27 de setembro de 2012

Entre os alauítas

Os alauítas são uma das várias minorias na Síria, mas sempre foram vistos como um caso especial.

Nir Rosen


Vol. 34 No. 18 · 27 September 2012

Tradução / O que define o coração da Síria alawita são as cerimônias fúnebres, os funerais. Em Qirdaha, na montanhosa província da Latakia, terra natal da família Assad, vi dois policiais, com motocicletas adornadas com flâmulas com a imagem de Bashar-al-Assad, que subiam uma ladeira. Faziam a escolta de uma ambulância que conduzia o corpo de um tenente-coronel do Exército Sírio. Homens postados na calçada, ao meu lado, davam tiros de metralhadora para o alto, homenagem ao morto. Meus anfitriões e intérpretes locais davam sinais de embaraço. Prefeririam que eu não assistisse àquelas manifestações; disseram que era primeira vez que acontecia. “É o enterro de um mártir”, disse um deles. – “Então, para nós, é como um casamento”. Crianças com uniformes escolares e professores também postados nas calçadas, jogavam arroz e pétalas de flores na direção do cortejo. Cantavam “Só há um Deus e Deus ama os mártires”. Centenas de pessoas vestidas de negro andavam pelas ruas da cidade na direção do santuário local, para a cerimônia fúnebre. De todos os lados, ouviam-se cânticos de “Bem-vindo, oh mártir. Queremos Assad! Todos queremos Assad!”

Era abril, sexto mês de minha viagem pela Síria. Depois que saímos dali, chegaram notícias de outro funeral, ali perto, na vila de Ras al-Ayn, perto da costa. Uma vila de 700 habitantes já tinha então sete mártires, soldados do Exército Sírio; seis desaparecidos ou capturados; e muitos feridos.

“Todos os dias enterramos mártires”, diz um oficial. “Sacrificaram-se pela Síria”. Um homem, ao lado, falou sobre “os crimes deles”; “eles” mataram o soldado porque o soldado era alawita. Um dos meus guias reclama. Diz que não deve usar termos sectários sobre o conflito. “A oposição não nos deixou escolha” – diz um soldado. “Em matéria de negociação, só querem matar”.

Os alawitas – a seita xiita ortodoxa que é a religião dos Assads, cujos crentes permanecem na maioria fiéis ao presidente e ao governo – são cerca de 10% da população. A maioria dos sírios – cerca de 65% – são árabes sunitas. Os alawitas são uma das várias minorias, como os curdos sunitas e cristãos, os drusos, os xiitas não alawitas e os ismailis. Mas os alawitas sempre foram vistos como caso especial.

Os alawitas pouco conhecem dos fundamentos teológicos da própria religião, que é assunto de estudo só por especialistas iniciados. Mas a crença na transmigração das almas, na reencarnação, e na divindade de Ali, primo do Profeta – numa trindade constituída de Ali, Maomé e um de seus companheiros, Salman al Farisi – põem os alawitas em ponto bem distante do centro da curva do Islã dominante. Para muitos alawitas, a religião é menos uma fé rigorosa e impositiva, que uma expressão da própria cultura do grupo.

A identidade alawita gera algum complexo de inferioridade e medo da dominação sunita. Os alawitas gostam de reencenar a história da própria opressão. “O destino dos alawitas jamais foi invejável” – escreveu a historiadora palestina Hanna Batatu. – “Sob os otomanos, foram abusados, vilipendiados e degradados por vários tipos de exclusão; não poucas vezes, suas mulheres e crianças foram capturadas e oferecidas à venda”. Foram praticamente servos dos senhores feudais sunitas que os otomanos impuseram. Só em 1920, quando começou o mandato francês, o poder da elite sunita foi reduzido, e as minorias, entre as quais os alawitas, começaram a gozar de alguma precária mobilidade social. Os alawitas muito reivindicaram, sem sucesso, que os franceses lhes dessem estado à parte, que os protegeria do domínio dos sunitas.

Para os alawitas, a doutrina pan-arabista do Partido Ba’ath, que tomou o poder mediante um golpe, em 1963, foi o meio que encontraram para superar uma identidade sectária. O exército e os empregos no funcionalismo público deram-lhe meios para escapar das vilas empobrecidas. Rapidamente, pessoas de todos os tipos, emigrados do campo para as cidades, mas, sobretudo, alawitas, passaram a dominar os escalões iniciais do exército, os corpos de oficiais e as academias militares. Em 1971, Hafez al-Assad, alawita e ex-piloto da força aérea, já então Ministro da Defesa da Síria, comandou um golpe contra um rival Ba’athista. Quando Hafez morreu em 2000, depois de permanecer trinta anos no poder, seu filho Bashar foi empossado na presidência. Naquele momento, os alawitas haviam-se convertido, de minoria perseguida e marginalizada, em grupo protegido pelo Estado; e o Estado, por sua vez, havia-se convertido em núcleo da identidade alawita.

“Estímulo poderoso para tentar construir a coesão na atual conjuntura, é o grave temor, entre os alawitas de todos os níveis e escalões da sociedade, de que os alawitas sofrerão consequências muito graves, se o atual regime entrar em colapso” – escreveu a historiadora Batatu, em 1981.

Historicamente, os alawitas sempre se mantiveram à margem do Islã que Assad-pai teve de insuflar na Síria, na “islamização” indispensável para que a maioria sunita o aceitasse como presidente da Síria. Os alawitas veem-se como mais “liberais” e mais seculares que os muçulmanos em geral. Podem consumir bebidas alcoólicas; homens e mulheres usam roupas ocidentais; e homens e mulheres interagem livremente em todos os espaços públicos. Não raras vezes, suas opiniões divergem completamente da opinião dos sunitas, mais conservadores. Os alawitas lembram o levante da Fraternidade Muçulmana nos anos 1980s como tempo de violência, quando o regime lutou contra terroristas, até esmagá-los; para os sunitas, foi tempo em que o regime perseguiu brutalmente os sunitas, coletivamente. Naqueles dias, era difícil encontrar um sunita, membro da oposição, que não tivesse perdido um tio, ou que não tivesse pai ou avô na cadeia, preso durante a repressão que se seguiu ao levante coordenado pela Fraternidade Muçulmana. Até agora, a oposição nada disse sobre o que será feito das centenas de milhares de prisioneiros que permanecem nas prisões, no caso de o regime de Assad cair. Os alawitas entendem que têm bons motivos para ter medo.

Na província litorânea de Tartus e em outras partes da região em que vivem os alawitas, foram instalados incontáveis novos postos de controle e revista, comandados por grupos leais a Assad, pelo Exército Sírio ou por membros paramilitares de comitês de resistência popular, em que se misturam uniformes militares e trajes civis. O interior da região armou a própria defesa.

Estive em maio na cidade de Xeique Badr, nas montanhas da província de Tartus. Ali haviam sido mortos 43 membros da resistência local; sete haviam sido capturados, ou eram dados como desaparecidos. Quando eu entrevistava o prefeito, em seu gabinete, veio a notícia de que acabava de chegar mais um soldado ferido. O primeiro mártir da cidade de Xeique Badr foi morto em Daraa, em abril de 2011, um mês depois de iniciado o levante. O mais recente, um coronel morto em Damasco, havia sido enterrado dois dias antes da minha chegada.

A cidade é conhecida por ser terra natal do Xeique Saleh al-Ali, herói da luta anticolonial, que lutou contra os franceses. “Num famoso discurso, ele rejeitou a ideia de estado alawita independente, porque amava a Síria” – disse-me o prefeito, citando de memória partes daquele discurso; ao lado, Abu Haidar, homem da segurança, ouvia. “Não acreditamos em Hafez al-Assad porque fosse alawita, mas porque foi grande patriota” – disse ele. – “Que governo permaneceria no poder por 40 anos, sem o consentimento do povo?”. O prefeito reagiu estremeceu, quando lhe perguntai como responderia a novo presidente que a Síria viesse a ter. Como a maioria dos alawitas que encontrei, não conseguem sequer imaginar governo na Síria, sem algum Assad. Um dos homens que assistia à entrevista perguntou como era possível que – na Líbia, na Tunísia, no Egito, na Arábia Saudita e em toda a parte – o ocidente apoiasse islamistas em vez de “movimentos mais seculares e mais avançados”?

O prefeito, como muitos apoiadores do regime de Assad, acredita que esteja em curso na Síria uma conspiração de fundamentalistas islamistas.

Para eles, os levantes na Tunísia, no Egito e na Líbia não foram irrupções espontâneas de protesto popular, mas conspiração organizada para a qual se uniram os EUA, a Fraternidade Muçulmana e os países do Golfo Árabe. “Não é movimento popular. É movimento salafista” – disse um deles. “O que conseguiram, afinal, as revoluções na Tunísia, Líbia e Egito?” – perguntou Abu Haidar. A ascensão de islamistas ao poder naqueles três países tornou os alawitas sírios ainda mais desconfiados de que o fim do governo Assad venha, algum dia, a significar qualquer tipo de mudança para melhor.

Perguntei a Abu Haidar, o homem da segurança, por que Bashar só começara suas (tímidas) reformas depois que começaram os protestos na Síria em março de 2011. Respondeu-me como respondem os apoiadores do regime, que os eventos de 2003 (invasão do Iraque), 2005 (assassinato do Primeiro-Ministro libanês Rafiq al-Hariri e retirada dos sírios do Líbano), 2006 (guerra de Israel contra o Líbano), 2008 (disputas internas no Líbano) “nos tiraram a liberdade para promover reformas”. Perguntei então se as forças de segurança não haviam atirado contra manifestantes desarmados. Todos responderam que não e insistiram em que o regime proibiu o uso de armas contra manifestantes. Não sei se proibiu ou não, mas sei que houve tiros contra manifestantes. Em seis meses na Síria, estive presente em mais de uma centena de manifestações da oposição. Atiraram contra mim em várias daquelas manifestações. Uma vez, um jovem que estava ao meu lado e atirara uma pedra, recebeu tiros no abdômen e morreu na calçada.

Para viajar em segurança por áreas alawitas, contratei, para me acompanhar, um sargento do exército, dispensado do serviço ativo, de nome Abu Laith, nascido em Rabia, cidade na área rural de Hama. No ano que o conheci jamais o vi comer, mas fumava narguilé cada vez que tinha uma chance; falava constantemente ao telefone, em negociações de seu segundo emprego, como contrabandista de cigarros. Seu salário era de 17 mil liras mensais, cerca de £160. “Não temos conexões no Estado”, contou-me. Por isso, não conseguia emprego no funcionalismo civil: “os únicos empregos que nos restam são o Exército ou serviços de segurança”. Na venda de cigarros contrabandeados, conseguia ganhar 1.000-1.500 liras extras por dia. Vários de seus irmãos estavam ou no Exército ou na Polícia. Dirigindo por áreas que não conhecia, várias vezes perguntou às pessoas como fazer para evitar áreas sunitas. Em alguns pontos, os locais abriram estradas alternativas através de cidades alawitas e cristãs; pelas paredes, viam-se setas pintadas nas paredes, indicando o caminho, para que ônibus e outros carros pudessem evitar os pontos ocupados pela oposição. Quando nos aproximávamos de áreas sunitas, Abu Laith carregava a pistola Makarov. “Vou sair-lhes caro” – explicou. “A coisa mais importante é não morrer sem dar-lhes trabalho”. Falou-me sobre a centena de homens de sua força de segurança regional que haviam sido mortos. Outros duzentos foram feridos. Cinco de seus primos foram mortos.

A maioria dos homens de Rabia servem no Exército ou em forças de segurança em outras partes do país. Muitos vivem em complexos de hospedagem para militares, ou arranjaram casa e família na periferia da grande Damasco onde vivem operários alawitas. Qudsaya, subúrbio sunita de Damasco, inclui dois “enclaves” alawitas: Wurud e “Guarda Republicana”, nome que homenageia os soldados que ganharam casas ali. As duas áreas são contíguas a bairros de operários sunitas; desde o início do levante, começaram os conflitos entre as duas comunidades. Muitos dos prédios foram construídos ilegalmente e às pressas, em terras do Estado. As autoridades fingem que não veem esses acordos informais, porque os moradores são elementos chave das forças de segurança. Aqui, como nas vilas de onde vieram os moradores, há poucas estradas pavimentadas e praticamente não há serviços públicos. Apesar do abandono, são fiéis apoiadores do regime, a guarda pretoriana que se vê nas ruas. Os homens da segurança que nos cercavam argumentaram que a pobreza em que vivem é prova de que os alawitas não extraem qualquer benefício do regime. “Nunca pedimos coisa alguma e nada queremos, além de viver em segurança”.

Quando Abu Laith levou à sua cidade, Rabia, notícias sobre nossa chegada espalharam-se rapidamente. Milhares de moradores organizaram manifestação que pareceu instantânea, espontânea e sincera, de apoio ao regime, no centro da vila, ao lado de uma estátua de Hafez al-Assad segurando um ramo de oliveira e uma espada. A estátua, paga pelos moradores, foi erigida depois do início do levante. Por trás da estátua, um gigantesco pôster com uma foto de Hafez e Bashar. Sobre o pôster, alguém escrevera “Rabia é a toca do leão”, jogo de palavras com assad, que significa “leão”. Fui levado de casa em casa, para que todos pudessem falar dos parentes mortos e feridos, e dos 42 mártires de Rabia. Disse a um grupo de homens da cidade que, quando visitara cidades onde havia bases operacionais da oposição, como Baba Amr em Homs, também ouvira contar de pais e filhos que haviam sido martirizados. “Nossos filhos estavam simplesmente indo trabalhar” – respondeu um coronel do Exército cujo sobrinho foi morto em Idlib. “Há grande diferença entre matar um homem que saiu de casa para ir trabalhar para o Estado, e matar alguém armado que atira contra o Estado. Pode-se dizer que cinco soldados assassinados num posto de passagem foram assassinados por manifestantes pacíficos?”.

Ao longo do ano que passou, os alawitas de Rabia tiveram vários conflitos com moradores sunitas das vilas próximas. No verão, os alunos da cidade não puderam viajar até Hama para os exames escolares, porque a oposição bloqueara a estrada. Cerca de trinta famílias alawitas que viviam em vila próxima, de maioria sunita, mudaram-se para Rabia, sentindo que já não estariam seguros onde viviam antes. As famílias desalojadas de onde viviam sentiram-se frustrados com a resposta que receberam do governo. “Não tínhamos armas. Tivéssemos, teríamos ficado e lutado” – disse-me um velho. “Deveriam ter-nos mandado tanques. Mas a oposição bloqueou todas as estradas. Queremos que o Estado resolva nossos problemas e que o Exército nos devolva às nossas casas. O Exército tem de entrar nessas vilas. Mas estão ocupados, agora, em Hama. Por que o Estado move-se tão devagar?”. O pai de Abu Laith, soldado aposentado, concordou. “Só o Exército poderá resolver isso” – disse ele. “Se respondermos nós mesmos, será visto como violência sectária e as outras vilas sunitas unem-se contra nós. Estamos em menor número”.

De Rabia, parti para o noroeste, na direção de Aziziya, uma remota vila alawita que lutou contra os sunitas da vila vizinha de Tamana. Como em muitas vilas alawitas, a maioria dos homens trabalha ou no Exército ou na segurança. Os sunitas vizinhos apoiam, todos, a oposição; e houve operações de milícias sunitas na área, desde a primavera. Salhab, a vila mais próxima, de tamanho significativo, está acolhendo centenas de mães e crianças alawitas que fugiram de suas casas. A luta entre Aziziya e Tamana não dá sinais de estar amainando. Encontrei várias famílias em estado bem próximo da histeria. Uma mulher recém-chegada a Salhab gritava: “Saímos de lá sob fogo! Nossa dignidade é preciosa! Nosso líder é respeitável. Os sunitas são traidores. Tudo por Bashar!”

