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1 de maio de 2023

O retorno de Lula e a herança da destruição

A vitória eleitoral de Lula pode ter revigorado a esquerda brasileira, mas a destruição causada pelo ex-presidente ultraconservador Jair Bolsonaro apresenta uma tarefa monumental para o novo governo. Rosa Marques e Paulo Nakatani analisam os desafios que Lula enfrentou de olho nos que ainda virão.

Rosa Maria Marques e Paulo Nakatani


Monthly Review Vol. 75, No. 01 (May 2023)

Os resultados da eleição de 2022 e a candidatura Lula-Alckmin

No segundo turno das eleições presidenciais de 30/10/2022, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República pela terceira vez, fato inédito na história do Brasil. A diferença com relação ao seu oponente, Jair Bolsonaro, foi de apenas 2.139.645 votos, menor do que a ocorrida na disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, em 2014. Também é a primeira vez, desde a redemocratização do país, que um presidente não foi reeleito. Em relação ao primeiro turno, Bolsonaro ampliou os votos em mais de 7 milhões (7.134.009), enquanto Lula em 3.086.495. Para isso, o então presidente se valeu de todos os expedientes possíveis, entre os quais se destaca o uso político de benefícios dirigidos à população de baixa renda em alguns municípios brasileiros e a tentativa de impedir que parte dos eleitores da região Nordeste do Brasil tivessem acesso aos locais de votação, criando obstáculos a sua mobilidade em diversas estradas. Ao final, Lula obteve 60.345.999 votos e Bolsonaro 58.206.354 votos.

Lula ganhou em 13 dos 26 Estados, especialmente na Região Nordeste do país (uma das mais pobres), registrando 1 vitória no Norte, outra no Centro-Oeste e ainda outra no Sudeste. Comparado ao resultado de 2018, quando Bolsonaro derrotou Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula ampliou sua votação nos demais Estados. Dessa forma, o resultado favorável a Lula foi decorrente tanto da esmagadora adesão dos eleitores a sua candidatura no Nordeste, como da ampliação do apoio recebido em outras regiões do país. As Regiões Sudeste e Sul reúnem, respectivamente, 42,64% e 14,42% do eleitorado do país. Assim como Lula recebeu 76,83% dos votos válidos no Piauí e 72,11% na Bahia, ambos estados do Nordeste, Bolsonaro obteve 69,27% em Santa Catarina e 62,40% no Paraná, estados localizados na Região Sul. Em termos de renda, as pesquisas prévias à eleição apontavam predomínio de intenção de voto em Lula entre eleitores de renda mais baixa, com até 2 salários mínimos; entre católicos; entre os eleitores com escolaridade baixa; e entre a parcela dos mais jovens, de 16 a 24 anos, na faixa de idade de 45 a 59 anos, e entre os com 60 anos a mais. Entre o segmento mais afetado pelo desemprego e pela precarização do trabalho, com idade entre 25 e 44 anos, Bolsonaro receberia o maior percentual de intenção de votos.

As eleições de 2022, no plano federal, também compreenderam a eleição de deputados e de parte dos senadores. Seu resultado não pode ser desconsiderado, pois a composição da Câmara de Deputados e do Senado é um dos aspectos que precisa ser levado em conta para se entender o nível de dificuldades que Lula irá enfrentar durante seu governo. Não só as forças que apoiaram sua candidatura não detém a maioria nas duas Casas, como foram eleitos quadros absolutamente identificados com as políticas mais negacionistas e retrógradas do governo Bolsonaro, tais como seus ex-ministros do Meio Ambiente (Ricardo Salles, para deputado federal), da Saúde (general Eduardo Pazuello, para deputado federal) e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (Damares Alves, para o Senado), responsáveis, respectivamente, pela destruição e o abandono de qualquer cuidado com relação à natureza e ao meio ambiente, pela atitude genocida no tratamento da pandemia de Covid-19 e pelo retrocesso, de fato, com relação aos direitos da mulher e aos direitos humanos. A esses se soma a eleição de Sérgio Moro, para o Senado, ex-juiz que foi responsável pela farsa montada contra Lula, que resultou na sua prisão por 580 dias. Um de seus comparsas nessa farsa, Deltan Dallagnol, foi eleito para deputado federal. Sem falar no vicepresidente de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, eleito para o Senado

Lula foi eleito por uma Frente Ampla democrática (com o nome de Coligação Brasil Esperança) que reuniu forças políticas dos mais diferentes matizes, inclusive lideranças políticas que até há pouco tempo não se falavam. Não se trata, portanto, da reprodução da candidatura de Lula de 2002, que representava basicamente a força construída pelo PT junto aos sindicatos, associações, movimentos sociais, enfim, à sociedade brasileira. Naquele momento, a mão estendida para além de suas bases políticas, foi simbolicamente representada por seu vice, José Alencar, do inexpressivo Partido Liberal. Seu vice em 2022, Geraldo Alckmin, até pouco tempo estava no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que sempre se colocou como oposição ao PT e que participou do golpe impetrado contra Dilma Rousseff. Hoje, Alckmin está no Partido Socialista Brasileiro (PSB), mas toda sua trajetória política anterior foi feita enquanto PSDB, tendo governado por anos os mais populosos estado e cidade do país (ambos com o nome de São Paulo) e implementado ações e medidas de cunho neoliberal. Há quem diga que, hoje, Alckmin é um "novo homem". O que isso irá significar em termos de lealdade a Lula e aos objetivos de sua candidatura, só o tempo dirá. Mas, para além do seu vice, Lula obteve apoio, especialmente no segundo turno, da esquerda mais radical a personalidades situadas no campo do neoliberalismo, sem falar das inúmeras manifestações feitas por diferentes segmentos da sociedade, entre as quais se destaca a realizada pelos bispos da igreja católica.

A união de tão diferentes origens e classes expressa o reconhecimento de que era absolutamente necessário impedir a continuidade de Bolsonaro no governo. Dizia-se que era uma luta entre civilização e barbárie. Além do desmonte do Estado que promoveu (e estamos usando a palavra no seu sentido literal e não figurado), e da redução brutal, antes impensável, dos recursos para a área da educação, ciência e tecnologia, para programas voltados para as mulheres, e um número enorme de outros, armou a população, promoveu o maior desmatamento da região amazônica da história do país, e insuflou o racismo, o machismo, a intolerância religiosa, os ataques aos indígenas e o ódio contra os LGBTQIA+.

No plano econômico e social, a destruição não foi menor. Para se ter uma ideia, basta dizer que o nível de desindustrialização do país e do investimento (privado e público) nunca foi tão baixo, e que o Brasil voltou ao Mapa da Fome, da Pobreza e da Insegurança Alimentar. Nas principais cidades brasileiras, milhares de pessoas e famílias moram nas ruas e chegam ao extremo de procurarem comida no lixo e de fazerem fila para terem acesso a ossos (primeiro, distribuídos gratuitamente e, depois cobrados por comerciantes sem escrúpulos). No mercado de trabalho, não só se amplia a informalidade como é cada vez maior o contingente precarizado.

