Mostrando postagens com marcador Zephyr Teachout. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Zephyr Teachout. Mostrar todas as postagens

8 de novembro de 2024

O retorno de Trump — I

Sobre perdedores, medo, a Suprema Corte, o fim da era FDR, tempos antissistêmicos e palavras sem consequências.

Ben Tarnoff, Zephyr Teachout, Bill McKibben, Michael Hofmann, Linda Greenhouse, e Garry Wills


Ilustração de José Guadalupe Posada

Estas são as primeiras a sextas inscrições de um simpósio sobre a reeleição de Donald Trump.

*

Ben Tarnoff

Donald Trump passou quase uma década desconcertando pessoas que são pagas para pensar sobre política. Seu apelo tem sido consistentemente subestimado. Também tem sido, da mesma forma consistente, excessivamente complicado. A substância de seu estilo é simples: uma hostilidade alegre em relação às instituições que tradicionalmente organizaram a vida americana. Ele se posiciona não apenas como um outsider, mas como um destruidor: alguém que se deleita na demolição de normas e normalidade. "Isso não é normal" foi um slogan de protesto de seu primeiro mandato; para Trump e seus admiradores, esse é exatamente o ponto.

Sua desordem é parte do que o torna tão divertido. Ele é o heel consumado, um artista que deve muito aos amados anti-heróis da luta livre profissional. Mas por baixo da palhaçada há algo mortalmente sério. Um grande número de americanos passou a acreditar que seu corpo político está gravemente doente. Em Trump, eles encontraram um homem cruel o suficiente para infligir o remédio.

Os democratas há muito entendem esse aspecto do trumpismo. A resposta deles tem sido se unir em defesa das instituições. O Partido Democrata moderno é, acima de tudo, o guardião das normas e da normalidade. Isso não significa que seja totalmente incapaz de criatividade: o progressismo doméstico do governo Biden facilmente excedeu o de qualquer presidência desde Lyndon Johnson. Mas essa agenda estava inserida em um projeto restauracionista. A aspiração da Bidenomics era legitimar a governança americana. Algumas coisas seriam mudadas para que outras permanecessem as mesmas.

Há fatores materiais em ação aqui. A base democrata é cada vez mais povoada por profissionais afluentes, e eles tendem a ser institucionalistas. Para eles, os pilares básicos da economia política de seu país valem a pena serem protegidos. No entanto, a coalizão também inclui muitos eleitores da classe trabalhadora que são menos otimistas sobre o status quo e cuja lealdade deve ser garantida por meio de reformas progressivas. Daí a compleição política do partido no momento: meliorista, às vezes até ambiciosa, mas nunca antissistêmica.

O inconveniente é que vivemos em tempos antissistêmicos. Trump intuiu isso, e agora ele usou isso para se instalar na Casa Branca duas vezes. Cada eleição é diferente, é claro, e pesquisas de boca de urna mostram que a raiva sobre a inflação foi o maior fator na vitória recente de Trump. O que animou essa raiva não foi apenas a luta para pagar mantimentos e outras necessidades, no entanto, mas o espetáculo de políticos democratas e especialistas afiliados dizendo às pessoas que, ao contrário da evidência de sua própria experiência, a economia estava em excelente saúde.

Este é precisamente o tipo de dissonância que gera a crise de legitimidade na qual o trumpismo prospera. Gaza pode ter sido uma questão de campanha menos decisiva, mas oferece um exemplo mais extremo da mesma dinâmica. O governo Biden gosta de falar sobre algo chamado de "ordem internacional baseada em regras", mesmo que forneça a Israel tudo o que ele precisa para massacrar genocidamente o povo palestino. Um dos temas favoritos de Trump é a falsidade e a depravação moral da classe dominante. Nos campos de extermínio de Gaza, dificilmente se encontraria uma prova mais clara.

Trump não vai melhorar a vida dos palestinos, nem da maioria dos americanos. Nem vai transfigurar completamente as estruturas do governo. Ele é, na prática, seletivo em seu anti-institucionalismo: ele pode dedicar seu próximo mandato a desmantelar o estado administrativo, mas instituições antidemocráticas como o Colégio Eleitoral, o Senado e a Suprema Corte servem a ele e seus aliados muito bem.

Para aqueles que se opõem a ele, a tarefa dos próximos quatro anos — e de fato das próximas décadas — é pensar não em termos de restauração, mas de transformação. O trumpismo não pode ser derrotado por meio de apelos morais, um retorno ao normal ou qualquer combinação de políticas e mensagens. É um fenômeno civilizacional, que extrai sua energia de uma atmosfera de emergência civilizacional, da mesma forma que o fascismo clássico, seu análogo histórico mais próximo, fez no século anterior. Um império em declínio é um animal perigoso.

Para atender às exigências da era, é preciso imaginar e promulgar um tipo diferente de país, com um tipo diferente de relacionamento com o resto do mundo. Há precedentes para consultar — a Reconstrução, a Frente Popular e o movimento pelos direitos civis vêm à mente — mas a criação de uma sociedade livre é, antes de tudo, um ato de imaginação, uma questão de descobrir que novas formas podem ser feitas a partir dos materiais disponíveis e, então, ser tolo o suficiente para depositar fé nelas.

Zephyr Teachout

Alguns anos atrás, eu era um membro de um think tank em Washington, D.C. O subgrupo antimonopólio do qual eu fazia parte divulgou uma breve declaração aplaudindo a União Europeia por tomar medidas para impedir o Google de dar preferência aos seus próprios produtos em seu mecanismo de busca. As oito pessoas que trabalhavam no grupo foram prontamente demitidas ou dispensadas. Eu era professor de direito, então perder uma bolsa não foi um grande acontecimento para mim. Mas foi para os outros, uma das quais estava grávida. Como o The New York Times relatou durante a ruptura, o chefe do grupo alegou que Eric Schmidt do Google — que também presidia o conselho do think tank — influenciou a decisão. (Os representantes da empresa negaram tal coisa.) A mensagem para outras organizações sem fins lucrativos foi clara.

Mais tarde, conversei com uma amiga sobre fazer um vídeo sobre isso. "Eu faria", ela disse. "Mas minha irmã [uma freelancer] tem algumas bolsas com o Google, então..." "Está tudo bem", eu disse, "tudo bem".

Ela estava sendo covarde ou leal à família? É difícil dizer. O poder tem uma maneira de restringir os assuntos que estamos dispostos a discutir abertamente. Os fazendeiros com quem converso dizem que não ousam falar contra os distribuidores, mesmo que não haja provas claras de que a punição virá: basta que isso aconteça. À medida que as Big Tech e Wall Street gradualmente colocam seu punho enluvado sobre as organizações progressistas sem fins lucrativos e campanhas cívicas, as possibilidades políticas se estreitam. E então veio Musk, que não se preocupou em colocar seu punho em uma luva, simplesmente entregando sua plataforma para servir à campanha de um presidente.

Muitas das políticas de Trump são cruéis; muitas de suas operações são corruptas. Mas, para mim, o mais assustador sobre sua ascensão é que ele está disposto a assumir o poder latente e torná-lo flagrante, para punir alegremente aqueles que falam contra ele. Quando ele disse que colocaria Mark Zuckerberg na cadeia se ele desafiasse seu poder, os outros titãs da tecnologia perceberam. Eles estão acostumados a rastejar com o governo chinês; não demorou muito para que os CEOs do Google, Apple e Amazon — e Mark Zuckerberg — ligassem para Trump e o bajulassem, nem para Jeff Bezos anular a página editorial do The Washington Post e insistisse que o jornal não apoiasse Harris.

Há muitas perguntas grandes e difíceis a serem feitas sobre a reconstrução do Partido Democrata das cinzas desta eleição. Como vamos parar o massacre, bloquear as expulsões ameaçadas de imigrantes, proteger um resquício da política climática, manter as lutas fiscais? Mas nos primeiros dias faríamos bem em fortalecer nossa coragem e apoiar aqueles que são destacados, mesmo que os desprezemos. Devemos, como Martin Luther King Jr. ensinou na carta da prisão de Birmingham, "nos autopurificar", não no sentido de pensar muito bem de nós mesmos ou nos recusar a nos envolver com aqueles com quem discordamos, mas praticando as disciplinas necessárias que nos prepararão para falar quando formos testados.

Bill McKibben

Acho que finalmente chegamos ao fim da era FDR. A Depressão e a Segunda Guerra Mundial foram choques tão enormes e abrangentes que produziram uma nova política que tinha a ver com solidariedade — a América como um projeto de grupo. Isso foi muito desgastado pelo Reaganismo, com seu ethos de cada um por si, mas sobreviveu de alguma forma até ontem. Biden, na verdade, foi um retrocesso a LBJ, completo com uma política nacional de manufatura. Mas esse mundo acabou, substituído por um que ninguém entende completamente — um mundo em que algum amálgama de Joe Rogan e TikTok define atitudes políticas. É mais um vácuo.