“Pedimos reforços ao Estado” – outra queixa várias vezes repetida – “mas não mandaram reforços.” Todos concordam que as relações com os vizinhos sunitas sempre foram amistosas e próximas, até o levante. “Éramos vizinhos” – disse-me uma das mães. – “Comíamos juntos, nos visitávamos, uns as casas dos outros. Houve incitamento sectário. De repente, havia gente nas ruas, gritando, praguejando.” Apesar da frustração com o regime que não os está protegendo – crítica que se ouve em muitas comunidades alawitas –, querem mostrar que sua devoção a Bashar não diminuiu. “Eles podem matar todos nós” – disse uma mulher. “Mas se um de nós restar vivo, continuará a apoiar o presidente.” Há aí uma contradição intrigante. Os alawitas veem-se eles mesmos como os cidadãos mais pobres do país, originários de vilas pobres, negligenciados por Damasco. Mesmo assim, se declaram dispostos a deixar-se matar pelo Estado que, segundo eles mesmos, não os está protegendo.

No início do levante, conheci o Dr. Yahya al-Ahmad, figura influente das áreas de alawitas de classe média de Homs. Naquele momento, sua principal preocupação era trabalhar junto aos seus amigos sunitas para reduzir as tensões sectárias. Eu estava sentado sobre a laje de sua casa durante uma daquelas reuniões, quando atiradores escondidos, de repente, abriram fogo contra nós. Ninguém foi ferido. O Dr. Al-Ahmad e seus amigos suspeitaram de que os atiradores não fossem membros da oposição, mas extremistas leais ao regime. Quando nos encontramos novamente, no início de 2012, as coisas haviam-se deteriorado – a casa havia sido atacada duas vezes com morteiros pela oposição; e o Dr. Al-Ahmad tivera de mudar-se e passava quase todo o tempo numa cidade próxima. Em torno da casa, praticamente todas as lojas estavam fechadas. O Dr. Al-Ahmad contou que alguns alawitas haviam sido sequestrados; e que outros alawitas haviam retaliado. Perguntei quantos alawitas haviam sido mortos. “Mortos? Você quer números? Paramos de contar. Os números deixaram de ter importância”. Meus amigos na oposição várias vezes disseram praticamente a mesma coisa sobre seus mortos.

“Homens armados controlam as coisas” – Yahya continuou. – “Estou armado. É uma resposta. Se o Estado não nos dá segurança, então é conosco. Como alawita, você não pode depender só do Estado. E se os homens que fazem a vigilância caem no sono?” A posição de Yahya mudou. “Há um ano, se você me perguntasse quem poderia substituir Bashar al-Assad eu teria pensado num ou noutro nome. Pergunte hoje, e lhe direi que só aceito Bashar al-Assad”. Mas há nele a mesma ambivalência que se vê em muitos alawitas. “Bashar enfraqueceu a segurança na vida diária. Aí está uma das causas do que se vê hoje”. Tentei que ele reconhecesse o número inadmissível de civis mortos nos ataques do governo contra o povo. “Gente inocente é morta todos os dias” – respondeu ele. “Ninguém pode distinguir, ante um homem armado contra você, se ele é culpado ou inocente. Que governo, no mundo inteiro, aceitaria não se defender?”.

Um alto dirigente do Exército, responsável por Homs, dentre outras cidades, disse-me que 80 oficiais com comandos e sem estão presos por “erros” – abusos, atrocidades, tortura – e que pelo menos dez devem esperar sentenças de 15 anos. A asserção pareceu sem sentido, face à violência do regime contra civis. (Se o Exército Sírio fez qualquer tentativa para disciplinar seu pessoal, não foi divulgada.) Os alawitas não erram, ao sentir que, se se considera a fúria da repressão, o estado sírio está perdido, sem saber o que fazer para protegê-los. Esse sentimento, sobretudo, é o que levou ao crescimento de milícias leais ao Estado, cada dia mais fortes e cada dia mais independentes, que agem em plena impunidade e não raras vezes criam problemas para o governo de Assad. As milícias foram responsáveis por vários massacres em Homs e Hama, mas Bashar não está em posição que lhe permita controlar seus seguidores mais renitentes.

Um engenheiro em Homs, alawita que se aliou à oposição, disse-me que a primeira vez que viu milícias legalistas em ação foi em março de 2011. “Não tinham qualquer comando ou organização. Não eram organizados por ninguém, além deles mesmos” – disse ele. Mas em julho já estavam organizados. E hoje operam por conta própria... Nada mais perigoso numa guerra civil que a gente que vive dela e depende financeiramente dela. Vi acontecer no Líbano. Em Homs o que temos é aberta guerra civil”.

Nos tempos de Hafez al-Assad, a expressão shabiha, que significa “fantasmas”, designava os criminosos e contrabandistas organizados que cooperavam com as forças de segurança. Alguns eram do clã Assad – o irmão de Bashar é famoso por ter esmagado elementos da shabiha Assad que escaparam ao seu controle – mas nunca, em momento algum, foram alawitas. Contudo, quando o levante começou, a palavra shabiha muito rapidamente passou a aplicar-se a milícias legalistas; com o tempo, já designava qualquer força leal ao governo de Assad. Em seguida já se ouviam, nas manifestações pró-regime, cantos dirigidos à oposição e que diziam: “Somos a shabiha! Deem adeus à liberdade! Shabiha para sempre!”.

Um oficial de segurança disse-me que há milhares de shabiha – comitês populares – nas áreas periféricas alawitas de Homs. Não são milícias pagas, disse ele; mas continuam a receber os salários de funcionários públicos que recebiam antes, embora já não compareçam aos locais de trabalho. Reportam-se aos prefeitos locais. “Podem prender qualquer um, de Khaldiyeh ou Bayada [dois bairros sunitas, em Homs]” – disse ele. – E entregam o prisioneiro ao Exército. Trabalham coordenados com o Exército”.

O engenheiro de oposição em Homs foi mais claro: “Shabih é gente que ama Bashar mais do que Bashar se ama ele mesmo. Shabih é uma cultura, não uma pessoa. Eles se sentem acima da lei, sentem que são a lei... Por hora, o estado ainda pode controlá-los, mas não sei se conseguirão controlá-los no futuro. Atualmente, o estado está usando os shabih. O estado criou essa gente”. Os alawitas que se unem à oposição, acrescentou, são vistos como traidores da seita. Alguns alawitas ativos na oposição em Homs, como ele, já morreram nas mãos dessas milícias legalistas: em abril de 2011, numa das principais praças de Homs, uma manifestação pacífica da oposição, da qual participaram até alguns alawitas, terminou num massacre cometido por homens dos comitês populares de apoio a Bashar e do Exército.

O que será dos alawitas, se o regime cair, e o que será da base de apoio popular que está com Assad, são perguntas diferentes. Entre os que apoiam Bashar há outras minorias, além dos alawitas – para nem falar dos muitos sunitas que o apoiam. Desde o início o governo apresentou a oposição como motivada por sectarismo – acusação que estimula ainda mais o sectarismo que parece deplorar. Mas o governo cuidou atentamente de não manifestar qualquer tipo de preferência sectária – o que deixou os alawitas ainda mais desamparados, apesar de sua manifesta solidariedade. Os que defendem Bashar dizem que há diversidade em seu campo; e que a oposição é quase completamente sunita. Mas oficiais e soldados sunitas sempre estiveram lado a lado em unidades de elite do exército, como a 4ª Divisão e a Guarda Republicana. E muitos intelectuais da oposição já admitiram abertamente que, se a base de apoio ao governo de Bashar fosse composta só de alawitas, o regime já teria caído há muito tempo. Se se tratasse exclusivamente de conflito entre sunitas e alawitas, Bashar perderia o apoio que os sunitas sempre lhe garantiram na Síria; e estaria reduzido ao apoio de 10% da população, mais alguns grupos de outras minorias.

Quando perguntei a Abu Rateb, líder do conselho militar de Homs, o que aconteceria ao Exército e aos comitês populares da shabiha, e às centenas de milhares de alawitas armadas, se o governo de Bashar caísse, ele respondeu que eu estava exagerando nos números. Previu o que chamou de “chacina”, mas sentia que uma alternativa para Bashar acabaria por emergir de dentro do sistema e levaria a um acordo. “Bashar é a figura central para ales. Sem Bashar, ficam sem espinha dorsal e perdem a motivação”. Depois de uma transição difícil, pode nascer uma nova Síria, “uma Síria livre, justa e democrática”. Um dos líderes da guerrilha anti-Bashar em Duma, o principal bairro dos subúrbios de Damasco, disse-me que muito se preocupa com combates entre sunitas e alawitas em vilas como Aziziya e Tamana. “Não podemos dizer que nós temos direito de viver aqui, e eles não” – disse ele. Mas “depois da revolução os alawitas voltarão ao lugar natural deles. Quando já não tiverem qualquer autoridade”.

Evidentemente não se sabe qual seria o tal “lugar natural”. Terão de deixar as cidades e voltar para suas áreas rurais étnicas tradicionais? Uma nova geração de especialistas em Síria ativos pelos jornais ocidentais já está discutindo a possibilidade de criar-se um estado alawita à parte. Mas nada ouvi sobre isso dos próprios alawitas. Há muito tempo a Síria é o principal projeto desses alawitas; o modo pelo qual se envolveram foi deixar as vilas tradicionais e mudar-se para uma versão de modernidade.

É possível que terminem cercados em alguma espécie de enclave autônomo, como resultado de uma guerra civil que venha a ser vencida pela oposição. Mas esse não é desejo dos alawitas. Estão convencidos de que combatem hoje pelos velhos ideais do Partido Ba’ath, do nacionalismo sírio e árabe.

De qualquer modo, nenhum estado alawita seria jamais viável: o território tradicional dos alawitas jamais ofereceu o mínimo necessário para que os alawitas ali permanecessem; ali não há serviços nem empregos; e a comunidade seria integralmente dependente de diferentes tipos de apoios externos. É possível que a “revolução síria” acabe nisso. Mas esse jamais foi o objetivo de ninguém.

24 de setembro de 2012

A fábrica de mentiras

Como a política se tornou um negócio

Jill Lepore

The New Yorker

O campo de consultoria política era desconhecido antes que Leone Baxter e Clem Whitaker fundassem Campaigns, Inc., em 1933.

"I, Governor of California, and How I Ended Poverty" [Eu, Governador da Califórnia, e Como Acabei Com a Pobreza], livro de Upton Sinclair, é provavelmente a mais excitante peça de campanha eleitoral jamais escrita. Em vez do vazio de sempre, Sinclair, autor de 47 romances, entre os quais, e mais famoso, "The Jungle" [A Selva] escreveu... um romance, uma peça de ficção. "Eu, Governador da Califórnia", publicado em 1933, anunciava a candidatura de Sinclair sob a forma de uma história "no futuro", na qual Sinclair é eleito governador em 1934 e, já em 1938 havia erradicado a pobreza. "Que me conste", o autor observava, "é a primeira vez que um romancista decidiu tornar realidade a própria ficção".

O livro tinha apenas 64 páginas, mas vendeu 150 mil exemplares em quatro meses. Capítulo 1: "Numa noite, em agosto de 1933, cinco membros do Comitê Central do Partido Democrata no Condado reuniram-se para a 16ª Assembleia Distrital do Estado da Califórnia". Pode não parecer grande coisa, se você esqueceu que, naquele momento, a Califórnia era estado de partido único: em 1931, praticamente todas as 120 cadeiras na Assembleia estadual eram ocupadas por Republicanos; nenhum representante Democrata tinha comitê de alcance estadual na Califórnia. Vale lembrar também que o desemprego, no estado, estava em 29%. Voltando àquela reunião, em agosto de 1933: "O objetivo da reunião era discutir com Upton Sinclair a possibilidade de registrar-se como membro do Partido Democrata e, nessa condição, apresentar-se como candidato ao Governo da Califórnia". E se Sinclair, socialista conhecido, uma vida inteira dedicada ao socialismo, concorresse como Democrata? Que magnífica virada na trama!

A coisa realmente esquenta depois que Sinclair adota, como slogan de campanha, a frase "END POVERTY IN CALIFÓRNIA" [Erradicar a pobreza na Califórnia] ("Alguém lembrou que com as iniciais dessas palavras podia-se escrever 'EPIC' [épico]"); como emblema de campanha, atropela a águia e o falcão ("pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por aves de rapina" - o candidato repete) em favor de uma abelhinha trabalhadeira ("abelhas trabalham duro e, melhor que isso, são muito bem equipadas para a autodefesa"); expõe seu programa de fábricas e fazendas em cooperativa que implementaria sua filosofia de "produção para o uso", não para o lucro; propõe acabar com os impostos sobre produtos comprados e criar um imposto sobre a renda, algo como 30% sobre tudo que alguém ganhe acima de 50 mil dólares/ano; e promete, não só abrir as portas do Inferno, mas, sobretudo, ser eleito.

Seja como for, foi terrível choque para praticamente todo o mundo quando, em agosto de 1934, Sinclair obteve a indicação do Partido Democrata, com mais votos do que qualquer candidato em qualquer primária na Califórnia jamais obtivera. Acontece assim também no romance - que é o que torna a leitura tão excitante (ou, para muita gente, tão apavorante): constatar que aconteceu, passo a passo, o que Sinclair imaginara que aconteceria. Capítulo 4: "Notícias de que os eleitores Democratas da Califórnia associaram o Partido ao plano EPIC causaram furor em todo o país." É verdade! "Resultou em ampla discussão do plano em revistas nacionais, o que levou à constituição de um Comitê EPIC Nacional." Na prática, foi isso! "Declaração de apoio a Sinclair para Governador, assinada por uma centena de grandes autores, e grupos de intelectuais, por todo o país, recomendando a adoção do plano EPIC para outros estados e municípios. Grupo de economistas de visão apoiaram o plano e cartas chegavam, de grande grupo de senadores dos EUA e de cerca de 50 deputados". O.K., essa parte nunca aconteceu.

Em 1934, Sinclair explicou o que acontecera naquele ano eleitoral, numa continuação não ficcional do romance, que levou o título de "I, Candidate for Governor, and How I Got Licked" [Eu, Candidato a Governador, e Como Fui Detonado]. "Quando eu era menino, o presidente da Universidade de Harvard escreveu sobre o intelectual na política'" - Sinclair começou. "Narro aqui como um intelectual entrou na política e o que lhe aconteceu". "Como fui Detonado" foi publicado em capítulos em 50 jornais. No relato, Sinclair conta como, imediatamente depois da Convenção Democrata, o Los Angeles Times passou a publicar, na primeira página, um Box com frases de autoria de Upton Sinclair; e continuou, sem parar, todos os dias, por seis semanas, até a abertura das urnas. "Lendo aquilo, todos os dias" - Sinclair escreveu - "compreendi que a eleição estava perdida".

Sinclair foi detonado – escreveu ele mesmo – porque a oposição montou o que Sinclair chamou de “uma fábrica de mentiras”. “Contaram-me que havia uma dúzia de jornalistas vasculhando bibliotecas e copiando cada palavra que eu algum dia publicara.” Acharam frases que escreveu em romances, falas de personagens de ficção, e publicavam, todos os dias, como se o próprio Sinclair as tivesse dito. “Tinham uma legião de especialistas em química política, fabricando venenos para lançar nos ares da Califórnia todos os dias, um por dia, por cem dias”. Na verdade, naquele momento, foram apenas dois jornalistas. E a empresa não se chamava Fábrica de Mentiras. Chamava-se Campaigns Inc. (Campanhas e Cia. Ltda.).

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Campaigns, Inc. foi a primeira empresa de consultoria política da história universal, fundada em 1933 por Clem Whitaker e Leone Baxter. Whitaker, 34 anos, começara a vida como jornalista júnior, bem júnior, de fato: começou a trabalhar como repórter aos 13 anos. Aos 19, já era editor de Cidade, no jornal Sacramento Union; poucos anos depois, colunista de Política do San Francisco Examiner. Era extrovertido e enturmável, tinha orelhas enormes, fumava muito e jamais parava de falar e datilografava só com os dedos indicadores. Criou uma agência de distribuição de notícias por telégrafo, Capitol News Bureau, e distribuía matérias para 80 jornais. Em 1930, vendeu sua empresa para a United Press. Três anos depois, foi contratado, por seu engenho político, por, dentre outros, Sheridan Downey, Democrata proeminente, para ajudá-lo a derrotar um referendum patrocinado pela empresa Pacific Gas and Electric. Downey também contratou Baxter, viúva, 36 anos, que escrevera para o Portland Oregonian, e sugeriu que se unissem as forças, dela e de Whitaker.

