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8 de maio de 2025

O Lobby de Israel Importa

Como explicar o apoio incansável e desastroso do Ocidente a Israel? O lobby israelense desempenha um papel fundamental, persuadindo os legisladores de que o apoio a Israel ainda é do interesse estratégico de seus países.

Ed McNally

Jacobin

O presidente do Comitê de Assuntos Públicos Estadunidense-Israelense, Michael Tuchin, discursando na Cúpula de Políticas do AIPAC em Washington, DC, em 5 de junho de 2023. (Mandel Ngan / AFP via Getty Images)

Em 2017, um diplomata israelense em Londres foi gravado exigindo medidas contra Alan Duncan, então ministro das Relações Exteriores britânico. Logo depois, Duncan foi informar o secretário executivo do departamento sobre a revelação, relembrando a conversa em seu diário: “Eu o lembrei, em tom de brincadeira [...] do que eu disse a ele no meu primeiro dia como ministro. ‘Simon […] eu não te contei? O CFI [Conservadores Amigos de Israel] e os israelenses acham que controlam o Ministério das Relações Exteriores. E controlam!’”

Para alguns da esquerda, queixas como as de Duncan exemplificam teorias conspiratórias equivocadas sobre a onipotência de Israel e seu lobby. Esses oponentes da tese do lobby israelense nos dizem que o rabo não abana o cachorro e que Israel serve aos interesses estratégicos estadunidenses — ontem, hoje e eternamente.

“O valor de Israel para o poder imperial dos EUA — um aliado confiável e militarmente poderoso em uma região geoestrategicamente crucial do mundo — é perfeitamente óbvio e não requer um lobby para ser compreendido”, escreve o comentarista britânico David Wearing. Em um estudo sobre o lobby, publicado no ano passado em formato de livro, o acadêmico Hil Aked lança um argumento semelhante. Sugestões de que o apoio a Israel é contrário aos interesses nacionais estadunidenses e que o lobby tem responsabilidade por essa distorção, insiste Aked, são “problemáticas”: “nacionalismo progressista” equivocado, na melhor das hipóteses, e “com um tom potencialmente xenófobo”, na pior. Trata-se de ensaios políticos predeterminados, a alguma distância da análise concreta da situação concreta.

Da mesma forma, Andreas Malm dedicou recentemente uma parte significativa de um ensaio — sobre o genocídio de Gaza e sua precedência em histórias combinadas de catástrofes coloniais e ecológicas — à rejeição da tese do lobby. Ele concorda com a afirmação de Sayyed Hassan Nasrallah de que “Israel costumava ser uma ferramenta nas mãos dos britânicos e agora é uma ferramenta nas mãos dos Estados Unidos”. Malm contrapõe “a teoria distorcionista do lobby” à “teoria instrumentalista do império e dos atores políticos” e se pronuncia a favor desta última, argumentando que ela é justificada por “evidências do passado remoto, bem como do passado recente e do presente”.

No entanto, essas rejeições à tese do lobby israelense são insuficientes tanto analítica quanto estrategicamente. No mundo evocado por tais argumentos, existe um interesse imperial estadunidense pré-formado e basicamente imutável, sempre atendido pelo apoio incondicional a Israel. Essa é a suposta base, que o apego ideológico das elites estadunidenses a Israel espelha fielmente. Muitas vezes, esse interesse imperial fixo é simplesmente dado como certo, com sua articulação por líderes estadunidenses substituindo qualquer coisa que se aproxime de evidências substanciais ou investigação rigorosa. Assim, Malm pode acreditar na palavra de Joe Biden quando ele repete sua visão de longa data de que “se não houvesse Israel [...] os Estados Unidos teriam que inventar um”, baseada na forma tão inabalável e eficaz que o país serve ao império.

Há muitas armadilhas em interpretar os interesses existentes do império estadunidense a partir de declarações cuidadosamente selecionadas de alguns de seus líderes. Mais obviamente, os líderes estadunidenses são mais do que capazes não apenas de cometer erros de cálculo estratégicos desastrosos, mas também de se apegar a concepções equivocadas sobre os interesses do império que supervisionam. Isso não é algo que normalmente temos dificuldade em aceitar. Havia toda uma variedade de teorias pseudomaterialistas sobre os interesses imperiais que supostamente levaram George W. Bush a invadir o Iraque, por exemplo, mas poucos questionariam hoje que a guerra — e talvez o aventureirismo pós-11 de setembro de forma mais ampla — foi um saldo negativo para o poder dos EUA. Tratava-se de uma cruzada ideológica desastrosa, baseada na arrogância autodestrutiva sobre o potencial de intervenções militares de choque e pavor para criar uma ordem mundial.

Em outras palavras: é claro que muitos líderes estadunidenses, Joe Biden hoje em primeiro lugar entre eles, acreditam firmemente que Israel é um posto avançado imperial eficaz e um investimento valioso. Mas eles podem estar errados. Questionar as autoconcepções estratégicas dos governantes imperiais não é um exemplo, como afirma um oponente determinado da tese do lobby, de “sussurrar para a classe exterminacionista que seu cálculo está errado”, mas sim uma questão de insistir em uma compreensão séria e integrada do inimigo — o que geralmente vale mais, como Perry Anderson certa vez insistiu, do que “boletins para elevar um moral duvidoso”.

Outro problema gritante em acreditar na palavra de Biden é que dois podem jogar o jogo da pescaria de arquivos. Veja esta observação de Henry Kissinger de 1975, que parece contradizer diretamente os argumentos sobre Israel como um importante ativo estratégico para os Estados Unidos, precisamente quando o contexto era mais complicado, durante a Guerra Fria: “A força israelense não impede a disseminação do comunismo no mundo árabe [...] Portanto, é difícil afirmar que um Israel forte serve aos interesses estadunidenses porque impede a disseminação do comunismo no mundo árabe. Não impede. Ele garante a própria sobrevivência de Israel.” Hoje, poderíamos apontar para uma enorme dissidência no Departamento de Estado dos EUA sobre a política de Biden para Gaza e para um coro dentro do mundo da expertise estadunidense em “segurança nacional” sobre os perigos estratégicos do apoio inabalável a Israel.

Em um nível mais fundamental, a oposição de esquerda à tese do lobby israelense frequentemente se baseia em uma visão ultrapassada e mecânica do poder imperial. Primeiro: em um campo político superdeterminado como o do Estado imperial estadunidense, forças ideológicas — o sionismo de Biden, conservado em aspic, por exemplo — podem ter efeitos materiais determinantes, prejudiciais à posição hegemônica do império e à sua vida útil no século XXI. É nesse âmbito que Israel e o lobby exercem sua força.

Em segundo lugar, por definição, a imagem de um interesse imperial estadunidense imutável, sempre bem atendido pelo apoio a Israel, só se sustenta na ausência de qualquer compreensão conjuntural: não há qualquer tentativa de apreender, teórica ou empiricamente, o funcionamento contemporâneo do império dos EUA. Há inúmeras razões para questionar a utilidade de Israel para seus benfeitores estadunidenses hoje. O Mediterrâneo Oriental, e até mesmo o Golfo Pérsico (embora Israel nunca tenha tido grande valor neste último), têm importância estratégica bastante reduzida. Enquanto isso, Washington enfrenta uma sobrecarga imperial ao tentar competir em três grandes frentes ao mesmo tempo — Europa Oriental, Leste Asiático e Oriente Médio — tudo isso em um cenário de capacidade militar-industrial degradada.

O comportamento de Israel, há muito tempo desonesto e agora genocida, torna impensável o tipo de estabilidade regional mais ampla, possibilitada pela melhoria das relações do Golfo Pérsico com o Irã, de que os Estados Unidos precisam para se “retirar” confortavelmente do Oriente Médio em termos militares. Nesse sentido, a observação de John Mearsheimer e Stephen Walt em “The Israel Lobby and US Foreign Policy” [O Lobby de Israel e a Política Externa Estadunidense] sobre a circularidade dos argumentos a favor da importância estratégica de Israel parece especialmente pertinente: “Israel é retratado como um aliado vital para lidar com seus vizinhos perigosos, mas o compromisso com Israel é uma razão importante pela qual os Estados Unidos veem esses Estados como ameaças em primeiro lugar.”

Por fim, a noção de que “o rabo nunca pode abanar o cachorro”, embora geralmente seja um aforismo anticonspiracionista bem-intencionado, elide décadas de inovação no estudo histórico de impérios, focado em como as periferias e postos avançados imperiais atuaram sobre os centros metropolitanos. As margens importam: os suplicantes podem não ser onipotentes, mas os senhores também não o são. “Quem é a porra da superpotência aqui?”, questionou Bill Clinton, desesperado, aos seus assessores após se encontrar com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

E quanto à política? Grande parte do trabalho do lobby consiste em persuadir — com incentivos e punições — líderes e legisladores ocidentais de que apoiar Israel é do interesse estratégico de seus países. No que diz respeito à opinião pública, o lobby enfrenta uma tarefa mais difícil do que nunca: à medida que o genocídio em Gaza continua, a maioria está se tornando receptiva às demandas do movimento de solidariedade à Palestina. Nesse contexto, a esquerda concordar com Biden enquanto ele repete que Israel é um fiador confiável dos interesses estadunidenses parece politicamente insensato.

Visões conspiratórias sobre a totalidade do “controle” de Israel são enfraquecedoras, mas também o são essas noções obsoletas do império dos EUA como um monólito congelado — estas últimas frequentemente acompanhadas de uma retórica grandiosa que implica que os palestinos devem aguardar a queda da civilização ocidental em sua totalidade para se libertarem do sionismo.

Acontece que análises concretas apontam para a crescente superfluidade estratégica de Israel em relação ao império estadunidense e, portanto, sugerem um papel mais relevante para o lobby na garantia da manutenção do patrocínio. Mas a compreensão empírica que se obtém sobre a relação EUA-Israel e sua natureza é, em certo sentido, secundária: na medida em que se envolve no trabalho forte e lento da política de massa, a esquerda deveria apresentar argumentos éticos e estratégicos contra o apoio a Israel, independentemente disso.

