5 de julho de 2019

Enterrando a Nakba: como Israel esconde sistematicamente as evidências da expulsão dos árabes em 1948

Desde o início da década passada, equipes do Ministério da Defesa vasculharam arquivos locais e removeram uma grande quantidade de documentos históricos para ocultar provas da Nakba.

Hagar Shezaf



Há quatro anos, a historiadora Tamar Novick ficou chocada com um documento que encontrou na pasta de Yosef Waschitz, do Departamento Árabe do Partido Mapam, de esquerda, no arquivo Yad Yaari, em Givat Haviva. Este documento, que parecia descrever eventos ocorridos durante a guerra de 1948, começa assim:

Safsaf [antiga aldeia palestiniana perto de Safed] — 52 homens foram apanhados, amarrados uns aos outros, um buraco foi cavado e foram baleados. 10 estavam ainda a contorcer-se. As mulheres vieram, implorando por misericórdia. Foram encontrados corpos de 6 homens idosos. Havia 61 corpos. 3 casos de violação, um deles a leste de Safed de uma menina de 14 anos. 4 homens foram baleados e mortos. A um deles foram-lhe cortados os dedos com uma faca para tirar o anel.

O autor continua a descrever mais massacres, assaltos e abusos perpetrados pelas forças israelitas na Guerra da Independência de Israel. «Não há nome no documento e não está claro quem está por trás do mesmo», diz Novick ao Haaretz. «Também está interrompido a meio. Achei-o muito perturbador. Percebi que ao encontrar um documento como este, fico com a responsabilidade de esclarecer o que aconteceu.»

A vila de Safsaf, na Alta Galileia, foi tomada pelas Forças de Defesa de Israel na Operação Hiram no final de 1948. A Moshav [1] Safsufa foi fundada nas suas ruínas. Alegações de que a Sétima Brigada cometeu crimes de guerra na aldeia foram feitas ao longo dos anos. Essas acusações são apoiadas pelo documento que Novick encontrou, que não era conhecido pelos investigadores. Poderia também ter constituído prova adicional de que os superiores israelitas sabiam exatamente o que estava a acontecer em tempo real.

Novick decidiu consultar outros historiadores sobre o documento. Benny Morris, cujos livros são indispensáveis no estudo da Nakba — a «calamidade», como os palestinianos se referem à emigração, em massa, de árabes do país durante a guerra de 1948 —, disse-lhe que também ele tinha encontrado documentos semelhantes no passado. Morris referia-se às notas escritas pelo membro do Comité Central da Mapam, Aharon Cohen, com base numa informação dada em novembro de 1948 por Israel Galili, ex-chefe de Estado-Maior da milícia Haganah, que se transformou nas Forças de Defesa de Israel [2]. As notas de Cohen neste caso, publicadas por Morris, afirmavam: «Em Safsaf: 52 homens amarrados com uma corda. Atirados para um buraco e baleados. 10 pessoas foram mortas. As mulheres pediram misericórdia. Houve 3 casos de violação. Apanhados e libertados. Uma menina de 14 anos foi violada. Outros 4 foram mortos. Anéis tirados com facas.»

A nota de rodapé de Morris (no seu importante livro O Nascimento do Problema dos Refugiados Palestinianos, 1947-1949) afirma que este documento também foi encontrado no Arquivo Yad Yaari. Mas quando Novick voltou para examinar o documento, ficou surpreendida ao descobrir que este já não estava lá.

«No início, pensei que talvez Morris não tivesse sido preciso na sua nota de rodapé, que talvez ele tivesse cometido um erro», lembra Novick. «Demorei algum tempo até considerar a possibilidade de que o documento tivesse simplesmente desaparecido.» Quando perguntou aos responsáveis onde estava o documento, foi informada de que este teria sido trancado à chave no Yad Yaari, por ordem do Ministério da Defesa.

Desde o início da última década, as equipas do Ministério da Defesa têm vasculhado os arquivos de Israel e retirado documentos históricos. No entanto, não são apenas os documentos relacionados com o projecto nuclear israelita ou com as relações externas do país que estão a ser transferidos para os cofres. Centenas de outros documentos foram também escondidos como parte de um esforço sistemático de ocultação de provas da Nakba.

O fenómeno foi detectado pela primeira vez pelo Instituto Akevot para Investigação do Conflito Israel-Palestina. De acordo com um relatório elaborado por este instituto, esta operação é liderada pelo Malmab, sigla em hebraico de Departamento Secreto de Segurança do Ministério da Defesa, cujas actividades e orçamento são confidenciais. O relatório afirma que o Malmab removeu os documentos históricos ilegalmente e sem autoridade para tal, e pelo menos em alguns casos selou documentos que tinham sido libertados previamente pelo censor militar para publicação. Alguns dos documentos que foram colocados em cofres já tinham sido publicados no passado.

Uma investigação do Haaretz descobriu que o Malmab escondeu o testemunho de generais das Forças de Defesa de Israel sobre a morte de civis e a demolição de aldeias, bem como documentos sobre a expulsão de beduínos durante a primeira década do Estado. Conversas realizadas pelo Haaretz com directores de arquivos públicos e privados revelaram que a equipa do Departamento de Segurança tinha tratado os arquivos como sua propriedade, em alguns casos ameaçando os próprios directores.

Yehiel Horev, que liderou o Malmab ao longo de duas décadas, até 2007, reconheceu ter lançado este projeto, que ainda está em curso. Afirma que faz sentido esconder os acontecimentos de 1948, pois revelá-los poderia gerar desassossego entre a população árabe do país. Questionado sobre a remoção de documentos que já foram publicados, explicou que o objetivo desse comportamento é pôr em causa a credibilidade dos estudos sobre a história do problema dos refugiados. Na opinião de Horev, uma alegação feita por um investigador sustentada por um documento original não é o mesmo que uma alegação que não pode ser provada ou atestada.

O documento que Novick procurava poderia ter reforçado o trabalho de Morris. Durante a investigação, o Haaretz conseguiu encontrar o memorando de Aharon Cohen, resumo de uma reunião do Comité Político do Mapam, sobre o tema dos massacres e expulsões em 1948. Os participantes na reunião pediram cooperação com uma comissão de inquérito que investigaria os eventos. Um dos casos que o comité discutiu dizia respeito a «acções graves» realizadas na aldeia de Al-Dawayima, a leste de Kiryat Gat. Um participante mencionou, neste contexto, a milícia clandestina Lehi [4], dissolvida mais tarde. Actos de saque também foram relatados: «Lod e Ramle, Be’er Sheva, não há uma loja [árabe] que não tenha sido invadida. 9.a Brigada diz 7, 7.a Brigada diz 8.»

«O partido», afirma o documento perto do final, «é contra a expulsão, se não houver necessidade militar para tal. Existem diferentes abordagens sobre a avaliação da necessidade. E é preciso mais esclarecimentos. O que aconteceu na Galileia são actos nazis! Cada um dos nossos membros deve relatar o que sabe.»

A versão israelita

Um dos documentos mais fascinantes sobre a origem do problema dos refugiados palestinianos foi escrito por um oficial do Shai, o precursor do serviço de segurança Shin Bet [3]. Este discute o porquê de o país ter sido esvaziado de tantos dos seus habitantes árabes, enfatizando as circunstâncias de cada aldeia. Compilado no final de Junho de 1948, foi intitulado «A Emigração dos Árabes da Palestina». (O documento traduzido para inglês.)

Este documento serviu de base a um artigo que Benny Morris publicou em 1986. Depois de o artigo ser publicado, o documento foi removido do arquivo e tornado inacessível aos investigadores. Anos depois, a equipa do Malmab reexaminou o documento e ordenou que ele permanecesse confidencial. Não imaginavam, porém, que, alguns anos depois, os investigadores do Akevot viriam a encontrar uma cópia do texto e a submeteriam à análise dos censores militares — que autorizaram a sua publicação de forma incondicional. Agora, anos depois da sua ocultação, a essência do documento é aqui revelada.

O documento de 25 páginas começa com uma introdução que aprova frontalmente a evacuação das aldeias árabes. Segundo o autor, o mês de Abril testemunhou «um aumento da emigração», enquanto o mês de Maio «foi abençoado com a evacuação do máximo de lugares». O relatório aborda então «as causas da emigração árabe». Segundo a narrativa israelita, difundida ao longo dos anos, a responsabilidade do exílio de Israel recai sobre os políticos árabes que encorajaram a população a sair. No entanto, de acordo com este documento, 70% dos árabes saíram como resultado de operações militares judaicas.

O autor, não identificado, do texto coloca as razões para a saída dos árabes por ordem de importância. A primeira razão: «Actos judaicos directos de hostilidade contra as localidades árabes». A segunda, o impacto dessas ações nas aldeias vizinhas. Em terceiro lugar de importância vieram as «operações dos dissidentes», ou seja, os grupos Irgun [5] e Lehi. A quarta razão para o êxodo dos árabes foram as ordens emitidas por instituições e «gangues» árabes (forma como o documento se refere a todos os grupos de luta árabes); a quinta foram «Os actos judeus de espalhar boatos para induzir os habitantes árabes a fugir »; e a sexta os «ultimatos de evacuação».

O autor afirma que, «sem dúvida, as operações hostis foram a principal causa da saída da população». Além disso, «os altifalantes em língua árabe provaram a sua eficácia nas ocasiões em que foram utilizados adequadamente». Quanto às operações da Irgun e da Lehi, o relatório relata que «muitas das aldeias da região central da Galileia começaram a fugir após o rapto dos notáveis de Sheikh Muwannis [uma aldeia a norte de Tel Aviv]. Os árabes aprenderam que não é suficiente ter um acordo com a Haganah e que existem outros judeus [isto é, as milícias dissidentes] com quem é preciso ter cuidado».

O autor relata que os ultimatos de evacuação foram especialmente utilizados no centro da Galileia e menos na região do Monte Gilboa. «Naturalmente que o ultimato, tal como o “conselho amigável”, é posterior a uma certa preparação no terreno por meio de acções hostis na zona.»

Um apêndice do documento descreve as causas específicas do êxodo de cada uma de dezenas de localidades árabes: Ein Zeitun — «nossa destruição da aldeia»; Qeitiya — «assédio, ameaça de acção»; Almaniya — «nossa acção, muitos mortos»; Tira — «conselho judaico amigável»; Al’Amarir — «depois de roubos e homicídios cometidos pelos dissidentes»; Sumsum — «nosso ultimato»; Bir Salim — «ataque ao orfanato»; e Zarnuga — «conquista e expulsão».

Rastilho curto

No início do milénio, o Centro Yitzhak Rabin realizou uma série de entrevistas com antigas figuras públicas e militares, como parte de um projecto para documentar as suas actividades ao serviço do Estado. O longo braço do Malmab também confiscou essas entrevistas. O Haaretz, que obteve os textos originais de várias das entrevistas, comparou-as com as versões que estão agora acessíveis ao público, após grandes partes delas terem sido declaradas confidenciais.

Entre elas contavam-se, por exemplo, partes do testemunho do general-de-brigada (res.) Aryeh Shalev sobre a expulsão, para lá da fronteira, dos habitantes de uma aldeia a que ele chamou «Sabra». Mais tarde, na entrevista, as seguintes frases foram excluídas: «Havia um problema muito sério no vale. Havia refugiados que queriam regressar ao vale, ao Triângulo [uma concentração de cidades e aldeias árabes no leste de Israel]. Nós expulsámos-los. Encontrei-me com eles para convencê-los a mudar de opinião. Tenho documentos sobre isso.»

Num outro exemplo, o Malmab decidiu ocultar o seguinte trecho da entrevista que o historiador Boaz Lev Tov realizou ao major-general (res.) Elad Peled:

Lev Tov: «Estamos a falar de uma população — mulheres e crianças?»

Peled: «Todos, todos. Sim.»

Lev Tov: «Não se faz distinção entre eles?»

Peled: «O problema é muito simples. A guerra é entre duas populações. Eles saíram da casa deles.»

Lev Tov: «Se a casa existir, eles têm algum lugar para onde voltar?»

Peled: «Não são exércitos ainda, são gangues. Nós também somos gangues. Saímos das casas e voltamos. Eles saem das casas e voltam. As casas ou são deles ou são nossas.

Lev Tov: «Os escrúpulos pertencem à geração mais nova?»

Peled: «Sim, hoje. Quando me sento numa poltrona aqui e penso no que aconteceu, todo o tipo de pensamentos me vêm à mente».

Lev Tov: «Não foi assim então?»

Peled: «Olhe, deixe-me dizer-lhe algo cruel e ainda menos agradável, sobre a grande invasão em Sasa [aldeia palestiniana na Alta Galileia]. O objectivo era realmente dissuadi-los, dizendo-lhes: «Queridos amigos, o Palmach [as «tropas de choque» da Haganah] podem chegar a todo o lado, vocês não estão imunes.» Esse era o coração da população árabe. Mas que fizemos nós? O meu pelotão explodiu 20 casas com tudo o que estava lá dentro.»

Lev Tov: «Enquanto havia lá pessoas a dormir?»

Peled: «Suponho que sim. O que aconteceu foi, chegámos, entrámos na aldeia, plantámos uma bomba ao lado de cada casa e depois Homesh tocou uma corneta, uma vez que não tínhamos rádios. Esse era o sinal [para as nossas forças] para sair. Corremos no sentido contrário, os sapadores ficaram, tudo era primitivo na altura. Estes acendiam o rastilho ou accionavam o detonador e todas as casas desapareciam.»

Outro excerto que o Ministério da Defesa queria manter longe do público surgiu na conversa do Dr. Lev Tov com o major-general Avraham Tamir:

Tamir: «Eu estava sob o comando de Chera [major-general Tzvi Tzur, mais tarde chefe de Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel], e tinha excelentes relações de trabalho com ele. Ele deu-me liberdade de acção, e eu era responsável pelo trabalho de Estado-Maior e de operações durante dois dos desenvolvimentos que resultaram da política de [primeiro-ministro David] Ben-Gurion. Um dos desenvolvimentos deu-se quando chegaram notícias sobre marchas de refugiados da Jordânia em direcção às aldeias abandonadas [em Israel]. E então Ben-Gurion implementou a política de demolição [das aldeias] para que eles não tivessem para onde voltar. Fê-lo em todas as aldeias árabes, a maioria das quais estavam [na área] sob o Comando Central.»

Lev Tov: «Aquelas que ainda estavam de pé?»

Tamir: «As que ainda não eram habitadas por israelitas. Havia lugares onde já tínhamos assentado israelitas, como Zakariyya e outras terras. Mas a maioria delas ainda eram aldeias abandonadas.

Lev Tov: «Que estavam de pé?»

Tamir: «De pé. Era necessário que não houvesse lugar para eles voltarem, por isso mobilizei todos os batalhões de engenharia do Comando Central, e no espaço de 48 horas demoli todas aquelas aldeias. Ponto. Não haveria lugar para onde voltar.»

