11 de janeiro de 2003

Kipling, o "fardo do homem branco" e o imperialismo americano

Este artigo examina como o poema de Rudyard Kipling ‘The White Man’s Burden’ serviu como justificativa cultural para o impulso imperialista dos Estados Unidos — explorando os laços entre retórica civilizatória e poder colonial.

John Bellamy Foster e Robert W. McChesney


Monthly Review Vol. 55 (2003–2004), No. 06 (November 2003)

Tradução / Estamos a viver um período em que a retórica do império conhece poucas limitações. Numa matéria especial sobre "A América e o império", o número de Agosto da revista londrina Economist perguntou se os Estados Unidos estariam, na eventualidade de "mudanças de regime... efectuadas pacificamente" no Irão e na Síria, "realmente preparados para arcar com o fardo do homem branco em todo o Médio Oriente". A resposta dada foi que isto era "improvável" — o compromisso americano para com o império não ia tão longe. O que é significativo, entretanto, é que a questão tenha chegado a ser perguntada.

As actuais guerras americanas no Afeganistão e no Iraque levaram observadores a perguntarem-se se não haverá semelhanças e ligações históricas entre o "novo" imperialismo do século XXI e o imperialismo dos séculos XIX e XX. Jonathan Marcus, o correspondente sobre defesa da BBC, comentou há uns poucos meses:

Deveria ser lembrado que, há mais de uma centena de anos, o poeta britânico Rudyard Kipling escreveu o seu famoso poema intitulado "o fardo do homem branco" — uma advertência acerca das responsabilidades do império que era destinado não a Londres mas a Washington e às suas novas responsabilidades imperiais na Filipinas. Não está claro que o presidente George W. Bush seja leitor de poesia ou de Kipling. Mas os sentimentos de Kipling são tão relevantes hoje quanto foram quanto o foram na altura em que o poema foi escrito, pouco após a Guerra Hispano-Americana. (17/julho/2003)

Alguns outros proponentes do imperialismo nos dias modernos também extraíram ilações do poema de Kipling, os quais principiam pelas linhas:

Aguentem o fardo do Homem Branco —
— Enviem para a frente o melhor que tenham gerado — 
(Take up the White Man's burden —
— Send forth the best ye breed —)

Antes de discutir as razões para este súbito interesse renovado no "Fardo do Homem Branco" de Kipling, é necessário apresentar alguma informação prévia acerca da história do imperialismo americano a fim de situar o poema no seu contexto.

Da Guerra Hispano-Americana à Guerra Filipino-Americana

Na Guerra Hispano-Americana de 1898 os Estados Unidos tomaram as colónias espanholas no Caribe e no Pacífico, emergindo pela primeira vez como uma potência mundial. [1] Tal como em Cuba, o domínio colonial espanhol nas Filipinas provocou uma luta de libertação nacional. Imediatamente após o bombardeamento naval de Manilha, em 1 de Maio de 1898, no qual a frota espanhola foi destruída, o almirante Dewey enviou uma canhoneira a Hong Kong para buscar o líder revolucionário filipino Emilio Aguinaldo. Os Estados Unidos queriam que Aguinaldo liderasse uma nova revolta contra a Espanha para continuar a guerra antes que chegassem as tropas americanas. Os filipinos tiveram tanto êxito que em menos de dois meses derrotaram os espanhóis na ilha principal de Luzon, sitiando as tropas espanholas remanescentes na cidade capital de Manilha, ao mesmo tempo que quase todo o arquipélago caía em mãos filipinas. Em Junho os líderes filipinos emitiram a sua própria Declaração de Independência baseada no modelo americano. Quando as forças americanas finalmente chegaram, no fim de Junho, os 15 mil soldados espanhóis escondidos em Manilha estavam cercados pelo exército filipino entrincheirado em torno da cidade — de modo que as forças americanas tiveram de pedir permissão para atravessar as linhas filipinas a fim de enfrentar estas tropas espanholas remanescentes. O exército espanhol rendeu-se às forças americanas em Manilha em 13 de Agosto de 1898, depois de apenas umas poucas horas de combate. Num acordo entre os Estados Unidos e a Espanha, as forças filipinas foram mantidas fora da cidade e foram postas de parte na rendição. Esta foi a batalha final daquela guerra. John Hay, embaixador americano na Grã-Bretanha, apreendeu o espírito imperialista daquele tempo quando escreveu que a Guerra Hispano-Americana como um todo fora "uma esplêndida pequena guerra".

Contudo, uma vez ultrapassado o combate com a Espanha, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer a existência da nova República Filipina. Em Outubro de 1898 a administração McKinley revelou publicamente pela primeira vez que pretendia anexar todas as Filipinas. Dizem que ao chegar a esta decisão o presidente McKinley teria dito que "Deus Poderoso" ordenara-lhe que fizesse das Filipinas uma colónia americana. Poucos dias após este anúncio foi estabelecida em Boston a Liga Anti-Imperialista da Nova Inglaterra. Dentre os seus membros incluíam-se pessoas célebres como Mark Twain, William James, Charles Francis Adams e Andrew Carnegie. No entanto, a administração avançou e em Dezembro concluiu o Tratado de Paris, pelo qual a Espanha concordava em ceder as Filipinas à nova potência imperial, bem como suas outras possessões capturadas pelos Estados Unidos durante a guerra.

A isto seguiu-se um violento debate no Senado acerca da ratificação do tratado, centrando-se sobre os estatutos da Filipinas, os quais, excepto para a cidade de Manilha, estavam sob o controle da nascente República Filipina. Em 4 de Fevereiro de 1899, tropas americanas com ordens para provocar um conflito com as forças filipinas que cercavam Manilha foram deslocadas para o terreno contestado que se situava entre as linhas americanas e filipinas, nos subúrbios da cidade. Quando se depararam com soldados filipinos os soldados americanos gritaram "Alto" e a seguir abriram fogo, matando três deles. As forças americanas começaram imediatamente uma ofensiva geral, com todo o seu poder de fogo, que equivaleu a um ataque surpresa (os principais oficiais filipinos estavam longe na altura, a participar de um esplêndido baile celebratório), infligindo enormes baixas às tropas filipinas. O San Francisco Call relatou em 5 de Fevereiro que no momento em que as notícias chegaram a Washington McKinley disse a "um amigo íntimo...que na sua opinião o enfrentamento de Manilha asseguraria a ratificação do tratado no dia seguinte".

Estes cálculos demonstraram-se correctos e no dia seguinte o Senado ratificou oficialmente o Tratado de Paris, pondo fim à Guerra Hispano-Americana — cedendo Guam, Porto Rico e Filipinas aos Estados Unidos, e pondo Cuba sob controle americano. Ele estipulava que os Estados Unidos pagariam à Espanha 20 milhões de dólares pelos territórios que haviam ganho por meio da guerra. Mas isto pouco disfarçava o facto de que a Guerra Hispano-Americana foi uma captura aberta e sem rodeios de um império colonial ultramarino pelos Estados Unidos, em resposta à necessidade percebida pelos meios de negócio americanos, que se recuperavam de uma retracção económica, de novos mercados globais.

Os Estados Unidos imediatamente impulsionaram a Guerra Filipino-Americana, que principiara dois dias antes — e que demonstrou-se como uma das mais bárbaras guerras de conquista imperial da história. O objectivo dos EUA neste período era expandir-se não só no Caribe como também no Pacífico — e através da colonização das ilhas filipinas ganhar uma entrada no enorme mercado chinês. (Em 1900, a partir das Filipinas, os Estados Unidos enviaram tropas à China para se juntarem a outras potências imperiais no esmagamento da Rebelião Boxer).

"O Fardo do Homem Branco" de Kipling, com o subtítulo "Os Estados Unidos e o Arquipélago Filipino", foi publicado no número de Fevereiro de 1899 do McClure's Magazine . [2] Fora escrito quando ainda decorria o debate acerca da ratificação do Tratado de Paris, e enquanto o movimento anti-imperialista nos Estados Unidos condenava ruidosamente o plano para anexar as Filipinas. Kipling instava os Estados Unidos, com referência especial às Filipinas, a juntar-se à Grã-Bretanha na tomada das responsabilidades raciais do império:

Seus recém-capturados tristes povos,
— Semi-diabos e semi-crianças. 
(Your new-caught sullen peoples,
— Half devil and half child.)

Muitos nos Estados Unidos, incluindo o presidente McKinley e Theodore Roosevelt, saudaram o apelo violento de Kipling para que os Estados Unidos se engajassem em "guerras selvagens", principiando pelas Filipinas. O senador Albert J. Beveridge, de Indiana, declarou: "Deus não andou a preparar os povos de língua inglesa e teutónicos durante um milhar de anos para nada senão a vã e ociosa auto-contemplação e auto-admiração... Ele fez-nos peritos em governação para que possamos administrar governo entre povos selvagens e senis". No fim, mais de 126 mil oficiais e soldados foram enviados para as Filipinas a fim de deitar abaixo a resistência durante uma guerra que perdurou oficialmente desde 1899 até 1902 mas que realmente continuou durante muito mais tempo, com resistência esporádica ao longo de mais de uma década. As tropas americanas travaram 2800 confrontos com a resistência filipina. Pelo menos 250 mil filipinos, a maior parte deles civis, foram mortos, juntamente com 4200 soldados americanos (mais de dez vezes do que o número de baixas fatais na Guerra Hispano-Americana). [3]

Desde o princípio ficou claro que as forças filipinas não eram capazes de rivalizar com os Estados Unidos em termos de guerra convencional. Elas portanto passaram rapidamente à guerra de guerrilha. As tropas americanas em guerra com os filipinos jactavam-se, numa popular canção de marcha, de que "civilizariam com o Krag" (referindo-se à arma concebida por noruegueses com as quais as forças americanas eram equipadas). Mesmo assim acabaram por enfrentar intermináveis pequenos ataques e emboscadas de filipinos, os quais costumavam usar facas longas conhecidas como bolos. Destes ataques guerrilheiros resultavam mortes em combate de soldados americanos em pequenos números mas com regularidade. Tal como em todas as guerras de guerrilha prolongadas, a força da resistência filipina devia-se ao facto de ter o apoio da generalidade da população. Tal como o general Arthur MacArthur (o pai de Douglas MacArthur), que em 1900 tornou-se governador militar das Filipinas, confidenciou a um repórter em 1899:

Quando comecei a actuar contra estes rebeldes, acreditava que as tropas de Aguinaldo representavam apenas uma facção. Eu não queria acreditar que toda a população de Luzon — isto é, a população nativa — opunha-se a nós e às nossas ofertas de ajuda e bom governo. Mas depois de ter avançado mais com isto, depois de ter ocupado várias cidades e povoados seguidos... fui relutantemente obrigado a acreditar que as massas filipinas são leais a Aguinaldo e ao governo que ele encabeça. 

Confrontados com uma guerra de guerrilha apoiada pela vasta maioria da população, os militares americanos responderam a isto através do reagrupamento das populações em campos de concentração, incendiando aldeias (os filipinos por vezes eram forçados a carregarem a gasolina utilizada para incendiar as suas próprias casas), enforcamentos em massa, seccionamentos a baioneta de suspeitos, violação sistemática de mulheres e crianças e tortura. A mais infame técnica de tortura, usada reiteradamente nesta guerra, era a chamada "cura de água". Grandes quantidades de água eram despejadas à força nas gargantas dos prisioneiros. Os seus estômagos ficavam então salientes de modo que a água era expelida a três pés de altura "como num poço artesiano". A maior parte das vítimas morria não muito tempo depois disso. O general Frederick Funston não hesitou em anunciar que havia pessoalmente enforcado um grupo de 35 civis suspeitos de apoiarem os revolucionários filipinos. O major Edwin Glenn não viu qualquer razão para negar a acusação de que ele fizera um grupo de 47 prisioneiros filipinos ajoelhar-se e "arrepender-se dos seus pecados" antes de cortá-los a baioneta e levá-los à morte. O general Jacob Smith ordenou às suas tropas que "matassem e queimassem", a alvejarem "todos os grupos superiores a dez" e a transformarem a ilha de Samar "num imenso deserto". O general William Shafter, na California, declarou que poderia ser necessário matar a metade da população filipina a fim de proporcionar a "perfeita justiça" à outra metade. Durante a Guerra Filipina os Estados Unidos inverteram as estatísticas de baixas de guerra normais — habitualmente há muito mais feridos do que mortos. Segundo estatísticas oficiais (discutidas em audiências no Congresso sobre a guerra) as tropas americanas mataram 15 vezes mais filipinos do que os feriram. Isto confirma frequentes relatos de soldados americanos de que combatentes combatentes filipinos feridos e capturados eram executados sumariamente no local.

A guerra continuou mesmo após a captura de Aguinaldo, em Março de 1901, mas foi declarada oficialmente concluída pelo presidente Theodoro Roosevelt em 3 de Julho de 1902 — numa tentativa de suprimir a crítica às atrocidades americanas. Naquele momento, a maior parte das ilhas do norte fora "pacificada" mas a conquista das ilhas a sul ainda estava em andamento e a luta perdurou durante anos — embora nos Estados Unidos de então os rebeldes fossem caracterizado como meros bandidos.