Se o projeto colonial de ocupação na Palestina deve ser desmantelado, derrotar o lobby israelense no Ocidente deve ser uma de nossas tarefas. “A verdade”, escreveu Frantz Fanon, “é o que acelera a desintegração do regime colonial [...] e o bem é simplesmente o que mais os prejudica”.

Colaborador

Ed McNally é um estudante de doutorado na Universidade de Oxford e um dirigente político sindical.

23 de abril de 2025

Instrumentos do Império

Ed McNally sobre Hugh Wilford, The CIA: An Imperial History. Antídoto às apologias da agência de inteligência dos EUA, uma periodização da Doutrina Truman à "guerra ao terror".

Ed McNally

New Left Review

NLR 152 • Mar/Apr 2025

Hugh Wilford, The CIA: An Imperial History
Basic Books: New York 2024
313 pp, 978 1 5416 4591 2

No campo historiográfico dos estudos de inteligência, abundam as antolheiras ideológicas. O relato padrão no caso americano é que o mandato democrático que deu origem à Agência Central de Inteligência (CIA) por meio da Lei de Segurança Nacional de 1947 foi amplamente abusado por sucessivos presidentes americanos, que ordenaram aos agentes da Agência que derrubassem governos estrangeiros, assassinassem inimigos políticos e extraíssem informações por meio de tortura, despojando as tarefas fundamentais de coleta e análise de inteligência. Essa é a história recontada no amplamente reimpresso "A CIA e a Democracia Americana" (1989) e em outras obras de Rhodri Jeffreys-Jones, da Universidade de Edimburgo. O mesmo movimento básico é reiterado por historiadores teoricamente mais críticos, como Richard Immerman em "A Mão Oculta" (2014), ou em prosa mais contundente por Tim Weiner, do New York Times, em "Legado das Cinzas" (2007).

O ponto de partida de Hugh Wilford em "A CIA: Uma História Imperial" marca um afastamento bem-vindo de tudo isso. Ele argumenta que, embora muito tenha sido escrito sobre a história da Agência, e ainda mais sobre a do Império Americano, houve pouca tentativa de lê-las em relação uma à outra. Seu objetivo é unir os dois campos para promover a compreensão de ambos. Este é o quinto estudo de Wilford sobre a CIA na Guerra Fria e o mais abrangente até o momento. Como todo historiador do serviço de inteligência americano, ele foi obrigado a contornar o fato de que a fonte mais rica, os arquivos oficiais da CIA, permanecem em grande parte guardados a sete chaves. O método que Wilford desenvolveu para compensar isso implicou na leitura intensiva de memórias, documentos pessoais e documentos do Pentágono e do MI5 para produzir relatos granulares focados em figuras individuais na interface entre poder político clandestino e prática cultural. Nascido na Grã-Bretanha, concluiu seu doutorado em Exeter sobre o contexto da Partisan Review, enquanto esta se voltava, no pós-guerra, para o anticomunismo e o engajamento com o Congresso pela Liberdade Cultural. A monografia resultante foi publicada em 1995 sob o título "The New York Intellectuals: From Vanguard to Institution"; logo depois, Wilford mudou-se para a Universidade Estadual da Califórnia, em Long Beach, onde ainda leciona. Seu segundo livro, "The CIA, the British Left and the Cold War" (2003), examinou o atlantismo de figuras importantes da direita trabalhista, como Gaitskell e Crosland. "The Mighty Wurlitzer" (2008), o livro mais conhecido de Wilford, reconstruiu as organizações de fachada cultural por meio das quais a CIA, como se gabava um de seus principais funcionários, podia tocar qualquer música. Foi seguido por "America's Great Game" (2013), examinando o breve apogeu dos arabistas da CIA na década de 1950, antes que a política americana para o Oriente Médio se aderisse ao sionismo.

A CIA: Uma História Imperial desmente o mito de que o Estado de segurança nacional dos EUA foi meramente uma reação defensiva a Pearl Harbor ou à expansão soviética. Apesar da longa história de "negação do império" do país, escreve Wilford, as origens da expansão imperial americana remontam ao colonialismo de povoamento dos primeiros imigrantes europeus. Uma tradição de inteligência militar doméstica começou com os relatos de batedores e espiões em "território indígena", consolidada pelos topógrafos do Exército, forças de reconhecimento e agentes locais contratados que possibilitaram a enorme apropriação de terras da Guerra do México de 1846. A análise centralizada das informações extraídas durante o interrogatório de soldados confederados capturados e escravos fugitivos foi crucial para as vitórias da União em Gettysburg e Appomattox. Mas, para Wilford, a cristalização de uma burocracia moderna de inteligência dos EUA começa com o Novo Imperialismo da década de 1890, coincidindo com o aumento da militância trabalhista em casa. Seu livro abre com um panorama das práticas coloniais e de inteligência europeias do período, da Índia Britânica e do Transvaal à Indochina Francesa, Madagascar e o Rif. Quando os Estados Unidos entraram em cena com a anexação das Filipinas em 1898, estavam, em alguns aspectos, replicando sua conquista do território indiano, argumenta Wilford: realocação forçada, interrogatórios sob tortura, massacre indiscriminado de populações desarmadas; mas os EUA também assumiram o controle das instituições coloniais espanholas existentes, da polícia e das redes prisionais. Liderando o esforço de inteligência estava um oficial do exército formado em Harvard, Ralph van Deman, politizado no início da década de 1890 como um violento oponente da greve dos mineiros americanos. Em Manila, van Deman assumiu os registros da polícia colonial para criar um vasto arquivo da resistência filipina, constituindo a primeira unidade de inteligência de campo no exterior dos EUA, ao mesmo tempo em que lançava as bases para o que Wilford chama de estado colonial de vigilância.

De volta ao seu país, na década de 1900, van Deman pressionou seus superiores militares para estabelecer um sistema centralizado de inteligência, como o que a Grã-Bretanha estava estabelecendo com seu Escritório de Serviço Secreto. Em 1917, enquanto o governo Wilson se preparava para a guerra na Europa, Deman foi nomeado chefe do recém-formado Serviço de Inteligência Militar dos EUA, estabelecendo uma série de divisões — coleta de inteligência, tradução e criptografia, direção de adidos militares em embaixadas americanas, triagem de segurança para subversivos alemães, irlandeses e afro-americanos entre militares e funcionários do governo — inspiradas em modelos franceses e britânicos. A experiência imperial dessa geração anterior de agentes de inteligência no exterior foi crucial para seus sucessores na década de 1940, argumenta Wilford. Primeiro, o Escritório de Serviços Estratégicos durante a guerra e, a partir de 1947, a Agência Central de Inteligência, como centro nervoso da projeção de poder americana, eram compostos por coortes de elite anglófilas, tipicamente formadas em Groton e Harvard. Calorosamente anticoloniais, à moda americana, e ainda mais ferozmente anticomunistas, esses primeiros membros da CIA, educados com base em Kim, de Kipling, e nos Sete Pilares da Sabedoria, de Lawrence, sentiam-se perfeitamente à vontade nas vilas com colunatas e nos bares luxuosos — o Hotel St. George, em Beirute, o Gezira Sporting Club, no Cairo, o Hôtel Continentale, em Saigon — mal desocupados pelos franceses e britânicos.

Ao mesmo tempo, Wilford argumenta que havia razões estruturais para a CIA desempenhar um papel de ponta no que ele chama de "império secreto" dos Estados Unidos. Sua tese central é que, ao se dispor a administrar os novos Estados emergentes do domínio colonial europeu, Washington foi limitada tanto pelo medo de provocar uma guerra nuclear com Moscou quanto pelo anticolonialismo popular americano; a mudança para ações secretas — usando a CIA para ajudar a sustentar regimes pró-EUA e esmagar forças soberanistas de esquerda — foi parte da solução. Uma História Imperial defende isso por meio de uma análise episódica e institucional das muitas funções da Agência, começando pelo fornecimento de inteligência global ao governo dos EUA. Mesmo com o crescimento da divisão de ações secretas da CIA sob Truman, Eisenhower e Kennedy, expandindo-se de sete bases em 1949 para 47 em 1962 — com milhares de funcionários e contratados —, a unidade máxima de análise de inteligência, conhecida como Escritório de Estimativas Nacionais (uma), permaneceu coesa: cerca de duas dúzias de funcionários, muitos recrutados em Yale, onde seu diretor de longa data, Sherman Kent, lecionou história francesa antes de ser alistado no OSS em tempo de guerra. Sua tarefa era reunir e analisar as informações regionais produzidas por oficiais de campo, elaborando briefings regulares para a Casa Branca.

Os próprios oficiais de campo, geralmente operando sob a cobertura de alguma posição diplomática na Embaixada dos EUA, eram treinados para recrutar redes de agentes locais para fornecer esse material, visando nativos com acesso a informações valiosas – um ministro subalterno ou oficial do exército – para avaliação pelo QG da CIA. O desafio era identificar a vulnerabilidade do agente em potencial e, em seguida, descobrir como explorá-la, permanecendo atentos à possibilidade de o recruta ser uma planta inimiga; dinheiro, chantagem, convicção ideológica ou envolvimento psicológico eram as principais táticas listadas no manual de treinamento da CIA. O recrutamento era "a etapa mais sensível". Uma vez que os alvos concordassem em fornecer informações em troca de dinheiro ou outro incentivo, eles seriam testados, treinados em espionagem e "manipulados", idealmente ao longo de muitos anos, até o momento da demissão. O envolvimento emocional com agentes era um risco ocupacional para oficiais de campo; de acordo com Wilford, alguns comparavam o relacionamento à conquista sexual; outros, ao casamento.