O que significa que será substituído eventualmente. Meu candidato para o choque exógeno na escala da Depressão e da Segunda Guerra Mundial é a mudança climática e a transição energética. Acho que a necessidade e a oportunidade de converter as economias do mundo para energia renovável barata produzirão algum tipo de política diferente: mais local e menos plutocrática, se tivermos sorte. Mas tenho dúvidas se isso acontecerá rápido o suficiente para evitar um desastre climático em uma escala quase inimaginável.

Ilustração de José Guadalupe Posada

Michael Hofmann

Sinto que estamos circulando pelo ralo há meses e agora estamos sendo jogados no ralo. Olá, escuridão, minha velha amiga. Estou enjoada e com dificuldade para respirar. Se eu olhasse no espelho — o que faço com frequência ultimamente, puramente em função da descrença, porque sinto que não existo mais — imagino que veria Ford Madox Ford, um bigode de coador de sopa e a aparência de um ovo cozido na boca, mas na verdade apenas um suspiro porque "mostarda gaseificada sem voz a cerca de sete milhas atrás das linhas em Nancy ou Belleau Wood". Como disse o poeta. Preserve minhas palavras, preserve minhas palavras. A libertinagem e a maldade disso. Sinto muito pelo resto do mundo por ter algo tão rançoso, mimado e aparentemente irresistível como a América nele. Quem já pensou que o sufrágio masculino era uma boa ideia? Entre, a água está fervendo neste estado avermelhado e cada vez mais vermelho e avermelhado. Não tem muita carne nessas pernas de caranguejo da neve, mas você vai aproveitar o corte de impostos. Ou é a vértebra do último sindicalista sobrevivente? Diz na nossa nova constituição que temos permissão para caçar e pescar. Bem, aleluia. E gasolina a US$ 2 é um direito de nascença em perpetuidade. Se ao menos fosse um lugar pequeno e fora do caminho. Faça Armórica Grande Novamente. Faça Armórica Grande Novamente. Faça Armórica Grande Novamente. Mas não, esta é aquela cidade brilhante, e aquela última melhor esperança. Se foi, tudo se foi. Enfie um garfo nela. Só há dinheiro, mentiras descaradas e más intenções. A inversão de tudo no parquinho. Você é o fascista, você é o racista, você é quem está me ameaçando com violência. Não é consolo, mas este país não saberá o que o atingiu, e primeiro os eleitores desinformados com seus bonés vermelhos no lugar dos cérebros. Nenhum exagero é possível. Sinto nojo de espécie. Claro, impetuoso. Claro, poeta e frenesi fino e tudo mais. Claro, bobagens e histeria. Oligarcópole, aqui vamos nós. Sim, nós só vivemos nela. É sua, e eu não sei. Como não ver através de algo tão surrado, tão egoísta, tão aleatória e desdenhosamente jogado fora pelo cantor auto-adorador. Os oligarcas entram na arca dois a dois, como antigamente os animais. O T porque ele enfrenta os dois lados em todas as questões. Cara eu ganho, coroa você perde. Palavras sem consequências. Mas elas servem para uma marca. A minha na minha testa, por favor.

Linda Greenhouse

A eleição de Donald Trump coloca um novo fardo sobre uma Suprema Corte que já opera sob os holofotes públicos severos. Afinal, esta é uma Corte que, nos últimos meses, rejeitou uma contestação constitucional à elegibilidade de Trump para votar e lhe concedeu uma medida impressionante de imunidade contra processo criminal. No futuro, os juízes — incluindo, mas não se limitando aos três indicados por Trump — terão que garantir ao país que, para eles, ele é apenas mais um presidente, não tendo mais direito a deferência do que o presidente Biden, cujo programa de perdão de empréstimos estudantis e algumas de cujas iniciativas ambientais a maioria conservadora invalidou.

É verdade que a Corte também recebeu Trump com algum ceticismo durante seu primeiro mandato, bloqueando seu esforço para acabar com o escudo do programa DACA para jovens imigrantes indocumentados e impedindo seu secretário de Comércio de adicionar uma questão de cidadania ao Censo de 2020. Mas essas decisões, por mais importantes que fossem, eram essencialmente processuais, motivadas pela falha da administração em seguir as regras comuns da prática da agência. As travessuras dentro do Departamento de Comércio que vieram à tona no caso do censo, por exemplo, teriam sido risíveis se a meta de supressão de votos da administração não tivesse sido tão alarmante.

A natureza amadora de muitos dos encontros do primeiro governo Trump com a Suprema Corte provavelmente será substituída por uma abordagem mais disciplinada e estratégica. E vale lembrar que, mesmo na última vez, Trump emergiu triunfante nas questões que mais importavam para ele — a proibição de viagens de muçulmanos e a extensão do muro da fronteira mexicana em uma área que o Congresso havia explicitamente proibido.

Dada a promessa do candidato Trump de deportar milhões de pessoas, livrar o serviço público de "inimigos" e eviscerar departamentos federais inteiros, a gama de casos que provavelmente chegarão à Suprema Corte em pouco tempo é estonteante. Embora sua retórica em constante mudança sobre questões reprodutivas tenha deixado seus planos específicos obscuros, estes, sem dúvida, incluirão limites no acesso ao aborto medicamentoso, inclusive em estados onde o aborto é legal. Mesmo que os democratas, tendo perdido o Senado, consigam assumir o controle estreito da Câmara, será inútil procurar alívio no Congresso. Guardrails, se houver, terão que vir do Tribunal. A necessidade será aguda.

Garry Wills

Qualquer um de nós que continuasse pronunciando errado um nome próprio, após repetidos treinamentos sobre a maneira correta, seria considerado estúpido. Mas Donald Trump continuou chamando seus adversários de Barack HUSSEIN Obama e Ka-MAH-la Harris como um sinal para seus seguidores de que essas criaturas, com nomes exóticos, não eram um de nós. Elas eram parte do ELES que NÓS devemos manter fora. O ELES que ele tinha em mente é um grupo grande e variado, já que o NÓS é um corpo tão seleto. Não há espaço para perdedores, para cativos ou cadáveres ou necessitados — nem mesmo para os corpos de homens que morreram defendendo seu país. Os cortesãos de Trump supostamente tiveram que assustar um navio de guerra para fora de sua vista porque ele tinha o nome de um homem que ele havia denunciado por ter sido um cativo.

Todos os forasteiros são perdedores. Eles não podem dizer "América primeiro" porque não são americanos de verdade. Qualquer um que precise de ajuda é um perdedor. Mulheres que saem de seus lugares são perdedoras — elas deveriam ficar para serem avós e cuidar dos filhos de outras mulheres que ficam em seus lugares. Especialistas e reguladores, confiando em diplomas e estudos sofisticados, que nos dizem como viver, são perdedores e fomentadores de perdedores (fora de seu "estado profundo"). Os doentes, os deficientes e seus cuidadores são perdedores, desperdiçando o tempo e o dinheiro dos vencedores. Os necessitados são perdedores. Os vencedores não precisam deles. Os amigos ditatoriais de Trump — Putin, Xi Jinping e Viktor Orbán — não usam o poder para ajudar os desamparados. É isso que os torna vencedores.

Bem, a eleição de Trump nos mostra quem vence. Ele colocou os perdedores em seus lugares. Como as mulheres, eles devem aprender a permanecer neles. Perdoe-me se não comemoro. Eu, como todos que conheço, sou um perdedor, no passado, no futuro ou agora. Atualmente, estou perdendo para a idade e preciso desses médicos especialistas com seus cuidados desperdiçadores. Eu sempre precisei de reguladores que mantivessem o veneno longe da minha comida, água e ar. O ELES que Trump está expulsando inclui todos os que precisam ou se importam com os necessitados. Isso é muito de nós, embora às vezes não reconheçamos nosso direito de estar no ELES que está sendo condenado. Não deveríamos apenas possuir esse direito e construir sobre ele, mas também ver que o compartilhamos com todos os perdedores que estão sendo ignorados pelos amigos ditadores de Trump, como os palestinos que estão sendo massacrados em Gaza com armas americanas. Nós, perdedores, temos muito a aprender. Mas estamos fazendo isso. Trump é nosso professor.

13 de outubro de 2024

A chance de Harris no comércio

Kamala Harris tem a chance de flanquear a retórica de Trump sobre tarifas — e expor sua própria visão de comércio global justo, verde e que priorize os trabalhadores.

Zephyr Teachout


Kamala Harris sentada ao volante de um ônibus elétrico durante um passeio por uma fábrica de montagem da New Flyer, St. Cloud, Minnesota, 2023
Glen Stubbe/Minnesota Star Tribune/Getty Images

Em 2016, durante a corrida presidencial surreal entre Donald Trump e Hillary Clinton, eu era o candidato democrata ao Congresso em um distrito indeciso no Vale do Hudson. O titular era um republicano aposentado, mas Barack Obama havia vencido na área por vários pontos em 2012. Uma vitória democrata parecia próxima.