Lev Tov: «Sem hesitação, imagino.»

Tamir: «Sem hesitação. Essa era a política. Mobilizei as forças, fiz o trabalho e acabou».

Caixotes em caixas-fortes

A caixa-forte do Centro de Documentação e Investigação Yad Yaari fica numa cave. Na caixa-forte, que é na verdade uma sala pequena e bem protegida, há pilhas de caixotes com documentos confidenciais. O arquivo abriga os materiais do movimento Hashomer Hatzair, do movimento de Kibbutz Ha’artzi, do Mapam, do Meretz e de outras entidades, como a Peace Now.

O director do arquivo é Dudu Amitai, que também é presidente da Associação de Arquivistas de Israel. De acordo com Amitai, pessoal do Malmab visitou o arquivo regularmente entre 2009 e 2011. Os funcionários do arquivo dizem que as equipas do Departamento de Segurança — dois aposentados do Ministério da Defesa sem treino de arquivo — apareciam duas ou três vezes por semana. Procuravam documentos com palavras-chave como «nuclear», «segurança» e «censura», e também dedicavam um tempo considerável à Guerra da Independência e ao destino das aldeias árabes pré-1948.

«No final, apresentavam-nos um resumo, dizendo que tinham localizado algumas dezenas de documentos confidenciais», diz Amitai. «Geralmente não separamos pastas. Logo, dezenas de pastas, na íntegra, chegaram à nossa caixa-forte e foram removidas do catálogo público». Uma pasta pode conter mais de 100 documentos.

Uma das pastas que foram seladas está relacionada com o governo militar que controlou as vidas dos cidadãos árabes de Israel desde 1948 até 1966. Durante anos, os documentos estiveram armazenados na mesma caixa-forte, inacessíveis aos investigadores. Recentemente, na sequência de uma solicitação do professor Gadi Algazi, historiador da Universidade de Tel Aviv, Amitai examinou a pasta pessoalmente e chegou à conclusão de que não havia razão para não a divulgar, apesar da opinião do Malmab.

De acordo com Algazi, pode haver várias razões para o Malmab ter decidido manter a pasta confidencial. Uma delas está relacionada com um anexo secreto de um relatório de um comité que examinou o funcionamento do governo militar. O relatório refere-se, quase na íntegra, às batalhas sobre propriedade da terra entre o Estado e os cidadãos árabes, e quase não faz referência a questões de segurança.

Outra possibilidade é a existência de um relatório de 1958 do comité ministerial que supervisionou o governo militar. Num dos apêndices secretos deste relatório, o coronel Mishael Shaham, um oficial superior do governo militar, explica que uma das razões para não desmantelar o aparelho da lei marcial é a necessidade de restringir o acesso dos cidadãos árabes ao mercado de trabalho e impedir a restauração das aldeias destruídas.

Uma terceira explicação possível para esconder a pasta diz respeito aos testemunhos históricos inéditos sobre a expulsão de beduínos. Em vésperas da criação de Israel, quase 100 000 beduínos viviam no Negev. Três anos depois, o seu número tinha caído para 13 000. Nos anos durante e após a Guerra da Independência, várias operações de expulsão foram realizadas no Sul do país. Num dos casos, observadores da ONU relataram que Israel expulsou 400 beduínos da tribo Azazma e citou testemunhos sobre tendas queimadas. A carta que aparece na pasta confidencial descreve uma expulsão similar realizada em 1956, como relatado pelo geólogo Avraham Parnes:

«Há um mês visitámos Ramon. Os beduínos da região de Mohila vieram até nós com os seus rebanhos e as suas famílias e disseram-nos para comermos pão com eles. Eu respondi que tínhamos muito trabalho para fazer e não tínhamos tempo. Na nossa visita esta semana, fomos novamente em direcção a Mohila. Em vez dos beduínos e dos seus rebanhos, encontrámos um silêncio mortal. Dezenas de carcaças de camelos estavam espalhadas na área. Viemos a saber que, três dias antes, as Forças de Defesa de Israel tinham “lixado” os beduínos e os seus rebanhos tinham sido abatidos — os camelos a tiro e as ovelhas com granadas. Um dos beduínos, que começou a reclamar, foi morto, os restantes fugiram.»

O testemunho continuava: «Duas semanas antes tinham recebido ordens para ficar onde estavam por enquanto, depois receberam ordens para partir. Para acelerar o processo, 500 cabeças de gado foram abatidas… A expulsão foi executada “eficientemente”.» A carta segue citando o que um dos soldados disse a Parnes. De acordo com o seu testemunho: «Eles não se vão embora, a menos que acabemos com os seus rebanhos. Uma jovem, de cerca de 16 anos, aproximou-se de nós. Tinha um colar de contas de cobras de latão. Arrancámos o colar e cada um de nós ficou com uma conta como recordação.»

A carta foi originalmente enviada ao deputado Yaakov Uri, do Mapai (antecessor do Partido Trabalhista), que a transmitiu ao Ministro do Desenvolvimento, Mordechai Bentov (Mapam). «A sua carta chocou-me», escreveu Uri a Bentov. Este último circulou a carta entre todos os ministros, escrevendo: «Na minha opinião o governo não pode simplesmente ignorar os factos relatados na carta.» Bentov acrescentou que, à luz do terrível conteúdo da carta, pedira a especialistas em segurança para verificarem a sua credibilidade. Estes tinham confirmado que o conteúdo «de facto, de modo geral, está em conformidade com a verdade».

Desculpa nuclear

Foi durante o mandato do historiador Tuvia Friling como chefe dos arquivos de Israel, de 2001 a 2004, que o Malmab realizou as suas primeiras incursões arquivísticas. O que começou como uma operação para evitar deixar escapar segredos nucleares, diz ele, tornou-se com o tempo um projecto de censura em grande escala.

«Demiti-me ao fim de três anos, e essa foi uma das razões», diz o Prof. Friling. «A confidencialidade imposta ao documento sobre a emigração dos árabes em 1948 é precisamente um dos exemplos daquilo que me causava apreensão. O sistema de armazenamento e arquivo não é um ramo das relações públicas do Estado. Se há algo de que alguém não gosta, bem, é a vida. Uma sociedade saudável também aprende com os seus erros».

Porque é que Friling permitiu que o Ministério da Defesa tivesse acesso aos arquivos? A razão, diz o próprio, era a intenção de tornar público material de arquivo via internet. Em discussões sobre as implicações da digitalização do material, foi expressa a preocupação de que referências a «determinado tópico» nos documentos fossem tornadas públicas por engano. O tópico, é claro, é o projecto nuclear de Israel. Friling insiste que a única autorização que o Malmab recebeu foi a de procurar documentos sobre este assunto.

Mas a actividade do Malmab é apenas um exemplo de um problema mais amplo, refere Friling: «Em 1998, expirou a confidencialidade dos documentos mais antigos nos arquivos do Shin Bet e Mossad [6]. Durante anos, estas duas instituições desrespeitaram o chefe dos arquivos. Quando assumi o meu cargo, pediram-me que a confidencialidade de todo o material fosse estendida [de 50] para 70 anos, o que é ridículo — a maior parte do material pode ser aberto.»

Em 2010, o período de confidencialidade foi estendido para 70 anos; em Fevereiro passado foi prorrogado novamente para 90 anos, apesar da oposição do Conselho Supremo de Arquivos. «O Estado pode impor confidencialidade em alguns documentos», diz Friling. «A pergunta é se a questão da segurança não servirá apenas como desculpa. Em muitos casos, isto já se tornou uma comédia.»

Na opinião de Dudu Amitai, do Yad Yaari, o sigilo imposto pelo Ministério da Defesa deve ser questionado. Quando estava no cargo, conta ele, um dos documentos colocados na caixa-forte era uma ordem emitida, durante uma trégua na Guerra da Independência, por um general das Forças de Defesa de Israel para que as suas tropas se abstivessem de violações e roubos. Agora Amitai pretende examinar os documentos que foram depositados na caixa-forte, especialmente documentos de 1948, e abrir o que for possível. «Vamos fazê-lo com cautela e responsabilidade, mas reconhecendo que o Estado de Israel precisa de aprender a lidar com os aspectos menos agradáveis da sua História».

Ao contrário do Yad Yaari, que o pessoal do Ministério já não visita, continuam a examinar documentos no Yad Tabenkin, o centro de investigação e documentação do Movimento dos Kibutzes Unidos. O director, Aharon Azati, chegou a um acordo com as equipas do Malmab, à luz do qual os documentos só seriam transferidos para a caixa-forte se ele estivesse convencido de que isso se justificava. Mas também aqui, no Yad Tabenkin, o Malmab ampliou as suas buscas para além do âmbito do projecto nuclear, para abranger entrevistas realizadas por funcionários de arquivos com ex-membros do Palmach, e chegou mesmo a examinar material sobre a história dos colonatos nos territórios ocupados.

O Malmab mostrou interesse, por exemplo, no livro em língua hebraica Uma Década de Silenciamento: Política de Colonização nos Territórios 1967-1977, escrito por Yehiel Admoni, director do Departamento para a Colonização da Agência Judaica durante a década indicada, publicado pelo Yad Tabenkin em 1992. Este livro menciona um plano para transferir refugiados palestinianos para o Vale do Jordão e para desenraizar 1540 famílias beduínas da área de Rafah, na Faixa de Gaza, em 1972, referindo uma operação que incluía a vedação de poços pelas Forças de Defesa de Israel. Ironicamente, no caso dos beduínos, Admoni cita o ex-ministro da Justiça Yaakov Shimshon Shapira, que disse: «Não é necessário estender o raciocínio da segurança longe demais. Todo o episódio beduíno não é um capítulo glorioso para o Estado de Israel».

Segundo Azati, «estamos a caminhar, cada vez mais, para um cerrar de fileiras. Embora esta seja uma era de abertura e transparência, aparentemente há forças que estão a puxar na direção oposta».

Sigilo não autorizado

Há cerca de um ano, a assessora jurídica do Arquivo Estatal, a advogada Naomi Aldouby, escreveu um artigo de opinião intitulado «Ficheiros Fechados sem Autorização em Arquivos Públicos». Segundo ela, a política de acessibilidade aos arquivos públicos é da competência exclusiva do director de cada instituição.

No entanto, apesar da opinião de Aldouby, na grande maioria dos casos os arquivistas que enfrentaram decisões não razoáveis do Malmab não levantaram objecções. Não até 2014, quando pessoal do Ministério da Defesa chegou ao arquivo do Instituto de Investigação Harry S. Truman, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Para surpresa dos visitantes, o pedido para examinar o arquivo — que contém colecções do ex-ministro e diplomata Abba Eban e do major-general (res.) Shlomo Gazit — foi recusado pelo então director, Menahem Blondheim.

De acordo com as palavras de Blondheim: «Disse-lhes que os documentos em questão tinham décadas e que não acreditava que houvesse algum problema de segurança que justificasse restringir o seu acesso aos investigadores. Em resposta, eles disseram: “Digamos que há aqui testemunhos de que foram envenenados poços na Guerra da Independência?” Eu respondi: “Bom, nesse caso, essas pessoas devem ser levadas a julgamento.”»

A recusa de Blondheim levou a uma reunião com um funcionário de hierarquia superior do Ministério, só que desta vez a atitude que encontrou foi diferente, recebendo ameaças explícitas. Por fim, os dois lados chegaram a um acordo.

Benny Morris não ficou surpreendido com a actividade do Malmab. «Eu sabia disso», diz ele. «Não oficialmente, ninguém me informou, mas eu percebi quando descobri que documentos que eu tinha visto no passado agora estão selados. Há documentos do Arquivo das Forças de Defesa de Israel que usei para um artigo sobre Deir Yassin [7] e que agora estão selados. Quando cheguei ao arquivo, já não tive permissão para ver o original. Então coloquei numa nota de rodapé [no artigo] que o Arquivo do Estado me tinha negado o acesso a documentos que eu tinha publicado há 15 anos».

O caso do Malmab é apenas um exemplo da batalha que está a ser travada para se poder aceder a arquivos em Israel. De acordo com o director executivo do Instituto Akevot, Lior Yavne, «O Arquivo das Forças de Defesa de Israel, o maior arquivo de Israel, está quase hermeticamente selado. Apenas cerca de 1% do material está aberto. O arquivo do Shin Bet, que contém materiais de imensa importância [para investigadores], está totalmente fechado, com excepção de meia dúzia de documentos.»

Após a sua reforma, Yaacov Lozowick, anterior chefe dos Arquivos do Estado, escreveu um artigo no qual refere o controlo do establishment da defesa sobre os materiais de arquivo do país. Escreve ele: «Uma democracia não deve esconder informação por ela ser susceptível de embaraçar o Estado. Na prática, o establishment da segurança de Israel, e em certa medida o das relações externas também, estão a interferir na discussão [pública].»

Os defensores da ocultação apresentam vários argumentos, como refere Lozowick: «Tornar os factos de domínio público poderia fornecer aos nossos inimigos um argumento contra nós, enfraquecendo a determinação dos nossos amigos; poderia agitar a população árabe; poderia enfraquecer os argumentos do Estado nos tribunais de justiça; e os factos revelados poderiam ser interpretados como crimes de guerra israelitas.» Contudo, diz: «Todos esses argumentos devem ser rejeitados. Esta é uma tentativa de esconder parte da verdade histórica, para construir uma versão mais conveniente.»

O que diz o Malmab

Yehiel Horev foi o guardião dos segredos do establishment da segurança durante mais de duas décadas. Chefiou o departamento de segurança do Ministério da Defesa de 1986 a 2007 e, naturalmente, manteve-se longe dos holofotes. Tem o mérito de agora ter concordado falar de forma franca ao Haaretz sobre o projecto dos arquivos.

«Não me lembro de quando começou», diz Horev, «mas sei que fui eu que iniciei o projecto. Se não me engano, começou quando houve pessoas que quiseram publicar documentos dos arquivos. Tivemos de montar equipas para examinar todo o material que iria sair.»

A partir de conversas com directores de arquivo, ficou claro que uma boa parte dos documentos sobre os quais foi imposta a confidencialidade está relacionada com a Guerra da Independência. Esconder os eventos de 1948 é parte do propósito do Malmab?

«O que significa “parte do propósito”? O assunto é examinado com base em se poderia ser prejudicial para as relações exteriores de Israel e também para a sua defesa. Esses são os critérios. Acho que ainda é relevante. Não há paz desde 1948. Posso estar errado, mas, tanto quanto sei, o conflito israelo-árabe não foi resolvido. Então, sim, pode ser que permaneçam assuntos problemáticos».

Questionado sobre como é que tais documentos podem ser problemáticos, Horev fala da possibilidade de agitação entre os cidadãos árabes do país. Do seu ponto de vista, todos os documentos devem ser lidos e, caso a caso, serem tomadas as decisões.