Essa situação, aqui brevemente descrita, não quer dizer que não houve segmentos da sociedade que se beneficiaram das políticas implantadas por Bolsonaro e, antes dele, por Michel Temer, que assumiu a presidência da República quando do afastamento de Dilma Rousseff. Muito pelo contrário. Além do capital portador de juros (na figura dos grandes bancos nacionais, dos fundos de pensão e de investimento estrangeiros e dos acionistas da Petrobras, que vinculou sua política de preços ao mercado internacional), foram atendidos os interesses do agronegócio (liberação do uso de agrotóxicos como nunca antes visto e abandono das ações de vigilância e de multas que inibiam a exploração em terras da Floresta Amazônica), da mineração sem freios (adentrando terras indígenas e da Floresta Amazônica), dos envolvidos com a produção e comercialização de armas e mesmo com a criminalidade associada ou desenvolvida pelas milícias em importantes capitais e cidades. Isso sem mencionar que empresas de todos os tipos se beneficiaram da nova realidade do mercado de trabalho promovida pela reforma empreendida durante o governo de Temer, que retirou direitos dos trabalhadores e enfraqueceu o poder dos sindicatos, permitindo que os empregadores avançassem deteriorando os salários e as condições de trabalho. No plano dos costumes, os evangélicos foram os grandes favorecidos, o que resultou em mudanças na legislação quanto ao aborto, ao tratamento da saúde mental e aos adictos, e na flexibilização do conteúdo da educação de primeiro e segundo graus, para dar alguns exemplos.

É dentro desse contraditório de interesses que a Frente Ampla encabeçada por Lula foi realizada. Para parte de representantes da classe dominante e para importantes instituições da sociedade brasileira, não era mais possível assistir à continuidade da deterioração do tecido social, a que se somavam crescente negacionismo científico e total desprezo por aquilo que se convencionou chamar de direitos humanos e princípios democráticos da sociedade ocidental.

Em relação ao Programa dessa Frente Ampla, claramente marcado pelo peso das ideias do PT, há que se diferenciar as “promessas de campanha”, que deveriam ser implementadas imediatamente, daquelas que têm como propósito reverter o quadro social, econômico, e mesmo de destruição do aparato estatal, que foram resultado dos últimos seis anos de governo. Além disso, há as questões estruturais de nossa sociedade, que os últimos anos demonstraram não poderem mais ser toleradas, pois constituem a base sob a qual se apoia o racismo, o feminicídio, a extrema desigualdade existente no país e o genocídio dos povos indígenas. Além disso, se somam os aspectos relativos à condição de eterna dependência do país aos interesses do grande capital internacional.

A reação da direita radical e a contraofensiva de Lula

Realizada a eleição e declarado o vencedor, Bolsonaro manteve-se em total silêncio. Seu primeiro pronunciamento oficial foi realizado em 01/11/22, durou exatos dois minutos e neles não reconheceu a vitória de seu oponente. O segundo pronunciamento ocorreu em 30/12/23, no qual afirmou que nem tudo estava perdido. Um dia depois, desembarcou na Flórida, nos Estados Unidos, e lá permanece até hoje (13/02/23).

Em paralelo, desde a madrugada do dia 31/10 (segunda-feira), um dia depois das eleições do segundo turno, caminhoneiros, a maioria de frotas de grandes empresários, bloquearam importantes rodovias em 22 estados em protesto contra o resultado das eleições. Junto a eles, somavam-se adeptos de Bolsonaro, que também se fizeram presentes em algumas cidades. Foi necessário que o Ministro Alexandre Moraes, presidente do Supremo Tribunal Eleitoral (STE), ordenasse a imediata desobstrução das rodovias pelas forças policiais estaduais e locais, sob pena de pesadas multas, ordem inclusive dirigida ao diretor da Polícia Rodoviária Federal (que estava claramente comprometido com o movimento e que permitiu o atraso do deslocamento de eleitores nos estados em que Lula tinha franco apoio, tal como mencionado acima). A decisão de Moraes foi imediatamente referendada pela maioria do Supremo Tribunal Federal (STF). Na manhã de quarta-feira, várias estradas continuaram com bloqueios e se concentravam em estados onde Bolsonaro ganhou por larga margem. Em vários locais, estradas foram liberadas pela ação de torcidas organizadas que estavam se deslocando para assistir jogos de campeonatos de futebol. Também houve casos em que metalúrgicos e moradores de favelas fizeram o mesmo.

Apesar da ordem de Moraes, em vários estados, a desobstrução era seguida por novos bloqueios, no mesmo lugar ou em pontos diferentes das rodovias. Durante todo o tempo, vídeos que circulavam nas redes sociais mostravam o pouco empenho dos policiais em realizar a desobstrução e, em alguns casos, sua socialização com os bolsonaristas. Somente em 23 de novembro, pode-se dizer que a mobilidade nas estradas voltou à normalidade.

Ao mesmo tempo em que as estradas foram bloqueadas, bolsonaristas se reuniram em frente aos quartéis do exército brasileiro nas principais capitais do país (inclusive em Brasília, capital do país, no Distrito Federal). Lá permaneceram até 09/01/23, um dia depois da invasão e depredação dos edifícios dos três poderes da República (Congresso Nacional, Palácio do Planalto e STF). A longa permanência dos bolsonaristas na frente dos quartéis, com toda a infraestrutura, em nada lembrando acampamentos de movimentos sociais da esquerda, só foi possível porque o próprio exército lhe deu guarida e não permitiu que as forças policiais os desalojassem.

Um dia antes da diplomação de Lula, em 11/12/22, bolsonaristas tentaram invadir a Polícia Federal sob o pretexto de resgatar um militante da direita que fora preso, queimaram carros e ônibus. As forças repressivas demoraram para chegar e os dispersarem, mas não houve nenhuma prisão. Na véspera do Natal, uma bomba foi encontrada na via de acesso ao aeroporto de Brasília. No momento em que escrevemos essas notas, os três envolvidos no atentado estavam presos, aguardando julgamento.

Mas o auge das ações dos adeptos de Bolsonaro foi, sem dúvida, o que ocorreu em 08/01/23, uma semana após a posse de Lula. Além da depredação brutal, houve cenas escatológicas, de total barbárie e a destruição de quadros famosos e peças únicas, insubstituíveis. Os bolsonaristas que participaram desse ato de barbárie vieram de várias partes do país, mas mais fortemente dos estados nos quais Bolsonaro teve votação estrondosa e, não por coincidência, onde a população se vangloria publicamente de estar fortemente armada. De classes de renda distintas, mas com predomínio do que se considera como classe média, seus participantes tinham, em média, mais de 46 anos, com uma presença masculina um pouco maior que a feminina. Não há, até o momento, informações relativas às atividades por eles exercidas, mas os vídeos por eles mesmos vinculados nas redes sociais permitiram identificar, militares, pastores evangélicos, professores, envolvidos na extração de minérios em regiões de conflito, entre outras profissões.

A facilidade com que os bolsonaristas chegaram à Praça dos três Poderes, adentraram em suas instalações e passaram a destruir o que encontrassem pela frente somente é explicada pela leniência e, em alguns casos, pelo franco apoio recebido das forças de segurança que deveriam impedi-los, inclusive do próprio Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Os registros em vídeo - feitos pelos próprios bolsonaristas ou pelas câmeras de segurança - não deixam dúvida sobre isso.

Além disso, apesar de diferentes órgãos de inteligência terem informado sobre a possibilidade de grande ato em Brasília por parte dos adeptos de Bolsonaro, o efetivo inicial previsto para conter a investida foi praticamente desmobilizado sem que o Ministro da Justiça de Lula tomasse conhecimento.

