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27 de setembro de 2022

O populismo de extrema-direita de Jair Bolsonaro é horrível. Mas ele não veio do nada.

Rise of the Bolsonaros, um novo documentário que narra a ascensão de Jair Bolsonaro, é uma visão atraente. Mas ignora o fato de que as crises do Brasil estão enraizadas em seu modelo de desenvolvimento falho, não apenas na ascensão de uma família de fanáticos reacionários.

Alex Hochuli


Presidente Jair Bolsonaro aparece na televisão durante debate presidencial em São Paulo, 24 de setembro de 2022. (Rodrigo Paiva / Getty Images)

Tradução /A história de uma família poderosa que ganhou tudo e os três filhos que não tiveram escolha a não ser foder o Brasil juntos. É como a série Arrested Development.

Assim segue a sequência do título – com alguma licença poética para os propósitos desta resenha – do novo documentário da PBS após a ascensão da família Bolsonaro (também exibido na BBC como uma série de três episódios). Lançado um mês antes do Brasil ir às urnas numa corrida de dois polos: Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o documentário tenta alertar o mundo sobre as consequências de um segundo mandato para o representante da extrema direita.

No entanto, suas críticas são bastante fracas. Eles refletem como e por que a oposição não conseguiu reunir as massas. Ao contrapor a destruição da Amazônia às alegações de Bolsonaro sobre explorar suas riquezas incalculáveis, ele falha em dizer a verdade sobre o desenvolvimento brasileiro e seus fracassos. Pior, permite que o bolsonarismo seja um avatar do desenvolvimento (parte fundamental de sua mitologia), quando é justamente o contrário.

Com acesso impressionante a ex-ministros do governo e ao filho mais velho de Bolsonaro, Flávio, Rise of the Bolsonaros [Ascensão dos Bolsonaros], tenta – e principalmente consegue – evitar o tom histérico de muitos comentários liberais sobre o presidente. Assim, ao deixar os seus entrevistados falar, apresenta a luz e as sombras.

Em todos esses documentários, há uma grande escolha editorial a ser feita em como encontrar esse contraste e em quais sombras focar. O preconceito vulgar de Bolsonaro e a postura anti-ambiental são os principais aqui, com ameaças contra a democracia e incentivo à violência logo atrás.

O primeiro dos episódios de uma hora de duração reconstrói com paciência e sensibilidade quem é Jair Bolsonaro, desde suas raízes humildes no interior de São Paulo, passando pelo quartel do Exército do Rio de Janeiro (do qual foi expulso), até seus sete mandatos como membro do chamado baixo clero (políticos fisiológicos não influentes) no Congresso. Onde apenas conseguiu aprovar duas leis, em 27 anos como deputado.

Demasiado irrelevante para estar no nexo da corrupção do “big money”, Bolsonaro surge no episódio dois como o político-chave para explorar o sentimento anticorrupção e surfar na onda moralista de direita que tomou conta do Brasil de 2015 a 2018 – pavimentando seu caminho até o Planalto. O ex-assessor de Donald Trump, Steve Bannon, tem amplo tempo no documentário para exibir seu entusiasmo por Bolsonaro, que, ele insiste, inspirou Trump tanto quanto o contrário.

Aqui podemos notar uma oportunidade perdida. Apesar do acesso a uma série de especialistas nacionais e internacionais, o documentário nunca vai além da narrativa cansativa e errônea do “Trump Tropical”. Nesse sentido, não nos diz algo sobre o Brasil e sobre como os Bolsonaros são particularmente brasileiros, por mais que também possam fazer parte de uma onda de direita global. Há acenos para isso no retrato do “novo Brasil” no interior do país, das cidades a centenas de quilômetros da costa, do gado, da soja e das armas. Mas essa não é toda a história e deixa escapar como uma das economias de crescimento mais rápido do mundo (chegando a sexta posição no governo do PT) durante boa parte do século XX estagnou – apesar do boom impulsionado pelas commodities no início do século XXI.

Continuando onde a ditadura militar parou

Focado em seu mandato no poder, o episódio três também nos diz pouco sobre a continuidade autoritária representada pelo papel elevado dos militares na política (inclusive como ministros) sob Bolsonaro. Jair, repetidamente nos dizem, é um nostálgico da ditadura de 1964-1985, mas isso aparece como um defeito pessoal, uma inclinação puramente ideológica e não uma força dentro da sociedade brasileira que ganhou confiança na medida em que o Brasil se vê incapaz de encontrar uma saída para uma crise permanente.

Essa deficiência é mais clara em dois eixos. Primeiro, há o fanatismo dos bolsonaristas. A maioria já conhece a miríade dos ultrajes, mas repeti-los não é pecado em si; suas palavras apresentam uma janela para a visão de mundo bolsonarista. Mas há pouco dado materialmente para apoiá-lo. Um clipe do deputado Eduardo Bolsonaro, o terceiro filho do presidente, com o dedo do meio em riste para parlamentares da oposição é tão fortemente apresentada nos três episódios que quase deixa alguém se perguntando se essa é a extensão do provas incriminatórias que cercam a família Bolsonaro. (Como dizem, sempre há dinheiro por trás do gesto.)

A realidade – que explosões moralistas surgem em momentos de crise social – é perdida.

A questão do aumento da violência política é abordada principalmente através do sangrento assassinato da vereadora negra, lésbica e socialista Marielle Franco em 2018. Isso é extremamente importante. Mas o uso desse episódio como exemplo das consequências do machismo e da homofobia de Bolsonaro não é devidamente encaixado.

Marielle foi assassinada porque era uma feroz oponente do policiamento brutal, da política mafiosa e da intervenção militar no Rio, esses são conflitos e lutas que são obscurecidos na narrativa da PBS. O fato de ela ser uma mulher não branca provavelmente a tornava mais uma vítima fácil – alguém que pode ser assassinado impunemente – mas não era a raiz da questão. Ela foi assassinada porque representava uma ameaça às milícias: máfias autoritárias nascidas da polícia e militares do Brasil que controlam o Rio de Janeiro.

Mais amplamente, ao longo do documentário, a violência cotidiana da sociedade brasileira é bastante encoberta. Seria grosseiro criticar um documentário de três horas de duração por não incluir mais – ele faz muito, e o faz de forma atraente e envolvente para um público não brasileiro. Mas dada a centralidade da violência no apelo de Bolsonaro, mais alguns minutos sobre isso seriam ótimos. A insegurança cotidiana nas periferias do Brasil, criada e sustentada por grupos que variam entre – grandes gangues, criminosos de baixo escalão, grupos de vigilantes e milícias – cria um desejo de represália. Como observou Matthew Richmond, muitos “não gostam de Bolsonaro, mas pensam que pelo menos ele vai dar uma surra nos bandidos”. Sendo que ele tem conexão com milicianos e abafa qualquer investigação de corrupção sobre eles, sua família e seus ministros.

Em vez disso, aprendemos sobre o afrouxamento das leis de armas de Bolsonaro; um fato importante, mas que provavelmente apenas acelerará uma dinâmica já existente. Não explica realmente o bolsonarismo ou por que pode ser uma receita política de sucesso.

Na busca de raízes, principalmente no que diz respeito à homofobia e ao sexismo, somos informados em várias ocasiões que o Brasil é uma sociedade muito tradicional. Mas não é! E na medida em que o fanatismo do presidente é um importante ponto de conexão dele com sua sólida base, não é a tradição em si que está em ação. A virada para a direita no Brasil foi produto de mobilizações políticas (Vem pra Rua e MBL sendo um deles ) e não de uma maldição imutável enraizada na sociedade brasileira.

Tradicionalmente, a cultura brasileira tem uma certa frouxidão moral em seu cerne, que se manifestou como hipocrisia, uma vez que foi posta em contraste com as reivindicações moralizantes. Isso gerou uma “tolerância corrosiva”, um espírito de acomodação com o mundo imperfeito. Há sempre um acordo a ser feito e uma resolução cordial. Pregar algo como a erradicação dos homossexuais ou ver o diabo atrás de cada porta, como alguns pastores evangélicos fazem, é um tipo de ethos puritano que é relativamente novo no país – pelo menos em sua forma atual. Episódios anteriores de explosões puritanas foram, na verdade, interrupções políticas momentâneas em momentos de crise social, e não a regra.

Para muitos brasileiros da classe trabalhadora e pobres, a “salvação” é muitas vezes a única esperança que se mantém, mediada por um pentecostalismo em rápido crescimento, que promete saúde e riqueza imediatas. Se uma eleição fosse realizada apenas entre os autodenominados evangélicos (cerca de 30% da população), Bolsonaro venceria o primeiro turno com folga.

A sociedade capitalista é uma guerra de todos contra todos, mas no Brasil a guerra é quase literal (60 mil homicídios por ano). Além disso, as massas são privadas de chances como o emprego formal (a taxa de informalidade chega a 40%), depois de também terem sido arrancadas da antiga sociedade agrária. Nesse contexto, tentar preservar o pouco que se tem assume uma conotação existencial. Daí a ênfase na família, e por que Bolsonaro teve sucesso em se apresentar como o único verdadeiro defensor dela.

Devastação ambiental para gerar riquezas

Osegundo eixo em que as deficiências de Bolsonaro são retratadas é o meio ambiente – efetivamente o pecado capital do presidente. No limite, o documentário chega perto de sugerir que essa é a única razão pela qual você deve se importar. A Amazônia é “a questão que definiria o reinado [de Bolsonaro]”, nos dizem, enquanto a sequência do título chama os Bolsonaros de “uma família com o destino do mundo em suas mãos”.

O mandato de Bolsonaro criou um grau absurdo de omissão e impunidade na Amazônia, à medida que as agências de proteção foram prejudicadas e sucateadas, com desmatamento, aumento de conflitos e invasão de terras indígenas, além de assassinatos de líderes indígenas e ambientalistas. Isso, aprendemos, é justificado no bolsonarismo por sua visão da terra como um El Dorado (com os mineiros autônomos, portanto, livres, e a tentativa de desapropriação de terras indígenas, inclusive os assassinando-os). Esse seria, portanto, o caminho do Brasil para o enriquecimento. Nele, Bolsonaro é retratado como retomando de onde a ditadura militar parou.