Nas Filipinas do sul o exército colonial americano estava em guerra com filipinos muçulmanos, conhecidos como Moros. Em 1906 foi executado aquilo que veio a ser conhecido como o Massacre Moro, quando pelo menos nove centenas de filipinos, incluindo mulheres e crianças, foram encurralados numa cratera vulcânica na ilha de Jolo e metralhados e bombardeados durante dias. Todos os filipinos foram mortos, ao passo que as tropas americanas sofreram apenas um punhado de baixas. Mark Twain respondeu aos relatos iniciais (os quais indicavam que aquele massacre totalizava seiscentos ao invés de novecentos homens, mulheres e crianças como se verificou depois) com uma sátira amarga: "Com seiscentos engajados de cada lado, perdermos quinze homens e tivemos trinta e dois feridos — contando aquele nariz e aquele cotovelo. O inimigo chegava a seiscentos — incluindo mulheres e crianças — e nós os liquidámos completamente, não deixando sequer um bebé vivo para chorar por sua mãe morta. Esta é incomparavelmente a maior vitória já alcançada desde sempre pelos soldados cristãos dos Estados Unidos ". Ao ver uma foto amplamente divulgada que mostrava soldados americanos a olharem para pilhas de filipinos mortos na cratera, W. E. B. Du Bois declarou numa carta a Moorfield Storey, presidente a Liga Anti-Imperialista (e posteriormente o primeiro presidente da NAACP - National Association for the Advancement of Colored People), que ela constituía "a coisa mais esclarecedora que já vi desde sempre. Quero especialmente tê-la emoldurada e pendurada na parede da minha sala de conferências para fixar nos estudantes o que realmente significam as guerra e especialmente a Guerra de Conquista". [4]

O presidente Theodore Roosevelt imediatamente cumprimentou o seu bom amigo general Leonard Wood, o que executou o Massacre Moro, escrevendo: "Congratulo a si e aos oficiais e homens sob o seu comando pelo brilhante feito de armas e que o senhor e eles sustentaram tão bem a honra da bandeira americana". Tal como Kipling, Roosevelt raramente hesitava em promover a causa imperialista ou promover doutrinas de superioridade racial. Mas nas novelas de Kipling, as estórias e os versos distinguiam-se pelo facto de que pareciam, para muitas pessoas no mundo branco, evocar uma causa transcendente e nobre. Ao mesmo tempo elas não deixavam de estender a mão e reconhecer o ódio que o colonizado tem pelo colonizador. Ao conceder a Kipling o Prémio Nobel de Literatura, em 1907, o Comité Nobel proclamou: "o seu imperialismo não é do tipo intransigente que não repara nos sentimentos dos outros". [5] Era precisamente isto que fazia "O fardo do homem branco" de Kipling, e outros escritos da sua lavra, tão efectivos como véus ideológicos para a realidade bárbara.

O ano em que o poema de Kipling apareceu, 1899, marcou não só o fim da Guerra Hispano-Americana (com a ratificação do Tratado de Paris) e o princípio da Guerra Filipino-Americana como também o princípio da Guerra Boer na África do Sul. Elas foram guerras imperialistas clássicas e geraram movimentos anti-imperialistas e críticas radicais como resposta. Foi a Guerra Boer que motivou o Imperialismo, um estudo (1902), de John A. Hobson, que argumentou: "Em parte alguma sob tais condições" — referindo-se especificamente ao imperialismo britânico na África do Sul — "a teoria do governo branco como uma garantia de civilização verificou-se válida". A sentença de abertura do Imperialismo, etapa superior do capitalismo , de Lenin, escrito em 1915, declarava que "especialmente a partir da Guerra Hispano-Americana (1898), e da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), a literatura económica e também a política dos dois hemisférios tem, cada vez mais, adoptado o termo 'imperialismo' a fim de definir a era actual".

A mensagem de Kipling aos imperialistas após uma centena de anos

Embora o imperialismo tenha permanecido uma realidade ao longo do último século, durante a maior parte do século XX o próprio termo foi considerado como além do permitido dentro dos círculos polidos do establishment — tão grande foi o ultraje anti-imperialista levantado pela Guerra Filipino-Americana e pela Guerra Boer, e tão efectiva foi a teoria marxista do imperialismo em arrancar o véu das relações capitalistas globais. Nestes últimos poucos anos, entretanto, "imperialismo" tornou-se outra vez um brado de apêlo para neoconservadores e neoliberais afins. Tal como reconheceu recentemente Alan Murray, Chefe do Bureau de Washington da CNBC numa declaração dirigida principalmente às elites: "Todos nós, parece, somos agora imperialistas" ( Wall Street Journal , 15/Jul/ 2003).

Se alguém duvidasse por um instante de que a actual expansão do império americano não é senão a continuação de uma história de um século do imperialismo americano além mar, Michael Ignatieff (Professor de Política dos Direitos Humanos na Kennedy School of Government, de Harvard) torna isto claro como o dia:

A operação Iraque assemelha-se mais à conquista das Filipinas entre 1898 e 1902. Ambas foram guerras de conquista, ambas foram pressionadas por uma elite ideológica sobre um país dividido e ambas custaram muito mais do que o orçamentado. Tal como no Iraque, vencer a guerra foi a parte fácil... Mais de 120 mil soldados americanos foram enviados para as Filipinas a fim de deitar abaixo a resistência guerrilheira, e 4000 nunca voltaram. Ainda está para ser visto se o Iraque custará milhares de vidas americanas — e se o público americano aceitará um preço tão pesado para o êxito no Iraque. ( New York Times Magazine , 07/set/2003).

Com representantes do establishment a sustentarem abertamente ambições imperialistas, não deveríamos surpreender-nos com as repetidas tentativas de trazer de volta o argumento do "fardo do homem branco" de uma forma ou de outra. Nas páginas de encerramento do seu livro premiado, The Savage Wars of Peace , Max Boot cita o poema de Kipling:

Assuma o fardo do Homem Branco —
— E obtenha a sua recompensa de sempre:
A censura daqueles que você melhora,
— O ódio daqueles que você guarda — 
(Take up the White Man's burden —
— And reap his old reward:
The blame of those ye better,
— The hate of those ye guard —)

Boot insiste em que Kipling estava certo, que "os colonialistas, por toda a parte, habitualmente recebem poucos agradecimentos no fim". No entanto, deveríamos ser encorajados, diz-nos ele, pelo facto de que "a maior parte do povo não resistiu à ocupação americana, como certamente teria feito se ela tivesse sido desagradável e brutal. Muitos cubanos, haitianos, dominicanos e outros podem secretamente ter saudado o domínio americano". A implicação principal de Boot parece bastante clara — os Estados Unidos deveriam outra vez "Assumir o fardo do Homem Branco". O seu livro, publicado em 2002, termina argumentando que os Estados Unidos deveriam ter deposto Saddam Hussein e ocupado o Iraque na altura da Guerra do Golfo de 1991. Aquela tarefa, indicou ele, ficou por cumprir.

Boot é o antigo editor de peças editoriais de The Wall Street Journal , e agora Investigador Senior em Estudos de Segurança Nacional do Council on Foreign Relations. O título de The Savage Wars of Peace foi retirado directamente de uma linha no "Fardo do Homem Branco" de Kipling. As 428 páginas de Boot com a glorificação das guerras imperialistas dos EUA receberam o Prémio Best Book de 2002 do Washington Post, Christian Science Monitor , e do Los Angeles Times e ganharam o Prémio General Wallace M. Greene Jr. 2003 pelo melhor livro de não ficção relativo à história do Marine Corps. Boot sustenta que a Guerra Filipina foi "uma das mais bem sucedidas contra-insurreições travadas por um exército ocidental nos tempos modernos" e declara que, "pelos padrões da época, a conduta dos soldados americanos foi melhor do que a média em guerras coloniais". O papel imperial americano nas Filipinas, o assunto do "Fardo do Homem Branco" de Kipling, está portanto a ser apresentado como um modelo para a espécie de papel imperial que Boot e outros neoconservadores estão agora a encorajar nos Estados Unidos. Mesmo antes da guerra no Iraque, Ignatieff observava: "o imperialismo costumava ser o fardo do homem branco. Isto deu-lhe uma má reputação. Mas o imperialismo não deixou de ser necessário porque ser politicamente incorrecto" — um ponto que pode muito bem ser lido como estendendo-se ao próprio "fardo do homem branco". ( New York Times Magazine , 28/jul/2002).

A Guerra Filipino-Americana está agora a ser redescoberta como a mais estreita aproximação da história americana aos problemas que os Estados Unidos estão a encontrar no Iraque. Além disso, os Estados Unidos aproveitaram-se dos ataques do 11 de Setembro de 2001 para intervir militarmente não só no Médio Oriente como também em todo o globo — incluindo as Filipinas onde instalou milhares de soldados para ajudar o exército filipino a combater os insurrectos Moro nas ilhas do sul. Neste novo clima imperialista, Niall Ferguson, Professor de História na Stern School of Business, Universidade de Nova York, e um dos principais advogados do novo imperialismo, focou o poema de Kipling "O Fardo do Homem Branco" no seu livro Empire(2002). "Ninguém", diz-nos Ferguson,

ousaria utilizar uma linguagem tão politicamente incorrecta hoje em dia. A realidade no entanto é que os Estados Unidos — quer se admita quer não — assumiram uma espécie de fardo global, tal como instava Kipling. Consideram-se responsáveis não só por travar uma guerra contra o terrorismo e Estados vilões, mas também por difundir os benefícios do capitalismo e da democracia além mar. E tal como o Império Britânico antes, o Império Americano actua para sempre em nome da liberdade, mesmo quando o seu próprio auto-interesse está em primeiro lugar.

Apesar da alegação de Ferguson de que "ninguém ousaria" chamar a isto hoje em dia "o fardo do homem branco" por ser "politicamente incorrecto", referências simpáticas a esta expressão continuam a aflorar — e a maior parte delas nos círculos privilegiados. Boot — que não pode ser considerado um marginal uma vez que está associado ao influente Council on Foreign Relations — é um bom exemplo. Tal como o próprio Ferguson, ele tenta incorporar o "fardo do homem branco" dentro de uma longa história de intervenção idealista, subestimando as realidades do racismo e do imperialismo. "Nos princípio do século XX", escreve ele no capítulo final do seu livro (intitulado "In Defense of the Pax Americana"), "os americanos falavam da difusão da civilização anglo-saxonica e assumiam o 'fardo do homem branco', hoje falam de difundir a democracia e defender direitos humanos. Seja o que for que se chame, isto representa um impulso idealista que sempre foi uma parte importante do ímpeto americano para ir à guerra".

Os imperialistas de hoje vêm o poema de Kipling principalmente como uma tentativa de endurecer a espinha dorsal da classe dirigente americana dos seus dias como preparação para o que ele chamou "as selvagens guerras da paz". E é precisamente deste modo que eles agora aludem aos "fardo do homem branco" em relação ao século XXI. Assim, para a revista Economist a questão é simplesmente se os Estados Unidos estão "preparados para suportar o fardo do homem branco por todo o Médio Oriente".

Como analista e como porta-voz do imperialismo, Kipling estava muito acima disto no sentido de que percebia perfeitamente o assomar das contradições do seu próprio tempo. Ele sabia que o Império Britânico estava demasiado estendido e condenado — mesmo que ele lutasse para salvá-lo e para inspirar os Estados Unidos em ascensão a entrarem na etapa imperial ao lado dele. Apenas dois anos antes de escrever "O Fardo do Homem Branco" escreveu os seus celebrados versos, "Recessional":

Chamados para longe, nossos navios fundem-se,
— Sobre dunas e cabos mergulha o fogo;
Olhe, todo o nosso esplendor de ontem
— Está-se junto a Nínive e Tiro!
Juiz das Nações, poupe-nos por enquanto,
Para que não esqueçamos — para que não esqueçamos! 
(Far-called, our navies melt away;
— On dune and headland sinks the fire;
Lo, all our pomp of yesterday
— Is one with Nineveh and Tyre!
Judge of Nations, spare us yet,
Lest we forget—lest we forget!)

Os Estados Unidos estão agora a abrir caminho para uma nova fase do imperialismo. Isto será marcado não só por aumentos de conflitos entre centro e periferia — racionalizado no Ocidente pelo racismo velado e não tão velado — mas também pela crescente rivalidade intercapitalista. Isto provavelmente acelerará o declínio a longo prazo do Império Americano, ao invés de reverte-lo. E nesta situação um apelo para um cerrar fileiras entre aqueles de extracção europeia (o "choque de civilizações" de Samuel Huntington ou algum substituto) provavelmente vai tornar-se mais atraente entre as elites americanas e britânicas. Deveria ser recordado que o "Fardo do Homem Branco" de Kipling era uma apelo à exploração conjunta do globo por aqueles a que Du Bois posteriormente chamou "os mestres brancos do mundo" em face da decadência das fortunas britânicas.[6] Assim, em momento algum deveríamos subestimar a tríplice ameaça do militarismo, imperialismo e racismo — ou esquecer que as sociedades capitalistas historicamente foram identificadas com todas as três.