Na grande mídia, os eleitores em regiões rurais e pós-industriais como o Vale do Hudson tendem a ser retratados como insulares, se importando principalmente com questões domésticas como inflação e bem-estar. E ainda assim as pessoas que conheci em feiras de condado, jantares de frango e desfiles também se importavam profundamente com o comércio. Se você perguntasse a elas suas principais prioridades, elas não diriam necessariamente "política comercial". Mas se você as ouvisse contar uma história de suas vidas, seu trabalho e as cidades em que viviam, elas invariavelmente diriam que empregos estavam sendo perdidos para o México e a China, ou mencionariam o NAFTA. Nossa pesquisa interna confirmou o que eu estava ouvindo no Ellenville Blueberry Festival. Das sete mensagens de "perfil" que testamos, a mais forte foi: "[O candidato] acredita que precisamos trazer empregos para casa, fazer coisas na América novamente e apoiar a agricultura e a manufatura locais". 93% apoiavam.

As pessoas que conheci associaram Trump a ser contra o NAFTA e acordos comerciais como a então pendente Parceria Transpacífica (TPP), uma iniciativa que Obama estava vendendo como uma forma de remover barreiras à exportação e ao investimento na Bacia do Pacífico. (Trump não estava sozinho. A proposta de Obama foi ferozmente contestada por grupos dedicados ao trabalho, direitos humanos, democracia e meio ambiente. "O TPP seria desastroso para os trabalhadores", escreveu Richard Trumpka, então chefe da AFL-CIO, em 2016. "Ele seria uma marreta para a indústria americana".) Trump atacou repetidamente a China por tirar bons empregos, chamou o NAFTA de "desastre" e disse que pressionaria por uma "renegociação total". "Se não conseguirmos um acordo melhor", ele prometeu, "vamos embora".

Clinton, enquanto isso, foi associada à liberalização comercial. Seu alvo estrangeiro de escolha era a Rússia. Esses eleitores não gostavam nem confiavam na Rússia, mas também não se importavam particularmente com isso. Acordos comerciais, toxinas em suas águas, opioides e corrupção — não a Guerra Fria — eram importantes em sua compreensão do que havia interrompido suas vidas. Ninguém que eu conheci tinha no radar que Clinton — que havia promovido o TPP para Obama — agora nominalmente se opunha a ele e dizia que "gostaria de renegociar o NAFTA" porque "havia partes dele que não funcionaram como esperado". Isso pode ter sido um objetivo político genuíno dela, mas ela não falou convincentemente sobre isso.

No final, meu distrito foi para Trump. Ele venceu por uma infinidade de razões. A perda das instalações da IBM no início dos anos 1990 e empregos para a terceirização ainda doíam. Assim como o fato de que muitos trabalhadores braçais estavam presos a empregos degradados e salários estagnados. As pessoas queriam saber se os políticos simpatizavam com tais perdas; mais importante, eles queriam ver os candidatos apontarem dedos — para reconhecer que seu sofrimento não era aleatório, mas causado por alguém e alguma coisa.

Quando Trump apontou o dedo para o NAFTA e a China, isso ressoou com suas experiências. Sua outra acusação, é claro, assume uma forma racista — mais notavelmente quando ele retrata os imigrantes como invasores que comem carne de cachorro, demônios que imediatamente aterrorizarão os trabalhadores americanos e tomarão seus empregos. Mas quando o instinto o levou a destacar acordos comerciais, ele encontrou ouro eleitoral. Três décadas de acordos rotulados como livre comércio — supervisionados por democratas e republicanos, reforçados por uma filosofia neoliberal, apoiados por doadores ricos — dizimaram a manufatura americana.

Essa lição não deve ser esquecida hoje. O comércio pode ser a questão decisiva na eleição de novembro; a equipe de Trump, de qualquer forma, parece pensar que será. Nos últimos meses, ele prometeu repetidamente impor tarifas de 60% sobre produtos chineses e tarifas gerais de 10 a 20% sobre todos os produtos importados, bem como punir a John Deere com tarifas de 200% para terceirizar empregos para o México. Seu companheiro de chapa, JD Vance, se apoia fortemente na retórica dura com o comércio; no debate vice-presidencial da semana passada, ele respondeu a uma pergunta sobre as mudanças climáticas dizendo que o caminho a seguir era "repatriar o máximo possível da indústria americana".

Mas também há uma chance de Harris vencer no comércio — falar com firmeza sobre os danos que décadas de acordos comerciais ruins causaram. Ela poderia até mesmo inverter o roteiro em Trump, destacando o abismo entre as promessas que ele fez em 2016 sobre comércio e o que ele entregou. Ela tem uma base sólida para trabalhar: a abordagem de Biden ao comércio divergiu significativamente — e positivamente — daquelas de seus antecessores democratas. Harris não precisa abraçar Biden, cuja reputação econômica está (injustamente) manchada, para usar esse precedente. Ela poderia expor uma visão de comércio global justo, verde e que priorize os trabalhadores — e explicar por que isso exigirá tarifas. Além disso, se ela for eleita, ela estará em uma boa posição para desenvolver o que Biden começou.

*

Em 2021, o Congressional Progressive Caucus encomendou uma pesquisa entre eleitores indecisos e de "onda" em distritos competitivos. "A maioria dos eleitores", concluiu, "tem dificuldade em descrever uma visão positiva clara do que o Partido Democrata representa", inclusive sobre a economia. A confusão sobre o partido nacional precede Harris, mas a falta de familiaridade dos eleitores com ela dobrou a incerteza. Quando os eleitores dizem que querem mais política econômica de Kamala Harris, não acho que eles queiram ver white papers ou ouvir sobre créditos fiscais. Eles querem uma visão de mundo. Eles querem saber como ela — e o Partido Democrata — entendem o aumento do custo de moradia, assistência médica e mantimentos, o colapso de pequenas empresas e, mais importante, o declínio de bons empregos e carreiras de colarinho azul ao longo de trinta anos.

Os democratas tendem a evitar causa e efeito, pulando direto para soluções. Quando descrevem a desigualdade, mesmo no ato de aprovar uma legislação para melhorá-la, eles frequentemente recuam para uma voz passiva tímida. “A América tem uma grave crise de desigualdade de renda — as famílias trabalhadoras estão perdendo terreno enquanto os ricos estão ficando mais ricos a cada dia”, disse Chuck Schumer em 2021, quando se manifestou em apoio ao PRO Act, que facilita a sindicalização dos trabalhadores. “Por anos, a divisão entre os indivíduos mais ricos do país e as famílias trabalhadoras não foi controlada e a pandemia aprofundou essas desigualdades”, acrescentou Kirsten Gillibrand. Eles estavam certos. Mas você está cometendo um erro político fundamental se não começar dizendo quem fez o quê a quem.

Donald Trump discursando para a multidão no South Lawn antes de assinar o Acordo Comercial Estados Unidos–México–Canadá (USMCA), Washington, D.C., 2020
Drew Angerer/Getty Images

Em poucas áreas da política essa recusa em apontar causas é mais gritante do que o comércio global, onde os culpados são fáceis de identificar: os políticos que aprovaram acordos de livre comércio e as multinacionais que defenderam esses acordos e os usaram para terceirizar cada vez mais empregos. Muitos eleitores parecem concordar; não importa quantos editoriais invectivem contra as tarifas, elas continuam populares, especialmente nas regiões industriais e pós-industriais, onde Harris precisa desesperadamente de votos.

Talvez os democratas nacionais estejam relutantes em processar esse caso com muita severidade porque eles próprios têm uma parcela significativa da responsabilidade por impulsionar o NAFTA e permitir a consolidação do poder financeiro. O compromisso do partido com o livre comércio persistiu durante a presidência de Obama; defender o TPP foi uma de suas prioridades durante seu último ano no cargo. Mas isso é apenas política ruim. Trump não verifica com George W. Bush quando ele critica o NAFTA, e Harris não precisa ser muito educada com Bill Clinton também.

Harris seguirá o mesmo padrão de evasão? Até agora, os sinais são mistos. Ela tem um histórico surpreendentemente robusto de desafiar a antiga agenda comercial. Ela se opôs ao TPP como candidata ao Senado em 2016, argumentando que o acordo era ruim para os trabalhadores americanos e o meio ambiente e que o processo de negociação carecia de transparência. Ela reiterou essa posição em 2020: "Eu me oporei a qualquer acordo comercial que não cuide dos melhores interesses dos trabalhadores americanos e eleve os padrões ambientais, e infelizmente o TPP não passou em nenhum dos testes." Ela foi uma dos dez senadores que se opuseram ao NAFTA renegociado por Trump, o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA). "As disposições ambientais do USMCA são insuficientes", ela disse na época. Ele "não consegue enfrentar as crises deste momento".