Mas os espectadores estão recebendo a mais falsa das dicotomias: empregos, riqueza e desenvolvimento, contra salvar o planeta. Qualquer um seria desculpado por escolher os primeiros, especialmente os trabalhadores em dificuldades, se essa fosse realmente a escolha. Mas não é, e é justamente a dicotomia que os fervorosos apoiadores de Bolsonaro procuram apresentar ao público.

A incursão nos confins do interior do país em busca da expansão da produção primária – agricultura e indústrias extrativas – é, na verdade, uma aceleração da crescente falta de desenvolvimento brasileiro. O Brasil é um garoto-propaganda da desindustrialização prematura por sua diminuição da produção como parcela da produção, e do desemprego, um nível de renda ainda muito baixo (bem abaixo de onde estavam as economias avançadas na mesma época na década de 1980, por exemplo).

Nenhuma força política busca seriamente reverter essa tendência, que se intensificou ao longo do período do PT no poder, e que um novo governo terá que enfrentar se Lula for vitorioso. Essa foi uma das razões pelas quais a base política do partido encolheu, e não pode ser explicada citando os constrangimentos após a tomada do poder ou culpando a contra-ofensiva da direita, dadas as implicações para a classe trabalhadora brasileira e o futuro do país como um todo.

A realidade é que a destruição da Amazônia não é uma triste consequência do desenvolvimento, mas um reflexo de seu fracasso. O PT pode ter feito um trabalho decente em desacelerar o desmatamento, enquanto Bolsonaro o encorajou, mas ambos estão trabalhando dentro do mesmo conjunto de escolhas limitadas. O desastre de Bolsonaro é que ele representa uma aceleração das piores tendências “desenvolvimentistas” do Brasil.

Essas são, infelizmente, questões dificilmente exclusivas do Brasil. A rampa de entrada para o desenvolvimento parece fechada para a maioria, enquanto as consequências, como o aprofundamento da desigualdade socioeconômica, a política esclerosada, e o populismo espetacular, são quase universais hoje.

A fraqueza da oposição a Bolsonaro é evidente na medida em que não conseguiu apresentar uma visão verdadeiramente alternativa. “Não seja fanático, não destrua o Estado, não torne a sociedade mais violenta, não queime a Amazônia” é preferível ao contrário, mas serve apenas para conter a crise brasileira, não sua resolução. Não é à toa, então, que a oposição parecia ineficaz e perdida até que Lula voltou à cena política em março de 2021.

Em última análise, embora Rise of the Bolsonaros não seja um documentário ruim, ele reflete essa postura. Os produtores talvez não sejam inteiramente responsáveis; se você busca apenas documentar, você não pode inventar um pólo ideológico de oposição onde não há um, você pode apenas refletir o que está lá.

No final, ficamos com um documentário que se apresenta como “acontecimentos malucos no velho Brasil”, mas que também conclui que o mundo vai acabar se Bolsonaro for reeleito. A crítica histórica profunda permanece em falta; é mais desenvolvimento atrasado do que a crucial história de desenvolvimento tardio.

Sobre o autor

Alex Hochuli é escritor e consultor de pesquisa. Ele é co-apresentador do Aufhebunga Bunga, o podcast de política global, e coautor de "Politics at the End of the End of History".

15 de agosto de 2021

The White Lotus é uma sátira perfeita dos ricos hoje em dia

A brilhante série The White Lotus da HBO nos lembra que a sociedade de classes está em todos os lugares, até mesmo em uma ilha tropical ­­– algo que a televisão tradicionalmente faz o possível para esconder.

Alex Hochuli

Jacobin

The White Lotus alfineta tanto os direitos dos ricos quanto suas pretensões egoístas. (HBO)

Tradução / Tirar férias é um momento especial, quando você pode deixar esse fardo chamado sociedade para trás e se dedicar a atividades mais narcisistas. E ser mimado – como um bebê.

“Eles querem ser o único filho, o bebê especialmente escolhido para o hotel”, explica Armond, o gerente do resort, a um colega no primeiro episódio de The White Lotus, da HBO, uma minissérie de 6 episódios sobre pessoas ricas de férias no Havaí. A comédia dramática é uma sátira mordaz, valendo-se nitidamente de clássicos da TV e do cinema: problemas no paraíso (digamos, A praia) e comédia em um hotel (Fawlty Towers).

O que diferencia The White Lotus e seu hotel resort de mesmo nome é que ele serve como um contêiner para os antagonismos sociais dos Estados Unidos, com a representação do drama da sociedade de classes dos hóspedes e funcionários e seus delírios no século XXI no idílio tropical. Os membros principais de um elenco soberbo são dez no total. Os oito veranistas – uma família de quatro pessoas mais uma amiga, um casal recém-casado e uma viajante solo de luto – são verdadeira caricaturas da classe dominante e seus auxiliares profissionais: uma autopiedade cruel, alienada e superior. Estes são complementados por funcionários contratados: Belinda, a massagista do hotel, e o gerente, Armond.

Suas interações são frequentemente sobrepostas por um pressentimento fatal – auxiliado por um ritmo de tambores tribais e ondas que quebram e aumentam a tensão sem nunca servir como um substituto para o drama real nas cenas. As relações dos personagens, por sua vez, servem como lembretes de que a sociedade (de classes) permeia toda parte, até mesmo em uma ilha tropical, algo que a televisão norte-americana tradicionalmente faz o possível para esconder.

A nitidez da sátira social é, deve ser dito, estimulada por um recurso barato de enredo: aprendemos na cena de abertura que alguém morreu no resort durante a estada de nossos oito protagonistas. O fato ser bem executado não o impede de ser um clichê também. Mas, para o crédito do showrunner Mike White (que também fez Escola do Rock), isso funciona como gancho para dar início à ação: depois disso, a tensão dramática é autossustentável. Mesmo que os showrunners desfiem o mistério da morte no final, isso não deve causar grandes danos ao programa.

Em vez disso, os hóspedes do hotel criam seu próprio drama. Os recém-casados Shane (herdeiro de um magnata do mercado imobiliário e um idiota detestável com um boné da Cornell) e Rachel (uma jornalista de clickbait e a única convidada que não está lá pelo seu dinheiro) estão no processo de se descobrirem – ao mesmo tempo em que descobrem que cometeram um grande erro. Nicole (CEO de uma empresa de alta tecnologia) e seu marido desmasculinizado, Mark, são pais de Quinn (um adolescente alienado e viciado em telas) e da estudante universitária Olivia (uma sabe-tudo cruel obcecada por si mesma). Acompanhados pela amiga de faculdade de Olivia, Paula (uma típica zoomer super diagnosticada e super medicada). Os cinco compõem a clássica família rica e disfuncional. Completando este conjunto VIP – os convidados, ao contrário da maioria, chegaram de barco – está a trágica Tanya, uma senhora com botox que luta para superar o luto de sua falecida mãe abusiva.

O narcisismo carente dos personagens transborda para o âmbito dos funcionários do hotel. A alcoólatra Tanya se apega a Belinda, a massagista, imaginando-a como uma “negra mística” que pode preencher o vazio dentro dela. A estoica Belinda fica desconcertada com a resposta quase extática de Tanya às massagens terapêuticas de Belinda. A massagista aceita com relutância o convite de Tanya para jantar, apesar dos regulamentos do hotel serem contra a confraternização entre funcionários e hóspedes. “O que?! Isso é algum tipo de sistema de castas?”, pergunta Tanya incrédula (Ah, mais do que você imagina!).

Belinda mantém suas cartas escondidas, em um eco do que Armond (um gerente de hotel em recuperação do vício) aconselha outra funcionária: “Desencorajamos a presença do funcionário… Você não vai querer ser muito específica ou ter uma identidade.” O trabalho físico da equipe ­– preparando o resort antes mesmo dos hóspedes acordarem – é adicionado ao trabalho emocional dos bastidores.

Armond, porém, está prestes a explodir, de volta ao álcool e às drogas – precisando apenas de um empurrão do babaca Shane, que insiste em hostiliza-lo por ter duplicado sem querer a reserva da premiada Pineapple Suite. Embora a lua-de-mel de Shane e Rachel desfrute de uma bela suíte com suas próprias vantagens, Shane exige seu privilégio. “Estou finalmente recebendo algum respeito!”, exclama o personagem após receber uma garrafa de champanhe como recompensa do gerente. Como um garoto rico mimado, ele precisa do seu ego acariciado. “As pessoas têm vindo atrás de mim durante toda minha vida”, ele lamenta a esposa, suas imensas vantagens sociais são transformadas em vitimização.

São esses tipos de momentos que são observados com tanta astúcia na série. Mike White tem seus personagens empurrados uns contra os outros de tal forma que desferem golpes, expondo suas fraquezas e contradições, sem um modelo de virtude emergindo – seja ele pessoal ou político.

Em uma das muitas cenas tensas da mesa de jantar (o estábulo de sátiras da burguesia, de Luis Buñuel em diante), a guerreira da justiça social Olivia denuncia a carreira de sua mãe, Nicole, minimizando sua conquista como mulher no topo da cadeia corporativa e cobrando sua empresa Big Tech de “desvendar o tecido social”. Acontece que Nicole estava apenas procurando alguma validação pessoal de sua filha, não seu endosso político. “Quero apoio como sua mãe”, ela exclama – uma das muitas situações de confusão entre o pessoal e o político, o social e o psicológico.