O papel político do chefe da estação da CIA era mais diretamente imperial — ou talvez, nos termos de Nkrumah, "neocolonial"; o de um pró-cônsul informal. O chefe da estação do Congo, Larry Devlin, tomava café da manhã diariamente com Mobutu, o ditador corrupto, enquanto usava o país como ponto de parada para operações secretas em Angola, África do Sul e outros lugares; a CIA forneceu a informação que levou Mandela à prisão por 27 anos. O chefe da estação da Jordânia, Jack O'Connell, tornou-se um confidente próximo do jovem Rei Hussein. Na Cidade do México, Winston Scott, da CIA, lubrificou o relacionamento especial com a PRI com "dinheiro e camaradagem", comprando carros novos para as namoradas dos ministros. Nas Filipinas, o agente Edward Lansdale canalizou os dólares da CIA para a candidatura presidencial do chefe da defesa anticomunista, Ramon Magsaysay, escrevendo seus discursos e conseguindo um jingle de rádio cativante, "Mambo Magsaysay". O resultado foi uma vitória esmagadora, aclamada por uma campanha orquestrada pela CIA na mídia americana. ("Foi um privilégio", disse Lansdale à sede da CIA, "desmentir o ditado atual de que o homem branco está acabado na Ásia. Que diabos, estamos apenas começando!") Dez anos depois, Lansdale apoiava o regime de Ngo Nhu Diem no Vietnã do Sul. Wilford nos fornece uma imagem memorável do agente da CIA em férias em um resort perto de Saigon com sua amante filipina, o presidente, o irmão de Diem, Nhu, e a notória Madame Nhu: "as mulheres brincavam nas ondas enquanto o americano jogava Scrabble com Nhu e Diem cochilava". No Cairo, Kermit "Kim" Roosevelt, neto de Teddy, redigiu um memorando inicial para Nasser e os Oficiais Livres, que ele ajudou a levar ao poder, intitulado "Notas sobre como ser o primeiro-ministro do Egito". Lansdale fez o mesmo para Diem em Saigon.

Manter esses regimes pró-EUA no poder exigia o fortalecimento de suas forças de segurança. A CIA ajudou com fundos e treinamento, valendo-se da expertise do Departamento de Administração Policial da Universidade Estadual de Michigan para transformar unidades de guarda locais em esquadrões da morte profissionais, capazes de aterrorizar comunidades rurais e recrutar suas próprias redes de informantes. Em toda a América Latina, Oriente Médio, África Central e Sudeste Asiático, a CIA forneceu informações sobre "suspeitos comunistas" a ditaduras locais, auxiliando-as com grampos telefônicos e tecnologia de vigilância. Embora Wilford não explore as ligações, ele observa que o Mossad serviu como um "substituto regional" para o trabalho de contrainsurgência da Agência, ajudando a treinar policiais políticos para Haile Selassie e torturadores savak para o Xá. O corolário do apoio a regimes pró-EUA foi o golpe orquestrado pela CIA para derrubar governos — Mosaddeq no Irã, Arbenz na Guatemala — que colocaram projetos nacionais-populares como a nacionalização do petróleo ou a reforma agrária à frente dos interesses dos EUA. A CIA: Uma História Imperial apresenta um relato completo das maquinações de Kim Roosevelt no Irã no verão de 1953: pagando uma multidão para se passar por manifestantes comunistas a fim de mobilizar outra como uma contramanifestação islâmica, enquanto uma imprensa americana leal retratava o país como "perigosamente instável". Um manual semelhante foi utilizado na Guatemala.

O desastre do ataque da Baía dos Porcos, apoiado pela Agência, ao governo de Castro causou a primeira fissura doméstica na carapaça imperialista secreta. A CIA passou a ser abertamente nomeada e culpada em livros como Listen, Yankee (1960), de C. Wright Mills. O manto da clandestinidade foi varrido quando manifestantes pró-Cuba (W. E. B. Du Bois, Maya Angelou) realizaram vigílias em frente à sua nova sede em Langley, Virgínia. No Vietnã, o Programa Fênix da CIA foi "um banho de sangue de tortura e assassinato"; sua contrainsurgência precisou de um apoio militar cada vez maior, transformando-se em uma guerra total. Em 1967, a revista Ramparts publicou uma série de denúncias da CIA. No início da década de 1970, "o anti-imperialismo entrou na corrente principal", como diz Wilford: o Washington Post publicou os Documentos do Pentágono; O New York Times publicou a reportagem de Seymour Hersh sobre a penetração da Agência no movimento antiguerra nos campi universitários — aspectos do "efeito bumerangue imperial" percebidos por Hannah Arendt e Aimé Césaire. As críticas do establishment atingiram o auge com o Comitê Church do Senado, que impôs uma série de controles à Agência, incluindo uma proibição (de curta duração) de assassinatos. "Não precisamos de um regimento de homens de capa e espada", trovejou o senador Church, "conquistando suas promoções planejando novas façanhas pelo mundo".

Essas proibições não impediriam a Operação Condor, a rede clandestina apoiada pela CIA responsável pela tortura e "desaparecimento" de esquerdistas latino-americanos, que viu líderes estudantis e sindicalistas serem atirados de helicópteros militares sobre o Cone Sul. Tampouco impediriam Carter e Brzezinski de enviar instrutores, fundos e armamento da CIA para o Hindu Kush. Em vez disso, o aumento da supervisão da Agência pela mídia e pelo Congresso levou à terceirização de operações "secretas-imperiais", como no caso do redirecionamento de financiamento, pelo governo Reagan, para as milícias anticomunistas da Contra, com o objetivo de derrubar o governo sandinista na Nicarágua, supervisionado pela figura obscura do Coronel Oliver North, membro do Conselho de Segurança Nacional. Reagan nomeou um diretor linha-dura da Central de Inteligência, Bill Casey, que reformulou as desacreditadas operações de fachada da CIA, criando novos órgãos como o National Endowment for Democracy e a Asia Foundation. Por meio do Vaticano, os fundos foram canalizados para o líder sindical Lech Walesa e para grupos Solidarnosč, apoiados pela Igreja, na Polônia; não, é claro, para o sindicalista Lula da Silva e para as redes de teologia da libertação no Brasil.

A vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria levou a uma recalibração do apoio a favoritos da CIA, como Mobutu e Suharto; Outrora pilares do Mundo Livre, agora denunciados como ditadores veneráveis ​​que não se adaptam aos tempos. Atormentada por cortes orçamentários e uma alta rotatividade de diretores — cinco em sete anos —, Langley iniciou uma desclassificação cautelosa e parcial de seus arquivos, permitindo uma avaliação preliminar. Segundo uma estimativa, a de Covert Regime Change (2018), de Lindsey O'Rourke, apenas 39% das operações secretas tiveram resultados bem-sucedidos. O histórico de inteligência era irregular: a CIA não havia previsto a bomba soviética, a Revolução Chinesa, a Guerra da Coreia, a crise dos mísseis cubanos, a Revolução Iraniana ou a desintegração da URSS; não teria detectado o 11 de Setembro, a Primavera Árabe e o 7 de Outubro. Contra a acusação, os mestres da espionagem poderiam apontar seus papéis na estabilização bem-sucedida da Itália e do Japão no pós-guerra, sob os democratas-cristãos e o Partido Liberal Democrata, financiados pela CIA; no enfraquecimento do nacionalismo árabe radical e no fortalecimento dos regimes policiais que tornaram o Oriente Médio seguro para Israel; na eliminação do Partido Comunista Indonésio e no fortalecimento do governo conservador na Tailândia e nas Filipinas, ponderou as derrotas admitidas no Vietname, Camboja e Laos; se Cuba estava "perdida", a América Latina tinha sido "salva", suas ditaduras cuidadosamente desmanteladas; e o Bloco Soviético tinha caído no livre mercado.

A CIA: Uma História Imperial tem menos a dizer sobre a reformulação da inteligência dos EUA após o 11 de Setembro, embora um epílogo considere as mudanças na sorte da CIA durante a "guerra global contra o terror". Analistas foram retirados das seções da Ásia e da Rússia e realocados para o centro de contraterrorismo da Agência, até então rebaixado; um oficial da CIA lá lembrou-se de trabalhar "em uma fúria quase incontrolável", consumido por "uma necessidade ardente de retribuição, enraizada em um sentimento de violação vergonhosa". Isso sem dúvida contribuiu para a reorientação da Agência para operações de rendição e tortura sob Bush, e sua expansão para assassinatos por drones sob Obama. O chefe de contraterrorismo da Agência teria garantido ao primeiro que os terroristas logo teriam "moscas passando por seus olhos". Em termos burocráticos formais, a Agência foi rebaixada pelas recomendações da Comissão do 11 de Setembro; Seu chefe não era mais o Diretor Geral da Central de Inteligência, mas apenas o chefe da CIA, sob um novo Diretor de Inteligência Nacional (DNI), encarregado de supervisionar um conjunto de outros órgãos clandestinos. No entanto, seu financiamento disparou para cerca de US$ 500 bilhões no governo Bush e estimados US$ 640 bilhões no governo Obama, enquanto, com a vasta expansão da vigilância digital e dos dados de satélite, a Techint estabeleceu uma clara predominância sobre a Humint. Uma agência de inteligência focada em ameaças reais estaria se concentrando em questões como desigualdade global, mudanças climáticas, movimentos populacionais e pandemias, escreve Wilford; mas "enquanto os Estados Unidos continuarem a se comportar como um império, negando-o, continuarão buscando ações secretas como instrumento de suas relações exteriores", com as mesmas consequências nefastas tanto no mercado interno quanto no exterior.

Um estudo sinótico eminentemente legível, "A CIA: Uma História Imperial" pode ser considerado o ápice do projeto de Wilford, que sempre teve como objetivo refratar a história política e dos serviços de inteligência por meio de retratos de personagens individuais e da reconstrução de seus universos culturais. Embora a macroestrutura de seu livro mais recente seja cronológica e temática, em termos narrativos ele também é microbiográfico, com seu elenco de membros da CIA não apenas incorporando um aspecto do trabalho da Agência – Sherman Kent, análise de inteligência; Roosevelt, o golpe militar; Edward Lansdale, contrainsurgência; James Jesus Angleton, contrainteligência; Cord Meyer, propaganda – mas também trazendo uma sensibilidade específica à tarefa. O capítulo inicial sobre precedentes europeus define o cenário de forma semelhante: Kipling evoca a paranoia imperial; T. E. Lawrence, lealdades divididas; Lyautey, aspirações à pacificação do desenvolvimento combinadas com repressão militar "rápida"; van Deman, a domesticação de métodos imperiais. Ao adotar essa abordagem, Wilford alinha-se com a "virada emocional" na historiografia das relações exteriores dos EUA, patente na recente biografia de Kennan escrita por Frank Costigliola.