Tudo isso lhe dá uma abertura para flanquear Trump no comércio. Em vez de deixá-lo se apresentar como o candidato pró-tarifas defendendo os trabalhadores, ela poderia reiterar seu apoio a tarifas inteligentes vinculadas a subsídios. Ela poderia dar continuidade à sua promessa de usar a revisão obrigatória de seis anos do USMCA para fazer com que o acordo beneficiasse a classe trabalhadora. Ela poderia destacar que Trump falhou em cumprir sua promessa de acabar com a terceirização de empregos americanos para o México. Ela poderia enfatizar que, ao contrário de sua fanfarronice, o déficit comercial aumentou ao longo de sua presidência em US$ 198 bilhões. Ela poderia garantir que os eleitores soubessem que ele traiu sua promessa em 2016 de negar contratos federais a empresas que terceirizaram empregos: de acordo com um relatório do Public Citizen, cinco das dez empresas às quais sua administração deu os contratos de maior valor — cerca de US$ 425,6 bilhões em impostos — fizeram exatamente isso. A United Technologies recebeu US$ 15 bilhões, mesmo enviando 1.300 empregos para o México.

A princípio, parecia improvável que Harris seguisse essa estratégia. Ela começou sua campanha evitando questões econômicas, presumivelmente porque era muito forte em aborto e acesso a assistência médica. Então, em setembro, talvez em resposta às preocupações de que ela estava ficando para trás na questão que mais importava aos eleitores, ela fez uma grande implementação de política econômica, que se concentrou em incentivos fiscais. Não deu certo: sua mensagem parecia, como o The New York Times observou, "feita sob medida para eleitores sentados em escritórios com painéis de madeira lendo a edição impressa do The Wall Street Journal" em vez de eleitores presos em um depósito. O padrão continuou: uma análise da BBC descobriu que nos primeiros cinco comícios que ele organizou após o debate presidencial, Trump mencionou a China quarenta vezes, enquanto Harris, em seus primeiros seis comícios pós-debate, nunca o fez. Harris às vezes promete mais manufatura doméstica, mas ela conta uma história clara sobre o que nos trouxe até aqui com menos frequência.

Mas suas críticas vigorosas, embora raras, ao histórico comercial de Trump dão algum espaço para esperança de que as coisas possam mudar. Para ouvir como isso pode soar, considere a declaração que ela fez em 26 de setembro, antes de uma viagem a Michigan:

Donald Trump é um dos maiores perdedores da indústria na história americana. ... Foi o acordo comercial de Trump que tornou muito fácil para uma grande empresa automobilística como a Stellantis quebrar sua palavra com os trabalhadores terceirizando empregos americanos. Como um dos dez senadores a votar contra o USMCA, eu sabia que não era suficiente para proteger nosso país e seus trabalhadores… Como presidente, trarei empregos de trabalhadores automotivos de volta a este país e criarei uma economia de oportunidades que fortaleça a indústria, os sindicatos e construa prosperidade e segurança para o futuro da América.

*

Se Harris vencer, que política comercial ela herdará? Quando Biden assumiu o cargo, o partido Democrata nacional permaneceu firmemente identificado publicamente com o livre comércio, mesmo que houvesse rachaduras no edifício. Obama passou seus últimos dois anos tentando forçar a aprovação do TPP; Hillary Clinton apoiou o acordo antes de se opor a ele; o próprio Biden o havia abraçado; e Bill Clinton, que ainda pairava sobre o partido, havia no passado recente não apenas aprovado o NAFTA, mas conseguido que o Congresso concedesse à China relações comerciais normais permanentes, permitindo assim que ela se juntasse à OMC, prometendo que isso abriria mercados sem tirar empregos.

Não seria exagero dizer que Biden mudou esse paradigma decisivamente. Ele manteve a maioria das tarifas de Trump e em 2024 colocou tarifas de 100% sobre carros elétricos da China, dobrou as tarifas sobre células solares e semicondutores e mais do que triplicou as sobre aço e alumínio. Mais importante, ele forneceu subsídios substanciais à manufatura doméstica na forma de três grandes pacotes de políticas: o Inflation Reduction Act (IRA), o CHIPS Act e o Infrastructure Investment and Jobs Act. De acordo com o Center for American Progress, quase 60.000 novos empregos (e crescendo) foram criados somente na indústria de semicondutores e, de acordo com a Moody's Analytics, os Estados Unidos agora desfrutam do maior nível de investimento em construção de fábricas em cinquenta anos. Biden continuou com essas políticas mesmo quando elas irritaram aliados próximos: na Europa, os legisladores alegaram que os subsídios para tecnologias limpas violavam as regras comerciais da OMC e ameaçavam suas próprias indústrias. A China eventualmente pediu à OMC para criar um painel para determinar se os créditos fiscais para veículos elétricos no IRA violam as regras comerciais globais; no mês passado, a OMC aprovou sua solicitação.

A representante comercial dos EUA, Katherine Tai, dando uma entrevista coletiva no porto de Baltimore durante um evento do Diálogo sobre o Futuro do Comércio Atlântico, Baltimore, Maryland, 2022
Ting Shen/Bloomberg/Getty Images

Liderando essa agenda estava a representante comercial dos EUA (USTR), Katherine Tai, um dos membros mais subestimados do governo. Ela assumiu o cargo com uma compreensão íntima dos desafios que as políticas comerciais mercantilistas da China representavam para os trabalhadores americanos: em sua passagem anterior no escritório do USTR, ela litigou casos de execução comercial contra a China na OMC; como advogada comercial líder do Comitê de Meios e Recursos dos Democratas da Câmara, ela trabalhou para fechar brechas legais que dificultavam a aplicação da política comercial. Enquanto ajudava a liderança democrata a negociar o USMCA, ela desenvolveu os primeiros sistemas específicos de instalações para aplicação de padrões trabalhistas em qualquer acordo comercial, o que permite que os dois governos sancionem empresas mexicanas que violem as regras trabalhistas. A política efetivamente apoia os trabalhadores de ambos os lados da fronteira, facilitando a denúncia de violações trabalhistas no México.

Sua abordagem é estabelecer altos padrões trabalhistas, ambientais e outros para atrair comércio de países dispostos a atender a tais termos. “Nossas cadeias de suprimentos globais... foram criadas para maximizar a eficiência de curto prazo e minimizar custos”, ela disse ao National Press Club em 2023. Elas incentivaram “países a competir mantendo padrões mais baixos” e atraíram empresas que buscam eficiência ideal: “Esta é a corrida para o fundo, onde a exploração é recompensada”. Agora, ela argumentou, esses sistemas tinham “que ser redesenhados para resiliência”.

No mesmo discurso, ela defendeu uma abordagem antimonopólio para regular as cadeias de suprimentos. Um princípio do pensamento antitruste é que a capacidade e o poder devem ser distribuídos, porque sistemas centralizados são corruptíveis, corruptores e instáveis. A visão de Tai para o comércio também envolve garantir que nenhum país tenha o monopólio de componentes cruciais nas cadeias de suprimentos. Como a China conquistou tantos mercados vitais, como suprimentos médicos, minerais essenciais para tecnologia limpa e equipamentos de comunicação, um foco antimonopólio necessariamente coloca a China na frente e no centro, mas não se trata apenas da China. Em um nível mais amplo, Tai estava desafiando o relacionamento tradicional entre comércio e outras áreas da política econômica doméstica, deixando claro que elas teriam que se apoiar: qualquer abordagem coerente em direção a, digamos, energia verde ou medicina acessível requer ação em ambas as frentes.

O que é ainda mais notável é que Tai conseguiu tudo isso sem, segundo relatos, ter um relacionamento próximo com Biden e trabalhando na mira de grandes entidades corporativas globais. O USTR está dentro do gabinete, em contraste com a FTC, uma agência independente onde Lina Khan e os outros comissários definem a agenda. O escritório de Tai, portanto, se tornou um centro de lutas internas. (Provavelmente não facilita o fato de ela ter herdado muitos funcionários das eras Clinton e Obama que se irritam com sua visão.) A Câmara de Comércio dos EUA se opôs publicamente às suas políticas, assim como grandes grupos comerciais de tecnologia e farmacêutica. Alguns observadores suspeitam que a Big Tech esteja tentando, nos bastidores, tirar o poder do USTR.

*

Em retrospecto, a abordagem de Biden e Tai revela o quão completamente seus predecessores fetichizaram o dogma comercial dos anos 1990. (Ainda é possível ouvir essa tendência na crítica corporativa de que Biden está "usando o comércio" para tentar "fazer demais".) Parte de sua inovação foi tratar o comércio como, digamos, impostos — como uma ferramenta para atingir fins específicos, como proteger os trabalhadores americanos, manter os preços dos medicamentos baixos, combater abusos de monopólio e garantir que a economia doméstica permaneça resiliente diante de choques econômicos globais e desastres climáticos. Os efeitos dessa abordagem não serão vistos por completo por anos, e é claramente muito cedo para comemorar a vitória, mas já há sinais de que está começando a funcionar: o menor déficit comercial em uma década, novos centros de manufatura, salários mais altos. No Vale do Hudson, por exemplo, a IBM está pronta para voltar com tudo. Por causa da combinação de subsídios e tarifas de Biden, ela promete investir US$ 20 bilhões na região, fabricando semicondutores, mainframes e centros de computação quântica em cidades como Poughkeepsie. Novos empregos estão surgindo; por exemplo, a empresa de semicondutores AMD montou duas instalações na área.

