socialista. Infelizmente, continua sendo verdade que "a classe trabalhadora não pode simplesmente se apoderar da máquina estatal pronta e empunhá-la para seus próprios propósitos". O estado capitalista não é de forma alguma "neutro" no conflito de classes: seus vários aparatos evoluíram historicamente para reproduzir o sistema de governo de classe. O que os marxistas chamaram de autonomia relativa do estado capitalista da economia, pela qual o poder estatal reside "fora" da esfera econômica "privada", deve ser fundamentalmente superado. As instituições do estado devem ser profundamente transformadas, refeitas para apoiar novas formas de democracia de baixo para cima e autogestão dos trabalhadores e da comunidade na implementação de políticas sociais e planejamento econômico.

Claramente, se os trabalhadores pudessem tomar o banco central e todo o sistema de crédito, como Cooper sugere, eles seriam capazes de realizar muitas coisas boas. Mas estamos tão longe disso quanto estamos de uma transição socialista mais substancial. A questão-chave, então, é como construir um movimento socialista, fundamentado na classe trabalhadora, por meio da luta por reformas. Como os interesses do capital financeiro e industrial se tornaram mais intimamente emaranhados do que nunca em torno da globalização, isso envolve necessariamente um confronto radical com o capital. Ao contrário da “Era de Ouro” do pós-guerra, nem as finanças nem a indústria estão hoje abertas a um compromisso social-democrata com os trabalhadores: as disciplinas competitivas garantidas pela livre mobilidade do capital lhes servem muito bem. Ganhar espaço para os tipos de reformas que Cooper prevê requer, antes de tudo, romper com a globalização que destruiu as comunidades dos trabalhadores e restringiu o escopo para políticas progressistas.

Que mesmo os regimes sociais-democratas mais robustos tenham sido pelo menos parcialmente desmantelados é prova de que os socialistas devem ir além da política de compromisso de classe. O mundo atual de finanças integradas e capital hipermóvel significa que o velho dilema de "reforma ou revolução" é menos relevante do que nunca. O verdadeiro desafio é construir reformas que possam suportar as pressões do capitalismo global. E isso, por sua vez, requer encontrar espaço para construir instituições que sejam suficientemente isoladas da dependência do mercado e para aumentar a propriedade social e o controle da economia. Fazer incursões em direção à democratização do banco central, de modo que ele promulgue as prioridades da classe trabalhadora e do meio ambiente em vez do capital internacionalizado, pode ser importante para apoiar isso. Mas, a menos que isso represente um passo em direção a algo mais, qualquer sucesso será transitório.

Colaboradores

Stephen Maher é professor assistente de economia na SUNY Cortland e coeditor do Socialist Register. Ele é coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock com Scott Aquanno e autor de Corporate Capitalism and the Integral State: General Electric and a Century of American Power.

Scott Aquanno é professor assistente de ciência política na Ontario Tech University. Ele é coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock com Stephen Maher e autor de Crisis of Risk: Subprime Debt and US Financial Power from 1944 to Present.

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