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27 de março de 2025

A teoria do trabalho da IA

A inteligência artificial pode ser a primeira tentativa de automatizar e disciplinar o trabalho humano, algo que nem mesmo seus criadores compreendem completamente.

Ben Tarnoff


Ilustração de George Wylesol

O Vale do Silício funciona com base na novidade. Ele é sustentado pela busca do que Michael Lewis uma vez chamou de “a nova novidade”. A internet, o smartphone, as redes sociais: a nova novidade não pode ser um ajuste modesto nas margens. Ela tem que transformar a raça humana. Os incentivos econômicos são claros: uma empresa que populariza uma invenção que quebra paradigmas pode ganhar muito dinheiro. Mas também há algo maior em jogo. Se o Vale do Silício não continuar a entregar novas novidades, ele perde seu status privilegiado como o lugar onde o futuro é feito.

Em 2022, a indústria estava tendo um ano ruim. Depois de uma pandemia lucrativa — as cinco maiores empresas de tecnologia adicionaram mais de US$ 2,6 trilhões à sua capitalização de mercado combinada em 2020 e quase a mesma quantia em 2021 — o setor sofreu uma de suas mais severas contrações de todos os tempos. A Amazon perdeu quase metade de seu valor, a Meta perto de dois terços. O Nasdaq, com forte peso em tecnologia, caiu 33%, seu pior desempenho desde a crise financeira de 2008.

As razões eram bastante diretas. No início da pandemia de covid-19, o Federal Reserve (Fed) cortou as taxas de juros para zero, e as pessoas ficaram em casa, onde passavam mais tempo e gastavam mais dinheiro online. Em 2022, ambas as tendências estavam em reversão. A maioria dos americanos havia decidido parar de se preocupar com o vírus e retomava alegremente suas atividades offline. Enquanto isso, o Fed começou a aumentar os juros em resposta à inflação crescente.

Seria um erro exagerar a severidade da “desaceleração da tecnologia” que se seguiu. Apesar das demissões em massa e da receita em declínio, as grandes empresas permaneceram maiores e mais lucrativas do que eram antes da pandemia. No entanto, um certo mal-estar havia se instalado. A indústria precisava de uma nova invenção deslumbrante que pudesse atrair bilhões de consumidores e levar os mercados de capitais a uma espuma de euforia.

Uma candidata era a Web3, uma proposta para reconstruir a internet em torno do blockchain, a tecnologia contábil subjacente ao Bitcoin e outras criptomoedas. Defendida em particular por capitalistas de risco, que esperavam que ela os enriquecesse ao capacitar uma nova geração de startups para destronar as grandes empresas, a Web3 nunca se mostrou útil para nada além da especulação, e até mesmo os especuladores foram prejudicados quando vários esquemas implodiram sob a pressão das altas taxas de juros. Outra possibilidade era o metaverso, o sonho de Mark Zuckerberg de uma internet imersiva vivenciada por meio de um headset. Ele também se esforçou para demonstrar qualquer vantagem prática. Pior, era desagradável: um simulacro cheio de falhas de um shopping pós-apocalíptico como se fosse desenhado por David Lynch, onde avatares de olhos de peixe e sem pernas flutuavam por mundos cartoonizados e escassamente povoados.

Então, em 30 de novembro de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT. Um sistema poderoso emparelhado com uma interface conversacional afável, ele permitia que qualquer pessoa fizesse uma pergunta e obtivesse uma resposta impressionantemente humanoide (embora nem sempre correta). Em janeiro de 2023, o chatbot havia acumulado 100 milhões de usuários, tornando-se a aplicação web de crescimento mais rápido da história. Foi um conto de fadas do Vale do Silício: a OpenAI, que na época tinha apenas algumas centenas de funcionários, pegou todos de surpresa e, virtualmente da noite para o dia, estabeleceu a “IA generativa” — a categoria de software à qual o ChatGPT pertence — como o novo conceito mestre de toda a indústria. Os gigantes da tecnologia se apressaram para responder, desencadeando uma corrida. Tudo, dos buscadores aos clientes de e-mail, passou a incorporar recursos generativos. Em 2023, o Nasdaq subiu 55%, seu melhor desempenho desde 1999. A nova novidade havia sido encontrada.


É cedo demais para saber se a IA generativa se provará um pote de ouro ou um sopro de ar quente. As opiniões estão divididas. Algumas empresas tiveram um desempenho fabuloso: a Nvidia, a estrela em ascensão do boom, está lucrando muito, já que seus chips são a infraestrutura básica na qual a IA generativa é construída. As divisões de nuvem da Microsoft, Google e Amazon também cresceram consideravelmente, crescimento que seus executivos atribuem ao aumento da demanda por serviços de IA.

Mas estas são, na linguagem da imprensa financeira, jogadas de “pás e picaretas” (fornecer as ferramentas básicas para uma corrida do ouro). Ninguém duvida que há dinheiro a ser ganho vendendo para as empresas o parafernalha de que precisam para usar a IA generativa. A verdadeira questão é se a IA generativa ajuda essas empresas a ganharem dinheiro por conta própria. Os céticos apontam que o alto custo de criar e executar software de IA generativa é um obstáculo potencial. Isso nega a vantagem tradicional da tecnologia digital: seus baixos custos marginais. Iniciar uma livraria online funcionou para a Amazon porque era mais barato do que seguir o caminho físico, como Jim Covello, chefe de pesquisa de ações globais da Goldman Sachs, observou em um relatório de junho de 2024. A IA generativa, em contraste, não é barata — o que significa que “as aplicações de IA devem resolver problemas extremamente complexos e importantes para que as empresas obtenham um retorno adequado sobre o investimento”. Covello, por exemplo, duvida que elas o farão.

No entanto, as empresas, como as pessoas, não são totalmente racionais. Quando uma empresa decide adotar uma nova tecnologia, raramente o faz com base apenas em considerações econômicas. “Tais decisões estão quase sempre fundamentadas em pressentimentos, fé, ego, deleite e acordos”, observa o historiador David Noble. Olhando para as fábricas americanas após a Segunda Guerra Mundial, Noble identificou várias razões para sua mudança para a tecnologia de “controle numérico”: uma “fascinação pela automação”, uma devoção à ideia de progresso tecnológico, um desejo de estar associado ao prestígio da vanguarda e um “medo de ficar para trás da concorrência”, entre outros.

Noble, no entanto, dá ênfase especial a uma motivação que está pelo menos parcialmente enraizada na racionalidade econômica: a disciplina do trabalho. Ao mecanizar o processo de produção, os gestores poderiam dominar mais plenamente os trabalhadores dentro dele. O filósofo Matteo Pasquinelli tem uma visão semelhante em seu recente livro The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence (O Olho do Mestre: Uma História Social da Inteligência Artificial). Na introdução, Pasquinelli, professor da Universidade Ca’ Foscari de Veneza, explica que não oferecerá uma “história linear de conquistas matemáticas”. Em vez disso, ele quer fornecer uma “genealogia social” que trata a IA não apenas como uma busca tecnológica, mas “como uma visão de mundo”. O ponto central dessa visão é a automação — e dominação — do trabalho. A IA contemporânea é melhor entendida, ele acredita, como o mais recente em uma longa linha de esforços para aumentar o poder do patrão.


Em A Riqueza das Nações, Adam Smith argumentou, de forma célebre, que a fabricação de alfinetes poderia se tornar mais eficiente por meio da divisão do trabalho. Em vez de um único fabricante de alfinetes fazer tudo, o trabalho poderia ser dividido em várias tarefas distintas e distribuído, de modo a produzir os alfinetes mais rapidamente.

Um importante popularizador desse princípio foi Charles Babbage, uma figura central no livro de Pasquinelli. Originalmente um matemático, Babbage tornou-se o que hoje chamaríamos de “formador de pensamentos” entre a burguesia britânica do século XIX. Hoje ele é mais conhecido como um dos inventores do computador. Seu trabalho sobre computação começou com a observação de que a divisão do trabalho poderia ser “aplicada com igual sucesso a operações mentais e mecânicas”, como ele afirmou em um influente tratado de 1832. Babbage acreditava que o mesmo método de gestão industrial que então remodelava o trabalhador britânico poderia ser transportado para fora da fábrica e aplicado a um tipo de trabalho muito diferente: o cálculo matemático.

Ele se inspirou em Gaspard de Prony, um matemático francês que criou um esquema para agilizar a criação de tabelas logarítmicas reduzindo a maior parte do trabalho a uma série de adições e subtrações simples. No arranjo de Prony, um punhado de especialistas e gerentes planejava o trabalho e fazia os cálculos mais difíceis, enquanto um exército de calculadores subalternos fazia muita aritmética básica.

Se os pobres serviçais na base desta pirâmide eram basicamente autômatos, por que não automatizá-los? Na fábrica, a divisão do trabalho andava de mãos dadas com a automação. Na verdade, de acordo com Babbage, foi precisamente a simplificação do processo de trabalho que tornou possível introduzir maquinário. “Quando cada processo foi reduzido ao uso de alguma ferramenta simples”, escreveu ele, “a união de todas essas ferramentas, acionadas por uma única força motriz, constitui uma máquina”.

Em 1819, ele começou a projetar o que chamou de Máquina Diferencial, que automatizava o trabalho aritmético com três cilindros rotativos e era movida a vapor. A ambição de Babbage era enorme. Ele queria “estabelecer o negócio do cálculo em escala industrial”, escreve Pasquinelli, aproveitando a mesma fonte de energia que estava revolucionando a indústria britânica. A produção em massa de tabelas logarítmicas livres de erro também seria um negócio lucrativo, porque tais tabelas permitiam que as formidáveis frotas mercantes e militares do Reino Unido determinassem sua posição no mar. O governo britânico, reconhecendo o valor econômico e geopolítico do empreendimento de Babbage, forneceu financiamento.

O investimento falhou. Babbage conseguiu construir um pequeno protótipo, mas o projeto completo mostrou-se muito complicado de implementar. Em 1842, o governo retirou seu apoio, momento em que Babbage já começara a sonhar com uma máquina ainda menos construível: a Máquina Analítica. Projetada com a ajuda da matemática Ada Lovelace, esse mecanismo extraordinário teria sido o primeiro computador de uso geral, capaz de ser programado para realizar qualquer cálculo. Assim, em meio à fumaça e ao fuligem da Inglaterra vitoriana, nasceu a ideia de software.


A divisão do trabalho nunca foi apenas sobre eficiência; também era sobre controle. Ao fragmentar a produção artesanal— imagine um sapateiro fazendo um par de sapatos — em um conjunto de rotinas modulares, a divisão do trabalho eliminou a autonomia do artesão. Agora a gestão reunia os trabalhadores sob um mesmo teto, o que significava que podiam ser mandados e vigiados enquanto trabalhavam.

Pasquinelli acredita que as máquinas de Babbage, originadas como se originaram em um “projeto para mecanizar a divisão do trabalho mental”, eram movidas pelos mesmos imperativos gerenciais. Elas eram, escreve ele, “uma implementação do olhar analítico do mestre da fábrica”, uma espécie de representação mecânica do patrão vigilante e despótico. Pasquinelli chega a chamá-las de ‘primas’ do notório panóptico de Jeremy Bentham.

Mas esses imperativos presumivelmente permaneceram latentes, uma vez que os aparelhos nunca funcionaram como projetado. Babbage tentou usar engrenagens mecânicas para representar números decimais, o que significou que ele lutou com o problema de como automatizar o “vai-um” — o processo pelo qual uma coluna reinicia para zero e a próxima coluna aumenta em um— quando um dígito atinge 10. Seriam necessárias as simplificações do sistema binário, a invenção da eletrônica e os muitos avanços financiados pelos amplos orçamentos militares da Segunda Guerra Mundial para tornar a computação automática finalmente viável na década de 1940.

Naquela época, o capitalismo havia se internacionalizado, o que tornou a questão de gerenciar os trabalhadores mais complicada. “Quanto mais a divisão do trabalho se estendia para um mundo globalizado”, escreve Pasquinelli, “mais problemática se tornava sua gestão”, já que “a ‘inteligência’ do mestre da fábrica não podia mais inspecionar todo o processo de produção com um único olhar”. Assim, ele argumenta, surgiu a necessidade de “infraestruturas de comunicação” que “pudessem alcançar esse papel de supervisão e quantificação”.

O computador moderno, nas décadas seguintes à sua chegada nos anos 1940, ajudou a satisfazer essa necessidade. Os computadores estenderam o “olho do mestre” através do espaço, argumenta Pasquinelli, permitindo que os capitalistas coordenassem a logística cada vez mais incômoda da produção industrial. Se Babbage tivesse desejado construir uma prótese para projetar o poder gerencial, como sugere Pasquinelli, então o triunfo da computação no século XX, como instrumento indispensável da globalização capitalista, deve ser entendido como a realização do espírito fundador da tecnologia.

Além disso, esse espírito parece ter se intensificado à medida que os computadores continuaram a evoluir. “Desde o final do século XX”, escreve Pasquinelli,

a gestão do trabalho transformou toda a sociedade em uma “fábrica digital” e assumiu a forma do software dos mecanismos de busca, mapas online, aplicativos de mensagens, redes sociais, plataformas de gig economy, serviços de mobilidade e, em última análise, algoritmos.