Não é à toa que o candidato democrata que concorre este ano em parte do meu antigo distrito, Josh Riley, está adotando tarifas. "Temos que permitir que os trabalhadores americanos trabalhem em igualdade de condições", disse ele ao Cortland Standard. Ele também está apontando dedos, contando histórias pungentes sobre como os grandes acordos comerciais da década de 1990 prejudicaram seus próprios pais. "Eles trabalharam duro para me vestir, pagar a faculdade e me dar melhores oportunidades", disse ele. Os acordos comerciais acabaram com essa chance: "Meu tio perdeu o emprego; meu vizinho perdeu o emprego. Todos perderam empregos... Quanto pior era para meu bairro, minha comunidade, meus amigos, melhor era para Wall Street."

Alguns comentaristas se preocupam que Harris esteja muito próxima de grandes empresas de tecnologia e possa, se vencer, carregar a água delas no cargo. Isso pode implicar acomodar os lobistas da indústria, que estão ansiosos, de acordo com um relatório recente da Rethink Trade, para usar acordos comerciais para impedir políticas federais e estaduais que protegeriam a privacidade online e a segurança de dados, impediriam abusos de direitos civis, regulariam a IA e garantiriam o direito de reparação. (Eles alegam, por exemplo, que o Digital Markets Act da Europa — que visa tornar a internet mais justa, por exemplo, permitindo que usuários do iPhone comprem aplicativos de fora da Apple Store — cria barreiras inadmissíveis ao "comércio digital".)

Mas Harris também poderia ser uma presidente comercial transformacional, estendendo as políticas de Biden e até mesmo pressionando para renegociar os inquilinos centrais da OMC. Um problema central com o atual regime de comércio global é que ele usa mecanismos de "comércio" para limitar a capacidade dos países de definir sua política energética, leis antimonopólio e trabalhistas, regras de segurança de produtos e padrões para regulamentação financeira. Harris poderia defender a reforma da OMC em nome dos trabalhadores, do meio ambiente e da democracia.

De qualquer forma, os democratas vão lutar para ganhar o caso sobre a economia até que formulem uma história clara sobre quem é responsável pelos maiores níveis de desigualdade na história americana: os quarenta anos de salários estagnados, as crescentes mortes por desespero, o preço volátil dos ovos, o declínio acelerado, até recentemente, de pequenas empresas. A ultraglobalização não é responsável por todas essas crises, mas certamente teve um papel nelas. Mesmo que condenemos o bode expiatório de Trump, que faz pessoas inocentes suportarem o fardo da violência social, também devemos reconhecer que as pessoas precisam entender quem e o que culpar por gerações de sofrimento e esperanças perdidas.

A questão é se Harris pode competir com o falso populismo de Trump se comprometendo a entregar os resultados que ele novamente promete, mas novamente não entregará. Ela pode convencer os eleitores de que entende o que aconteceu com os empregos americanos, o que causou isso e quão crítico é — para os trabalhadores americanos e para o clima — reformar a OMC? Isso pode fazer toda a diferença.

Zephyr Teachout é professora na Fordham Law School. Ela é autora de Corruption in America: From Benjamin Franklin’s Snuffbox to Citizens United e Break ’Em Up: Recovering Our Freedom From Big Ag, Big Tech, and Big Money. (Outubro de 2024)

18 de agosto de 2022

O chefe vai te ver agora

Estamos passando por um grande ponto de virada na vigilância dos trabalhadores, impulsionado pela tecnologia vestível, inteligência artificial e Covid.

Zephyr Teachout


Ilustração de Tom Bachtell

Super Pumped: The Battle for Uber
by Mike Isaac
Norton, 387 pp., $27.95; $18.95 (paper)

Private Government: How Employers Rule Our Lives (and Why We Don’t Talk About It)
by Elizabeth Anderson, with an introduction by Stephen Macedo
Princeton University Press, 196 pp., $39.95; $19.95 (paper)

Amazon Unbound: Jeff Bezos and the Invention of a Global Empire
by Brad Stone
Simon and Schuster, 492 pp., $30.00; $20.00 (paper)

Your Boss Is an Algorithm: Artificial Intelligence, Platform Work and Labour
by Antonio Aloisi and Valerio De Stefano
Hart, 190 pp., $90.00; $29.95 (paper)

Tradução / Décadas atrás, quando me mudei para Nova York, me apresentei para uma vaga de assistente pessoal de um escritor. Imaginei que me tornaria uma amanuense, traduzindo pronunciamentos inspirados em poemas. Em vez disso, o que fiz foi encomendar e devolver suéteres, programar cortes de cabelo e fazer planos de refeições para literatos que nunca cheguei a conhecer. Minha chefe, seu marido (um gerente de investimentos) e seus filhos moravam na Park Avenue, em uma cobertura com cortinas georgianas e janelas com isolamento acústico triplo. Ela contratava serviços personalizados: personal trainers, personal shoppers, professor particular de poesia, personal coach de ópera. Eu era uma das quatro funcionárias em tempo integral, junto com duas babás irlandesas e uma empregada francesa. Durante nosso almoço de trinta minutos, nós quatro corríamos para a cozinha para usar a pequena torneira dourada que fornecia água fervente instantânea para fazer chá e sopa. Bebíamos, ríamos e reclamávamos da nossa chefe.

Durante uma dessas refeições, a babá-chefe começou uma ligação no canto da cozinha e depois rapidamente desligou o telefone. Apontando para o aparelho, ela murmurou que achava que nossa chefe estava ouvindo. Enquanto sorvíamos nossa sopa, eu disse que nossa chefe sempre me pedia relatórios sobre o que conversávamos e a babá sussurrou que tinha certeza de tê-la visto à espreita do lado de fora da porta da cozinha. Na hora foi engraçado, mas logo passou: uma pontada de ansiedade começou a se espalhar pela sala.

Algumas semanas depois, a empregada foi demitida. Não ficou claro se sua demissão tinha qualquer relação com algo que tenha sido dito. Mas uma vez que a paranoia mete as garras em você, ela não solta assim tão fácil. Nossos salários e aumentos eram imprevisíveis. Dois dos funcionários dependiam de green cards. Essas circunstâncias, que haviam sido objeto de tantas conversas, de repente se tornaram um motivo de insegurança. Nós, primeiro gradualmente, depois de uma vez, paramos de almoçar juntos.

Essa pequena e desanimadora experiência me vem à memória agora, quando vivemos uma explosão de investimentos corporativos em vigilância no local de trabalho. O ano de 1995, quando tive esse emprego, hoje parece quase pitoresco, uma era de ingenuidade no mundo da vigilância. Não havia Facebook ou Google seguindo as pessoas aonde quer que fossem, nem os assustadores anúncios personalizados. Naquela época, os estadunidenses passavam uma média de 30 minutos por mês online, e a vigilância da intimidade 24 horas por dia, 7 dias por semana, era reservada aos alvos de investigações do FBI.

Nos vários trabalhos que eu tive até os 24 anos, eu entrava e saía, começava a lavar a louça mais rápido quando o supervisor passava, pesava os grãos que colhia, negociava para sair mais cedo em troca de limpar uns banheiros a mais e escrevia relatórios para a professora da terceira série que eu ajudava na sala de aula. Até as gorjetas que recebi como garçonete eram problema meu, não dos restaurantes. Meus chefes me conheciam superficialmente – minhas roupas, minha produtividade geral – não o que eu pensava ou sentia fora do local de trabalho, a menos que eu decidisse compartilhar.

Acontece que as décadas de 1980 e 1990 representaram um ponto de virada na vigilância, foi o período em que as empresas iniciaram seus primeiros investimentos em monitoramento eletrônico de desempenho. Em 1987, cerca de 6 milhões de trabalhadores eram observados de alguma forma mediada, geralmente por uma câmera de vídeo ou gravador de áudio; em 1994, aproximadamente um em cada sete trabalhadores estadunidenses, cerca de 20 milhões, estava sendo monitorado eletronicamente no trabalho. Os números aumentaram constantemente a partir daí. Quando a tecnologia da fita de vídeo foi suplantada por dispositivos digitais que podiam escanear vários locais ao mesmo tempo, as primeiras câmeras instaladas para proteger as empresas contra roubo redirecionaram seu olhar insaciável das mercadorias para os trabalhadores.

O segundo grande ponto de virada no monitoramento eletrônico de desempenho está acontecendo agora. Ele é impulsionado pela tecnologia vestível (wearable tech), pela inteligência artificial e pela covid. O uso de software de vigilância pelas empresas aumentou 50% em 2020, o primeiro ano da pandemia, segundo algumas estimativas, e continuou a crescer.

Essa nova tecnologia de rastreamento é onipresente e intrusiva. As empresas rastreiam em nome da segurança, da eficiência ou apenas porque têm essa capacidade. Elas inspecionam, preservam e analisam movimentos, conversas, conexões sociais e afetos. Se a primeira expansão da vigilância foi uma apropriação territorial, afirmando autoridade sobre toda pessoa no trabalho, a segunda expansão diz respeito a como estilhaçar esse espaço. Está mudando a composição estrutural de como os humanos se relacionam uns com os outros e consigo mesmos.