Baxter era mignonne, rosto bonito, cabelo ruivo, elegante. Costumava dizer “Oh, ele foi tão fofo” – de quem gostava. Whitaker usava ternos sempre maiores ou menores que ele; os vestidos de Baxter caíam nela como cairiam em Audrey Hepburn. Whitaker e Baxter começaram os negócios da empresa Campaigns, Inc.. Derrotaram o referendo. Whitaker divorciou-se. Em 1938, casou com Baxter. Viviam em Marin County, em casa com piscina aquecida. Começavam o dia com um café da manhã de duas horas, para planejar o dia. Ela às vezes o chamava de Clem; ele sempre a chamou de Baxter.

Em 1934, quando Sinclair ganhou a indicação como candidato dos Democratas, escolheu Downey como candidato a vice-governador (“Uppie and Downey” era o apelido da dupla.) Trabalhar para o Democrata Downey fora uma aberração para Whitaker e Baxter, gente que, como se dizia, “só trabalha à direita da rua”. A empresa Campaigns, Inc., especializara-se em campanhas políticas para empresas, sobretudo para monopólios do tamanho da Standard Oil e Pacific Telephone & Telegraph. A Pacific Gas & Electric ficou tão impressionada, que contratou Campaigns, Inc. com exclusividade.

A consultoria política é quase sempre vista como descendente da indústria da publicidade. Melhor será dizer que a indústria da publicidade é que nasceu como modalidade da consultoria política. Como o cientista político Stanley Kelley explicou certa vez, quando a moderna publicidade nasceu, os grandes clientes tinham tanto interesse em promover uma agenda política quanto uma agenda comercial. Monopólios como Standard Oil e DuPont tinham péssima imagem junto ao grande público: eram vistos como gananciosos e cruéis e, no caso da empresa DuPont, que fabricava munição, sinistra. Então, contrataram empresas de publicidade para encher a opinião pública com ideias positivas sobre “grandes corporações” e, não por acaso, também para apressar a aprovação de leis pró-business. É esse tipo de coisa que Sinclair estava falando quando ele disse que a história americana era uma batalha entre negócios e democracia, e "Até agora", ele escreveu, "o Big Business ganhou todas as escaramuças".

Como muitos Republicanos da Califórnia, Clem Whitaker e Leone Baxter, que eram propagandistas a soldo da Liga Californiana Contra o Sinclairismo, ficaram horrorizados ante a possibilidade de ter Sinclair no governo do estado. Tinham de trabalhar rápido. Foram contratados apenas dois meses antes das eleições, por George Hatfield, candidato a vice-governador numa chapa Republicana que levava, na cabeça, o governador então no cargo, Frank Merriam. Mas não foram contratados para eleger ninguém. Foram contratados para destruir Sinclair. Começaram por trancarem-se, os dois, numa sala, por três dias, com tudo que Sinclair algum dia publicara. “Upton foi derrotado” – disse Whitaker mais tarde, “porque escrevera livros. Daí nasceram os boxes diários no L.A. Times. Um deles, por exemplo:

SINCLAIR SOBRE O MATRIMÔNIO: 
A santidade do casamento. ... Eu tive tanta crença ... não tenho mais.

A frase, como Sinclair explicou em “Como Fui Detonado”, foi tirada de uma passagem, em seu romance de 1911, “Love’s Pilgrimage”, na qual um dos personagens escreve carta de absoluta depressão a um homem que estava tendo um caso com sua mulher. (A novela, detalhe que, adiante, gerou terrível embaraço para Sinclair, é relato autobiográfico de um desastrado primeiro casamento, que terminara em 1912, quando Sinclair pediu o divórcio e citou um evento de adultério. Em 1913, casou-se com sua segunda esposa e viveram juntos até a morte dela, em 1961.) “Claro que as citações não tinham importância alguma” – Baxter disse mais tarde. “Mas só tínhamos um interesse: impedir que ele chegasse ao governo do estado”.

Sinclair perdeu. Provavelmente, teria sido péssimo governador. Mas não é disso, absolutamente, que se trata.

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Nenhum desenvolvimento único alterou o funcionamento da democracia americana no último século, tanto quanto a consultoria política, uma indústria desconhecida antes da Campaigns, Inc. Nas décadas intermediárias do século XX, os consultores políticos substituíram os chefes partidários quando o direito de exercer o poder político foram obtidos não por votos, mas por dinheiro. Whitaker e Baxter foram as primeiras pessoas a fazer da política um negócio. “Um eleitor, um consumidor” ouvia-se ainda há pouco tempo, como mantra repetido por uma dessas empresas de consultoria política. A frase também foi criada por Campaigns Inc. O “gerenciamento” político de campanhas eleitorais é hoje indústria diversificada, de muitos bilhões de dólares, com “coordenadores” de campanha, redatores de discursos, “pesquisadores”, jornalistas e publicitários que têm papel definitório em tudo, da campanha para eleger o presidente dos EUA às campanhas para eleger o Comitê financeiro da escola do quarteirão. (Atualmente, as campanhas nunca terminam. E os consultores não têm de se ocupar só das campanhas: eles também têm de governar! Mitt Romney, perguntado pelo corpo editorial do Wall Street Journal sobre como selecionaria os membros de seu Gabinete, disse que, provavelmente, contrataria McKinsey para decidir). Mas, por muitos anos, Whitaker e Baxter não tiveram concorrentes, razão pela qual, entre os anos de 1933 a 1955, venceram 70 das 75 campanhas nas quais trabalharam. As campanhas para as quais trabalharam, porque escolheram trabalhar nessas, não em outras, e o modo como conduziram as campanhas modelaram a história do estado da Califórnia e a história dos EUA. De fato, Campaigns, Inc. continua, até hoje, a modelar a política nos EUA.

Em 1934, Upton Sinclair foi detonado, mas muitos candidatos da linha “EPIC” de “Erradicar a Pobreza na Califórnia” foram eleitos, pelo Partido Democrata. A Califórnia tornou-se estado de dois partidos. 24 candidatos pró-EPIC, entre os quais um advogado de Los Angeles de nome Culbert Olson, assumiram como deputados na Assembleia estadual e, quatro anos depois, Olson, já líder da bancada EPIC no estado, foi eleito governador. Olson nomeou Carey McWilliams, também advogado em Los Angeles, além de jornalista e autor de livros, para dirigir a Divisão Estadual na Califórnia para Imigração e Moradia.

Em 1938, McWilliams, amigo de Sinclair, fizera campanha pró-Olson enquanto escrevia “Factories in the Field: The Story of Migratory Farm Labor in Califórnia” – que é como versão não ficcional, de “As vinhas da Ira”. Os dois livros foram publicados em 1939. O de Steinbeck foi proibido, e os Republicanos da assembleia estadual da Califórnia tentaram extinguir a Divisão Estadual na Califórnia para Imigração e Moradia, exclusivamente para conseguir a demissão de McWilliams.

Em 1942, os Republicanos que apoiavam a candidatura do Advogado Geral do Estado, Earl Warren, no esforço para tirar Olson do governo do Estado, convenceram Warren a contratar Whitaker e Baxter para dirigir sua campanha eleitoral. Warren aceitou, meio relutante. Nos anos posteriores à detonação do sinclairismo, Whitaker e Baxter haviam incorporado algumas novas ferramentas à sua caixa de ferramentas de campanha eleitoral. Em 1939, com panfletos como “Enganando os Famintos”, a empresa Campaigns, Inc. havia liderado o esforço para derrotar um projeto de lei estadual, para a Califórnia, a “Proposition 1”, objeto de referendo conhecido como “Ovos com presunto”, que teria criado um imposto de 3% para assegurar pensão de 30 dólares por semana a todos os cidadãos com mais de 50 anos: “ovos com presunto às quintas-feiras”. (Adiante, Harper noticiou: “Em ação típica de campanha de propaganda, imprimiram dez milhões de panfletos; enviaram 50 mil cartas para “indivíduos e funcionários chaves de grupos organizados”; compraram 70 mil polegadas de espaço publicitário em 700 jornais; produziram 3.000 spots de propaganda que distribuíram por 109 estações de rádio; spots filmados e curtas-metragens para exibir em salas de 160 cinemas; 1.000 cartazes gigantes e 18-20 mil cartazes menores.”). Em 1940, produziram material para a campanha presidencial do Republicano Wendell Willkie, que incluía um manual para oradores, com instruções sobre como enfrentar Democratas que houvesse entre o público: “em vez de referir-se ao oponente como “Partido Democrata” ou “Governo do New Deal”, repita sempre, exclusivamente, o nome do candidato”.

Whitaker e Baxter trabalhavam como uma só cabeça, sem falhas. Respondiam junto ao telefone. Liam a correspondência um do outro. Anualmente trocavam de postos: um ano, o presidente era Whitaker, com Baxter vice-presidente da empresa; ano seguinte, o contrário. Ganharam montanhas de dinheiro. Cobravam, por exemplo, para uma campanha de referendo, algo entre 25 mil e 75 mil dólares. Exigiam controle completo sobre o orçamento, para despesas de campanha. (Uma de suas regras: reserve sempre 75% do orçamento que haja para o último mês antes da votação.) A empresa lucrava algo próximo de 250 mil dólares por ano. E Campaigns, Inc. era só uma parte do império. Whitaker e Baxter também comandavam uma agência de publicidade, Clem Whitaker Advertising Agency, que cobrava de cada cliente comissão de 15% por anúncio veiculado. Tinham um serviço de distribuição de releases por telégrafo,Califórnia Feature Service, que distribuía um clipping de noticiário político semanal, a 1.500 “formadores de opinião”, além de charges, editoriais e artigos para 300 jornais. Pequenos jornais do interior do estado viviam praticamente de reproduzir o que quer que recebessem da Agência Califórnia Feature Service; publicavam tudo, quase sempre press releases mal disfarçados como material de editoria, sempre a favor da posição política e do político que Campaigns, Inc. estivesse sendo paga para promover. O truque era distribuir clippings suficientemente disfarçados para passar pelo controle de editores cansados, que nem viam que usavam, como se fosse matéria jornalística, o que não passava de material de propaganda. Um editor de jornal californiano costumava aplicar um teste aos seus jornalistas: “Onde está a ‘pegadinha’?” Lia o material que recebia da Feature Service e os jornalistas tinham de detectar a frase de propaganda.

Whitaker e Baxter não estavam apenas inventando novas técnicas; estavam escrevendo um manual de operação para usuários. Jamais gaste dinheiro em lobby: enrole os eleitores. “Nossa concepção de política prática é que se você constrói um caso suficientemente sólido para convencer ‘o pessoal lá em casa’, não é preciso ter o senador na gaveta,” Baxter explicou. Seja pessoal: é mais fácil vender gente [o candidato], que causas. Se você não tem oposição, se o seu candidato não tem opositor, invente uma oposição, um opositor. Uma vez, trabalhando numa campanha para evitar que o prefeito de San Francisco fosse intimado para depor à Polícia, Whitaker e Baxter construíram toda a campanha contra “O homem sem cara” – ideia de Baxter – que assumiria a prefeitura, no caso de o prefeito sofrer impeachment. Baxter desenhou numa toalha de mesa um homem gordo, fumando um charuto, que se via por baixo de um chapéu que encobria o rosto; e fez reproduzir o desenho em milhares de cartazes pela cidade, com a pergunta: “Quem se esconde por trás da intimação ao Prefeito?”.

Finja que você é a Voz do Povo. Whitaker e Baxter compraram tempo em rádios, patrocinado por um “Comitê Contra a Convocação”. Uma voz cavernosa dizia “A verdade é que a Prefeitura será destruída, trancada, chaveada, cercada, para uso exclusivo do homem sem cara.” O prefeito não foi intimado a depor. Ataque, ataque, ataque, ataque. Whitaker dizia sempre: “Ninguém vence com campanha de defesa”.

Jamais subestime a oposição. A primeira coisa que Whitaker e Baxter sempre fizeram, ao assumir uma campanha, era ‘hibernar’ por uma semana, para escrever um Plano de Campanha. Depois, escreviam o Plano de Campanha da Oposição, no qual antecipavam os movimentos de reação à campanha deles. Não há campanha sem “mote”. O “mote” tem de ser bem simples. Se rimar, melhor. (“For Jimmy and me, vote ‘yes’ on 3”). Não dê explicações. “Quanto mais você se explica, mais difícil arrancar o voto” – dizia Whitaker. Repita sempre a mesma coisa, repita e repita. “Calculamos que se tenha de atrair sete vezes a atenção do eleitor, para fechar uma venda”. (Whitaker) Sutilezas jogam contra. “Palavras curtas, que colam na cabeça: é o que conta.” (Baxter). “Eles têm de morder a isca”. Simplifique, simplifique, simplifique. “Ergue-se uma muralha” – Whitaker advertiu –, “se você inventa de fazer o Sr. e a Sra. Eleitor Norte-americano Médio trabalharem ou pensarem”.

Se há faísca, assopre. “Esse país precisa de partidarismo” – disse Whitaker. Nunca fuja da controvérsia. Ao contrário, crie controvérsias, incendeie as controvérsias. “O norte-americano médio não quer que o eduquem; não quer ser conscientizado; sequer deseja aplicar algum esforço, mínimo que seja, para ser um bom cidadão” – saberes de Whitaker. “Mas há dois meios pelos quais você pode fazê-lo interessar-se na campanha. Só dois, que já comprovamos que funcionam.” Invente uma guerra (“eles gostam de uma boa briga, socos, pancadaria”), ou, então, invente um show (“eles gostam de filmes, gostam de mistérios, gostam de fogos de artifício e desfiles”): “Assim, se não se pode brigar, que seja o show. Se você armar um circo, um bom show de circo, o Sr. e Sra. Norte-americano Médio sairão para olhar”.

Ao vencedor, tudo. “Se você é contratado para lançar um novo modelo de carro” – disse Whitaker – “o cliente não espera que, no primeiro ano, ele seja o primeiro em vendas no país. Mas, em campanhas políticas, ninguém paga placê, não interessam o segundo colocado nem a beleza do show. É vencer ou vencer. Se quiser continuar no ramo, vença”.

Em 1942, o problema com Earl Warren era a seriedade. Baxter disse que, para conseguir o voto das mulheres, ele e a esposa teriam de permitir fotografias de toda a família, com vasta divulgação. A esposa de Warren, Nina, proibiu. “Não queria explorar a família” – contou Baxter. “Mas nós sabíamos que, sem a família, adeus eleição”. A foto foi feita – Earl, Nina e seis filhos. Pareciam o coral da Família Von Trapp de “A noviça rebelde”. Campaigns, Inc., distribuiu três milhões de fotos pelo país.

Mesmo assim, a imagem de Warren, solene, sem jamais sorrir, não ajudava. Vamos usar, então, a seriedade, se é só o que temos. Baxter passou a dizer que a Califórnia precisava, isso sim, de um homem sério, resoluto, em tempos de guerra. “Em tempos de guerra, o eleitor vota anormalmente, movido ainda muito mais pelas emoções” – Whitaker escreveu. “Nessa campanha, os eleitores terão de ouvir o rufar dos tambores e o explodir das bombas da guerra... O tema da campanha tem de ser “Convocação às armas, em defesa da Califórnia!”.

Warren parecia homem “de defesa”, em parte porque, como advogado geral do estado, defendera o confinamento, em campos de concentração, dos japoneses-americanos. “Se os Japs forem soltos”, dizia ele, “ninguém nunca saberá se está diante de um Jap normal ou de um Jap sabotador”. (Warren adiante, manifestou profundo remorso por essa política e, em entrevista que deu em 1972, até chorou). Carey McWilliams era das raras vozes dentro do governo que se opunha aos campos de concentração para japoneses em território dos EUA. Em campanha, Warren jurou que, se eleito, seu primeiro ato no governo seria demitir McWilliams.