A IA generativa, conclui ele, está acelerando essa transformação.


Não há dúvida de que os computadores são frequentemente usados em benefício dos empregadores, desde o software de escalas que reduz os custos trabalhistas sobrecarregando funcionários de varejo e restaurantes com horários imprevisíveis até as várias espécies de “software de patrão” que permitem a vigilância e supervisão remota de funcionários de escritório, motoristas da Uber e caminhoneiros de longa distância. Mas argumentar que tais usos são a razão de ser da tecnologia digital, como Pasquinelli parece fazer, é exagerar o caso.

A disciplina do trabalho é um uso ao qual os computadores podem ser aplicados; há muitos outros. E isso não foi central para o desenvolvimento da tecnologia: as inovações centrais da computação surgiram em resposta a prerrogativas militares, não econômicas. Os desejos de decifrar a criptografia inimiga, calcular os ângulos corretos para mirar a artilharia e realizar a matemática necessária para fazer a bomba de hidrogênio foram algumas das motivações para construir computadores nos anos 1940. O governo dos EUA se apaixonou pela tecnologia e gastou milhões em pesquisa e aquisição nas décadas subsequentes. Os computadores provariam ser integrantes de uma variedade de empreendimentos imperiais, desde montar mísseis intercontinentais capazes de (precisamente) incinerar milhões de soviéticos até armazenar e analisar interceptações provenientes de estações de escuta em todo o mundo. As corporações americanas seguiram atrás, adaptando as engenhocas de segurança criadas pelo Estado para vários fins comerciais.

Ainda assim, se as alegações de Pasquinelli nem sempre convencem, há muito a aprender com o material que ele apresenta. As editoras inundaram os leitores com livros sobre IA nos últimos anos — o suficiente para encher uma pequena livraria. A maioria parecem ainda cruas. The Eye of the Master está, se é que podemos dizer, ‘cozido demais’: há uma quantidade enorme de pensamento comprimida em suas páginas. O intelecto onívoro de Pasquinelli frequentemente hipnotiza. Ainda assim, às vezes eu me pegava desejando que ele desacelerasse, estruturando suas provocações com mais evidências.


O fato de Babbage ter se inspirado no manual da gestão industrial ao projetar seus protocomputadores é um episódio histórico interessante. Mas sua relevância para desenvolvimentos posteriores, ou mesmo apenas sua ressonância com eles, só pode ser determinada ao se observar de perto como os computadores realmente transformaram o trabalho nos séculos XX e XXI, o que Pasquinelli não faz. Em vez disso, ele dá uma guinada brusca no meio do livro, passando da Grã-Bretanha industrial do século XIX para os primeiros pesquisadores da América do século XX, concentrando-se em particular na escola ‘conexista’ do campo.

O conexionismo, como observa Pasquinelli, divergiu de formas significativas da computação automática de Babbage. Para Babbage, a alma do computador era o algoritmo, um procedimento passo a passo que tradicionalmente compõe o ingrediente principal de um programa de computador. Quando Alan Turing, John von Neumann e outros criaram o computador moderno no século XX, o que criaram foi um dispositivo para executar algoritmos. O programador escreve um conjunto de regras para transformar uma entrada em uma saída, e o computador obedece.

Esse ethos também orientou o ‘simbolismo’, a filosofia que passou a dominar a primeira geração de pesquisas. Seus adeptos acreditavam que, programando um computador para seguir uma série de regras, poderiam transformar uma máquina em uma mente. Esse método tinha seus limites. Formalizar uma atividade como uma sequência lógica funciona bem se a atividade for relativamente simples. No entanto, à medida que se torna mais complexa, instruções codificadas rigidamente se tornam menos úteis. Eu poderia fornecer um conjunto exato de instruções para ir da minha casa à sua, mas não poderia usar a mesma técnica para explicar como dirigir.

Uma abordagem alternativa emergiu da cibernética, um movimento intelectual do pós-guerra com interesses extremamente ecléticos. Entre eles estava a aspiração de criar autômatos com a adaptabilidade dos seres vivos. “Em vez de imitar as regras do raciocínio humano”, escreve Pasquinelli, os cibernéticos “visavam imitar as regras pelas quais os organismos se organizam e se adaptam ao ambiente”. Esses esforços levaram à invenção da rede neural artificial, uma arquitetura de processamento de dados vagamente modelada no cérebro. Ao usar essas redes para perceber padrões nos dados, os computadores podem treinar-se em uma tarefa específica. Uma rede neural aprende a fazer coisas não simplificando um processo em um procedimento, mas observando um processo — de novo e de novo e de novo — e extraindo relações estatísticas entre os muitos exemplos.

Um dos progenitores do conexionismo foi Friedrich Hayek, o assunto do capítulo mais intrigante de Pasquinelli. Hayek é mais conhecido como um dos principais teóricos do neoliberalismo, mas quando jovem desenvolveu um interesse pelo cérebro enquanto trabalhava no laboratório de Zurique do famoso neuropatologista Constantin von Monakow. Para Hayek, a mente era como um mercado: ele via ambos como entidades auto-organizadoras das quais uma ordem espontânea surge através da interação descentralizada de seus componentes. Essas ideias ajudariam a influenciar o desenvolvimento de redes neurais artificiais, que de fato funcionam muito como a mente de mercado da imaginação hayekiana. Quando um psicólogo chamado Frank Rosenblatt implementou a primeira rede neural com o apoio de uma bolsa da Marinha em 1957, ele reconheceu sua dívida para com Hayek.

Mas Hayek também divergiu dos cibernéticos em aspectos importantes. A cibernética, como o filósofo Norbert Wiener a definiu em seu livro homônimo de 1948, envolvia o estudo científico do “controle e comunicação no animal e na máquina”. O termo, cunhado por Wiener, foi derivado da palavra grega antiga para o timoneiro de um navio, que compartilha a mesma raiz que a palavra para governo. Os cibernéticos queriam criar sistemas tecnológicos que pudessem se governar — uma perspectiva que agradava ao Pentágono, que procurava maneiras de obter uma vantagem militar na Guerra Fria. A Marinha financiou Rosenblatt na esperança de que sua rede neural pudesse auxiliar na “automação da classificação de alvos”, explica Pasquinelli, usando seus poderes de reconhecimento de padrões para detectar embarcações inimigas.

Para Hayek, em contraste, o conexionismo oferecia uma maneira de pensar sobre um sistema que escapava ao controle. Ele tinha um tipo especial de controle em mente: o planejamento econômico. Em sua visão, a complexidade semelhante à do cérebro e a arquitetura distribuída do mercado significavam que o socialismo nunca poderia funcionar. Daí a necessidade de políticas neoliberais que, nas palavras do historiador Quinn Slobodian, “encapsulariam a economia incognoscível”, protegendo-a da interferência do governo. No entanto, Hayek e os outros conexionistas estavam muito no mesmo time. Rosenblatt e seus colegas conseguiram garantir financiamento para sua pesquisa porque o governo dos EUA acreditava que suas ideias poderiam ajudar a derrotar exércitos socialistas. Hayek estava no negócio de derrotar ideias socialistas.


A princípio, o conexismo não conseguiu cumprir sua promessa. No início da década de 1970, havia caído em desuso no mundo. Ainda assim, redes neurais continuaram a se desenvolver silenciosamente nas décadas seguintes, alcançando alguns avanços importantes nos anos 1980 e 1990. Então, na década de 2010, ocorreu o salto quântico do conexismo.

Treinar uma rede neural, como Rosenblatt certa vez observou, requer “exposição a uma grande amostra de estímulos”. O tamanho importa: como as redes neurais aprendem estudando dados, o quanto podem aprender depende, em parte, da quantidade de dados disponíveis. Durante grande parte da história da computação, os dados eram caros de armazenar e difíceis de transmitir. Na segunda década do século XXI, ambas as barreiras haviam desaparecido. A queda vertiginosa nos custos de armazenamento, combinada com o nascimento e crescimento da Web, significava que uma montanha de palavras, fotos e vídeos estava acessível a qualquer pessoa com conexão à Internet. Pesquisadores usaram essas informações para treinar redes neurais. A abundância de dados de treinamento, junto a novas técnicas e hardware mais potente, levou a avanços rápidos em áreas como processamento de linguagem natural e visão computacional. Hoje, baseado em redes neurais, está em toda parte, atuando em tudo, desde a Siri até carros autônomos e algoritmos que selecionam o conteúdo das redes sociais.

As redes neurais também sustentam sistemas generativos como o ChatGPT. Tais sistemas são particularmente grandes — significando que são compostos por muitas camadas de redes neurais — e seu apetite por dados é imenso. A razão pela qual o ChatGPT soa tão realista e parece saber tantas coisas sobre o mundo é que o “modelo de linguagem grande” dentro dele foi treinado em terabytes de texto extraídos da Internet, incluindo milhões de sites, artigos da Wikipedia e livros completos. Isto é o que Pasquinelli quer dizer quando escreve que as redes neurais da IA contemporânea são “não um modelo do cérebro biológico, mas da mente coletiva”, um empreendimento social ao qual muitas pessoas contribuíram.

Nem todos estão satisfeitos com este fato. A voracidade da IA generativa é responsável pelo que o apresentador de podcast Michael Barbaro chama de seu “pecado original”: material com direitos autorais está entre a informação ingerida. O New York Times processou a OpenAI por violação de direitos autorais; assim como a Authors Guild, ao lado de Jonathan Franzen, George Saunders e vários outros escritores. Embora a OpenAI e os outros principais “criadores de modelo” não divulguem os detalhes de seus dados de treinamento, a OpenAI admitiu que obras protegidas por direitos autorais estão incluídas — mas mantém que isso se enquadra no uso justo (fair use). Enquanto isso, a demanda por dados de treinamento continua crescendo, compelindo as empresas de tecnologia a encontrar novas maneiras de obtê-los. OpenAI, Meta e outras firmaram acordos de licenciamento com editoras como Reuters, Axel Springer e Associated Press, e estão explorando arranjos semelhantes com estúdios de Hollywood.

Para Pasquinelli, há uma lição aqui. A dependência do contemporâneo de nossas contribuições agregadas prova que a inteligência é um “processo social por constituição”. Ela é comunitária, emergente, difusa — e, portanto, combina perfeitamente com o paradigma conexista. “Não é surpresa que a técnica mais bem-sucedida, ou seja, as redes neurais artificiais, seja aquela que melhor consegue espelhar e, portanto, capturar a cooperação social”, escreve ele.

Há uma coloração marxista neste argumento: a inteligência reside na criatividade das massas. Mas também é um argumento que poderia ter sido feito pelo profundamente anti-marxista Hayek. O velho austríaco ficaria gratificado em saber que o “intelecto” do software mais sofisticado da história é originado das atividades não planejadas de uma multidão. Ele teria se divertido ainda mais com o fato de que tal software é, assim como seu amado mercado, fundamentalmente incognoscível.

A estranheza no cerne do boom generativo é que ninguém realmente sabe como a tecnologia funciona. Sabemos como os grandes modelos de linguagem dentro do ChatGPT e seus equivalentes são treinados, mesmo que nem sempre saibamos em quais dados eles estão sendo treinados: pede-se a eles que prevejam a próxima sequência de caracteres em uma sequência. Mas exatamente como eles chegam a qualquer previsão específica é um mistério. Os cálculos que ocorrem dentro do modelo são simplesmente muito intrincados para qualquer humano compreender. Você não pode simplesmente abrir o capô e observar as engrenagens se movendo.

Na ausência de observação direta, resta um método mais oblíquo: a interpretação. Todo um campo técnico surgiu em torno da “interpretabilidade” ou “explicabilidade”, com o objetivo de decifrar como tais sistemas funcionam. Seus praticantes na academia e na indústria falam em termos cientificistas, mas seu esforço tem uma qualidade devocional, não diferente da exegese de textos sagrados ou das entranhas de ovelhas recém-sacrificadas.

Há um limite para quanto significado pode ser produzido. Os mortais devem contentar-se com verdades parciais. Se os “monopólios de IA” de hoje representam “o novo ‘olho do mestre’”, como Pasquinelli acredita, é um olho com um campo de visão limitado. As fábricas dos dias de Babbage eram zonas de visibilidade: ao concentrar o trabalho e os trabalhadores, elas colocavam o processo de trabalho plenamente à vista. A IA contemporânea é o oposto. Seu invólucro é teimosamente opaco. Nem mesmo o mestre pode ver dentro.

Ben Tarnoff

O livro mais recente de Ben Tarnoff é "Internet para o Povo: A Luta pelo Nosso Futuro Digital". Ele trabalha na indústria de tecnologia. (Março de 2025)

8 de novembro de 2024

O retorno de Trump — I

Sobre perdedores, medo, a Suprema Corte, o fim da era FDR, tempos antissistêmicos e palavras sem consequências.