Se os acontecimentos de 1948 não fossem conhecidos, poderíamos discutir se essa abordagem é a correcta. Mas não é este o caso. Muitos testemunhos e estudos têm surgido sobre a história do problema dos refugiados. Qual é o sentido de esconder os assuntos?

«A questão é saber se pode, ou não, causar problemas. É um assunto muito sensível. Nem tudo foi publicado sobre a questão dos refugiados, e existe todo o tipo de narrativas. Algumas dizem que não houve fuga, apenas expulsão. Outras dizem que houve fuga. Não é preto e branco. Há uma diferença entre a fuga e aqueles que dizem que foram expulsos à força. São cenários diferentes. Não posso dizer agora se merece total confidencialidade, mas é um assunto que, definitivamente, precisa de ser discutido antes de ser tomada qualquer decisão sobre o que publicar.»

Durante anos, o Ministério da Defesa impôs a confidencialidade de um documento detalhado que descreve as razões da partida daqueles que se tornaram refugiados. Benny Morris já escreveu sobre o documento. Então, qual a lógica em mantê-lo oculto?

«Não me lembro do documento que você está a referir. Mas se ele o citou e o documento em si não está lá [isto é, onde Morris diz que está], os argumentos dele não são fortes. Se ele afirmar: “Sim, eu tenho o documento”, não posso argumentar. Mas se ele apenas disser que está lá escrito, isso pode estar certo como também pode estar errado. Se o documento já estivesse fora e fosse selado no arquivo, eu diria que isso é uma estupidez. Mas se alguém o citou — existe uma diferença do dia para a noite, no que diz respeito à validade das provas por ele citadas.»

Neste caso, estamos a falar sobre o investigador mais citado quando se trata de assuntos relacionados com os refugiados palestinianos.

«Dizer “investigador” não me impressiona. Conheço pessoas no meio académico que só dizem disparates sobre assuntos que eu conheço de A a Z. Quando o Estado impõe a confidencialidade, o trabalho publicado fica enfraquecido, já que ele não tem o documento.»

Mas esconder documentos mencionados em notas de rodapé de livros não será uma tentativa de trancar a porta do estábulo depois de os cavalos já terem fugido?

«Eu dei-lhe um exemplo de que isso não é necessariamente assim. Se alguém escrever que o cavalo é preto, se este não estiver fora do estábulo, não tem como provar que ele é realmente preto.»

Existem opiniões jurídicas que declaram que a actividade do Malmab nos arquivos é ilegal e não autorizada.

«Se eu souber que um arquivo contém material confidencial, tenho o poder de dizer à polícia para ir lá e confiscar o material. Eu também posso utilizar os tribunais. Eu não preciso da autorização do arquivista. Se houver material confidencial, tenho autoridade para agir. Há política específica. Os documentos não são selados sem motivo. No entanto, apesar de tudo, não lhe vou dizer que tudo o que é selado é 100% justificado.»

O Ministério da Defesa recusou-se a responder a perguntas específicas sobre as conclusões desta reportagem, respondendo apenas: «O director de segurança do establishment da defesa opera em virtude da sua responsabilidade de proteger os segredos do Estado e os seus bens relacionados com a segurança. O Malmab não fornece detalhes sobre o seu modo de operar nem as suas missões».

4 de julho de 2019

Perdas e danos

Mercosul-UE pode ser a pá de cal para o que havia sobrado da indústria brasileira

Laura Carvalho

Folha de S.Paulo

Desde 1999, Mercosul e União Europeia vinham negociando um acordo de livre-comércio entre os blocos. Reuters

Embora muitos detalhes do acordo comercial firmado por Mercosul e UE (União Europeia) na sexta-feira (28) ainda não tenham sido divulgados, seus efeitos de curto e longo prazo sobre o bem-estar da população, os diferentes setores produtivos nas duas regiões e o ambiente já vêm sendo objeto de
discussão
nos países envolvidos.

Em linhas gerais, o acordo vai liberalizar mais de 90% do comércio de bens entre os blocos regionais em um prazo de dez anos para a maioria dos produtos. Um relatório de avaliação de impacto publicado pela Comissão Europeia em 2011, que simulou um modelo de equilíbrio geral computacional baseado nos termos das negociações propostos à época, sugere que o acordo deveria preocupar, de um lado, agricultores europeus, e, de outro, o que restou de nossos industriais.

No caso da agricultura, o resultado obtido pelo relatório é de perda significativa para os produtores da UE e ganhos significativos para os produtores do Mercosul em todos os cenários. Em particular, as
simulações indicam forte expansão da exportação de carne —bovina, sobretudo—, de óleos vegetais e gordura e de frutas e verduras do Mercosul.

No entanto, a perda de € 2 bilhões a € 3 bilhões no setor agrícola da União Europeia (aos preços da época) seria mais do que compensada pela expansão de mais de € 9 bilhões na produção da indústria de transformação, expandindo assim o PIB do bloco como um todo.

No caso do Mercosul, a perda para os setores industriais seria de € 1,4 bilhão, ante uma expansão de € 1,6 bilhão a € 2,4 bilhões na produção agrícola, o que também geraria um ganho líquido para nossa região —menor do que para a UE em termos absolutos, mas maior em relação ao nível inicial do PIB.

Esses números dependem dos pressupostos adotados no modelo, mas o que sabemos é que o Mercosul aceitou remover tarifas em setores-chave de nossa já combalida indústria, como automóveis, autopeças, químicos e fármacos. Assim, ainda que os efeitos de curto prazo possam ser positivos para os dois blocos, os benefícios de longo prazo para o Mercosul são menos evidentes.

É verdade que boa parte das cadeias industriais brasileiras já foi desmantelada desde a abertura comercial dos anos 1990 e, a partir de 2009, com a entrada mais massiva de produtos chineses. Mas o novo acordo pode ser a pá de cal para o que havia sobrado da indústria brasileira do século 20 e, o que é pior, para as pretensões de desenvolver novos setores de alto valor agregado e maior conteúdo tecnológico no século 21.

Na literatura econômica, as evidências dos efeitos de longo prazo da abertura comercial sobre a economia dos países são mistas, mas a indústria e os serviços de mais alta tecnologia ainda aparecem como cruciais para o crescimento da produtividade e a qualidade dos empregos.

Qual será o impacto desse acordo sobre o crescimento, o emprego e as desigualdades de renda no longo prazo? Tal avaliação exige a realização de estudos aprofundados.

Isso sem contar os danos ambientais que um modelo de desenvolvimento ainda mais fundado na exportação de carne e no agronegócio pode causar.

Mesmo que o acordo consiga impor controle e fiscalização mais rigorosos aos nossos produtores, o agronegócio foi responsável por quase 70% do desmatamento na América Latina entre 2000 e 2010, e é difícil imaginar uma reversão nesse quadro no atual cenário político.

Por isso, enquanto nossas elites celebram a notícia dos vinhos e dos cosméticos europeus mais baratos, ambientalistas ao redor do mundo já organizam protestos para evitar a aprovação do acordo no Parlamento Europeu e no Congresso dos países implicados.

Sobre a autora
Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

Em defesa da revolução americana

1776 começou como uma disputa mesquinha entre elites poderosas que se odiavam. E logo uniu os movimentos emancipatórios em todo canto nas colônias inglesas da América do Norte.

Tom Cutterham

Jacobin

Uma ilustração colorida que representa os motins da Lei do Selo em Boston em 1765, publicado originalmente no Historical Scrap Book (Cassell e Companhia, 1880).

Tradução / O 4 de julho celebra a declaração de guerra entre duas facções de uma classe dominante capitalista. Em 1763, decisivamente vitorioso em sua mais recente guerra contra a França, o Império Britânico ficou no limiar de uma série de possibilidades: quem controlaria os lucros dessa vitória e como o estado imperial reuniria seus recursos? O caminho preferido pela coalizão de fazendeiros, comerciantes e advogados que assinaram a Declaração de Independência em 1776 foi o investimento sobre a contenção, a conquista da paz e, na maior parte, a defesa da escravidão contra qualquer coisa que a ameaçasse. No horizonte, viram a terra apenas esperando para ser tomada, vendida e transformada em "um poderoso império".

Mas a Revolução Americana nunca poderia ser apenas uma guerra entre capitalistas. Desnecessário dizer que a maioria daqueles que lutaram e morreram - para não mencionar aqueles que trabalharam para possibilitar a guerra - eram trabalhadores e pequenos proprietários. Mobilizar esses homens e mulheres numa guerra em escala até então desconhecida nas colônias, exigiu necessariamente a promulgação de ideias e instituições abrangentes e transformadoras. Dependia não apenas do consentimento, mas também do compromisso ativo, às vezes fervoroso, de muitos colonos comuns. Ganhar esse compromisso significava manter a promessa de uma “nova ordem”, uma república participativa na qual os direitos do “povo” - na prática, homens brancos - seriam assegurados para sempre.

Uma amarga guerra civil se alastrou pelas treze colônias e se estendeu ao longo de suas fronteiras, estimulando uma política de emancipação e autogoverno coletivo - e não apenas para os proprietários brancos e masculinos. Essa guerra criou condições para o levante em massa entre os povos escravizados e novos alinhamentos e coalizões entre os povos indígenas no âmbito da violência imperial. Isso levou esposas, filhas, servos, escravos e aprendizes a questionar suas posições subordinadas na sociedade colonial. Através de sua participação na ação coletiva, homens e mulheres reforçaram antigas relações e geraram novas identidades que ressoaram com a possibilidade de liberdade, dentro e além dos Estados Unidos. Por mais fraturadas e contraditórias, essas lutas pela emancipação ajudaram a moldar a nova nação e seus vizinhos.

Por mais que tentassem aniquilar o fermento assustadoramente radical, a nova classe dominante americana foi pega na contradição entre seu apelo à revolução e sua necessidade de uma hierarquia estável. Capitalistas como o governador Morris entenderam desde o início que o processo de declarar independência implicaria no despertar da "multidão", como um réptil no calor de uma manhã de primavera. "Antes do meio-dia eles vão morder", alertou ele em 1774. Com certeza, na Pensilvânia e em outros lugares, os colonos comuns chegaram perto de tomar o poder. Criaram novas instituições democráticas para redistribuir a riqueza, empreendiam revoltas armadas contra governantes republicanos intransigentes.

A Revolução animou uma tradição de dissidência rebelde que remontava ao tumultuado século XVII na Inglaterra, um legado que seria entrelaçado na mitologia fundadora da emergente nacionalidade americana. Inspirou homens como William Manning, um fazendeiro e taverneiro que escreveu sua Chave da Liberdade em 1799, a vislumbrar uma política de muitos que derrotaria a “astúcia e corrupção” de poucos - incluindo “o adúltero Hamilton”. A declaração veio a ser um modelo para a expressão de demandas emancipatórias que ele próprio menosprezou, incluindo o mais famoso apelo à liberdade das mulheres feito em Seneca Falls, em 1848.

Ao mesmo tempo, a revolução trouxe a construção de um sistema estatal - federal e local - que ajudou os capitalistas americanos a organizar investimentos, explorar trabalhadores e expropriar terras e recursos em uma escala fantástica. Durante as décadas de 1780 e 1790, os interesses de comerciantes, latifundiários e escravistas derrotaram movimentos democráticos incipientes, impondo uma constituição destinada a proteger seu acesso privilegiado ao poder, impedindo o potencial radical do momento revolucionário. Dentro de uma geração, eles expandiram dramaticamente a economia da escravidão, fortalecendo ainda mais a supremacia branca e revertendo os ganhos obtidos pelas mulheres revolucionárias.

Não é de admirar que Frederick Douglass condenasse a hipocrisia de celebrar a liberdade em 4 de julho, enquanto seu antigo colega William Lloyd Garrison declarou a Constituição “uma aliança com a morte”. Contudo, seu movimento abolicionista também tirou força da tradição revolucionária, que considerou “mais glorioso morrer instantaneamente como homem livre do que viver uma hora como escravo.” Em nenhum outro lugar, mais do que na causa da abolição, estavam as contradições mais agudamente sentidas da revolução. Para pôr fim à escravidão, o movimento invocou os princípios dos senhores de escravos como Jefferson e Washington. Para efetuar uma expropriação histórica da riqueza, mobilizou um Estado concebido e dedicado à proteção da propriedade.

A promessa de liberdade na igualdade ainda está no cerne da Declaração, mesmo quando as celebrações da nacionalidade americana em 4 de julho significam cada vez mais um projeto político totalmente incompatível. No século XVIII, a luta revolucionária envolveu a construção de instituições e alianças que permitiram a um grande número de pessoas repudiar a legitimidade da ordem jurídica existente. Um novo mundo nasceu dentro do antigo, moldado e marcado pela sua luta para emergir. Não existe pureza na política ou movimentos sem contradições. É sob essa luz que devemos entender a tradição revolucionária e fazer um brinde ao Dia da Independência.

Colaborador

Tom Cutterham é professor de História na Universidade de Birmingham (Reino Unido). Seu último livro é "Gentlemen Revolutionaries: Power and Justice na New American Republic" ("Cavalheiros Revolucionários: Poder e Justiça na Nova República Americana").

Incautos da periferia

Não estamos diante de um acordo de livre-comércio

Paulo Nogueira Batista Jr.


Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (ao centro) com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o secretário de Comércio Exterior, Marcos Troyjo, em BruxelasDivulgação/Itamaraty Brasil/

Transcorreu de forma opaca a negociação entre União Europeia e Mercosul, concluída na semana passada. Ainda são muito incompletas as informações sobre diversas questões que costumam estar em jogo em acordos desse tipo. Como o acordo depende de aprovação parlamentar, é da maior importância que deputados e senadores peçam desde logo o seu envio ao Congresso e convoquem os negociadores para prestar contas em audiências públicas.

Apesar da falta de transparência, é possível antecipar os contornos do que foi negociado, pois as tentativas de chegar a um acordo entre os dois blocos remontam aos tempos de Fernando H. Cardoso e alguns dos resultados da negociação já foram divulgados. Os sinais não são positivos para nós.

Não estamos diante de um acordo de “livre-comércio”, como se divulga na imprensa. Essa designação enganosa sugere que removeremos por completo as barreiras ao comércio de bens entre os dois blocos. Algumas barreiras serão, de fato, eliminadas ou reduzidas, principalmente, ao que parece, do lado do Mercosul. Mas os europeus fizeram questão de preservar, em caráter permanente, importantes proteções à sua agricultura, área onde o Mercosul tem capacidade de competição.

As vantagens para nós parecem ser em grande parte ilusórias. Afirma-se, por exemplo, que quase todas as nossas exportações industriais ficarão livres de tarifas, sem dizer, porém, que as tarifas aplicadas sobre esse tipo de produto já são muito baixas na Europa.