Ao caos criado pelos bolsonaristas em Brasília, era esperado, ao que tudo indica, que o governo Lula respondesse com a decretação de situação de Garantia da Lei e da Ordem em Brasília, mas, com isso, a capital ficaria sob o comando das Forças Armadas, o que seria, no mínimo, temerário. No lugar disso, Lula decretou intervenção federal no DF e afastou seu governador, o que foi, logo depois, sancionado pelos deputados e senadores. Essas medidas foram completadas pelas ações encaminhadas por Alexandre de Moraes, que definiu, entre outras ações, a prisão em flagrante dos participantes das invasões, a abertura de investigação para determinar quem foram os responsáveis pela desmobilização das forças para impedir a realização de atos na Esplanada dos Ministérios, de seus organizadores e financiadores, a prisão do comandante da Polícia Militar e do Secretário de Segurança Pública do DF e a completa desmobilização dos acampamentos ainda existentes em frente aos quartéis. Os mandados de prisão dos envolvidos, bem como dos que publicamente se manifestaram (e ainda se manifestam) por um golpe militar e pela invalidação das eleições presidenciais, continuam a ser cumpridos em todos o território nacional. Também foram abertos inquéritos policiais militares para apurar a conduta e omissão de comandantes, subcomandantes e outros policiais. Na sociedade, diferentes instituições e personalidades se posicionaram contra as invasões e movimentos sociais, associações, centrais sindicatos e partidos convocaram mobilizações para o dia seguinte nas principais capitais e cidades do país.

Ainda como desdobramento do dia 08/01, registre-se que o comandante do Exército não permitiu que, à noite desse dia, fossem presos os bolsonaristas que haviam voltado para o acampamento em frente ao quartel de Brasília. Essa atitude e o fato de não ter anulado a nomeação do ajudante de ordens de Bolsonaro (realizada ao final de seu governo) para o comando do 1º Batalhão de Ações de Comando, em Goiânia (que fica ao lado de Brasília), levou a que ele fosse exonerado do cargo em 21/01. Esse batalhão, assim como o de operações especiais, constitui uma tropa de elite que pode ser acionada rapidamente para debelar ameaças convencionais e não-convencionais no território nacional. Enfim, um comando estratégico, que seria assumido pelo principal assessor de Bolsonaro.

A invasão dos Três Poderes também determinou que Lula acelerasse a troca do comando de superintendências regionais da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da chefia da Polícia Federal em 26 estados do país, instituições sabidamente receptivas às ideias bolsonaristas. Além de nomear diretores que haviam sido afastados anteriormente por Bolsonaro, chama atenção o fato de 9 mulheres terem sido nomeadas na PRF. Em relação ao GSI, responsável pela segurança do presidente da República, de seus familiares e dos prédios do executivo, Lula, até o momento em que redigimos essa Nota, dispensou e/ou exonerou mais de 60 integrantes militares, inclusive trocando seu secretárioexecutivo. Dessa forma, a tentativa de golpe foi controlada. Pelo menos, até o momento.

A posse de Lula, o trabalho da equipe de transição e os novos ministérios

A posse de Lula ocorreu em 01/01/2023, como previsto. Apesar da bomba armada uma semana antes por bolsonaristas, Lula não deixou de desfilar em carro aberto e de subir a rampa de acesso ao Palácio do Planalto. A presença da população no ato foi bem maior do que em suas posses anteriores e nas de Dilma Rousseff.

Lula subiu a rampa acompanhado pelo povo brasileiro, nas pessoas do cacique Raoni (91 anos), do povo Kayapó, uma das maiores lideranças indígenas do país; por um menino negro de 6 anos; por um deficiente; por um metalúrgico; por um professor; por uma integrante da Vigília Lula Livre (movimento que ficou em frente ao local onde Lula esteva preso durante todo o tempo de seu encarceramento) e por uma catadora de materiais recicláveis. A faixa presidencial lhe foi entregue por essa última.

Em seu discurso proferido à população, Lula resumiu os principais pontos defendidos durante sua campanha e reiterados pelos grupos de trabalho que formaram sua equipe de transição. Desde dezembro de 2002 (lei 10.609/20020, é garantido que o (a) candidato (a) eleito (a) forme uma equipe de transição com 50 cargos para que não ocorra uma ruptura entre um governo e outro. A equipe de Lula foi mais numerosa do que o costumeiro, somando-se inúmeras outras pessoas àquelas que assumiram cargos (apenas 22), das mais diversas formações e expertises e em caráter voluntário.

A equipe, chamada de Gabinete de Transição no relatório final apresentado à sociedade brasileira, foi formada de 32 grupos temáticos, com caráter setoriais e transversais, de um Conselho Político e de um Conselho de Participação Social. Seu principal intuito era definir ações e estratégias considerando a situação efetiva dos órgãos e entidades da Administração Pública Federal e das políticas públicas, além de um diagnóstico da situação. O resultado encontrado foi estarrecedor. Nos últimos anos, houve deliberada desconstrução institucional, desmonte do Estado e desorganização das políticas públicas.

É difícil escolher o campo em que o nível de destruição foi maior, mas não há dúvida de que, na educação, saúde, preservação ambiental e defesa dos povos indígenas, foi aplicada uma verdadeira política de terra arrasada, cujos efeitos serão difíceis de reverter no curto prazo. Para dar uma ideia do resultado dessa política, o Brasil, que se destacava mundialmente por seu sistema vacinal, viu a taxa de cobertura da população alvo contra a poliomielite, por exemplo, baixar de 98% (2015) para 52% (setembro de 2022). O país perdeu a certificação de livre do sarampo em 2019.

Com relação ao meio ambiente e ao tratamento dos povos originários, não há maior exemplo do quadro de destruição do que aquele que está ocorrendo com o povo Yanomami no Norte do país. Os yanomamis vivem na maior reserva indígena existente no Brasil, que compreende 9,6 milhões de hectares está situado em Roraima e em parte do estado do Amazonas. Essa reserva foi demarcada em 22/05/1992, depois de um processo que durou15 anos. Durante a ditadura militar, foi desenvolvido o Projeto Radam (Radar na Amazônica), que tinha como objetivo levantar dados sobre os recursos minerais, solos, vegetação, uso da terra e cartografia da região Amazônica. Foi a partir desse levantamento que a região onde viviam os yanomamis foi conhecida como rica em minérios, entre os quais ouro e cassiterita (do qual se extrai estanho, usado no processo de fabricação de inúmeros produtos). Isso provocou uma progressiva invasão garimpeira que, a partir de 1987, converteu-se numa verdadeira corrida do ouro. Quando a reserva foi finalmente demarcada, o garimpo arrefeceu em parte, mas nunca deixou de existir. Contudo, sua presença descarada e brutal, sem receio de ser coibida, fez parte cotidiana dos anos do governo Bolsonaro. Os mineradores ilegais promoviam a contaminação das águas e dos solos da reserva, além dos estupros e mortes de indígenas, forma sistemática de imporem sua presença predatória. Quanto ao governo, Bolsonaro militarizou a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), de modo que 37 das 39 coordenações regionais eram chefiadas por militares e apenas 2 por servidores de carreira. Ele reduziu enormemente o contingente de servidores destinado para ações indigenistas, de preservação do território, da saúde e da cultura dos povos originários. Enfim, foi conivente com o avanço do garimpo e não garantiu o acesso dos yanomamis às ações e serviços de saúde. A mais recente denúncia, que está sendo investigada pelo Ministério da Saúde e pela Polícia Federal, é o desvio, para venda aos garimpeiros, de remédios contra a malária destinada aos yanomamis. O resultado disso tudo hoje é conhecido de todos e internacionalmente: os yanomamis foram submetidos a um verdadeiro genocídio e estão morrendo de inanição e doença.