Nos últimos 30 dias antes da eleição, Whitaker e Baxter anunciaram em 400 jornais impressos e em 500 rádios. Congestionaram o espaço. Puseram caminhões de som nas ruas, para fazer barulho de buzinas e motores. Atacaram as políticas econômicas de Olson. Redigiram um manual para discursos a favor de Warren; incluía roteiro para “Fala de seis minutos” e “Fala de 15 minutos”. (E um conselho: procure nunca falar mais que 15 minutos – as pessoas ficam entediadas – e em nenhum caso fale mais que meia hora).

Warren ganhou, mas ele não gostou do jeito que ele ganhou. Pouco antes das eleições, depois que Whitaker e Baxter emitiram um comunicado de imprensa sem a aprovação, ele os demitiu. Eles nunca o perdoaram.

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No outono de 1944, Warren foi acometido de uma grave infecção renal. A doença o fez pensar sobre os altos custos do atendimento médico, sempre em alta, e os efeitos catastróficos que uma doença repentina teria sobre uma família menos provida de recursos que a dele. “Cheguei à conclusão de que o único modo de remediar essa situação é criar uma espécie de seguro-saúde” – escreveu em suas memórias. Mandou sua equipe desenvolver uma proposta. “Concluímos que o seguro-saúde deveria ser recolhido pelo Sistema de Seguridade Social. Depois de alguns estudos, decidiu-se que empregados e empregadores no SSS teriam de contribuir com 1% e 1,5% do valor dos salários recebidos e pagos”. Depois de reunião com a Associação Médica da Califórnia, Warren não esperava oposição dos médicos. Assim, em janeiro de 1945, no discurso de início de ano, de relatório de feitos e perspectivas para o futuro do estado do Estado da Califórnia, ele anunciou sua proposta, de criar um seguro-saúde abrangente e compulsório.

Earl Warren iniciou sua carreira política como conservador e terminou como esquerdista, um dos mais odiados da história dos EUA. O que houve? Uma das respostas é: Whitaker e Baxter.

Contratados pela Associação Médica da Califórnia com remuneração anual de 25 mil dólares, para combater o plano do governador Warren, Whitaker e Baxter tomaram uma peça de lei que todos tinham apreciado muito e ensinou a população da Califórnia a odiá-la. “Não se pode bater em alguém, sem porrete” – a dupla gostava de dizer. Lançaram uma campanha a favor de os californianos comprarem, privadamente, cada cidadão, o seu próprio seguro-saúde. Inventaram uma Semana da Compra do Seguro-Saúde Voluntário, movida a 40 mil polegadas de publicidade pelos jornais em mais de 400 jornais. A semana aconteceu em 53 dos 58 condados do estado da Califórnia. Whitaker e Baxter distribuíram pelo país mais de 9 mil médicos, todos com discursos preparados. Criaram um slogan: “Medicina politizada não é boa medicina”.

Dessa vez, fizeram lobby direto sobre os editores de jornais. Whitaker se jactava de que “nosso pessoal telefonou pessoalmente para mais de 500 redações de jornais”, para convencer os editores a mudar de lado. Muitos daqueles jornais viviam dos anunciantes que lhes chegavam pela Campaigns, Inc., e recebiam centenas de artigos gratuitos, semanalmente, enviados pela Agência California Feature Service. “Em três anos” – Whitaker contabilizou – “o números de jornais que apoiavam a medicina do Estado caiu, de 50 para 20. O número de jornais que se opunham ao seguro-saúde compulsório saltou, de cerca de 100, para 432”.

Inventaram um inimigo. Enviaram 27 mil cópias de um panfleto intitulado “A Questão da Saúde”, em que se via um homem, uma mulher e uma criança numa selva – “uma floresta de medo” – ameaçados por esqueletos que tinham na boca, em vez de dentes, a palavra “LEI”. Whitaker e Baxter distribuíram 2,5 milhões de outro panfleto, intitulado “Medicina Politicamente Controlada”. Imprimiram cartões postais para que os eleitores enviassem pelo Correio aos senadores:

Prezado Senador: 
Por favor, vote contra todas as propostas de lei que visem a criar o Seguro Compulsório de Saúde. Há leis demais nesse país. Ninguém tem qualquer interesse em ouvir opinião de algum “médico do Estado”, nem de pagar a ele mesmo sem estar doente. Esse sistema foi inventado na Alemanha – é um dos pilares da monstruosidade contra a qual os nossos rapazes lutam em terras distantes. Não podemos permitir aqui a mesma monstruosidade.

Em 1945, a proposta de lei de Warren foi derrotada, por apenas um voto de diferença. Biógrafo de Warren, G. Edward White anotou: “O desmonte de seu plano de saúde foi uma confirmação, para Warren da natureza do processo político, onde quem advogue a favor de programas sociais e humanos, é atropelado pelos interesses mais mesquinhos, mais baixos, mais vingativos”. Warren reapresentou o mesmo projeto de lei. Outra vez Whitaker e Baxter o derrotaram. “Invadiram como um tufão a Assembleia estadual” – Warren escreveu adiante. – “Minha lei não mereceu, sequer, enterro decente”. Foi a mais avassaladora vitória da publicidade política, que o país jamais vira. Evidentemente, não foi a última.


Em 1945, meses depois de Earl Warren ter apresentado a proposta de seguro-saúde obrigatório na Califórnia, Harry Truman propôs um programa nacional público de saúde. “A saúde das crianças norte-americanas, como a educação, têm de ser reconhecidas como responsabilidade pública bem clara” – disse o presidente. Quando os Republicanos assumiram o controle do Congresso em 1946, o programa de seguro-saúde federal de Truman, o qual, como o de Warren, recebia recursos de imposto a ser cobrado sobre os salários, empacou. No seu discurso do Estado da União em 1948, ano de eleições, Truman pediu urgência na aprovação de seu plano – que contava com amplo apoio popular.Em novembro, Truman venceu as eleições. Dias depois, a Associação Médica Americana telefonou para a sede, em San Francisco, da empresa Campaigns, Inc. A Associação Médica Americana contratou Whitaker e Baxter, ao custo de 100 mil dólares anuais, e com orçamento anual de mais de um milhão de dólares, para detonar o plano de Truman. Para pagar tudo isso, a Associação Médica Americana passou a recolher contribuição anual de 25 dólares de todos os médicos associados.

No início de 1949, Whitaker e Baxter, diretores da Campanha Nacional de Educação da Associação Médica Americana, avançaram para a política nacional, instalando o quartel-general da empresa em Chicago, com equipe de 37 profissionais. “Essa campanha terá de despertar e alertar o povo americano, em todas as circunstâncias da vida, até gerar uma cruzada pública e luta fundamental pela liberdade” – lia-se na abertura do plano da campanha. – “Qualquer outro plano de ação, se se considera a deriva mundial rumo ao socialismo e ao despotismo, nos arrastará ao desastre”. Mas quando Whitaker disse à imprensa de Washington, num almoço, que o FBI estava aterrorizando a Associação Médica Americana, o Washington Post reagiu: melhor que a Associação dos Médicos e os paus-mandados de Whitaker e Baxter parem, isso sim, de se “autoflagelar em campanha neurótica, tentando aterrorizar a opinião pública dos EUA, cada vez que o governo propõe algum plano nacional de Saúde ou uma Secretaria de Bem-estar Social”.

Whitaker e Baxter foram a Washington e convenceram 100 congressistas a permitir que lessem as cartas que recebiam dos eleitores. No início da campanha, Whitaker contou, as cartas chegavam “na proporção de 4,5 cartas a favor, para uma carta contra” o plano de Truman. Whitaker e Baxter puseram mãos à obra. “Nove meses mais tarde, a proporção era de 4 cartas contra, para uma a favor”.

Nessa altura, a empresa Campaigns, Inc. já era vista, pelo menos por um punhado de críticos, como empreendimento nebuloso e nefando. “Mas não há mistério algum” – Whitaker insistiu. Em manobra brilhante, Whitaker redigiu um “Esboço Simplificado da Campanha Contra o Seguro Compulsório de Saúde” e distribuiu – centenas de milhares de exemplares – a repórteres e editores, dentre outros ‘formadores de opinião, e a todos os deputados e senadores.

Dentro do quartel-general de Campaigns, Inc. circulava outro Plano de Campanha, muito mais detalhado, datilografado e marcado “CONFIDENCIAL. NÃO DEVE SER PUBLICADO” (Esse plano está hoje arquivado, como outros documentos da empresa, nos Arquivos do Estado da Califórnia, em Sacramento.) Ali se lê, dentre outras coisas:

1. O objetivo imediato é derrotar o programa compulsório de seguro-saúde a ser votado no Congresso. 2. O objetivo de longo prazo é por fim, para sempre, na agitação a favor da medicina socializada nesse país, pelos seguintes meios: acordar o povo norte-americano para o perigo que é um sistema de saúde pública, politicamente controlado e regulado pelo governo; convencer o povo, mediante campanha nacional ampla de educação, das superiores vantagens da medicina privada como é hoje praticada nos EUA, se comparada aos sistemas médicos dominados pelo Estado em outros países; e estimular o crescimento de sistemas de seguro-saúde privados, de adesão voluntária, para separar doença e choque econômico e aumentar a oferta de atenção médica para o povo dos EUA.

Como Whitaker e Baxter escreveram, numa versão prévia do plano: A questão básica é se continuaremos a ser nação livre, na qual o indivíduo pode traçar o próprio destino, ou se daremos os poucos passos que faltam na direção de nos converter em Estado Socialista ou Comunista. Temos de pintar o quadro, com palavras vívidas, que absolutamente todos entendam, de Alemanha, Rússia – e no final, de Inglaterra. Definiram o slogan “Mantenha a política fora da medicina”. E decidiram reutilizar o golpe que já funcionara contra o plano de Warren: passaram a chamar o plano de Truman de “medicina socializada”.

No esforço para doutrinar todos os médicos, enfermeiras e farmacêuticos nos EUA sobre os perigos da medicina socializada, puseram o pé na estrada. Whitaker, falando num encontro com 200 médicos do Conselho das Associações Médicas da Nova Inglaterra, disse:

Hitler e Stalin e os governos socialistas da Grã-Bretanha todos usaram o ópio da medicina socializada para suprimir a dor da liberdade perdida e induzir o povo à passividade e a não resistência. Se permitirmos que o contágio da medicina socializada que vem do Velho Mundo atinja o Novo Mundo, será o começo do fim de todas as instituições livres nos EUA. Será simples questão de tempo, até que todas as estradas de ferro, fábricas de aço, indústrias de energia, bancos, fazendas e outras propriedades sejam também estatizadas.

A propaganda política, disse ele, era a derradeira esperança de salvar a democracia: "Vamos levar a julgamento os inimigos da saúde dos norte-americanos, ante o tribunal da opinião pública. E o povo decidirá."

Para esse objetivo, a Campanha de Educação Nacional distribuiu milhões de mensagens por Correio. Nem sempre foram bem recebidas. “RECEBI SUA CARTA PARA ME METER MEDO. RIDÍCULA. DÁ PENA.” – respondeu um irado farmacêutico de Stamford, New York. – “ESPERO QUE O PRESIDENTE TRUMAN CONSIGA O QUE DESEJA. BOA SORTE AO PRESIDENTE TRUMAN”.

Whitaker e Baxter gostavam de referir-se ao trabalho que faziam como “campanhas de base”. Nesse caso, falavam da luta contra a medicina socializada: “A Associação Médica Americana nessa campanha está levando a discussão até o povo dos EUA, numa cruzada de base que esperamos que, com a ajuda de vocês e de dezenas de milhares de outros, chegará a cada esquina desse país.” Nem todos estavam convencidos de que uma agência de publicidade, nababescamente remunerada para distribuir 7,5 milhões de panfletos intitulados “O Voluntariado é o American Way” pelos consultórios médicos dos EUA seria exatamente “movimento de base”. “Prezados senhores” – um médico escreveu de volta –, “Quanto, mesmo, vocês têm para gastar nesse “lobby de base” de vocês: 2,5 ou 3,5 milhões de dólares?”.

A campanha de Whitaker e Baxter contra o projeto de seguro-saúde nacional custou à Associação Médica Americana quase cinco milhões de dólares e durou mais de três anos. Mas, sim, converteu a reforma necessária, sensível, popular da saúde pública nos EUA, em espantalho tão assustador que, mesmo hoje, milhões de americanos ainda têm medo dela.

Truman estava furioso. Sobre o que, em seu projeto, pudesse ser apresentado como “medicina socializada”, Truman disse à imprensa, em 1952, que não fazia nem alguma remota ideia do que fosse. E tinha mais um comentário a fazer: “Nada, nesse projeto de lei, é mais parecido com socialismo do que o dinheiro que a Associação Médica Americana paga à empresa de Whitaker e Baxter para desmantelar, falsificar e expor à população o meu programa de saúde, pelo que ele não é”.

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Carey McWilliams jamais tirara os olhos de Whitaker e Baxter, desde “Uppie and Downey”, desde “Ovos com presunto”, desde Earl Warren. Escreveu o plano de uma matéria para The Nation, sobre Whitaker e Baxter. Seu editor, Harold Field, quis publicar imediatamente, mas McWilliams discordou. Disse que precisava ira a San Francisco e “escavar os fatos”.

Escreveu para Whitaker e Baxter, solicitando uma entrevista. “As perguntas são a sério, sem arame farpado e sem truques” – prometeu. “Não tenho intenções ocultas: estou apenas curioso.” E encontrou-se com o casal. E gostou deles. Não concordava com a agenda política deles e, mais grave, entendia que o negócio deles era péssimo para a democracia. Redigiu a matéria e, em maio de 1950, enviou um rascunho para Whitaker e Baxter. Eles leram e devolveram ao autor, com pequenas mudanças, correções de detalhes factuais. Mas o texto que revisaram os deixou muito desapontados.

“Não somos os tipos diabólicos que você descreveu” – Whitaker escreveu a McWilliams. “Estou desapontado por vocês terem ficado desapontados” – McWilliams respondeu. “Vocês não acham que o máximo que se pode esperar nesse assunto é o máximo de abertura e boa vontade, acuidade factual e respeito aos fundamentos do fair play?”.

A matéria “O governo de Whitaker e Baxter” foi publicada em The Nation, dividida em três partes, em abril e maio de 1951. Whitaker e Baxter escreveram a McWilliams: “Parece a nós dois que, apesar de você não nos ter poupado de afirmações pesadas, nos pontos em que supunha que estivesse fazendo o maior bem, você, com certeza, não fez qualquer injúria pessoal a Whitaker e Baxter. Tudo considerado, pode ser até um reforço. Agradecemos por tudo, Carey, profundamente”.

McWilliams, como Whitaker e Baxter com certeza logo perceberam, jogara por regras diferentes das suas. Não foi ingênuo nem simplório. Não os agrediu. Explicou demorada e detalhadamente o que havia a explicar. Não construiu um inimigo. Não tirou de contexto o que a dupla lhe disse. Não inventou frases. Nenhuma mentira.

“Nos círculos sindicais e de esquerda na Califórnia as pessoas têm calafrios quando se menciona os nomes de Whitaker e Baxter” – escreveu em The Nation – “mas é preciso reconhecer que eles sabem como falar ao povo. Sim, tem quantidades monstro de dinheiro para gastar; mas não se pode dizer que seus opositores sejam pés-rapados”. Falou, por exemplo, das quantidades de dinheiro também monstro com que contam os sindicatos, por exemplo. Mas McWilliams, isso sim, estava convencido de que Whitaker e Baxter tinham excessivo poder. No caso da Associação Médica Americana, por exemplo, disse McWilliams, “a dupla escreveu um roteiro político do qual os médicos, originalmente considerados peso-pesados na defesa de interesses de uma específica indústria, emergem como cruzados da saúde do povo”. Inacreditável. E muito perigoso. “Trata-se de gerenciamento de alta especialização, da política: somos governados por Whitaker e Baxter”. Vivemos exatamente assim, hoje.