Além disso, o acordo vai muito além da liberalização do comércio de bens, pois abarca uma série de outros temas estratégicos, como serviços, investimentos, licitações públicas e compras governamentais, patentes e propriedade intelectual, questões sanitárias, entre diversas outras.

O risco que corremos é o de amarrar em acordo internacional, de forma irreversível ou difícil de reverter, toda uma série de políticas públicas essenciais para nosso desenvolvimento. Se o acordo for ratificado, o resultado será uma grande perda de soberania em troca de acesso adicional modesto a mercados europeus.

O acordo Mercosul-União Europeia segue, em larga medida, o modelo geral da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), lançada pelos Estados Unidos nos anos 90, que incluía todo um conjunto de normas detalhadas, nas áreas acima citadas, em troca de poucas vantagens comerciais nos Estados Unidos.

Outro risco agora é que os EUA e demais países desenvolvidos queiram fazer acordos semelhantes com o Mercosul para evitar que os europeus levem vantagem nos mercados do bloco sul-americano. À medida que isso ocorrer, ficará agravada a perda de autonomia na definição das políticas de desenvolvimento.

O leitor poderá perguntar, perplexo: europeus e americanos pensam, então, que somos idiotas? Talvez. Eles contam, provavelmente, com o nosso fascínio atávico por aspectos intangíveis, etéreos desse tipo de negociação, entre eles o “prestígio” de fechar acordos com os principais países, a inserção no mundo “globalizado”, o sinal de “confiança” para os mercados e investidores internacionais etc.

Portanto, não será motivo de surpresa se, após examinar o acordo, chegarmos à conclusão de que ele interessa muito mais aos europeus do que a nós. Nesta fase final da negociação, tínhamos um governo fraco na Argentina e um governo despreparado no Brasil, presas fáceis para os engôdos que os desenvolvidos armam para consumo na periferia incauta.

Estamos reproduzindo, tudo indica, um padrão de “negociação” (nem sei se o termo cabe) encontradiço na América Latina. Desde os tempos em que caravelas chegavam às nossas praias, indígenas deslumbrados trocavam suas terras, riquezas, liberdades por espelhinhos e outras novidades.

Museu de grandes novidades.

Sobre o autor

Economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (estabelecido pelos Brics em Xangai) e ex-diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

1 de julho de 2019

Imperialismo tardio: Cinquenta anos depois de A era do imperialismo de Harry Magdoff

O artigo "Late Imperialism: Fifty Years After Harry Magdoff's The Age of Imperialism" de John Bellamy Foster atualiza a análise leninista do imperialismo, destacando que, cinquenta anos após o trabalho de Harry Magdoff, o mundo entrou numa nova fase: o Imperialismo Tardio. Esta fase é caracterizada pelo domínio do capital de monopólio-financeiro globalizado, pelo declínio da hegemonia dos EUA e pelo aumento dos conflitos mundiais. Foster argumenta que o imperialismo continua a ser a estrutura central das relações globais, acentuando as assimetrias e a exploração do Sul Global, enquanto as contradições do sistema, incluindo a estagnação econômica e a crise ecológica, se tornam mais extremas.

John Bellamy Foster



Monthly Review Vol. 71, No. 03 (July-August 2019)

Tradução / O trabalho mais influente sobre o imperialismo continua a ser o estudo clássico de V. I. Lenine de há um século atrás, Imperialismo: o estádio mais recente do capitalismo (mais conhecido pelo título dado após sua primeira publicação, Imperialismo: o estádio supremo do capitalismo) (1). Lenine emprega o termo imperialismo moderno ou simplesmente imperialismo para se referir à era do capital concentrado, durante a qual o mundo inteiro estava sendo desmembrado pelos principais Estados e suas corporações, distinguindo o estádio imperialista do colonialismo/imperialismo dos estádios capitalistas precedentes, mercantilista e de livre concorrência. “A política colonial e o imperialismo”, insistiu Lenine, “existiam antes deste último estádio [imperialista] do capitalismo, e mesmo antes do capitalismo” (2).

O novo estádio imperialista, começando no último quartel do século XIX e estendendo-se até o século XX, era visto como um produto do crescimento de firmas capitalistas gigantescas com poder de monopólio, da estreita conexão forjada entre essas corporações e os Estados-nação em que surgiram e a resultante luta pelo controle das populações e recursos do mundo - levando à competição intercapitalista e à guerra. “Se fosse necessário dar a mais breve definição possível de imperialismo [como uma “etapa especial”]”, escreveu Lenine, “teríamos de dizer que o imperialismo é o estádio de monopólio do capitalismo” (3).

A análise geral do imperialismo feita por Lenine pertencia a um grupo de teorias complementares, na tradição marxiana, que incluía obras como Capital finaneiro de Rudolf Hilferding (1910), A acumulação do capital de Rosa Luxemburgo (1913) e Imperialismo e a economia mundial de Nikolai Bukharine (1915) (4). Ainda assim, a análise de Lenine foi incomparável na sua capacidade para capturar as condições dominantes do mundo até à Segunda Guerra Mundial, incluindo a explicação das próprias guerras mundiais. Um ponto forte na sua análise foi o seu caráter concreto e histórico, divorciado de fórmulas teóricas rígidas. Abrangia fenómenos tão variados como o crescimento do monopólio e do capital financeiro, a “divisão do mundo entre os trusts internacionais”, a exportação de capital, a corrida pela energia e matérias-primas, a luta de classes, a rivalidade geopolítica na luta pelo território económico e pelas esferas de influência, o surgimento de uma aristocracia operária no núcleo capitalista central e a disputa pela hegemonia global e regional (5).

Enquanto enfatiza a competição intercapitalista, Lenine também aponta para a hierarquia dos Estados-nação, que serviu para dividir as potências centrais das nações mais pobres da periferia, que caíram dentro de suas órbitas imperiais. A sua análise foi além do colonialismo para discutir o neocolonialismo em relação à América Latina. Na década de 1920, atento às lutas revolucionárias ocorridas no México, Turquia, Pérsia, China e Índia, Lenine foi pioneiro ao estender a sua análise à consideração de todas as “colónias e países oprimidos pelo imperialismo” e a todos os “países dependentes”, dando aso à revolução na periferia contra o "imperialismo internacional" (6).

No entanto, a história, na conceção marxista, é uma dialética de continuidade e mudança. Na década de 1960, a análise de Lenine, apesar da sua abrangência, precisava de atualização. Na era após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América emergiram com uma hegemonia quase absoluta sobre a economia capitalista mundial. Ao mesmo tempo, o mundo assistiu à maior onda revolucionária da história, associada à rotura com o colonialismo, à ascensão do neocolonialismo e ao surgimento de uma esfera rival de sociedade pós-revolucionárias, incluindo estados com aspirações socialistas (7). Nesta atmosfera alterada, correspondente à Guerra Fria, os Estados Unidos da América e seus aliados apresentaram uma nova ideologia de crescimento económico, desenvolvimento, ajuda e modernização, dentro da estrutura ideológica capitalista. Um exército de intelectuais liberais e socialdemocratas, incluindo figuras como Mark Blaug, Benjamin J. Cohen, Robert W. Tucker e Barrington Moore Jr., foi recrutado nos anos 1960 e 1970 para negar a existência do imperialismo económico, se não do imperialismo em geral, alvejando nas suas análises várias figuras da esquerda, em particular nos Estados Unidos da América, incluindo Paul Baran, Paul Sweezy, William Appleman Williams e Harry Magdoff (8).

Mesmo no centro do intenso debate sobre o imperialismo dos E.U.A., nos anos 1960 e 1970, no contexto da Guerra do Vietname, esteve a obra de Magdoff The Age of Imperialism: The Economics of U.S. Foreign Policy (A Era do Imperialismo: A economia da política externa dos E.U.A.) (1969), escrita pouco mais de cinquenta anos depois do grande trabalho de Lenine. Em conjunto com a coleção de ensaios históricos e teóricos de Magdoff do final dos anos 1960 e 1970 - Imperialism: From the Colonial Age to the Present (Imperialismo: da era colonial ao presente) (1978) - A Era do Imperialismo apresenta-se como a análise económica, histórica e teórica mais integrada do imperialismo dos E.U.A., no seu auge, na chamada idade de ouro do capitalismo monopolista (9).

Magdoff, mais do que qualquer outro autor da época, modelou a dialética da continuidade e da mudança na análise marxista do imperialismo, ligando sua obra à análise anterior de Lenine. Como outros grandes teóricos marxistas do imperialismo de meados do século XX até hoje, como Baran, Sweezy e Samir Amin, ele continuou a enfatizar a concentração e centralização do capital, juntamente com a ascensão de empresas monopolistas, como a chave para compreender o imperialismo no final do século XX e alvores do século XXI. Além disso, Magdoff trabalhou a partir da complexidade e da natureza multifacetada da abordagem original de Lenine, tentando replicar isso para uma era posterior.

Magdoff havia concebido as estatísticas de medida da produtividade (ainda hoje usadas pelo Departamento do Trabalho dos E.U.A.) para o Projeto Nacional de Pesquisa sobre Oportunidades de Reemprego e Desenvolvimento Tecnológico, durante o New Deal da Administração Roosevelt, na década de 1930. Ele foi uma figura fundamental na organização da indústria de guerra dos E.U.A. na Segunda Guerra Mundial, como chefe da Divisão de Requisições da Comissão Nacional de Assessoria em Defesa Nacional e pelo seu papel no Conselho de Produção de Guerra, onde foi encarregado de planear e controlar as indústrias de maquinaria. Posteriormente, chefiou a Divisão de Análise de Negócios Correntes do Departamento de Comércio, onde supervisionou o Mapa de Negócios Correntes do governo dos E.U.A., tendo atuado como consultor económico do Secretário de Comércio dos E.U.A. (e ex-vice-presidente dos E.U.A.), Henry Wallace. Esta extraordinária experiência na construção e análise das estatísticas económicas dos E.U.A. e no planeamento de guerra, significou que Magdoff estava bem equipado para fornecer demonstrações empíricas definitivas do imperialismo económico por parte das empresas norte-americanas e do Estado norte-americano, juntamente com sua relação com as dimensões mais amplas do imperialismo mundial (10).

No tratamento de Magdoff, o imperialismo não podia ser visto no mesmo alto nível de abstração às vezes usado para a análise da lógica do capital. Em vez disso, uma abordagem razoável do imperialismo exigia atenção para com o funcionamento interno do capitalismo global, informado por abstração teórica, mas finalmente confirmado e tornado significativo a um nível concreto, histórico (11). Isso se adequava ao método do próprio Karl Marx, que desenvolveu a sua crítica da Economia Política por meio de sucessivas aproximações que vão do abstrato para o concreto. Assim, Marx começou sua crítica em O Capital (originalmente previsto como volume 1 numa obra em seis volumes), representando o nível mais abstrato de análise, pretendendo completá-lo com um volume 5 sobre Comércio Internacional e um volume 6 sobre A Economia Mundial e as Crises - isto é, em termos da análise concreta do que hoje seria chamado de sistema mundial imperialista. No entanto, ele nunca foi além do volume 1 do plano original, que se transformou nos três volumes de O Capital (12).

O imperialismo, argumentava Magdoff, era inerentemente complexo e mutante em suas configurações, refletindo as forças centrípetas e centrífugas que governavam o sistema. No que se refere ao imperialismo norte-americano, ele deveria ser interpretado de tal forma que fosse revelada a “unidade essencial” entre os objetivos/tendências económicos, políticos e estratégico-militares. O papel das empresas multinacionais no exterior não pode ser separado do papel das bases militares norte-americanas espalhadas pelo planeta ou da necessidade de controlar o petróleo e outros recursos estratégicos. Magdoff estava no seu melhor ao refutar aqueles que tentaram alegar: (1) que o investimento direto no estrangeiro e o comércio eram de pouca importância económica para os Estados Unidos (ele demonstrou que o investimento direto no estrangeiro havia subido de cerca de 10% dos lucros empresariais não financeiros nos E.U.A. em 1950, para cerca de 22% em 1964); (2) que a economia dos E.U.A. não dependia de petróleo ou outras matérias-primas localizadas no exterior e não tinha interesses geopolíticos inerentes; e (3) que os lucros dos E.U.A. foram apenas marginalmente acrescentados pelo excedente extraído da periferia do sistema mundial (13). O facto de que os outros grandes países capitalistas aderiram à hegemonia dos E.U.A. não significa que a competição intercapitalista tivesse desaparecido completamente ou não ressurgisse o futuro. Respondendo àqueles que questionaram se “o imperialismo era realmente necessário” aos Estados Unidos, Magdoff explicou que “o imperialismo é o modo de vida do capitalismo” (14).

Para Magdoff, escrevendo no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, as principais mudanças na estrutura do imperialismo desde o tempo de Lenine - além da descolonização e da ascensão da hegemonia dos E.U.A. - estavam relacionadas com o desenvolvimento do capital monopolista: (1) o surgimento do complexo militar-industrial; (2) o surgimento de empresas multinacionais (incluindo bancos multinacionais) e sua crescente penetração na periferia; e (3) "a prioridade dos interesses da indústria multinacional militar nos assuntos do Estado". Essa descrição, observou ele, aplicava-se antes de tudo aos próprios Estados Unidos, mas refletia relações que também se materializavam entre potências imperiais rivais. Em essência, ele estava apontando para uma tendência dentro do sistema em direção à formação de um capitalismo monopolista mais generalizado, começando nos Estados Unidos da América, mas dominando um pouco por todo o globo. Um elemento-chave em A Era do Imperialismo de Magdoff foi seu capítulo sobre o crescimento da "Rede Financeira", investigando todo o fenómeno dos bancos e finanças multinacionais em geral - um tratamento que ele haveria de levar mais adiante, no início dos anos 1990, em Globalization: To What End? (Globalização: para que fim?), que incluiu a sua análise sobre "A Globalização das Finanças" (15).

Será aqui defendido que a globalização da produção (e das finanças) - que surgiu juntamente com o neoliberalismo a partir da estagnação económica de meados da década de 1970 e depois acelerou com o desaparecimento das sociedades do tipo soviético e a reintegração da China no sistema capitalista mundial - gerou um capitalismo monopolista mais generalizado, teorizado por pensadores como Magdoff, Baran, Sweezy e Amin. Isso introduziu o que pode ser chamado de imperialismo tardio.

O imperialismo tardio refere-se ao período atual de capital monopolista-financeiro e de estagnação, onde se observa um declínio da hegemonia dos E.U.A. e crescentes conflitos mundiais, acompanhados por ameaças crescentes às bases ecológicas da civilização e da própria vida. Estão no seu centro as relações hierárquicas extremas que governam a economia capitalista mundial no século XXI, cada vez mais dominada por empresas megamultinacionais e um punhado de estados no centro do sistema mundial. Assim como agora é comum referirmo-nos a capitalismo tardio em reconhecimento do fim dos tempos ocasionado por simultâneos deslocamentos económicos e ecológicos, também é necessário falar hoje de imperialismo tardio, refletindo as dimensões e as contradições globais desse sistema, que atravessam todas as outras divisões, colocando uma “falha global” no desenvolvimento histórico humano: uma crise epocal que levanta a questão de “ruína ou revolução” (16).