Ben Tarnoff, Zephyr Teachout, Bill McKibben, Michael Hofmann, Linda Greenhouse, e Garry Wills


Ilustração de José Guadalupe Posada

Estas são as primeiras a sextas inscrições de um simpósio sobre a reeleição de Donald Trump.

*

Ben Tarnoff

Donald Trump passou quase uma década desconcertando pessoas que são pagas para pensar sobre política. Seu apelo tem sido consistentemente subestimado. Também tem sido, da mesma forma consistente, excessivamente complicado. A substância de seu estilo é simples: uma hostilidade alegre em relação às instituições que tradicionalmente organizaram a vida americana. Ele se posiciona não apenas como um outsider, mas como um destruidor: alguém que se deleita na demolição de normas e normalidade. "Isso não é normal" foi um slogan de protesto de seu primeiro mandato; para Trump e seus admiradores, esse é exatamente o ponto.

Sua desordem é parte do que o torna tão divertido. Ele é o heel consumado, um artista que deve muito aos amados anti-heróis da luta livre profissional. Mas por baixo da palhaçada há algo mortalmente sério. Um grande número de americanos passou a acreditar que seu corpo político está gravemente doente. Em Trump, eles encontraram um homem cruel o suficiente para infligir o remédio.

Os democratas há muito entendem esse aspecto do trumpismo. A resposta deles tem sido se unir em defesa das instituições. O Partido Democrata moderno é, acima de tudo, o guardião das normas e da normalidade. Isso não significa que seja totalmente incapaz de criatividade: o progressismo doméstico do governo Biden facilmente excedeu o de qualquer presidência desde Lyndon Johnson. Mas essa agenda estava inserida em um projeto restauracionista. A aspiração da Bidenomics era legitimar a governança americana. Algumas coisas seriam mudadas para que outras permanecessem as mesmas.

Há fatores materiais em ação aqui. A base democrata é cada vez mais povoada por profissionais afluentes, e eles tendem a ser institucionalistas. Para eles, os pilares básicos da economia política de seu país valem a pena serem protegidos. No entanto, a coalizão também inclui muitos eleitores da classe trabalhadora que são menos otimistas sobre o status quo e cuja lealdade deve ser garantida por meio de reformas progressivas. Daí a compleição política do partido no momento: meliorista, às vezes até ambiciosa, mas nunca antissistêmica.

O inconveniente é que vivemos em tempos antissistêmicos. Trump intuiu isso, e agora ele usou isso para se instalar na Casa Branca duas vezes. Cada eleição é diferente, é claro, e pesquisas de boca de urna mostram que a raiva sobre a inflação foi o maior fator na vitória recente de Trump. O que animou essa raiva não foi apenas a luta para pagar mantimentos e outras necessidades, no entanto, mas o espetáculo de políticos democratas e especialistas afiliados dizendo às pessoas que, ao contrário da evidência de sua própria experiência, a economia estava em excelente saúde.

Este é precisamente o tipo de dissonância que gera a crise de legitimidade na qual o trumpismo prospera. Gaza pode ter sido uma questão de campanha menos decisiva, mas oferece um exemplo mais extremo da mesma dinâmica. O governo Biden gosta de falar sobre algo chamado de "ordem internacional baseada em regras", mesmo que forneça a Israel tudo o que ele precisa para massacrar genocidamente o povo palestino. Um dos temas favoritos de Trump é a falsidade e a depravação moral da classe dominante. Nos campos de extermínio de Gaza, dificilmente se encontraria uma prova mais clara.

Trump não vai melhorar a vida dos palestinos, nem da maioria dos americanos. Nem vai transfigurar completamente as estruturas do governo. Ele é, na prática, seletivo em seu anti-institucionalismo: ele pode dedicar seu próximo mandato a desmantelar o estado administrativo, mas instituições antidemocráticas como o Colégio Eleitoral, o Senado e a Suprema Corte servem a ele e seus aliados muito bem.

Para aqueles que se opõem a ele, a tarefa dos próximos quatro anos — e de fato das próximas décadas — é pensar não em termos de restauração, mas de transformação. O trumpismo não pode ser derrotado por meio de apelos morais, um retorno ao normal ou qualquer combinação de políticas e mensagens. É um fenômeno civilizacional, que extrai sua energia de uma atmosfera de emergência civilizacional, da mesma forma que o fascismo clássico, seu análogo histórico mais próximo, fez no século anterior. Um império em declínio é um animal perigoso.

Para atender às exigências da era, é preciso imaginar e promulgar um tipo diferente de país, com um tipo diferente de relacionamento com o resto do mundo. Há precedentes para consultar — a Reconstrução, a Frente Popular e o movimento pelos direitos civis vêm à mente — mas a criação de uma sociedade livre é, antes de tudo, um ato de imaginação, uma questão de descobrir que novas formas podem ser feitas a partir dos materiais disponíveis e, então, ser tolo o suficiente para depositar fé nelas.

Zephyr Teachout

Alguns anos atrás, eu era um membro de um think tank em Washington, D.C. O subgrupo antimonopólio do qual eu fazia parte divulgou uma breve declaração aplaudindo a União Europeia por tomar medidas para impedir o Google de dar preferência aos seus próprios produtos em seu mecanismo de busca. As oito pessoas que trabalhavam no grupo foram prontamente demitidas ou dispensadas. Eu era professor de direito, então perder uma bolsa não foi um grande acontecimento para mim. Mas foi para os outros, uma das quais estava grávida. Como o The New York Times relatou durante a ruptura, o chefe do grupo alegou que Eric Schmidt do Google — que também presidia o conselho do think tank — influenciou a decisão. (Os representantes da empresa negaram tal coisa.) A mensagem para outras organizações sem fins lucrativos foi clara.

Mais tarde, conversei com uma amiga sobre fazer um vídeo sobre isso. "Eu faria", ela disse. "Mas minha irmã [uma freelancer] tem algumas bolsas com o Google, então..." "Está tudo bem", eu disse, "tudo bem".

Ela estava sendo covarde ou leal à família? É difícil dizer. O poder tem uma maneira de restringir os assuntos que estamos dispostos a discutir abertamente. Os fazendeiros com quem converso dizem que não ousam falar contra os distribuidores, mesmo que não haja provas claras de que a punição virá: basta que isso aconteça. À medida que as Big Tech e Wall Street gradualmente colocam seu punho enluvado sobre as organizações progressistas sem fins lucrativos e campanhas cívicas, as possibilidades políticas se estreitam. E então veio Musk, que não se preocupou em colocar seu punho em uma luva, simplesmente entregando sua plataforma para servir à campanha de um presidente.

Muitas das políticas de Trump são cruéis; muitas de suas operações são corruptas. Mas, para mim, o mais assustador sobre sua ascensão é que ele está disposto a assumir o poder latente e torná-lo flagrante, para punir alegremente aqueles que falam contra ele. Quando ele disse que colocaria Mark Zuckerberg na cadeia se ele desafiasse seu poder, os outros titãs da tecnologia perceberam. Eles estão acostumados a rastejar com o governo chinês; não demorou muito para que os CEOs do Google, Apple e Amazon — e Mark Zuckerberg — ligassem para Trump e o bajulassem, nem para Jeff Bezos anular a página editorial do The Washington Post e insistisse que o jornal não apoiasse Harris.

Há muitas perguntas grandes e difíceis a serem feitas sobre a reconstrução do Partido Democrata das cinzas desta eleição. Como vamos parar o massacre, bloquear as expulsões ameaçadas de imigrantes, proteger um resquício da política climática, manter as lutas fiscais? Mas nos primeiros dias faríamos bem em fortalecer nossa coragem e apoiar aqueles que são destacados, mesmo que os desprezemos. Devemos, como Martin Luther King Jr. ensinou na carta da prisão de Birmingham, "nos autopurificar", não no sentido de pensar muito bem de nós mesmos ou nos recusar a nos envolver com aqueles com quem discordamos, mas praticando as disciplinas necessárias que nos prepararão para falar quando formos testados.

Bill McKibben

Acho que finalmente chegamos ao fim da era FDR. A Depressão e a Segunda Guerra Mundial foram choques tão enormes e abrangentes que produziram uma nova política que tinha a ver com solidariedade — a América como um projeto de grupo. Isso foi muito desgastado pelo Reaganismo, com seu ethos de cada um por si, mas sobreviveu de alguma forma até ontem. Biden, na verdade, foi um retrocesso a LBJ, completo com uma política nacional de manufatura. Mas esse mundo acabou, substituído por um que ninguém entende completamente — um mundo em que algum amálgama de Joe Rogan e TikTok define atitudes políticas. É mais um vácuo.

O que significa que será substituído eventualmente. Meu candidato para o choque exógeno na escala da Depressão e da Segunda Guerra Mundial é a mudança climática e a transição energética. Acho que a necessidade e a oportunidade de converter as economias do mundo para energia renovável barata produzirão algum tipo de política diferente: mais local e menos plutocrática, se tivermos sorte. Mas tenho dúvidas se isso acontecerá rápido o suficiente para evitar um desastre climático em uma escala quase inimaginável.

Ilustração de José Guadalupe Posada

Michael Hofmann

Sinto que estamos circulando pelo ralo há meses e agora estamos sendo jogados no ralo. Olá, escuridão, minha velha amiga. Estou enjoada e com dificuldade para respirar. Se eu olhasse no espelho — o que faço com frequência ultimamente, puramente em função da descrença, porque sinto que não existo mais — imagino que veria Ford Madox Ford, um bigode de coador de sopa e a aparência de um ovo cozido na boca, mas na verdade apenas um suspiro porque "mostarda gaseificada sem voz a cerca de sete milhas atrás das linhas em Nancy ou Belleau Wood". Como disse o poeta. Preserve minhas palavras, preserve minhas palavras. A libertinagem e a maldade disso. Sinto muito pelo resto do mundo por ter algo tão rançoso, mimado e aparentemente irresistível como a América nele. Quem já pensou que o sufrágio masculino era uma boa ideia? Entre, a água está fervendo neste estado avermelhado e cada vez mais vermelho e avermelhado. Não tem muita carne nessas pernas de caranguejo da neve, mas você vai aproveitar o corte de impostos. Ou é a vértebra do último sindicalista sobrevivente? Diz na nossa nova constituição que temos permissão para caçar e pescar. Bem, aleluia. E gasolina a US$ 2 é um direito de nascença em perpetuidade. Se ao menos fosse um lugar pequeno e fora do caminho. Faça Armórica Grande Novamente. Faça Armórica Grande Novamente. Faça Armórica Grande Novamente. Mas não, esta é aquela cidade brilhante, e aquela última melhor esperança. Se foi, tudo se foi. Enfie um garfo nela. Só há dinheiro, mentiras descaradas e más intenções. A inversão de tudo no parquinho. Você é o fascista, você é o racista, você é quem está me ameaçando com violência. Não é consolo, mas este país não saberá o que o atingiu, e primeiro os eleitores desinformados com seus bonés vermelhos no lugar dos cérebros. Nenhum exagero é possível. Sinto nojo de espécie. Claro, impetuoso. Claro, poeta e frenesi fino e tudo mais. Claro, bobagens e histeria. Oligarcópole, aqui vamos nós. Sim, nós só vivemos nela. É sua, e eu não sei. Como não ver através de algo tão surrado, tão egoísta, tão aleatória e desdenhosamente jogado fora pelo cantor auto-adorador. Os oligarcas entram na arca dois a dois, como antigamente os animais. O T porque ele enfrenta os dois lados em todas as questões. Cara eu ganho, coroa você perde. Palavras sem consequências. Mas elas servem para uma marca. A minha na minha testa, por favor.

Linda Greenhouse

A eleição de Donald Trump coloca um novo fardo sobre uma Suprema Corte que já opera sob os holofotes públicos severos. Afinal, esta é uma Corte que, nos últimos meses, rejeitou uma contestação constitucional à elegibilidade de Trump para votar e lhe concedeu uma medida impressionante de imunidade contra processo criminal. No futuro, os juízes — incluindo, mas não se limitando aos três indicados por Trump — terão que garantir ao país que, para eles, ele é apenas mais um presidente, não tendo mais direito a deferência do que o presidente Biden, cujo programa de perdão de empréstimos estudantis e algumas de cujas iniciativas ambientais a maioria conservadora invalidou.

É verdade que a Corte também recebeu Trump com algum ceticismo durante seu primeiro mandato, bloqueando seu esforço para acabar com o escudo do programa DACA para jovens imigrantes indocumentados e impedindo seu secretário de Comércio de adicionar uma questão de cidadania ao Censo de 2020. Mas essas decisões, por mais importantes que fossem, eram essencialmente processuais, motivadas pela falha da administração em seguir as regras comuns da prática da agência. As travessuras dentro do Departamento de Comércio que vieram à tona no caso do censo, por exemplo, teriam sido risíveis se a meta de supressão de votos da administração não tivesse sido tão alarmante.

A natureza amadora de muitos dos encontros do primeiro governo Trump com a Suprema Corte provavelmente será substituída por uma abordagem mais disciplinada e estratégica. E vale lembrar que, mesmo na última vez, Trump emergiu triunfante nas questões que mais importavam para ele — a proibição de viagens de muçulmanos e a extensão do muro da fronteira mexicana em uma área que o Congresso havia explicitamente proibido.