Notas

1. O breve tratamento histórico que se segue da Guerra Filipino-Americana foi retirado principalmente destas obras: Henry F. Graff, ed., American Imperialism and the Philippine Insurrection: Testimony Taken from Hearings on Affairs in the Philippine Islands before the Senate Committee on the Philippines— 1902 (Boston: Little, Brown, 1969); Angel Velasco Shaw and Luis H. Francia, Vestiges of War: The Philippine-American War and the Aftermath of an Imperial Dream, 1899–1999 (New York: New York University Press, 2002); Daniel B. Schirmer, Republic or Empire: American Resistance to the Philippine War (Cambridge, Mass.: Schenkman, 1972) and “How the Philippine-U.S. War Began,” Monthly Review , September 1999; Stuart Creighton Miller , “Benevolent Assimilation”: The American Conquest of the Philippines, 1899–1903 (New Haven: Yale University Press, 1990) ; and Daniel B. Schirmer and Stephen Rosskamm Shalom, The Philippines Reader (Boston: South End Press, 1987).

2. O poema é muitas vezes reproduzido sem o subtítulo. Para uma versão correcta ver Kipling's Verse: Definitive Edition (New York: Doubleday, 1940).

3. Embora um quarto de milhão seja o número "consensual" dos historiadores, estimativas de mortes filipinas nesta guerra ascendem a números tão altos como um milhão, o que teria significado o despovoamento das ilhas em cerca de um sexto.

4. Jim Zwick, ed., Mark Twain's Weapons of Satire (Syracuse, New York: Syracuse University Press, 1992), p. 172. Para informação sobre o massacre Moro e a citação de W. E. B. Du Bois ver www.boondocksnet.com/ai/ail/moro.html . O sítio web boondoscksnet de Jim Zwick é uma fonte crucial para materiais sobre a Guerra Filipino-Americana, respostas contemporâneas ao "Fardo do Homem Branco" de Kipling, e escritos anti-imperialistas de Mark Twain.

5. O Comitê Nobel estava, entretanto, impressionado sobretudo pela simpatia de Kipling para com os Boers da África do Sul — uma outra população de colonizadores brancos.

6. Este apelo às elites brancas para dividir o mundo evocou uma resposta para além da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. A admiração por Kipling entre as classes dirigentes no centro do mundo capitalista era mais geral. Como nos diz Hobsbawm: "Quando se acreditava que o escritor Rudyard Kipling, o bardo do Império Britânico, estava a morrer de pneumonia em 1899, não só os britânicos e os americanos sentiram pesar — Kipling acabara de destinar um poema sobre "O Fardo Mundo Branco" aos EUA acerca das suas responsabilidades na Filipinas — mas o Imperador da Alemanha enviou um telegrama". Eric Hobsbawm, The Age of Empire (New York: Vintage, 1987), p. 82.

2 de novembro de 2002

Classes, economia e a segunda Intifada

A atual Intifada Palestina e a resposta brutal de Israel têm sido tema de inúmeros artigos nos últimos dois anos. Há, no entanto, um vácuo decepcionante na análise de esquerda, com grande parte desses escritos tentando explicar o caráter da política israelense através das visões de direita de Ariel Sharon. Nesse contexto, a estratégia israelense é apresentada como uma extensão racista dos desígnios colonialistas sobre os Territórios Ocupados, às vezes incluindo a expulsão de palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (doravante denominadas BM/GS)...

Adam Hanieh



Tradução / A atual Intifada palestina e a brutal resposta de Israel tem sido objeto de inúmeros artigos de opinião durante os últimos dois anos. No âmbito das análises da esquerda há um vácuo decepcionante, com muito dos escritos tentando explicar o caráter da política israelense através da opinião de direita de Ariel Sharon. Dentro deste esquema, a estratégia de Israel é apresentada como uma extensão racista dos desígnios colonialistas nos Territórios Ocupados incluindo por vezes a expulsão de palestinos da Cisjordânia e Faixa de Gaza (daqui para a frente referidas como C/ FG).

O que está de modo impressionante ausente de, virtualmente, toda a análise de esquerda é qualquer discussão de classe e de economia política tanto em Israel como nos Territórios Ocupados. Embora possa parecer uma acusação estranha a ser feita a textos compreendidos na área da esquerda, acredito que a ausência de uma análise de classe é em si mesmo uma indicação da confusão de muitas das análises de esquerda sobre o Estado de Israel. Para a maior parte da esquerda, a política de Israel é simplesmente entendida como um binômio de opostos entre a direita Likud e a inclinação mais pacífica do Partido Trabalhista. Pretendo mostrar mais à frente que esta visão resulta de uma errada aproximação ao entendimento da formação das classes em Israel e que se não se colocar as classes sociais no centro da nossa análise torna-se difícil desenvolver uma compreensão adequada do que realmente está acontecendo.

No fundamental, argumento que o capitalismo israelense foi trazido à existência pelo movimento trabalhista sionista (hoje representado pelo Partido Trabalhista) e que o processo de Oslo foi um passo chave na sua formação. [1] A guerra de Israel contra o povo palestiniano é, hoje, a extensão lógica deste processo apontando para a criação de um Estado-cantão palestino. Devido ao papel central do movimento trabalhista sionista na construção do capitalismo israelense, os termos “esquerda” e “direita” são frequentemente confundidos no caso israelense.

Além do mais, durante os últimos dez anos, Israel tem-se progressivamente libertado da dependência da mão-de-obra barata palestina enquanto estreita a dependência dos Territórios Ocupados relativamente à economia israelense. O resultado é uma sociedade palestina com uma estrutura de classes fortemente distorcida – uma classe capitalista dependente de relações privilegiadas com o capital israelense e uma classe operária com pouco peso estratégico na luta de libertação.

Classes e Estado na sociedade de Israel

Muitos dos comentários, acadêmicos ou populares sobre Israel, vêem no peso predominante do Estado de Israel nas primeiras quatro décadas desde o estabelecimento do país em 1948 uma evidência de Israel como tendo constituído uma economia socialista. Esta crença encontra suporte na determinação política coletiva – particularmente o movimento Kibbutz – e na força do movimento sindical, o Histadrut, o maior empregador singular durante a maior parte da história de Israel. [2]

Desde os meados de 80, conhecendo uma aceleração durante os anos 90, a política econômica de Israel sofreu uma dramática transformação. Durante os últimos cinquenta anos, a estrutura econômica do país alterou-se significativamente e Israel abraçou a visão em expansão do capitalismo global. Largamente baseado nas receitas do FMI e do BM, o governo israelense privatizou empresas, distendeu o controle governamental sobre o mercado de capitais e reduziu os salários reais.

As abordagens tradicionais relativamente à política econômica de Israel tendem a explicar estas mudanças como resultado de uma alteração ideológica nas elites israelenses. De acordo com essas abordagens os líderes israelenses abraçaram as receitas do capitalismo neoliberal em meados da década de 80 tendo em conta os problemas econômicos de Israel, depois de serem portadores de uma versão da ideologia socialista.

Em contraste, uma nova geração de pensadores israelenses escrevendo sobre as últimas décadas têm argumentado da necessidade de uma nova abordagem relativamente à compreensão das autoridades israelenses. [3] Têm argumentado que o desenvolvimento do movimento sionista é melhor compreendido no contexto do movimento colonizador tentando ganhar controle sobre a terra e o mercado de trabalho. A classe capitalista privada do movimento colonizador inicial era fraca e dividida, e a aproximação coletivista do movimento colonizador liderado pelo movimento trabalhista sionista constituiu a mais eficaz forma de colonização da terra e de expulsão da população árabe. A força do Histadrut e o papel central do movimento trabalhista sionista é melhor entendido através da fragilidade da classe capitalista judaica existente antes de 1948 e da necessidade de fornecer trabalho aos imigrantes judeus em simultâneo com a exclusão dos operários palestinos do mercado de trabalho como antecâmara da expulsão.

Devido à natureza embrionária tanto da classe capitalista como da operária durante o período de colonização, o Estado de Israel desenvolvido após 1948 estava empenhado não apenas na colonização da terra mas na construção da própria estrutura de classes. Esta formação de classes passou por duas fases chaves entre o período de 1948 e 1985:

1. 1948-1973: Este período foi caracterizado por elevados níveis de crescimento financiados por transferências unilaterais de capital provindos das reparações alemãs e de judeus no exterior. Foi um período inicial de formação do Estado e das classes. Deste modo o Estado direcionou virtualmente todas as transferências de capitais para os grupos econômicos considerados aliados no “projeto nacional”. Grupos esses que evoluíram para conglomerados chave dominando a economia israelense nos anos seguintes. A classe operária israelense foi formada através de elevados níveis de imigração de judeus árabes, africanos e asiáticos – que etnicamente se definiram como os “Mizrahim.”

Seguindo a ocupação israelense da C/ FG em 1967, a economia israelense experimentou o chamado boom palestino. A ocupação incrementou de modo significativo o mercado doméstico de Israel e forneceu outra fonte de força de trabalho. [4] Esta força de trabalho era barata e altamente explorada e, por meados da década de 80, os palestinos da C/ FG constituíam cerca de 7% da força de trabalho israelense. Cerca de um terço da força de trabalho da C/ FG trabalhava em Israel em 1985, com 47% deste número a trabalhar na indústria de construção. Esta força de trabalho barata proporcionou um grande impulso à economia israelense preenchendo os mais baixos níveis do mercado de trabalho e cobrindo alguma carência motivada pelo prolongado serviço militar israelense. Permitiu também a alguns trabalhadores Mizrahim subirem a posições de controle e de supervisão, reduzindo assim alguma tensão étnica surgida durante a década de 70 entre os Mizrahim e os judeus europeus.

2. 1974-1985: No final da década de 60, o largo núcleo de conglomerados fundiram-se em cinco grupos – Koor, Hapoalim, Leumi, Clal e IDB. Os primeiros quatro grupos eram controlados pelo Estado, Histadrut e o movimento trabalhista sionista, enquanto o IDB era privado. Começando com a ocupação israelense da C/ FG em 1967 e acelerada com a guerra de 1973, a produção militar passou a ocupar o centro da política econômica de Israel. Estes gastos militares eram contratados pelo Estado a grupos econômicos e levaram a taxas massivas de acumulação para o núcleo central dos grupos econômicos enquanto a economia como um todo sofria de estagflação. [5]

Em meados da década de 80, este sistema começou a ser abalado por um número variado de fatores. Ao nível global, a recessão e a queda de encomendas militares no mercado internacional começaram a limitar os lucros dos grupos. Ao nível local, os primeiros sintomas de hiperinflação começou a estrangular a economia como um todo e tornou o planejamento financeiro difícil.

Em resposta a estas alterações, o Estado – sob a tutela da ala trabalhista do movimento sionista – empreendeu uma significativa mudança de direção que começou com o Plano de Estabilização Econômica de 1985 (PEE). Esta mudança consistiu em quatro processos inter-relacionados:

1. Uma alteração da relação entre o Estado e os grupos econômicos chave. O PEE inaugurou uma nova fase na relação do Estado com a classe capitalista. Os grupos econômicos fundamentais foram separados do aparelho de Estado passando para as mãos da nova classe capitalista. O Estado não mais protegeria estes grupos, sendo que eles tornaram-se locais fundamentais de acumulação de capital para uma verdadeira classe capitalista. Isto foi conseguido através da fratura do império Histadrut, passando as suas componentes para o setor privado, e da privatização de setores governamentais.

2. A coalescência de uma nova classe capitalista. Esta classe capitalista veio de uma fusão de três diferentes fontes: do capital global – frequentemente com ligações ao movimento sionista – como o capitalista americano Ted Arison e o bilionário canadense Charles Bronfman; capital privado local anteriormente suportado pelo Estado, como as famílias Recanati e Ofer; e em terceiro lugar elementos da burocracia estatal que chefiaram a ESP e o processo de privatização.

3. A inserção de Israel na economia global. Começando em meados da década de 80, a economia israelense foi sendo integrada na economia mundial através da redução das taxas aduaneiras e das normas de investimento. A classe capitalista, mencionada no ponto anterior não era homogênea. O terceiro setor da classe capitalista atrás mencionada, anteriormente da burocracia estatal, tendeu a constituir-se em gestores de novas companhias privadas. Seguindo o início das negociações com os palestinos no princípio da década de 1990, um vasto setor de capitalistas oriundos de Israel foram integrados no novo mundo globalizado através de significativos investimentos e ligações financeiras com o capital estrangeiro, em particular nos Estados Unidos e Ásia. Em terceiro lugar, o capital internacional – particularmente o americano – começou a investir de modo muito significativo em Israel, à medida que o país se integrava na ordem mundial capitalista.