A matéria não passou totalmente despercebida. Em 1952, muitos médicos desligaram-se da Associação Médica Americana. James H. Means, professor de Medicina, na cátedra Jackson, de Harvard, e médico-chefe do Massachusetts General Hospital, explicou que não queria continuar a pagar contribuições que haviam sido usadas para apoiar uma atividade que ele considerava “contrária ao bem-estar público e indigna, como profissão”.

Naquele outono, a Associação Média Americana dispensou os serviços de Whitaker e Baxter, explicando que os manter sob contrato comprometeria ostatus não partidário da Associação. Whitaker e Baxter não se incomodaram: foram imediatamente contratados pela campanha presidencial de Eisenhower-Nixon.

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Em 1952, a televisão foi usada, pela primeira vez, numa campanha presidencial. Em 1948, menos de 3% dos lares norte-americanos tinham aparelho de televisão; em 1952, a proporção aproximava-se rapidamente dos 50%. Naquele ano, os Republicanos gastaram $1,5 milhão em anúncios de televisão; os Democratas, $77 mil. Na televisão, viam-se spots a favor de Eisenhower – “I Like Ike” e “The Man from Abilene”, temas baseados em pesquisa de George Gallup, apresentadas como documentários. Eram semelhantes aos noticiários de “March of Time”.

Eisenhower era tão pouco habituado a equipamentos de gravação, que uma vez, frente a um microfone ligado, rugiu: “Como funciona essa merda?” Mas, como todos os candidatos que concorreram a presidência depois dele, foi ensinado, treinado, adestrado, empoado e polido. E deu certo. Num spot de TV intitulado “Eisenhower Responde aos EUA”, um jovem negro diz: “General, os Democratas me dizem que as coisas nunca andaram tão bem...” Eisenhower responde “E como poderia ser verdade, se os EUA têm um déficit de milhões, e ainda há combates na Coreia? Nossa realidade é trágica”. Então, olha reto, firme, direto para a câmera. “É mais que hora de mudança”.

Em 1953, Earl Warren tornou-se Procurador Geral de Justiça dos EUA. A campanha “Impeach Earl Warren” começou quase imediatamente depois de Warren ter redigido seu voto no caso Brown vs. Comitê de Educação, em 1954. O voto declarava inconstitucional a segregação racial nas escolas. Em 1955, Carey McWilliams assumiu o posto de editor-chefe de The Nation. Em 1956, Whitaker e Baxter trabalharam nas Relações Públicas para a Convenção Republicana de Indicação do candidato, em San Francisco. Antes disso, foram ouvidos numa Comissão Especial do Senado de Investigação de Atividades Políticas, Lobbyinge Contribuições de Campanha. Whitaker disse à Comissão que se opunha ao financiamento público de campanhas eleitorais e era favorável a que se suspendessem todas as restrições que pesavam sobre doações de grandes corporações a campanhas eleitorais. A comissão não sabia como classificar os ‘consultores políticos’ de campanhas eleitorais. Deveriam ser definidos comolobbyists? Como Comitês de Ação Política? A atividade deveria ser regulada? Whitaker insistiu que o trabalho que sua empresa fazia era, sim, “organização de base” e não deveria ser cerceado por nenhum tipo de regulação.

Adiante, ainda em 1953, Whitaker e Baxter, trabalhando com a empresa californiana Baus and Ross, fez campanha a favor da “Proposition 4”, uma lei que favorecia a indústria do petróleo e lhe dava novas possibilidades de perfuração. O projeto de lei fora redigido pelos advogados da Standard Oil. Whitaker e Baxter venceram. A intervenção considerada decisiva, naquele caso, foi terem modificado o nome da lei: passou a chamar-se Lei de Preservação para Petróleo e Gás.

Em 1958, o filho mais velho, do primeiro casamento de Whitaker, Clem Whitaker Jr., com dois sócios, compraram a empresa Campaigns, Inc. Em 1960, quando Nixon concorreu à presidência, a Campaigns, Inc., coordenou sua campanha na Califórnia. “É indispensável partir para a ofensiva – e atacar” – um dos sócios de Whitaker Jr. aconselhou. Melhor esquecer “os Democratas de esquerda que não votarão em Nixon nem que recebesse apoio pessoal direto de Jesus Cristo e Karl Marx, que baixassem numa das sessões espíritas de Eleanor Roosevelt”. Nixon venceu na Califórnia, mas não se elegeu presidente. Era horrível na televisão. “A televisão, mais que qualquer outra coisa, fez virar a maré” – disse Kennedy. Naquele momento, os Democratas começavam, eles também, a contratar empresas de “consultoria política” para eleições. Todos contrataram. Foi uma corrida armamentista.

Clem Whitaker Pai morreu de enfisema em 1961. Quatro anos depois, quando Ronald Reagan concorreu ao governo da Califórnia, contratou outra empresa californiana, Spencer-Roberts. Spencer-Roberts seguia à risca o livro de regras de Whitaker e Baxter. “Quer saber de uma coisa, Stu?” – Reagan disse a Stuart Spencer em 1966. “Política é como show business... A abertura tem de ser grandiosa. Depois, você se segura como pode. E no fim, encerramento apoteótico”.

Upton Sinclair morreu num asilo, em New Jersey, em 1968. Naquele ano, H. R. Haldeman deixou o emprego de gerente em Los Angeles da agência de publicidade J. Walter Thompson, para dirigir a campanha presidencial de Nixon. Haldeman oferecera seus serviços a Eisenhower-Nixon em 1952, e trabalhara para a campanha do vice-presidente em 1956. Aprendera o ofício com o melhor dos melhores. “Whitaker e Baxter eram os grandes das velhas campanhas” – disse uma vez, relembrando o passado. – “O vovô”.

“Eleitores são basicamente preguiçosos, basicamente desinteressados de fazer qualquer esforço para compreender do que estamos falando” – William Gavin, conselheiro político de Nixon escreveu num memorando. “Raciocinar exige grau mais alto de disciplina, de concentração; a impressão é mais fácil” – escreveu noutro memorando. “A razão puxa o eleitor para trás, assalta-o, exige que ele se manifeste, que concorde ou discorde. A impressão o envolve, convida-o, sem fazer nenhuma exigência intelectual. (...) Quando argumentamos com o eleitor, exigimos que ele faça o esforço de responder. Tentamos capturar a inteligência dele e, para muita gente, pensar inteligentemente é o trabalho mais difícil e cansativo que há. As emoções acordam mais facilmente, estão mais próximas da superfície, são mais maleáveis”.

A campanha de Nixon analisou filmes do candidato na televisão. Falta emoção. “Ele usa os braços muito ‘previsivelmente’ e sacode-se demais” – disse Roger Ailes, conselheiro-chefe da equipe de Richard Nixon para televisão, em 1968. “Mas melhor nem comentar, para não inibi-lo”. Ailes é hoje presidente da rede Fox News.

Depois da morte de Clem Whitaker, Leone Baxter continuou a dirigir empresa só sua, Whitaker and Baxter International. Morava numa cobertura no Fairmont Hotel em San Francisco. Gostava de trabalhar nos bastidores. Só muito raramente, em toda sua vida – morreu em 2001, aos 95 anos – deu entrevistas. Nos anos 1960s abriu uma exceção. Foi-lhe perguntado se “Os procedimentos que a senhora inventou no início desse jogo, e utilizou com tanto sucesso ao longo dos anos, ainda funcionam hoje? Ou a senhora achou necessário alterá-los?”.

“Eu diria que as regras básicas, absolutamente não mudaram” – ela respondeu. – “As estratégias não mudaram”. Houve a televisão, claro. “Mas diria que a filosofia das campanhas políticas absolutamente não mudou, nem uma linha. As ferramentas mudaram. A filosofia, não”.

Também lhe perguntaram se “as Relações Públicas políticas realmente transferem o poder político para os especialistas, os RP, que fazem Relações Públicas?”.

“Pode acontecer, sem dúvida, e aconteceu, em alguns casos” – disse ela, cautelosa. “Nessa profissão de comandar a mente dos homens, aí está a razão pela qual sinto que o poder tem de estar sempre nas mãos dos mais éticos, dos que tenham melhores princípios, de gente que realmente se preocupa com o mundo em que vive. Não sendo assim, o poder acabará nas mãos de gente que não tem qualquer interesse pelo mundo em que vive. Nesse caso, sim, pode ser coisa de alto, alto poder destrutivo”.

15 de setembro de 2012

Fúria no Oriente Médio é alimentada por processo caótico de transição na região

Salem H. Nasser

Folha de S.Paulo

Um filme, de péssimo gosto, e a fúria toma conta do mundo muçulmano.

De imediato, a resposta tem por alvo os EUA. Isso se explica por algo mais do que o simples fato de ter sido o estopim produzido, financiado ou exibido nesse país.

A essa responsabilidade os revoltosos somam a percepção negativa, e rancorosa, que têm do papel do país nos universos combinados do Oriente Médio, do mundo árabe e do muçulmano.

A frustração e a raiva decorrem do que é percebido como a atuação imperial de quem tem uma presença militar incômoda e ubíqua, manipula os destinos dos povos como se fossem marionetes, apoia regimes despóticos, sufoca as aspirações do povo palestino, e, finalmente, desrespeita o islã.

Diante desse quadro, o discurso do presidente Barack Obama no Cairo em 2009, em que propôs aos islâmicos um novo começo, é visto como palavras ao vento, há muito esquecidas.

Esse sentimento informa a revolta e a violência contra as instalações americanas, ainda que não tenha sido, ao que parece, a razão imediata da morte dos diplomatas na Líbia, que deve ser posta na conta de organizações que travam a sua guerra particular com os Estados Unidos.

E justamente, a ação mais desenvolta dessas organizações é uma das consequências de um processo de transição, potencialmente fecundo, mas em alguma medida caótico, por que vem passando o mundo árabe.

Quando o curso natural da transição é corrompido ou desviado por ações arbitrárias, como no caso da Líbia, e como foi antes disso no Iraque e no Afeganistão, o caos ganha uma feição específica: a multiplicação dos agentes detentores de meios de violência.

Talvez seja um lembrete importante no que concerne à Síria.

As mudanças nos países árabes também iluminam o fato de que o islã, enquanto identidade, cultura e religião, constitui uma componente inescapável do tecido social e da vontade popular.

No Ocidente, onde se estabeleceu historicamente, e persiste, uma perigosa combinação de ignorância e fobia em relação ao islã, estamos despreparados para aceitar o fato de que há aqueles que percebem de modo diferenciado o sagrado e para quem ele continua a ser justamente isso, sagrado.

SALEM H. NASSER é coordenador do Centro de Direito Global da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas

28 de agosto de 2012

Lincoln e Marx

A convergência transatlântica de dois revolucionários.

Robin Blackburn

Abraham Lincoln, como presidente, optou por responder a um “Discurso” da International Workingmen’s Association, com sede em Londres. O “Discurso”, redigido por Karl Marx, parabenizou Lincoln por sua reeleição para um segundo mandato. Em alguns parágrafos ressonantes e complexos, o “Discurso” anunciava o significado histórico-mundial do que se tornara uma guerra contra a escravidão. O “Discurso” declarava que a vitória do Norte seria um ponto de inflexão para a política do século XIX, uma afirmação do trabalho livre e uma derrota para os capitalistas mais reacionários que dependiam da escravidão e da opressão racial.

Lincoln viu apenas uma pequena seleção da avalanche de correspondência que foi enviada, empregando várias secretárias para lidar com ela. Mas o embaixador dos Estados Unidos em Londres, Charles Francis Adams, decidiu encaminhar o “Discurso” a Washington. Encorajar todos os sinais de apoio à União foi fundamental para a missão de Adams. A Proclamação de Emancipação de janeiro de 1863 tornou essa tarefa muito mais fácil, mas ainda havia muitos setores da elite britânica que simpatizavam com a Confederação e alguns eram a favor de conceder-lhe reconhecimento diplomático apenas se a opinião pública pudesse ser levada a aceitar isso.

O “Discurso” trazia, além da de Marx, as assinaturas de vários sindicalistas britânicos proeminentes, bem como socialistas franceses e social-democratas alemães. O Embaixador escreveu ao IWA, explicando que o presidente havia lhe pedido para transmitir sua resposta ao “Discurso”. Ele agradeceu o apoio e expressou sua convicção de que a derrota da rebelião seria de fato uma vitória para a causa da humanidade em todos os lugares. Ele declarou que seu país se absteria de "intervenção ilegal", mas observou que "Os Estados Unidos consideraram sua causa no presente conflito com os insurgentes escravistas como a causa da natureza humana, e obtiveram novo incentivo para perseverar a partir do testemunho dos trabalhadores da Europa.”

Lincoln gostaria de agradecer aos trabalhadores britânicos, especialmente aqueles que apoiaram o Norte, apesar da angústia causada pelo bloqueio do Norte e a resultante "fome do algodão". O aparecimento dos nomes de vários revolucionários alemães não o teria surpreendido; a derrota das revoluções de 1848 na Europa havia aumentado o fluxo de imigrantes alemães que chegavam à América do Norte. Em uma data anterior — em 1843 — o próprio Marx havia pensado em imigrar para o Texas, chegando ao ponto de solicitar ao prefeito de Trier, sua cidade natal, uma autorização de imigração.

Que caminho a história mundial teria tomado se Marx tivesse se tornado texano? Nunca saberemos. O que sabemos é que Marx manteve contato com muitos dos exilados. Seu famoso ensaio sobre “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” foi publicado pela primeira vez em Nova York em alemão. Nem todos os emigrados alemães eram radicais, mas muitos eram. Com suas cervejarias, canções patrióticas e jardins de infância, eles ajudaram a ampliar a cultura distintamente puritana do republicanismo. Eles foram educados para desprezar a posse de escravos e, por fim, quase duzentos mil germano-americanos se ofereceram para o exército da União.

Havia uma afinidade entre o nacionalismo democrático alemão de 1848 e a doutrina do trabalho livre do recém-estabelecido Partido Republicano dos Estados Unidos, então não é surpreendente que vários amigos e camaradas de Marx não apenas tivessem se tornado defensores ferrenhos da causa do Norte, mas recebecessem altas comissões. Joseph Weydemeyer e August Willich, ambos ex-membros da Liga Comunista, foram promovidos primeiro à categoria de coronel e depois a general.

Lincoln pode ter reconhecido o nome Karl Marx quando leu o “Discurso” da IWA, já que Marx havia sido um colaborador prolífico do New York Daily Tribune, o jornal republicano mais influente da década de 1850. Charles A. Dana, editor do Tribune, conheceu Marx em Colônia em 1848, quando ele editava o amplamente lido Neue Rheinische Zeitung. Em 1852, Dana convidou Marx para se tornar correspondente do Tribune. Na década seguinte, ele escreveu - com a ajuda de seu amigo Engels - mais de quinhentos artigos para o Tribune. Centenas dessas peças foram publicadas sob o nome de Marx, mas oitenta e quatro apareceram como editoriais não assinados. Ele escreveu sobre uma variedade global de tópicos, às vezes ocupando duas ou três páginas de um jornal de dezesseis páginas.

Depois que a Guerra Civil começou, os jornais americanos perderam o interesse na cobertura estrangeira, a menos que estivesse diretamente relacionada à guerra. Marx escreveu vários artigos para jornais europeus explicando o que estava em jogo no conflito e contestando a afirmação, amplamente ouvida nas capitais europeias, de que a escravidão nada tinha a ver com o conflito. Seções importantes das elites britânica e francesa tinham fortes laços comerciais com o sul dos Estados Unidos, comprando grandes quantidades de algodão cultivado por escravos. Mas alguns liberais europeus sem vínculo direto com a economia escravagista argumentaram que a secessão dos estados do sul deveria ser aceita por causa do princípio da autodeterminação. Eles atacaram a opção do Norte pela guerra e seu fracasso em repudiar a escravidão.