Dada a promessa do candidato Trump de deportar milhões de pessoas, livrar o serviço público de "inimigos" e eviscerar departamentos federais inteiros, a gama de casos que provavelmente chegarão à Suprema Corte em pouco tempo é estonteante. Embora sua retórica em constante mudança sobre questões reprodutivas tenha deixado seus planos específicos obscuros, estes, sem dúvida, incluirão limites no acesso ao aborto medicamentoso, inclusive em estados onde o aborto é legal. Mesmo que os democratas, tendo perdido o Senado, consigam assumir o controle estreito da Câmara, será inútil procurar alívio no Congresso. Guardrails, se houver, terão que vir do Tribunal. A necessidade será aguda.

Garry Wills

Qualquer um de nós que continuasse pronunciando errado um nome próprio, após repetidos treinamentos sobre a maneira correta, seria considerado estúpido. Mas Donald Trump continuou chamando seus adversários de Barack HUSSEIN Obama e Ka-MAH-la Harris como um sinal para seus seguidores de que essas criaturas, com nomes exóticos, não eram um de nós. Elas eram parte do ELES que NÓS devemos manter fora. O ELES que ele tinha em mente é um grupo grande e variado, já que o NÓS é um corpo tão seleto. Não há espaço para perdedores, para cativos ou cadáveres ou necessitados — nem mesmo para os corpos de homens que morreram defendendo seu país. Os cortesãos de Trump supostamente tiveram que assustar um navio de guerra para fora de sua vista porque ele tinha o nome de um homem que ele havia denunciado por ter sido um cativo.

Todos os forasteiros são perdedores. Eles não podem dizer "América primeiro" porque não são americanos de verdade. Qualquer um que precise de ajuda é um perdedor. Mulheres que saem de seus lugares são perdedoras — elas deveriam ficar para serem avós e cuidar dos filhos de outras mulheres que ficam em seus lugares. Especialistas e reguladores, confiando em diplomas e estudos sofisticados, que nos dizem como viver, são perdedores e fomentadores de perdedores (fora de seu "estado profundo"). Os doentes, os deficientes e seus cuidadores são perdedores, desperdiçando o tempo e o dinheiro dos vencedores. Os necessitados são perdedores. Os vencedores não precisam deles. Os amigos ditatoriais de Trump — Putin, Xi Jinping e Viktor Orbán — não usam o poder para ajudar os desamparados. É isso que os torna vencedores.

Bem, a eleição de Trump nos mostra quem vence. Ele colocou os perdedores em seus lugares. Como as mulheres, eles devem aprender a permanecer neles. Perdoe-me se não comemoro. Eu, como todos que conheço, sou um perdedor, no passado, no futuro ou agora. Atualmente, estou perdendo para a idade e preciso desses médicos especialistas com seus cuidados desperdiçadores. Eu sempre precisei de reguladores que mantivessem o veneno longe da minha comida, água e ar. O ELES que Trump está expulsando inclui todos os que precisam ou se importam com os necessitados. Isso é muito de nós, embora às vezes não reconheçamos nosso direito de estar no ELES que está sendo condenado. Não deveríamos apenas possuir esse direito e construir sobre ele, mas também ver que o compartilhamos com todos os perdedores que estão sendo ignorados pelos amigos ditadores de Trump, como os palestinos que estão sendo massacrados em Gaza com armas americanas. Nós, perdedores, temos muito a aprender. Mas estamos fazendo isso. Trump é nosso professor.

18 de junho de 2022

Esta é a internet que os socialistas querem

Perguntamos ao autor do Internet for People, Ben Tarnoff, por que o antitruste não é suficiente e se o lucro é a raiz de todos os problemas da Big Tech.

Ben Tarnoff

Entrevistado por Gilad Edelman

Wired

Ilustração: Wired/Getty Iamges

Tradução / A partir deste texto, espera-se que o Senado dos EUA vote em breve em um par de projetos de lei antitruste ambiciosos visando as plataformas dominantes da Internet. A União Europeia está finalizando sua própria série de novas regulações. Além disso, vários estados norte-americanos estão aprovando leis - umas melhores, outras piores - que buscam estabelecer limites para uma indústria de tecnologia amplamente vista como fora de controle.

Para Ben Tarnoff, essas propostas são terrivelmente inadequadas. Em seu próximo livro, Internet for the People (Internet para as pessoas), ele defende que os problemas da internet estão fundamentalmente ligados ao lucro; e que só uma virada para a propriedade pública poderá resolvê-los.

“Os reformadores da internet têm boas ideias, mas nunca chegam à raiz do problema”, escreve ele. “A raiz é simples: a distorção essencial da internet é seporque é um negócio.”

Tarnoff vê como boas promessas os exemplos bem-sucedidos de redes de banda larga de propriedade cooperativa e municipal espalhados pelo mundo. Mas o que significaria colocar a própria Web – os sites e aplicativos que usamos todos os dias – sob propriedade pública? Tarnoff conversou com a Wired para expor sua visão de uma internet socialista e como alcançá-la.

Esta entrevista foi condensada e levemente editada.

O argumento central do seu livro é que precisamos “desprivatizar” a internet. Subentende-se que ela já foi pública.

Ben Tarnoff

Os protocolos de internet, que são as regras que permitem que as redes da internet se comuniquem entre si, foram inventados na década de 1970 por pesquisadores da DARPA. Em seguida, o Pentágono usou esses protocolos para interconectar várias redes, a partir da década de 1980. Essa rede de redes passou então ao controle federal civil, sob a coordenação da National Science Foundation.

O ano crucial é 1995, quando a National Science Foundation concluiu a espinha dorsal da internet, uma artéria central até então chamada NSFNET, e o setor privado assumiu. É aí que começa o processo de privatização: no chamado “porão” da internet, com a estrutura de transmissão.

Cortesia de Verso Books

Há muitos lugares ao redor do mundo que têm internet muito mais rápida e mais barata do que nos EUA, e é fornecida pelo setor privado. O problema é a privatização ou a desregulamentação? A internet não foi apenas entregue ao setor privado nos EUA, foi entregue em condições muito favoráveis para as empresas.

Você está apontando para algo importante para as pessoas entenderem, que é que os EUA têm um mercado altamente concentrado para serviços de internet. Temos quatro empresas que controlam 76% das assinaturas de internet neste país. Como resultado, pagamos algumas das taxas mais caras do mundo por um serviço horrível. Quero dizer, pagamos preços médios mensais mais altos do que as pessoas na Europa ou na Ásia. Nossas velocidades médias de conexão são inferiores às da Romênia e da Tailândia.

Isso soa como um argumento para a fiscalização antitruste aumentar a concorrência, em vez de se livrar de todo o conceito de provedores de serviços de Internet com fins lucrativos.

Você levanta uma questão interessante: o objetivo é simplesmente melhorar a velocidade por um custo menor? Ou há algo mais? Pesquisas mostram que, se você trouxesse concorrência para o mercado altamente concentrado de serviços de internet nos Estados Unidos, certamente melhoraria as velocidades e reduziria o custo. Esse é um objetivo muito importante. Mas não é suficiente, por duas razões. Uma delas é que a concorrência tende a funcionar melhor para as pessoas pelas quais vale a pena competir, ou seja, a concorrência é melhor para reduzir os preços dos pacotes de banda larga mais sofisticados. Onde a concorrência não é tão eficaz é para levar conectividade a pessoas que realmente não podem pagar, ou que vivem em comunidades, principalmente comunidades rurais, nas quais não é lucrativo investir.

Aprofundando a explicação, em um sistema privado, as pessoas não têm a oportunidade de participar das decisões sobre como sua infraestrutura é implantada, desenvolvida, gerenciada e assim por diante. Por isso tenho muita fé nas redes comunitárias, porque como alternativas de propriedade pública e cooperativa elas têm a oportunidade de codificar e credenciar práticas que realmente dão aos usuários a possibilidade de opinar sobre como o serviço funciona.

Parece que você acredita que essas medidas antitruste e de concorrência são necessárias, mas não suficientes.

Sim, é isso o que eu acho. A tradição antimonopólio é, na verdade, bastante rica e diversificada. Considero as medidas antimonopólio bastante úteis para reduzir o poder dessas empresas, para diminuir sua pegada. E há muitas medidas específicas, como exigir interoperabilidade entre redes sociais e desmembrar as grandes empresas, que vejo como medidas intermediárias bastante úteis para se chegar a uma internet desprivatizada. Mas há um desacordo mais profundo que tenho com o pessoal da luta antimonopólio sobre a origem dos problemas básicos da internet e de qual é o horizonte final.

É difícil argumentar contra a ideia de um controle democrático sobre as redes que as pessoas usam e confiam, mas sou cético em relação a como isso realmente aconteceria na prática. Acho que a maioria das pessoas só quer que o serviço seja rápido e por um preço acessível. E há um argumento bastante forte de que a maneira mais direta de as pessoas realizarem esse desejo é podendo escolher entre as opções disponíveis em um mercado.

Acho que parte do que você está perguntando é: quais são as decisões que valem a pena de ser tomadas de uma forma mais democrática e deliberativa? Há uma série de problemas que surgem relacionados a onde e como se implantar a infraestrutura. Quando você está construindo a rede de banda larga na chegada aos usuários, por exemplo, ou mesmo o que é chamado de rede de banda larga mais estrutural, há muitas opções. Quais bairros serão atendidos? Quais tecnologias você vai usar? Você vai tentar incorporar uma rede inteligente, que pode melhorar a eficiência energética? Estas são questões que preocupam os membros da comunidade local, e estes são os tipos de questões que surgem, por exemplo, no cooperativas rurais em Dakota do Norte que tiveram muito sucesso na construção de suas redes de banda larga.

We've been talking so far about the bottom of the stack: the plumbing, the cables, and stuA conversa fica ainda mais interessante e complicada quando passamos para a camada dos aplicativos da internet, como Facebook ou Google. With the cables, the components of the network themselves are scarce. It's a physical thing, and you have to decide whose it is, and on what terms access will be allowed or prohibited. I struggled to apply that framework to the application layer. Você está falando literalmente em proibir aplicativos com fins lucrativos na Web ou existe alguma outra maneira de eliminá-los oferecendo alternativas sem fins lucrativos?

Não vejo a abolição imediata do lucro na internet como uma proposta particularmente realista. Tenho outras propostas sobre como podemos alimentar alternativas desprivatizadas e começar a desenvolver um setor desprivatizado.

Lendo seu livro, em muitos momentos eu pensei: “O que ele mostra é que precisamos melhorar a regulação”. Government could certainly subsidize the build-out of broadband to people in rural areas who are ignored by a competitive market. You write about Uber being so successful at working the political process because their business model depends on classifying workers as contractors. And there are other examples where it feels like what we need are better policies governing how these businesses operate, as opposed to killing the profit motive entirely.

Concordo que a regulamentação dessas empresas é essencial. Meu ponto é que, no final das contas, se queremos construir uma internet melhor, acho que precisamos transformar a forma como ela é gerida e organizada. Na minha opinião, deixar a internet nas mãos de empresas privadas, e deixar que ela seja organizada em torno do princípio da maximização do lucro, significa que há muito pouco que as políticas públicas possam fazer.

Mudar o modelo de propriedade não é apenas algo a ser feito por si só. É realmente um meio para um fim, e este fim é uma internet na qual as pessoas tenham a oportunidade de participar das decisões que mais as afetam.

O objetivo de uma internet mais participativa me lembra o movimento Web3, que em teoria é colocar plataformas de internet no blockchain e dar aos usuários mais propriedade sobre elas. Recentemente, fiz algumas reportagens sobre a Web3, e o pensamento que tive repetidas vezes foi: A maioria das pessoas não quer votar em propostas a respeito do desenvolvimento do protocolo que estão usando. Elas só querem que funcione. Eu sei que isso soa muito cínico. Mas como você vende a alguém uma web desprivatizada? Como o mundo dessas pessoas ficaria melhor?

Aqui, volto-me para experimentos na chamada comunidade Web descentralizada – em particular, projetos de mídia social descentralizados como Mastodon. Ele já existe há algum tempo. É um projeto de código aberto que permite que as pessoas criem suas próprias instâncias de mídia social e as conectem como federações. É interessante e promissor porque permite formar comunidades de mídia social nas quais decisões críticas de governança, como moderação de conteúdo, possam ser tomadas de forma democrática e nas quais uma cooperativa de usuários possa se reunir para determinar como sua comunidade de mídia social deve ser administrada.

Concordo que o exemplo do Mastodon é interessante, mas como você disse, já existe há algum tempo e não há muita demanda por ele. Acho que ter pluralismo e federação e controle distribuído em nível comunitário faz todo o sentido do mundo. E, no entanto, não é nessa direção que as pessoas gravitam.