4. Reestruturação da relação entre classes. A quebra dos conglomerados e do império Histadrut teve um significativo impacto nas relações entre a classe operária e a classe capitalista. O antigo sistema, onde coexistiu uma camada privilegiada de trabalhadores com um sector altamente explorado foi abaixo através da ruptura da ligação entre o Histadrut e a economia. Houve um largo aumento da taxa de exploração da classe operária reflectida em altas taxas de produtividade excedendo o aumento real de salários. Várias políticas estatais contribuíram para isto, em particular a desvalorização da moeda e o enfraquecimento da ajuda sobre o custo de vida que estava a ser pago para compensar a inflação. Alem do mais, políticas fiscais governamentais tais como o fim ou diminuição dos subsídios a certos bens contribuíram para uma transferência de riqueza dos mais pobres para a nova classe capitalista.

Estas medidas, caracterizadoras da “nova” política econômica de Israel, tiveram reflexos a nível político e cultural. Algumas indicações destas mudanças incluem: (1) o aumento de organizações cívicas e movimentos extra-parlamentares à medida que o governo se retirava da esfera pública, (2) um aumento da “MacDonaldização” da cultura israelense à medida que o capital norte-americano penetrava na economia e, (3) desenvolvimentos políticos como o processo de Oslo que constituiu um passo fundamental no movimento do capital israelense para um patamar global e regional.

Deve ser salientado que a força motriz deste processo foi o Partido Trabalhista. A sua base social de apoio foi tradicionalmente constituída pelos judeus mais abastados da Europa e América, enquanto o rival Likud começou a ganhar apoios entre as camadas mais pobres de judeus vindos de África e do Oriente Médio (Mizrahim) nos anos setenta. O partido Likud ganhou as suas primeiras eleições em 1977, em larga medida devido ao suporte dos mais pobres e da posição de inferioridade dos Mizrahim em simultâneo com a visão de que o partido Trabalhista representava a elite de judeus europeus. Hoje em dia é mínima a diferença entre as politicas econômicas dos Trabalhistas e do Likud – ambos abraçaram sinceramente como sua a política neoliberal dominante. A nível político existe, de igual modo, uma coincidência entre as correntes fundamentais dos Trabalhistas e do Likud relativamente ao conflito palestiniano. É esta convergência entre os trabalhistas e o Likud que explica o colapso do partido Trabalhista como força política em Israel. [6]

Oslo e o capitalismo israelense

No início do processo de Oslo, a classe capitalista emergente encorajava as negociações. Um exemplo típico foi Benny Gaon. Gaon tornou-se presidente da companhia de bandeira da Histadrut, a Koor em 1987, e dirigiu a privatização da companhia. Para Gaon e a nova classe capitalista israelense, Oslo era um passo essencial na abertura de Israel ao mercado global. De acordo com este ponto de vista, seria impossível atrair um significativo investimento estrangeiro enquanto o conflito persistisse. Seria igualmente difícil para as companhias de Israel investir nos Estados Unidos, Europa, ou nos chamados mercados emergentes sem uma resolução política do conflito Israel-palestino. Koor lançou o seu Projeto de Paz pouco após a assinatura da Declaração de Princípios em 1993, e que uniu homens de negócios israelenses, palestinos, árabes e europeus em projetos de investimentos conjuntos na região. Foi também um parceiro importante da Autoridade Palestina em projetos de infra-estrutura e de exportação para a C/ FG.

A razão deste apoio foi largamente sustentada na necessidade de acabar o boicote árabe à economia israelense e no assegurar da estabilidade do ambiente econômico em Israel. Israel apontou como objetivo subcontratar industrias de baixa tecnologia, como as têxteis, no Egito e Jordânia, com uma mão-de-obra muito mais barata do que em Israel. Em larga medida, este foi um objetivo conseguido, com companhias israelenses agora a produzirem em zonas industriais da Jordânia, Egito e nos Territórios Ocupados.

Com início em 1993, Israel começou, planejadamente, a substituir os trabalhadores palestinos que ali trabalhavam desde 1967, por mão-de-obra importada da Ásia e do leste da Europa. Ainda que esta mão-de-obra fosse ligeiramente mais cara e tivessem que ser alojados e trazidos para o país eram altamente explorados e, frequentemente, “ilegais” (ainda que com o conhecimento completo das autoridades israelenses). Eles formaram um exército de reserva de força de trabalho ideal pois facilmente podiam ser deportados para o país de origem com base na acusação de permanecerem no país ilegalmente.

Mais importante, os trabalhadores estrangeiros que chegavam em centenas de milhares após os acordos de Oslo significava que a economia israelense não estava mais dependente de trabalhadores palestinos. Em vez disso, o trabalho palestiniano tornou-se uma “torneira” que podia ser aberta ou fechada dependendo da situação política e econômica. Entre 1992 e 1996, o emprego palestino em Israel desceu de 116.000 trabalhadores (33% da força de trabalho palestiniana) para 28.100 (6% da força de trabalho palestina). Os dividendos provenientes do trabalho em Israel desceram de 25% do PIB palestino em 1992 para 6% em 1996. [7] Entre 1997 e 1999, com uma melhoria na economia israelense houve um aumento de trabalhadores israelenses para níveis anteriores a 1993. No entanto, no seguimento da corrente Intifada, o número de trabalhadores desceu drasticamente devido ao fechamento de fronteiras e recusa de autorização de entrada. Desde setembro de 2000 cerca de 75 a 80.000 palestinos perderam o seu trabalho dentro de Israel ou nos colonatos. Este quadro indicia que a força de trabalho palestina em Israel tornou-se uma segunda reserva de força de trabalho, a par com os trabalhadores estrangeiros.

Relação entre a Autoridade Palestiniana e Israel

O ponto capital da estratégia israelense para com a C/ FG é o controle sobre a população palestina sem uma administração militar direta sobre cidades e vilas. Oslo tentou manter o movimento palestino, economia e fronteiras sob controle israelense ao mesmo tempo que a Autoridade Palestiniana (AP) governava os territórios com um poder assentado no acordo dos governos de Israel e dos Estados Unidos. A primeira responsabilidade da Autoridade Palestina era assegurar a “segurança” de Israel – i.e., agir como uma força policial da autoridade ocupante. No sentido colonialista clássico, os palestinianos deveriam poder ser governados por eles próprios, mas cuidadosamente circunscritos ao contexto de uma dominação e controle israelense.

A economia palestina é completamente integrada e dependente da economia israelense. Aproximadamente 75% de todas as importações para a C/ FG vêm de Israel com 95% das exportações destes territórios a terem como destino Israel. O completo controle das fronteiras por Israel significa a impossibilidade para a economia palestina de desenvolver relações comerciais significativas com um terceiro país. A C/ FG é altamente dependente de bens importados, chegando estes a aproximadamente 80% do PIB. Nesta situação de uma produção local muito fraca e de grande dependência de importações, o poder econômico da classe capitalista palestina não surge da produção industrial local sendo antes de natureza mercantil. Os seus lucros surgem dos direitos exclusivos de importação de bens israelenses e do controle de grandes monopólios concessionados aos leais a Arafat. A relação privilegiada com o capital israelense é a característica definidora da burguesia palestina. Desde 1993 a burguesia fundiu-se com seções da burocracia da Autoridade Palestina, formando um pilar importante da governança palestina.

Desde o início do processo de Oslo, a Autoridade Palestina tem estado completamente dependente de Israel, dos Estados Unidos e da Europa na garantia da sua própria existência. Entre 1995 e 2000, 60% da receita total da Autoridade Palestina advém de taxas indiretas coletadas pelo governo de Israel de bens importados do estrangeiro e destinados aos Territórios Ocupados. Estes dinheiros são recebidos pelo governo israelense e depois transferido todos os meses para a Autoridade Palestiniana de acordo com um processo definido no acordo econômico do Protocolo de Paris em 1995. [8] Significa isto que se o governo israelense decidisse reter esse dinheiro – como acontece desde dezembro de 2000 – a Autoridade Palestina encontrar-se-ia numa grave crise fiscal.

As outras fontes maiores de rendimento da Autoridade Palestina são donativos vindos dos Estados Unidos, Europa e governos árabes. Em 2001, estes fundos cobriram cerca de 75% do orçamento para salários da Autoridade Palestina. Sem ele, 122.000 empregados da Autoridade Palestina não teriam sido pagos. Além disto, doadores estrangeiros suportam programas de emergência como o auxílio alimentar, esquemas de criação de emprego e reconstrução de infra-estruturas destruídas. O défice comercial total da C/ FG representa 45 a 50% do PIB, sendo principalmente financiado por ajuda internacional.

Esta relação entre as áreas palestinas e a economia de Israel assim como a natureza mercantil da classe capitalista palestina deu um caráter distintivo à classe operária palestina. A força de trabalho está dividida em três grandes áreas de emprego – trabalhadores em Israel e nos colonatos que são gravemente afetados pela situação vivida, um largo número de empregados no setor público da Autoridade Palestina, e um setor privado dominado pelo pequeno comércio. Não existe, virtualmente, nenhuma classe operária industrial a mencionar na C/ FG.

Enquanto a força de trabalho palestina em Israel tem diminuído de importância para a economia israelense, ela ainda constitui uma proporção significativa da força de trabalho total. Nos meses que antecederam a Intifada em 2000, mais de 20% da força de trabalho palestina da C/ FG (excluindo Jerusalém) trabalhava em Israel ou nos colonatos.

Em 1998, durante a primeira insurreição nos Territórios Ocupados, a proporção da força de trabalho palestina dentro de Israel ascendia a 50%. Portanto, durante doze anos houve uma quebra de 60% na proporção de trabalhadores palestinos a trabalhar para empregadores israelenses. Para onde foram estes trabalhadores?

O maior setor de emprego desde o processo de Oslo tem sido o setor público da Autoridade Palestina, que dá conta de cerca de 25% do emprego na economia local. A proporção da força de trabalho empregada no setor público quase que duplicou desde meados de 1996. Mais de metade dos gastos da Autoridade Palestina é em salários para o setor público.

O terceiro maior setor de emprego é o setor privado, particularmente na área dos serviços. O que distingue este setor é que é esmagadoramente dominado por pequenos negócios familiares. Do território palestino está ausente qualquer grande indústria significativa devido a 30 anos de políticas anti-desenvolvimentistas de Israel. Para cima de 90% do setor privado palestino emprega menos de dez pessoas.

Implicações políticas

A nível econômico, Oslo sustentou o desenvolvimento de uma classe capitalista parasitária estabelecida na confiança com o capital israelense para obter os seus ganhos. Entretanto Israel acabou com a sua dependência da força de trabalho barata palestina através de um fluxo maciço de altamente explorados trabalhadores estrangeiros. Como alternativa, os trabalhadores palestinos tornaram-se um exército de reserva usados ou deitados fora arbitrariamente.

Décadas de políticas anti-desenvolvimentistas e o completo controle sobre o território significa para os trabalhadores palestinianos ou a dependência de um setor público pago pela ajuda internacional, ou a concentração em empresas pequenas e familiares.

Esta estrutura da classe operária palestiniana é altamente significativa em termos de estratégia política. Ainda que a classe operária palestina seja numerosa, não há nenhum setor com peso econômico no sentido de organizar uma estratégia de classe no centro do movimento nacional de libertação palestiniana. Situação que difere, talvez, do exemplo do movimento anti-apartheid na África do Sul, na qual a classe operária organizada – e particularmente os mineiros – foram capazes de desempenhar um papel central no movimento.

A realidade desta estrutura de classes tem uma clara expressão no terreno. Desde abril deste ano, cerca de 700.000 pessoas na Cijordânia têm vivido sob recolher obrigatório na maior parte do tempo. Recolher obrigatório – de fato, prisão domiciliar –, significa que ninguém que viva numa cidade palestina importante possa deixar a sua casa sem a ameaça de ser morto pelo exército israelense. Os dias em que o recolher obrigatório é levantado por algumas horas dão aos residentes tempo suficiente para comprar comida e ver amigos, mas não para manter qualquer atividade produtiva. Num tal contexto o planejamento básico da vida torna-se uma impossibilidade. É impossível saber, de um dia para o outro, se se está em condições de ir trabalhar, de ir à escola ou universidade. O resultado é uma população cuja vida foi colocada em pausa.

A realidade do recolher obrigatório ilustra perfeitamente as mudanças na estrutura de classes tanto israelenses como palestinas, desde Oslo. Numa sociedade capitalista funcionando normalmente, este tipo de situação seria impossível pois levaria à paralisação de todo o setor produtivo em alguns meses. Durante a primeira Intifada, começada em 1988, Israel impôs também toques de recolher obrigatórios regulares em algumas cidades e vilas, mas nunca por um período e à escala atual. Estas medidas, assim como a não ida ao trabalho durante a primeira Intifada causada por greves gerais, levou o chefe do Serviço de Emprego de Israel a apelidar a situação de “traumática” para a economia israelense. Hoje, todos os líderes políticos israelenses apoiam a permanência do recolher obrigatório e defendem a separação econômica.