Alguns motoristas de longa distância têm que dirigir um caminhão de 15 metros por mil quilômetros por dia com uma câmera de vídeo olhando para eles o tempo todo, observando seus olhos, seus dedos, seus espasmos, seus assobios, seus movimentos de pescoço. Imagine viver na frente daquela câmera intrometida com cara de chefe por meses a fio enquanto ela examina o seu táxi, que serve como sua casa na maior parte do tempo. Em um dos muitos fóruns furiosos do Reddit sobre câmeras voltadas para motoristas, um caminhoneiro escreveu que só suportaria uma câmera “se o proprietário da empresa me der um acesso irrestrito 24 horas por dia, 7 dias por semana, na casa dele”. “Essas poucas centenas de quilômetros por dia são o único tempo que tenho completamente para mim e sinto como se estivesse sendo marcado”, acrescentou outro. “Eu só quero cutucar meu nariz e coçar meu saco em paz.” Um motorista de ônibus descreveu o desejo humano de fazer uma cara estranha ou falar sozinho, ou mesmo cantar uma música… “Eu podia sentir menos cortisol fluindo pelo meu corpo no meu segundo emprego, onde os ônibus eram mais velhos e não tinham câmeras dentro. Isso te adoece e te deixa esgotado."

Os empregadores leem os e-mails dos funcionários, rastreiam seu uso da internet e ouvem suas conversas. Enfermeiros e trabalhadores de estoque são obrigados a usar crachás de identificação, pulseiras ou roupas com chips que rastreiam seus movimentos, medindo os passos e comparando-os tanto com os dos colegas de trabalho quanto com os seus próprios de dias anteriores.

Os braceletes que agora com frequência circundam a pele do seu braço, acariciando o seu nervo mediano, podem no futuro ser usados para enviar sinais para você ou seu empregador, medindo quantos minutos você passa no banheiro. A Amazon, que rastreia minuciosamente cada momento da atividade de um funcionário do estoque, cada pausa e conversa, tem a patente de uma pulseira que, segundo o Times, “seria capaz de emitir impulsos de som ultrassônicos e transmissões de rádio para rastrear onde as mãos de um funcionário estavam em relação ao estoque de caixas” e, em seguida, vibraria para direcionar o trabalhador para a caixa correta. Um “boné inteligente” (SmartCap) usado em caminhões monitora as ondas cerebrais de cansaço.

Um software de recursos humanos pode monitorar o tom de voz dos trabalhadores. Uma grande empresa de tecnologia, a Cogito, divulga seu produto como “o coach alimentado por IA [que] melhora o desempenho dos humanos por meio de análise e feedback de voz em chamadas em tempo real”. Enquanto os trabalhadores ganham US$ 15 por hora atendendo reclamações de consumidores irritados em um cubículo, eles devem prestar atenção a uma tela pop-up que começa a piscar se eles falarem muito rápido, se houver sobreposição entre sua voz e a voz do cliente ou se fizerem uma pausa longa demais. “Empatia em larga escala”, orgulha-se a empresa.

Em certo sentido, rastrear o comportamento na intimidade não é novidade: o modelo de negócios de empresas de tecnologia como Facebook e Google, afinal, depende do rastreamento de usuários dentro e fora de seus sites. A mercantilização dos dados está em sua terceira década de existência. Mas vigilância e gerenciamento automático no trabalho são diferentes. Os trabalhadores não podem optar por sair sem perder seus empregos: você não pode desligar a câmera no caminhão se isso for contra a política da empresa; você não pode arrancar o dispositivo de gravação do seu cartão de identificação. E a vigilância do trabalhador vem com uma poderosa ameaça implícita: se a empresa perceber muita fadiga, você pode ser excluído da próxima promoção. Se a máquina ouvir algo que não gostar, você pode ser demitido.

As implicações políticas da vigilância onipresente no emprego são monumentais. Embora os chefes sempre tenham ouvido as conversas dos trabalhadores, eles só podiam fazer isso raramente – qualquer coisa além disso era logisticamente impossível. Agora não. Os funcionários precisam assumir que tudo o que dizem pode ser gravado. O que acontece quando todas as palavras e o tom dessas palavras podem ser gravados e reproduzidos? Sussurrar não funciona mais.

Em muitos casos, a vigilância ao trabalhador é instalada por razões explícitas de segurança, por exemplo, as câmeras térmicas instaladas para proteger clientes e colegas de um trabalhador que esteja com febre. Mas ela não é, ao que parece, boa para o nosso bem-estar. A vigilância eletrônica coloca o corpo da pessoa rastreada em um estado de hipervigilância perpétua, o que é particularmente ruim para a saúde – e ainda pior quando acompanhada de impotência em reagir. Os funcionários que sabem que estão sendo monitorados podem apresentar ansiedade, desgaste, ou ficar extremamente tensos e irritados. O monitoramento causa uma liberação de substâncias químicas de estresse e as mantém fluindo, o que pode agravar problemas cardíacos. Pode levar a distúrbios do humor, hiperventilação e depressão. Professores de administração das Universidades Cornell e McMaster realizaram recentemente uma pesquisa sobre monitoramento eletrônico em call centers e mostraram que o estresse causado por isso era tão grande quanto o estresse causado por clientes abusivos. Os trabalhadores sentem que o monitoramento é usado para disciplinamento, não para melhoria do que seja, que as expectativas não eram razoáveis ​​e o uso do monitoramento era injusto. Eles preferiam um chefe humano a um espião robô sempre presente com o poder de afetar seus contracheques.

É alguma surpresa que a saúde mental dos caminhoneiros esteja sofrendo? Ou que os funcionários do call center estejam se deprimindo? Caminhoneiros e trabalhadores de call center relatam uma espécie de neblina desestabilizadora, uma camada constante de incerteza e paranoia: qual gesto de mão, qual pausa no banheiro, qual conversa foi que me fez perder aquele bônus? “Sei que estamos trabalhando, mas, quero dizer, tenho medo de coçar o nariz”, disse um motorista da Amazon ao Insider em uma matéria sobre as câmeras voltadas para o motorista da empresa. A matéria não mencionou o nome dele, por medo de represálias.

Em 2011, Travis Kalanick, fundador da Uber, convidou os moradores de Chicago para uma festa no Elysian Hotel. Em uma grande tela, ele exibiu o que inicialmente chamou de “God View” (visão de Deus) e depois renomeou “Heaven” (Paraíso), um mapa no qual a empresa conseguia rastrear os motoristas, sem que eles soubessem. Os participantes assistiram com espanto a centenas de carros que circulavam pela cidade em tempo real, atordoados em seu poleiro no topo do mundo.

Esta anedota, de Super Pumped: The Battle for Uber, de Mike Isaac, mostra Kalanick exultante, saboreando seu poder de dominação. Mais frequentemente vemos ele, e a empresa, exibindo sua habitual paranoia, espionando para proteger a fortaleza. O livro começa contando o caso em que Kalanick, para responder à fiscalização, contrata “funcionários que eram ex-CIA, NSA e FBI” com o objetivo de construir uma “força de espionagem corporativa de alto desempenho” que “espionava funcionários do governo, analisava profundamente suas vidas pessoais e às vezes os seguia até suas casas”. Uma vez que os espiões corporativos identificaram quem eram os fiscais que estavam tentando documentar um caso e mostrar que a Uber estava violando leis locais, a empresa criou um código para garantir que esses fiscais nunca conseguissem chamar motoristas da Uber e, portanto, não pudessem investigar violações das leis de trabalho locais. Em substituição, a Uber apresentava a eles um modelo simulado do aplicativo com carros falsos. O fiscal achava que tinha conseguido um motorista, mas este nunca aparecia. A Uber chamou o programa de “Greyball” (bola cinza).

Isaac é repórter de tecnologia do New York Times e escreve frequentemente sobre o Vale do Silício. Ele revelou a história do Greyball no Times em 2017, dois anos antes de seu livro ser publicado. Seu fascinante retrato da Uber mostra a empresa desde seus primeiros dias até a expulsão definitiva de Kalanick, retornando várias vezes ao modo como a Uber usava a vigilância para ampliar seu poder. A empresa rastreava os clientes depois que eles deixavam suas corridas, extraía dados de cartão de crédito para tirar informações sobre os concorrentes e espionava motoristas que dirigiam para empresas rivais. Ela construiu um “Grupo de Serviços Estratégicos” que usava “redes privadas virtuais, laptops baratos e pontos de acesso sem fio pagos em dinheiro”. A Uber também se fez passar por motoristas em chats de grupos privados para aprender sobre rivais, tirou fotos de funcionários, seguiu pessoas e gravou conversas privadas de concorrentes.