A resposta do governo Lula foi, nos primeiros dias de seu governo, tornar prioritário o enfrentamento dessa questão, formando uma força tarefa que envolve diversos ministérios. Além da prioridade de prover alimentos e atenção à saúde, o governo exonerou os militares que chefiavam as coordenações regionais, nomeou a indígena Joenia Wapichana para presidir a Funai, tomou providências para ampliar o seu quadro de funcionários e para enfrentar o garimpo ilegal. É a primeira vez que a Funai será presidida por uma representante indígena e, no caso, uma mulher.

Os trabalhos da equipe de transição foram bastante abrangentes. Foi feito um diagnóstico do Desmonte do Estado e das Políticas Sociais, da situação do Desenvolvimento Econômico e da Sustentabilidade Socioambiental e Climática e da Defesa da Democracia, Reconstrução do Estado e da Soberania. Isso foi complementado com um Mapeamento das Emergências Fiscais e do Orçamento Público, Sugestões de Medidas para Revogação e Revisão, e Proposta de nova Estrutura Organizacional dos Ministérios.

Entre as questões emergenciais, destacava-se a necessidade de haver recursos para que a transferência de renda dirigida à população mais carente tivesse continuidade, dado que mais de 33 milhões de brasileiros estavam passando fome e 125,2 milhões conviviam com alguma forma de insegurança alimentar, fruto da piora da situação econômica e social provocada por dois anos de governo Temer e quatro de Bolsonaro. O caráter de emergência decorria, além da questão humanitária, do fato de Bolsonaro não ter incluído essa despesa na proposta orçamentária de 2023 (assim como várias outras, reduzindo em 60% a disponibilidade de recursos para a compra de medicamentos do Programa Farmácia Popular, por exemplo). Frente a isso, antes mesmo de Lula tomar posse, precisou negociar com o Congresso Nacional para que essas Casas aprovassem Emenda Constitucional (EC) que garantisse recursos para o atendimento dessa transferência de renda. Nesse momento, os novos deputados e senadores eleitos em 2022, de perfil ainda mais à direita como mencionamos anteriormente, não tinham sido ainda diplomados.

A necessidade da aprovação de uma EC decorre da emenda constitucional 95/2016 que congelou os gastos do orçamento do governo federal por 20 anos, sendo admitido apenas reajuste de acordo com a inflação. Na prática, desde sua aprovação, o teto do gasto foi rompido cinco vezes. Em duas oportunidades, esse rompimento foi motivado por emergência sanitária, social e econômica decorrente, em ampla medida, da pandemia de covid-19; a última vez, em 2022, embora contemplasse a população mais desfavorecida, incluía também outros segmentos da população, tais como motoristas de táxi e caminhoneiros, o que foi denunciado como uma ação eleitoreira, que visava angariar votos para a reeleição de Bolsonaro.

Lula formou seu governo com 37 Ministérios, com 26 homens e 11 mulheres (superando o primeiro governo Dilma em uma mulher). Desses, 11 são negros e 2 indígenas (Ministério dos Povos Indígenas e Ministério do Desenvolvimento Social). Pela primeira vez na história do Brasil, o Ministério da Saúde será dirigido por uma mulher, Nísea Trindade. Durante a pandemias ela esteve à frente da Fundação Oswaldo Cruz, importante instituição de pesquisa da área da saúde do país, e teve que gerenciar o combate ao negativismo encabeçado por Bolsonaro e produzir a vacina AstraZeneca em território nacional. A presença de mulheres também é registrada em outros cargos. Além da Funai, destacamos a condução por mulheres dos dois principais bancos públicos, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, e da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, dirigida por uma mulher Trans.

Esses destaques que aqui estamos fazendo não são triviais. Depois de anos de machismo, de racismo e de intolerância em todos os campos, defendidos por atitudes ou palavras proferidas pelo principal representante do país, ver a diversidade representada nos órgãos que irão tocar as políticas do governo federal é um alento e está pleno de esperança. Embora saibamos que, para apagar as marcas recentes do retrocesso e para avançar no sentido do reconhecimento do outro, é preciso muito caminhar, o que somente será possível se a esquerda e os chamados setores progressistas se mantiverem organizados, atentos e dispostos a lutar. É nesse mesmo sentido que a criação dos ministérios da Mulher, dos Direitos Humanos e Igualdade Racial foram festejados.

As medidas dos primeiros vinte dias de governo e os desafios a enfrentar

Lula conseguiu garantir mesmo antes de sua posse os recursos para o pagamento de transferência de renda à população mais pobre, para o ano de 2023, mediante a aprovação da EC 126/22. Assim, nos seus primeiros dias de existência o novo governo centrou suas ações em: revogar as medidas que feriam direitos estabelecidos; desmilitarizar o serviço público; nomear para postos chave pessoas reconhecidas por sua competência na área em questão; reestabelecer secretarias e/ou departamentos que foram extintos durante o governo Bolsonaro ou que haviam perdido importância no organograma de ministérios, o que implicava uma ruptura com relação a certas políticas públicas; aumentar o piso salarial dos professores, que há muito estava defasado; aprovar medidas que viabilizassem a retomada do calendário vacinal e, principalmente, priorizar o atendimento sanitário e alimentar aos yanomamis, somado a ações que têm como propósito coibir a ação do garimpo ilegal em suas terras.

Durante o governo Bolsonaro, houve um aumento expressivo da presença de militares da ativa e da reserva em cargos e funções civis no governo. Em 2020, o último levantamento realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) identificou 6.157 militares exercendo funções civis, sendo eles oriundos das três Forças Armadas. Essa presença militar não só aumentou com relação ao governo anterior, como superou em muito a existente durante a ditadura militar. Para se ter uma ideia do absurdo a que essa presença chegou, o país teve como ministro da Saúde (15/05/2020 a 15/03/2021) um general do exército da ativa, Eduardo Pazuello, como se não houvesse profissionais da área habilitados para dirigir a pasta durante o período mais grave da pandemia de covid-19. 

Entre as ações que revogaram as medidas retrógradas da gestão anterior, na impossibilidade de aqui mencionar todas, destacamos a extinção da exigência de os serviços de saúde comunicarem à polícia quando da realização de aborto em caso de estupro. No Brasil, desde 2012, o aborto é permitido quando a gravidez põe em risco à vida da gestante, quando é resultante de violência sexual e quando há anencefalia fetal. Durante o governo Bolsonaro, não foram poucas as vezes em que se tentou impedir que menores estupradas interrompessem sua gravidez, inclusive mediante iniciativas de autoridades locais.

Os objetivos de Lula, expressos na campanha presidencial e no relatório do Gabinete de Transição, vão muito além de “simplesmente” desfazer, no plano legal e institucional, o que foi realizado durante os últimos anos. Com isso, evidentemente, não estamos dizendo que esse “desfazer” seja fácil de ser executado, pois o nível de destruição empreendido foi tal em algumas áreas - seja por redução do número de funcionários ou de recursos, seja por mudança de prioridade - que a reconstrução da gestão do Estado e das políticas não será tarefa de poucos dias ou meses. Ocorre que, simultaneamente a esse desafio, há que enfrentar aspectos da sociedade e da economia que têm raízes estruturais e/ou foram aprofundados nesses últimos anos de aplicação de políticas neoliberais das mais extremas.