Aos olhos de Marx, os observadores britânicos que alegavam deplorar a escravidão, mas apoiavam a Confederação, eram simplesmente farsantes. Ele atacou a hostilidade visceral ao Norte evidente no Economist e no Times (de Londres). Esses jornais afirmavam que a verdadeira causa do conflito era o protecionismo do Norte contra o livre comércio favorecido pelo Sul. Marx refutou seus argumentos em uma série de artigos brilhantes para o Die Presse, uma publicação vienense, que demoliu causticamente seu determinismo econômico e, em vez disso, esboçou um relato alternativo — sutil, estrutural e político — das origens da guerra.

Marx insistiu que a secessão foi motivada pelos temores políticos da elite sulista. Eles sabiam que o poder dentro da União estava se voltando contra eles. O Sul estava perdendo o controle sobre as instituições federais por causa do dinamismo do Noroeste, destino de muitos novos imigrantes. À medida que o Território do Noroeste amadureceu em estados livres, o Sul se viu em menor número; o Norte relutava em reconhecer quaisquer novos estados escravistas. Os senhores de escravos haviam alienado os nortistas ao exigir que prendessem e devolvessem os escravos fugitivos, mas sabiam que precisavam do apoio sincero de seus concidadãos se quisessem defender sua “instituição peculiar”. A eleição de Lincoln foi vista como uma ameaça mortal porque ele não devia nada aos sulistas e havia prometido se opor a qualquer expansão da escravidão.

Marx deu total apoio à causa da União, embora Lincoln inicialmente se recusasse a fazer da emancipação um objetivo de guerra. Marx estava confiante de que o choque de regimes sociais rivais, baseados em sistemas de trabalho opostos, mais cedo ou mais tarde viria à tona como a verdadeira questão. Embora apoiasse consistentemente o Norte, ele escreveu que a União só triunfaria se adotasse as medidas revolucionárias antiescravistas defendidas por Wendell Phillips e outros abolicionistas radicais. Ele ficou particularmente impressionado com os discursos de Phillips em 1862 pedindo para acabar com todos os compromissos com a escravidão. Ele citou com aprovação o ditado de Phillips de que “Deus colocou o raio da emancipação” nas mãos do Norte e eles deveriam usá-lo.

Marx continuou a se corresponder com Dana e lhe enviou seus artigos (Dana era fluente em alemão). A essa altura, Dana havia deixado o mundo do jornalismo para se tornar os “olhos e ouvidos” de Lincoln como comissário especial no Departamento de Guerra, percorrendo as frentes e relatando à Casa Branca que Ulysses Grant era o homem a apoiar. Marx argumentou no Die Presse em março de 1862 que os exércitos da União deveriam abandonar sua estratégia de cerco e tentar cortar a Confederação em duas. Dana deve ter notado que Grant havia chegado à mesma conclusão por instinto e experiência. Em 1863, Dana tornou-se secretário adjunto do Departamento de Guerra.

Marx ficou encantado quando Lincoln — encorajado pela campanha abolicionista e pela radicalização da opinião no Norte — anunciou sua intenção de emitir uma Proclamação de Emancipação em janeiro de 1863. A Proclamação tornaria difícil para os governos britânico ou francês conceder reconhecimento diplomático à Confederação. Também permitia o alistamento de libertos no exército da União.

Marx e Lincoln tinham opiniões muito divergentes sobre corporações comerciais e trabalho assalariado, mas, da perspectiva atual, eles compartilhavam algo importante: ambos detestavam a exploração e consideravam o trabalho como a principal fonte de valor. Em sua primeira mensagem ao Congresso em dezembro de 1861, Lincoln criticou o “esforço para colocar o capital em pé de igualdade com, senão acima, o trabalho na estrutura do governo”. Em vez disso, ele insistiu, “o trabalho é anterior e independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho... O trabalho é superior ao capital e merece muito mais consideração.”

Lincoln acreditava que na América o trabalhador assalariado era livre para ascender por seus próprios esforços e poderia se tornar um profissional, ou mesmo um empregador. Marx sustentava que esse quadro de mobilidade social era uma miragem e que apenas um punhado poderia conseguir a independência econômica.

Para Marx, o trabalhador assalariado era apenas parcialmente livre, pois tinha que vender seu trabalho a outro para que ele e sua família pudessem viver. Mas, como não era escravo, o trabalhador livre podia se organizar e agitar por, digamos, uma jornada de trabalho mais curta e educação gratuita. Weydemeyer havia lançado uma Federação Trabalhista Americana em 1853 que apoiava esses objetivos e declarava suas fileiras abertas a todos “independentemente de ocupação, idioma, cor ou sexo”. Esses temas se tornaram centrais para a política dos seguidores de Marx na América.

O assassinato de Lincoln levou Marx a escrever um novo “Discurso” da IWA para seu sucessor, com uma homenagem exagerada ao presidente morto. Nesse texto, Marx descreveu Lincoln como “um homem que não se deixa intimidar pela adversidade, nem se embriagar pelo sucesso, avançando inflexivelmente para seu grande objetivo, nunca o comprometendo por uma pressa cega, amadurecendo lentamente seus passos, nunca os refazendo... fazendo seu trabalho titânico tão humilde e modestamente quanto os governantes nascidos no céu fazem pequenas coisas com a grandiloquência da pompa e do estado. Tal era, de fato, a modéstia deste grande e bom homem, que o mundo só o descobriu como herói depois de ter caído como mártir.” No entanto, a trágica perda não impediu que a vitória do Norte abrisse caminho para uma “nova era de emancipação do trabalho”.

Marx e Engels logo ficaram preocupados com as ações de Andrew Johnson, o novo presidente. Em 15 de julho de 1865, Engels escreveu a seu amigo atacando Johnson: “Seu ódio aos negros vem à tona cada vez mais violentamente... Se as coisas continuarem assim, em seis meses todos os velhos vilões da secessão estarão sentados no Congresso em Washington. Sem sufrágio das pessoas de cor, nada pode ser feito lá”. Os republicanos radicais logo chegaram à mesma conclusão.

Logo após a guerra, e em parte graças à publicação dos discursos da IWA, a Internacional atraiu muito interesse e apoio nos Estados Unidos.

Marx estava dando os toques finais em O Capital: Volume I em 1866-67, e incluiu uma nova seção nesta fase tardia sobre os determinantes da duração da jornada de trabalho. O apelo por um dia de oito horas emergiu como uma demanda importante em vários estados dos EUA. Em 1867, a IWA deu as boas-vindas ao surgimento de um Sindicato Nacional dos Trabalhadores nos Estados Unidos, formado para difundir a demanda como um objetivo unificador.

Em sua primeira conferência, o NLU declarou: “O Sindicato Nacional dos Trabalhadores não conhece norte, nem sul, nem leste, nem oeste, nem cor nem sexo, na questão dos direitos do trabalho”. No espaço de um ano, oito diferentes estados do Norte adotaram a jornada de oito horas para funcionários públicos.

As regiões dos Estados Unidos ofereciam possibilidades muito diversas de ação política. Apenas a presença de tropas da União no Sul impediu que vigilantes brancos, muitos deles veteranos confederados, aterrorizassem os libertos. No Tennessee, na Carolina do Sul e na Louisiana, houve congressos negros que redigiram uma “Declaração de Direitos e Erros”, insistindo que a liberdade seria uma zombaria se não implicasse acesso igualitário a ônibus, trens e hotéis, escolas e universidades.

No norte e no oeste, os radicais mais ousados organizaram seções da Internacional; no final da década de 1860, havia cerca de cinquenta seções e talvez cinco mil membros. Em dezembro de 1871, a IWA em Nova York organizou uma demonstração de solidariedade de setenta mil pessoas pelas vítimas massacradas na repressão da Comuna de Paris. A multidão destacava uma milícia negra chamada Skidmore Guards; muitos sindicalistas com suas bandeiras; Victoria Woodhull e as líderes feministas da Seção 12; uma banda irlandesa; e um contingente marchando atrás da bandeira cubana. Muitos dos sindicatos fundados nessa época incluíam a palavra “Internacional” em seu nome.

Mas no início da década de 1870, o apoio do Norte à Reconstrução, com sua dispendiosa ocupação do Sul e suas ousadas afrontas ao preconceito racial, estava começando a diminuir. Uma onda de escândalos de corrupção minou a moral republicano. O verdadeiro problema, no entanto, era que o programa republicano havia se desintegrado. Lincoln esperava construir um governo federal forte e autoritário em Washington e, assim, obter respeito pelo estado de direito em toda a União restaurada. Aos olhos de Marx, Lincoln teria construído o tipo de “república democrática burguesa” que permitiria o surgimento de um partido trabalhista dedicado à educação gratuita, tributação progressiva e jornada de trabalho de oito horas.

Essas esperanças foram frustradas. O assassinato de Lincoln, o caos e a reação da presidência de Johnson e o fracasso de Ulysses Grant, seu sucessor, em impor liderança moral, tudo isso minou ou comprometeu a promessa de um governo federal autoritário e indivisível. Marx não se surpreendeu com o surgimento de capitalistas “barões ladrões”, nem com a amarga luta de classes que eles desencadearam. Ele esperava — na verdade previu — muita coisa disso.

Mas o fracasso do estado federal em impor sua autoridade ao Sul era outra questão, assim como a capacidade dos chefes do Norte de esmagar greves mobilizando milhares de policiais especiais e homens da Pinkerton.

O fim da escravidão certamente validou o alinhamento momentâneo de Lincoln e Marx. Durante a Reconstrução (aproximadamente 1868-1876), os libertos podiam votar, seus filhos podiam ir à escola e havia muitos eleitos negros. No Norte, houve ganhos para o movimento das oito horas e as primeiras tentativas de regularizar as corporações ferroviárias.

Mas algo do espírito conservador da república antebellum, com sua aversão à tributação federal, persistiu na fraqueza do poder federal. Em um desenvolvimento ameaçador, a Suprema Corte declarou que o imposto de renda progressivo, introduzido pelo governo Lincoln em 1862, era inconstitucional. Sem o imposto de renda, pagar pela guerra seria muito mais difícil e a futura redistribuição impossível.

Outro passo retrógrado foi uma decisão da Suprema Corte que interpretou a promessa de tratamento igualitário para “todas as pessoas” na Décima Quarta Emenda de 1868 — uma medida introduzida para proteger os libertos — como uma proteção às novas corporações, uma vez que também se considerava que gozavam a condição de “pessoas”. O resultado direto dessa decisão foi tornar muito mais difícil para as autoridades federais ou locais regular as corporações (a decisão ainda está em vigor).

A reconstrução terminou com um acordo entre republicanos e democratas que resolveu o impasse do Colégio Eleitoral de 1876, confirmando a autoridade fragmentada do estado. Esse acordo permitiu que o candidato com menos votos entrasse na Casa Branca, ao mesmo tempo em que exigia a retirada de todas as tropas federais do Sul. Isso deu rédea solta às turbas de linchamento.

Em poucos meses, reclamou o próprio Grant, as tropas federais que haviam sido impedidas de enfrentar a Ku Klux Klan foram enviadas contra os ferroviários durante a Grande Greve de 1877, suprimindo-a à custa de cem vidas. Os trabalhadores americanos lutaram tenazmente, mas muitas vezes em uma base regional ou estado por estado.

Para muitos, o sindicalismo fazia mais sentido do que o partido trabalhista que Marx e Engels defendiam, embora a análise penetrante de Marx sobre o capitalismo ainda tivesse um impacto em pessoas tão diversas como Samuel Gompers (fundador da AFL), Lucy Parsons (sindicalista, feminista, fundadora da o IWW) e Eugene Debs (socialista).

A derrota da visão de Lincoln de uma república unificada, democrática e autoritária foi uma derrota também para os socialistas. Não foi a última vez que a genialidade da Constituição dos EUA, com seus múltiplos freios e contrapesos, frustrou os planos dos progressistas.

Colaborador

Robin Blackburn leciona na Universidade de Essex e é autor de Age Shock: How Finance is Failing Us.

1 de agosto de 2012

Janízaros democráticos? O papel da Turquia na primavera Árabe

A Turquia foi saudada no Ocidente como um modelo democrático para o mundo islâmico. Cihan Tuğal dá uma olhada legal no histórico de política interna e externa do governo de Erdoğan, desde a diplomacia de "problemas zero" até o bloqueio da Líbia e a guerra suja em Damasco, ataques aéreos contra curdos turcos e silêncio no Bahrein.

Cihan Tuğal


NLR 76 • JULY/AUG 2012

Tradução / Os levantes políticos da Primavera Árabe e as vitórias eleitorais de partidos islâmicos trouxeram de volta à tona o debate a respeito do "modelo turco" — que "integra Islã, democracia e economia vibrante de maneira bem-sucedida", de acordo com um artigo efusivo de 2011 do New York Times , que saudou o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdoğan como "provavelmente a figura mais influente do Oriente Médio". Funcionários da Casa Branca enfatizaram o exemplo positivo que a Turquia poderia dar como país muçulmano que mantém relações diplomáticas com Israel; em 2009, Obama, em uma visita a Ancara muito anunciada, saudou o governo do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) como um "parceiro-modelo" e um dos pilares da Otan. O International Crisis Group descreve a Turquia como "objeto de inveja do mundo árabe", usufruindo "uma democracia sólida, um líder legitimamente eleito que parece representar o ânimo popular, produtos populares do Afeganistão ao Marrocos — inclusive dezenas de seriados televisivos dublados em árabe que estão em televisores em toda parte — e uma economia que vale cerca de metade de todo o mundo árabe". Turistas de outros lugares da região acorriam para testemunhar "uma sociedade muçulmana em paz com o mundo, economicamente avançada e onde tradições islâmicas coexistem com os padrões de consumo ocidentais"1.

O louvor é ecoado por Tariq Ramadan, que declarou a visita de Erdoğan ao Egito, à Tunísia e à Líbia, em setembro de 2011, "um imenso sucesso popular" — "árabes e muçulmanos olhavam com espanto e admiração" enquanto Erdoğan falava em favor do direito dos palestinos à existência. "Ele está do lado certo da História", proclamou Ramadan. "A Turquia pode e deve desempenhar um papel importante", ajudando "a reconciliar os muçulmanos com confiança, autonomia, pluralismo e sucesso"2. Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoğlu se orgulhava de trazer uma nova pax ottomana para a região, uma abordagem "zero problemas com os vizinhos" que expandiria a influência de Ancara no Cáucaso e no mar Negro, no Oriente Médio e no Mediterrâneo, ao mesmo tempo ajudando a intermediar relações melhores entre Israel e os Estados árabes. Essa visão nega quaisquer ambições imperiais neo-otomanas; antes, é descrita por seus proponentes como uma questão de "soft power ", sublinhando o rosto sorridente que desejam associar a ela. Como uma estrutura emergente de sentimento, a pax ottomana foi abraçada por camadas da intelligentsia e pela cultura popular, indo muito além das fileiras do AKP3. A nostalgia por tudo que é ottomanesque arrastou até a Turquia secular, levando a taxas de audiência recordes para uma novela sobre o sultão Süleyman e as intrigas de seu harém; formas banalizadas e sexualizadas de esplendor imperial tornaram-se parte do ar que se respira.

Depois de uma década de governo do AKP, um consenso internacional tem retratado a Turquia de Erdoğan como a alternativa "bem-sucedida" tanto ao autoritarismo árabe secular quanto ao islamismo revolucionário do Irã. Pesquisas de opinião revelam uma aceitação mais cautelosa: relata-se que cerca de 60% dos árabes veem a Turquia como um modelo. Até que ponto um exame de cabeça fria da política externa e do histórico doméstico do AKP sustenta essas afirmações?