A persistente falha de muitos, na esquerda, particularmente nos países capitalistas avançados, em reconhecer estes desenvolvimentos é em grande parte o resultado de um crescente abandono da teoria do imperialismo, substituída por conceções mais reificadas relacionadas à globalização, vistas como dissolventes das antigas hierarquias imperiais. Isto é tanto mais o caso quanto uma série de quadros alternativos são agora oferecidos, sugerindo: (1) o papel progressista e auto-aniquilador do imperialismo; (2) a mudança das hegemonias dentro do sistema mundial, concebido como substituto da teoria do imperialismo; (3) um Império “desterritorializado” (sem Estado, sem fronteiras); (4) um imperialismo político abstrato liderado pelos Estados Unidos ou o governo de organizações supranacionais, sem relação com as forças económicas; (5) o surgimento do transnacionalismo como uma entidade em si, em grande parte independente dos estados e da geografia; e (6) a suposta reversão do domínio imperialista. Portanto, antes de examinar o fenómeno histórico do imperialismo tardio, é necessário ver alguns desses equívocos predominantes na esquerda dos próprios países imperiais, resultantes de uma recusa em aceitar as complexas e multifacetadas realidades estruturais do imperialismo tardio no século XXI.

A esquerda ocidental e a negação do imperialismo

A questão do abandono da crítica do imperialismo em grande parte da esquerda ocidental foi dramaticamente levantada por Prabhat Patnaik, no seu artigo na Monthly Review de novembro de 1990, intitulado “Whatever Happened to Imperialism?” (O que raio aconteceu com o imperialismo?) Escrevendo duas décadas após The Age of Imperialism de Magdoff e um pouco mais do que uma década depois de Imperialism: From the Colonial Age to the Present, Patnaik, economista da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Delhi, observou:

“Um forasteiro não pode deixar de notar uma notável transformação que ocorreu no discurso marxista nos Estados Unidos, na última década: quase ninguém fala mais sobre o imperialismo. Em 1974, saí de Cambridge, na Inglaterra, onde lecionava economia, e agora voltei para o Ocidente, desta vez para os Estados Unidos, depois de 15 anos. Quando parti, o imperialismo ocupava talvez o lugar mais proeminente em qualquer discussão marxista, e em nenhum lugar foi escrito e discutido mais sobre esse assunto do que nos Estados Unidos da América - tanto assim que muitos marxistas europeus acusaram o marxismo norte-americano de estar contaminado por “terceiro-mundismo”... Os marxistas em todos os lugares olhavam para os Estados Unidos em busca de literatura sobre o imperialismo... 
Isso não é mais o caso hoje, obviamente. Marxistas mais jovens [nos Estados Unidos] parecem confusos quando o termo é mencionado. Questões candentes do dia… são discutidas, mas sem qualquer referência ao imperialismo. Indignação radical pela invasão do Panamá ou a intervenção militar em Nicarágua e El Salvador não fazem parte de proposições teóricas sobre o imperialismo. E o tema praticamente desapareceu das páginas de revistas marxistas, especialmente as de uma safra posterior. 
Curiosamente, isso não sucede porque alguém tenha teorizado contra o conceito. O silêncio sobre o imperialismo não é o resultado de algum debate intenso em que as escalas se inclinaram decisivamente em favor de um dos lados; não é um silêncio teoricamente autoconsciente. Também não se pode afirmar que o mundo mudou tanto, na última década e meia, que falar do imperialismo se tornou um anacronismo óbvio” (17).

Na época, Patnaik atribuiu a mudança nas perspetivas da esquerda nos Estados Unidos à ausência de uma grande guerra, como a Guerra do Vietname, no período 1975-90. Mas de igual importância na década de 1980 e início dos anos 1990, governando o estado de espírito nos círculos radicais, foi a situação económica em evolução, com a economia dos E.U.A., juntamente com a dos outros países capitalistas avançados, experimentando uma estagnação económica mais profunda, em contraste com o crescimento mais rápido de algumas partes da Ásia. Nessa base instável, a tese da dependência, do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, tornada famosa especialmente por André Gunder Frank, escrevendo na Monthly Review, foi designada como errónea, mesmo por muitos à esquerda - apesar do facto de que a distância em termos de rendimento nacional entre os principais países imperiais e o mundo em desenvolvimento, como um todo, ter continuado a aumentar, com a parcela da renda mundial recebida pelos 20% mais ricos do mundo (divididos em Estados-nação) a subir de 66% em 1965 para 83% em 1990 (18).

O teórico marxista Bill Warren argumentou, já em 1973, em “Imperialism and Capitalist Industrialization” (Imperialismo e industrialização capitalista), artigo publicado na New Left Review, que a dependência nos países pobres estava em "declínio irreversível" devido a "um grande salto" no desenvolvimento capitalista no terceiro mundo. De acordo com Warren, Marx, em artigos como “The British Rule in India” (O domínio britânico na Índia), viu o colonialismo/imperialismo como desempenhando um papel construtivo nos países subdesenvolvidos. Mais tarde, isso foi “invertido” por Lenine, no seu Imperialismo, o que representou uma “reviravolta” na teoria marxista, dando origem à teoria da dependência. Os problemas de desenvolvimento enfrentados pelos países mais pobres, argumentou Warren, não eram principalmente externos, como descrito pelos dependistas, mas podiam ser atribuídos a “contradições internas”. Essa perspetiva, embora não generalizada nos anos 1970, quando Warren a introduziu pela primeira vez, veio a ganhar influência considerável dentro da esquerda ocidental, em 1980, quando foi publicado o seu livro póstumo Imperialism: Pioneer of Capitalism (Imperialismo: pioneiro do capitalismo) (19).

Um distanciamento bastante diferente das teorias clássicas do imperialismo apareceu no posfácio da edição de 1983 de The Geometry of Imperialism (A geometria do imperialismo), de Giovanni Arrighi. Um dos principais teóricos dos sistemas-mundo, de inspiração marxista, Arrighi acabou por abandonar a teoria do imperialismo, que ele já não considerava relevante, substituindo-a por uma conceção mais limitada de lutas pela hegemonia mundial. O modelo do sistema-mundo capitalista com suas hegemonias cambiantes foi visto por Arrighi como um adequado substituto para a noção mais complexa de imperialismo. O declínio do Estado-nação na esteira da globalização fez com que as antigas teorias do imperialismo se tornassem "obsoletas", e a teoria do capitalismo monopolista também era vista como datada. O que restou foi um sistema-mundo e os empurrões na luta pela hegemonia (20).

No entanto, as mais amplas rejeições de esquerda da crítica marxista do imperialismo aguardaram pela chegada do presente século. No ano 2000, Michael Hardt e Antonio Negri publicaram Empire (Império), argumentando que o imperialismo era agora uma coisa do passado - com a Guerra do Vietname representando “o momento final da tendência imperialista” – tendo acabado por ser substituído por uma nova ordem constitucional global desterritorializada e mercado mundial, modelados a partir das relações político-económicas dos E.U.A., numa versão de esquerda do "fim da história" de Francis Fukuyama. O imperialismo hierárquico de antigamente, argumentam Hardt e Negri, foi sucedido pelo "espaço suave do mercado mundial capitalista" - uma visão que antecipou por cinco anos a afirmação do especialista neoliberal em globalização Thomas L. Friedman de que “o mundo é plano”. Portanto, “não era mais possível”, escreveram eles, “demarcar grandes áreas geográficas como centro e periferia, norte e sul”. Esta transcendência do imperialismo em favor da soberania do Império, sem fronteiras, sem pátria, baseado num mercado mundial que consiste em meras relações em rede sem centro nem periferia, era vista como emergindo da lógica interna do próprio capitalismo. "O imperialismo", afirmaram Hardt e Negri, "na verdade cria uma camisa de forças para o capital", cuja lógica interna, em última análise, requer um "espaço suave" ou um mundo plano, no qual possa operar (21).

Tais ideias dificilmente podem ser consideradas novas, exceto dentro dos círculos marxianos. O que foi inovador foi o uso de uma terminologia marxiana e pós-moderna para impulsionar pontos de vista promovidos dentro do aparelho da política externa dos Estados Unidos da América, o que resultou em o trabalho de Hardt e Negri ser altamente elogiado pelo New York Times, revista Time, Foreign Affairs e outras publicações da corrente dominante. Foi isso que levou Ellen Meiksins Wood a se referir ao Império de Hardt e Negri como, na verdade, "um manifesto em nome do capital global" (22).

A rejeição, por Hardt e Negri, de qualquer continuidade com as teorias marxistas clássicas do imperialismo, abriu o caminho para várias abordagens à esquerda, às vezes perspicazes, mas unidimensionais, convergindo com a ideologia dominante. Em The Making of Global Capitalism (A construção do capitalismo global), em 2013, Leo Panitch e Sam Gindin enfatizaram a capacidade do Estado norte-americano, principalmente através de ações do Departamento do Tesouro e do Federal Reserve Board, de criar um “mundo à sua própria imagem”, subordinando o capital europeu a sua influência. O argumento, inspirado em parte pela crítica de Peter Gowan ao "Regime Dólar-Wall Street", embora informativo, era quase exclusivamente político, subestimando sistematicamente a dimensão económica do imperialismo, incluindo o capital financeiro, as empresas multinacionais, a contínua rivalidade internacional e as condições em deterioração do mundo subdesenvolvido. Panitch e Gindin, deste modo, forneceram uma análise do império norte-americano muito mais compaginada com as visões dominantes, em oposição às conceções clássicas do imperialismo, com as suas numerosas dimensões críticas. Em The Making of Global Capitalism, a estrutura conhecida, composta por países imperialistas no centro e países dependentes da periferia, deu lugar a “redes de produção transnacional, bem como de finanças”, girando em torno do “lugar central do capitalismo norte-americano no capitalismo global”. O que assim foi transmitido foi a imagem de uma ordem hegemónica mundial estável dos E.U.A., enraizada num consenso de Washington-Wall Street, aparentemente destinada a continuar indefinidamente - uma imagem espelhada da visão predominante nos círculos de política externa dos E.U.A., mas agora emanando da esquerda. Nessa interpretação, o capitalismo global surgido do “Império Americano” e administrado pelo Estado norte-americano incorporou inteiramente a análise mais complexa e multifacetada e, ao mesmo tempo, mais concreta, do imperialismo, oferecida por pensadores como Lenine, Luxemburgo, Magdoff e Amin (23).

Se Panitch e Gindin enfatizaram a ascensão do império político, largamente dispensando o que John Hobson chamou de “raiz económica do imperialismo”, o teórico da transnacionalização William I. Robinson foi na direção oposta, argumentando que o capital na era da globalização engoliu completamente. Estados-nação, criando uma nova ordem transnacional dominada por empresas multinacionais flutuantes, dando origem a uma "classe capitalista transnacional" e ao "Estado transnacional". Em A Theory of Global Capitalism (Uma teoria do capitalismo global), de 2004, Robinson declarou que "a globalização envolve uma superação do Estado-nação como princípio organizador da vida social sob o capitalismo” (24).

Em 2018, em “Beyond the Theory of Imperialism” (um capítulo no seu livro Into the Tempest), Robinson rompeu com as teorias clássicas do imperialismo: “As relações de classe do capitalismo global estão agora tão profundamente internalizadas em cada Estado-nação que a imagem clássica do imperialismo como uma relação de dominação externa está ultrapassada” e deve ser abandonada, juntamente com noções como centro, periferia e extração de excedente. “O fim do alargamento extensivo do capitalismo é o fim da era imperialista do capitalismo mundial... Não é o imperialismo, no antigo sentido, quer de capitais nacionais rivais”, quer da dominação “por Estados centrais de regiões pré-capitalistas” que é necessário, mas “uma teoria da expansão capitalista” como um processo especificamente transnacional e supranacional caracterizado pela mudança na sua “dinâmica espacial” (25).

Enquanto isso, o geógrafo marxista David Harvey saltou para além de todas essas perspetivas, alegando, em 2017, que os fluxos de capital mudaram tanto de direção que “a drenagem histórica de riqueza do Oriente para o Ocidente, subsistente por mais de dois séculos… foi em grande parte revertida nos últimos trinta anos” (ênfase adicionada). Ele admitiu: "Eu não acho a categoria do imperialismo assim tão convincente". O imperialismo era um conceito que não se encontrava em Marx, mas que era principalmente atribuível a Lenine. A própria noção de “periferias” globais era considerada como pouco clara, quanto às suas fronteiras, enquanto a noção de Arrighi de “hegemonias cambiantes” poderia ser vista como desalojando vantajosamente teorias marxistas anteriores do imperialismo (26).

No seu livro New Imperialism (Novo Imperialismo), de 2003 - um trabalho que ele agora diz não ter tido como objetivo promover o conceito de imperialismo, mas sim combater as tentativas neoconservadoras de adotar o termo - Harvey elogiou a representação feita por Hardt e Negri de “uma configuração descentralizada do império que tinha muitas qualidades novas e pós-modernas”. O seu livro acabou defendendo um novo “Imperialismo do New Deal”, visto como um imperialismo mais progressista, sob um Consenso de Washington mais esclarecido, substituindo a atual ordem global neoliberal/neoconservadora. Para Harvey, a esquerda deveria ser castigada pela sua "recepção fria" à noção de Warren sobre o caráter progressista do imperialismo (27).

Se a posição de Harvey sobre o imperialismo ao longo dos anos tem sido algo incoerente, a sua atual rejeição da noção de sistema mundial imperialista em nome de uma visão supostamente mais dinâmica, focada em configurações espaciais em constante mudança, que “reverteram” as relações tradicionais centro-periferia, não poderia ser mais clara em suas implicações. Referindo-se às tendências contemporâneas da globalização, ele explica que “não faria sequer sentido tentar colocar tudo isto em algum conceito universal do imperialismo”. Toda a análise marxista do imperialismo tornou-se uma “camisa de forças” teórica (28). Em conformidade com Arrighi, ele descarta a “geografia rígida do núcleo e da periferia... em favor de uma análise mais aberta e fluida” (29). Nesse processo, entretanto, torna-se necessário romper com toda a crítica histórico-materialista do imperialismo. Na sua obra de 2014 The Seventeen Contradictions of Capitalism (As dezassete contradições do capitalismo), o imperialismo nem sequer garante a sua inclusão entre a sua lista de dois dígitos de contradições do capitalismo. O seu capítulo sobre “Desenvolvimentos geográficos desiguais e a produção do espaço” não menciona sequer uma vez o imperialismo, nem centro e periferia. A única referência direta ao Imperialismo de Lenine visa minimizar o papel estrutural do capital monopolista, que Lenine associara ao imperialismo (30).