Como enfrentar a enorme desigualdade que faz do Brasil um dos países menos equitativos do mundo sob qualquer critério que se queira aplicar? Como fazer frente à enorme desindustrialização e à especialização crescente na produção de comodities? Depois do golpe empreendido contra Dilma Rousseff, o neoliberalismo avançou aceleradamente: não só foi promovida uma reforma nas relações entre o capital e o trabalho, flexibilizando ainda mais a gestão da força de trabalho, como os gastos do governo federal foram congelados por vinte anos, pela EC 95/2016, e foi aprovada a independência do Banco Central. É sob esse arcabouço institucional (que em última análise rege a política fiscal e a monetária do país) que o novo governo Lula deve atuar. É mais do que óbvio que, para o Estado brasileiro estimular ou induzir a reindustrialização do país, e incorporando as tecnologias mais modernas, se faz necessária a mudança dessas regras ou institucionalidades. Certamente Lula enfrentará forte oposição a essas mudanças.

Dessa forma, embora o novo governo possa avançar na recomposição de políticas públicas anteriormente bem sucedidas, sua margem de manobra parece ser menor do que no passado. De um lado, houve avanço no sentido do regramento das possibilidades da ação do Estado; de outro, a sociedade já não é mais igual a de vinte anos atrás. Ao contrário, aquilo que estava anteriormente latente e já se podia observar desde o segundo governo Lula, se consolidou: parte substantiva da população brasileira não coaduna com políticas que tenham como premissa a igualdade, a solidariedade e o direito emanado da cidadania. Além disso, o avanço da ação capitalista selvagem está presente em todo o território nacional e não somente na região Norte do país. A ação dos garimpeiros na região yanomami é “apenas” o exemplo mais extremo. O contexto estrutural e a luta de classes

Além das restrições mais conjunturais para a implementação de medidas paliativas de compensação mediante o Programa Bolsa Família, por exemplo, as condições estruturais são as maiores barreiras para uma política mais progressista. Essas condições não foram enfrentadas nem na saída da ditadura com a Constituição de 1988 e nem nos posteriores governos mais progressistas. Assim, segundo a OXFAM, "O 1% mais rico concentra 48% de toda a riqueza nacional e os 10% mais ricos ficam com 74%. Por outro lado, 50% da população brasileira possui cerca de 3% da riqueza total do País" e "seis brasileiros possuem a mesma riqueza que a soma do que possui a metade mais pobre da população, mais de 100 milhões de pessoas." Uma das frações de classe que se coloca mais à direita do espectro político são os proprietários de terras. Em 2006, os grandes estabelecimentos somam apenas 0,91% do total dos estabelecimentos rurais brasileiros, mas concentram 45% de toda a área rural do país. Por outro lado, os estabelecimentos com área inferior a 10 hectares representam mais de 47% do total de estabelecimentos do país, mas ocupam menos de 2,3% da área total.

Essas frações das classes dominantes no Brasil foram as beneficiárias do crédito subsidiado para investimentos de longo prazo, financiamentos imobiliários e crédito rural. O saldo total de crédito em dezembro de 2022, era de R$ 5,3 trilhões ou 54% do PIB, desse total, 40,4% era subsidiado à uma taxa média anual de juros de 11,9% para pessoas jurídicas e 11,3% para pessoas físicas enquanto o crédito livre cobrava taxas de 23,1% e 55,8%, respectivamente. Uma parte importante dos recursos para esse subsídio são fundos dos trabalhadores, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, outra parte são recursos do Tesouro Nacional. Do total de empréstimos subsidiados, destaca-se o crédito rural para os proprietários de terras num total de R$ 405,7 bilhões ou 28,8% dos empréstimos subsidiados para pessoas físicas.

Enquanto isso, a taxa básica de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central está fixada em 13,75% ao ano e serve para remunerar os títulos da dívida pública. Uma parte desses títulos, ou 23,8% de R$ 5,2 trilhões está na carteira do Banco Central como colateral para as operações compromissadas de overnight no mercado aberto. Esse mercado, que remunera todo o capital monetário ocioso, movimentou diariamente R$ 1,68 trilhão ou 17,1% do PIB, em dezembro de 2022.

Na saída da crise da dívida dos anos 1980, o Brasil retirou da Constituição a distinção entre capital nacional e capital estrangeiro em 1995. Assim, todos capitais passaram a ter direito aos benefícios, como o crédito subsidiado, e seus proprietários receberam isenção do pagamento do imposto de renda sobre lucros e dividendos distribuídos. Assim, as frações mais ricas do Brasil e também os estrangeiros posteriormente deixaram de pagar imposto sobre a renda, aprofundando o grau de regressividade do sistema tributário, concebido originalmente durante a ditadura militar nos anos 1964-1967. Além disso, foi introduzido um regime chamado de juros sobre o capital próprio em que os acionistas podem receber juros ou dividendos, de acordo com decisões das empresas.

Esses dados nos permitem interpretar a ferocidade que a luta de classes no Brasil atingiu na defesa desses interesses. Pela primeira vez, políticos, empresários, religiosos, jornalistas, outros intelectuais e frações da pequena burguesia perderam a vergonha de autointitular-se de direita. Mais ainda, de defender um conjunto de ideias retrógradas e o retrocesso do próprio processo civilizador. O núcleo central, de extrema-direita, reuniu-se em organizações e movimentos, partidos políticos e outras formas assumindo a direção de uma parte do movimento de massas. Esse movimento, que apareceu inicialmente em 2013, foi conquistando parcelas cada vez maiores da população, que elegeu Bolsonaro em 2018 e concedeu quase 50% dos votos em 2022. É esse o contexto que o governo Lula está enfrentando e, mesmo que ele desfaça uma grande parte das medidas criadas no último governo, as condições estruturais da economia, com sua extrema desigualdade e privilégios, e as contradições explicitadas pela luta de classes devem permanecer e dificultar a adoção de medidas mais progressistas.

Rosa Maria Marques é professora do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em São Paulo, Brasil, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política e da Sociedade Brasileira de Economia da Saúde. Paulo Nakatani é professor do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo em Vitória, Brasil.

4 de fevereiro de 2007

Lula e a política social: A serviço do capital financeiro

A política social do governo Lula, marcada pela reforma da Previdência e pela focalização do Bolsa Família, foi estruturada para gerar grandes superávits e servir aos interesses do capital financeiro, desmantelando direitos sociais universais em nome da estabilidade econômica.

Áquilas Mendes e Rosa Maria Marques


Monthly Review Vol. 58, No. 09

O conceito de proteção social do governo Lula não consta de nenhum documento oficial, nem de seu Partido dos Trabalhadores (PT), nem de suas plataformas eleitorais. É por isso que é tão difícil para o público em geral, desconhecedor dos princípios da política social, compreender o significado de suas propostas e políticas efetivas. Na tentativa de explicar esse conceito, discutiremos a reforma do sistema previdenciário do governo, destacando seu impacto no aparato estatal. Analisaremos o cerne de sua política social, representado pelo Programa Bolsa Família, e descreveremos a forma como o gabinete econômico concebe a política social. Desde já, destacamos que a política pública de Lula suspende avanços anteriores no campo dos direitos sociais, busca criar um sistema de saúde privado e erige redes de assistência social não fundadas em direitos. Este último fator é crucial para a criação de uma nova base de apoio ao governo, não estruturada em torno de organizações sociais, sindicais e políticas de trabalhadores.