É aqui que precisamos falar sobre investimento público. O Mastodon é um projeto de código aberto. Projetos de código aberto sempre enfrentam desafios em conseguir pessoas suficientes para contribuir e garantir que sejam mantidos adequadamente. Também é relativamente caro executar sua própria instância do Mastodon porque é muito intensivo computacionalmente. E então há uma série de perguntas, por exemplo: “o UX é bom o suficiente para atrair as pessoas do Facebook?” O Facebook tem muito mais dinheiro para usar nesse tipo de coisa. Não podemos dar escala a essas alternativas sem investimento público – e, devo dizer, sem movimentos sociais, porque o outro ponto do meu livro é que, se queremos transformar a internet, precisamos criar um movimento social capaz de exigir essa transformação.

Há um pouco do problema do ovo e da galinha aqui. Parece difícil, ao ponto da desesperança, tentar galvanizar um movimento social para conseguir algo que você não pode efetivamente descrever, porque não existe.

Você usa a expressão “do-ovo-e-da-galinha”, de que gosto, mas talvez eu prefira a expressão dialética neste caso. Ser capaz de apontar para experimentos pequenos, mas promissores, como o Mastodon ou como serviços de carona cujos proprietários são os trabalhadores. Eles dão às pessoas a sensação de que outra internet é possível e, por sua vez, amplia sua imaginação de como a internet pode ser. Esses podem ser pontos de partida importantes para o tipo de conversa que leva à organização dos movimentos sociais. Precisamos que essas alternativas existam ainda em miniatura no momento, mas também precisamos de movimentos sociais que possam ampliar e fortalecer essas alternativas para inspirar mais pessoas.

Parte do problema aqui é que ainda estamos trabalhando dentro de um paradigma inimigo. Meu horizonte final não é um Twitter cooperativo. Isso, para mim, é uma restrição da nossa imaginação em termos do que é possível. Faz sentido que seja por aí que comecemos porque temos que começar de algum lugar. Mas, em última análise, o que me anima é a possibilidade de reunir massas de pessoas, conectando-as com os recursos técnicos de que precisam para construir os espaços e estruturas online que podem servir às suas vidas cotidianas.

Falando em recursos técnicos: para dar um exemplo concreto, eu poderia imaginar algo como o Marketplace do Facebook numa versão em nível local como uma cooperativa ou serviço municipal. Se estou comprando um sofá usado, não preciso ver o que está à venda em Miami. Eu realmente só quero ver o que há em East Bay, onde moro. E ainda assim me ocorre que eu nunca poderia construir um Berkeley Marketplace que concorra com o Facebook. E eu não sei se eu poderia encontrar alguém para construí-lo para mim. Mas as pessoas que têm o treinamento técnico para fazer isso estão enriquecendo trabalhando para a Meta. Então, tudo bem reunir minha comunidade, mas alguém nela é expert em codificação?

Você está apontando para um problema real, que é a existência de severas restrições materiais para grupos de pessoas que desejam construir alternativas para as plataformas. É aqui que eu acho que as políticas públicas desempenham um papel muito importante. No livro, falo de uma experiência que o Partido Trabalhista realizou em Londres na década de 1980, quando criaram esses espaços chamados de redes de tecnologia. Eram edifícios nos quais as pessoas podiam entrar e se conectar com máquinas, um pouco como espaços hacker ou espaços maker. Hoje, eles podem se conectar com especialistas e formas de especialização, e podem construir tecnologias que tornam suas vidas melhores. Muitas tecnologias de eficiência energética saíram desses centros e os projetos para o que eles construíram foram para esse banco de dados compartilhado que qualquer outra pessoa poderia acessar. Isso, na minha opinião, é um modelo interessante de como podemos usar políticas públicas para conectar pessoas não técnicas com recursos técnicos para que possam realmente construir os tipos de ferramentas online que tornariam suas vidas melhores.

Apenas para estabelecer uma questão de base: Você acha que nada deve ser lucrativo? Seu argumento é que a internet não deve ter fins lucrativos, assim como nenhuma outra outra coisa? Ou você acha que há algo específico da internet?

A primeira opção. Este livro tem como escopo a internet, mas para responder à sua pergunta, eu sou um socialista. Eu quero ver uma sociedade pós-capitalista. Há dinâmicas na internet que requerem atenção especial, mas eu a vejo como parte de uma economia política mais ampla que precisa ser transformada.

Sobre o entrevistador

Gilad Edelman é redator sênior da WIRED, cobrindo a interseção de tecnologia, política e direito. Antes disso, foi editor executivo do Washington Monthly. Ele é formado pela Yale Law School.

6 de fevereiro de 2021

Trabalhadores de tecnologia em todos os níveis podem se organizar para construir poder

Os trabalhadores de tecnologia ocupam uma posição contraditória na estrutura de classes americana. Por um lado, muitos são bem pagos e se identificam tanto como profissionais quanto com a gestão. Por outro, os aspectos proletarizados de seu trabalho podem oferecer oportunidades a serem aproveitadas para se organizarem como trabalhadores.

Uma conversa entre
Aaron Petcoff e Ben Tarnoff

Jacobin

Tech workers are the strongest line of defense against the threat posed by the large tech employers. (Marvin Meyer / Unsplash)

Enquanto a pandemia de COVID-19 devastava a economia dos Estados Unidos, a indústria de tecnologia continuou sendo seu setor mais lucrativo. Ao mesmo tempo que as instituições governamentais respondiam desajeitadamente à crise, as empresas de tecnologia, grandes e pequenas, ofereciam conveniência aos consumidores e aos empregadores da mesma maneira. As empresas de tecnologia continuaram a ampliar seu alcance às nossas vidas no trabalho e em casa.

No entanto, há um fio de esperança se considerarmos o progresso contínuo que os trabalhadores de tecnologia fizeram ao longo do ano passado ao se organizarem para colocar em cheque os fundadores do Vale do Silício. O projeto de pesquisa Collective Action in Tech [Ação Coletiva em Tecnologia] documentou mais de cem ações em ambiente de trabalho somente em 2020, apesar da interrupção de uma pandemia global, juntamente com uma infinidade de desafios preexistentes.

O rápido crescimento desse movimento em alguns anos superou muito as expectativas, até mesmo dos organizadores e ativistas mais esperançosos. O desencanto com o princípio supostamente nobre de “não fazer o mal” alimentou protestos de alto nível contra a falência moral dos empregadores de tecnologia, que por sua vez deu lugar a um maior ceticismo e raiva em relação a uma cultura de trabalho frequentemente exploradora e discriminatória.

Em 2018, a greve global de mais de 20 mil funcionários do Google contra assédio sexual elevou as aspirações do movimento e demonstrou que a organização na indústria de tecnologia é possível. Também atraiu o olhar atento de grandes empregadores da indústria de tecnologia. No início de dezembro, o National Labor Relations Board (NLRB) [Conselho Nacional de Relaçõs Trabalhistas] entrou com uma queixa contra o Google, após determinar que a empresa espionava seus funcionários e retaliava aqueles que se organizavam.

Grande parte da organização que ocorreu na indústria de tecnologia ocorreu por meio de redes informais, fora do movimento sindical oficial. Mas o sucesso dos trabalhadores do Kickstarter e da start-up Glitch em garantir o reconhecimento sindical mostrou que os sindicatos têm um papel importante a desempenhar, tanto no fornecimento de uma base legal para a negociação coletiva, quanto no fornecimento de valiosos recursos de organização – mais notavelmente, a experiência prática. Mais recentemente, os empregados do Google formaram o Alphabet Workers Union (Sindicato dos Trabalhadores da Alphabet), uma associação para fortalecer ações coletivas dentro da empresa.

Embora a densidade sindical nos Estados Unidos em todos os setores seja extremamente baixa, a indústria de tecnologia tem um histórico de sucesso único em evitar sindicatos. Poucos trabalhadores nesta indústria têm qualquer experiência com o movimento trabalhista ou as habilidades básicas de organização do local de trabalho necessárias para construir o poder no chão de fábrica.

O que o movimento conquistou até aqui já marca uma virada significativa na história da indústria de tecnologia. Mas existem desafios significativos para sustentar e estender essas conquistas. Uma questão persistente tem sido como atrair para o movimento mais trabalhadores de “colarinho branco” da indústria, que muitas vezes recebem salários significativamente mais altos e desfrutam de muitas outras vantagens por possuir conhecimento técnico em áreas de alta demanda, enquanto elimina a divisão entre esses trabalhadores e aqueles em camadas menos favorecidas da indústria.

Relatamos abaixo um diálogo entre Aaron Petcoff, um trabalhador de tecnologia na cidade de Nova York, e Ben Tarnoff, também trabalhador de tecnologia e editor e fundador da revista Logic, onde eles exploram a história do movimento da classe trabalhadora da indústria de tecnologia até agora, pensando em seu futuro.

Aaron Petcoff

Me preparando para esta conversa sobre a estrutura das classes na indústria de tecnologia, me deparei com este trecho, que abre um breve relato da história do sindicalismo na engenharia, publicado em 1969:

Seriam os engenheiros especialistas que se identificam com a gestão e consideram o sindicalismo e a negociação coletiva desagradáveis ​​e prejudiciais à sua posição e imagem profissionais? Ou são funcionários que, independentemente da natureza de seu trabalho, compartilham problemas comuns que provavelmente só resolverão combinando sua força econômica? Essas questões elementares, juntamente com a relação dos engenheiros organizados com os técnicos e operários da produção e o uso da greve como arma, têm atormentado a organização dos engenheiros… desde que o movimento apareceu.

Me impressionou como isso expressava de perto o escopo de nossa discussão, apesar de ter sido publicado há mais de meio século. Também reforçou o fato de que, embora o movimento dos trabalhadores de tecnologia tenha apenas alguns anos, já existe uma história útil que podemos estudar para ajudar a fundamentar nosso trabalho atual.

Você e eu começamos a debater este assunto depois que você falou em uma reunião da Tech Workers Coalition sobre o artigo da revista Logic, “A Construção do Movimento dos Trabalhadores de Tecnologia“. Nele, você coloca muitas das mesmas questões levantadas no trecho acima. Para te ajudar a encontrar uma resposta no panfleto, você se baseia em alguns trabalhos anteriores de escritores como Barbara Ehrenreich, Erik Olin Wright e outros.

Vamos começar explorando por que essas questões específicas são tão urgentes e importantes na prática, e o que a história e a teoria política podem trazer para a mesa.

Ben Tarnoff

A passagem que você citou apresenta a seguinte questão: como se deve entender a posição social dos trabalhadores assalariados não manuais, aqueles que normalmente chamamos de “colarinho branco” ou “especialistas”? Nas sociedades capitalistas avançadas, esses trabalhadores constituem uma parcela significativa da força de trabalho. E eles realizam muitos tipos de trabalhos diferentes: incluem engenheiros de software, é claro, mas também professores, enfermeiras, advogados, jornalistas.

Qual é a experiência de classe deles? Como esses trabalhadores se classificam?

Esta pergunta é muito antiga. Os teóricos marxistas têm se debruçado sobre ela desde o final do século XIX, quando os trabalhadores de colarinho branco começaram a se proliferar, com a consolidação da corporação e o surgimento da administração moderna. Em termos gerais, os marxistas chegaram a duas conclusões diferentes.

A primeira é que esses trabalhadores podem ser absorvidos pelas categorias de classe marxistas já existentes. Assim, André Gorz descreve esta camada como “a nova classe trabalhadora”, enquanto Nicos Poulantzas fala sobre “a nova pequena burguesia”. A segunda é que esses trabalhadores representam uma nova categoria de classe – por exemplo, a “classe gerencial-profissional” de Bárbara e John Ehrenreich.

Ao estudar este debate, não é exatamente útil ver uma intervenção ou outra como “certa” ou “errada”. Elas derivam de conjunturas específicas e devem ser colocados dentro de seu contexto. A classe é um processo. As classes estão sendo continuamente refeitas e desfeitas ao longo do desenvolvimento capitalista. Os Ehrenreichs, Gorz, Poulantzas e outros teóricos estavam observando momentos particulares nesse processo. Podemos então explorar suas ideias em busca de insights que possam nos ajudar a dar sentido aos processos contemporâneos de formação de classes, mas temos que fazer a maior parte do trabalho nós mesmos, porque nosso momento é diferente do deles.

Agora, por que isso funciona? Por que isso importa? A razão pela qual os marxistas passaram mais de um século tentando teorizar o que podemos chamar de camadas médias é porque sempre houveram apostas estratégicas no debate. Existem escolhas políticas importantes que dependem da questão de como entender a relação entre aqueles que estão na classe média e a classe trabalhadora, e de que forma esta classe intermediária pode desempenhar um papel em um projeto socialista.

Eu diria que há duas razões principais para adotar essa linha de investigação agora. A primeira é que alguns membros das camadas médias têm se tornado cada vez mais militantes nos últimos anos. Professoras e enfermeiras abriram o caminho, embora muitos desses indivíduos sejam mais apropriadamente descritos como classe trabalhadora. Mas outros setores dessas camadas médias obtiveram vitórias significativas na organização, como trabalhadores de mídias digitais e estudantes de pós-graduação. E a indústria de tecnologia tem visto uma onda sem precedentes de mobilização de base.