Na narrativa de Wilford, os espíritos comoventes da CIA raramente desejavam repetir o passado imperial. Lansdale, um dos principais arquitetos da contrainsurgência americana no Sudeste Asiático, declarou: "Eu era, antes de tudo, um anticolonial". Roosevelt, nêmesis da democracia soberana no Irã, contrapôs — em seu livro Arabs, Oil and History (1947) — a "relação imperial" das potências europeias com o Oriente Médio a uma que ele acreditava que somente a América poderia desenvolver, "com base em interesses comuns, a ser desenvolvida sem vantagem injusta para nenhum dos lados". No entanto, "por razões históricas, um tanto além de seu controle", argumenta Wilford, repetir o passado foi "o que todos acabaram fazendo". Uma História Imperial apresenta um argumento convincente para algumas continuidades entre o colonialismo europeu e as práticas americanas: os chefes de estação da CIA pró-consulares, os modelos britânicos para os relatórios do National Estimate, o vínculo homossocial com governantes clientes, o romance de aventuras exóticas longe do tédio da domesticidade.

No entanto, Wilford às vezes atribui importância excessiva ao passado europeu como contexto estruturante para um presente americano em expansão. Isso se deve, em parte, a uma escolha narratológica de identificar o processo pelo qual o "impulso imperial" passou a predominar nas práticas iniciais da CIA como um ensaio colonial: "Os agentes da agência constantemente se viam, independentemente de suas crenças pessoais, usando roteiros da era colonial para realizar as missões de coleta de informações e ações secretas das quais eram encarregados". Mas, embora os homens da CIA às vezes vestissem trajes europeus — e, como seus vívidos retratos político-intelectuais deixam claro, frequentemente se deleitavam em representar fantasias à la Kipling —, não se tratava de simplesmente assumirem o papel de anglo-franceses. Eles habitavam uma subjetividade imperial distintamente americana que mesclava o antigo e o novo. Não era paradoxal que o "impulso imperial" americano se fortalecesse com o avanço da descolonização; esse certamente era o ponto.

Até certo ponto, o anticolonialismo do elenco da CIA de Wilford era, em última análise, conscientemente imperial, com a negação dos impérios europeus sendo entendida como uma bênção para o poder americano. Esse foi o caso do arabismo de Kim Roosevelt, mesmo em seu auge. Antes de 1955, Nasser era seu "líder necessário", um potencial assessor para os interesses americanos, como entendidos em Washington, e devidamente elogiado pela revista Time como um "soldado dedicado, com a constituição física de um zagueiro grande, bonito e tipicamente americano". Wilford tende a usar "imperial" e "colonial" indistintamente, e, dado que ele frequentemente escreve sobre as influências coloniais europeias sobre os atores imperiais americanos, esse deslize terminológico pode resultar em confusão conceitual. A Agência, fundada quando os EUA ascenderam ao domínio global, era imperial precisamente por ser americana, não devido à corrupção de seus oficiais por uma herança colonial europeia, por mais poderosa que isso tenha sido para a geração inicial da Guerra Fria. Atribuir muito peso explicativo a tais continuidades culturais corre o risco, entre outros, de eclipsar os esforços iniciais da CIA para consolidar o poder americano na própria Europa, memoravelmente documentados no estudo de Wilford sobre Gaitskell e Crosland.

A noção de imperialismo americano como um "império secreto", transposta do estudo de Priya Satia sobre as operações de inteligência britânicas no Oriente Médio no início do século XX, pode ser parte do problema aqui. Desnecessário dizer, havia pouco de secreto na Pax Americana em geral. Este era "um sistema hegemônico global de geopolítica e domínio econômico", nas palavras de Anders Stephanson. Na superintendência desse sistema, os homens nas sombras desempenharam um papel notável, mas contavam como um braço coercitivo do novo império americano, em vez de definir sua essência. Quando Wilford escreve que a CIA se tornou "a vanguarda do poder americano no mundo pós-colonial", ele não compara seu impacto com o das forças mais amplas da hegemonia americana — militar, econômica e ideológica. Afinal, os EUA anunciaram sua chegada ao cenário histórico-mundial com a detonação de duas bombas atômicas. Construíram seu império com base na conquista e ocupação militar do Japão e da Alemanha, as pontas de asa industrializadas do continente eurasiano, e cercaram o planeta com bases militares, conectadas por órbitas de satélites, enquanto seus porta-aviões navegavam pelos mares. A força americana no pós-guerra veio, em segundo lugar, da reconstrução das economias capitalistas e da instalação de sistemas parlamentares — manipulados, é claro, pela CIA — em antigos Estados fascistas. Por meio da teoria da modernização, o desenvolvimento capitalista também foi uma parte importante da política americana para o Terceiro Mundo, financiado pelo empréstimo de petrodólares reciclados; Quando isso terminou na catástrofe da crise da dívida dos anos 1980, as economias foram reestruturadas não pela CIA, mas pelo FMI e pelo Banco Mundial. Ideologicamente, os EUA inegavelmente forneceram um modelo de riqueza e modernidade, de carros e Coca-Cola, bem como de segregação racial e perseguição racial. O "império secreto" de Wilford não é contextualizado neste cenário de projeção ostensiva de poder americano.

A incapacidade de definir a Agência como um produto sui generis do império global emergente dos Estados Unidos leva a um certo grau de indulgência em relação aos relatos mais apologéticos que são os alvos ostensivos de Wilford. Histórias como as de Immerman e Jeffreys-Jones, tanto populares quanto acadêmicas, repetem o que poderíamos chamar de conceito originalista: conforme definido pela nobre intenção de seus arquitetos, o propósito original da CIA era praticar a inocente arte de coleta e análise de inteligência, mas essa honrosa missão foi descarrilada por excessos e extrapolações — ou, nos termos de Immerman, "sacrificada por uma ênfase equivocada em projetos secretos e paramilitares que seus idealizadores não pretendiam que ela empreendesse". Como em tantos supostos acertos de contas com as práticas indefensáveis ​​da Agência, a essência redimível é aqui um artigo de fé. Periodizações mais recentes, incluindo as de supostos oponentes do Estado profundo, como Tucker Carlson e Elbridge Colby, datam a "corrupção" da CIA no 11 de setembro. Antes do Marco Zero, na visão de Carlson, os agentes da CIA estavam "apenas fazendo coisas da Guerra Fria, nada particularmente maligno". Tudo saiu dos trilhos com a guerra global contra o terror.

Tais relatos frequentemente se baseiam na noção do Estado de segurança nacional como algo que brota da alma imaculada da nação em resposta ao ataque japonês a Pearl Harbor. A versão maximalista disso foi apresentada por Douglas Stuart, ex-membro da OTAN e estudioso de política internacional no Dickinson College, em Creating the National Security State (2012). Examinando os debates em torno da Lei de Segurança Nacional de 1947, Stuart argumentou que Pearl Harbor eliminou concepções mais antigas de interesse nacional para estabelecer o conceito de "segurança nacional" como o "padrão incontestável contra o qual todas as futuras decisões de política externa deveriam ser tomadas". Atribuir a responsabilidade pela coordenação da inteligência a uma única agência central deveria ser uma medida defensiva, para evitar a possibilidade de novos choques externos.

Embora "Uma História Imperial" não se detenha nos detalhes da legislação de 1947, a história que ela conta constitui uma refutação eficaz: da conquista continental à anexação das Filipinas, a inteligência nacional dos EUA foi expansionista desde o início. Tampouco havia uma distinção clara entre análise e ação secreta. No campo das visões fundadoras, muito pesou a favor dos ativistas da ação secreta, principalmente o modelo da OSS em tempo de guerra e seu alardeado aventureirismo. A própria nebulosidade da Lei de Segurança Nacional de 1947 quanto aos limites das responsabilidades da CIA — permitindo-lhe "desempenhar outras funções e deveres relacionados à inteligência que afetem a segurança nacional, conforme determinado pelo Presidente... — inscreveu uma visão tão abrangente no estatuto de fundação da Agência. Isso foi aprovado como lei na mesma época em que a Doutrina Truman exigia a projeção dos esforços dos EUA na Guerra Fria para a Grécia e a Turquia. Em maio de 1948, como Wilford detalhou em The Mighty Wurlitzer, George Kennan foi um dos principais apoiadores da Divisão de Operações Secretas (COP), abrindo um memorando da Equipe de Planejamento Político com a declaração de que a guerra política era "a aplicação lógica da doutrina de Clausewitz em tempos de paz". (Caracteristicamente, ele mais tarde lamentaria isso como "provavelmente o pior erro que já cometi no governo".) Semanas depois, surgiu a Diretiva 10/2 do Conselho de Segurança Nacional, dando ampla autorização para a CIA empreender atividades

conduzidas ou patrocinadas por este Governo contra Estados ou grupos estrangeiros hostis, ou em apoio a Estados ou grupos estrangeiros amigos, mas que são planejadas e executadas de tal forma que qualquer responsabilidade do Governo dos EUA por elas não é evidente para pessoas não autorizadas e que, se descobertas, o Governo dos EUA pode plausivelmente se isentar de qualquer responsabilidade por elas.

Sob essa luz, o conceito originalista parece ser apenas isso.

Uma deficiência de Uma História Imperial como guia para a compreensão da prática real do poder secreto americano é sua relativa negligência com a "convergência militar-inteligência" — o processo pelo qual partes das Forças Armadas dos EUA se tornaram mais parecidas com a CIA, enquanto a CIA se tornou mais parecida com as Forças Armadas dos EUA. O jurista Robert Chesney sugeriu que esse nexo começou a emergir no Oriente Médio, no contexto da Revolução Iraniana, quando as Forças de Operações Especiais dos EUA reclamaram que nenhuma organização existente era capaz de fornecer a "inteligência tática e o apoio logístico secreto" de que necessitavam durante a fracassada crise dos reféns em Teerã. Consequentemente, o Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA autorizou a criação de uma unidade de Atividade de Apoio à Inteligência do Exército para institucionalizar tais capacidades dentro das forças especiais, trazendo assim para o Pentágono funções que antes eram em grande parte exclusivas da CIA. Ao mesmo tempo, a expansão das operações antiterrorismo em resposta aos atentados de Beirute contra forças americanas em 1983 proporcionou à Agência opções paramilitares letais, tipicamente reservadas às forças especiais.