A contrarreforma da previdência

A reforma da Previdência aprovada em dezembro de 2003 retomou a questão exatamente onde ela havia sido deixada durante o governo Fernando Henrique Cardoso: a idade é o único critério para a aposentadoria de servidores públicos; o valor das aposentadorias não é mais definido pela renda média da ativa1; os impostos e as contribuições previdenciárias são recolhidos dos aposentados, embora essa ideia contrarie os próprios princípios do direito previdenciário, uma vez que não gera benefícios futuros; e estão criadas as condições para a futura privatização do sistema em benefício de fundos de pensão administrados por sindicatos e empresas privadas. Para levar adiante sua proposta, Lula utilizou todos os tipos de expedientes — de meias verdades a preconceitos e desinformação.

Nessa disputa por corações e mentes, o governo se valeu da crença geral de que há um grande déficit no sistema previdenciário, crença essa construída por governos anteriores ao longo de muitos anos. No entanto, o argumento acabou sendo abandonado devido à enxurrada de informações contrárias vindas da mídia e de formadores de opinião, e não figurou na minuta final de votação. No Brasil, as aposentadorias, juntamente com a saúde, o seguro-desemprego e a assistência social, são administradas pela Secretaria de Previdência Social. Por determinação constitucional, os recursos fiscais que as financiam, provenientes de diferentes bases tributárias, não podem ser tratados isoladamente. No entanto, o governo descartou essa determinação constitucional e comparou os valores pagos como aposentadorias com os recursos arrecadados de trabalhadores com carteira assinada, ou seja, aqueles que trabalham em condições legais do ponto de vista das relações de trabalho. Mas, se o princípio constitucional da previdência social for seguido, o sistema apresenta um superávit (R$ 47,3 bilhões em 2005) maior do que o gasto federal total com saúde, por exemplo.

Outra estratégia foi apresentar a ideia de que o Estado é ineficiente e que os servidores públicos são privilegiados e preguiçosos. Para reforçar esse argumento, foi feita uma comparação entre a aposentadoria de um funcionário público relativamente sênior e a remuneração média dos trabalhadores do setor privado, diluída pela média de milhões que ganhavam o salário mínimo imposto pela Constituição na época da restauração democrática.² Assim, um público já acostumado à ideia de que o serviço público era de baixa qualidade e ineficiente por anos de bombardeio da mídia e de pensadores antigovernamentais se opôs aos servidores públicos. Assim, isolados, os servidores públicos dispunham apenas de seus próprios recursos para lutar contra as reformas de Lula.

Uma motivação apresentada para a reforma é o entendimento de que os fundos de pensão criariam uma poupança nacional significativa, ajudando a financiar o desenvolvimento doméstico. Além disso, o governo declarou que usaria os fundos de pensão para financiar futuras infraestruturas e programas sociais — como parte de seu plano de introduzir um sistema de benefícios indefinidos, ou seja, sem garantia de valor para as aposentadorias. Há quem defenda isso como uma forma de os trabalhadores ganharem poder em um mundo dominado pela globalização financeira, uma leitura da realidade comum a vários ex-funcionários do governo Lula, atualmente afastados do cargo devido a alegações de corrupção. Mesmo assim, as regras de aposentadoria para funcionários públicos foram alteradas e foram emitidas licenças para sindicatos criarem seus próprios fundos de pensão.

Outro motivo alegado para a reforma, também a serviço do capital financeiro, é a obtenção de grandes superávits primários. Nos últimos anos, o Brasil fez um enorme esforço para gerar superávits e pagar sua dívida externa. O novo governo manteve essa política, como demonstrado em uma carta do ministro da Economia, Antonio Palloci, a Horst Köhler, diretor-geral do FMI, enviada em 28 de maio de 2003, um mês após o envio da lei de reforma ao Congresso.

O governo agiu rapidamente para implementar sua agenda de recuperação econômica e reforma. Após um importante esforço de construção de consenso, um ambicioso pacote de reforma tributária e previdenciária foi enviado ao Congresso antes do esperado. A política fiscal concentrou-se na redução da dívida pública: a Lei de Diretrizes Orçamentárias enviada ao Congresso eleva a meta de superávit primário para 4,25% do PIB. Além disso, foi aprovada a emenda constitucional que flexibiliza a regulamentação financeira — medida necessária para consolidar a autonomia do Banco Central.

Contrarreforma da previdência e o Estado

A reforma do sistema previdenciário foi antidemocrática e promoveu uma redistribuição inversa da renda dos servidores públicos para o capital financeiro. Foi antidemocrática principalmente porque ignorou a necessidade de regras transitórias adequadas. No caso dos servidores públicos, a lei costumava garantir pagamentos de aposentadoria iguais aos salários da ativa, o que significa que os trabalhadores não tinham perda de renda no momento da aposentadoria. Tudo isso sob o entendimento de que o sistema compensava os servidores por salários inferiores aos pagos pelo setor privado, especialmente os dos servidores públicos menos qualificados. Ao longo da vida, a renda total auferida pelos servidores públicos e privados tendia a convergir, uma vez que os servidores do setor privado sofrem uma perda abrupta de renda no momento da aposentadoria (quanto maior o salário, maior a perda) e os servidores públicos, que ganham menos na ativa, não têm perda na aposentadoria. Em outras palavras, o acordo entre o setor público e seus trabalhadores era uma garantia de renda vitalícia, embora inferior à oferecida pelo setor privado para o mesmo nível de qualificação. Por meio desse sistema, os servidores públicos se protegeram da incerteza do futuro e conseguiram criar uma relação renda/poupança diferente daquela dos trabalhadores do setor privado. Embora sua renda líquida fosse menor, os servidores públicos precisavam poupar menos para o futuro, pois sua renda futura estava garantida.

As reformas de Lula significaram a quebra desse pacto entre o Estado e seus servidores públicos. Essa ruptura foi extremamente violenta, pois não considerou o fato de que os servidores públicos não têm como corrigir sua relação renda/poupança passada. Vale lembrar que são poucos os que se qualificariam para uma aposentadoria integral sob as novas condições (idade, tempo de serviço e anos de contribuição ao sistema). Em qualquer sociedade democrática, quando as leis de aposentadoria são alteradas, um sistema transitório deve ser aplicado para minimizar as perdas daqueles que já estão no mercado de trabalho. Parece que a promessa do governo de não quebrar contratos, declarada publicamente em diversas ocasiões, não se aplica a quem trabalha para ele.

Como não há expectativa de que os servidores públicos deixem de receber salários inferiores aos dos servidores do setor privado, a mudança no sistema previdenciário desestimulará profissionais qualificados a se candidatarem a empregos públicos. O único cenário em que isso não ocorreria seria um cenário de alto desemprego, quando os empregos públicos seriam mais valorizados. A reforma previdenciária implementada pelo governo Lula é um passo decisivo para a destruição do Estado de bem-estar social brasileiro, processo iniciado pelo governo Collor.

Bolsa Família: O carro-chefe da política social do Governo Lula

O Projeto Fome Zero: Seguro Alimentação para o Brasil, do governo Lula, utiliza como referência a linha de pobreza mundial do Banco Mundial (US$ 1,08 por dia), ajustada pelo custo de vida regional e pela existência ou ausência de agricultura autossustentável. O principal alvo do projeto era a população vivendo abaixo dessa linha de pobreza — 44,043 milhões de pessoas, abrangendo 9,32 milhões de famílias — um número que abrange 21,9% de todas as famílias, 27,8% da população total, 19,1% da população urbana, 25,5% da população urbana não metropolitana e 46,1% da população rural. O tamanho da população empobrecida dificulta a visão de que as políticas direcionadas a ela sejam de alguma forma focadas. De fato, é lógico que a política não seja universal, visto que o tamanho da população-alvo é enorme.