Olivia e Paula são perfeitamente descritas como estudantes em seus primeiros anos de faculdade, membros de uma futura casta de administradores que aprenderam um pouco sobre o mundo e que se imaginam saber de tudo. A certa altura, Nicole rebateu a dupla: “Meu sentimento é que a maioria desses ativistas não quer realmente desmantelar os sistemas de exploração econômica, não aqueles que os beneficiam – que são todos globais, a propósito. Eles só querem um lugar melhor à mesa da tirania.” Olivia retruca: “Não, é só você, mãe.”

“E qual é o seu sistema de crença, Olivia?” pergunta Nicole. “Não é capitalismo. Não é socialismo. Então, é apenas cinismo?”

O fato de tal distorção das pretensões radicais e egoístas por parte dos abastados vir de uma mulher chefe estilo Hillary Clinton é uma conquista por parte dos criadores da série. Quando a verdade surge de bocas improváveis, é uma prova de boa escrita.

E é uma mulher improvável. Em uma cena separada, a bela jornalista Rachel se aproxima de Nicole, de quem ela havia escrito um perfil alguns anos antes, em busca de conselhos de vida. Rachel sente que está perdendo sua independência, agora que ela se casou com um cara rico, e teme que sua carreira evapore (o marido execrável até mesmo propõe “dobrar tudo que eles estão pagando” a ela para que sua noiva se torne a esposa troféu dos seus sonhos). É revelado que nesse perfil, Rachel argumentou que Nicole havia escalado o topo da escada corporativa “surfando na onda Me Too, usando a vitimização de outras mulheres para avançar”. Ninguém se deu bem, nem mesmo Rachel – ela também faz parte do sistema, agora se beneficia da segurança financeira com a qual se casou.

E é este precisamente o ponto: a ideologia não é o que você acredita, é o que você faz.

O filho adolescente Quinn, por causa dos argumentos egoístas da irmã e da mãe, explode à mesa: “O que importa o que pensamos? Se pensamos nas coisas certas ou erradas? Todos nós fazemos a mesma merda.” Um momento de clareza impressionante – embora rapidamente abalado quando descobrimos o que Quinn estava querendo dizer: eco-niilismo. “Ainda somos todos parasitas da Terra. Não existe pessoa virtuosa quando estamos todos comendo peixe e jogando todas as nossas porcarias de plástico no oceano. Tipo, um bilhão de animais morreram na Austrália durante os incêndios. Um bilhão. Para onde vai toda a dor?”

Olivia e Paula são estudantes em seus primeiros anos de faculdade, membros de uma futura casta de administradores que aprenderam um pouco sobre o mundo e que se imaginam saber de tudo.

Mais uma vez, o narcisismo afetado dos convidados os leva a reconhecer continuamente o político como pessoal e vice-versa. Por exemplo, quando o pai vitimista, Mark, fica traumatizado com a notícia que recebe (seu falecido pai era gay, levava uma vida dupla e morreu de AIDS, não de câncer como se acreditava anteriormente), a insensível filha Olivia interpreta isso como uma expressão de repulsa homofóbica – mais uma oportunidade para ela sinalizar suas virtudes.

O envolvimento pessoal dos personagens é um ponto perigoso. A carente Tanya descarta casualmente a ideia de que Belinda poderia começar seu próprio negócio – Tanya poderia até mesmo bancar isso! Belinda de repente vê uma oportunidade de se livrar de um trabalho insatisfatório no spa do hotel “ajudando pessoas ricas fodidas” (“Eu conheço um monte de gente rica fodida”, cospe Tanya com algum veneno – claramente se referindo a seus pais abusivos… e talvez ela mesma). Mais tarde, Tanya começa um romance de férias e parece perder o interesse em sua outrora favorita amiga Belinda. Será que Belinda ficará em apuros, com um plano de negócios sem investidores?

A evidente dor psicológica de Tanya estimula um certo grau de simpatia do público. Assim como a amiga de Olivia, Paula – apanhada não apenas na perturbação da família de sua amiga, mas também na mira do ciúme dela. Paula – uma das únicas hóspedes não brancas – se identifica com a situação de Kai, um belo membro da equipe havaiana e sua história de injustiça (o hotel roubou as terras de sua família; agora ele trabalha no hotel realizando danças tradicionais para os clientes ricos). Para “salvar” Kai, ela elabora um plano para que ele roube um par de pulseiras de Nicole no valor de 75 mil dólares – expondo assim ele, não ela, a um grande risco. Ela só faz isso, no entanto, quando descobre que Olivia estava flertando com Kai, tentando tirá-lo de perto dela. Engraçado como as supostas paixões por justiça social frequentemente vêm entrelaçadas com uma vingança pessoal.

O fato da série ter sido produzido nos Estados Unidos pode ser um acidente nas circunstâncias. Foi sinalizado que a HBO estava procurando algo “amigável para COVID” do ponto de vista de produção. Filmar em locações em um hotel resort no Havaí se encaixou. Mas a HBO tem antecedentes. Em sua sátira sobre os ricos – e no exame das patologias americanas pelo prisma da família – a Sucession é uma comparação óbvia. Este último é uma série muito mais grandiosa, com um drama melhor, mas o showrunner Mike White reconhece algumas limitações de Sucession como uma sátira da classe média alta: “É uma grande série, mas é a corte do rei. Eles são bilionários. Com White Lotus eu queria que fosse mais, tipo ‘esse é o seu vizinho rico que faz parte do sistema”’.

Alguns críticos reclamaram que essa abordagem carece de tensão dramática, perguntando “por que devo me preocupar com as férias dessas pessoas?”. Mas é a falta de exotismo da série (se não banal) que o torna uma sátira tão contundente. Afinal, uma sensação comum aos veranistas que estão em níveis inferiores na ordem social também é – e isso que a torna tão envolvente. Tanto é investido em uma semana de férias em meio a 51 semanas de trabalho árduo que a necessidade de ser perfeito e livre de preocupações sociais comuns se torna grande. É por isso que revela os problemas no paraíso: a ideia do desastre nas férias, ocorre com tanta frequência, tanto na ficção quanto em nossos próprios medos. É o que o torna tão provocativo.

Mas o que torna os convidados do White Lotus um pouco diferentes é sua evidente falta de preocupação em aproveitar o tempo; eles, ao contrário da maioria, usam seu lazer com leveza – seja a disposição workaholic de Nicole ou a determinação de Shane em perseguir o gerente do resort às custas da “lua-de-mel perfeita”.

Aqui está um ponto importante sobre a classe que a série aborda – com seus personagens cuidadosamente gentis e quase nunca totalmente antipáticos (o que é esperado de um roteirista de Freaks and Geeks, a única série de TV que retratou o ensino médio direito). A classe não é sobre desigualdade, é sobre falta de liberdade. Uma parte importante da história da sociedade de classes são os sujeitos problemáticos que ela cria. Como em Parasita, o pessoal, os oprimidos, do andar de baixo para os hóspedes ricos de cima, não são boas vítimas, ou boas porque são vítimas. Eles têm suas fraquezas e causam danos também. Mas simpatizamos porque seu arbítrio, sua liberdade, é muito mais circunscrito do que aqueles a quem servem.

Isso é socialmente estruturado. Não se trata de ter boas opiniões ou ser uma boa pessoa. A ideologia funciona por meio do que você faz, não dos pensamentos que você mantém em sua cabeça. Entender as coisas dessa maneira permite que The White Lotus atravesse as infindáveis guerras culturais de grande importância, cuja base é precisamente as opiniões que alguém mantém e as opiniões dos outros que um defende e as opiniões que alguém presume que o outro defende. E isso permanece verdadeiro, não importa quão “políticas” sejam as opiniões – digamos, no confronto entre aqueles preocupados com opressão e privilégio e aqueles que defendem o mérito e as realizações. No jantar do White Lotus, esses lados são divididos materialmente apenas pela mesa, e talvez uma geração.

O que mudaria se o narcisismo não os impedisse de perceber isso? O que está em jogo é que suas ilusões materialmente estruturadas estão continuamente espalhadas pela mídia dos Estados Unidos. Esta é a política contemporânea achatada, esmagada, dobrada, sugando o oxigênio da esfera pública. Esse lugar onde a política de classe pode estar.

Sobre o autor

Alex Hochuli é escritor e consultor de pesquisa. Ele é co-apresentador do Aufhebunga Bunga, o podcast de política global, e coautor de "Politics at the End of the End of History".

7 de setembro de 2018

Eleição anti-política do Brasil

O golpe suave de 2016, uma crise econômica interminável e a profunda desilusão entre os eleitores levaram a uma eleição volátil e fragmentada no Brasil.

Alex Hochuli

Jacobin

Jair Bolsonaro em um evento de campanha. Wikimedia Commons

A eleição geral no Brasil em outubro apresenta um cenário político fragmentado, polarizado e corrompido. Esta é uma consequência de cinco anos turbulentos definidos por protestos em massa, recessão severa e um golpe suave em que o establishment rompeu com o acordo pós-ditadura de 1988 para expulsar o Partido dos Trabalhadores (PT) do poder.

O candidato que lidera as pesquisas é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de centro-esquerda. O problema é que ele está preso por acusações de corrupção decorrentes da infame investigação Lava Jato. Após uma decisão judicial em 5 de setembro, Lula agora não pode concorrer, graças à lei “Ficha Limpa” que ele mesmo aprovou. Com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de centro-direita, estabelecido em baixas históricas, e um adversário de extrema-direita acertando a folga deste último, a disputa presidencial está mais aberta do que nunca.

O desafiante, Jair Bolsonaro, foi esfaqueado em uma manifestação de campanha ontem por um homem que alegou estar "cumprindo uma ordem de Deus." O companheiro de chapa de Bolsonaro, general aposentado Hamilton Mourão, argumentou incorretamente que o agressor era militante do PT, jogando com o sentimento anti-PT de sua base. O ataque aumenta os níveis de violência política neste ano, após um incidente em que tiros foram disparados na caravana de Lula em março, e o assassinato da vereadora de esquerda Marielle Franco no mesmo mês.