Imperialismo tardio

Não há dúvida de que o capitalismo mundial mudou no século decorrido desde a Primeira Guerra Mundial, quando Lenine desenvolveu a sua crítica ao estádio imperialista. No entanto, isso tem que ser visto no contexto de uma dialética histórica que abrange continuidade assim como mudança. O imperialismo é tanto uma categoria histórica quanto uma categoria teórica. Se há meio século atrás, ainda era possível referirmo-nos, como o fez Magdoff, à “era do imperialismo”, chegando ele ao ponto de ver esse tempo como a “idade de ouro do imperialismo”, hoje estamos claramente numa era de imperialismo tardio, associada com: capital monopolista-financeiro generalizado; a globalização da produção; novas formas de extração de excedente da periferia para o centro; e desafios económicos, militares e ambientais definidores de época. As crises que enfrentam o sistema e a sociedade humana como um todo são agora tão severas que estão criando novas fissuras no Estado, tanto nas economias capitalistas avançadas quanto nas emergentes, com um rápido crescimento de tendências protofascistas e neofascistas, por um lado, e o reavivamento do socialismo, por outro.

Reconhecer a continuidade com as fases iniciais do imperialismo é tão crucial para a nossa compreensão do presente quanto a nossa consciência das características distintivas da fase atual. Cada fase histórica do imperialismo depende de diferentes meios de exploração e expropriação para alimentar a acumulação à escala mundial. Os países imperialistas, no centro do sistema, tentam invariavelmente reestruturar o trabalho na periferia capitalista (ou nas áreas externas pré-capitalistas) para reforçar o poder e a acumulação no centro do sistema. Ao mesmo tempo, as nações do núcleo central estão frequentemente em competição umas com as outras por esferas globais de influência. O início da era colonial no estádio mercantilista do capitalismo, durante os séculos XVI e XVII, centrou-se não na livre troca, mas no “lucro na expropriação”, juntamente com a “extirpação, escravização e sepultamento nas minas da população indígena” das Américas e de grande parte da África e da Ásia (31).

Na era colonial de meados a finais do século XIX, no estádio de livre competição sob a hegemonia britânica, o livre comércio operava no centro da economia mundial, mas isso ia de mãos dadas com o colonialismo em grande parte do mundo, onde a troca desigual, o roubo e a pilhagem predominaram. Em 1875, Robert Arthur Talbot Gascoyne-Cecil, o terceiro marquês de Salisbury, então secretário de Estado da Índia Britânica, declarou: “Como a Índia deve ser sangrada, o sangramento deve ser feito judiciosamente” (32). Sangrada foi, sem dúvida, mas não “judiciosamente”. Como Utsa Patnaik demonstrou em detalhe, o valor atualizado do “escoadouro” de excedente da Índia para a Grã-Bretanha, de 1765 a 1938, avaliado de forma “altamente subestimada”, montará a uns 9,2 milhões de milhões (“trillion”) de libras, o que deve ser comparado com um produto interno bruto (PIB) de 2,1 milhões de milhões de libras para o Reino Unido em 2018 (33).

O capitalismo colonial do século XIX evoluiu, no final do século, para o que Lenine denominou como estádio imperialista, caracterizado pela ascensão do capital monopolista em todas as grandes potências, o declínio da hegemonia britânica e a crescente tensão sobre a divisão do mundo inteiro entre as principais potências capitalistas. Essas condições levaram a duas guerras mundiais entre os pretendentes rivais à hegemonia sobre o território económico. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América emergiram com a hegemonia mundial dentro do mundo capitalista, num contexto que também incluiu uma Guerra Fria com o mundo rival de orientação socialista. Embora promovendo uma ideologia de livre comércio e desenvolvimento, a hegemonia dos E.U.A. implementou um sistema de neocolonialismo imposto por empresas multinacionais, a dominação do US$dólar e uma cadeia de bases militares de abrangência mundial – a partir das quais numerosas intervenções militares e guerras regionais haveriam de ser lançadas. Isso foi acompanhado pelo desvio de uma grande parte do excedente económico do Sul global.

Com a ascensão do capital financeiro monopolista, o mundo entrou numa nova fase do imperialismo, o imperialismo tardio, em lugar de uma superação das relações imperiais. O imperialismo tardio, como vimos, representa uma época na qual as contradições globais do sistema se revelam de formas cada vez mais agudas e nas quais todo o planeta como um lugar de habitação humana está agora em risco - com os efeitos catastróficos caindo desproporcionalmente sobre os mais vulneráveis membros da população mundial. Tudo isso está fadado a gerar um enorme conflito geopolítico, à medida que o fracasso do capitalismo como sociedade se torna evidente.

Nada disso foi uma surpresa completa para os analistas mais astutos da globalização. Em 1992, Magdoff escreveu que,

“contrariamente às expectativas generalizadas, fontes de tensão entre as principais potências capitalistas aumentaram lado a lado com sua crescente interdependência. Nem a expansão geográfica do capital reduziu as contradições entre países ricos e pobres. Embora um punhado de países do terceiro mundo, beneficiando do processo de globalização, tenha feito progressos assinaláveis na industrialização e no comércio, o fosso global entre as nações centrais e periféricas continuou a aumentar… O processo de globalização produziu muito que é novo na economia e política do mundo, mas não mudou as formas básicas de funcionamento do capitalismo. Nem ajudou as causas da paz ou da prosperidade” (34).

De fato, há algo de profundamente irónico na crescente rejeição da crítica teórica do imperialismo no presente contexto global. Como o marxista argentino Atilio Borón observou em 2002, em “Imperio” & imperialismo, o imperialismo hoje reflete essas “características fundamentais”, com respeito à concentração e centralização do capital em escala global, retratadas pelos teóricos marxistas clássicos do imperialismo, mas em formas mais desenvolvidas:

“Esta nova etapa [do imperialismo no sentido leninista] é caracterizada, agora ainda mais do que no passado, pela concentração do capital, a preponderante predominância de monopólios, o papel cada vez mais importante desempenhado pelo capital financeiro, a exportação de capital e a divisão do mundo em “esferas de influência”. A aceleração da globalização que ocorreu no último quartel do século passado, em vez de enfraquecer ou dissolver as estruturas imperialistas da economia mundial, ampliou as assimetrias estruturais que definem a inserção dos diferentes países nela. Enquanto que um punhado de nações capitalistas desenvolvidas aumentou a sua capacidade de controlar, pelo menos parcialmente, os processos produtivos ao nível global, a financeirização da economia internacional e a crescente circulação de bens e serviços, a grande maioria dos países testemunhou o crescimento da sua dependência externa e o alargamento do fosso que os separava já do centro. A globalização, enfim, consolidou a dominação imperialista e aprofundou a submissão dos capitalismos periféricos, que se tornaram cada vez mais incapazes de controlar os seus processos económicos internos, mesmo que marginalmente” (35).

A nova fase do imperialismo que surgiu no final do século XX e início do século XXI foi descrita por Amin e vários autores associados à Monthly Review como um sistema de capital monopolista-financeiro global ou um capitalismo de “monopólios generalizados” (36). Nesse sistema imperialista mais integrado, quinhentas corporações respondem por quase 40% da receita mundial, enquanto a maioria das outras empresas na economia mundial está enredada nas teias dessas empresas gigantescas, existindo como suas simples subcontratantes (37). Produção e circulação são agora organizadas na forma de cadeias mercantis globais, servindo para destacar os diferentes papéis de centro e periferia dentro dessas mesmas cadeias. Isso está de acordo com a perequação laboral global (“global labor arbitrage”), que serve para promover a intensificada exploração/expropriação da mão-de-obra no Sul global, levando à captura de grande parte desse valor extra pelo Norte. O aumento do controlo imperialista sobre as finanças e as comunicações globais são partes inerentes deste processo, sem as quais a globalização da produção não seria possível (38).

As passadas décadas de 1970 e 1980 viram o crescimento da globalização neoliberal, que buscou com sucesso considerável subordinar estados, particularmente no Sul global, às regras de um mercado mundial onde, por definição, o centro financeiro governa. O imperialismo tardio pode assim ser visto também como o período em que a estagnação económica, a financeirização e a crise ecológica planetária emergiram como fissuras irreversíveis, inseparáveis do próprio sistema de acumulação capitalista-monopolista e encontrando a sua justificação ideológica no neoliberalismo.

Uma característica distintiva da produção e finança globalizadas no século atual é a exploração sistemática dos baixos custos unitários do trabalho no Sul, um produto do facto de que os salários são mantidos em níveis muito inferiores aos do Norte devido a: (1) o enorme exército de reserva global localizado principalmente no Sul; (2) restrições à circulação de trabalhadores entre países, e particularmente dos países pobres para os ricos; e (3) a força das pressões imperialistas do passado e do presente (39). Como explicou, em 2015, o economista Tony Norfield, ex-diretor executivo e dirigente da estratégia cambial de um grande banco europeu, no artigo "T-Shirt Economics: Labour in the Imperialist World Economy”, (A economia das camisetas: O trabalho na economia mundial imperialista):

“todos sabem que os trabalhadores dos países capitalistas desenvolvidos recebem mais do que os dos países mais pobres. No entanto, a divergência nos salários médios pode ser surpreendente: não apenas mais 20% ou 50%, mas multiplicado por um fator de 2, 5, 10 ou 20, entre os países mais pobres e os países mais ricos. A teoria económica dominante explica isto - e justifica-o - argumentando que os trabalhadores nos países ricos são mais produtivos do que nos mais pobres, porque os primeiros são mais instruídos e qualificados, trabalhando com níveis mais elevados de tecnologia. No entanto, esta explicação não se coaduna bem com a realidade de que muitos trabalhadores da indústria transformadora nos países pobres são empregados, direta ou indiretamente, por grandes empresas, trabalhando com tecnologia que é muitas vezes comparável à do país mais rico” (40).

A produção das multinacionais estrangeiras (ou subcontratada por elas) nos países pobres depende da mesma tecnologia (ou quase) utilizada nas economias ricas, conduzindo a níveis comparáveis de produtividade. O resultado, combinado com salários extremamente baixos, é que os custos unitários do trabalho na manufatura nas chamadas economias emergentes da China, Índia, Indonésia e México, em 2014, eram apenas 46, 37, 62 e 43%, respetivamente, dos níveis dos E.U.A. (41). Isso gera margens de lucro bruto muito acrescidas para as multinacionais localizadas no Norte. O custo total de produção (refletido no preço de exportação) de uma camiseta produzida em 2010 por meio de um subcontratado no Bangladesh que trabalhava para a empresa sueca Hennes & Mauritz (H&M) foi de 27% do preço final de venda na Europa, com os trabalhadores do Bangladesh recebendo uma mera ninharia pelo seu trabalho. Um trabalhador da fábrica recebeu €1,36 por um dia de dez a doze horas (42). A margem de lucro bruto num iPhone montado na China em 2009 foi superior a 64 por cento (43). A ampliação das margens de lucro bruto associada à perequação laboral global (“global labor arbitrage”) levou a uma rápida globalização da produção, com a participação mundial do emprego industrial localizada em economias em desenvolvimento (incluindo economias emergentes) aumentando de 52 por cento em 1980 para 83 por cento em 2012 (44).

Hoje, uma parcela grande e em rápido crescimento da produção é deslocalizada para a periferia na forma de contratos de controlo à distância (“arms-length contracting”) ou por aquilo que é conhecido como modos de produção não-equitativos (como leasing, licenciamento, franchising e contratos de serviços de gestão), constituindo uma espécie de meio-termo entre o investimento estrangeiro direto das multinacionais e o comércio real. Em 2010, os modos de produção não-equitativos geraram mais de 2 milhões de milhões (“trillion”) de dólares em vendas (45).

Ainda assim, nem toda a produção da cadeia de valor que explora os baixos custos unitários do trabalho no Sul global assume a forma de subcontratação ou de modos de produção não equitativos. Muito disto ocorre sob a forma de investimento direto estrangeiro mais tradicional por parte das multinacionais. Só em 2013, as receitas dos E.U.A. provenientes de investimentos no estrangeiro em empresas estrangeiras, ações, títulos, etc., ascenderam a 773,4 mil milhões (“billion”) de dólares, enquanto os pagamentos norte-americanos sobre as suas responsabilidades pelos investimentos que os estrangeiros fizeram nos Estados Unidos totalizaram apenas 564,9 mil milhões de dólares, resultando num ganho líquido de cerca de 209 mil milhões de dólares (equivalente a cerca de 35 por cento do investimento privado nacional líquido total dos E.U.A. nesse ano). Isso só veio acelerar os problemas de absorção de capital excedente (46). Como Baran e Sweezy escreveram em 1966, no seu livro Monopoly Capital, "o investimento estrangeiro, longe de ser uma saída para o excedente gerado internamente, é um dispositivo muito eficiente para transferir o excedente gerado no exterior para o país investidor. Sob estas circunstâncias, é óbvio que o investimento estrangeiro agrava mais do que ajuda a resolver o problema da absorção de excedentes" (47).

Outros fatores também entram na transferência de valor dos países em desenvolvimento, incluindo a fuga de capitais do Sul global, estimada em mais de US$1,7 milhões de milhões (“trillion”) de dólares em 2012 (48). De facto, cada forma de transação financeira entre o Norte e o Sul global inclui um elemento daquilo que Marx chamou de "lucro por expropriação" ou simples roubo, refletindo as relações desiguais de poder (49). Como escreve Norfield, a finança "é um meio de os países ricos retirarem dinheiro do resto da economia mundia" (50). Um relatório de 2015 do Centro de Economia Aplicada da Escola Norueguesa de Economia e da organização Global Financial Integrity, com sede nos Estados Unidos, estima que as transferências líquidas de recursos, muitas delas ilícitas, dos países em desenvolvimento (independentemente das transferências ocultas associadas a trocas desiguais) ascenderam a US$2 milhões de milhões (“trillion”) em 2012 - aumentando para US$3 milhões de milhões se forem incluídas estimativas das falsificações de autofaturação (51).