Isaac demonstra como Kalanick gastou dezenas de milhões de dólares em espionagem e atividades relacionadas. Em julho, Mark MacGann, ex-lobista-chefe da Uber na Europa, Oriente Médio e África, vazou para The Guardian mais de 124 mil documentos que mostravam a extensão do desrespeito à lei da Uber entre 2013 e 2017 e como os executivos cortejavam chefes de Estado para construir seu império.

Em 2017, após uma série de escândalos de assédio sexual e discriminação no local de trabalho, Kalanick foi substituído como CEO por Dara Khosrowshahi, anteriormente chefe da Expedia. Khosrowshahi mudou a empresa em vários aspectos desde que assumiu, mas a questão da vigilância não parece ter diminuído.

No período coberto pelo livro de Isaac, a Uber supostamente recebia de 20 a 25% do custo da viagem, além de complementos. Este ano, Khosrowshahi lançou um novo sistema para pagar motoristas e preços de corridas em algumas cidades. A tarifa é baseada em “vários fatores” – incluindo, de acordo com o site de notícias investigativas online The Markup, “tarifas básicas, distância e duração estimadas da viagem, demanda em tempo real no destino e preços de pico”. Dessa forma, a remuneração dos motoristas ficou menos transparente e pode variar. Um motorista compartilhou capturas de tela de seus pagamentos com The Markup. Uma mostrava-o recebendo US$ 14 por uma corrida enquanto a Uber recebia US$ 13, outro o mostrava recebendo US$ 6 dólares enquanto a Uber levava US$ 9. Ninguém sabe por que o pagamento do motorista flutuava. Sabemos que a Uber rastreia muitas métricas, como a velocidade com que os motoristas freiam, para onde vão, suas classificações, as viagens que aceitam e cancelam, quanto tempo levam para chegar a algum lugar: parece provável que o pagamento esteja vinculado a todos esses dados.

Outras empresas, como as plataformas de entrega de alimentos DoorDash e Instacart, vêm fazendo algo semelhante, usando sistemas não transparentes para distribuir pagamentos personalizados. A Instacart costumava pagar um valor base aos entregadores, mas agora as decisões de pagamento são uma caixa preta. Os trabalhadores temem que a empresa esteja usando tudo o que sabe para pagá-los o menos possível. Mas eles não podem provar nada.

Tudo isso é desmoralizante e distópico, mas o que isso tem a ver com democracia? Elizabeth Anderson lançou em 2017 um livro vivaz e persuasivo, Private Government, que oferece uma parte da resposta. Anderson, filósofa política da Universidade de Michigan, dá um chacoalhão no leitor para tirá-lo da estranha rigidez que permeia a discussão pública sobre governo. O emprego é uma forma de governo, argumenta ela, muito mais relevante e imediata para a maioria das pessoas do que as questões relativas a Washington.

Uma empresa poderosa como a Amazon, por exemplo, define seus próprios termos de empregabilidade e, ao fazê-lo, impacta os motoristas de uma empresa como a UPS e o setor de logística em geral. Empregadores privados com influência em todo o setor têm poder de coerção: o que Anderson chama de poder de governo. Esse governo privado, personificado por grupos privados ou por monopólios econômicos sancionados pelo Estado, era o alvo central de intelectuais e ativistas como John Locke e os Levellers. Anderson vê em Locke, Adam Smith e outros uma crença de que o poder arbitrário de rebaixar e disciplinar é uma ameaça a uma sociedade livre, onde quer que apareça, e que o governo público e responsável deve nos proteger contra a tirania privada.

Muitos “pensadores e políticos modernos”, argumenta ela, são “como aqueles pacientes que não conseguem sentir metade de seus corpos”: eles “não conseguem perceber metade da economia: eles não conseguem perceber a metade que ocorre além do mercado, após o contrato de trabalho ser aceito”. Como resultado, as empresas são geralmente tratadas como sendo totalmente privadas.

Muitos trabalhadores do setor privado, escreve Anderson, vivem sob ditaduras em suas vidas profissionais. Normalmente, essas ditaduras têm autoridade legal para regular também a vida fora do expediente dos trabalhadores – suas atividades políticas, discurso, escolha do/a parceiro/a sexual, uso de drogas recreativas, álcool, tabagismo e exercícios físicos.

Para ela, trabalhadores de serviços que marcam ponto, ou técnicos e corretores de imóveis e cozinheiros que parecem dotados de liberdades substanciais, são sobrecarregados por um sistema legal que permite que as corporações demitam um trabalhador com base no que ele faz em atividades fora do horário.

Os direitos de expressão dos trabalhadores são praticamente inexistentes, exceto no que se refere explicitamente à organização trabalhista, o que, argumenta Anderson, é efetivamente letra morta nos dias de hoje devido à dificuldade de aplicação e ao medo de desafiar as táticas do patrão.

Como as coisas ficaram tão ruins? Anderson acredita que os problemas básicos que permitiram o atual ambiente de trabalho distópico remontam gerações. Quando a Revolução Industrial deslocou o “local principal do trabalho remunerado do lar para a fábrica”, importou a longa tradição de poder totalmente arbitrário de dentro do lar, em que os filhos não tinham liberdade em relação aos pais e às esposas tinham liberdade muito limitada em relação aos seus cônjuges. A Revolução Industrial poderia ter proporcionado uma fuga das tiranias privadas da vida doméstica, mas, em vez disso, as replicou.

Durante o apogeu da Ford Motor Company, seu Departamento Sociológico começou a inspecionar as casas dos trabalhadores. Anderson escreve:

“Os trabalhadores eram elegíveis para o famoso salário diário de US$ 5 da Ford apenas se mantivessem suas casas limpas, fizessem dietas consideradas saudáveis, se abstivessem de beber, usassem a banheira adequadamente, não aceitassem pensionistas, evitassem gastar muito com parentes estrangeiros e fossem assimilados às normas culturais americanas.”

Anderson ressalta que, embora a Apple não visite as casas das pessoas hoje, ela exige que os trabalhadores do varejo abram suas malas para inspeções antes de entrar no trabalho. Tratamos isso como algo normal, ela observa, mas deveríamos? Quase metade dos estadunidenses foi submetida a um teste de drogas sem suspeita. E muitos trabalhadores não têm proteção contra serem demitidos pelo que dizem nas mídias sociais. Para aqueles que afirmam que o local de trabalho não é um governo porque você pode pedir demissão, Anderson retruca: “É como dizer que Mussolini não era um ditador, porque os italianos podiam emigrar”.

O foco de Anderson não é a vigilância, mas seu trabalho sugere duas coisas. A primeira é que, para lidar com a espionagem constante, devemos nos concentrar na questão do poder, não apenas na tecnologia. Os direitos trabalhistas e a fiscalização antitruste devem ser respostas de primeiro nível às atuais – e cada vez piores – estruturas de poder. Em segundo lugar, devemos tratar a vigilância do empregador como fazemos com qualquer vigilância governamental – em outras palavras, com profunda suspeita. É um truísmo dizer que a vigilância governamental inibe o discurso e o debate e corrói a esfera pública; uma vez que possamos perceber o local de trabalho como um local de governo, talvez possamos construir um movimento político por maior liberdade nos lugares onde os trabalhadores estadunidenses passam a maior parte de suas horas de vida.

Para entender a realidade em que estamos, precisamos ser capazes de conversar uns com os outros sem medo de que nossas conversas sejam usadas contra nós. As conversas privadas entre os trabalhadores – e as amizades, debates, perguntas – fazem parte da coesão e conexão que possibilitam não apenas a organização trabalhista, mas a vida pública. Quando tudo o que dizemos está sendo ouvido – especialmente por um grupo menor e mais poderoso de empregadores – pode ser mais fácil não falar mais. Isso não é diferente do totalitarismo político contra o qual Hannah Arendt nos alertou, onde o Estado visa desintegrar o privado e o público, submergindo o privado no público e depois controlando o público. A conclusão lógica da vigilância no local de trabalho é que a esfera privada deixa de existir em casa porque ela deixa de existir no trabalho, onde a visibilidade sobre a vida do trabalhador é irrestrita.

Três anos atrás, enquanto eu estava escrevendo meu livro sobre monopólios e como eles agem como governos privados, conversei com criadores de frango que a cada mês recebiam valores diferentes dos grandes distribuidores de aves. Um fazendeiro se destaca na minha memória. Amoroso, bravo e desalentado, esse homem descreveu como era examinar um mês de pagamento de seu distribuidor de aves e não saber se o pagamento refletia uma concorrência justa com outros criadores, uma retaliação por algo que tenha falado ou uma evidência de que ele fazia parte de um experimento. Ele contou que outros fazendeiros confessaram que ficaram tão bravos que tinham vontade de matar os distribuidores.

Este sistema de pagamento é chamado de sistema de “torneio”. Os agricultores competem para serem os mais produtivos. Teoricamente, eles são pagos com base em quão produtivos são em relação a outros agricultores. No entanto, não há mecanismo de prestação de contas ou verificação de fatos: o distribuidor mantém todos os dados e, quando distribui os contracheques, os agricultores, totalmente dependentes do distribuidor para pagar suas contas, têm que aceitar que ele está sendo honesto.