A estrutura da classe operária palestina afeta profundamente a estratégia política da Intifada. Os conceitos de greves ou outras ações laborais não existem, pois não têm qualquer efeito sobre a economia de Israel e só afetaria os trabalhadores palestinos e suas famílias. Outra sugestão de ação política regularmente levantada durante a Intifada é o boicote aos produtos israelenses. Apesar de algumas tentativas simbólicas, a relação econômica entre as economias israelenses e palestinas torna estas ações virtualmente impossíveis pois a maioria dos produtos são importados de Israel. Não há nenhuma fonte local de produtos diariamente necessários, como cimento, carne, muitos frutos e vegetais ou produtos elétricos. Eletricidade, linhas telefônicas, água e mesmo a Internet palestina é, em última instância, controlada pelo governo israelense.

Está Oslo morto?

Um comentário comum que se ouve nos principais meios de comunicação assim como em meios da Autoridade Palestina e do governo israelense é que a atual Intifada representa o fim do processo de Oslo. Alguns comentadores palestinos acusam Israel de querer destruir a Autoridade Palestina e voltar à chamada Administração Civil israelense que governou a C/ FG até 1993.

O problema com estas afirmações é que, numa análise mais fina, elas têm pouca semelhança com o que está realmente a acontecer no terreno. É importante aqui distinguir entre o que Oslo pretendeu representar e o que foi planejado para atingir.

Se o processo de Oslo é compreendido como uma estratégia para a criação de um estado cantão — pouco importando os apertos de mão nos jardins da Casa Branca —, então é claro que Oslo está longe de estar morto. Durante o último mês, o governo israelense tem levado a cabo um plano com o propósito de expropriar terras na Cijordânia forçando os palestinos a moverem-se para esses cantões. Este plano assemelha-se às reservas edificadas pelo governo sul-africano para a população negra durante os tempos do apartheid. Um muro de nove metros de altura estendendo-se por centenas de quilômetros está sendo construído em torno das cidades do nordeste da Cijordânia de Nablus, Jenin, Qalqilya e Tulkarem. Um muro similar está a ser construído à volta de Jerusalém. Em conjugação com isto, um novo sistema de passagem está a ser implementado, requerendo que cada palestino que deseje ir de uma cidade palestina a outra deva obter uma autorização semanal especial fornecida pelo comandante militar israelense na Cijordânia. Todas as mercadorias para as áreas palestinas têm que passar por um dos três pontos de trânsito sob controle militar israelense. No essencial, a Cijordânia foi dividida em três cantões – norte, centro e sul da Cijordânia – com todos os movimentos de mercadorias ou pessoas entre essas áreas sob controle dos militares israelenses.

Esses três cantões na Cijordânia estão separados por grandes blocos de colonatos e grandes rodovias indisponível aos palestinianos. Placas especiais distinguem condutores israelenses e palestinianos, constituindo outro pilar do sistema de apartheid emergente na Cijordânia.

A população palestina na Faixa de Gaza foi efetivamente separada de qualquer conexão com a Cijordânia durante mais de uma década, constituindo de fato o quarto cantão nos planos israelenses. A Faixa de Gaza está vedada por uma barreira desde há muitos anos e é agora uma das zonas do planeta mais densamente povoadas – com um milhão de pessoas literalmente fechadas em alguns quilômetros quadrados. São mesmo requeridas autorizações dos militares israelenses para os pescadores palestinos que vão ao mar para o ganha-pão.

Para além deste processo estão as alterações econômicas acima delineadas: uma tentativa do capitalismo israelense de impor uma solução política para o conflito que ajudasse a integração de Israel no mercado global; permitisse a liberalização da economia israelense, a redução das despesas militares e a abertura dos mercados de trabalho e de consumidores do Oriente Médio à economia israelense.

O maior impedimento a este processo é constituído pelas massas palestinas, não a AP. O objetivo da atual estratégia israelense não é a destruição da AP mas exatamente o oposto, fortalecendo-a a fim de melhor reprimir a população. Alguns membros da AP irão neste processo, mas não são os indivíduos que são importantes, antes a estrutura como um todo e o seu papel.

É difícil hoje falar de uma “Intifada” no sentido de um movimento popular e de massas. Pelas razões acima mencionadas, há pouca participação das massas no atual levantamento. Há no entanto um forte espírito de resistência reunida na expressão árabe “samideen” – ou inabalável. É por isso que a forma de repressão adotada pelo governo israelense é caracterizada por punições coletivas da população – tácticas destinadas a desmoralizar e a matar à fome a população até levá-la à submissão.

Notas

1. The Declaration of Principles (DOP), commonly called the Oslo Agreement, was signed between the government of Israel and the Palestine Liberation Organization on September 13, 1993. It was the product of secret negotiations between the Israeli government and Palestinian negotiators. Despite the widespread illusion that Oslo was an agreement intended to achieve peace and establish a Palestinian state in the West Bank and Gaza Strip, it was a highly flawed agreement that gave the illusion of Palestinian sovereignty but perpetuated Israeli dominance in all areas as I shall demonstrate later in the article.

2. The Histadrut (General Federation of Workers in Eretz Israel) was the administrative backbone of the pre-state settlement, controlling the colonization effort, economic production and marketing, labor employment, and defense. The Histadrut was not a trade union in the classical sense, instead, its priorities were defined by “national” objectives not the interests of workers. Indeed, in 1960, the General Secretary of the Histadrut Pinhas Lavon characterized the organization, The General Federation of Workers was founded forty years ago by several thousand young people wanting to work in an under-developed country where labor was cheap, a country which rejected its inhabitants and which was inhospitable to new comers. Under these conditions, the foundation of the Histadrut was a central event in the process of the rebirth of the Hebrew People in its father-land. Our Histadrut is a general organization to its core. It is not a worker’s trade union.” Quoted in Haim Hanegbi, Moshe Machover, and Akiva Orr, “The Class Nature of Israel,” in New Left Review 65 (January–February, 1971).

3. For some examples of this analysis, see Gershon Shafir, Land, Labor and the Origins of the Israeli-Palestinian Conflict, 1882–1914 (Cambridge: Cambridge University Press, 1989); Zeev Sternhell, The Founding Myths of Israel: Nationalism, Socialism and the Making of the Jewish State (Princeton University Press, 1998) and Ilan Pappe ed., The Israel/Palestine Question: Rewriting Histories (London: Routledge, 1999).

4. Lewin-Epstein, Noah and Moshe Semyonov, “Occupational Change in Israel: Bringing the Labor Market Back,” Israel Social Science Research 2, no. 2, (1984): 3–18.

5. For detailed discussion on this issue see the work of Jonathan Nitzan and Shimson Bichler, particularly, “From War Profits to Peace Dividends: The New Political Economy of Israel,” Capital and Class, vol. 60 (Autumn 1996).

6. There are recent signs that Israeli big business may be attempting to rebuild the Labor Party as a political force with considerable business support shifting to Haifa’s Labor Mayor Amram Mitzna as a candidate for Labor Party leadership against Ben Eliezer in recent months.

7. World Bank, Trade Options for the Palestinian Economy—Working Paper No. 21 (English), March 2001.

8. The Paris Protocol was an economic agreement signed in 1995 as part of the Oslo process. It gave precise expectations of which goods Palestinians were allowed to export and import, as well as tax regulations and other economic issues.

Adam Hanieh é pesquisador e assistente em organizações de direitos humanos em Ramallah, Palestina.

1 de novembro de 2002

O redescobrimento do imperialismo

Um chamado para reconhecer como o imperialismo, muito longe de estar morto ou ultrapassado, ressurgiu hoje como um motor ativo da ordem mundial capitalista — e precisa ser compreendido para ser combatido.

John Bellamy Foster

Monthly Review Vol. 54 (2002–2003), No. 06 (November 2002)

Tradução / Durante quase todo o século XX, o conceito de “imperialismo” foi excluído do conjunto dos discursos políticos aceitáveis para os círculos dominantes do mundo capitalista. Qualquer referência ao “imperialismo” durante a Guerra do Vietnã, sem importar quão realista fosse, quase sempre era tida como um sinal de que o autor estava no lado esquerdo do espectro político. Em 1971, no “Prefácio” à edição americana do Imperialism in the Seventies [Imperialismo nos Anos Setenta] de Pierre Anime, Harry Magdoff apontava: “Como regra, os corteses acadêmicos preferem não usar o termo ‘imperialismo’. Acham-no de mau gosto e não científico”.

De repente, isso já não é certo em nossos dias. Intelectuais e membros da elite política norte-americana estão abraçando calorosamente uma aberta missão “imperialista” ou “neo-imperialista” dos Estados Unidos, reiteradamente enunciada nos meios escritos mais influentes como o New York Times e o Foreign Affairs. Este ardor imperialista é em muito devido à guerra contra o terrorismo empreendida pela administração Bush, a qual está tomando a forma de conquista e ocupação do Afeganistão e –se suas ambições se concretizarem– também do Iraque. Segundo a Estratégia de Segurança Nacional da administração Bush, não há limites ou fronteiras reconhecíveis ao uso do poder militar para promover os interesses dos Estados Unidos. Frente a esta tentativa de estender o que só pode ser denominado Império Norteamericano, intelectuais e figuras políticas não só estão retornando à idEia de imperialismo, mas também à visão sustentada por seus impulsores do início do século XIX, ou seja, o imperialismo como grande missão civilizadora. As comparações entre os Estados Unidos, a Roma Imperial e o Império Britânico são comuns na imprensa reinante. Tudo de que se necessita para fazer deste conceito algo completamente útil é despojá-lo de suas velhas associações marxistas com a hierarquia econômica e a exploração, por não mencionar o racismo.

Michael Ignatieff, professor de Políticas de Direitos Humanos da Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard, escreveu no New York Times (28 de julho de 2002): “O imperialismo soube ser a carga do homem branco. Isto lhe deu uma má reputação. Mas o imperialismo não deixa de ser necessário porque é politicamente incorreto”. Ao referir-se às operações bélicas no Afeganistão, acrescentava: As Forças Especiais não são trabalhadores sociais. São um destacamento imperial que estende o poder e os interesses norte-americanos na Ásia Central. Chamem-no operações de paz, chamem-no construção de uma nação, chamem-no como queiram, o que está ocorrendo em Mazar é uma política imperial. Em rigor, toda a guerra norte-americana contra o terror é um exercício de imperialismo. Isso pode perturbar aos norte-americanos, que não gostam de pensar que seu país é um império. Mas de que outro modo se podem denominar as legiões de soldados, espiões e Forças Especiais dos Estados Unidos que marcham pelo globo? (Ignatieff, 2002). O general John Ikenberry, professor de Geopolítica e Justiça Global na Universidade do Georgetown, e colaborador habitual do Foreign Affairs, uma publicação do Conselho de Relações Exteriores, sustenta:

Sob a sombra da guerra contra o terrorismo lançada pela administração Bush, estão circulando com força novas idéias em relação à grande estratégia dos Estados Unidos e da reestruturação do mundo unipolar de hoje. Tais ideias demandam um uso unilateral, e inclusive preventivo, da força norte-americana, facilitado se possível por coalizões voluntárias, mas em última instância não constrangidas pelas regras e normas da comunidade internacional. Levadas a extremo, estas noções formam uma visão neo-imperial na qual os Estados Unidos se atribuem o papel de fixar os parâmetros, determinar as ameaças, usar a força, e administrar justiça em escala global (Ikenberry, 2002).

Para o Ikenberry, isso não implica uma crítica. A esse respeito, afirma: “Os objetivos e modus operandi imperiais dos Estados Unidos são muito mais limitados e amenos que aqueles dos antigos imperadores”.

Outras influentes figuras políticas e intelectuais do mainstream, sempre adaptadas à moda, não são menos diretas em seu apoio ao neo-imperialismo. Sebastian Mallaby, colunista do Washington Post e autodenominado “imperialista reticente”, ao escrever no Foreign Affairs (abril de 2002) explica que “a lógica do neo-imperialismo é muito atrativa para que a administração Bush possa resistir a ela”. No “The Case for American Empire” [Argumentos para o Império Americano], publicado no Weekly Standard, Max Boot, um colunista do Wall Street Journal, observa:

Os Estados Unidos enfrentam a perspectiva de ação militar em muitas das mesmas terras onde gerações de soldados coloniais britânicos desenvolveram suas campanhas. Todos esses são lugares onde os exércitos do Ocidente tiveram de aplacar a desordem. Afeganistão e outras turbulentas terras estrangeiras clamam pelo tipo de administração externa ilustrada que alguma vez proveram os ingleses, seguros de si mesmos, com suas calças de montar e seus cascos de safári (Boot, 2001).