Diversos estudos foram realizados para estimar a extensão das transferências ocultas de valor devidas a relações de troca desiguais entre o Sul e o Norte, em que este último recebe "mais trabalho em troca de menos" (52). Uma abordagem pioneira do economista canadiano Gernot Köhler, utilizou dados de paridade de poder de compra (PPC) para mostrar como o trabalho incorporado em produtos de exportação do Sul global - dada a diferença entre as taxas de câmbio nominais e reais - não conseguiu refletir o valor que esse trabalho teria em termos de poder de compra local na economia emergente. Nas palavras de Jason Hickel em The Divide:

“O método de Köhler é calcular a diferença entre as taxas de câmbio nominais e as taxas de câmbio reais (ou seja, corrigidas pelo poder de compra) para os bens comercializados. Por exemplo, imagine uma taxa de câmbio nominal entre o dólar norte-americano e a rupia indiana de 1:50. Agora imagine que a Índia envia R1.000 de bens para os E.U.A., e recebe $20 em troca. Isso seria uma troca perfeitamente igual. Ou pelo menos assim parece. O problema é que a taxa de câmbio nominal não é exatamente precisa. Na Índia, R50 pode comprar muito mais do que o equivalente a US$1 em bens. Por exemplo, talvez possam comprar mais perto de US$2. Assim, a taxa de câmbio real, em termos de poder de compra, é de 1:25. Isto significa que quando a Índia enviou bens no valor de R1.000 para os E.U.A., foi realmente o equivalente a enviar bens no valor de US$40, em termos do valor que R1.000 poderia comprar na Índia. E ainda assim, a Índia recebeu apenas US$20 em troca, o que em termos reais vale apenas R500. Ou seja, por causa da distorção entre as taxas de câmbio reais e nominais, a Índia enviou US$20 (R500) mais do que recebeu. Uma maneira de pensar nisso é que os bens de exportação da Índia valem mais do que o preço que recebem no mercado mundial. Outra forma é que a mão-de-obra da Índia é mal paga em relação ao valor que produz” (53).

Os resultados empíricos de Köhler, baseados na PPC, podem assim ser vistos como uma medida aproximada da transferência de valor gerado no Sul (países não pertencentes à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico [OCDE]), mas creditados aos países do Norte (OCDE), através do que os economistas chamam de troca desigual. Desta forma, ele foi capaz de estimar que tais transferências de valor ascenderam, só em 1995, a US$1,75 milhões de milhões (“trillion”) de dólares, representando perdas equivalentes a quase um quarto do PIB total não-OCDE (54). Embora estas estimativas empíricas sejam questionáveis em vários aspetos, pode haver poucas dúvidas sobre a realidade subjacente ou a ordem de grandeza da "renda imperialista" (55).

Como John Smith argumenta, "os vastos fluxos de valor S-N” associados a trocas desiguais são "invisibilizados nas estatísticas do PIB, do comércio e dos fluxos financeiros", precisamente porque o valor gerado no Sul é "capturado" no Norte. Todas as fontes de rendimento, sejam salários, lucros, rendas ou juros, decorrentes das enormes margens de lucro bruto na produção do Sul são simplesmente contabilizadas como valor acrescentado no Norte global, contribuindo para o PIB do Norte (56).

Os enormes lucros da deslocalização e de outros meios de captura global de valor exacerbam ainda mais os problemas de absorção do capital excedente. Grande parte dessa renda imperialista acaba colocada em paraísos fiscais e se torna um meio de acumular riqueza financeira concentrada num pequeno número de corporações e indivíduos ricos, estando em grande parte desconectada do processo contínuo e cada vez mais problemático de produção, investimento e crescimento, nos Estados Unidos da América e noutras nações imperialistas (57). Isso então piora o problema geral da estagnação, caracterizado por excesso de capacidade, subemprego, crescimento lento, desigualdade crescente e bolhas e crises financeiras periódicas.

Amin argumentou que a renda imperialista tinha dois componentes distintos. O primeiro era a renda derivada da exploração imperialista do trabalho do Sul. O segundo era a drenagem dos recursos naturais do Sul - e as violações da sua soberania com isto relacionadas - pelas empresas multinacionais e pelos Estados imperialistas. Embora a primeira forma de renda imperialista fosse, pelo menos em princípio, mensurável, em termos de valor, a segunda forma de renda, uma vez que dizia respeito a valores de uso (e à apropriação pelo capital de dádivas gratuitas da natureza), em vez de valores de troca, não o era (58). No entanto, insistiu ele, Marx, tinha também fornecido meios de perceber as contradições ecológicas e o imperialismo ecológico.

O imperialismo se envolve numa enorme luta pelo controlo dos recursos estratégicos. Estima-se que os militares dos E.U.A. gastam aproximadamente 16% de seu orçamento de base apenas na salvaguarda direta dos suprimentos globais de petróleo (59). Como Magdoff enfatizou, é difícil exagerar até que ponto os interesses militares e de recursos naturais estão inter-relacionados. A hegemonia militar desempenha um papel fundamental em todas as questões de asseguramento do território económico e dos recursos estratégicos.

As empresas multinacionais estão inextricavelmente ligadas ao poder financeiro e político-militar dos Estados em que estão baseadas, sem os quais não poderiam existir por um momento e dos quais depende a sua capacidade de se envolverem eficazmente na concorrência internacional. No caso das cem maiores empresas não financeiras do mundo, três quartos têm a sua sede em apenas seis países: Estados Unidos da América, Reino Unido, França, Alemanha, Japão e Suíça. Segundo Norfield,

“o que distingue uma empresa imperialista não é a sua dimensão ou sucesso competitivo, nem mesmo a sua importância global como grande produtora de bens ou serviços, embora seja frequentemente uma grande empresa, dadas as vantagens de que beneficia. O que a distingue é o apoio que recebe de um poderoso Estado-nação na economia mundial, e quaisquer vantagens que recebe porque está localizada e identificada com esse Estado imperialista. Da mesma forma, o que em termos económicos distingue um Estado imperialista é a sua capacidade de exercer poder na economia mundial em nome das suas empresas capitalistas «nacionais»” (60).

Tempos finais

O imperialismo hoje é mais agressivo e ilimitado nos seus objetivos do que nunca (61). No atual período de declínio da hegemonia norte-americana, bem como de declínio económico e ecológico, o regime do Dólar-Petróleo-Pentágono, apoiado por toda a tríade dos Estados Unidos/Canadá, Europa e Japão, está a exercer todo o seu poder militar e financeiro para obter vantagens geopolíticas e geoeconómicas (62). O objetivo é subordinar ainda mais os países que estão na base da hierarquia mundial, colocando obstáculos no caminho das economias emergentes e derrubando todos os Estados que violam as regras da ordem dominante. Os conflitos interculturais dentro da tríade continuam a existir, mas são atualmente suprimidos, não apenas devido à força esmagadora do poder dos E.U.A., mas também em resultado da necessidade percebida, no centro, de conter a China e a Rússia, que são vistas como graves ameaças à ordem imperial prevalecente. Na China e na Rússia, por diferentes mas relacionadas razões históricas, o capital monopolista-financeiro global carece de uma combinação dominante com os capitalistas nacionais em suas economias políticas, como existe nos outros países BRICS. Enquanto isso, a União Europeia está em desordem, experimentando tendências centrífugas - em lugar de centrípetas - decorrentes da estagnação económica e da instabilidade gerada pelo contragolpe imperial proveniente de regiões suas adjacentes, particularmente do Médio Oriente e do Norte de África.

Nestas circunstâncias, as cadeias de valor/fornecimento globais, juntamente com a energia, os recursos e as finanças, são cada vez mais encaradas em termos estratégico-militares. No centro dessa ordem mundial interligada e globalizada está a hegemonia instável exercida pela Fortaleza América sobre a Europa e o Japão. Os Estados Unidos da América estão hoje seguindo uma estratégia de domínio de espectro total, voltada não apenas para o domínio militar, mas também tecnológico, financeiro e até mesmo para o “domínio energético” global - contra um cenário de catástrofe planetária iminente e de desordem económica e política (63).

Nestas condições em deterioração, as tendências neofascistas reemergiram, mais uma vez, constituindo o recurso final de classe do capital monopolista-financeiro - uma aliança entre o grande capital e uma classe média-baixa reacionária, recentemente mobilizada (64). Mais e mais, o neoliberalismo está se fundindo com o neofascismo, desencadeando o racismo e o nacionalismo revanchista. Os movimentos pacifistas anti-imperialistas diminuíram na maior parte dos países capitalistas centrais, mesmo no contexto de um renascimento da esquerda, levantando mais uma vez a questão do imperialismo social (65).

Há um sentido, é claro, em que muito disto soa familiar. Como Magdoff observou,

“as forças centrífugas e centrípetas sempre coexistiram no centro do processo capitalista, com predominância ora de umas, ora de outras. Em resultado disso, os períodos de paz e harmonia alternaram-se com períodos de discórdia e violência. Geralmente, o mecanismo desta alternância envolve formas de luta tanto económicas como militares, com o poder mais forte a emergir vitorioso e a impor a aquiescência aos perdedores. Mas o desenvolvimento desigual logo toma conta e surge um período de luta renovada pela hegemonia” (66).

O imperialismo tardio, no entanto, representa um ponto final histórico para a ordem mundial capitalista, pressagiando uma catástrofe planetária ou um novo começo revolucionário. A presente emergência que vive o Sistema Terra dá nova urgência à antiga luta coletiva pela "liberdade em geral" (67). A luta humana mais ampla deve ser construída sobre a resistência revolucionária contínua dos trabalhadores e dos povos no Sul global, visando, antes de tudo, derrubar o imperialismo, como manifestação global do capitalismo. O trabalho nas nações centrais não pode ser livre, até que seja livre também o trabalho nas nações periféricas e o imperialismo seja abolido (68). Aquilo que Marx chamou de socialismo, uma sociedade de desenvolvimento humano sustentável, só pode ser construído numa base universal. Todas as relações estreitas, injustas e exploradoras devem desaparecer, e a humanidade deve finalmente confrontar, com sentidos sóbrios, as suas relações com a sua espécie e a sua unidade com a Terra (69).

Notas:

(1) V. I. Lenine, Imperialism: The Highest Stage of Capitalism (New York: International, 1939). Quando publicado em 1917, o título do panfleto de Lenine era Imperialismo: O Último Estádio do Capitalismo. Ver V. I. Lenine, Selected Works in Three Volumes (Moscow: Progress, 1977), pp. 640-41, 801. Enfatizando esse fato, Witold Kula, historiador polaco, escreveu, em 1963: "As diferenças metodológicas entre estas formulações são fundamentais. A determinação 'o mais novo [último] estádio' refere-se ao passado... enquanto que a determinação 'o estádio mais alto' diz algo mais, também sobre o futuro; que no futuro não haverá 'estádio mais alto' do que este". Kula citado em John Bellamy Foster e Henryk Szlajfer, Introdução a The Faltering Economy (New York: Monthly Review Press, 1984), p. 21. Consistente com isso, Lenine geralmente se refere, no texto mesmo do seu panfleto, ao imperialismo como a "última fase" ou o "último estádio" do capitalismo, em conformidade com o subtítulo de Capital Financeiro de Rudolf Hilferding: A última fase do capitalismo.

(2) Lenine, Imperialism, pp. 78, 81-82, 88, 92. Foi no seu artigo de outubro de 1916 "Imperialism and the Split in Socialism" que Lenine, pela primeira vez, colocou ênfase primária na conceção do imperialismo como o estádio mais alto, em oposição ao estágio mais novo ou mais recente, com base no que ele viu como o caráter "moribundo" do capitalismo no início do século XX. Isso ajuda a explicar a mudança posterior no título do seu panfleto, após a sua primeira publicação em 1917. V. I. Lenine, Collected Works, vol. 23 (Moscow: Progress, 1964), pp. 105-20. Em resposta a Lenine, Samir Amin escreveu que "o imperialismo não é um estádio, nem mesmo o estádio mais alto do capitalismo: desde o início é inerente à expansão do capitalismo". Samir Amin, "Imperialism and Globalization", Monthly Review, vol. 53, n.º 2 (junho de 2001), p. 6. Lenine, no entanto, usou o termo num duplo sentido, para se referir tanto ao imperialismo em geral, remontando ao início do capitalismo, como também (de uma forma mais focada) para se referir ao que era chamado, em seu tempo, de "novo imperialismo" ou estádio imperialista (monopolista) do capitalismo.

(3) Lenine, Imperialism, pp. 13-14, 85, 88, 91. Para aqueles que pensam que o Imperialismo de Lenine foi obra de um momento, é útil olhar para as mais de 700 páginas de notas, contendo extratos de 148 livros e 232 artigos em inglês, francês e alemão, que ele produziu em preparação para escrevê-lo. Ver V. I. Lenine, Collected Works, vol. 39 (Moscow: Progress, 1968), p. 20.

(4) Rudolf Hilferding, Finance Capital (Londres: Routledge, 1981); Rosa Luxemburg, The Accumulation of Capital (New York: Monthly Review Press, 1951), Nikolai Bukharin, Imperialism and World Economy (New York: Monthly Review Press, 1929). Embora, em muitos aspetos, complementar à análise posterior de Lenine, a ênfase de Luxemburgo no imperialismo como primordialmente destruição e assimilação de áreas externas pré-capitalistas enfraquece enormemente a sua teoria. Utsa e Prabhat Patnaik vêm o imperialismo "como uma relação duradoura sob o capitalismo". Utsa e Prabhat Patnaik, A Theory of Imperialism (New York: Columbia University Press, 2017), p. 87.

(5) Lenine, Imperialism, p. 89. No que diz respeito à aristocracia operária, Lenine insistiu que "uma camada superior privilegiada do proletariado nos países imperialistas vive parcialmente à custa de centenas de milhões nas [chamadas] nações incivilizadas" (Collected Works, vol. 23, p. 107). (Nota: Embora distinguindo entre nações civilizadas e incivilizadas, Lenine colocou aspas de citação em torno das primeiras e tratou-as, como habitualmente na tradição socialista, como um eufemismo para capitalismo.) Para a base histórica do tratamento de Lenine da aristocracia trabalhista, ver Eric Hobsbawm, "Lenin and the Aristocracy of Labor", in Lenin Today, Ed. Paul M. Sweezy e Harry Magdoff (New York: Monthly Review Press, 1970), pp. 47-56.

(6) V. I. Lenine, Selected Works in Three Volumes, vol. 3 (Moscow: Progress, 1975), pp. 246, 372-78. A análise do imperialismo de Lenine tem sido muitas vezes convertida numa teoria simplista de excessivo excedente nos Estados capitalistas avançados e da exportação de capital, enraizada no subconsumo. Esta interpretação excessivamente grosseira de Lenine é exemplificada pelo influente livro de Bill Warren, Imperialism: Pioneer of Capitalism (London: Verso, 1980), pp. 50-83. Para uma forte crítica desta visão simplista, ver Prabhat Patnaik, Whatever Happened to Imperialism and Other Essays (New Delhi: Tulika, 1995), pp. 80-101.

(7) L. S. Stavrianos, Global Rift (New York: William Morrow and Company, 1981), pp. 623-24.

(8) Mark Blaug, "The Economics of Imperialism," in Economic Imperialism, Ed. Kenneth E. Boulding e Tapan Mukerjee (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1972), pp. 142-55; Benjamin J. Cohen, The Question of Imperialism (New York: Basic, 1973), pp. 99-141; Barrington Moore, Jr., The Causes of Human Misery (Boston: Beacon, 1972), pp. 117-32; Robert W. Tucker, The Radical Left and American Foreign Policy (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1971).