Após os primeiros meses de governo Lula, os esforços se concentraram no Programa Bolsa Família, que substituiu programas pré-existentes. O Bolsa Família não criou um direito social, mas, como o nome sugere, foi um benefício criado pelo governo federal (ver tabela 1). Pesquisa realizada por Marques e outros em 2004 estimou que, em dezembro de 2003, quando 4,1 milhões de famílias recebiam o Bolsa Família, a população atendida, considerando a média de pessoas por família, era de 16,5 milhões. No segundo ano de governo Lula, em 2004, o programa atingiu 5,7 milhões de famílias. Em dezembro de 2005, atingiu 8,7 milhões de famílias em todas as secretarias municipais do Brasil. Em maio de 2006, o programa beneficiava 9,1 milhões de famílias, número abaixo da população-alvo total de 11,1 milhões.


Bolsa Família, benefícios mensais à população-alvo, 2006

A maior parte da população beneficiada pelo programa (69,1%) reside na região Nordeste, a região mais pobre do Brasil. O percentual da população beneficiada foi bastante elevado, com alguns municípios apresentando proporções de 13% a 45%. Este último percentual foi alcançado em cidades com menos de 20.000 habitantes, bem como em municípios rurais com populações de 20.000 a 100.000 habitantes, com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) abaixo da média nacional e economias dominadas por atividades do terceiro setor, ou seja, sem fins lucrativos.

Os resultados alcançados na região Nordeste refletem a pobreza generalizada de sua população, mas a concentração do Bolsa Família nessa região não significa que outras áreas não tenham populações consideráveis ​​que poderiam se beneficiar do programa. Um exemplo seria Itaguatins (cidade com menos de 20.000 habitantes, com IDH-M abaixo da média e economia dominada por atividades do terceiro setor) ou Tocantins, na região Norte, onde 38% da população total utiliza o programa. Com exceções, a população atendida na região Sul é relativamente pequena, reflexo da situação econômica e social local. Mesmo assim, o programa ainda cumpre o papel de sustentar um nível mínimo de renda. Por exemplo, em Porto Alegre, sede de vários encontros do Fórum Social Mundial e cidade com IDH-M acima da média nacional, 5% da população se beneficia do programa, uma proporção nada desprezível.

Limitações do Programa
O padrão de vida de milhões de brasileiros foi melhorado pelo Bolsa Família do governo Lula. Mas a pré-condição para aderir ao programa é uma renda real muito baixa, bem abaixo do salário mínimo, o que por si só é inadequado. Embora o programa beneficie uma parcela considerável da população brasileira, um grande setor da população, aqueles que ganham o salário mínimo, não tem direito a esses benefícios — sob a alegação de que sua renda é muito alta. No entanto, é fato que o salário mínimo é o limite inferior da escala salarial legítima, e qualquer salário abaixo dele seria ilegal e imoral para os padrões sociais. De acordo com a legislação que o tornou possível, o salário mínimo deve constituir um salário real para os trabalhadores e suas famílias. No entanto, apesar de, durante o governo Lula, ter recuperado parte de seu poder de compra real, o salário mínimo permanece muito abaixo da renda mínima real necessária para a sobrevivência de uma família de dois adultos e duas crianças, conforme estipulado em lei.3

O fato de o Bolsa Família não levar em consideração o significado legal do salário mínimo, o de ser a renda mínima nacional legal, aponta para a realidade de que o governo não vê a necessidade de a população ter uma renda mínima comum ao nível do salário mínimo.4 A noção de que o salário mínimo deve corresponder à renda mínima necessária à sobrevivência expressa o fato óbvio de que não há diferença entre as necessidades básicas absolutas de um trabalhador no mercado formal e as de, por exemplo, um barqueiro na Bacia Amazônica.

É necessário que medidas sejam tomadas para romper com a lógica maligna da acumulação de riqueza no Brasil e, ao mesmo tempo, é urgente instituir como direito a garantia de um nível básico de renda para todos. Essa renda deve ser entendida como um direito derivado do conceito de cidadania, portanto consagrado na Constituição. Somente assim a renda mínima seria assegurada como um direito básico de qualquer cidadão brasileiro, assim como a saúde e o ensino fundamental — e não uma mera política de assistência social.

Mesmo que um programa mais ambicioso — que garanta maior qualidade de vida para a população e não apenas que as famílias mais pobres permaneçam um centímetro acima da linha da pobreza absoluta — demandasse uma parcela significativa dos recursos, o que não ocorreria, ainda assim deveria ser prioridade para a política social vigente. Afinal, é a única maneira pela qual a sociedade brasileira pode se declarar engajada no desenvolvimento do país. Crescimento sem redistribuição de riqueza não apenas perpetua uma história de extrema desigualdade, como a intensifica.

O nascimento de um "Novo Populismo"

O Bolsa Família criou uma nova base de apoio para o governo Lula, independente de sindicatos e movimentos sociais. A partir dessa política, criou-se uma relação especial entre o governo e os setores mais pobres da população, o que chamamos de "novo populismo".

Nossa utilização do termo "populismo" é política: "um tipo de ação política que toma como base de legitimidade o cidadão comum, cujos interesses aspira representar" ou "uma política fundada no avanço das classes populares". Certamente, esse não é o uso corrente na economia, que associa populismo a governos que gastam mais do que arrecadam. Bresser Pereira, que também define populismo como uma forma de indisciplina fiscal, afirma que seus adeptos acreditam que o desenvolvimento econômico e a redistribuição de riqueza podem ser facilmente alcançados por meio de aumentos salariais, mais investimentos públicos e mais gastos sociais, uma combinação que, via de regra, gera inflação. Aqui, no entanto, nos limitaremos à dimensão política, muito mais defensável, do termo.

O novo populismo não é uma continuação do populismo tradicional de Getúlio Vargas, mas, em muitos aspectos, o seu inverso. O populismo brasileiro, tal como introduzido por Vargas, tinha a característica de, entre outras coisas, ser capaz de conter ou manipular movimentos de massa organizados por meio do aparato estatal. Para tanto, era essencial destruir os sindicatos independentes, absorvendo-os pelo Estado e, ao mesmo tempo, ceder terreno na relação trabalho-capital e na seguridade social. Segundo Weffort, “o sabor peculiar do populismo advém do fato de ele surgir como uma forma de dominação em um momento de vácuo político, quando nenhuma classe social é hegemônica, e justamente porque nenhuma classe se sente capaz de ser hegemônica” (F. Weffort, O Populismo na Política Brasileira, 1981, 159).

Durante os anos Vargas, o populismo baseava-se nas massas, que se organizavam contra sua própria liderança tradicional, transformando assim os sindicatos em agências de apoio ao projeto político de Vargas. O novo populismo de Lula, no entanto, não só não encontra apoio em nenhum movimento organizado, como também está a serviço do capital internacional, em particular do capital financeiro. Também não se pode afirmar que havia um vácuo político na época da eleição de Lula. Ao contrário, as elites brasileiras estavam em um impasse, incapazes de levar adiante a agenda ditada pelo Banco Mundial e pelo FMI. Somente um homem do povo poderia, em nome deles, concluir as reformas.