A convergência, agora mais especificamente entre o Comando Conjunto de Operações Especiais e a Agência, foi turbinada pelo 11 de setembro. Estudiosos do Estado de segurança nacional distinguem entre dimensões rival e cooperativa do processo de convergência, mas esta última parece ter predominado — apesar de contingências politicamente determinadas, como o desprezo relatado por Rumsfeld pelas competências da Agência, levando à expansão da rede de inteligência do Pentágono. Assassinatos extrajudiciais — de Bin Laden no Paquistão, mas também de Anwar al-Awlaki no Iêmen — têm sido frequentemente exemplos de convergência "cooperativa", mesmo que Hollywood tenha se valido de tais atos heroicos para legitimar o uso da tortura pela CIA, como em A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow. Tais desenvolvimentos lançam uma luz fria sobre as esperanças finais de Wilford por uma agência de inteligência menos letal, concentrada em problemas como mudanças climáticas e desigualdade. Dada a história inequivocamente imperial da CIA, recontada com lucidez em seu livro, deve haver pouca margem para tal confusão. O Estado de segurança nacional e a Agência, em seu ápice, encarnam imperativos imperiais que derivam de um compromisso bipartidário com a primazia global americana. Não há como dissociar os dois. E embora a CIA funcione para consolidar tais imperativos e isolá-los da possibilidade de contestação democrática, ela continua sendo seu veículo e instrumento, e não sua fonte.

1 de março de 2024

Contra o solucionismo

Realidades da luta palestina.

Ed McNally

Sidecar


"Esta questão está ficando cada vez mais nítida", declarou Anthony Blinken em uma recente viagem a Doha, falando de um "caminho prático, limitado no tempo e irreversível para um Estado palestino que viva lado a lado em paz com Israel". Os clientes árabes da América também têm invocado o paradigma dos dois Estados, com tanto os sauditas como os catarianos sublinhando a necessidade de um tal "acordo abrangente". No Reino Unido, David Cameron declarou o seu firme apoio à criação de um Estado palestino, enquanto em Bruxelas Josep Borrell insistiu que esta é "a única forma de estabelecer a paz". Estas declarações podem ser vistas como uma tentativa frenética de contenção imperial. Se os palestinos não podem ser totalmente ignorados, como no quadro dos Acordos de Abraham, é melhor pressionar por um quase "Estado" palestino desmilitarizado e segmentado, para que a normalização israelense possa prosseguir rapidamente. Biden, pessoalmente e politicamente, a poucos minutos da meia-noite, está desesperado para colocar a agenda de Jared Kushner para o Oriente Médio de volta aos trilhos após o seu descarrilamento em 7 de outubro.

Como deveríamos responder ao retorno inglório e à persistência cadavérica do duplo estatismo? O reflexo mais comum é rejeitá-lo como uma "fantasia" imperial perigosa, baseada na formalização diplomática do regime do apartheid, e defender um Estado como a única alternativa realista. Esta última posição foi apresentada formalmente pela primeira vez pela Frente Democrática para a Libertação no rescaldo da Naksa. Foi então adotada por Arafat e Abu Iyad como a linha oficial da Organização para a Libertação da Palestina. Na esteira de Oslo, os intelectuais palestinos - Edward Said, Ghada Karmi, Lama Abu-Odeh, Joseph Massad, Ali Abunimah, George Bisharat e Yousef Munayyer, entre outros - retornaram a este quadro. Escrevendo em 2002, Karmi observou que embora a exigência de uma democracia secular "possa parecer utópica", não é mais do que "o empreendimento sionista de construir um Estado judeu em um país estrangeiro". No ano passado, ela publicou uma intervenção do tamanho de um livro sobre a "inevitabilidade" de um Estado único e democrático.

O reconhecimento de que a solução de dois Estados está excluída é cada vez mais comum em todo o espectro político. Um ensaio publicado na última Foreign Affairs argumenta que "o efeito de falar novamente sobre dois Estados é mascarar uma realidade de um Estado único que quase certamente se tornará ainda mais enraizada no rescaldo da guerra". No geral, esta é uma mudança bem-vinda, que reflete a integração da solidariedade palestina e o apoio à democracia multiétnica em detrimento do supremacismo sionista. No entanto, existem boas razões para a esquerda ocidental agir com cautela neste caso, no meio do renascimento do solucionismo imperial. Dadas as atuais coordenadas regionais, o estatismo único ainda é a opção mais realista e baseada em princípios? A doença irremediável da sociedade colonizadora, mais clara e mais horrível do que nunca, pode constituir uma barreira para um Estado, tal como a entrincheirada geografia colonial dos Territórios Ocupados o é para dois. Se é impossível imaginar o desenraizamento dos colonos da Cisjordânia, é certamente ainda mais difícil prever que os israelenses aceitem o fim do etno-nacionalismo e coabitem pacificamente com os palestinos.

O povo palestino - em Gaza, na Cisjordânia, na Palestina histórica e em al-Shatat - determinará inevitavelmente o telos da sua luta. No entanto, ceder ao solucionismo corre o risco de revogar este princípio básico e até de fazer importantes julgamentos estratégicos e éticos em seu nome. Embora os modelos de dois Estados tendam a negar aos palestinos o direito de retorno, os discursos de um só Estado podem significar dizer-lhes para desistirem da luta pela descolonização, fazerem amizade com os seus opressores e permitirem que todos os colonos fiquem. Tais decisões poderiam, em algum momento, ser tomadas pelos próprios palestinos - daí a importância de democratizar as suas estruturas políticas nacionais para permitir uma deliberação popular genuína - mas não podem ser pressupostas. Neste sentido, a valorização de formas políticas de estatuto final pode implicar a perda de vista dos primeiros princípios anticoloniais. Pode também negligenciar as condições objetivas necessárias para estabelecer uma paz duradoura na região. Pois nenhuma "solução" que não consiga obter o apoio em massa dos palestinos perdurará, e apenas um ponto final que defenda os seus direitos inalienáveis poderá ter tal posição democrática.

É nesta base que organizações como a Campanha Britânica de Solidariedade à Palestina há muito que se recusam a tomar uma posição dentro das restrições dos debates solucionistas: um estado, dois estados, nenhum estado. Para eles, o objetivo principal é criar pressão política para reparar os crimes sobre os quais a entidade colonial foi fundada: a negação do direito dos palestinos à autodeterminação e ao retorno dos refugiados. A luta contra estas brutalidades deve preceder o desenvolvimento de planos políticos precisos para a região; na verdade, o curso do primeiro determinará invariavelmente a forma do segundo. Como afirma o estudioso palestino Karma Nabulsi: "Sou muito secular sobre qual deveria ser a solução. Algumas pessoas gostam muito de dois estados... Há quem defenda um estado binacional. Eu diria que é muito mais simples que isso. Permitir que a injustiça seja retificada... Quando as pessoas puderem retornar às suas casas, deixem que essas pessoas decidam democraticamente, as pessoas que lá vivem, que tipo de enquadramento querem."

Esta perspectiva tem particular relevância para a realidade pós-7 de Outubro. Dada a força histórica e a legitimidade popular da resistência armada palestina, não se pode presumir que o estabelecimento de um Estado democrático, por exemplo, nas próximas três décadas seja mais plausível do que a libertação de algumas terras palestinas da ocupação colonial. Em 1974, o Programa Político da OLP declarou que iria "empregar todos os meios... para libertar o território palestino e estabelecer a autoridade nacional combatente independente para o povo sobre todas as partes do território palestino que forem libertadas". Esta visão, de afirmar o domínio palestino sobre porções de terra libertada, parece agora notavelmente contemporânea. Como Tareq Baconi demonstrou, a concepção estratégica dos fundadores do Hamas não era diferente, ao visarem assegurar uma "retirada completa da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e de Jerusalém sem desistir de 80% da Palestina". Abdel Aziz al-Rantisi considerou o sucesso do Hezbollah em expulsar os israelenses do sul do Líbano como um modelo de como esta abordagem poderia funcionar.

Tal trajetória, embora improvável, pode agora ser mais provável do que a milagrosa desradicalização da sociedade israelense. É claro que as probabilidades continuam sendo assustadoras, sobretudo devido ao triunfo das forças contra-revolucionárias em todo o mundo árabe ao longo da última década. Talvez o fator mais importante e desanimador aqui seja a dizimação da sociedade civil radical no Egito sob o domínio férreo de El-Sisi - que, até ser derrubado, poderá muito bem impedir a justiça para os palestinos. No entanto, o quadro é complicado pelo declínio gradual do domínio americano e pela notável durabilidade do "eixo da resistência". Em um terreno tão sobredeterminado, não há razão para pensar que a luta palestina se conformará com teleologias claras ou tipos ideais. Tanto o duplo-estatismo imperial como as visões mais honrosas da democracia secular anseiam por soluções rápidas: o primeiro esperando impor a "ordem", o segundo para acabar com o sofrimento insuportável em Gaza e na Cisjordânia. Mas é vital notar que a maioria das concepções palestinianas da luta são temporalmente indeterminadas. Este é um projeto de libertação nacional que aprendeu a desconfiar das falsas promessas de salvação iminente. Poderíamos, portanto, perguntar se existe um elemento de projeção na procura de "soluções" rápidas que sejam mais facilmente assimiláveis e menos desconfortáveis para os ocidentais do que uma luta prolongada, armada e anticolonial.

19 de abril de 2023

A tradição anticolonial negra lutou por uma revolução global

Do Caribe à África Ocidental, pensadores anticoloniais negros do período entre guerras apresentaram uma visão convincente de como o imperialismo e o capitalismo funcionavam em escala global. Procuraram desenvolver uma luta igualmente ampla contra a dominação racial

Ed McNally

Jacobin

O primeiro-ministro de Gana, Kwame Nkrumah, acenou para uma multidão que comemora o estabelecimento do novo país (Bettmann/Getty Images).