A segunda razão é que um número surpreendente de membros mais jovens e mais frágeis das camadas médias se tornaram socialistas. Eles não são os únicos e tendem a ser super-representados nas reportagens da grande mídia sobre os novos movimentos de esquerda. Mas eles contribuíram para o renascimento das idéias radicais e o crescimento da organização socialista. Somados, esses dois movimentos sugerem que algo interessante está acontecendo com a dinâmica de classe dos trabalhadores que tradicionalmente foram considerados de colarinho branco ou especialistas.

Aaron Petcoff

Esta questão é especialmente relevante no contexto da indústria de tecnologia. A força de trabalho da indústria contém uma infinidade de ocupações que incluem bicos, estoquistas e terceirizados, bem como uma “camada intermediária” significativa de funcionários técnicos e de colarinho branco, não gerenciais, como engenheiros de software e designers. Obviamente, a estratificação entre essas ocupações afeta o crescente movimento do trabalho na indústria de tecnologia. A divisão não apenas prejudica a organização e o ímpeto político, mas também dificulta a identificação de interesses e queixas comuns.

Historicamente, os sindicatos consideram a indústria de tecnologia um terreno desafiador. Os empregadores sempre resistiram à sindicalização. Mas uma explicação de “senso comum” é que os trabalhadores não achavam que os sindicatos eram necessários. Um artigo recente do New York Times apresentou o desafio de que muitos trabalhadores de tecnologia “veem seus chefes como colegas amigáveis” e que “engenheiros altamente remunerados se veem como operadores independentes que têm bastante vantagem por conta própria”.

Esse insight é instrutivo, mas não oferece o quadro completo. A negociação independente tem pouco efeito sobre as condições gerais dos locais de trabalho. A exaustão é generalizada entre os trabalhadores de colarinho branco em tecnologia, por exemplo. Um estudo conduzido ano passado pelo Blind, um aplicativo de bate-papo que permite que os funcionários se comuniquem com seus colegas anonimamente, descobriu que quase 60% dos trabalhadores de tecnologia se sentiam “esgotados”. Também são comuns as preocupações com a discriminação na contratação e na progressão na carreira, bem como a capacidade de opinião limitada que os trabalhadores têm sobre o seu trabalho.

Os empregadores há muito lamentam a influência que um mercado de trabalho restrito dá aos engenheiros de colarinho branco e outros funcionários. Um porta-voz da indústria, escrevendo na década de 1960, chamou os programadores de “a Cosa Nostra” do campo da informática, cuja capacidade de usar a ameaça de desistir, a menos que certas condições fossem atendidas, representava uma ameaça existencial para o futuro da tecnologia. A literatura sobre negócios daquele momento ilustra o desespero dos empregadores para colocar ordem em uma força de trabalho “não cooperativa”, “teimosa” e “preguiçosa”. Uma resenha de um texto antigo da área de administração tranquilizou seus leitores de que “há uma vasta quantidade de evidências que indicam que a escrita – afinal, uma grande parte da programação é escrita, embora em uma linguagem especial para um público muito restrito – pode ser planejada, programada e controlada.”

Nas décadas seguintes, as práticas de gestão na indústria de tecnologia foram refinadas e alteradas. Conversei com um ex-supervisor meu há algum tempo, que descreveu como, nos anos 1990, “um único engenheiro de software poderia derrubar uma empresa se quisesse”. Isso não é mais verdade hoje.

Como você descreveu, isso começa a chegar em um processo onde as classes passam a se “refazer” e se transformar, e onde a pressão patronal de cima gera condições que tornam possíveis a militância e a organização, mesmo entre as ocupações localizadas “no meio”. Isso cria o potencial de unidade e solidariedade em uma força de trabalho totalmente dividida.

Ben Tarnoff

Você está chegando em um ponto que é importante enfatizar para as pessoas que não estão familiarizadas com a indústria de tecnologia: nem todo trabalhador de tecnologia de colarinho branco é um engenheiro de software sênior no Google. Existem muitas funções de escritório em empresas de tecnologia que não são bem pagas, especialmente aquelas que são avaliadas como menos técnicas. E existem muitas empresas de tecnologia com condições de trabalho difíceis, onde trabalhos “braçais” são comuns.

Além disso, um número crescente de trabalhadores de tecnologia de colarinho branco é terceizado, desde os moderadores de conteúdo e rotuladores de dados numa ponta até os designers de produto e desenvolvedores de software na outra. Esses trabalhadores normalmente ganham menos, recebem menos ou nenhum benefício e têm empregos precários.

Mesmo assim, não acho que seria correto caracterizar a maioria dos trabalhadores de tecnologia de colarinho branco como proletários. Existem aspectos proletários em sua experiência de classe – e esses aspectos variam amplamente em tipo e intensidade – mas as relações de produção vividas por um designer de produto da Amazon são consideravelmente diferentes daquelas de um trabalhador dos depósitos da Amazon.

É aqui que considero útil a teoria das localizações contraditórias de classes de Erik Olin Wright. Wright propôs que a condição de classe das camadas médias é uma mistura de elementos proletários e burgueses (ou pequeno-burgueses).

Considere um engenheiro de software em uma grande empresa de tecnologia, como o Google. Por um lado, é provável que usufruam de um alto salário e de um grau significativo de autonomia no local de trabalho. Também é provável que tenham um poder substancial no mercado de trabalho, o que significa que geralmente podem encontrar outro emprego sem muitos problemas. Além disso, eles podem deter um patrimônio considerável na empresa através de remuneração por participação acionária.

Esses são os elementos burgueses (ou pequeno-burgueses) em sua posição de classe. A direção muitas vezes dá grande ênfase a esses elementos para fomentar um senso de identificação entre funcionários e executivos – é por isso que, de acordo com a trecho do New York Times que você citou, muitos desses trabalhadores “vêem seus chefes como colegas amigáveis”. Além disso, esses elementos, conforme interpretados pelas lentes das estruturas dominantes da indústria, como a “Ideologia Californiana”, têm tradicionalmente encorajado esses trabalhadores a se verem como empreendedores e (futuros) proprietários em vez de trabalhadores.

Mas a dimensão burguesa da experiência de classe deste estrato existe ao lado e em tensão com uma dimensão proletária. Mesmo no caso relativamente privilegiado do engenheiro de software do Google, encontramos elementos proletários. Especialmente a exclusão do processo de tomada de decisão real – ou seja, as decisões de investimento e produção da empresa. O poder de determinar o que a empresa produz, como e para quem é feito é detido pela direção. Nesse sentido, o engenheiro de software do Google é um trabalhador como qualquer outro.

Claro que isso sempre foi assim. Mas só começou a ser percebido de forma mais aguda no período após a eleição de Donald Trump em 2016. Preocupações sobre a disposição dos executivos de construir ferramentas para ajudar a implementar a agenda do novo governo – particularmente em torno da imigração e do chamado “registro muçulmano” – alimentaram um novo clima de urgência moral em torno da capacidade da tecnologia de causar danos. À medida que os trabalhadores começaram a tentar mitigar esses danos, reivindicando mais controle sobre o que suas empresas estavam construindo – organizando-se contra contratos com o Pentágono e a Immigrations and Customs Enforcement (ICE) [Imigração e Fiscalização Alfandegária], por exemplo – eles encontraram resistência da direção e descobriram que eram, na maior parte do tempo, trabalhadores.

Na formulação de Wright, aqueles que habitam uma localização contraditória de classe são puxados em duas direções. Eles podem se concentrar nas maneiras como são burgueses e se identificar com a classe capitalista; ou podem se concentrar nas formas como são proletários e formar alianças com a classe trabalhadora. O que vimos nos últimos anos é que vários trabalhadores de tecnologia de colarinho branco colocaram em primeiro plano os elementos proletários de sua experiência de classe, por meio do processo de engajamento na ação coletiva no local de trabalho. Eles passaram a se ver como trabalhadores. Eles falam a linguagem da classe e utilizam as técnicas de organização do trabalho. Através da luta, eles empurraram sua posição contraditória de classe para um alinhamento mais proletário.

Aaron Petcoff

Eu concordo que a maioria dos trabalhadores de colarinho branco “técnicos” provavelmente estão localizados em uma posição contraditória de classe. Embora eu não ache que devamos exagerar quaisquer elementos “burgueses” em particular (a grande maioria das ações ou opções de ações dadas aos trabalhadores de qualquer empresa de tecnologia, fora as de um grande empregador, não costumam significar muito, se é que significam alguma coisa), nossa experiência é inquestionavelmente distinta e relativamente privilegiada. Mas essas vantagens são extremamente limitadas pelo poder dos empregadores, que têm interesses de classe distintos dos trabalhadores “técnicos” e dos não técnicos de qualquer estrato.

Os trabalhadores técnicos são capazes de aproveitar as condições de um mercado de trabalho escasso em sua vantagem, para garantir empregos com salários, benefícios e condições geralmente mais altos. Isso reduz a urgência e o apelo de estratégias mais coletivas para buscar ganhos materiais e segurança. Ao mesmo tempo, porém, sem poder formal em nosso local de trabalho, permanecemos subordinados à autoridade de nossos empregadores.

Esse dilema não é exclusivo dos trabalhadores de tecnologia modernos. Esta tem sido a experiência geral dos engenheiros e trabalhadores “técnicos” desde o crescimento da indústria moderna. Ao contrário das ocupações de “especialistas” mais tradicionais, como médicos e advogados, engenheiros e outros técnicos são uma ocupação de massa, sujeita à mesma autoridade do empregador que qualquer outro trabalhador. Além disso, os técnicos também não têm a capacidade de controlar a concorrência no mercado de trabalho por meio de credenciamento.

Várias condições e experiências puxam os técnicos entre os pólos do “profissional independente”, de um lado, e do trabalhador explorado, do outro. No passado, engenheiros e outros técnicos foram capazes de encontrar uma causa comum com o movimento trabalhista e ver a negociação coletiva e a ação de greve militante como consistentes com seus interesses, especialmente quando confrontados com maior incerteza material.

Durante a Grande Depressão, engenheiros e outros técnicos uniram-se a sindicatos em grande número. Após a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente 10% dos engenheiros americanos foram sindicalizados. Mas na década de 1960, a filiação de engenheiros aos sindicatos diminuiu drasticamente, à medida que as perspectivas econômicas melhoraram para os não sindicalizados e o movimento sindical em geral começou seu longo período de recuo.

Como você apontou, o avanço contemporâneo da ação coletiva entre os trabalhadores de tecnologia de colarinho branco revelou a desigualdade de poder no local de trabalho. Essa desigualdade está na raiz de muitas das injustiças notórias que caracterizam a indústria de tecnologia moderna, incluindo a falência moral de empregadores que lucram com a violência militar e policial, o sexismo galopante e a discriminação racial que assola a indústria, além da hiperexploração de trabalhadores em praticamente todos os níveis.

O reconhecimento dessa desigualdade gera potencial para a solidariedade ser formada entre os diferentes estratos de trabalhadores em toda a indústria que compartilham um interesse comum na organização, apesar de enfrentarem condições radicalmente diferentes. Embora existam muitos desafios na organização desse terreno comum, também há muitas possibilidades. Os recursos e o apoio de sindicatos como o Communication Workers of America (Trabalhadores de Comunicação da América, em português) e o Office and Professional Employees International Union [Sindicato Internacional de Empregados de Escritórios e Especialistas, em português] podem certamente ajudar novas iniciativas de organização na indústria de tecnologia.

Ben Tarnoff

Eu gostaria de fazer um comentário na esteira do que você trouxe sobre profissionalização, que pode nos dar uma maneira de concluir. Você traçou uma distinção entre “ocupações de ‘especialistas’ mais tradicionais, como médicos e advogados” e “engenheiros e outros trabalhadores ‘técnicos’”. Isso nos leva à especificidade da tecnologia.

Podemos falar sobre as camadas médias em geral, mas esta é uma categoria ampla com enorme diferenciação interna. Os processos e práticas de classe variam amplamente dentro dela. E para entender os contextos distintos em que as classes acontecem, é útil olhar para a história – temos que entender como as ocupações foram constituídas e as lutas que moldaram suas formações, a fim de compreender suas mecânicas de classe particulares.

Nesse sentido, o mais importante a saber sobre tecnologia é que os programadores de computador nunca se profissionalizaram totalmente. Os programadores surgiram em grande número pela primeira vez nas décadas de 1950 e 1960. Essas foram as décadas em que os computadores estavam se tornando comuns, migrando de laboratórios militares para escritórios corporativos. Como resultado, a demanda por programadores disparou – e os homens chegaram. Antes, programação era feita principalmente por mulheres. Era considerado um trabalho mecânico, pouco criativo e mal pago. Com a popularização da computação, as mulheres foram expulsas e a programação tornou-se uma ocupação predominantemente masculina, agora redefinida como criativa, intelectual e prestigiosa.

No entanto, mesmo com o aumento do status e da remuneração associados à programação, os programadores nunca se tornaram profissionais adequados como os médicos, professores e advogados. As razões são complexas e exploradas detalhadamente no excelente livro de Nathan Ensmenger, The Computer Boys Take Over [Os Garotos do Computador Assumem]. Mas o ponto principal é que o tipo de instituição que implementa e supervisiona a profissionalização nunca se materializou para a programação: não há associação profissional e nenhum código legal que defina o que você precisa saber e fazer para ser considerado um programador.