Uma estrutura semelhante – um “torneio” – é o modelo de como a Amazon exerce poder sobre suas contrapartes, sejam elas governos, vendedores ou trabalhadores. No segundo livro de Brad Stone sobre o crescimento corporativo da Amazon, Amazon Unbound, ele aborda a enorme expansão da empresa na última década e o crescimento de seu poder político.

Jeff Bezos, no relato de Stone, estava profundamente envolvido em todos os aspectos de RH, tanto nos escritórios corporativos quanto nos depósitos. Ele adotou um sistema de pagamento e promoção chamado “stack ranking”, no qual os gerentes de nível médio classificavam seus funcionários e demitiam os de classificação mais baixa. Os gerentes tinham cotas de quantas pessoas precisavam demitir e esperavam classificá-los para chegar lá. Depois de uma matéria de primeira página no Times sobre como a cultura da empresa colocava os trabalhadores uns contra os outros, a prática foi encerrada.

Mas a filosofia – forçar as pessoas a lutar entre si, expulsar os de pior desempenho – continua ressurgindo em diferentes setores da empresa. Quando a Amazon contava com terceirizados para fazer as entregas, desenvolveu um aplicativo chamado “Rabbit” que rastreava a entrega. A equipe do Rabbit observava os motoristas, escreve Stone, “saltar refeições, passar pelos sinais de trânsito fechados e prender seus telefones nas pernas das calças para que pudessem olhar facilmente para a tela, tudo para cumprir prazos de entrega desafiadores”. Aqueles que não alcançavam as metas eram demitidos. Quando a Amazon decidiu que queria construir uma nova sede, anunciou um torneio para determinar a localização – obtendo gratuitamente os dados de 238 cidades no processo.

De acordo com Stone, repórter de tecnologia da Bloomberg News, Bezos ficou furioso quando o chefe de operações da Amazon tentou fazer com que a empresa incorporasse a abordagem “Lean” da Toyota, na qual os trabalhadores desenvolvem confiança e relacionamentos com seus gerentes com o objetivo de manter o relacionamento de longo prazo no emprego. Quando o vice de RH do mesmo departamento apresentou um artigo chamado “Respect for People”, Stone relata: “Bezos odiou. Ele não apenas criticou isso na reunião, mas chamou [o encarregado] na manhã seguinte para continuar a intimidação”. Em vez de uma força de trabalho estável, ele queria que os trabalhadores do centro de distribuição ficassem por no máximo três anos, a menos que conseguissem um novo emprego internamente. Ele limitou severamente os aumentos após três anos.

Para esses trabalhadores, a empresa impõe exigências extraordinárias: proíbe falar, rastreia tudo, demite trabalhadores que não cumprem suas cotas e espera que as condições sejam ruins o suficiente para que os trabalhadores desistam. Antes da pandemia, informou o Times, “a rotatividade de sua força de trabalho era de aproximadamente 150% ao ano”.

“Você passa 10 horas em pé, num local sem janelas e sem permissão para conversar com as pessoas – não há interações permitidas”, relatou um funcionário para uma matéria da Vox sobre o crescente número de ligações para o 911 dos centros de distribuição da Amazon. “Percebi em pouco tempo que eles forçam as pessoas a trabalhar até a morte, ou até que fiquem cansadas demais para continuar trabalhando.”

“Essa é uma das grandes razões pelas quais as pessoas querem se sindicalizar”, disse, ao Washington Post em dezembro passado, Chris Smalls, líder do Sindicato dos Trabalhadores da Amazon, que organizou um depósito em Staten Island este ano. “Quem quer ser vigiado o dia inteiro? Isso não é uma prisão. É um trabalho.”

Pode ser tentador ver a vigilância da Amazon como um problema puramente do local de trabalho e o pagamento variável orientado por vigilância como um problema puramente profissional, mas os empregadores não enfrentam limites legais para incorporar novos tipos de pagamento variável ao emprego formal – e abusos enfrentados por contratados independentes estão se fundindo com aqueles enfrentados pelos empregados formais. Este é um dos argumentos centrais de Your Boss Is an Algorithm, dos professores de direito Antonio Aloisi e Valerio De Stefano. O “Gig work”, onde o trabalhador é mais fraco, é um local de experimentação de novas técnicas gerenciais. Esses experimentos tornam-se o campo de provas para estratégias que são então levadas para outras formas de emprego.

O futuro, argumentam Aloisi e De Stefano, está na combinação das ferramentas de rastreamento e recompensa do trabalho temporário com contratos de trabalho que permitam mudanças nos salários. O kit de ferramentas existente é vasto:

O Activtrack inspeciona os programas usados ​​e informa aos chefes se um funcionário está sem foco, gastando tempo nas mídias sociais. O OccupEye registra quando e por quanto tempo alguém está longe de sua estação de trabalho. O TimeDoctor e o Teramind acompanham todas as tarefas realizadas online. Da mesma forma, o Interguard compila uma linha do tempo minuto a minuto que monitora todos os dados, como histórico da web e utilização de largura de banda, e envia uma notificação aos gerentes se os funcionários detectarem algo suspeito. O HubStaff e o Sneek, como rotina, tiram fotos de funcionários por meio de suas webcams a cada cinco minutos para gerar um cartão de ponto e os fazem circular para aumentar o moral. O Pragli sincroniza calendários profissionais e listas de reprodução de música para criar um senso de comunidade, e também possui um reconhecimento facial que pode exibir a emoção do mundo real de um trabalhador no rosto de seu avatar virtual.

No momento, pode haver provas limitadas de que essas ferramentas são usadas para variar a remuneração em locais de trabalho tradicionais. Mas os autores argumentam que essas ferramentas técnicas não são difíceis de combinar com as inovações legais nos contratos de trabalho. Contratos que permitem salários variáveis podem facilmente trazer muitas das condições do trabalho temporário para o emprego tradicional. As corporações podem em breve abandonar o modelo de salário fixo que tem sido uma característica dos empregos operacionais há décadas.

Não é coincidência que a vigilância rotineira do trabalho tenha seguido de perto a revolução antitruste de Reagan e o colapso da sindicalização do setor privado. Nada, exceto a sindicalização ou novas leis, impediria um empregador de pegar todos os dados que está coletando de sensores e gravações e usá-los para ajustar os salários com mais precisão, até que cada trabalhador receba o salário mais baixo pelo qual está disposto a trabalhar e todos os trabalhadores vivam com medo de retaliação. Isso não é mais ficção científica do que o Facebook e o Google servindo aos usuários conteúdo individualizado e anúncios projetados para nos manter conectados em seus serviços o maior tempo possível, permitindo que eles vendam o maior número possível de anúncios.

As roupas sob medida que minha chefe da Park Avenue usava eram uma distinção de privilégio, um degrau acima da fabricação em massa – ternos feitos para caber em seu corpo individual, sapatos feitos sob medida para os sulcos e arcos de seus pés. A promessa moderna da personalização tecnológica, com base em uma noção romantizada de individualidade e autenticidade, é que todos podemos viver em mundos feitos sob medida, com feeds de notícias ajustados às nossas preferências e interesses profissionais e de lazer. Você pode ser um dos poucos ouvintes que ama tanto Kenny Rogers quanto The Cure, mas o Spotify conhece você e pode trazer músicas que falam à sua alma única.

Mas estender esse ethos feito sob medida é muito pouco romântico: esses olhos podem ter a intimidade e a memória de um amante, mas carecem de qualquer afetuosidade. A consequência da tecnologia de vigilância moderna é que os salários sob medida estão chegando a todos os locais de trabalho. Os salários deprimidos dos não-sindicalizados massificados do final do século XX já eram alarmantes, mas os novos salários de IA moldados especialmente sob encomenda do século XXI permitem um novo nível de autoritarismo. Para pará-lo, teremos que proibir determinadas formas de espionagem e usar leis antimonopólio e trabalhistas para reestruturar o poder.

A tecnologia de rastreamento pode ser comercializada como ferramenta para proteger as pessoas, mas acabará sendo usada para identificar com precisão o pouco que cada trabalhador está disposto a ganhar. Será usada para rebaixar os salários e também para matar a camaradagem que antecede a sindicalização, dificultando a conexão com outros trabalhadores, envenenando a comunidade que possibilita o debate democrático. Será usada para romper a solidariedade pagando aos trabalhadores de forma diferente. E isso levará à ansiedade e ao medo que permeiam mais locais de trabalho, pois a névoa de não saber por que você recebeu um bônus ou rebaixamento molda o dia.

Isso importa porque o trabalho não é algo para se discutir depois de estabelecida a sociedade democrática: as relações construídas no trabalho são um alicerce essencial. Com trabalhadores totalmente atomizados, desencorajados a se conectarem uns com os outros, mas forçados a oferecer um retrato completo e privado de si mesmos a seus patrões, não consigo imaginar uma democracia.

Zephyr Teachout é professora na Fordham Law School. Ela é autora de Corruption in America e Break 'Em Up (agosto de 2022).

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...