Em seu último livro, Warrior Politics [Política do guerreiro], o ensaísta do Atlantic Monthly, Robert Kaplan, argumenta a favor de uma cruzada norte-americana “para levar prosperidade a remotas partes do mundo, sob a suave influência imperial dos Estados Unidos”. O assessor de Segurança Nacional do presidente Carter, Zbigniew Brzezinski, sustenta que a principal tarefa dos Estados Unidos na preservação de seu império consiste em “prevenir conluios e manter a dependência entre os vassalos, manter submissos e protegidos aos tributários, e evitar que os bárbaros se juntem”. Stephen Peter Rosen, titular do Olin Institute for Strategic Studies da Universidade de Harvard, na Harvard Review (maio-junho de 2002), escreveu: “Nosso objetivo [o das forças armadas norte-americanas] não é combater um rival, mas sim manter nossa posição imperial, e manter a ordem imperial”. Henry Kissinger começa seu Does America Need a Foreing Policy? [Os Estados Unidos precisam de uma política externa?], com estas palavras: “Os Estados Unidos gozam de uma proeminência que não alcançaram sequer os grandes impérios do passado”84.

Entretanto, dentro do discurso do establishment há regras para esta reapropriação dos conceitos de “império” e “imperialismo”. As motivações excepcionalmente benévolas dos Estados Unidos devem ser enfatizadas. Aqueles que propõem o novo imperialismo devem limitar-se aos conceitos militares e políticos de império e imperialismo (evitando qualquer sentido de imperialismo econômico). E devem evitar todas as noções radicais que vinculam o imperialismo ao capitalismo e à exploração.

As bases econômicas do imperialismo

O berço da noção de imperialismo econômico, como algo oposto ao imperialismo em geral, foi nos Estados Unidos, pouco mais de um século atrás. Em seu ensaio “The Economic Basis of Imperialism” [“As bases econômicas do Imperialismo”], publicado pela primeira vez na Norh American Review, em 1898, em tempos da guerra Hispano-Norte-Americana, Charles A. Conant concluiu que o imperialismo era necessário para absorver capital excedente frente à escassez de oportunidades de investimentos rentáveis; em outras palavras, para aliviar o que ele denominava problema de “capital congestionado”.

Se os Estados Unidos deverão realmente adquirir posses territoriais, estabelecer capitanias gerais e regimentos, adotar um ponto médio para proteger soberanias nominalmente independentes, ou contentar-se com estações navais e representantes diplomáticos como base para assegurar seus direitos de livre comércio com o Leste, é uma questão de detalhe [...] A partir de seus sentimentos, quem aqui escreve não é partidário do “imperialismo”, mas não teme que esta palavra signifique somente que os Estados Unidos deverão afirmar seus direitos ao livre mercado em todos os velhos países que estão sendo abertos aos recursos excedentes dos países capitalistas e, deste modo, recebendo os benefícios da civilização moderna. Pode-se discutir se esta política suporta o governo direto sobre grupos de ilhas semi-selvagens, mas do ponto de vista econômico da questão não há senão uma opção: ou entrar por algum meio na competição para o emprego de capital e empreendimentos americanos nesses países, ou continuar com a desnecessária duplicação dos existentes meios de produção e comunicações, com a conseqüente superabundância de produtos não consumidos, as convulsões que se seguem da paralisia do comércio, e a constante queda dos lucros sobre os investimentos que tal política negativa trará vinculada (Conant, 1900: 29-30).

No final do século XIX e começo do século XX, os conflitos entre as grandes potências pela partilha da África, a guerra sino-japonesa (1894-1895), a hispano-norte-americana, a sul-africana (Guerra Boer) e a russo- japonesa, assinalaram o começo do novo imperialismo, associado ao capitalismo monopolista, o qual era qualitativamente diferente do colonialismo que o tinha precedido. Isso gerou uma teoria econômica do imperialismo entre os impulsores do imperialismo, que já não o viam como um mero “sentimento”, como enfatiza a análise de Conant. Do mesmo modo, as mudanças no imperialismo logo deram origem a uma análise mais exaustiva, que foi inaugurada com o clássico do John A. Hobson, Imperialism: A Study [Imperialismo: um estudo], publicado em 1902. Hobson era um destacado crítico britânico da Guerra Boer, e desde este ponto de partida desenvolveu sua crítica ao imperialismo. Em um famoso capítulo intitulado “The Economic Taproot of Imperialism” [“A raiz Econômica do Imperialismo], Hobson assinalava:

Cada melhora nos métodos de produção, cada concentração da propriedade e do controle, parece acentuar a tendência [à expansão imperialista]. À medida que uma nação atrás de outra ingressa na economia das máquinas e adota métodos industriais avançados, torna-se mais difícil para seus industriais, mercaderes e financistas dispor rentavelmente de seus recursos econômicos [...] Em todas as partes aparecem poderes produtivos excessivos, capital excessivo em busca de investimento. Todos os homens de negócios admitem que o crescimento dos poderes produtivos em seus países excede o crescimento do consumo, que se podem produzir mais bens que os que podem ser vendidos com lucros, e que existe mais capital que o que pode ser investido rentavelmente. Esta situação econômica é a que forma a raiz do Imperialismo (Hobson, 1938).

O trabalho de Hobson não era socialista. Acreditava que o imperialismo originava-se na posição dominante de certos interesses econômicos e financeiros concentrados, e que as reformas radicais que abordassem a má distribuição da renda e as necessidades da economia doméstica podiam frear o impulso imperialista. Contudo, seu trabalho adquiriria muito mais significação por meio da influência que exerceu sobre as análises marxistas do imperialismo que estavam surgindo nessa época. O mais importante deles foi Imperialismo, fase superior do capitalismo, de Lênin, publicado em 1916. O principal propósito da análise de Lênin era explicar a rivalidade interimperialista entre as grandes potências, as quais haviam conduzido à Primeira Guerra Mundial. Mas no curso de sua análise, Lênin vinculou o imperialismo ao capitalismo monopolista, argumentando que “em sua definição o mais breve possível [...] o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo”. Nesse contexto, explorou um conjunto de fatores econômicos que foram muito além da má distribuição da renda ou dos objetivos de ganho de corporações monopolistas particulares. O capitalismo monopolista era visto como uma nova fase, mais à frente do capitalismo competitivo, na qual o capital financeiro, uma aliança entre as grandes empresas e o capital bancário, dominava a economia e o Estado. A competição não era eliminada, mas continuava principalmente entre um grupo relativamente pequeno de empresas gigantescas que tinham a capacidade de controlar grandes porções da economia nacional e internacional. O capitalismo monopolista, neste sentido, era inseparável da rivalidade interimperialista, que se manifestava basicamente sob a forma de uma luta pelos mercados globais. A resultante divisão do mundo em esferas imperiais e a luta que esta implicava, conduziu diretamente à Primeira Guerra Mundial. A mais complexa perspectiva de Lênin sobre o imperialismo superava o argumento que se centrava simplesmente na necessidade de achar pontos de investimento para o capital excedente. Lênin também pôs ênfase no ímpeto para obter um controle exclusivo sobre as matérias-primas e um controle mais estrito sobre os mercados externos que surgiu no marco das condições globalizantes da fase monopolista do capitalismo.

Análises marxistas posteriores (e radicais não-marxistas) focalizaram-se mais ainda que a de Lênin em alguns dos traços mais gerais do imperialismo, característicos do capitalismo em todas suas fases, tais como a divisão entre centro e periferia, um assunto que tinha sido abordado por Marx. Mas o sentido que Lênin lhe deu –como uma forma nova e mais desenvolvida de imperialismo, associada à concentração e centralização do capital e ao nascimento da fase monopolista–, manteve muita de sua significação em nossa época, que se caracteriza por um capitalismo monopolista em uma fase avançada de globalização. Nesse sentido, o próprio êxito das teorias marxistas do imperialismo, que mostraram a exploração capitalista sistemática da periferia e as condições de rivalidade interimperialista com grande detalhe –de modo que o imperador foi visto em toda sua nudez– foi o que fez com que o termo “imperialismo” superasse os limites toleráveis para o discurso dominante. Enquanto existiu a União Soviética e uma poderosa onda de revoluções antiimperialistas foi evidente na periferia, não houve possibilidade de que o capitalismo abraçasse abertamente o conceito de imperialismo em nome da promoção da civilização. As intervenções militares norte-americanas no Terceiro Mundo para combater as revoluções ou para ganhar controle dos mercados eram, invariavelmente, apresentadas no discurso oficial dos Estados Unidos em termos associados às motivações próprias da Guerra Fria, e não em termos dos objetivos imperiais.

A Era do Imperialismo 

The Age of Imperialism [A Era do Imperialismo], de Harry Magdoff, publicado em 1969, distinguiu-se por ser a tentativa direta mais influente para rebater a visão dominante na política externa dos Estados Unidos durante o período da Guerra do Vietnam, mediante um tratamento empírico da economia do imperialismo norteamericano85.

O trabalho de Magdoff não podia ser efetivamente desqualificado como mera ideologia, porque visava arrancar as roupagens do imperialismo norte-americano, observando sua estrutura econômica do modo mais direto possível, usando para isso estatísticas econômicas dos Estados Unidos. Portanto, atraiu consideráveis ataques por parte do establishment, ao mesmo tempo em que inspirou muitos dos que protestavam contra a guerra.

A Era do Imperialismo representou o retorno da crítica ao imperialismo a um lugar de proeminência no seio da esquerda norte-americana. Ao abordar o que era amplamente visto como uma anomalia na relação dos Estados Unidos com o resto do mundo, originada na existência de uma política externa intervencionista acompanhada por uma aparente “economia isolacionista”, Magdoff demonstrou que a economia dos Estados Unidos, de fato, era algo menos isolacionista. A esse respeito, o autor punha o acento sobre o fluxo de investimentos externos diretos no exterior e seu efeito na geração de um fluxo de lucros. Além disso, criticava o erro comum de comparar simplesmente as exportações ou os investimentos externos das corporações multinacionais com o PIB. Ao contrário, a importância destes fluxos econômicos só podia ser estimada ao relacioná-los com setores estratégicos da economia, como as indústrias de bens de capital; ou ao comparar os lucros do investimento externo com os benefícios dos negócios não-financistas no nível doméstico. Neste sentido, Magdoff contribuiu com informação que mostrava que, em 1950, os lucros dos investimentos externos representavam 10% dos lucros totais (descontados os impostos) das corporações domésticas não-financeiras, enquanto que por volta de 1964 tais lucros tinham crescido até 22%.

Esta obra também foi notável por seus argumentos sobre a expansão financeira internacional do capital americano, apoiada na posição hegemônica do dólar na economia mundial e no crescimento da armadilha da dívida no Terceiro Mundo. Foi assim que Magdoff desenvolveu sua primeira explicação do “processo de fluxo transbordado” inerente à contínua dependência em relação à dívida externa. “Se um país toma emprestado, digamos, US$ 1.000 por ano”, escreveu, “em pouco tempo o pagamento de serviços da dívida será maior que o ingresso de dinheiro de cada ano” (Magdoff, 1969). Se se tomar o singelo caso de um empréstimo anual de US$ 1.000 a 5% de juros “a ser devolvido em cotas iguais durante 20 anos”, disto se segue que no quinto ano quase cinqüenta por cento do empréstimo anual irá ao pagamento dos serviços da dívida; no décimo ano quase 90% do empréstimo será destinado ao pagamento de serviços da dívida; no quinto ano, o fluxo para o pagamento de juros e amortização será maior que o próprio empréstimo; e no vigésimo ano “o tomador estará pagando mais de US$ 1.50 sobre a dívida passada por cada US$ 1 de novo dinheiro que toma emprestado”.

Não seria por acaso possível, perguntava Magdoff, que um país evitasse esta armadilha deixando de tomar dinheiro emprestado ano após ano, e em seu lugar usasse o dinheiro pedido para desenvolver indústrias que gerassem renda para prescindir dos créditos e inclusive cancelar a dívida? Uma boa parte da resposta podia achar-se no fato de que, como o pagamento tem que fazer-se na moeda do país credor, a dívida só poderia ser paga (independentemente da taxa de crescimento) se houvesse suficientes exportações que provessem as divisas necessárias. Já em 1969, muito antes que a dívida do Terceiro Mundo fosse considerada um problema crítico, Magdoff observava que:

O crescimento de pagamento de serviços da dívida do mundo subdesenvolvido cresceu muito mais rápido que suas exportações. Assim, o peso da dívida tem se tornado mais opressivo e, em conseqüência, cresceu a dependência financeira com relação às nações industriais líderes e suas organizações internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (Magdoff, 1969). 