Resenha de On the Scale of the World: The Formation of Black Anticolonial Though (Na Escala do Mundo: A Formação do Pensamento Anticolonial Negro), de Musab Younis (University of California Press, 2022).

Tradução / Nas últimas duas décadas, os historiadores nos deram uma visão cada vez mais completa do passado intelectual do anticolonialismo negro. Incluindo Freedom Dreams (Sonhos de Liberdade), de Robin D. G. Kelley, recentemente reeditado, In the Cause of Freedom (Na causa da Liberdade), de Minkah Makalani, e Worldmaking after Empire (Construção do Mundo Depois do Império), de Adom Getachew, esse conjunto de obras permitiu uma compreensão profunda da tradição do Atlântico Negro em particular.

Esses estudiosos nos mostraram que o horizonte político dos pensadores negros anticoloniais – desde os quadros comunistas que organizavam os trabalhadores portuários na Marselha do período entre guerras, até os estadistas pós-coloniais reformistas que planejavam a Nova Ordem Econômica Internacional – não se limitavam à libertação nacional em um sentido estritamente concebido, mas abrangiam formas de transformação que se estendiam por todo o globo.

Musab Younis, professor da Queen Mary University of London e ensaísta da London Review of Books, produziu um livro de estreia que contribuiu muito para enriquecer nossa compreensão dessa história. O título de seu estudo se concentrou no período entre guerras e foi baseado em pesquisas em arquivos franceses, britânicos e da África Ocidental, captando perfeitamente seu argumento central: o anticolonialismo negro foi concebido “na escala do mundo”.

Pensando globalmente

Em cinco capítulos, Younis pretendeu mostrar como “um foco de grande magnitude passou a dominar o pensamento político do Atlântico Negro nas décadas de 1920 e 1930”. Em seu relato, os anticolonialistas do período entre guerras subverteram as concepções imperiais de globalidade para forjar uma “contrapolítica de escala”. Como Younis escreveu:

Muitos intelectuais negros rejeitaram a noção de que o domínio global era restrito a uma elite imperial. Eles viam uma teoria da ordem global como necessária para a libertação da África e de suas diásporas. Ao pensar na escala do mundo, eles desenvolveram uma estratégia distinta para considerar o problema do domínio imperial.

Crucialmente, ele argumentou que o pensamento político nessa escala abrangente permitiria uma compreensão da “raça como uma forma de hierarquia global, em vez de uma divisão natural da humanidade”. Younis espera que a reconstrução dessa história intelectual subterrânea possa ajudar a “repensar o problema da agência humana na escala do mundo” em meio à nossa atual “situação planetária”.

On the Scale of the World inicia-se com uma releitura do movimento de Marcus Garvey, com Younis sugerindo que impulsos mais cosmopolitas e solidários moderaram ou se mantiveram lado a lado com suas dimensões racialistas, internas e chauvinistas – que foram criticadas por Paul Gilroy e outros. Ele extraiu alguns trechos intrigantes do arquivo impresso para fundamentar esse argumento.

Em um editorial de 1923 para o jornal Negro World, Garvey se concentrou nas tropas marroquinas e argelinas que estavam participando da ocupação da Alemanha.

Os norte-africanos haviam sido “desclassificados da negritude” pelo Estado francês, observou Garvey, apelando para que reconhecessem que seus destinos estavam “ligados a todos os outros homens de cor em todo o mundo”. Os marroquinos e argelinos precisavam apenas entender que “seu primeiro dever e interesse” estavam juntos com “os quatrocentos milhões de negros do mundo”.

Younis também apontou para o significado ambíguo da bandeira tricolor – vermelho, preto e verde – que a Universal Negro Improvement Association (UNIA) de Garvey adotou, o que aparentemente, foi intencional. Em pelo menos uma ocasião, Garvey explicou sua lógica da seguinte forma: “O vermelho mostrava sua simpatia pelos “vermelhos” do mundo, o verde sua simpatia pelos irlandeses em sua luta pela liberdade e o preto - o negro”.

Isso refletia a influência de Hubert Harrison, o radical nascido nas Índias Ocidentais que editava o jornal da UNIA. Harrison apontou Sinn Féin da Irlanda e o movimento Swadeshi da Índia, como exemplos para a luta pela liberdade dos negros.

Younis parece estar fazendo duas afirmações distintas sobre o Garveyismo. Primeiro, ele pretendeu localizar “uma vertente poderosa, anticulturalista e profundamente política de pensamento crítico sobre raça dentro da casca de uma aparente adesão à ideologia racial”. Mas, a julgar pelas evidências de arquivo que ele apresentou com lucidez neste capítulo, essa linha de pensamento antiessencialista parece ter sido mais ocasional – um vestígio da influência inicial de Harrison e de outros sobre Garvey – do que fundamental.

Por outro lado, Younis argumentou que o nacionalismo garveyista – deixando de lado a questão das inflexões cosmopolitas – implicava uma rejeição da “hierarquia internacional naturalizada” por meio de sua insistência na possibilidade imediata da soberania negra. Essa segunda afirmação parece muito mais convincente.

Antes da teoria da dependência

No segundo capítulo, Younis traçou as concepções de mundo no pensamento anglófono da África Ocidental, concentrando-se em particular na virada para a compreensão do papel da região na “engrenagem da ordem global”. Isso significava transcender as narrativas que buscavam valorizar o passado africano e reivindicar os africanos como atores históricos, avançando para o reconhecimento de que eles também tinham de enfrentar o mundo “no qual a liberdade deveria ser obtida”.

O ponto central do argumento de Younis seria que o pensamento “estruturalista” estava muito presente na África Ocidental no entre guerras. Esse pensamento dizia respeito ao lugar subordinado da região na hierarquia do “sistema mundial”, bem como à centralidade da exploração econômica racializada no domínio colonial em todo o mundo. Portanto, ele fez questão de enfatizar que essas ideias não foram um presente intelectual para a África dado pelos teóricos da dependência da América Latina várias décadas depois.

Destacamos o estudo de caso de J. W. De Graft-Johnson, intelectual da Costa do Ouro que estudou Direito em Londres antes de escrever Towards Nationhood in West Africa, em 1928. Nessa avaliação, Younis demonstrou que De Graft-Johnson adotou uma concepção global de raça e de dominação imperial, a partir de sua leitura dos supremacistas brancos Lothrop Stoddard e Maurice Muret – com a noção de um mundo definido por um “desequilíbrio nos destinos humanos”.

E. Casely Hayford, editor do Gold Coast Leader, também desempenhou um papel de destaque na reconstrução feita por Younis. Hayford, escreveu ele, apontou para “a trágica impossibilidade de acumulação econômica sob um sistema manipulado” e expôs “as doutrinas racistas propostas na Europa e implementadas na África”.

Younis insiste que as análises apresentadas por pessoas como De Graft-Johnson e Hayford não refletiam simplesmente o pensamento do movimento comunista internacional da época. Ele argumentou que esses pensadores da África Ocidental se distinguiam por “praticamente sempre [enfatizarem] a importância da raça no sistema geral de exploração”. Como declarou o African Morning Post em 1938, depois de analisar as condições de trabalho na Jamaica e na Costa do Ouro: “Em todo o mundo, o destino da raça negra é idêntico... Impotente diante do capitalismo com cabeças de hidra, inexorável e autocentrado”.

Não há razão para duvidar que essa escola de pensamento da África Ocidental tenha sua própria origem intelectual. No entanto, Younis não demonstrou realmente que ela atribuía maior importância à raça do que, por exemplo, uma figura como George Padmore, de Trinidad, enquanto ele era membro da Internacional Comunista (Comintern).

Independentemente da tendência na África Ocidental ser ou não distinta nesse aspecto, ela ainda é de considerável interesse por si só. O fato de que pensadores marxistas e não marxistas de diferentes lugares pareciam chegar a conclusões semelhantes em paralelo seria notável por si só e nos diz algo sobre a história do capitalismo colonial e a forma como ele foi teorizado.

Mundo branco, trabalho negro

Em outro capítulo, Younis relatou como os intelectuais negros que viviam em Paris desafiaram os argumentos sobre a possibilidade de progresso e assimilação dentro do sistema imperial francês, concentrando-se na raça como uma estrutura global. Esses críticos rejeitaram a ideia de que o sistema “poderia possivelmente evoluir para incluir suas populações racializadas em termos iguais”.

Mais uma vez, os intelectuais negros obtiveram percepções políticas subversivas a partir da leitura de textos supremacistas brancos. La Race Nègre, o jornal fundado por Lamine Senghor, do Senegal, depois que ele rompeu com o Partido Comunista Francês, interpretou os escritos de Stoddard como um reflexo da centralidade da dominação branca no imperialismo ocidental, em todas as suas formas.

Younis destacou que uma nova concepção de escala era fundamental para essa forma de política. Esses intelectuais negros argumentavam que os “limites espaciais de uma ordem racial e colonial” eram “impossíveis de serem contidos em qualquer sistema imperial individual” e enfatizavam as “afinidades transnacionais” entre diferentes impérios. Isso significava que era vital pensar e praticar o anticolonialismo na mesma escala global que os impérios que ele pretendia negar.

No quarto capítulo, que talvez seja o mais criativo do livro, Younis argumenta que pensadores como Senghor, Tiemoko Garan Kouyaté e outros da La Race Nègre “conceituaram como o mundo era ordenado pela raça” na forma de uma “dialética corpo-mundo”. Isso envolveu duas proposições: “Primeiro, a ideia de que o colonialismo era eliminacionista, levando inevitavelmente à destruição dos negros; e segundo, a ideia de que o corpo negro era definido ao mesmo tempo por sua solidão e seu trabalho”.

Portanto, não havia contradição entre pensar na escala íntima do corpo humano e na grande escala do mundo. De fato, os dois eram inseparáveis.

Paul Gilroy argumentou em seu livro fundacional de 1993, The Black Atlantic, que um ponto-chave de divergência entre a tradição do Atlântico Negro e o marxismo era que “no pensamento crítico dos negros no Ocidente, a autocriação social por meio do trabalho não é a peça central das esperanças emancipatórias”. No entanto, isso certamente não era verdade para Padmore e C. L. R. James, nem para os pensadores da África Ocidental, segundo Younis.