Um recorde de treze candidatos estão registrados para disputar a presidência. O Brasil tem trinta e cinco partidos políticos, mas muito menos candidatos, enquanto os partidos se unem em grandes alianças. O campo está tão dividido que apenas dois candidatos consistentemente aparecem nas pesquisas com dois dígitos: o inabilitado Lula (PT), com uma média de 35% e o extrema-direita Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), com uma média de 20%. Nas pesquisas sem Lula, nenhum dos dois principais candidatos chegam sozinhos aos 30%. Enquanto isso, todos os principais candidatos têm taxas de rejeição acima de 50%; quase metade dos eleitores pretendem votar em branco/nulo ou estão indecisos. A desilusão com a democracia é a força dominante.

Nas últimas duas décadas, as eleições presidenciais do Brasil se instalaram em uma alternância de centro-esquerda/centro-direita entre o PT e o PSDB. Desta vez, o cenário é influenciado por crises mutuamente combinadas. Há a crise econômica: apesar dos pronunciamentos egoístas no sentido de que o Brasil está em ascensão, para a maioria dos brasileiros, o país permanece estagnado em uma recessão.

Os números oficiais do desemprego mostram uma taxa de 12,4%. Isso mascara uma taxa de subutilização de 25%. 4,8 milhões de brasileiros desistiram de procurar trabalho - o equivalente a toda a Irlanda. Quase um quarto destes procuram há dois anos. E há uma precarização de longo prazo: 64% dos trabalhadores admitem que fazem trabalhos estranhos para sobreviver, contra 57% no ano passado.

A política brasileira foi abalada por uma crise geral de representação. Manifestações em massa eclodiram em junho de 2013, antes da crise econômica. Inicialmente, elas protestavam contra os aumentos de tarifas de transporte, mas rapidamente se ampliaram para uma série de demandas democráticas em torno dos serviços públicos e além. Por tudo o que isso abalou a política centrista de negócios, previu apenas um maior desencantamento. Gradualmente, os protestos foram canalizados para a direita para focalizar estreitamente a corrupção e, em particular, o PT.

Uma combinação de interesses poderosos impugnou Rousseff no início de 2016, sem base legal. Foi o principal ato de um “golpe suave” que é melhor entendido como um processo do que um evento. Começou com protestos populares direitistas anti-PT em 2015 (sob a bandeira da “anticorrupção”), e continuou até uma série de contra-reformas neoliberais conduzidas pelo governo sucessor não eleito de Michel Temer. Social e politicamente, isso criou um novo pólo de antipetismo virulento (sentimento anti-PT), cujo melhor representante é Bolsonaro; o outro pólo permanece agrupado em torno do Partido dos Trabalhadores.

Anti-corrupção como anti-política

A economia e a corrupção são as grandes preocupações do eleitorado. Nove em cada dez deputados federais atualmente sob investigação estão concorrendo à reeleição. Apesar de vastas áreas do Congresso estarem sob investigação, apenas 6% dos deputados que se sentam na Câmara dos Deputados não ficarão de pé novamente. Isso se deve em parte ao desejo de manter a imunidade do Congresso. Mas também é baseado na expectativa de que altos níveis de rejeição e baixa taxa de participação (o voto é obrigatório, mas a multa equivale a apenas um dólar americano; muitos também anularão seus votos ou votarão em branco) levará muitos representantes a serem reeleitos.

No entanto, os candidatos e os meios de comunicação têm se concentrado desproporcionalmente na corrupção em detrimento da economia. Isso permite que os candidatos se sintam à vontade, enquanto evitam perguntas difíceis sobre empregos e crescimento. Acusações e recriminações voam, independentemente de o portador da acusação estar sob suspeita. O discurso dominante anticorrupção coloca em questão a capacidade do Estado de gerenciar a economia de forma justa e eficaz. Esta deslegitimação da ação do Estado é em benefício da direita neoliberal.

A consequência é que o Congresso reterá ou fortalecerá ainda mais seu caráter oligárquico; e o Brasil provavelmente acabará com um presidente rejeitado pela maioria absoluta do eleitorado. Isso, quando muitos estão desesperados por mudanças. À medida que a corrupção se torna o meta-tema através do qual todas as outras questões são discutidas - seja a pobreza, o déficit orçamentário, o crime ou o serviço de saúde - torna-se um pseudônimo de desconfiança como tal. Aqui está uma das ironias da política anticorrupção: o desencanto pode levar a tirar o pé popular do pedal do acelerador democrático, aumentando a distância entre a política e as pessoas.

O "establishment"

Um testemunho da polarização política do Brasil, fragmentação e altos índices de rejeição é o destino até agora de Geraldo Alckmin. Vice-campeão presidencial em 2006, o governador do estado mais rico e populoso do Brasil e fundador do principal partido de centro-direita do Brasil, ele é o principal insider. No entanto, apesar de ser o candidato favorito das grandes empresas, ele não decola nas pesquisas.

O PSDB apoiou o golpe, esperando que o partido voltasse ao poder nesta eleição. Em um clima anti-establishment, Alckmin só consegue 7% nas pesquisas. O presidente Temer - inelegível para concorrer e possivelmente o menos popular líder na história das pesquisas, com um índice de aprovação de 2% - recentemente deu a Alckmin um beijo de morte declarando-o candidato do governo. Isso é particularmente estranho, pois o partido de Temer, o oligárquico partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), tem seu próprio candidato em Henrique Meirelles - o ministro das Finanças de Temer!

Alckmin enfrenta um cenário complicado. Ele precisa segurar Bolsonaro à sua direita. O insucesso de sua campanha também atraiu outros concorrentes de centro-direita, incluindo Meirelles (MDB; sondagem de 1 por cento nas pesquisas) e Álvaro Dias (Podemos; 6 por cento), este último distinguido apenas por ser um forte defensor da Lava Jato e prometendo refundar a república se eleito.

Ao mesmo tempo, Alckmin deve conquistar os eleitores do centro. Em seu favor, Alckmin fez um acordo com os partidos do “Centrão” (um grupo do cartel de partidos não-ideológicos, principalmente da direita) que lhe garante a maior fatia do tempo gratuito de TV do que qualquer um dos candidatos. Ainda é preciso ver a importância que a TV tem hoje em um país no qual a mídia social é amplamente usada para disseminar as comunicações políticas - o Whatsapp tem 120 milhões de usuários no país. Independentemente disso, a máquina partidária do PSDB continua formidável, se não for dilacerado por divisões internas.

O cenário à esquerda

Os repetidos sucesss do PSDB encontram-se em uma situação ainda mais complexa. O Tribunal Superior Eleitoral decidiu na proporção de quatro para um contra a candidatura de Lula, com o juiz dissidente citando o pedido da ONU para que Lula não seja desqualificado. A única chance remanescente de Lula é um recurso especial na Suprema Corte, onde, caso o caso caia para um juiz favorável, o tribunal pode conceder uma liminar.

Essas táticas de protelação legal, caso sejam prorrogadas por tempo suficiente, podem resultar em literatura eleitoral e cédulas eletrônicas que caracterizam Lula como o candidato do PT. Isso pode ser necessário, já que Haddad tem consistentemente aparecido nas pesquisas abaixo dos dois dígitos. No entanto, Lula vem subindo nas pesquisas recentemente; algumas pesquisas indicam que dois terços ou mais dos eleitores de Lula seriam transferidos para Haddad; e Haddad subiu para 15% em uma pesquisa recente quando explicitamente rotulado como “apoiado por Lula”.

Deixar Lula no pleito o maior tempo possível também tem a intenção de ajudar os candidatos do partido ao congresso. Isso vem ao custo de construir o perfil de Haddad. Ele permanece pouco conhecido fora de São Paulo e ainda não participou de debates presidenciais televisionados, enquanto permanece apenas como candidato a vice-presidente. O partido mantém sua forte base no nordeste pobre, mas perderá pesadamente no sudeste. A eventual vice-presidente de Haddad, Manuela D'Ávila, tem sua base no estado mais austral do Rio Grande do Sul, o que pode ser útil, já que algumas projeções mostram que o PT deve ganhar lá para ter uma chance.

A estratégia do partido arrisca ganho eleitoral de curto prazo para fraqueza e fragmentação de longo prazo. Em primeiro lugar, arrisca apresentar um candidato potencialmente fraco com Haddad, que não teve tempo de se estabelecer. Haddad é um ex-acadêmico e, no fundo, um tecnocrata; ele não tem conexões com uma base popular e ainda precisa demonstrar a experiência política ou o carisma necessário para construir alianças.

O PT estaria, assim, estabelecendo um presidente fraco. A impichada Dilma Rousseff foi preparada ao longo de um período de dois anos como sucessora de Lula para as eleições de 2010, e ainda teve dificuldades durante o primeiro turno das eleições, embora tenha sido vitoriosa no segundo turno. Haddad terá uma questão de semanas.

Em segundo lugar, uma presidência eventual de Haddad enfrentará um congresso hostil e não cooperativo. Dilma ganhou com uma ampla coalizão, incluindo o MDB. Isso permitiu que ela governasse, embora também tenha provado sua queda quando seus antigos aliados se rebelaram. A coalizão do Partido dos Trabalhadores é muito menor no nível federal desta vez. O conservadorismo do momento econômico e a emenda de austeridade constitucionalmente inscrita significam que o espaço de manobra é limitado.

O modelo de governo do partido, chamado de lulismo, combinava políticas ortodoxas macroeconômicas e neodesenvolvimentistas, com a conciliação de classes como o principal modo de operação política. Embora eficaz de 2003 a 2010, não funcionará desta vez; é necessária uma abordagem mais radical, na qual os interesses estabelecidos sejam confrontados, e não procurados como potenciais aliados.

Em terceiro lugar, e mais importante, Lula é a cola que une o partido e fornece sua estrela norte. Já estamos vendo os contornos de um partido pós-Lula. Não tem coesão nacional. O modus operandi do partido nas últimas décadas foi que os partidos estaduais costurariam alianças com vários partidos no espectro político (incluindo, ultimamente, aqueles que apoiaram o golpe). Mas Lula conseguiu reunir tudo isso; o que acontece sem ele?