Weffort define o populismo de Vargas como próximo à ideia de bonapartismo descrita por Marx em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte — onde a ação do Estado era fundamental para a criação de uma indústria próspera. Seu projeto, por mais perturbador que fosse para alguns interesses, visava o desenvolvimento como industrialização. O novo populismo de Lula, por outro lado, desconsidera qualquer iniciativa econômica que não seja aquela proposta pelo FMI e pelo Banco Mundial, como se o interesse nacional fosse idêntico ao interesse dessas instituições e daqueles que elas representam. Em vez de reconstruir a capacidade de investimento do Estado ou definir uma política industrial e tecnológica, entre outras tarefas urgentes, parece ter como única prioridade o serviço da dívida externa, gerando superávits fiscais sem precedentes. Os esforços empreendidos foram maiores do que os da Alemanha para pagar as reparações de guerra após a Primeira Guerra Mundial.

A outra grande diferença entre o populismo de Vargas e o novo populismo encontra-se na relação com as massas. O primeiro buscou apoio dos trabalhadores para avançar com uma legislação que criasse um mercado de trabalho para o setor industrial; o segundo utiliza estruturas e lideranças sindicais para impedir que os protestos sociais impeçam suas contrarreformas (trabalhista, sindical e até a aposentadoria, novamente em pauta). Em relação às massas, suas políticas são estritamente compensatórias.

Mas o uso político de trabalhadores organizados em sindicatos, associações ou movimentos tem limites muito rígidos, dadas as contradições entre a agenda do governo (particularmente o serviço da dívida) e a necessidade de uma liderança que reerga as empresas públicas e articule uma política de renda adequada, entre outras tarefas. Nesse sentido, qualquer mobilização de trabalhadores organizados representa uma ameaça ao governo. Não é por acaso que, desde a posse de Lula, as altas autoridades do PT e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) sempre tentaram abafar o debate sobre suas ações.

A nova base de apoio de Lula não ameaça seu governo porque está espalhada por todo o país e tem em comum apenas a baixa renda. Essa população não tem motivos para questionar o governo devido às suas características internas e ao tipo de benefícios que recebe. Enquanto os benefícios continuarem chegando, as pessoas de baixa renda considerarão o governo Lula como aquele que mudou suas vidas para melhor. O fato de as estruturas sociais, econômicas e políticas do país reproduzirem os fatores que criam a pobreza não é um problema para elas, desde que os pagamentos não sejam interrompidos. Além disso, o gasto do programa não é muito alto (R$ 8,3 bilhões em 2005; para fins de comparação, o gasto federal total em serviços de saúde por meio do Ministério da Saúde foi de R$ 37,1 bilhões no mesmo ano).5 Fica claro, então, que a continuação e a ampliação do programa não são um grande problema para o governo, pois não atrapalham sua agenda. Pelo contrário, programas assistenciais desse tipo são parte integrante da agenda neoliberal, a começar pela do Banco Mundial.

Política social e o gabinete econômico

Em suas comunicações ao FMI (como na carta do governo brasileiro a Hörst Köhler, de 21 de novembro de 2003, Ministério da Fazenda), o governo declarou sua intenção de alterar as pré-condições sobre as quais os orçamentos são elaborados, sejam eles federais, estaduais ou municipais. No item “Criando uma situação pró-desenvolvimento”, o governo menciona a flexibilidade na alocação de recursos públicos como uma entre muitas ações necessárias para “conduzir o país a um caminho de crescimento”. “Menos de 15% das despesas primárias são alocadas de forma discricionária pelo governo”, prossegue a carta, “o que gera uma rigidez orçamentária que muitas vezes inibe de forma significativa um uso mais justo e eficiente dos recursos públicos”. O documento termina afirmando que “o governo planeja preparar um estudo sobre as implicações da vinculação setorial...”. Mesmo que esse objetivo nunca seja alcançado, sua própria inclusão no documento demonstra as tendências neoliberais que permeiam o governo Lula na cúpula.

A intenção do governo aqui é abolir a determinação constitucional federal de que uma porcentagem de todos os recursos arrecadados seja destinada aos diversos níveis de governo para saúde e educação. A educação representa 18% das despesas federais e 25% para os estados e municípios. Em relação à saúde, essa mudança significaria que o Ministério da Saúde não teria mais a obrigação de aumentar suas despesas anualmente em um percentual do crescimento nominal do PIB; os estados não precisariam mais gastar 12% de seus orçamentos com saúde, ou os municípios, 15%. O governo, portanto, está adotando uma estratégia dupla em relação ao orçamento: tornar os orçamentos da saúde e da educação não obrigatórios e redirecionar suas alocações para o pagamento da dívida e a realização de investimentos públicos, provavelmente sob a égide do projeto de Parceria Público-Privada, parte da Agenda do Milênio.

Nenhum outro governo teve a coragem de pensar que o serviço da dívida deveria vir antes do pagamento das despesas com a previdência social, muito menos de aumentá-las. Tal objetivo só se torna "consistente" com a política social quando associado à preocupação de direcionar todas as iniciativas sociais apenas para os setores mais pobres. No que diz respeito à saúde, isso implica redirecionar os investimentos para algo semelhante ao programa alimentar básico, conforme recomendado pelo Banco Mundial. No que diz respeito à educação, a iniciativa pressupõe que não serão feitos novos investimentos em universidades públicas e que novas vagas para estudantes serão criadas, com recursos públicos, apenas em universidades e faculdades privadas.

Conclusão

O governo Lula está criando uma nova base de apoio por meio de programas de transferência de renda — uma estratégia bem diferente daquela originalmente defendida por seu PT — e isso caminha lado a lado com a destruição dos avanços da previdência social consagrados na Constituição de 1988, então um testemunho da redemocratização do país. Em nome da estabilidade, do crescimento e do cumprimento dos "contratos" com credores estrangeiros e nacionais, a ideia de política social universal foi abandonada e formas antigas de assistência são oferecidas aos mais pobres, deixando as massas de trabalhadores (mas não os muito ricos, que se beneficiam de subsídios cada vez maiores) à própria sorte no mercado.

Apontar esses aspectos do governo Lula não significa ignorar a realidade dos milhões que se beneficiam de programas de transferência de riqueza. Pelo contrário, em um sistema de previdência social universal, a transferência de renda não seria apenas uma prioridade, seria um direito — um direito que se estenderia muito além do mero auxílio à pobreza.

Notas

1. Os salários dos servidores públicos estão sempre abaixo do valor de mercado, portanto, como remuneração, os pagamentos de aposentadoria eram iguais aos salários.
2. Trabalhadores rurais que nunca contribuíram para o sistema e/ou trabalhadores rurais que ganham muito pouco para contribuir têm direito ao salário mínimo.
3. O salário mínimo atual é equivalente a 1,99 cestas básicas, calculado na cidade de São Paulo. Essa é a maior proporção desde 1979, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos (Diesse).
4. Isso se refere à importância relativa entre os trabalhadores ativos daqueles que ganham pelo menos um salário mínimo.
5. A responsabilidade pela saúde pública no Brasil é compartilhada pelos três níveis de governo, com o nível federal representando menos de 50%.

Rosa Maria Marques leciona economia política na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Áquilas Mendes leciona economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. É coordenador do Centro de Estudos de Pesquisas de Administração Municipal e vice-presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde.

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