É claro que existem departamentos de ciência da computação, e muitos programadores estudam ciência da computação na faculdade. Mas um diploma de ciência da computação não é realmente uma credencial profissional da mesma forma que um diploma de direito; como um colega me disse uma vez, é um pouco como estudar arquitetura e depois trabalhar como carpinteiro. Também existem muitos programadores que são autodidatas. Mas eu diria que todos os programadores são, pelo menos parcialmente, autodidatas: o autodidatismo é uma grande parte do trabalho.

A razão de tudo isso ser relevante para a dinâmica de classe dentro da tecnologia é que a ausência de profissionalização criou uma ambiguidade duradoura sobre o que é exatamente um programador. O programador é um especialista? Um empreendedor? Um artesão? Um operário? Essas não são meras questões teóricas; são consequências reais para a luta de classes, questões que são de fato colocadas e respondidas por meio da atividade da luta de classes.

Desde o início, a classe de proprietários da tecnologia foi ambivalente quanto à profissionalização – os programadores poderiam se tornar mais fáceis de gerenciar, mas também poderia promover um senso de coesão ocupacional que encorajaria reivindicações por maior autonomia e até sindicalização. Se fossem ambivalentes quanto à ideia dos programadores como especialistas, entretanto, os executivos de tecnologia estavam absolutamente comprometidos em garantir que os programadores não se vissem como trabalhadores.

Várias técnicas de gestão foram desenvolvidas para evitar o surgimento dessa identidade. Essas técnicas continuam até hoje: um ambiente de trabalho informal, uma cultura de trabalho baseada em equipe e relativamente horizontal, participação acionária, generosas amenidades no escritório. Não se trata apenas de manter os funcionários felizes; as técnicas funcionam para ocultar as divisões de classe, confundindo os limites entre a direção e os operários. São tentativas de ocupar o terreno vazio deixado pela ausência de profissionalização, cultivando uma identidade que beneficia a classe proprietária.

Este é precisamente o terreno que os organizadores de colarinho branco estão contestando. A insistência deles de que os trabalhadores de tecnologia são trabalhadores é um argumento não apenas sobre como os funcionários dessas empresas devem ver sua posição estrutural dentro do local de trabalho. É também uma discussão sobre onde está localizada sua verdadeira fonte de poder.

Seu poder não vem de alguma parceria imaginária com a direção – tal parceria não existe de fato, como fica evidente ao menor grau de contestação. Tampouco advém de sua influência social como especialistas, pois as instituições necessárias para gerar essa influência nunca foram construídas. Seu poder vem de sua influência sobre os espaços onde o lucro é feito. Como trabalhadores, impulsionam o processo produtivo; como trabalhadores, eles podem interromper esse processo.

Aaron Petcoff

Nesse sentido, acho que o movimento dos trabalhadores de tecnologia validou dois pontos: um, que mesmo os trabalhadores de colarinho branco tecnicamente qualificados têm uma causa comum com os trabalhadores de outras ocupações contra seus empregadores; e dois, que é possível organizar esses trabalhadores no chão de fábrica. Demonstrar esses fatos na prática foi um primeiro passo crucial, pois apresenta uma alternativa real ao simples fato de contar com as vantagens individuais que advêm de ter habilidades técnicas “especialistas”.

Mas parece que agora estamos chegando ao fim da fase inicial do movimento dos trabalhadores de tecnologia. Portanto, a grande questão é o que virá a seguir.

Um artigo recente de Carmen Molinari em Organizing.work aponta para os tipos de conversas que devemos ter. Nele, ela argumenta que um hiperfoco na organização em torno de questões éticas em tecnologia restringe o potencial para movimentos crescentes no local de trabalho. Eu concordo plenamente com esse argumento, mas independentemente de como alguém se sinta sobre isso, acho que estamos em um momento em que precisamos discutir como podemos efetivamente estender nosso movimento e aprofundar seu alcance além do núcleo inicial de ativistas e organizadores. Isso exigirá pensar cuidadosamente sobre quais questões e queixas são mais profundamente sentidas entre as pessoas nas diferentes ocupações e setores da indústria.

O rápido crescimento deste movimento talvez tenha tornado difícil avaliar cuidadosamente o que aconteceu e o que está por vir. Muita experiência foi adquirida entre trabalhadores e organizadores em apenas alguns anos, mas há pouco espaço para compartilhar o que foi aprendido. Será essencial desenvolver um meio para compartilhar essas lições e experiências e de colocar os trabalhadores em contato uns com os outros entre as redes e organizações díspares que foram estabelecidas. O projeto de pesquisa Collective Action in Tech [Ação Coletiva em Tecnologia, em português] anunciou recentemente uma iniciativa editorial nesse sentido e fez uma chamada para contribuições.

Embora haja muito trabalho pela frente, há um potencial empolgante no futuro do movimento dos trabalhadores de tecnologia. Já foi demonstrado que a indústria não é “inorganizável” e que os trabalhadores em todos os níveis podem ser organizados para gerar poder e dar a si próprios uma voz coletiva no trabalho. Estender esses sucessos iniciais é especialmente importante, uma vez que os trabalhadores de tecnologia são a linha de frente mais forte contra a ameaça representada pelas grandes empresas de tecnologia.

Sobre os autores

Aaron Petcoff é um ativista socialista que vive no Brooklyn.

Ben Tarnoff é fundador e editor da revista Logic.

30 de novembro de 2019

Um plano socialista para consertar a Internet

O que devemos fazer com o Google, Facebook e Amazon? Precisamos de um plano socialista-democrático para desmercadificar e democratizar a Internet.

Ben Tarnoff

Jacobin

Tomohiro Ohsumi / Getty Images

O que deveríamos fazer com o Google, Facebook e Amazon? Até agora, relativamente poucas respostas vieram da esquerda socialista. Pelo menos nos Estados Unidos, a vanguarda do debate sobre a regulamentação de plataformas tem sido dominada por liberais antitruste, talvez melhor representados pelo Open Markets Institute.

Eles têm boas idéias e falam sério sobre enfrentar o poder corporativo, mas eles vêm da tradição de reformismo brandeisiano. Seu horizonte é um capitalismo menos consolidado: mercados mais competitivos, empresas menores e propriedade amplamente dispersa.

Para aqueles entre nós que mantém o olhar em um horizonte diferente, para além do capitalismo, essa abordagem não é muito satisfatória. Existem elementos do kit de ferramentas antitruste que podem ser aplicados de maneira muito construtiva à tarefa de reduzir o poder da Big Tech e restaurar algum grau de controle democrático sobre nossas infraestruturas digitais. No entanto, os liberais antitruste querem que os mercados funcionem melhor. Em contraste, uma política de esquerda para a tecnologia deve ter como objetivo fazer com que os mercados tenham menos controle sobre nossas vidas – para torná-los menos centrais à nossa sobrevivência e prosperidade.

Isso geralmente é chamado de desmercadificação e está intimamente relacionado a outro princípio essencial, a democratização. O capitalismo é impulsionado pela acumulação contínua, e a acumulação contínua requer a mercadificação de tantas coisas e atividades quanto possível. A desmercadificação tenta reverter esse processo, retirando certas coisas e atividades para fora do mercado.

Isso nos permite fazer duas coisas: a primeira é fornecer a todos os recursos (materiais e de outros tipos) necessários para a sua sobrevivência e florescimento – por uma questão de direito, não como uma mercadoria: as pessoas conseguem o que precisam, não apenas aquilo que conseguem pagar. A segunda é oferecer a todos o poder de participar das decisões que os impactam. Quando removemos do mercado certas esferas da vida, podemos encontrar maneiras diferentes de determinar como os recursos associados a elas são alocados.

Esses princípios oferecem um ponto de partida útil para pensarmos uma política tecnológica de esquerda. Ainda assim, eles são muito abstratos. Qual poderia ser seu aspecto na prática?

Passo um: Tornar a internet acessível

Primeiramente, a parte fácil.

Uma boa parte da Internet é dedicada à transferência de pacotes de dados de um lugar para outro, e consiste em vários itens físicos: cabos de fibra ótica, switches, roteadores, pontos de troca de Internet e assim por diante. Também consiste em empresas grandes e pequenas (principalmente grandes) que gerenciam tudo isso, desde os provedores de banda larga que vendem o serviço de internet domiciliar que contratamos até os provedores de “espinha dorsal” (ou “backbone”) que lidam com o “encanamento” mais profundo da Internet.

Todo esse sistema é um bom candidato para a propriedade pública. Dependendo das circunstâncias, pode fazer sentido termos tipos diferentes de entidades públicas como responsáveis por partes diferentes do sistema: provedores de banda larga pertencentes ao município em coordenação com um backbone de propriedade nacional, por exemplo.

No entanto, a operação dos “canos” da Internet como uma empresa pública deve ser bastante direto, uma vez que a mecânica básica não é tão diferente do fornecimento de gás ou de água. Esse foi um dos pontos que apresentei em uma matéria que escrevi para o Tribune sobre o os plano do Partido Trabalhista (enquanto o partido ainda estava sob a liderança de Corbyn) para o lançamento de uma rede pública para oferecer banda larga gratuita a todos no Reino Unido. É uma medida politicamente boa e, melhor ainda, funciona.

Redes de propriedade pública podem fornecer um melhor serviço a um custo menor e também podem priorizar imperativos sociais, como melhorar o serviço para comunidades pobres e rurais com falta de cobertura de conexão. Para quem quiser se aprofundar em uma das experiências mais bem-sucedidas sobre banda larga municipal nos Estados Unidos, recomendo muito o artigo de Evan Malmgren, “Os novos socialistas dos esgotos“, na revista Logic.

Passo dois: Taxonomizar a internet

Mais acima na pilha de estruturas estão as chamadas plataformas. É aí que está a maior parte do poder e onde está centrada a maior parte da discussão pública; é também aí que encontramos mais dificuldades ao pensarmos sobre como desmercadificar e democratizar.

Parte do problema está no nome: “plataformas”. Nenhuma de nossas metáforas é perfeita, mas acho que talvez seja hora de desistir dessa. Não é apenas útil para elas – permitindo que um serviço como o Facebook projete uma impressão enganosa de abertura e neutralidade, como argumenta Tarleton Gillespie – mas também impreciso. Não existe uma coisa de significado único que possa ser chamada de plataforma. Não somos capazes de descobrir o que fazer com as plataformas porque não existem “plataformas”.

Antes de começarmos a montar uma política de esquerda para a tecnologia, portanto, precisamos criar uma taxonomia melhor para as coisas que estamos tentando desmercadificar e democratizar. Podemos começar analisando alguns dos serviços que atualmente são chamados de plataformas e tentando discernir as principais características que distinguem umas das outras:

  • Primeiro, o tamanho. Quantos usuários o serviço possui? Às vezes, essa é uma pergunta fácil de responder; outras vezes não, porque a maneira como definimos “usuário” varia e essas diferenças podem ser substanciais:
  • Às vezes, o que significa ser um usuário não é tão complicado. É fácil calcular o número de usuários ativos mensais do Facebook, do conjunto de produtos do Google ou do Amazon Web Services (AWS).
  • Mas e quanto a um serviço como Uber ou Instacart, onde você tem tanto funcionários (“motoristas”, “compradores”) quanto consumidores? Ambos são usuários, mas estão usando diferentes partes do serviço. Portanto, provavelmente faz sentido incluir ambos na contagem geral de usuários.
  • E quanto a um serviço que tem um público alvo que não é exatamente de usuários? Em uma newsletter de algum tempo atrás, falei sobre a plataforma de policiamento Axon, que permite às agências policiais conectar vários dispositivos e serviços – câmeras corporais, tasers, câmeras veiculares, um sistema de gerenciamento de evidências digitais, aplicativos para smartphone etc. – em um único portal integrado. Os usuários desta plataforma são policiais. O público são os indivíduos cujas informações estão sendo registradas e processadas pela plataforma. Eles devem ser incluídos na conta geral de usuários, mesmo que não sejam realmente usuários? Se nosso objetivo for medir o impacto geral do serviço, a resposta é sim.