De fato, ainda há muito a ser escrito sobre o quanto as concepções de proletarização racializada (e o sujeito trabalhador emancipatório que ela produziu) eram centrais para muitas visões da política anticolonial negra. On the Scale of the World representa uma contribuição útil para essa empreitada.

Passado vs. Presente

Há uma tensão ao longo do livro, entre os imperativos da história intelectual e as exigências da teoria política orientada para o presente, que ficaria difícil evitar a sensação de que Younis estivesse selecionando fragmentos de arquivos e, retrospectivamente, impregnando-os de coerência e unidade para que a história funcione melhor para sua intervenção teórica.

Ele argumentou, por exemplo, que embora Senghor e Kouyaté não estivessem “escrevendo diretamente sobre o corpo”, o pensamento deles antecipou “uma leitura da soberania colonial considerada como necropolítica”. Em um sentido, esse seria um enquadramento útil: mostrar como os pensadores do período entre guerras podem ter prenunciado os temas dos teóricos de hoje, chama atenção para antecedentes intelectuais negligenciados.

No entanto, há o perigo de esvaziar os conceitos de seus significados e de suas especificidades históricas. Em sua sugestão de que os pensadores que desenvolveram teorias sobre a centralidade do trabalho negro na ordem global do período entre guerras estavam, na verdade, escrevendo sobre o corpo, prenunciando o trabalho contemporâneo de Achille Mbembe, Younis correria o risco de ocultar algo da história intelectual.

Em decorrência desses dilemas metodológicos, nem sempre fica nítido se Younis está argumentando que a escala mundial do colonialismo era a pré-condição do pensamento político do Atlântico Negro no entre guerras, ou se o pensamento em si era global em sua amplitude. Na maioria das vezes, ele conseguiu demonstrar a segunda hipótese, reconstruindo com elegância as mudanças de escala no pensamento anticolonial.

Às vezes, porém, o discurso sobre escala desliza para o primeiro desses argumentos e, portanto, parece tautológico. Por exemplo, ele escreveu que o mundo não foi “diretamente invocado” no Gold Coast Leader, “mas essa escala implicitamente tornou todo o argumento possível”.

De modo geral, essas foram pequenas ressalvas em um estudo excelente. A originalidade da construção do livro torna-se ainda mais impressionante, se considerarmos a quantidade de investigações sobre o pensamento do Atlântico Negro que já temos em mãos. No final das contas, a missão de Younis em – “peneirar os globalismos” do passado e em “localizar aqueles que podem formar a base de uma ação coletiva que englobe o mundo” – parece valer mais a pena, do que um projeto de reconstrução histórica rígido e literal.

Por fim, vale a pena perguntar até que ponto o arquivo do período entre guerras pode ser útil para o nosso novo momento de colapso ecológico e de ressurgimento da rivalidade entre as “grandes potências” – e se, como David Scott considerou, podemos ainda pensar em conceber o futuro por meio dos termos desenvolvidos por militantes anticoloniais do passado.

Sem dúvida, há muito “tesouro intelectual enterrado” a ser escavado na história do anticolonialismo. Mas esse trabalho não pode substituir a tarefa mais árdua e desafiadora que consiste em enfrentar e pensar novamente sobre a nossa ordem global – uma ordem que, ao contrário do passado que produziu Kwame Nkrumah e Fidel Castro, não tem horizontes emancipatórios claros ou alternativas sistêmicas mundiais.

Colaborador

Ed McNally é doutorando na Universidade de Oxford e político sindical.

2 de fevereiro de 2023

Império verde?

Sobre Neta Crawford.

Ed McNally


Em sua convicção de que a crise climática “muda tudo” e em sua busca por um agente histórico capaz de unir a libertação da catástrofe com uma transformação social radical, a política climática de esquerda é muitas vezes sustentada por um otimismo residual. No entanto, esse estado de espírito está longe de ser universal. Alguns comentaristas sugeriram que, dada a escassez de tempo e as perspectivas sombrias de tomar o poder do Estado, os salvadores do clima terão de ser retirados das fileiras inimigas. Veja Michael Klare. Um estudioso de estudos de paz de longa data e correspondente de defesa do The Nation, ele agora é um líder de torcida para a vanguarda eco-consciente que se forma dentro do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD). “À medida que as temperaturas globais aumentam e os recursos vitais diminuem”, escreve Klare, os esforços de mitigação climática do DoD tornaram-se “um modelo para o resto da sociedade imitar”. Não apenas isso; a visão do Pentágono sobre a política climática global deve ser vista como “o ponto de partida para as futuras relações exteriores dos Estados Unidos”. Realmente chegou a isso? Pode ser verdade que, na ausência de um poderoso movimento socialista-ambientalista, a melhor esperança para a humanidade seja a descarbonização de cima. Mas que papel o aparato imperial americano provavelmente desempenhará nesse processo? Pode plausivelmente reivindicar ser um “líder climático”?

Esta é a questão que Neta Crawford aborda em The Pentagon, Climate Change, and War: The Rise and Fall of US Military Emissions, publicado em outubro passado. Crawford foi recentemente nomeado para o principal cargo de professor de relações internacionais de Oxford, anteriormente ocupado pelo arquiteto da Liga das Nações, Alfred Zimmern, e pelo teórico da ordem mundial, Hedley Bull. Como estudante de graduação em Brown na década de 1980, ela estudou um diploma de seu próprio projeto, "O sistema de guerra e alternativas ao militarismo", enquanto trabalhava com E.P. Thompson e Joan Scott no movimento pela paz. Ao mesmo tempo, Crawford realizou pesquisas exaustivas sobre o material soviético como parte de um projeto do Instituto de Estudos de Defesa e Desarmamento para compilar um banco de dados de todas as "prinicipais armas" fabricadas globalmente no período pós-guerra. Dois anos depois de se formar, ela escreveu um volume de mais de mil páginas, documentando as minúcias quantitativas da aviação militar soviética.

Esse domínio dos dados militares informaria o trabalho posterior de Crawford. Desde 2011, ela atua como codiretora do projeto Costs of War, avaliando o custo humano e econômico da guerra contra o terror de Washington. (Em sua última grande contagem, o projeto estimou quase um milhão de pessoas mortas a um custo de mais de $ 8 trilhões.) Crawford também é altamente considerado um teórico de RI. Em seu primeiro livro, Argument and Change in World Politics: Ethics, Decolonization, and Humanitarian Intervention (2002), ela defendeu que crenças normativas são uma força estruturante na política mundial e que argumentos éticos persuasivos podem, portanto, efetuar mudanças históricas. Uma década depois, em Accountability for Killing: Moral Responsibility for Collateral Damage in America's Post-9/11 Wars (2013), Crawford voltou sua atenção para os militares dos EUA, mapeando sua institucionalização gradual de um regime de proteção não-combatente, mas destacando seu desrespeito duradouro por danos civis "quando a necessidade militar é considerada alta". Essa formação intelectual a tornou especialmente bem posicionada para analisar as maquinações climáticas do Pentágono.

The Pentagon, Climate Change, and War está bem dividido em quatro seções, começando com um relato impressionante da história energética das forças armadas americanas. Citando um relatório de 1855 do secretário da Marinha dos Estados Unidos, que afirmava que "o aumento no número de navios a vapor tornará necessária a compra de carvão", Crawford desenvolve o argumento de que os militares dos Estados Unidos foram um importante impulsionador da adoção generalizada de carvão seguido de petróleo. O combustível fóssil, explica ela, tornou-se rapidamente a base energética de sua postura de força em meados do século XIX. Isso levou a um consenso entre o establishment político e militar de que o acesso aos suprimentos de carvão e petróleo era um interesse estratégico vital e protegê-los era um objetivo militar primordial. Como David Petraeus afirmou em 2011, "A energia é a força vital de nossas capacidades de combate" - uma afirmação que Crawford verifica rastreando o arco de um século desde a vitória dos EUA a carvão na guerra hispano-americana até o estabelecimento do Comando Central (CENTCOM ) como o eixo central do domínio de Washington no Golfo Pérsico.

Nesse relato, a carbonização do poder imperial – canhoneiras queimando carvão antes que os caças devorassem petróleo – imbuiu a expansão americana de uma lógica cíclica, “onde a necessidade de reabastecimento para expandir e proteger os interesses dos EUA exigia bases em porções cada vez maiores do globo, enquanto as próprias bases e o próprio combustível se tornaram interesses estratégicos.” Crawford chama isso de “o ciclo profundo”: um processo espiral de “demanda, consumo, militarização e conflito por petróleo”. Em sua leitura, são principalmente as crenças dos planejadores militares e das elites da política externa sobre a centralidade do carvão e do petróleo que ajudaram a institucionalizar a demanda por combustíveis fósseis: “Instituições foram construídas nos últimos dois séculos para realizar as crenças dos tomadores de decisão sobre o papel dos combustíveis fósseis na guerra.” Ao colocar em primeiro plano a dimensão ideacional da mudança histórica, Crawford argumenta que a dependência de combustíveis fósseis não era inevitável; era antes uma escolha contingente que ainda poderia ser anulada. Como ela escreveu em seu primeiro livro, focar na força do argumento pode "permitir que vejamos espaço para a ação humana nas operações de forças políticas e econômicas aparentemente inexoráveis".

Na próxima seção, Crawford considera a questão da ciência do clima e das emissões militares dos EUA, demonstrando que o DoD está ciente da importância das emissões de carbono desde o final dos anos 1950. A pesquisa financiada pela Marinha determinou que as moléculas de CO2 se dissolveram no oceano depois de menos de dez anos na atmosfera, fornecendo o ímpeto para a medição sistemática dos níveis atmosféricos de CO2. A CIA manteve um olhar atento sobre esses estudos, assim como a Casa Branca. O conselheiro de assuntos urbanos de Nixon, Daniel Patrick Moynihan, delineou suas preocupações sobre “o problema do dióxido de carbono” em um memorando de 1969 enviado ao chefe de gabinete do presidente, alertando que o próximo século poderia ser marcado por aumentos catastróficos do nível do mar: "Adeus, Nova York. Adeus Washington, por falar nisso. Não temos dados sobre Seattle." Isso era algo "com o qual o governo deveria se envolver", aconselhou Moynihan, acrescentando que era "natural para a OTAN".