(9) Harry Magdoff, The Age of Imperialism (New York: Monthly Review Press, 1969); Harry Magdoff, Imperialism: From the Colonial Age to the Present (New York: Monthly Review Press, 1978).

(10) Para uma indicação de quão mais hábil Magdoff era no uso de estatísticas económicas do que os seus críticos, ver "A Technical Note", em Imperialism, pp. 11-14.

(11) Magdoff, The Age of Imperialism, pp. 18-19.

(12) Ernest Mandel, introdução à sua planeada Critique of Political Economy, vol. 1, Karl Marx (London: Penguin, 1976), pp. 27-28; John Bellamy Foster, "The Imperialist World System", Monthly Review, vol. 59, n.º 1 (maio de 2007): pp. 1-16. Samir Amin via o seu trabalho como uma abordagem à gama de questões que Marx pretendia tratar nos volumes 5 e 6 de O Capital, mas não como Marx as teria abordado em meados do século XIX, mas sim em relação ao final do século XX e início do século XXI. Ver Samir Amin, Modern Imperialism, Monopoly Finance Capital and Marx's Law of Value (New York: Monthly Review Press, 2018), pp. 131-35.

(13) Magdoff, Imperialism, p. 239; Bernard Baruch, prefácio a The Revolution in World Trade and American Economic Policy, Samuel Lubell (New York: Harper, 1955), p. xi; Magdoff, The Age of Imperialism, p. 182.

(14) Magdoff, Imperialism, pp. 260-61.

(15) Magdoff, Imperialism, pp. 110-11; Magdoff, The Age of Imperialism, pp. 67-113; Harry Magdoff, Globalization: To What End? (Nova York: Monthly Review Press, 1992), pp. 17-25.

(16) Stavrianos, Global Rift. Sobre "ruína ou revolução", ver Karl Marx e Frederick Engels, Marx and Engels and the Irish Question (Moscow; Progress, 1971), p. 142.

(17) Prabhat Patnaik, "Whatever Happened to Imperialism?," Monthly Review vol. 42, n.º 6 (novembro de 1990): pp. 1-14.

(18) Andre Gunder Frank, "The Development of Underdevelopment", Monthly Review, vol. 18, n.º 4 (setembro de 1966): pp. 17-31; Harry Magdoff, "A Note on the Communist Manifesto," Monthly Review, vol. 50, n.º 1 (maio de 1998): pp. 11-13.

(19) Bill Warren, "Imperialism and Capitalist Industrialization," New Left Review n.º 181 (1973): pp. 4, 43, 48, 82; Warren, Imperialism: Pioneer of capitalism, p. 48. Warren, ao contrário de muitos teóricos marxistas posteriores, estava ciente do papel de Lenine na ascensão da teoria da dependência no Segundo Congresso da Internacional Comunista em 1919. Ver Warren, Imperialism: Pioneer of Capitalism, pp. 97-98; Research Unit for Political Economy, "On the History of Imperialism Theory," Monthly Review, vol. 59, n.º 7 (dezembro de 2007): pp. 42-50. A alegação de Warren de que Marx via o imperialismo como tendo um papel construtivo em relação à industrialização foi refutada em Kenzo Mohri, "Marx and 'Underdevelopment,'" Monthly Review, vol. 30, n.º 11 (abril de 1979): pp. 32-42; e Suniti Kumar Ghosh, "Marx on India," Monthly Review, vol. 35, n.º 8 (janeiro de 1984): pp. 39-53. Uma refutação mais recente, contando com alguns materiais novos, é Kevin Anderson, Marx at the Margins (Chicago: University of Chicago Press, 2016).

(20) Giovanni Arrighi, The Geometry of Imperialism (London: Verso, 1983), pp. 171-73; Giovanni Arrighi, "Lineages of Empire," in Debating Empire, Ed. Gopal Balakrishnan (Londres: Verso, 2003), p. 35. Em The Long Twentieth Century, Arrighi dispensou inteiramente a análise do capital monopolista e do poder monopolístico na evolução da moderna empresa societária gigante - abandonando assim a fase de monopólio do capitalismo que Lenine tinha identificado com o imperialismo - escolhendo antes a análise neoclássica de custos de transação como uma explicação adequada para o crescimento das empresas multinacionais. Giovanni Arrighi, The Long Twentieth Century (Londres: Verso, 1994), pp. 218-19, 239-43.

(21) Michael Hardt e Antonio Negri, Empire (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000), pp. 178, 234, 332-35; Thomas L. Friedman, The World Is Flat (New York: Farrar, Strauss, and Giroux, 2005); Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man (New York: The Free Press, 1992).

(22) Ellen Meiksins Wood, "A Manifesto for Global Capitalism?," in Debating Empire, pp. 61-82; John Bellamy Foster, "Imperialism and 'Empire,'" Monthly Review, vol. 53, n.º 7 (dezembro de 2001): pp. 1-9.

(23) Leo Panitch e Sam Gindin, The Making of Global Capitalism (London: Verso, 2013), pp. 12, 26, 275; Tony Norfield, The City (London: Verso, 2017), pp. 14-17; Peter Gowan, The Global Gamble (London: Verso, 1999), pp. 19-38.

(24) William I. Robinson, A Theory of Global Capital (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2004), pp. 44-49; John A. Hobson, Imperialism: A Study (Londres: James Nisbet and Company, 1902).

(25) William I. Robinson, Into the Tempest (Chicago: Haymarket, 2018), pp. 99-121. Sobre as fraquezas empíricas da tese do capital transnacional, ver "Transnational Capitalism or Collective Imperialism", Pambazuka News, 23 de março de 2011; Ha-Joon Chang, Things They Don't Tell You About Capitalism (New York: Bloomsbury, 2010), pp. 74-87; Ernesto Screpanti, Global Imperialism and the Great Crisis (New York: Monthly Review Press, 2014), pp. 57-58.

(26) David Harvey, "A Commentary on A Theory of Imperialism," in A Theory of Imperialism, Patnaik and Patnaik, pp. 169, 171; David Harvey, "Realities on the Ground: David Harvey Replies to John Smith," Review of African Political Economy blog, 5 de fevereiro de 2018; David Harvey, "Imperialism: Is It Still a Relevant Concept?," (contribuição para a discussão sobre esse tópico apresentada no Center for Public Scholarship, New School for Social Research, Nova Iorque, 1º de maio de 2017), disponível no YouTube. Nos seus trabalhos anteriores, Harvey era bastante solidário com a noção de imperialismo, como em seu artigo de 1975 sobre "The Geography of Capital Accumulation", reimpresso em David Harvey, Spaces of Capital (New York: Routledge, 2001), pp. 260-61. Ver também David Harvey, The Limits to Capital (1982; reimp., Londres: Verso, 2006), pp. 439-42.

(27) David Harvey, The New Imperialism (Oxford: Oxford University Press, 2003), pp. 7, 27, 163, 209-11; Harvey, "Imperialism: Is It Still a Relevant Concept?”

(28) Harvey, "Imperialism: Is It Still a Relevant Concept?"; Harvey, "A Commentary on A Theory of Imperialism", p. 169.

(29) Harvey, " Realities on the Ground."

(30) David Harvey, Seventeen Contradictions of Capitalism (Oxford: Oxford University Press, 2014), p. 135. Harvey diz que a "procura de rendimento", expressão usada por Joseph Stiglitz para se referir à tomada de riqueza em vez da sua criação, "não é nada mais do que uma forma educada e bastante neutra de se referir ao que eu chamo de 'acumulação por desapropriação'". (Harvey, Seventeen Contradictions of Capitalism, p. 133). Poder-se-ia dizer, por sua vez, que a "acumulação por desapropriação" é apenas uma forma educada e bastante neutra de se referir ao que Marx chamou de expropriação (ou lucro por expropriação).

(31) Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), p. 915. Sobre o conceito de Marx de "lucro por expropriação" (ou lucro por alienação), ver John Bellamy Foster e Brett Clark, "The Expropriation of Nature", Monthly Review, vol. 69, n.º 10 (Março de 2018): pp. 1-27.

(32) Marquês de Salisbury citado em Paul A. Baran, The Political Economy of Growth (New York: Monthly Review Press, 1957), p. 145.

(33) Utsa Patnaik, "Revisiting the 'Drain,' or Transfers from India to Britain in the Context of Global Diffusion of Capitalism," in Agrarian and Other Histories, Ed. Shubhra Chakrabarti e Utsa Patnaik (New Delhi: Tulika, 2017), p. 311.

(34) Magdoff, Globalization, pp. 4, 41.

(35) Atilio Borón, “Empire” and Imperialism (London: Zed Books, 2005), p. 3.

(36) Amin, Modern Imperialism, pp. 162, 193-95.

(37) John Bellamy Foster e Robert W. McChesney, The Endless Crisis (New York: Monthly Review Press, 2012), pp. 76-77.

(38) Intan Suwandi, R. Jamil Jonna, e John Bellamy Foster, "Global Commodity Chains and the New Imperialism," Monthly Review, vol. 70, n.º 10 (março de 2019): pp. 1-24.

(39) Sobre o exército de reserva global, ver Foster e McChesney, The Endless Crisis, pp. 125-54.

(40) Tony Norfield, "T-Shirt Economics: Labour in the Imperialist World Economy," in Struggle in a Time of Crisis, Ed. Nicolas Pons-Vignon e Mbuso Nkosi (Londres: Pluto, 2015), pp. 23-28; John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century (New York: Monthly Review Press, 2016), pp. 13-16.

(41) Suwandi, Jonna e Foster, "Global Commodity Chains and the New Imperialism", pp. 14-15.

(42) Norfield, "T-Shirt Economics," pp. 25-26.

(43) Foster e McChesney, The Endless Crisis, pp. 140-41.

(44) Organização Internacional do Trabalho (OIT), Tabela 4a. Employment by Aggregate Sector (by Sex), in Key Indicators of the Labour Market (KILM), 8.ª edição (Genebra: Organização Internacional do Trabalho, 2014); "Economic Groups and Composition", Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

(45) Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), "Non-Equity Modes of International Production and Development", in World Investment Report, 2011 (Genebra: Nações Unidas, 2011), pp. 123, 132.

(46) Norfield, The City, pp. 9, 169; Federal Reserve Bank of St. Louis Economic Research, FRED, Net Domestic Investment: Private: Domestic Business, acessado em 18 de maio de 2019; Stephanie E. Curcuru e Charles P. Thomas, "The Return on U.S. Direct Investment at Home and Abroad", International Finance Discussion Papers, n.º 1057, Board of Governors of the Federal Reserve System, outubro de 2012.

(47) Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966), pp. 107-08.

(48) Dev Kar e Guttorm Schjelderup, Financial Flows and Tax Havens (London: Global Financial Integrity, Norwegian School of Economics, 2015), p. 19; Jason Hickel, The Divide (New York: W. W. Norton, 2017), p. 27.

(49) Karl Marx e Frederick Engels, Collected Works, vol. 30 (New York: International, 1975), p. 59.

(50) Norfield, The City, p. 76.

(51) Kar e Schjelderup, Financial Flows and Tax Havens, pp. 15-17.

(52) Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), p. 345.

(53) Hickel, The Divide, pp. 290-91.

(54) Gernot Köhler, "The Structure of Global Money and World Tables of Unequal Exchange", Journal of World-System Research 4 (1998): pp. 145-68; Gernot Köhler, Global Keynesianism: Unequal Exchange and Global Exploitation (New York: Nova Science, 2002), pp. 43-100; Gernot Köhler, "Unequal Exchange 1965-1995," Novembro de 1988; Hickel, The Divide, pp. 290-91. Zak Cope, baseando-se em várias formas diferentes de calcular a transferência de valor via troca desigual, apresentou números para 2009 de 2,6-4,9 milhões de milhões (“trillion”) de dólares, dependendo do método utilizado. Zak Cope, Divided World Divided Class (Montreal: Kersplebedeb, 2012), p. 262.

(55) Amin, Modern Imperialism, pp. 223-25.

(56) John Smith, "Marx's Capital and the Global Crisis," in The Changing Face of Imperialism, Ed. Sunanda Sen e Maria Cristina Marcuzzo (London: Routledge, 2018), pp. 43-45; Imperialism in the Twenty-First Century, p. 252; Tony Norfield, "Imperialism, a Marxist Understanding", Socialist Economist, 22 de março de 2019. Sobre as questões mais amplas da captura de valores, ver Mariana Mazzucato, The Value of Everything (New York: PublicAffairs, 2018).

(57) O papel das "ilhas do tesouro", principalmente no Caribe, destaca a enorme importância do capital offshore nos paraísos fiscais. Ver Nicholas Shaxson, Treasure Islands (New York: Palgrave-Macmillan, 2011). Thomas Piketty também destacou a crescente lacuna entre investimento/crescimento (o papel tradicional do capital) e a acumulação de riqueza. Thomas Piketty, Capital in the Twenty-First Century (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014).

(58) Amin, Modern Imperialism, pp. 110-11.

(59) "The Military Cost of Defending the Global Oil Supply", Securing America's Future Energy, 21 de setembro de 2018.

(60) Norfield, The City, pp. 123, 126.

(61) Sobre a mudança para um imperialismo mais agressivo após o fim da União Soviética, ver John Bellamy Foster, Naked Imperialism (New York: Monthly Review Press, 2006).

(62) A geoeconomia representa o renascimento da guerra económica. Para a grande estratégia a esse respeito emanada do Conselho de Relações Exteriores, ver Robert D. Blackwill e Jennifer M. Harris, War by Other Means (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2016).

(63) Donald Trump, "President Trump Vows to Usher in Golden Era of American Energy Dominance", 30 de junho de 2017.

(64) Ver John Bellamy Foster, Trump in the White House (New York: Monthly Review Press, 2017).

(65) Sobre a história do imperialismo social, ver Bernard Semmel, Imperialism and Social Reform (Garden City, NY: Doubleday, 1960).

(66) Magdoff, Globalization, pp. 4-5.

(67) Marx e Engels, Collected Works, vol. 1, p. 180.

(68) "Um movimento operário radical [no Norte] não pode tornar-se realidade a menos que se oponha firmemente às guerras imperiais, à produção e venda de armas, à infiltração dos militares nas economias locais e na vida quotidiana, ao patriotismo das bandeiras e dos hinos nacionais, ao mantra de que todos devemos apoiar as tropas. No Norte Global, o nacionalismo é uma doença que impede a solidariedade global das classes trabalhadoras, essencial para a libertação humana". Michael D. Yates, Can the Working Class Change the World? (New York: Monthly Review Press, 2018), p. 160.

(69) Karl Marx e Friedrich Engels, The Communist Manifesto (New York: Monthly Review Press, 1964), p. 7.

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