  • A segunda linha divisória é a função. O que o serviço faz? Nick Srnicek, em seu inestimável livro “Capitalismo de Plataforma” (Platform Capitalism), usa essa abordagem para definir cinco tipos diferentes de “plataformas”, embora eu esteja mais inclinado a usar a palavra “serviços”:
  • Serviços de publicidade como Google e Facebook que acumulam dados pessoais e que os monetizam com a venda de anúncios direcionados.
  • Serviços em nuvem, como AWS e Salesforce, que vendem vários produtos baseados em nuvem em um modelo “como serviço” para clientes corporativos, desde infraestrutura como serviço (IaaS) a plataforma como serviço (PaaS) e gerenciamento de relacionamento com cliente (CRM).
  • Serviços industriais como o Predix, projetados para dar suporte a aplicativos de “internet industrial”, como conectar uma fábrica com dispositivos de Internet das Coisas (IoT) e usar os dados que fluem deles para otimizar a eficiência.
  • Serviços de produtos como a Rolls Royce e o Spotify, que “transformam um bem tradicional em um serviço”. A Rolls Royce agora está alugando motores a jato para as companhias aéreas, fazendo com que elas paguem pelo equipamento de uma vez na compra, e usando sensores e análise de dados para otimizar a manutenção. O Spotify está transformando álbuns em streams. O modelo de negócios é a taxa de assinatura.
  • Serviços “enxutos” (“lean”), como Uber e Airbnb, que combinam compradores e vendedores, minimizando a sua propriedade de ativos próprios. No entanto, essa combinação não é tudo o que eles fazem: serviços de trabalho como o Uber também estão no negócio de gerenciar e disciplinar algoritmicamente seus motoristas.

Pode-se pensar em mais tipos de plataformas, e posso achar discutíveis algumas das opções de categorias de Srnicek – será que faz sentido colocar o Uber e o Airbnb no mesmo saco? Porém, se quisermos diferenciar serviços por função, essa lista é um bom ponto de partida.

  • A terceira maneira de dividir os serviços é pelo tipo de poder que eles exercem. K. Sabeel Rahman escreveu um artigo interessante para a revista Logic chamado “O Novo Polvo”, que identifica três tipos de poder tecnológico:
  • Poder de transmissão, que é “a capacidade de uma empresa de controlar o fluxo de dados ou de bens”. Ele dá o exemplo da enorme infraestrutura de transporte e logística da Amazon que controla os “conduítes para o comércio”, bem como os provedores de serviços de Internet que controlam os “canais de transmissão de dados”. Também podemos adicionar a AWS e outros grandes provedores de nuvem. Um serviço como o AWS S3 é essencial para o fluxo de dados na Internet moderna.
  • Poder de “porteiro” (ou “gatekeeper”), onde a empresa “controla a entrada para uma paisagem que, de outra maneira, seria descentralizada e difusa”. Ele dá o exemplo do Feed de notícias do Facebook ou da Pesquisa do Google, que medeiam o acesso ao conteúdo online. Aqui, o poder é mantido no “ponto de entrada” e não em toda a infraestrutura de transmissão.
  • Poder de pontuação, que é “exercido por sistemas de classificação, índices e bancos de dados de classificação”. Isso inclui sistemas automatizados para triagem de candidatos a empregos, por exemplo, ou para informar sentenças e decisões de fiança.

Passo três: Coletivizar a internet

Poderíamos gastar muito mais tempo ajustando nossa taxonomia, mas vamos deixá-la como está e retornar à questão de como podemos desmercadificar e democratizar nossas infraestruturas digitais. Dada a ampla gama de serviços de que estamos falando, segue-se que os métodos que teremos de usar para desmercadificá-los e democratizá-los também vão variar. O objetivo em se desenvolver uma taxonomia razoavelmente precisa é ajudar a informar quais métodos poderemos usar para cada tipo de serviço.

Essa é a lógica por trás do argumento de Jason Prado em sua newsletter Venture Commune, “Taxonomizando as plataformas para escalar a regulação“. Prado defende que devemos diferenciar os serviços pelo número de usuários que possuem e, em seguida, implementar regulações diferentes para tamanhos diferentes. Entre 0 e 5 milhões de usuários, por exemplo, um serviço “deve estar sujeito apenas a regulações básicas sobre privacidade”. Entre 20 e 50 milhões, eles deveriam publicar “relatórios de transparência sobre quais dados são coletados e sobre como exatamente são usados”. Acima de 100 milhões, um serviço se torna “indistinguível do Estado” e, portanto, precisa ser governado democraticamente, talvez por um “conselho de administração composto por proprietários, representantes eleitos, desenvolvedores/trabalhadores da plataforma e usuários”.

Gosto dessa abordagem básica, mas eu a expandiria. O tamanho é uma consideração importante, mas não é a única. A função do serviço e o tipo de poder que exerce também são fatores significativos. Poderíamos mapear cada característica (tamanho, função e tipo de potência) em um eixo – x, y e z – e, em seguida, plotar cada serviço como um ponto em algum lugar ao longo desses três eixos. Então, dependendo de onde o serviço ficar em nosso espaço tridimensional (ou n-dimensional, se refinarmos nossa taxonomia e aumentarmos o número de características), poderemos selecionar um método de desmercadificação e democratização que seja especificamente adequado ao serviço.

Quais seriam alguns desses métodos possíveis? Aqui listo quatro:

Propriedade pública

Nesse caso, uma entidade estatal assume a responsabilidade pela operação de um serviço. Essas entidades podem ser estruturadas de muitas maneiras e existir em diferentes níveis, do municipal até o nacional. Os serviços que exercem poder de transmissão (Rahman) ou aqueles que envolvem a nuvem (Srnicek) são candidatos especialmente adequados para essa abordagem. Nesse sentido, Jimi Cullen escreveu uma proposta interessante para um provedor de nuvem de propriedade pública chamado “Precisamos de uma plataforma estatal para a Internet moderna“. Provavelmente a propriedade pública também seja a mais adequada para os serviços em uma certa escala. No maior tamanho, porém, a governança não pode mais ser alcançada no nível do Estado-nação – momento a partir do qual precisamos pensar em formas transnacionais de propriedade pública.

As entidades públicas também podem ficar no negócio de gerenciar ativos, ao invés da operação de um serviço. Por exemplo, elas podem assumir a forma de instituições de “guarda de dados” (“data trusts”) ou “bens comuns de dados” (“data commons”), mantendo um conjunto específico de dados e aplicando certos termos de acesso quando outras entidades desejam processar esses dados: exigir regras de privacidade, por exemplo, ou cobrar uma taxa . Rosie Collington escreveu uma reportagem interessante sobre como esse arranjo pode funcionar para dados já mantidos pelo setor público, chamado “Ativos públicos digitais: repensando o valor, o acesso e o controle dos dados do setor público na era da plataforma“.

Propriedade co-operativa

Esta opção envolve a operação de serviços de forma cooperativa, sob propriedade e gestão por alguma combinação de trabalhadores e usuários. A comunidade do cooperativismo de plataforma vem realizando experimentos nesse sentido há anos, com alguns resultados interessantes.

O que Srnicek chama de serviços “enxutos” se prestariam à cooperativização. Um Uber sob propriedade dos trabalhadores seria muito viável, por exemplo. E existem vários tipos de instrumentos de políticas públicas que os governos poderiam usar para incentivar a formação de tais cooperativas: subsídios, empréstimos, contratos públicos, tratamento tributário preferencial, códigos regulatórios municipais que apenas permitam o serviço compartilhamento de corridas por empresas pertencentes a trabalhadores. É possível, porém, que as cooperativas funcionem melhor em uma escala menor – talvez fosse melhor montar um monte de Ubers específicos das cidades em vez de um Uber nacional – nesse caso, o kit de ferramentas antitruste pode ser útil, pois precisaríamos dividir uma grande empresa antes de transformar em cooperativas as suas partes constituintes.

Também poderíamos pensar em guardas de dados ou em bens comuns de dados sob propriedade cooperativa, em vez de propriedade pública. É isso que Evan Malmgren recomenda em seu artigo “Mídia Socializada”: uma instituição de guarda de dados de propriedade cooperativa que emite quotas de voto para seus membros, que por sua vez elegem uma liderança com poderes para negociar os termos de uso dos dados com outras entidades.

Não-propriedade

Em alguns casos, os serviços simplesmente não precisam estar sob propriedade de ninguém. Em vez disso, suas funções podem ser executadas por software livre e de código aberto.

Há muitas razões para ser cético em relação ao código aberto como uma ideologia – “A Liberdade Não é Gratuita”, de Wendy Liu, é uma leitura essencial nessa frente – mas o software livre tem potencial para desmercadificação, mesmo que esse potencial esteja suprimido no momento por sua quase completa captura por interesses corporativos.

Esse é outro domínio no qual o kit de ferramentas antitruste pode ser útil. Em 1949, o Departamento de Justiça dos EUA entrou com uma ação antitruste contra a AT&T. Como parte do acordo, sete anos depois, a empresa foi forçada a abrir seu cofre de patentes e licenciá-las a “todas as partes interessadas”. Poderíamos imaginar algo semelhante com os gigantes da tecnologia, fazendo com que eles abrissem seu código-fonte para que as pessoas possam desenvolver alternativas gratuitas a esses serviços. Prado sugere que um serviço deveria ser forçado a abrir os repositórios de código dentro de seis meses após atingir entre 50 e 100 milhões de usuários.

Além de serviços maiores, eu também argumentaria que os serviços cujo modelo de negócios é baseado em publicidade (Srnicek) e aqueles que exercem poder de guarda (Rahman) seriam bons candidatos para o código aberto. Pode-se imaginar alternativas gratuitas e de código aberto à Pesquisa do Google, por exemplo, ou aos serviços de redes sociais existentes.

Outra idéia útil extraída do kit de ferramentas antitruste que poderia ajudar a promover o código aberto seria a interoperabilidade forçada. Matt Stoller e Barry Lynn, do Open Markets Institute, tem solicitado à Federal Trade Commission (FTC) que faça o Facebook adotar “padrões abertos e transparentes”. Isso possibilitaria que alternativas de código aberto funcionassem de forma interoperável com o Facebook. Isso não retiraria nossos dados dos servidores do Facebook, mas começaria a corroer o poder da empresa, oferecendo às pessoas vários clientes (sem anúncios) que poderiam acessar esses dados e apresentá-los de maneira diferente. Se essas interfaces funcionassem, o Facebook não seria mais capaz de vender anúncios e seus negócios acabariam colapsando. Nesse ponto, ele poderia ser remodelado em um guarda de dados de propriedade pública ou cooperativa fornecendo dados a uma variedade de serviços de redes sociais de código aberto, talvez eles mesmos federados no modelo da Mastodon.

Abolição

Certos serviços não devem ser desmercadificados e democratizados, mas abolidos por completo

Os governos implantam uma variedade de sistemas automatizados para fins de controle social. Isso inclui tecnologias carcerárias, como algoritmos de policiamento preditivo que intensificam o policiamento de bairros da classe trabalhadora negra. (Esse também é um exemplo do que Rahman chama de poder de pontuação). Pesquisadores como Ruha Benjamin e organizações comunitárias como a coalizão pelo fim da espionagem digital pela polícia de Los Angeles estão aplicando o ferramental abolicionista a esses tipos de tecnologias, exigindo sua eliminação total: em seu novo livro “A raça após a tecnologia” (Race After Technology), Benjamin fala sobre a necessidade de desenvolver “ferramentas abolicionistas para o Novo Código Jim” (“Jim Code”), em um trocadilho com as leis de segregação racial que ficaram conhecidas como “Jim Crow”.

Outro conjunto de sistemas dignos de eliminação são as formas de austeridade algorítmica documentadas por Virginia Eubanks em seu livro “Automatizando a desigualdade” (Automating Inequality). Nos Estados Unidos e por todo o mundo, funcionários públicos estão usando software para reduzir o estado de bem-estar social. Isso priva as pessoas de dignidade e autodeterminação de uma maneira que é fundamentalmente incompatível com os valores democráticos.

Há também o reconhecimento facial, que pode ser implantado por entidades públicas ou privadas. O crescente movimento pela proibição do reconhecimento facial, uma demanda promovida por várias organizações e agora abraçada por Bernie Sanders, é um bom exemplo da abolição em ação.

Uma observação final que vale a pena mencionar: embora o objetivo de uma política pública de esquerda para a tecnologia deva ser atingir a raiz do poder privado, por meio da transformação de como funciona a propriedade de nossas infraestruturas digitais, também precisaremos de regras legislativas e administrativas para governar como essas infraestruturas terão permissão para operar. Isso pode assumir a forma de marcos regulatórios sobre a coleta e processamento de dados, medidas destinadas a reduzir a radicalização de direita nas redes ou vários mandatos de transparência e prestação de contas via algoritmos. Essas regras deverão ser aplicadas em todos os setores, independentemente do tipo de propriedade ou organização de cada entidade.

Nossa hora vai chegar – e precisamos estar preparados

Oacima exposto é um apenas um esboço provisório, com muitos furos e arestas. A plotagem de todos os principais serviços em três eixos, de acordo com suas características, pode se revelar impossível – e, mesmo que seja possível, corre o risco de nos prender a um modelo excessivamente rígido para a formulação de políticas. De maneira mais ampla, existem limites severos para esse tipo de pensamento programático, que pode facilmente se inclinar em uma direção tecnocrática.

Ainda assim, espero que esses pensamentos possam ajudar no desenvolvimento de uma política pública de esquerda para a tecnologia que adote os princípios básicos de desmercadificação e democratização e que tente aplicá-los à nossa esfera digital realmente existente. Neste momento, há relativamente pouco espaço político para essa agenda na maioria dos países, mas pode chegar um momento em que mais espaço esteja disponível – seria bom estarmos preparados.

Sobre o autor

Ben Tarnoff é fundador e editor da revista Logic.

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