Segundo Magdoff, a essência do imperialismo tal como se manifestou no final do século XX radicava na globalização do capital monopolista sob as condições da hegemonia dos Estados Unidos. Nas páginas finais de A Era do Imperialismo, lê-se:

A típica empresa internacional de negócios já não se limita a uma gigantesca empresa petroleira. Pode ser tanto General Motors ou General Electric, que têm entre um 15 e 20% de suas operações em negócios externos e fazem todos seus esforços para incrementar tais percentagens. O objetivo explícito que perseguem essas empresas internacionais é obter o mais sob custo de produção por unidade, a escala mundial. Também é seu objetivo, embora não o diga abertamente, alcançar o topo no movimento de fusões no Mercado Comum Europeu e controlar uma parte tão grande do mercado mundial como a que têm no mercado americano (Magdoff, 1969).

A maior parte dos ensaios do livro de Magdoff, Imperialism: From the Colonial Age to the Present [Imperialismo: da Época Colonial ao Presente], publicado em 1978, versa sobre as falsas concepções da história do imperialismo. A esse respeito, foi de grande importância a resposta de Magdoff à pergunta: “O Imperialismo é necessário?”. Como réplica a afirmação estendida de que o capitalismo e o imperialismo eram categorias completamente separadas, e que este último não era necessariamente um atributo do primeiro, Magdoff argumentou que o capitalismo foi um sistema mundial desde seus primórdios, e que a expansão imperialista em um sentido amplo foi parte do sistema, tanto como a busca de lucros. Também polemizou com aqueles expoentes da esquerda que pretendiam gerar uma análise do imperialismo moderno mediante uma teoria particular das crises econômicas ou da necessidade de exportação de capital, em vez de reconhecer que o imperialismo era intrínseco às tendências globalizadoras do capitalismo desde seu princípio. Apesar da importância das leis econômicas do movimento do capitalismo na geração do imperialismo moderno, devia evitar-se qualquer explicação simples, mecânica e estreitamente econômica (separada de fatores políticos, militares e culturais). Em troca, as fontes últimas deviam buscar-se no desenvolvimento histórico do capitalismo a partir do século XVI. “A eliminação do imperialismo”, concluía Magdoff, “requer a derrocada do capitalismo” (Magdoff, 1978).

Vigiando o conceito de imperialismo

A resposta mais corrente a esses argumentos e a seus derivados consistiu em colocar o termo “imperialismo” (na medida em que estava vinculado ao capitalismo) cada vez mais por fora do reino dos discursos aceitáveis. Assim, foi caracterizado como um termo puramente ideológico. Ao mesmo tempo, houve tentativas de isolar especificamente o termo “imperialismo econômico”, dissociando-o –mediante o método estreito e compartimentalizador da ciência social convencional–, do imperialismo político, do imperialismo cultural, etc., para depois submetê-lo a uma crítica especial86.

86 O exemplo mais claro disto é Steven J. Rosen e James R. Kurth, Testing Theories of Economic Imperialism (1974). Em um ensaio crítico nesse volume, Harry Magdoff concluiu que um “quadro analítico [que] pusesse em compartimentos separados aspectos chave do problema do imperialismo, que são na verdade inseparáveis [seria equivocado]. A tentativa de estabelecer uma diferenciação clara entre temas militares, políticos e econômicos leva a ignorar o mais essencial: a interdependência e interação mútua desses fatores. Tal modo de pensar –incluindo o uso da abstração ‘interesse nacional’– é bastante tradicional na ciência social ortodoxa, um fato que de muito apresenta inabilidade histórica de enfrentar tanto o crescimento e a significância do imperialismo ou das [novas] raízes imperialistas no capitalismo monopolista” (Magdoff em Rosen e Kurth, 1974: 86).

Este ataque contra as posturas marxistas e radicais sobre o imperialismo foi tão eficaz que, em novembro de 1999, Prabhat Patnaik escreveu um artigo para o Monthly Review intitulado “O que ocorreu com o Imperialismo?”, no qual expôs a questão do quase completo desaparecimento do termo nas análises da esquerda nos Estados Unidos e Europa. Era particularmente assombroso que isto tivesse ocorrido em face às intervenções militares norte-americanas (tão abertas como encobertas) em países como Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Granada, e Panamá, e apesar do papel predatório das multinacionais em todo mundo (por exemplo, na Índia, onde a Union Carbide matou milhares de pessoas). Dizia Patnaik: “Os marxistas mais jovens mostram-se confusos quando se menciona este termo. Os assuntos prementes de nossos dias […] discutem-se sem referência alguma ao imperialismo […] O tema virtualmente desapareceu das páginas das publicações marxistas, especialmente naquelas com menor tradição”. A história e a teoria do imperialismo, assinalava Patnaik, já não são temas de discussão.

É possível observar o significado histórico deste assunto na cisão ideológica que ocorreu, primeiro, como resposta às lutas sobre a globalização e as novas Guerras Balcânicas, e mais tarde em relação aos ataques de 11 de setembro ao World Trade Center de Nova Iorque e ao Pentágono, e a subseqüente guerra contra o terrorismo. Por um lado, os intelectuais inscritos nas correntes dominantes –particularmente ante a ampliação das operações militares dos Estados Unidos e da OTAN, mas também em resposta a assuntos tais como o apoio norte-americano à Organização Mundial do Comércio (OMC)–, mostraram-se mais dispostos a se reapropriarem do conceito de imperialismo com a intenção de lhe outorgar mais brilho ao que vinha sendo apresentado como a hegemonia benéfica ou o “imperialismo brando” da única superpotência mundial. Por outro lado, os pensadores pós-marxistas e ex-radicais com freqüência assumiram a tarefa de criticar qualquer uso do conceito de imperialismo no sentido marxista clássico, desligando-o do capitalismo, da exploração global, e do imperialismo econômico, e argumentando que, dado que o termo era inaceitável no discurso elegante, devia ser descartado.

Um exemplo disto é o artigo de Tom Barry, intitulado “A Return to Interventionism” [“Um retorno ao intervencionismo”], que apareceu online no Foreign Policy in Focus, em 11 de março de 2002, em aparente resposta aos ataques de 11 de setembro e à guerra contra o terrorismo. Barry, que em seus escritos prévios dos anos 1970 não tinha vacilado em adotar o conceito de imperialismo, sustentava:

Para alguns, especialmente na nova e velha esquerda, esta [a era do Vietnam] foi “Era do Imperialismo”, uma era na qual os Estados Unidos estiveram assegurando seu controle sobre os recursos e os estados do mundo “em desenvolvimento”. Havia debilidades analíticas nesta crítica antiimperialista, especialmente porque não explicava muito bem por que os Estados Unidos estavam tão profundamente envolvidos em lugares de, aparentemente, tão pouca importância econômica, como o Vietnam do Sul. Tampouco era de grande ajuda a crítica à América do Norte imperial para explicar o lado idealista do intervencionismo norteamericano, a compulsão wilsoniana de levar a liberdade e a democracia ao resto do mundo. Se o objetivo era reformar a política externa dos Estados Unidos, criticando este país como um poder imperial manifesto, isto não tinha efeito nem sobre os fazedores de políticas norte-americanos nem sobre o público. O que sim parecia funcionar, como modo de suavizar as tendências da política externa norteamericana que respaldavam a repressão e a intervenção militar no Terceiro Mundo, era a crítica a partir dos direitos humanos (Barry, 2002).

A partir dessa perspectiva, houve uma razão que bastou para que se abandonasse completamente o tema: o fato de que os “fazedores de políticas dos Estados Unidos”, isto é, os representantes do sistema de poder dominante, não terem sido atraídos ao conceito de imperialismo. Adicionalmente, esteve presente o fato de que uma população doutrinada não viu no termo nenhuma relação com a história norte-americana, em parte porque não tinha conhecimento das centenas de intervenções militares nas quais se envolveram os Estados Unidos, nenhuma compreensão mais ampla do significado do termo imperialismo. Depois de tudo, não é certo que os Estados Unidos procuram, primordialmente, com exceção de alguns deslizes aqui e lá, “levar a liberdade e a democracia ao resto do mundo”? Contudo, ao mesmo tempo em que aparecia este artigo, os exércitos norte-americanos estavam realizando operações bélicas no Afeganistão, construindo bases na Ásia central, e lançando intervenções nas Filipinas e outros lugares. Ao mesmo tempo em que a noção de uma “Era do Imperialismo” estava sendo criticada pela esquerda norte-americana, os comentaristas do sistema e as figuras políticas estavam elogiando a nova era do imperialismo liderada pelos Estados Unidos.

Uma crítica mais influente sobre a noção de imperialismo foi lançada por Michael Hardt e Antonio Negri no livro Empire (2000), publicado pelo Harvard University Press. Segundo Hardt e Negri, o imperialismo culminou com a guerra do Vietnam. Para estes autores, a Guerra do Golfo, de 1991, na qual os Estados Unidos lançaram seu poder militar sobre o Iraque, foi realizada “não como uma função de suas próprias motivações nacionais [dos Estados Unidos], mas sim em nome do direito global […] A força policial mundial dos Estados Unidos opera, não com um interesse imperialista, mas sim com um interesse imperial [quer dizer, em função dos interesses de um Império sem centro e sem fronteiras]. Neste sentido, a Guerra do Golfo anunciou, como afirmava George Bush [pai], o nascimento de uma nova ordem mundial” (Hardt e Negri, 2000).

Em outra passagem do livro, os autores declaravam: “Os Estados Unidos não constituem –e, na verdade, nenhum outro Estado-nação pode constituir hoje– o centro de um projeto imperialista”. Precisamente esta posição foi a que recebeu maior ênfase nos generosos elogios ao livro de Hardt e Negri que se derramaram desde lugares tais como o New York Times, a revista Times, o London Observer e Foreign Affairs87. Tratase de uma posição que nega a relação entre os Estados Unidos e o imperialismo em seu sentido clássico, em seu sentido de exploração, e além disso considera que a extensão da soberania e o poder norte-americanos refletem o “império” e o papel civilizador “imperial” (a extensão da Constituição norte-americana em escala global).

Recentemente, Todd Gitlin, ex-presidente do Students for ao Democratic Society e atual professor de jornalismo e sociologia em Columbia, em um artigo para a página de opinião editorial do New York Times (5 de setembro de 2002), escreveu:

A esquerda norte-americana […] teve sua versão do unilateralismo. A responsabilidade pelos ataques [de 11 de setembro] devia, de algum modo, imputar-se ao imperialismo norte-americano, porque toda responsabilidade deve imputar-se ao imperialismo norte-americano, o qual constitui um perfeito eco da idéia da direita de que todo o bem é e deveria ser de algum modo norte-americano. Os intelectuais e ativistas da extrema esquerda não podiam sentir-se muito afligidos com a compaixão e a defesa […] Como sabiam pouco sobre a rede Al Qaeda, classificaram-na sob o rótulo de antiimperialismo, e aos ataques norteamericanos contra os talibans sob o rótulo do Pântano do Vietnam. Para eles, não agitar a bandeira se converteu em uma causa premente […] Os liberais pós-Vietnã agora têm uma oportunidade, livres como estão de nossa ansiedade sessentista pela bandeira e de nossa reflexividade negativa, de abraçar o patriotismo liberal que não pede desculpas e não se acovarda (Gitlin, 2002).

Segundo Gitlin, escrevendo de um lugar da imprensa do establishment e que veio publicando artigos que desavergonhadamente elogiam um “imperialismo” norteamericano supostamente benigno, “toda a acusação de ‘imperialismo norte-americano’ foi um tipo de distorção extrema introduzida pela esquerda”. Não importa que o estabelecimento de bases militares norte-americanas permanentes na Arábia Saudita, como conseqüência da guerra dos Estados Unidos contra Iraque em 1991, tenha sido o fator que induziu os fundamentalistas islâmicos a sair da Arábia Saudita (incluída a própria Al Qaeda) e voltar-se para os Estados Unidos. Não importa que Osama bin Laden tenha obtido seu treinamento terrorista nas guerras patrocinadas pelos Estados Unidos que os fundamentalistas islâmicos lideraram contra os soviéticos no Afeganistão. Não importa que Saddam Hussein tenha sido um ex-cliente imperial dos Estados Unidos em tempos da guerra Irã-Iraque (e inclusive até ao momento de sua invasão ao Kuwait). E não importa que a Arábia Saudita e Iraque ocupem o primeiro e o segundo lugar a nível mundial por suas reservas conhecidas de petróleo, ou o fato de que o Afeganistão seja a porta da frente da Ásia central, uma das áreas mais ricas do mundo em reservas de petróleo e gás natural. Finalmente, não importa que os Estados Unidos agora tenham bases militares na Ásia central e estejam dispostos a ficar. De algum modo, apesar de tudo isto, e apesar do fato de que o “suposto imperialismo” atualmente está sendo aclamado amplamente no mainstream, a esquerda não se permite tocar no tema do imperialismo norte-americano como parte de uma crítica à política externa dos Estados Unidos. Se o imperialismo está sendo redescoberto, isso só é feito dentro de certos limites ideológicos circunscritos.