O partido também não teria coerência programática. A mensagem de Lula é, fundamentalmente, voltar ao status quo anterior, antes do golpe parlamentar. Revogar as piores contra-reformas neoliberais de Temer é um começo essencial, mas nada mais. Um programa de pleno emprego, de reforma política, de investimento produtivo e de reversão da desindustrialização - tudo isso e muito mais eram questões que precisavam de resposta, com golpe ou não. Ao orientar sua estratégia em torno de Lula como figura carismática e unificadora, o partido se fez dependente dele como pessoa; isso pode, tragicamente, ser a queda do partido.

A estratégia do PT nas eleições presidenciais tem, portanto, de excluir o principal desafiante de centro-esquerda, Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Ele aparece nas pesquisas entre 7 e 12 por cento, dependendo se o cenário inclui Lula. Ciro não conseguiu chegar a um acordo com o centrão, e o PT apoiou-se fortemente no Partido Socialista Brasileiro de centro para similarmente rejeitar uma aliança com o PDT de Ciro, isolando-o.

Em termos de política econômica de grande porte, não há muito para diferenciar os programas do PT e PDT, mesmo se o PDT mais fraco se baseia em uma tradição burguesa, desenvolvimentista de cima para baixo, enquanto o PT mantém o apoio da classe trabalhadora organizada e movimentos sociais dos quais emergiu. No entanto, esta aparente similaridade leva alguns da centro-esquerda a sonhar com bilhetes combinados PT/PDT de Ciro e Haddad.

Mas a estratégia de Lula é que a PT mantenha a supremacia desse extremo do espectro. O cálculo é que a base da esquerda é mais sólida que a da direita, então é melhor se concentrar em hegemonizar esse voto. Ir mais além será difícil em 2018: o antipetismo afeta setores da classe trabalhadora e da classe média baixa que, de outro modo, poderiam votar no PT.

Enquanto isso, a candidatura radical à esquerda de Guilherme Boulos (PSOL), líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), e sua vice, a ativista indígena Sonia Guajajara, paira a 1 por cento das intenções de voto e o partido tem o mínimo de tempo de TV. Isto apesar de algumas aparições muito incisivas em debates televisivos, até agora, em que Boulos se deparou com força, com apresentações inteligentes, informadas e energéticas.

A intenção, no entanto, era que Boulos desse ao PSOL um desempenho nas pesquisas muito melhor; Até agora, tem sido uma decepção. Mas o objetivo secundário era aproximar o MTST e o partido, permitindo-lhe um alcance além da sua base na pequena burguesia radical e na intelligentsia. De qualquer forma, a única maneira de Boulos ter tido uma chance de sucesso teria sido o fato de Lula ter apoiado o candidato do PSOL, em vez de um de seu próprio partido.

Uma nova polarização

A principal polarização da eleição, então, é entre o PT e o Bolsonaro. Para alguns, pode parecer uma briga entre dois extremos. Bolsonaro se apresenta como um forasteiro autoritário que vai limpar a escória - tanto política quanto criminosa. Lula, enquanto isso, seria um populista de esquerda, representando os pobres contra uma república ilegítima.

Isso seria uma séria descaracterização. Bolsonaro representa apenas a face mais reacionária de uma elite atrasada. Antigo nacionalista econômico, ele se converteu recentemente a um liberalismo irracional de livre mercado, favorecendo as privatizações, os impostos mais baixos e a autonomia do banco central. Suas propostas de lei e ordem de matar os pobres são apenas uma extensão das relações repressivas existentes entre o estado e os brasileiros mais pobres.

Lula, por sua vez, é um centrista, apesar do que seus críticos histéricos de direita possam dizer. Isso não é tanto uma questão de política: fundamentalmente, seu programa é a realização dos direitos prometidos pela Constituição do Brasil de 1988, seu modus operandi no governo ´é de acomodação e moderação. Apenas o desvio para a direita do Brasil fez com que ele parecesse de alguma forma radical. A vitória de seu delfim representa uma esperança de deter a virada terrível no Brasil, pelo menos no imediato.

A mídia social acentua essa dinâmica. Uma análise da discussão econômica on-line mostra que 58% dos círculos de atividade em torno desses pólos, uma concentração polar maior do que em 2014, em torno de Rousseff e do centro-direito Aécio Neves. O que temos, então, é uma radicalização da direita. Enquanto a esquerda destaca o declínio do Brasil desde o golpe - em termos de direitos, desigualdade, investimento social - a direita denuncia a elite política e a burocracia estatal como corrupta. A solução: a privatização, um papel menor para o Estado na economia e o foco na segurança pública.

Aqui está o desfecho da onda de protestos da direita “anticorrupção”: um profundo ceticismo na capacidade do estado de fazer qualquer coisa e consequentes demandas por soluções autoritárias. A ironia dessa forma de anti-política é acreditar que o estado pode policiar ou exterminar pessoas com sucesso, mas não desenvolver a sociedade.

Embora alguns meios de comunicação digam que Bolsonaro é o Trump do Brasil, isso é enganoso. Bolsonaro é um conservador autoritário da semi-periferia, muito mais tradicional, mais parecido com o Duterte das Filipinas do que com o pós-moderno Trump. É apenas na popularidade da mídia social de Bolsonaro entre os jovens brancos de classe média alta (apelidados de "bolsominions") que ele se parece com Trump. Em vez disso, a nova direita brasileira está infundida com a histeria anticomunista dos últimos dias. Essas forças fixam-se na ideia de que o PT, de algum modo, se inseriu ou assumiu o estado de forma ilegítima. A demanda reacionária é retomar o que é "legitimamente" deles através de fortes posições neoliberais.

Tropeçando?

A conseqüência é que a centro-direita “moderada” perdeu a hegemonia de seu campo. No golpe, rompeu com as normas democráticas que supostamente sustenta. Através deste processo, e devido ao caos político que se seguiu, a extrema-direita autoritária de Bolsonaro foi fortalecida. O golpe, a crise econômica, o clima anti-político e o enfraquecimento da capacidade de direção do Estado levaram a uma fragmentação do campo eleitoral.

Apesar de tudo isso, o PT mantém uma chance real de conquistar a presidência, apesar de sua falta de vigor programático - mas somente se Lula conseguir transferir seus votos eficientemente para Haddad. Para muitos, representa um retorno à normalidade democrática.

Mas quem quer que forme um governo governará uma sociedade que está esgotada pela recessão econômica e seriamente desencantada politicamente. Esta república pode tropeçar, mas nenhuma força é atualmente capaz de revigorar as instituições e estruturas atuais do país, quanto mais alterá-las radicalmente.

15 de julho de 2017

O significado da condenação de Lula

A condenação de Lula poderia reforçar as quezílias da classe dominante do Brasil enquanto fragmentaria ainda mais a esquerda.

Benjamin Fogel e Alex Hochuli

Jacobin

O jovem Lula no Rio de Janeiro. Clóvis Ferreira / Flickr

Após quase trinta anos de tentativas, as forças da reação brasileiras condenaram o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula é o principal candidato para as eleições gerais de 2018, e se a sua condenação estiver em pé, ela deixa a disputa aberta, forçando o PT - e a esquerda mais larga - a reconsiderar seriamente sua estratégia. O PT sem Lula é como o time de futebol brasileiro de 2014 sem o seu jogador estrela Neymar, que culminou no dia mais sombrio da história esportiva brasileira: a derrota histórica de 7-1 pela Alemanha.

O golpe parlamentar de 2016 foi realizado na esteira dos protestos contra a corrupção que visavam o PT. Estes foram alimentados pelo vazamento regular de revelações de corrupção para a mídia pelas investigações de Lava Jato. Mas se o impeachment de Dilma Rousseff no ano passado foi a principal manobra do golpe, a convicção de Lula agora parece ser sua conclusão.

Mas, como acontece com tudo o mais na crise interminável e acelerada do Brasil, nada é garantido. O futuro será determinado tanto pela mobilização popular contra as reformas neoliberais como pelo conflito em curso dentro de uma classe dominante fraturada.

Voltas e mais voltas

A condenação de Lula vem em um momento estranho para a esquerda brasileira, que, há apenas dois meses, parecia estar de volta ao auge, montando uma greve geral histórica em que participaram mais de quarenta milhões de trabalhadores e grandes protestos na capital, Brasília, em que três edifícios governamentais foram incendiados.

Poucas semanas depois, os irmãos da liderança da JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo e com sede no Brasil, entraram em uma disputa em que revelaram os segredos do presidente Michel Temer - o presidente não eleito que lidera drásticas reformas neoliberais - e suas relações corruptas, ao expor uma conversa sobre impeachment. As mesas pareciam ter sido viradas.

No entanto, essa energia rapidamente se dissipou. Uma segunda greve geral convocada para 30 de junho teve pouca mobilização, com grandes sindicatos alinhados com o PT que se retiraram no último minuto, e foi imediatamente visto como um fracasso completo.

A explicação para este desastre está em parte no papel e nos cálculos do PT entre a esquerda mais ampla. O PT, que há muito tem um lado burocrático apesar da sua história radical e da imagem popular de esquerda, teme que a desestabilização e novas eleições possam prejudicar uma transição ordenada de volta a uma presidência lulista em 2018.

No nível local, o PT manteve sua antiga aliança com o PMDB, o mesmo partido que acusou Rousseff e instalou Temer na presidência, e espera retornar ao poder com essa aliança intacta. Isso desmoralizou a esquerda. Embora a condenação de Lula possa desencadear uma nova rodada de protesto em massa, seria apenas uma máscara da fragmentação da esquerda.

Frações e pactos

A condenação de Lula ocorre no meio das investigações anti-corrupção da Lava Jato, que começaram em 2014. Elas escalaram nos últimos três anos, atraindo cada vez mais quantidade de líderes políticos para a sua rede de arrasto. E, no entanto, parece que a maior parte delas se destina ao PT enquanto deixa outros partidos fora do alcance. O processo foi amplamente denunciado por sua parcialidade, excesso de alcance e espetáculo por meio da mídia.