A NOVA OSTPOLITIK

O AKP assumiu o governo em novembro de 2002 como um partido outsider , capitalizando a crise do sistema político depois dos colapsos da economia turca em 1999 e 2001. Suas origens estavam em um movimento social conservador, construído com base em política de rua, escolas religiosas e mobilizações populares; sua ideologia combinava ética empresarial, devoção religiosa e parlamentarismo com uma linha pró-muçulmana convencional, portanto pró-Palestina, opondo-se à intervenção militar anglo-americana na região. Mas a nova liderança do AKP — Erdoğan, Abdullah Gül, Bülent Arınç — também era veementemente pró-União Europeia (UE) e fazia visitas frequentes aos Estados Unidos4. Nas eleições de novembro de 2002, o AKP amealhou 60% das cadeiras do Meclis, o parlamento turco, ainda que com apenas 34% dos votos. Seu primeiro teste de política externa aconteceu na primavera de 2003 com a invasão do Iraque pelos Estados Unidos — que teve a oposição de uma esmagadora maioria da população turca. Os resultados das três votações no Meclis sobre a guerra quase nem precisam ser relembrados. Em fevereiro de 2003, os deputados do AKP apoiaram uma decisão de permitir que bases americanas na Turquia fossem reforçadas, em preparação para a invasão. A segunda votação, realizada na ausência de Erdoğan, em março de 2003, assistiu a uma rebelião dos deputados do AKP, que se juntaram à oposição do Partido Republicano do Povo (PRP) para derrotar a moção do governo que permitia que tropas americanas lançassem a invasão a partir do solo turco. No momento da terceira votação, algumas semanas depois, Erdoğan tinha disciplinado seu partido: uma maioria maciça de deputados do AKP votou a favor da guerra — e do envio de forças turcas para apoiar a ocupação anglo-americana do Iraque (além das tropas que tinham patrulhado por muito tempo a região curda do Iraque sob a zona de exclusão aérea anglo-americana).

No fim, a utilização do exército turco como parte da força de ocupação no Iraque foi bloqueada pelo líder curdo iraquiano Massoud Barzani, e talvez também pelo governo Bush, como punição pela curta rebelião do Meclis. O mais impressionante, no entanto, e que dá uma medida da hegemonia que o AKP usufruía, foi o nível de apoio popular para a posição pró-Bush de Erdoğan, que foi entendida como um golpe de mestre estratégico: uma concessão a curto prazo que garantiria apoio americano para a Turquia e recompensas importantes a longo prazo. A terceira votação foi também saudada pelos liberais atlanticistas da Turquia como um bem-vindo passo na direção de uma participação mais plena nas intervenções militares da "comunidade internacional", principalmente em antigas terras otomanas. Esse apoio foi vantajoso para o governo Erdoğan quando ele emprestou apoio a intervenções militares ocidentais bem-sucedidas em países muçulmanos. Assim, em 2006, quando a população turca condenou quase unanimemente a invasão do Líbano e o bombardeio do sul de Beirute por Israel, Erdoğan e Gül, então ministro das Relações Exteriores, insistiram na participação turca na força da onu enviada para conter o Hezbollah, o que as forças de defesa israelenses evidentemente não tinham conseguido fazer, com a justificativa de "socorrer" as vítimas libanesas.

De forma semelhante, o vice-primeiro-ministro Bülent Arınç explicou que o exército turco está no Afeganistão para ajudar a Otan a "proteger a paz". Quando doze soldados turcos foram mortos lá recentemente em um acidente de helicóptero, os apoiadores liberais do governo — com destaque para o ex-maoísta Şahin Alpay — se apressaram a apontar a indissociabilidade entre os interesses turcos e os interesses "globais", em resposta a um questionamento contundente do novo líder, pró-esquerda, do PRP, Kemal Kılıçdaroğlu, sobre se as tropas turcas estavam no Afeganistão "para defender os interesses da nossa nação". Conservadores islâmicos, entretanto, argumentam que o contingente turco da ISAF [Força Internacional de Assistência à Segurança, da Otan] está lá para proteger os afegãos dos excessos do imperialismo ocidental — uma desculpa usada com frequência quando se defende a participação da Turquia em ocupações lideradas pelos Estados Unidos5. Eles também enfatizam a necessidade de proteger o modelo turco do Islã contra uma suposta versão al-Qaeda. A participação da Turquia na ISAF , junto com a da Jordânia e a dos Emirados Árabes Unidos, tem claramente valor simbólico, e não militar, para os Estados Unidos: a presença de tropas de países predominantemente muçulmanos supostamente prova que essa não é uma cruzada cristã contra o Islã. Na verdade, ela ajuda a manter a Turquia presa em seu papel costumeiro de "ponte" entre o imperialismo ocidental e o mundo muçulmano — uma ponte para a travessia das forças da Otan. Uma minoria de forças islâmicas mais radicais, junto com a esquerda, muito reduzida, ainda resiste ao envolvimento, orientado pelo Ocidente, da Turquia na região e exige uma ação diplomática e militar independente. Mas um número muito maior de intelectuais e ativistas islâmicos apoia o governo em sua tentativa de afirmar a liderança islâmica e ao mesmo tempo permanecer uma extensão do Ocidente.

NEO-OTOMANO?

Uma vez que o objetivo da política externa central do AKP de entrada na ue tinha sido adiado — depois da rejeição pelos eleitores cipriotas do plano de Kofi Annan para contornar o fato flagrante de quarenta anos de ocupação militar da ilha pela Turquia —, a ostpolitik de Ancara adotou uma nova ênfase. Em 2007, quando líderes franceses e alemães fizeram discursos de campanha eleitoral sobre a "Europa cristã", Erdoğan, Gül e Davutoğlu puderam apontar para o novo papel da Turquia no Oriente. Durante a Guerra Fria, os esforços da política externa de Ancara tinham sido quase exclusivamente voltados para o Oriente (se é que as antigas relações com Israel podem ser incluí­das nessa expressão). A desintegração do Império Otomano tinha deixado um legado de desconfiança mútua em toda a região até então governada de Istambul. Os turcos acusavam os árabes de "apunhalá-los nas costas" ao cooperar com potências ocidentais após a Primeira Guerra Mundial; a modernização (e turquificação) kemalista visava a uma ruptura decisiva com a cultura islâmica e árabe, incluindo a romanização do alfabeto e a "purificação" desarabizante da língua. Similarmente, a dominação turca histórica era um leitmotiv negativo para os Estados árabes, fossem repúblicas seculares, fossem monarquias conservadoras; livros didáticos árabes se referiam aos turcos, não apenas aos otomanos, como imperialistas. Assim como os kemalistas atribuíam o "atraso" turco à influência decadente da cultura árabe, os nacionalistas árabes culpavam o colonialismo e a exploração otomanos pelos baixos níveis de desenvolvimento econômico de seus países. É verdade que alguns islamitas árabes detectavam aspectos virtuosos no passado otomano, enquanto alguns islamitas turcos também tinham nostalgia pelos tempos em que turcos, árabes e outros coexistiam sob o estandarte do Islã. Mas, se havia uma compaixão generalizada em relação aos sofrimentos dos palestinos, havia pouca solidariedade prática pró-árabe entre os islamitas turcos, e a mais influente organização religiosa do país, a comunidade Gülen — dirigida pelo clérigo Fethullah Gülen de seu exílio autoimposto na Pensilvânia —, defende uma agenda cultural explicitamente nacionalista turca6.

No início dos anos 2000, porém, três desenvolvimentos estavam começando a colocar a Turquia sob uma luz mais positiva, ainda que com alguns pontos escuros, para o mundo árabe. Em primeiro lugar, o país tinha combinado sua adesão ao neoliberalismo com uma democratização parcial, enquanto regimes árabes neoliberalizantes insistiam no autoritarismo, justificando seus aparatos de segurança repressivos para a elite global como um baluarte contra o islamismo radical, e para as massas árabes como uma defesa contra a ameaça israelense7 (uma desculpa ridícula, já que os governantes árabes sistematicamente fecharam os olhos para as depredações praticadas por Israel nos territórios ocupados, contentando-se com demagogia antissionista). Em segundo lugar, quando sua recuperação econômica do crash de 2001 ganhou fôlego, a Turquia passou a contar com entradas recordes de investimento estrangeiro direto, principalmente de países do Golfo, e começou a exibir números de crescimento mais altos — embora também desigualdades que se ampliavam rapidamente. Em terceiro lugar, o advento do governo do AKP despertou a curiosidade do mundo árabe: a tradição kemalista da Turquia era habitualmente retratada como ateia e antiárabe, mas os líderes do AKP eram aparentemente devotos e, no caso de Erdoğan, tinham um toque popular. Assim, enquanto a brutalidade da polícia, a pobreza, a desigualdade e o desemprego se intensificavam sob regimes árabes neoliberais autoritários, a Turquia reemergia na imaginação popular árabe como uma entidade ambivalente. O governo Erdoğ an se tornava um símbolo de força muçulmana, mas também evocava inquietação com a arrogância imperial dos turcos.

Essa arrogância foi amplamente exibida no tratamento dado pelo governo Erdoğan aos curdos da Turquia. Desde 1984, o Estado turco matou um número estimado em 40 mil de seus cidadãos curdos — comparável pelo menos às mortes atribuídas a Bashar Assad — e a repressão da língua e da cultura curdas foi mais selvagem na Turquia do que na Síria, no Iraque ou no Irã8. Nos dois primeiros anos de governo, o AKP introduziu algumas medidas descriminalizando a cultura curda, entre elas a permissão para transmissões limitadas de tv e ensino privado em língua curda, embora estas ficassem aquém do que os curdos vinham reivindicando. Mas, em 2005, o AKP começou a tomar um rumo estridentemente nacionalista turco, intensificando a repressão militar no sudeste e envolvendo as cidades em gigantescas bandeiras turcas. Ao mesmo tempo, e encorajado pela região curda autônoma de fato criada sob os auspícios da ocupação dos Estados Unidos no norte do Iraque, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) encerrou seu cessar-fogo de cinco anos. A Turquia intensificou devidamente seus ataques aéreos a campos do PKK no Iraque, irritando o governo regional de Massoud Barzani. O governo Bush interveio para repreender severamente seus aliados em janeiro de 2005 e novamente em outubro de 2007, intermediando acordos pelos quais a mão de Barzani seria molhada por empresas de construção turcas, enormes contratos de infraestrutura seriam concedidos ao governo no Curdistão iraquiano, entre eles o do aeroporto Sulaymaniyah, de US$ 40 milhões, enquanto o exército turco era autorizado a bombardear livremente militantes do PKK abrigados no norte do Iraque9. Depois de sucessivas ondas de prisões, os ativistas estimam que haja agora pelo menos três mil estudantes turcos-curdos na prisão, assim como jornalistas e professores universitários, nem todos eles curdos, acusados de "propaganda terrorista" ou de "insultar a nação turca".

"ZERO PROBLEMAS"

Foi nesse contexto que Erdoğan, Gül e Davutoğlu lançaram a iniciativa diplomática que batizaram de "zero problemas com os vizinhos", com o objetivo de impressionar os Estados do Oriente Médio com a influência de Ancara em Washington, e Washington com sua nova influência no Oriente Médio. Muito dinheiro foi gasto na melhoria de embaixadas turcas, e muito tempo e energia em viagens diplomáticas pela região. A política de "zero problemas" tinha um componente comercial substancial. Economicamente, a Turquia permanece predominantemente orientada para o Norte e o Oeste: em 2010, o comércio turco com a ue foi de quase US$ 125 bilhões (exportações turcas de US$ 52,7 bilhões, importações de US$ 72,2 bilhões), enquanto o comércio com a Rússia e outras ex-repúblicas soviéticas foi de US$ 35,1 bilhões. Em contraste, o comércio com o GCC (Gulf Cooperation Council) e o Iêmen foi de US$ 10,3 bilhões (US$ 6,7 bilhões de exportações, US$ 3,6 bilhões de importações); o comércio com o Norte da África foi de US$ 8,2 bilhões; com o Egito, de US$ 3,2 bilhões; com a Síria, de US$ 2,5 bilhões, dos quais três quartos compostos de exportações turcas. No entanto, em 2010 o comércio com o Oriente Médio e o Norte da África foi substancialmente maior do que tinha sido em 2002 — até o triplo com a Síria, quase o quádruplo com o Norte da África, o quíntuplo com o GCC e o Iêmen e o séptuplo com o Egito10. Grande parte disso foi representada pela indústria da construção civil turca, com projetos muitas vezes facilitados por empréstimos de bancos turcos; empresas de alimentos e têxteis turcas investiram no Egito, na Síria e no Golfo. A diplomacia "zero problemas" de Davutoğlu também levou a um bem-vindo relaxamento das restrições para vistos de entrada de visitantes de Estados árabes na Turquia, colocando-os em pé de igualdade com turistas da UE e da Rússia. As exigências de visto para marroquinos e tunisianos foram atenuadas em 2007, e para sírios, libaneses, jordanianos e líbios em 2009. No ano seguinte, a Turquia amarrou um acordo com Síria, Líbano e Jordânia para criar uma zona de livre-comércio com quatro países, a Associação Econômica e Comercial de Vizinhos Próximos. A ofensiva diplomática da Turquia envolveu naturalmente relações mais cordiais com os governantes do Golfo, Mubarak, Ben Ali, Assad, Kadafi, e assim por diante. Em 2010, Erdoğ an voou para Trípoli para ser reverenciado pelo líder líbio com o Prêmio de Direitos Humanos Al-Kadafi daquele ano.

"Zero problemas" com Israel era um elemento central da política de Davutoğlu. O comércio bilateral com Israel quase triplicou no governo do AKP, passando de US$ 1,3 bilhão, em 2002, para US$ 3,4 bilhões, em 2010. A Turquia fez grandes compras de armas israelenses, os exercícios militares conjuntos foram ampliados e ofereceu-se à Força Aérea israelense o livre uso do espaço aéreo sobre Konya para suas missões de treinamento. Davutoğlu e Erdoğan investiram muito esforço na tentativa de mediar as relações entre Israel e seus vizinhos. Erdoğan estava particularmente encantado com o papel que imaginou para si de "facilitador" em uma nova iniciativa de paz sírio-israelense em 2008. De acordo com diplomatas locais, suas inúmeras viagens entre Bashar Assad e Ehud Olmert permitiam que "a Turquia se sentisse importante" e que Israel demonstrasse suas "intenções pacíficas". Relatou-se que Erdoğan se sentiu "chocado e traído no que ele achava serem compromissos pessoais de Olmert" quando o primeiro-ministro israelense lançou a ofensiva da Operação Chumbo Fundido em Gaza no fim de dezembro de 2008, cerca de um dia depois de uma aconchegante discussão com jantar de cinco horas com Erdoğan, durante a qual o líder turco fizera um longo telefonema para Assad. Naturalmente Olmert não fizera nenhuma menção aos planos das forças de defesa israelenses para Gaza. Esse foi o pano de fundo do protesto de Erdoğan em Davos algumas semanas depois, quando, ao participar de um painel com Shimon Peres, leu críticas de Avi Shlaim e outros ao ataque a Gaza e deixou a plataforma no momento em que o moderador tentou fazer com que ele resumisse sua fala. Isso rendeu a Erdoğan elogios abundantes na imprensa árabe por "enfrentar Israel", embora os exercícios da Força Aérea israelense no espaço aéreo turco continuassem, e, em 2010, Tel Aviv cumprisse devidamente a entrega de tanques M-60 recondicionados e drones Heron, para que o regime do AKP os utilizasse contra o PKK no norte do Iraque11.