Usando documentos do Arquivo de Segurança Nacional de Georgetown, desclassificados por meio de pedidos de liberdade de informação, Crawford continua explicando como o Pentágono fez lobby com sucesso para a isenção da maior parte das emissões militares do Protocolo de Kyoto, tendo convencido a Casa Branca de Clinton de que "impor limitações de emissões de gases de efeito estufa em sistemas militares táticos e estratégicos... impactaria adversamente as operações e a prontidão." O legado desse triunfo diplomático americano é que, na contabilidade do IPCC, cujas convenções são seguidas pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), "emissões de atividades [militares] em bases no exterior e operações multilaterais são excluídas dos totais nacionais."

Em um esforço para corrigir esse descuido intencional, Crawford gasta mais de cinquenta páginas estabelecendo seus próprios cálculos meticulosos das emissões militares e industriais militares dos EUA. Sua conclusão não é surpreendente: as emissões militares acompanham o conflito e diminuíram em geral desde o fim da Guerra do Vietnã, embora permaneçam gigantescas. Em sua contagem, as emissões militares de gases de efeito estufa dos EUA ficaram em pouco mais de 109 milhões de toneladas métricas de CO2 equivalente (MMTCO2e) em 1975. Em 2020, elas caíram para 52 MMTCO2e. A energia consumida pelas instalações do DoD diminuiu em magnitude semelhante no mesmo período, graças ao fechamento de mais de mil bases desde 1991. Embora as emissões diretas do Pentágono sejam um componente muito pequeno do total nacional dos EUA (que ficou em 5.222 MMTCO2e em 2020), as emissões industriais militares representaram cerca de 17% do total de emissões de gases de efeito estufa da fabricação industrial em 2019, de acordo com a estimativa conservadora de Crawford.

Um grande poluidor cuja força é usada para “proteger o acesso ao petróleo do Oriente Médio”, o Pentágono, no entanto, tem dedicado mais atenção às mudanças climáticas e suas consequências do que a maioria das instituições estatais. Crawford segue esse desenvolvimento na parte três do livro, mostrando como o DoD tem estado na vanguarda da concepção do colapso climático como uma grande ameaça à segurança nacional americana. O que começou na década de 1990 com a preocupação com a eficiência do campo de batalha e a ligação entre a degradação ambiental e o conflito gradualmente se transformou ao longo de quinze anos em pânico sobre as implicações do colapso ecológico para o poder americano. Uma série de relatórios ligados a militares foram divulgados em 2006-7, argumentando que a mudança climática "age como um multiplicador de ameaças para a instabilidade", o que "exigiria que os Estados Unidos apoiassem políticas que os isolem, bem como os países de interesse estratégico, das mais efeitos graves". Esse consenso emergente ficou evidente na Revisão Quadrienal de Defesa do DoD de 2010, que afirmou que “o Departamento está desenvolvendo políticas e planos para administrar os efeitos da mudança climática em seu ambiente operacional, missões e instalações”. Em 2019, um grupo de cinquenta e oito autodenominados "altos líderes militares e de segurança nacional", liderados por John Kerry e Chuck Hagel, estavam se opondo à tentativa de Trump de usar seu Conselho de Segurança Nacional para subverter os programas de pesquisa sobre mudanças climáticas do Pentágono e da CIA, escrevendo em uma carta ao presidente: "Apoiamos os patriotas movidos pela ciência em nossa comunidade de segurança nacional, que veem corretamente a abordagem da mudança climática como uma questão de redução de ameaças, não apenas política, desde 1989."

Crawford is broadly impressed by the Pentagon’s adaptation efforts. Yet she is also disturbed – and puzzled – by its failure to take climate mitigation more seriously or to recognize its own carbon footprint as a problem. Why are ‘some of the smartest, best-trained, and most determined people on this planet, given the resources of the richest nation on earth’ – long aware of anthropogenic warming and seeking to climate-proof their installations – so ‘strategically inflexible and blind’? For one thing, DoD leaders are surely right (on their own terms) to worry that stringent curbs on their emissions would begin to undercut American military pre-eminence. Greener equipment and weaponry can in some contexts be necessary for tactical and protective reasons, as US forces in Iraq learnt from the vulnerability of their fuel convoys to insurgent attacks. But as Crawford notes, the best that has been managed to date is the Navy running warships on a 10% beef fat, 90% petroleum mix as part of the ‘Great Green Fleet’ gimmick in 2009. It is hard, then, to envisage the Pentagon’s operations being more thoroughly decarbonized without a dramatic retrenchment. Cutting military emissions by massively downscaling the DoD’s size and operations – closing one-fifth of bases and installations, withdrawing from the Persian Gulf – is what Crawford proposes. But there is no mystery as to why the Pentagon would refuse to accept this. Generals are naturally reluctant to opt for their own liquidation. Indeed, even if the Federal Reserve and Treasury Department were to wield their power to accelerate decarbonization globally, they would struggle to build an eco-military. Unless the Pentagon can rapidly learn how to rule the skies and patrol the South China Sea propelled by biofuels rather than oil, a reconfiguration of American empire is more likely to take the form of green capital adjoined to a carbon military.

Reviewing The Pentagon, Climate Change, and War, Erin Sikorsky cast aspersions on Crawford’s argument that ‘the military is more than just one entity among many that have created the systemic climate risks facing the world today’, querying the assumption that ‘the key to US decarbonization is demilitarization’. This objection is to be expected from Sikorsky – once a CIA officer, now the director of two leading military-linked climate security institutions. Yet perhaps there is a grain of truth in her criticism. For all the strengths of Crawford’s study, its fixation on military emissions can be inhibiting. Given the Pentagon’s emissions make up only around 1% of the US national total, the author’s suggestion – in the final part of the book – that the military could ‘play a major role’ in broader climate mitigation efforts by reducing its carbon footprint seems dubious.

More importantly, Crawford’s painstaking focus on quantifying the DoD’s emissions fails to capture the fundamental purpose of such energy expenditure. In excavating the American military’s energetic foundations since the nineteenth century, Crawford has, to be sure, provided us with an invaluable historical understanding of the relationship between climate change and US imperial firepower. Her concept of ‘the deep cycle’ illuminates the catalytic effects of war and the military industry on the general growth of emissions. Yet, given the specific form American power has taken since the second world war – a global empire of capital – the significant thing about military emissions is not so much their magnitude as the reason they are generated in the first place: namely, the Pentagon’s need to maintain unparalleled supremacy in order to underwrite a much wider, ecologically ruinous regime of accumulation. Washington’s role as guardian of global capital – and the military’s role as coercive guarantor of that position – is conterminous with what environmental historians call ‘the great acceleration’. The advent of the ‘Anthropocene’ and the spread of American-led transnational capitalism are intertwined. As such, the Pentagon’s deadly atmospheric legacy far outstrips the effect of its own emissions.

Crawford’s intellectual project is perhaps best understood as a progressive immanent critique of American empire, defined by intricate attention to the military as an institution – its political history, energy composition, ideologies, procedures, rules, and modes of killing. This kind of granular attention to military politics is vanishingly rare for contemporary scholars of the left, yet both its brilliance and its limitations derive from this immanent position. It is only by seeing the Pentagon as if from the inside that Crawford can produce such rich studies of its machinations. But taking the institution on its own terms can also weaken her critical perspective. In Accountability for Killing, she writes that

os militares dos EUA agiram como um agente moral imperfeito, e seu reconhecimento gradual do problema dos danos colaterais, suas respostas ad hoc iniciais ao problema e a institucionalização gradual de um programa de mitigação de baixas civis ilustram um ciclo de agência moral e uma processo de aprendizagem organizacional. Argumento que esse processo tem sido, com exceções, majoritariamente positivo. Mas também mostro onde e como as forças armadas dos Estados Unidos poderiam agir ainda mais para reduzir os danos colaterais sistêmicos e de proporcionalidade/duplo efeito.

Here, as with her suggestion that the potential for carbon and methane release caused by airstrikes should be incorporated as a consideration in targeting guidance, Crawford ends up missing the wood for the trees by focusing on – and overplaying – the Pentagon’s potential for ethical self-improvement. So too in some of her 2003-4 articles on the Bush administration, which describe the ‘best intentions’ of Washington policymakers and lament the military’s ‘unfortunate lapses’ in continually bombarding civilians. Crawford’s technocratic prescriptions are premised on a conviction that the practices of the US military, and indeed the empire more widely, are driven by normative beliefs which might be subject to change through ethical persuasion. Considering the ‘moral duties of American hegemony’ in a piece for the house journal of the US Navy, she insists that Washington ‘can in fact pursue a moral policy in Iraq and the rest of the world’, pointing to ‘the integration of ethical reasoning with prudence’ as the best path forward for its foreign policy.

This framework stems from Crawford’s first book, which recast the history of decolonization as a grand teleology of ethical argument: ‘if the roots of decolonization are in the demise of . . . slavery and forced labor, and the cause of abolition was changing normative beliefs through ethical argument, then ethical arguments are a powerful underlying cause of decolonization.’ There is an important continuity of method between this study and Crawford’s work on US empire: the Pentagon’s failure to take climate mitigation seriously is likewise attributed to ‘habits of mind’. The author’s stress on the determinant force of ethical argument, revolutions in normative beliefs and their subsequent institutionalization, helps to explain her moments of credulity about the extent to which the Pentagon can be reformed.

Green empire seems like an idea whose time has come in the West: NATO’s new security concept says it ‘should become the leading international organization when it comes to understanding and adapting to the impact of climate change on security’, while the European Greens promote retrofitting with the slogan ‘Isolate Putin. Insulate Homes.’ Crawford’s empirically rich work does much to deepen our understanding of this trend and its prehistory. But when her anatomy of the military is affixed to an analysis of the empire it shields, the strictures of the Pentagon’s role as a climate actor become clear. With the left in purgatory, it is understandable that scholars like Michael Klare should hope for Washington to take up the mantle of planetary rescue. The notion that there might be anything ethically palatable in a green American empire, though, is a delusion that must be dispensed with.

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