Lula foi primeiro preso - sem acusação, resultado de uma espécie de "ordem de prisão" - em março de 2016, um golpe de mídia para aqueles que se moviam para acusar sua correligionária à frente do PT, Rousseff, usando acusações infligidas de corrupção. Muitos alegaram que a Lava Jato estava avançando um domínio pelo poder judiciário que reverteria ao invés de aprofundar a democracia no Brasil.

Em nome da luta contra a corrupção, um poder judiciário independente e poderoso pode ser responsabilizado por interesses corporativos ou setoriais. Como instituição contra-majoritária, poderia, adicionalmente, através de uma ação judicial seletiva, procurar desestabilizar os representantes eleitos. Ao invés de cidadãos cobrando a conta de seus representantes, juízes não eleitos é que estão.

No entanto, nas últimas semanas, a força-tarefa da Lava Jato - a querida da classe média alta - foi encerrada, com muitas de suas responsabilidades dispersas entre a Polícia Federal em todo o país. Embora o governo tenha argumentado que isso era para diminuir sua carga de trabalho, os próprios investigadores protestaram que isso estava realmente cortando as asas da unidade anticorrupção mais dinâmica do país.

A suspeita é que o governo Temer esteja buscando restringir as ações da Polícia Federal. Por exemplo, a força no mês passado se recusou a emitir passaportes devido a uma "falta de orçamento" em uma manifestação aparente contra os cortes do governo federal no financiamento à polícia. O término da Lava Jato também marca uma derrota para a tentativa de uma seção mais jovem da elite de renovar o establishment brasileiro através da vanguarda do judiciário radical.

Tudo isso fala de um ambiente turbulento dentro do establishment brasileiro. Mas não é apenas o PT que foi lançado na crise pelas investigações de corrupção. A elite brasileira historicamente mostrou um extraordinário grau de solidariedade intra-classe; recentes investigações de corrupção destruíram essa unidade.

A classe política brasileira, o judiciário e as principais empresas - em particular o enorme conglomerado de mídia Globo - estão agora em desacordo um com o outro. A Globo quer resolver a crise ao restaurar a credibilidade do sistema político através do apoio à investigação da Lava Jato.

Os capitalistas astutos como Joesley Batista, da JBS, que entregaram as fitas que poderiam servir de base para o julgamento de Temer, estão mais do que dispostos a jogar seus aliados políticos aos crocodilos se os mantiverem fora da prisão. Nesses casos, a classe política brasileira ameaçada reclama de "excessos do judiciário" em uma tentativa desesperada de evitar a prisão.

Isso teve o efeito desagradável de sobrepor os interesses da liderança do PT com os dos mesmos gangsters que o removeram do poder. Até mesmo houve relatos de encontros entre Lula, Temer e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sugerindo um iminente pacto da elite contra as investigações. Esse pacto também suprimiria as demandas das ruas para remover Temer do poder, finalizaria as reformas neoliberais que ele e o PMDB estão empurrando e significar um revés para a conclamação por "Diretas Já!".

Mas, mesmo que Lula conseguisse atrapalhar com sucesso sua condenação e disputar as eleições de 2018 - uma disputa que ele provavelmente venceria, de acordo com a maioria das pesquisas - não está claro se um governo do PT divergirá do caminho estabelecido por Temer. O programa do partido reverteu simplesmente a uma afirmação das habilidades e do carisma da liderança de Lula, e nem o partido nem Lula se comprometeram a derrubar o desprezível conjunto de medidas de austeridade e reformas trabalhistas implementadas por Temer e seus amigos.

É difícil identificar qualquer sucessor potencial entre as fileiras do PT; com seus líderes mais jovens sendo burocratas, tecnocratas ou presos na Lava Jato, o partido simplesmente não tem o talento político que teve depois de mais de uma década e meia no poder e não pode mais contar com o movimento sindical ou seus aliados do movimento social para produzir a próxima geração de quadros petista.

O PT de base e a esquerda fora do PT, enquanto isso, ao invés de montar uma alternativa às medidas de austeridade que foram aprovadas pelo congresso nos últimos meses, enfrentam a perspectiva de a agenda nacional ser novamente dominada por Lula e hesitam em como responder. Em vez de substituir a abordagem conciliadora iniciada pelo PT - um estágio necessário para a revitalização da esquerda - o PT e seus aliados podem gastar seu tempo mobilizando-se em defesa de Lula. Eles fazem isso com o medo de que sem Lula na disputa, os candidatos "anti-establishment" mais antiquados, como o proto-fascista Jair Bolsonaro, poderiam ter uma chance de chegar à presidência.

Rouba mas reforma

A economista e colunista de esquerda brasileira, Laura Carvalho, recentemente descreveu a filosofia governante de Temer como "rouba mas reforma", um jogo de palavras com o slogan tradicional dos políticos da máquina brasileira, "rouba mas faz". Temer, que está impedido de se candidatar de novo, pode se dar ao luxo de ser impopular ao passar "medidas necessárias" destruindo benefícios de aposentadoria e criando um mercado de trabalho permanentemente precário.

Certamente, não é acidental que a sentença de Lula tenha chegado menos de vinte e quatro horas depois que o Senado aprovou essas desastrosas reformas trabalhistas. Mais cedo e poderia ter levado a uma resposta mais forte do PT.

Em vez disso, com o PT atrapalhado em sua luta contra as acusações de corrupção, as reformas neoliberais passaram - entregando ao judiciário radical seu golpe de misericórdia final.

Claro, muitos no centro e na direita permanecem livres. O senador e candidato presidencial derrotado em 2014 Aécio Neves - o AJ Soprano da política brasileira e um homem previamente pego com mais de 445 quilos de pasta de cocaína em um helicóptero - está novamente posicionado no Senado depois de ter sido brevemente ameaçado de prisão.

A classe política do Brasil é composta principalmente por rebentos degenerados. As poderosas famílias de negócios do Brasil tradicionalmente enviaram seus filhos com menos talentos para a política, de modo a mantê-los longe do negócio familiar. A elite raramente mostrou-se capaz de avançar o desenvolvimento brasileiro.

Os arquitetos do golpe não são os conspiradores maquiavélicos como retratados por alguns da esquerda, mas uma gangue oportunista que derrubou um presidente democraticamente eleito com uma birra destinada a evitar a acusação. Isso torna ainda mais importante o movimento progressista para demolir as estruturas da corrupção.

Um movimento popular anticorrupção se basearia, assim, nas fortes tradições brasileiras da democracia popular e da luta de massas ao avançar a reforma política e midiática. O objetivo seria confrontar o domínio da elite sobre o sistema político brasileiro em vez de confiar em juízes não eleitos ou um líder messiânico. Construir um movimento contra ataques reacionários e tecnocráticos contra a democracia agora requer uma visão ousada, disposta a desafiar as próprias estruturas da República do Brasil.

12 de abril de 2017

Os fins da Lava Jato

Os enormes escândalos de corrupção do Brasil transformaram a política do país em um esporte espectador.

Alex Hochuli

Jacobin

Antonio Thomás Koenigkam Oliveira/Flickr

Às 6 da noite de ontem, os plenários da Câmara e do Senado do Brasil estavam vazios. Um holocausto político há muito prometido havia chegado. O juiz do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, havia acabado de autorizar investigações de corrupção sobre quase um terço do gabinete do presidente interino Temer, e uma proporção similar de senadores. A lista a ser investigada totaliza 108 líderes políticos.

Para um senso de escala, note que isso inclui apenas aqueles que se beneficiam de jurisdição privilegiada, e assim só pode ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal. O próprio presidente Temer também é citado, mas exerce imunidade temporária. Os três ex-presidentes do Brasil também estão incluídos, assim como nove governadores estaduais em exercício, que serão investigados por tribunais inferiores. Este é o último ato na titânica investigação anticorrupção conhecida como Lava Jato que ameaça explodir o establishment político do Brasil. Mais revelações ainda estão por vir.

A operação Lava Jato começou quando Sergio Moro, um juiz pouco conhecido da capital de um estado do sul do país, começou a descobrir suborno, propinas, financiamento ilícito de partidos e pilhagem de bens públicos em escala imensa, todos centrados na Petrobras e seus empreiteiros, principalmente na indústria da construção. As somas que alega terem sido saqueadas totalizam dezenas de bilhões de dólares.

Continua a ser um equívoco fora do Brasil, no entanto, que a Lava Jato causou o impeachment da presidente Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT). Ela foi posta em causa por motivos frívolos de violação das leis orçamentárias. Nenhuma evidência ainda foi produzida para ligá-la ao escândalo de corrupção. Michel Temer, ex-vice-presidente de Rousseff, agora é o presidente. Seu Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) é um partido ideologicamente amorfo que serve pouco mais do que um veículo para o poder, como o lastro conservador (pequeno-c) no establishment do Brasil. Seu partido agora governa de fato em uma coalizão com o neoliberal Partido Social-Democrata Brasileiro (PSDB).

No ano passado, as gravações vazadas envolvendo aliados de Temer revelaram os verdadeiros motivos para acusar Rousseff: sua relutância em proteger os principais políticos da investigação. Entretanto, depois de ter perdido a presidência, o PT espera que o antigo porta-bandeira Lula possa retornar nas eleições presidenciais de 2018 - um resultado provável, de acordo com as últimas pesquisas. No entanto, Lula permanece diretamente na mira de Lava Jato. Ele é a besta troféu de Moro. Se ele for acusado e declarado culpado, não poderá disputar.

Um juiz provinciano foi transformado em rei do Brasil. Poder-se-ia argumentar que ele é o homem mais poderoso do país hoje.