Ricos mais ricos e pobres mais pobres, no nível global

Um aspecto essencial da redescoberta do imperialismo nos setores predominantes consiste na justificação do domínio político e militar dos Estados Unidos, separando-o de qualquer noção sobre a crescente brecha em nações ricas e pobres, tal como o enfatizam as teorias marxistas e o destaca o novo movimento antiglobalização e anticapitalista. Um sinal do impacto deste novo movimento anticapitalista global está dado pela medida em que o establishment global e seus aliados têm sentido a necessidade de defender seus próprios antecedentes. Uma boa parte desta defesa consiste em afirmar que os militantes antiglobalização não sabem do que estão falando. Dizem-nos que se o imperium norte-americano parecer mais dominante que nunca, isto não tem nada a ver com a exploração econômica.

Um exemplo ilustrativo pode ser observado no artigo que escreveu Virginia Postrel, uma das colunistas estáveis em temas econômicos do New York Times, em 15 de agosto de 2002. O título era muito atrativo: “The Rich Get Richer and the Poor Get Poorer. Right? Let’s Take Another Look” [“Os ricos se fazem mais ricos e os pobres se fazem mais pobres. Verdade? Vamos dar mais uma olhada”]. O artigo estava pensado para aparecer antes da Cúpula sobre Desenvolvimento Sustentável em Johannesburg, em agosto e setembro de 2002, e seu objetivo era o de refutar Noam Chomsky, de quem se referia a seguinte entrevista: “A desigualdade está crescendo durante o período globalizador, no interior dos países e entre os próprios países”. Segundo Postrel, Chomsky não só estava totalmente equivocado, mas também estava o Relatório sobre Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, do ano 1999, o qual chegava à mesma conclusão com base na informação sistematizada pela própria ONU.

Qual era o engano nas afirmações de Chomsky e das Nações Unidas, segundo Postrel e outros defensores da globalização e da liberalização? A informação, insistem, tem muitas falhas.

O relatório das Nações Unidas, e outros informes também, observam as brechas de renda entre os países mais ricos e os mais pobres, e não entre indivíduos ricos e pobres. Isto significa que indivíduos previamente pobres em países enormes poderiam tornar-se muito mais ricos e quase não aparecer nas estatísticas (Postrel, 2002).

Desta maneira, os defensores neoliberais do sistema global mesclam e confundem duas questões separadas: a brecha entre países e a desigual distribuição da renda na população mundial. Em rigor, há uma diferença legítima entre ambos os assuntos. O tamanho dos países é irrelevante quando se examina a brecha entre países. A economia mundial funciona através de diferentes Estados. A história do capitalismo se caracteriza por uma crescente brecha em Estados ricos e pobres, uma brecha que se distingue pelo fato de que os Estados ricos crescem, em boa medida, por meio da exploração de outras nações. Às vezes, um Estado grande é o que explora um grupo de Estados menores. Em outros casos, trata-se de um Estado pequeno que extrai excedente de Estados muito maiores. Pense-se no atual Império Norte-americano e no antigo Império Britânico.

Os ideólogos do capitalismo global, dedicados a demonstrar o caráter benigno do imperialismo norte-americano, insistem em que a globalização e a liberalização conduzirão à igualdade econômica entre nações, grandes e pequenas. Os dados que a ONU exibe, entretanto, provam conclusivamente que isto não ocorreu. Ao contrário, a brecha entre Estados se alargou.

Ainda assim, o New York Times não se importa. Importam-lhe as pessoas. Postrel assinala:

Nas três últimas décadas […] os maiores países do mundo, China e Índia, avançaram economicamente. Também o têm feito outros países asiáticos com populações relativamente grandes. O resultado é que 2,5 bilhões de pessoas viram aumentar seus padrões de vida em direção ao do 1 bilhão de pessoas que vivem nos países já desenvolvidos, decrescendo assim a pobreza global e incrementando a igualdade global. Do ponto de vista dos indivíduos, a liberalização econômica foi um enorme êxito (Postrel, 2002).

Que exemplos! Vejamos a contribuição da Índia à redução da pobreza global. Segundo o mais recente relatório do Banco Mundial, 86% da população da Índia vive com menos de dois dólares diários88 . Em 1983, o 10% com maiores ingressos na Índia representavam o 26,7% da renda e dos gastos; em 1991, sua participação era de 28,4%, e em 1997 se elevou para 33,5%. Dificilmente se pode dizer que isso é um sinal de crescente igualdade! (Banco Mundial, World Develpment Report, edições de 1990, 1996 e 2003)89.

Consideremos agora o caso da China. Três décadas atrás, a China era a nação mais desigual do mundo. Então, seus líderes políticos tomaram outro caminho para perseguir seus objetivos. Em lugar da prévia prioridade que lhe atribuía à igualdade, disse aos cidadãos que enriquecer era bom. Respirou-se a iniciativa privada, ampliou-se a abertura aos investimentos estrangeiros, o Estado chinês se sentiu cômodo com as multinacionais norte-americanas, foram dadas as boas-vindas à globalização, entrou o Banco Mundial, e recentemente a China se converteu em membro da OMC.

O resultado foi exatamente o contrário do que o dogma prevalecente nos teria feito esperar, e que Postrel e outros defensores da globalização neoliberal simplesmente assumem como verdadeiro. A China, que alguma vez se destacou por sua devoção à igualdade, tornou-se crescentemente desigual. Tanto é assim que por volta de fins dos anos noventa, a distribuição de renda na China se assemelhava bastante à má distribuição da renda dos Estados Unidos (veja a Tabela 1).

Tabela 1

Distribuição da renda nos Estados Unidos e China

Participação percentual na renda ou no consumo*


10% inferior
20% inferior
10% superior
20% superior
China
2,4
5,9
30,4
46,6
Estados Unidos
1,8
5,2
30,3
46,4

* Dependendo da informação disponível, os economistas do Banco Mundial calculam a distribuição da renda por meio da renda ou do consumo.

Fonte: World Bank, World Development Report 2000/2001. As informações dos Estados Unidos correspondem a 1997; as da China, a 1998.

De fato, existe um robusto conjunto de dados sobre a distribuição da renda em escala mundial. A informação foi desenvolvida mediante um exaustivo e muito competente estudo realizado pelo Branco Milanovic, um economista do Banco Mundial. Milanovic se internou na incrível quantidade de informação estatística dos computadores do Banco Mundial e seu estudo deu origem a um panorama sobre a distribuição de renda da população mundial em 1988 e 1993. Demonstra que, em rigor, a desigualdade aumentou durante esses anos (veja a Tabela 2).

Tabela 2

Distribuição da renda mundial: porcentagens acumuladas de população e rendas

Participação percentual na renda ou no consumo*

Percentual acumulado da população mundial
Percentual acumulado da renda mundial

1988
1993
10% inferior
0,9
0,8
20% inferior
2,3
2,0
50% inferior
9,6
8,5
75% inferior
25,9
22,3
85% inferior
41
37,1
10% inferior
46,9
50,8
5% inferior
31,2
33,7
1% inferior
9,3
9,5


Fonte: Branko Milanovic (World Bank, Development Research Group), "True World Income Distribution, 1988 and 1993: First Calculation Based on Household Surveys Alone", The Economic Journal , 112 (January 2002), pp. 51-92.

É notável que, em 1993, o 1% mais rico recebeu uma parte maior (9,5%) da renda mundial que os 50% mais pobre, enquanto que 5% mais rico, nesse mesmo ano, tinham uma participação na renda que excedia com acréscimo a de 75% mais pobre e estava aproximando-se da renda do 85% mais pobre. (Milanovic explorou a informação com muito mais detalhe do que se apresenta aqui, e concluiu que 1% mais rico tinha a mesma renda que 57% mais pobre das pessoas deste planeta). Estes números são exatamente o que alguém poderia esperar da história completa do capitalismo, o qual prospera mediante uma ampliação da brecha entre ricos e pobres, uma lei do sistema que agora opera sobre um espaço global. Esta exploração global é o núcleo do imperialismo, que é tão básico para o capitalismo, e tão inseparável, como o é a própria acumulação. Mas isto não é tudo em relação ao imperialismo, o qual representa uma história complexa que contém fatores políticos, militares e culturais (raciais). A partir de uma perspectiva marxista, o imperialismo econômico não está realmente separado destes outros elementos, que são, igualmente, parte do desenvolvimento capitalista global. Do mesmo modo que a busca de lucros é o mantra do imperium norteamericano, seu poder militar e político está apontado para estender esta busca e para ampliar seu alcance em escala mundial, colocando em todo momento e sempre em primeiro lugar os interesses das corporações e do Estado norte-americanos.

O redescobrimento do imperialismo no seio do mainstream só significa que na atualidade estes processos estão sendo apresentados, especialmente por parte dos círculos governantes nos Estados Unidos, como inevitáveis, como uma realidade da qual não se pode escapar. Entretanto, é claro que a revolta contra esta nova fase do imperialismo apenas começou. A maior parte da população mundial conhece aquilo que os comentaristas norte-americanos convenientemente esquecem, isto é, que o imperialismo dos Estados Unidos se parece com o dos impérios exploradores do passado, e provavelmente sofrerá o mesmo destino, com revoltas internas e com os “bárbaros” a suas portas.

Notas:

84 As citas de Boot, Brzezinski, Kaplan, Kissinger, Mallaby, e Rosen estão tomadas de Philip S. Golub (2002). Veja também Martin Walker (2002).

85 As obras de Magdoff The Age of Imperialism: The Economics of U.S. Foreign Policy (1969) e, Imperialism: From the Colonial Age to the Present (1978) foram publicados pela Monthly Review Press. A discussão que se segue acerca do trabalho de Magdoff pode ser encontrada em John Bellamy Foster (2000: 385–94).

87 Para um tratamento mais detalhado do livro de Hardt e Negri sobre esse tema, veja John Bellamy Foster (2001: 1–9).

88 Esta informação é para o ano de 1992, o ano mais recente para este tipo de informação que está disponível. O limite de US$ 2 está baseado na paridade do poder de compra. Isto significa que os dados foram ajustados para determinar que quantidade de um determinado encargo de mercadorias de consumo poderia ser comprada por US$ 2, eliminando os efeitos das diferenças entre preços de país em país.

89 Estes dados foram extraídos das tabelas do Banco Mundial sobre a distribuição de renda – em edições recentes o World Development Report intitulado “Poverty and Income Distribution.” Ao calcular os percentuais de distribuição de renda, o Banco Mundial baseia-se em pesquisas em domicílio de renda ou despesas compiladas pelos vários países. No sentido de assegurar que os dados sejam compatíveis, o pessoal do Banco Mundial usa sempre quando possível as despesas domésticas ao invés de dados de renda. No caso da Índia, os dados referidos estão baseados nos gastos domésticos per capita.

Bibliografia

Barry, Tom 2002 “A Return to Interventionism” em Foreign Policy in Focus, 11 de março. Em .

Boot, Max 2001 “The case for American Empire” em Weekly Standard, Vol. 7, Nº 5, 15, outubro.

Golub, Philip S. 2002 “The Dynamics of World Disorder. Westward the Course of Empire” em Le Monde Diplomatique, septembro. Edição em inglês em .

Foster Bellamy, John 2000 “Harry Magdoff,” em Arestis, Phillip e Sawyer, Malcolm A Biographical Dictionary of Dissenting Economists (Northampton, Mass.: Edward Elgar).

Foster Bellamy, John 2001 “Imperialism and ‘Empire’” em Monthly Review (Londres) Nº 53, dezembro.

Hardt, Michael e Negri, Antonio 2000 Empire (Cambridge, Mass: Harvard University Press).

Hobston, John 1938 (1902) Imperialism. A Study (Londres: Georg Allen & Unwin).

Ignatieff, Michael 2002 “Barbarians at the Gate?” em The New York Review of Books, 28 de julho.

Ikenberry, John 2002 “America’s Imperial Ambition” em Foreign Affairs, Vol. 81, Nº 5, setembro-outubro.

Jalée, Pierre 1971 El Imperialismo en 1970 (México: Siglo XXI).

Magdoff, Harry 1969 The Age of Imperialism: The Economics of U.S. Foreign Policy (Nova Iorque: Monthly Review Press).

Magdoff, Harry 1978 Imperialism: From the Colonial Age to the Present (Nova Iorque: Monthly Review Press).

Milanovic, Branko 2002 “True World Income Distribution, 1998 and 1993: First Calculation Base on Household Survey Alone” em The Economist Review, novembro.

Patnaik, Prabhat 1990 “Whatever Happened to Imperialism?” em Monthly Review, novembro.

Postrel, Virginia 2002 “The Rich Get Rich and the Poor Get Poor Right? Let’s Take Another Look” em The New York Time, 15 de agosto.

Rosen, Steven J. e Kurth, James R. 1974 Testing Theories of Economic Imperialism (Lexington, Mass.: Lexington Books).

Walker, Martin 2002 “America’s Virtual Empire” em World Policy Journal, Vol. 19, verão.

Este texto foi originalmente escrito como introdução aos Ensaios sobre o imperialismo e a globalização, de Harry Magdoff, que deverá ser publicado na Índia pela Cornerstone Publications.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...