No entanto, apesar da bomba da noite passada, os objetivos e o caráter político da Lava Jato permanecem indefinidos. É um projeto partidário, como muitos defensores do PT argumentam? Tem o objetivo de ser uma iniciativa limitada que pára depois de enredar seus objetivos primários, ou é uma cruzada anticorrupção completa, capaz de eviscerar toda a classe política?

Até o final de 2016, as principais figuras enredadas em investigações eram do PT. Em março daquele ano, o ex-presidente brasileiro de esquerda Lula foi detido com estardalhaço pela Polícia Federal, sem acusação. Além disso, a torcida da mídia da Lava Jato e a orquestração de protestos anticorrupção tinham como alvo a esquerda. O juiz Moro encorajou isso com movimentos deliberados de relações públicas, como o vazamento (ilegal) de gravações (obtidas ilegalmente) de Lula e da então presidente Rousseff. Isso levantou polêmica pelo privilégio do espetáculo sobre o devido processo, e surgiu dúvidas preexistentes sobre a neutralidade do judiciário.

Os brasileiros estão acostumados a ver a corrupção política punida com uma mera bofetada na mão, de modo que o novo zelo do judiciário - embora potencialmente bem-vindo - parecia se aplicar principalmente ao processar as figuras do Partido dos Trabalhadores. De fato, até mesmo o ramo do Estado do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados Brasileiros criticou Moro por seu vazamento seletivo. Sua defesa intrigante e egoísta foi que não foram vazamentos, mas publicações deliberadas. Lula foi acusado de ser o autor intelectual de todo o esquema de corrupção relacionado à Petrobras sem nenhuma evidência.

Em seguida, no mês passado, o blogueiro Eduardo Guimarães, que preventivamente revelou a prisão de Lula, foi detido e interrogado, a fim de forçá-lo a revelar sua fonte. O sigilo das fontes é protegido pela constituição brasileira; e, como vimos, Moro, como principal juiz de Lava Jato e autor da detenção de Guimarães, tem sido promíscuo em seu próprio uso de vazamentos para fins de relações públicas.

Esses acontecimentos aprofundaram a teoria - defendida pela presidente Dilma Rousseff, entre outros - de que o Brasil vive em estado de exceção.

Por pior que pareça essa parcialidade, não é evidente que a alternativa - a destruição da maior parte da classe política - seria preferível. Agora Temer tem nove ministros sob investigação. O candidato presidencial derrotado da direita, Aécio Neves, do PSDB, é o político mais citado na lista do ministro Fachin. O esperado candidato presidencial do PSDB em 2018, o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, também deve ser investigado. Mais amplamente, cerca de 60 por cento das duas casas do Congresso estão sob investigação por crimes graves, alguns dos quais pertencentes à Lava Jato.

Uma situação em que todos os principais políticos caem sob o martelo do juiz poderia estabelecer um novo precedente no Brasil e acabar com a impunidade da elite, como seus defensores afirmam. Mas como eu discuto posteriormente, ela não vai "acabar com a corrupção", ela só vai transformá-la. E pior ainda, isso provavelmente levaria a um vácuo político semelhante ao que a Itália experimentou em 1994. Isso abriu o caminho para o longo domínio de Silvio Berlusconi. Teme-se que o Brasil venha a piorar.

Da Itália para o Brasil

O escândalo italiano de corrupção do início da década de 1990, conhecido como Tangentopoli, e a consequente extensa investigação Mãos Limpas, são extremamente instrutivas para a compreensão da corrupção política no Brasil de hoje. Na verdade, o próprio Moro, que começou a planejar a Lava Jato há aproximadamente uma década atrás, professou modelar sua investigação a partir da operação Mãos Limpas.

A Itália, no início da década de 1990, muito parecida com o Brasil de hoje, foi engolida por uma crise de modo algum redutível ao escândalo de corrupção.

O contexto global internacional dos primeiros anos da década de 90 foi o fim da Guerra Fria e, portanto, o fim do anticomunismo como uma estratégia coerente entre os partidos burgueses - algo que não está presente no Brasil de hoje. Mas há outros fatores que se relacionam com o Brasil de hoje. Como explica Paul Ginsborg em sua excelente história da Itália dos anos 80 e 90, o país, abalado pela recessão de 1992, tomou medidas desesperadas para atender aos critérios de Maastricht para a união monetária européia.

Assim, iniciou-se um período de desregulamentação, privatização e uma tentativa de reduzir o déficit fiscal e a dívida pública. O contexto deste processo foi um estado ineficiente; o governo do partido degradado; e corrupção generalizada e impunidade da elite. Foi nesse contexto que nasceu um novo ator social: uma minoria dentro do Estado, concentrada no judiciário, cujo zelo pela eficiência e o Estado de Direito se uniram à raiva popular pela corrupção.

Muito disso deve soar familiar aos ouvidos brasileiros. Escusado será dizer que hoje não há nenhuma ameaça comunista, nem as conseqüências de sua derrota (como eu expliquei aqui, se o impeachment de Rousseff foi um golpe, não o foi para depor um "regime de esquerda"). Mas na abertura da economia há uma similaridade contextual. Na Itália, a integração regional na Comunidade Européia levou a reformas, enquanto no Brasil há confluência de uma agenda neoliberal de "transparência" com os interesses financeiros internacionais. A recessão do Brasil, um estado decrépito, a raiva popular e o novo judiciário cruzado é uma imagem espelhada da Itália dos anos noventa.

Assim, quando a Lava Jato começou a definir os culpados por trás de um dos maiores esquemas de corrupção já descobertos, muitos se alegraram. Ginsborg observou o seguinte sobre a Maõs Limpas:

"Um clima festivo permeava muitas partes da Itália, como sempre acontece quando a ordem habitual de uma sociedade é subitamente colocada em questão."

Mas como na Itália, também no Brasil: por trás da celebração estavam motivações divergentes, refletindo diferenças de classe e cultura. Para o trabalhador médio, ver empresários e políticos levados em algemas pode parecer o fim da impunidade da classe alta e  -  finalmente!  -  a aplicação imparcial das leis do país. Para o pequeno empresário, pode sinalizar o fim do uso da influência política  -  negada a ele, mas disponível para o grande empresário  -  para o lucro privado. Para a grande burguesia, representa a queda de um partido político inconveniente

Mas nem todo mundo estava comemorando, porque as investigações pareciam visar a centro-esquerda - no poder por uma década, embora pela primeira vez desde o golpe de 1964.
A aparência de partidarismo demonstra a diferença crucial entre as investigações italiana e brasileira. Como disse o estimado jurista Boaventura de Sousa Santos:

"Por um lado, os magistrados italianos sempre mantiveram um respeito escrupuloso pelo processo penal e, ademais, nada fizeram senão aplicar leis que tinham sido estrategicamente ignoradas por um sistema judicial, que não só era conformista como também cúmplice dos privilégios das elites políticas governantes na Itália pós-guerra. Por outro lado, procuraram aplicar o mesmo zelo invariável na investigação dos crimes cometidos pelos líderes dos vários partidos políticos que governavam. Eles assumiram uma posição politicamente neutra precisamente para defender o sistema judicial dos ataques que certamente seriam submetidos por aqueles que são alvo de suas investigações e acusações. Essa é a própria antítese do triste espetáculo oferecido atualmente ao mundo por um setor do sistema judicial brasileiro."

Moro pode ter modelado sua investigação a partir da Mãos Limpas, mas não conseguiu projetar a neutralidade do exemplo italiano. Para legitimar as investigações, ele se alistou na mídia oligárquica, criando um espetáculo midiático no qual o PT estava no centro da maioria dos vazamentos, insinuações e alegações, enquanto os representantes preferidos da elite eram tratados com luvas de pelica.

Se alguém ligar a politização da Lava Jato aos outros fatores que levaram à destituição de Rousseff, parece terrivelmente conspiratório. O presidente Temer foi flagrado por uma câmera afirmando que Rousseff foi deposta porque não adotou o plano neoliberal do PMDB "Ponte para o Futuro". Seu governo, pouco legítimo, que perdeu seis ministros em seus primeiros seis meses, já aprovou uma emenda constitucional, a PEC 55, que congela os gastos públicos por vinte anos. Seguiram-se reformas drásticas às aposentadoria, a legalização da terceirização "ilimitada" e a venda de ativos estatais.

O judiciário pró-mercado

O governo escandaloso de Temer é aceito pela elite, faute de mieux. Os movimentos de direita que pediram a destituição de Rousseff como parte de uma campanha para acabar com a corrupção são altamente reticentes em criticar Temer. Toda a conversa anticorrupção era pura hipocrisia?

Primeiro, precisamos perceber que é impossível acabar com a corrupção. Mesmo os sistemas políticos mais limpos do mundo são corruptos, e muitas vezes se parecem assim porque sua corrupção é legalizada.

O conceito de corrupção no mundo moderno baseia-se na separação de interesses públicos e privados. Enquanto os interesses privados na sociedade de mercado são normais e de fato constitutivos dessa sociedade, a intrusão de interesses privados no domínio público do Estado e do governo é considerada patológica. Essa é a definição moderna de corrupção política. Mas, na realidade, é impossível criar e proteger um reino público desinteressado, dirigido puramente pela virtude republicana. Muitos dos interesses empresariais que aplaudiram a Lava Jato não tolerariam tal coisa e denunciariam estranhamente qualquer tentativa de limitar o seu lobby.

Então, o que os fanáticos anticorrupção realmente esperavam?

Aqui precisamos entender que o conceito liberal de corrupção foi substituído pela ideia neoliberal de transparência, liderada pelo trabalho da Transparência Internacional e das instituições financeiras internacionais. Significa, ao contrário, previsibilidade, custos de transação mais baixos para o capital e a eliminação de toda a informalidade na regulação e nas regras. A transparência não é, portanto, a proteção do domínio público dos interesses privados, mas a proteção de interesses privados específicos (especialmente o capital internacional) da busca de renda pelos servidores públicos ou de outras imprevisibilidades relacionadas a redes clientelistas. Embora não se queira defender o clientelismo, deve ficar claro que a "transparência" está intimamente associada à prioridade político-econômica de que os Estados estejam abertos ao capital internacional.

Daí o discurso do procurador-geral Rodrigo Janot em Davos, em janeiro de 2017, descrevendo a Lava Jato como "pró-mercado". (Ele alegou mais tarde à imprensa brasileira que a platéia de elite estava entusiasmada com sua apresentação.) A Lava Jato deveria melhorar o ambiente de investimento no Brasil, e "evitar o capitalismo de camaradagem, a cartelização, garantir a concorrência, a eficiência econômica e o desenvolvimento tecnológico". O discurso de Davos expõe o que Lava Jato é: não uma aplicação neutra da lei aos anteriormente imunes, mas uma campanha política-midiática-judicial, fortemente imbricada com a tentativa de avançar formas neoliberais de gestão no Brasil.

Aqueles que pressionam a Lava Jato para inaugurar um Brasil livre da corrupção realmente desejam um Brasil no qual o capital internacional seja livre.

Corrupção e seus espectadores

Mesmo antes da explosão de ontem, desenvolvimentos recentes colocaram em questão a aparência partidária de Lava Jato. Como um dos defensores da investigação, Brian Winter do liberal-conservador America's Quarterly, perguntou no final do ano passado,

"A operação resultará numa melhora substancial e de longo prazo na justiça e instituições brasileiras, como seus apoiadores esperam? Ou irá esmaecer como a Operação Mãos Limpas da Itália dos anos 1990, que apesar das mais de mil prisões resultou em pouca redução na corrupção sistêmica ao longo do tempo?"

Em outubro de 2016, foi detido o arquiteto do processo de destituição de Dilma Rousseff, o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha. Isso foi seguido pela prisão em novembro de Sérgio Cabral, ex-governador do estado do Rio de Janeiro. Cunha já foi condenado a quinze anos de prisão, enquanto Cabral deve ser interrogado pessoalmente por Moro no final deste mês. Ambos são do PMDB de Temer.

O anúncio de ontem, baseado na lista de políticos do procurador-geral Janot, todos emanam das pechinchas de executivos da construtora no centro do escândalo, Oderbrecht. Diferentemente das primeiras fases das investigações, ele apresenta figuras de todo o espectro político, incluindo os principais membros do PMDB e do PSDB. Embora isso não tenha impedido os grandes meios de comunicação de se concentrarem nas acusações contra o envolvimento do ex-presidente Lula em detrimento de outros, parece que a investigação em si é ecumênica.

Os aliados típicos da Lava Jato não reagiram bem a esses desenvolvimentos. Já em fevereiro de 2017, uma das principais líderes de Lava Jato, o jornal Estado de São Paulo, atacou o principal promotor Deltan Dallagnol:

"Há pessoas com poderes sobre a investigação que, sob o pretexto de punir todo e qualquer ato de corrupção, desejam inverter a mais elementar lógica jurídica, colocando em risco toda a operação, e portanto consagrando no Brasil uma Justiça autoritária que é própria das tiranias."

Vale a pena pensar exatamente o que significa o ataque do Estado de São Paulo. O jornal provocou um frenesi anticorrupção enquanto Rousseff estava no poder, só para agora virar e lamentar quanto aos direitos que estão sendo infringidos, queixar-se de que as coisas foram longe demais, e chamar todo o assunto de "neoinquisitorial". Acima de tudo uma expressão da política conservadora da imprensa corporativa. Mas também nos diz algo sobre os limites estruturais colocados em uma investigação judicial pública. A burguesia ficará sentada enquanto o Estado canibaliza todos os seus representantes?

Como observa Winter,

"Quando você começa a jogar o jogo da política, quando você entra neste campo, uma espécie de contagem regressiva começa: tic-tac-tic-tac. Por ultrapassar a mera jurisprudência, e incluir as relações públicas no seu foco, você se torna vulnerável aos inevitáveis fluxos e às marés da opinião pública."

Em seu desespero, o comentário é que o Congresso tentará aprovar uma lei de anistia - algo que eles tentaram e não conseguiram fazer no ano passado - protegendo os políticos de novos processos. Suspeitas abundam que algum acordo será costurado entre os principais juízes e políticos, porque Temer regularmente oferece almoços para o presidente do Tribunal Supremo Eleitoral. Tudo isso fala de uma crise política mais ampla, na qual setores do Judiciário, do Poder Legislativo e do Executivo estão em conflito uns com os outros.

Existe um conflito aberto dentro da classe política. Uma tendência é representada pelos fanáticos anticorrupção, a seção do judiciário aliada a Moro, que deseja ver Lava Jato até o fim, e veria promulgada no Brasil uma espécie de ditadura judicial. O outro lado é a velha elite que sente que as investigações foram longe o suficiente e estão em pânico sobre o holocausto político por vir; para eles, a ordem deve ser restaurada.

Nesse sentido, a maioria dos brasileiros são espectadores. Por mais que desejemos ver a justiça feita e os culpados caírem, as possibilidades do consequente vácuo são inquietantes. Defender os representantes corruptos e reacionários é desagradável, mas o controle dos juízes certamente seria ainda menos democrático. No entanto, a elite permanece unida em seu apoio às reformas neoliberais de Temer; e as massas, certamente, têm a pele nesse jogo.

Anti-política brasileira

O protesto # 15M no mês passado viu a primeira mobilização popular significativa contra as reformas neoliberais do governo interino, com um milhão de brasileiros na rua em todo o país, bem como greves generalizadas. São Paulo, a maior cidade do continente, tornou-se nos últimos anos o fulcro da mobilização popular. Local dos explosivos protestos de junho de 2013 e sede das maiores manifestações pró-impeachment, em março a cidade viu quase duzentos mil nas ruas contra uma nova rodada de reforma das aposentadorias.

Isto segue um longo período de quietude. À medida que novas evidências de conspiração surgiam e o governo de Temer passava de escândalo a escândalo, grande parte da esquerda perguntou à classe média: "Onde estão os seus potes e panelas agora?" - uma referência aos protestos infantis anti-Rousseff em que a classe média e superior batiam seus utensílios de cozinha durante o noticiário noturno. Para muitos da esquerda, os setores da nova classe média do Brasil que saíram às ruas "contra a corrupção" foram os idiotas úteis da crise, condenando o PT e a corrupção, para acabar com algo muito pior. Entretanto, os movimentos de protesto anticorrupção - cuja base é a classe média alta profissional - encontram agora poucos apoiadores para as suas manifestações.

No entanto, a esquerda dominada pelo PT ainda não conseguiu fornecer uma alternativa convincente. Reforma modernizadora e racionalização do Estado, ao serviço do desenvolvimento, é necessária. Mas não deve ser comutada para as costas da maioria dos brasileiros. Lula pode liderar as pesquisas, mas o martelo do juiz balança sobre sua cabeça. Além disso, a ilusão de pensar que Lula poderia trazer de volta os bons velhos tempos dos anos 2000 deve ser questionada. A conjuntura político-econômica que tornou possível o lulismo já não existe mais. Aquele foi o momento em que a elite brasileira aceitou a social-democracia moderada. Foi tolerada durante a década anterior, porque, por mais que a posição dos pobres melhorassem, a dos ricos melhorou muitas vezes. Agora, há pouca possibilidade da conciliação de classes que levou o PT à presidência em 2002.

Infelizmente, a vítima política da controvérsia sobre a corrupção não é apenas o PT, mas a própria política. Anti-política é a força predominante, com pouca confiança em políticos de qualquer matiz, e nenhum consenso popular sobre um programa político em andamento. Nas eleições municipais de outubro de 2016, os votos nulos/brancos chegaram ao segundo lugar em quatro das cinco maiores cidades do país. Em vários municípios metropolitanos de um milhão de habitantes, a combinação de abstenção/votos nulos/em branco chegou ao primeiro lugar.

Na Itália, depois que os velhos partidos foram eviscerados no início dos anos noventa, ela sofreu com Berlusconi. Além de introduzir reformas neoliberais, Berlusconi também foi pioneiro em um novo estilo de política: uma unidade de tecnocracia e populismo, que enfatizava o saber-fazer prático em vez da política, combinado com o uso astuto dos meios de comunicação de massa - na época definida como "Videocracia".

Era também uma unidade do antigo e do novo: o tradicional clientelismo, porém aliado a um sentimento de empreendedorismo moderno, indiferente ao arcaísmo do setor público e arranjos velhos e confortáveis. Para todos os que gritam sobre o fascismo de hoje, o modelo do oportunista anti-político contemporâneo não é Mussolini, mas Berlusconi.

No Brasil estamos testemunhando algo semelhante. São Paulo, o lugar com a política mais "moderna" do país, tem como novo prefeito o rico empresário e estrela de TV João Dória Jr - um homem que fez todos os esforços para se apresentar como um não-político, mas que cultivou estreita relação com o PSDB por um longo tempo e foi justamente descrito pelo Intercept como "inescrupuloso, superficial e dissimulado." Soa familiar? Muitos agora estão empurrando Doria para concorrer à presidência em 2018. Mesmo figuras menos atraentes do salvador esperam nas asas. Jair Bolsonaro, possivelmente um dos representantes mais reacionários eleitos em qualquer lugar, continua a aparecer desconcertantemente bem nas pesquisas.

Se a classe política vai ser capaz de se unir em um acordo para salvar a si mesma ou, em vez disso, se submeter à cruzada de Moro, nada disso vai mudar o humor anti-político. Em ambos os casos, provavelmente será exacerbado. É uma situação volátil em que as fontes de liderança são poucas e distantes entre si. É improvável que as forças internacionais ajudem; os poderes do Norte Global também estão se desfazendo, golpeados pelos ventos da anti-política. Somente a liderança de uma esquerda de base pode salvar a situação. O temor é que, em vez disso, os oportunistas autoritários sejam os beneficiários finais da conjuntura política de hoje.

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