As relações turco-israelenses foram ainda mais tensionadas pelo caso Flotilha da Liberdade, em maio de 2010, quando comandos israelenses mataram nove ativistas turcos a bordo do Mavi Marmara quando este navegava na direção de Gaza para romper o embargo israelense-egípcio. Muitos dos ativistas a bordo eram filiados à IHH, uma organização de auxílio islâmica que fornece ajuda a muçulmanos afligidos pela guerra. Na partida do navio houvera uma manifestação em grande escala organizada pelo Partido da Felicidade, o remanescente do agrupamento islâmico mais intransigente do qual Erdoğan e os outros líderes do AKP haviam se separado em 2001, e que desde então tem sido apenas um ator político menor. Vários parlamentares do AKP aparentemente também tinham tentado ir a bordo, mas o governo os havia mandado voltar pouco antes de o Mavi Marmara iniciar sua jornada fatídica. Embora comentaristas na Turquia especulassem que a rota do navio fora aprovada pelo governo, o AKP negou qualquer ligação. Enquanto isso, em uma rara declaração à imprensa para o Wall Street Journal , Fethullah Gülen, o líder islâmico mais influente da Turquia, acusou os ativistas da flotilha de "desafiar a autoridade", um pecado grave para intérpretes conservadores do Islã12. Na verdade, o AKP conseguiu satisfazer aos dois lados: em resposta aos críticos israelenses e americanos que disseram que ele deveria ter impedido o navio de navegar, pôde argumentar que não tinha nenhum controle sobre a situação; entre seu eleitorado islâmico e os muçulmanos em todo o mundo, no entanto, ele pôde ganhar crédito por uma tentativa de romper o embargo a Gaza. Alinhado com essa abordagem, Gül pediu um inquérito oficial da onu sobre o destino da Flotilha da Liberdade. Como era previsível, o relatório da onu, presidido pelo ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia Geoffrey Palmer, concluiu que o bloqueio de Gaza — uma população de quase 2 milhões de pessoas presas em condições semelhantes às de um gueto, com suprimentos dependentes do capricho de Israel — era perfeitamente aceitável sob a legislação internacional13.

PRIMAVERA ÁRABE

A diplomacia "zero problemas" do AKP foi ainda mais desorganizada pelas revoltas árabes de 2011. Assim como os Estados Unidos e a maior parte da UE, o governo turco permaneceu em silêncio em janeiro de 2011, enquanto protestos contra o regime de Ben Ali cresciam na Tunísia, em contraste com o apoio imediato ao movimento oferecido, por diferentes motivos, pelo Qatar, pelo Irã e pelo Hezbollah. Erdoğan fez uma intervenção mais notável no Egito. Falando na tv turca em 1º de fevereiro de 2011, uma semana após o primeiro "dia de fúria", ele aconselhou Mubarak a "atender ao desejo de mudança do povo, sem hesitação" — "você deve ser o primeiro a dar um passo para a paz, a segurança e a estabilidade no Egito, sem permitir que exploradores, círculos corruptos e círculos que têm cenários sombrios para o Egito tomem a iniciativa"14. Isso estava amplamente alinhado com o apelo do governo Obama, em 30 de janeiro, a uma "transição ordeira", e na verdade seguiu-se ao anúncio de Mubarak de que ele não concorreria à eleição presidencial marcada para setembro de 2011. Mas serviu para posicionar Erdoğ an como um amigo da praça Tahrir.

Como Washington, mais uma vez, Ancara silenciou quando protestos irromperam no Bahrein em meados de fevereiro e fechou os olhos quando manifestantes foram atingidos com tiros e bombas de gás lacrimogêneo na Praça da Pérola. Em 20 de março, apenas uma semana depois de tanques sauditas terem rolado pela calçada para esmagar os manifestantes pela democracia, Erdoğan anunciou que a Turquia e a Arábia Saudita "dão uma contribuição importante para a paz e a estabilidade regionais, e exibem um modelo de cooperação"15. De fato, Erdoğan e Davutoğlu agiram para consolidar as relações turcas com a Arábia Saudita à medida que a Primavera Árabe se enfraquecia, trabalhando para fortalecer a sectarização — sunitas contra xiitas e alauitas — da região. Ancara, prudentemente, também se calou sobre o levante no Iêmen, onde interesses sauditas e americanos poderiam ter sido ameaçados se as demandas por empregos, padrão de vida e democratização fossem atendidas. Quando a repressão se acirrou, as divisões dentro da elite tribal governante assumiram maior relevância, por fim lançando tribo contra tribo, em vez de ativistas contra a ditadura16. Negociações tribais acabaram levando à remoção do presidente Saleh sem nenhuma grande mudança no aparelho do Estado, que se manteve adequado aos propósitos dos sauditas e do governo Obama17.

A geopolítica da Primavera Árabe sofreu uma mudança decisiva com a militarização da revolta líbia, sob os auspícios das potências da Otan. Em 17 de março de 2011, a "comunidade internacional" autorizou-se a impor uma zona de exclusão aérea — de fato, uma guerra aérea contra o regime de Kadafi — e tomar "todas as medidas necessárias", nos termos da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da onu. Nesse caso, o governo Erdoğan se dividiu18. A princípio o próprio Erdoğan havia se oposto à intervenção da Otan, deixando consternados seus apoiadores liberal-atlanticistas. Em 15 de março, ele anunciou em uma entrevista na tv que havia telefonado pessoalmente a Kadafi e o aconselhado a ouvir o povo e nomear um novo presidente. Seguiram-se muitas guinadas depois que a operação da Otan foi posta em prática. Em 25 de março, uma força naval turca foi enviada para impor o bloqueio de portos controlados por Kadafi. O Meclis aprovou o envio de mais forças, inclusive tropas, se necessário. Representantes turcos protestaram contra o fato de a Operação Harmattan, da França, se aproveitar secretamente da ação combinada das potências da Otan, e a base aérea de Izmir foi oferecida para o bombardeio. Os franceses contra-argumentaram que Erdoğan e Davutoğlu estavam ressentidos por não terem sido convidados para a reunião de cúpula que Sarkozy havia convocado após a aprovação da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da onu. Sarkozy agiu para impedir que a Turquia desempenhasse um papel de liderança no ataque. Isso não foi difícil, dados os sentimentos ambíguos e as divisões internas entre as forças pró-governo na Turquia. Erdoğan e Davutoğlu decidiram a contragosto dar apoio logístico à Otan. No início de julho de 2011, Davutoğlu voou para Bengasi para encontrar os líderes do Conselho Nacional de Transição (CNT) e anunciar o reconhecimento pela Turquia do CNT como legítimo representante do povo líbio.

Essas incoerências foram em boa parte causadas pelas dificuldades de conciliar a abordagem "zero problemas" de Davutoğlu com as realidades das alianças ocidentais da Turquia, no contexto do que era, para Washington, Paris e Londres, uma guerra periférica de menor importância. Junto com os Estados Unidos e outros importantes Estados ocidentais, a Turquia tinha desenvolvido não só boas relações diplomáticas, mas também bons negócios com Kadafi, lucrando em especial com o boom de construção líbio após 2009. Não estava claro que a derrubada violenta do regime beneficiaria a Turquia, ao passo que as potências ocidentais, que tinham mais controle sobre a transição, poderiam contar com sua capacidade de dividir e manipular os novos detentores do poder líbio. Mas as guinadas do governo turco tinham outra fonte: os ideólogos e militantes de formação islâmica, que ainda constituíam as vértebras ideológicas do AKP, haviam combatido ditaduras; mas tinham também se oposto à ação militar ocidental na região, que desde 1990 adotara, ainda que seletivamente, a agenda da derrubada de ditadores. Como vimos, muitos desses apoiadores do AKP estavam agora fazendo as pazes com o papel subimperial da Turquia na região, como um baluarte da ordem da Otan. Essa era a dimensão diplomática e geopolítica de um processo mais amplo de absorção que descrevi em outro lugar como uma "revolução passiva"19. Em maio de 2011 — um mês em que mais de setecentos civis líbios foram mortos por ataques aéreos da Otan, de acordo com Trípoli —, Davutoğ lu resumiu a posição desses ex-anti-imperialistas islâmicos em relação às revoltas radicais da Primavera Árabe:

Um espírito revolucionário, uma cultura de rebelião se desenvolveu nesta região [...] Se eu não estivesse neste cargo, ou se fosse jovem, eu entoaria "Vida longa à revolução". Mas, como a grande potência [ büyük devlet] que guarda a estabilidade na região, temos de assegurar que as pessoas sejam prejudicadas o mínimo possível20.

Uma empatia "desencantada" e madura com a juventude e a rebeldia combinada a um elogio da ordem e da estabilidade; uma "ética de responsabilidade" que defende o Estado como o protetor de populações indefesas, ao mesmo tempo que seus mísseis chovem sobre elas; tais são as realizações do modelo turco do AKP. Claro, pode-se apontar para conversões semelhantes em Paris, Londres e Berlim.

GUERRA A DAMASCO

Até certo ponto, a resposta do governo Erdoğan à revolta na Síria seguiu um caminho semelhante. Aqui, as próprias políticas de livre mercado que Erdoğan e Davutoğlu vinham promovendo por meio da Associação Econômica e Comercial regional haviam ajudado a piorar a má situação da juventude nas cidades agrícolas decaídas, de Daraa, no sul, a Homs, Hama e Idlib, que seriam o centro da revolta, enquanto uma minúscula elite tinha ficado espetacularmente rica. Inicialmente, no fim de março e em abril de 2011, enquanto o regime de Damasco enfrentava manifestações com gás lacrimogêneo e canhões de água, Erdoğan buscou de novo se posicionar como mediador, tentando persuadir Assad a negociar com o braço político da Irmandade Muçulmana síria e marcar eleições. Ao mesmo tempo que navios de guerra turcos eram preparados para a operação da Otan contra Kadafi, Erdoğan informava à imprensa internacional que havia insistido para que Assad adotasse uma abordagem "positiva, reformista" — "é nosso desejo sincero que não haja aqui eventos dolorosos como na Líbia"21. O objetivo de Ancara era uma transição democrática administrada que ampliasse a base do regime de Assad — uma estratégia de revolução passiva que reconhecia que, para que permanecessem as mesmas, as coisas teriam de mudar22.

Isso estava em nítido contraste com a linha de Riad, tal como transmitida a um ex-operador do Departamento de Estado americano por um "alto funcionário saudita", que observou que "desde o início da revolta síria, o rei acreditou que a mudança de regime seria extremamente benéfica para os interesses sauditas, em particular vis-à-vis a ameaça iraniana. 'O rei sabe que, afora o colapso da própria República Islâmica, nada enfraqueceria mais o Irã do que perder a Síria'"23. À medida que a posição da Arábia ganhava força em Washington, no entanto, a linha turca também começou a mudar24. Embora mantendo contato com o regime de Assad, o governo Erdoğan permitiu que o líder da ala militar da Irmandade Muçulmana síria desse uma entrevista coletiva à imprensa em maio de 2011 em Istambul; em junho de 2011, a Turquia organizou uma conferência da oposição síria. Em julho de 2011, o Exército Livre da Síria (ELS), visando a derrubada militar do regime de Assad, foi criado na província meridional turca de Hatay, com apoio logístico dos Estados Unidos e dinheiro e armas sauditas; líderes do ELS receberam a proteção da polícia turca. Isso só poderia servir para confirmar a decisão fatalmente destrutiva de Assad, baseada na visão baathista de islamitas sunitas sírios de que deviam fidelidade a potências do Golfo, de tentar manter a ordem existente pela força. A principal demanda do ELS era uma zona de exclusão aérea; ou seja, o bombardeio ocidental de defesas sírias. Suas campanhas, concentradas principalmente nos arredores de Homs, eram travadas de olho nos meios de comunicação ocidentais incorporados em suas fileiras; quanto maior a atrocidade, mais provável era criar pressão internacional a favor de ataques aéreos americanos. O número de mortos subiu devidamente, enquanto forças sírias bombardeavam posições do ELS em áreas residenciais, e uma multidão de milícias sectárias, tanto alauitas como sunitas, saqueava e matava em meio à destruição.

Na Turquia, o ufanismo da imprensa islâmica liberal e conservadora cresceu regularmente até o início de 2012. Pedidos de intervenção turca também vinham de forças conservadoras no mundo árabe, particularmente do diário Sharq al-Awsat , sediado em Londres, cuja principal precondição era que deveria haver de antemão a aprovação ocidental. A Irmandade Muçulmana e outras forças islâmicas haviam jogado de bom grado a carta anti-imperialista quando Erdoğ an falara em separar a religião do Estado, mas jogaram a carta da intervenção humanitária quando quiseram se livrar de um regime. No momento em que escrevo, nem a Turquia nem os Estados Unidos estão prontos para uma incursão terrestre — descrita eufemisticamente como uma "zona-tampão" — ou um bombardeio aéreo, também conhecido como zona de exclusão aérea. Isso parece ser conveniente também para Israel. Argumentou-se que:

Um regime de Assad enfraquecido mas estável, em comparação com um regime sob "domínio islâmico", parece preferível para os dirigentes israelenses [...] Embora Israel veja vantagens em uma redução da influência iraniana na Síria, também vê um futuro sombrio em uma Síria pós-Assad, em que grupos islâmicos poderiam ganhar proeminência. Como consequência, o endosso pouco entusiasmado de Israel à queda de Assad ajudou a reduzir o senso de urgência entre os dirigentes americanos25.

Em meio a essa incerteza, a ala mais pró-ocidental do governo turco acompanhou as iniciativas americanas. No início de março de 2012, Gül era favorável à "via iemenita" para a Síria: Assad devia nomear um de seus assessores, como Saleh havia feito, e se afastar, deixando as estruturas de governo intactas; a notoriamente dividida oposição síria ainda não estava pronta para governar o país. Na semana seguinte, ele alertou contra a intervenção militar, pedindo uma "solução política" e uma reunião ampliada dos "Amigos da Síria" em Ancara que incluísse a Rússia, descartando, assim, uma opção militar26. Durante o mesmo período, Erdoğan deu as costas às exigências da Liga Árabe, que significativamente incluíam um "corredor humanitário" — significando uma invasão terrestre por parte da Turquia, o que levaria inevitavelmente a um conflito armado com o regime de Assad. Portanto, apesar de suas pretensões à liderança regional, a Turquia não conseguiu articular uma posição própria coerente. O melhor que Erdoğan foi capaz de propor foi contrabalançar a posição de Gül com a da Liga Árabe, ou seja, uma versão limpa da posição de Riad. A Turquia não liderou, seguiu atrás. A falta de clareza do governo permite interpretações conflitantes de suas ações. Mesmo entre os colunistas do diário pró-governo Yeni Şafak , alguns veem ampla "prova" de que o AKP está tentando tirar Assad do poder o mais depressa possível, enquanto outros acreditam que a prioridade do governo é a estabilidade em suas fronteiras e um rápido cessar-fogo27.

COMUNALISMO SUNITA

No geral, a imprensa turca islâmica foi muito mais receptiva à ideia de intervenção na Síria do que na Líbia, e pelo pior dos motivos. Além da simpatia pela Irmandade Muçulmana e por outras forças islâmicas na Síria, fortemente visadas historicamente pelo regime baathista, há uma identificação com os sunitas contra os xiitas sírios (nenhum desses motivos tinha impedido o AKP de desenvolver laços estreitos com Assad). Vozes pró-Turquia argumentaram que as divisões sectárias ou tribais presentes na sociedade da Líbia, do Bahrein, do Iêmen ou da Síria tornam o modelo parlamentar-constitucionalista moderadamente islamizado da Turquia ainda mais desejável, mostrando um caminho para sair do atoleiro. Mas, em vez de ficar acima dessas cisões, a Turquia se afundou ainda mais em seu próprio cenário étnico e sectário complexo, à medida que a turbulência política se aproximava de suas fronteiras. A hegemonia pacífica do AKP se baseia principalmente no fato de que a Turquia tinha extirpado à força seus 20% de população cristã, por meio do extermínio dos armênios e da expulsão dos gregos, entre 1915 e meados da década de 1950; esse não é um modelo muito bom a ser seguido por sírios e libaneses. E, apesar de os marginalizados e empobrecidos alevitas da Turquia terem práticas religiosas diferentes das dos alauitas sírios, e muito poucos laços com eles, o ódio dos sunitas sírios pelo governo da minoria alauita em Damasco pode ser facilmente reproduzido contra eles. O movimento islâmico turco foi liderado, ocupado e esmagadoramente apoiado pelos sunitas, apesar da existência no país de uma considerável minoria sectária muçulmana. Em 2012, os alevitas turcos mais uma vez encontraram marcas de giz em suas portas, que lembravam as da década de 1970, quando turbas sunitas — lideradas pelos nacionalistas de extrema-direita Lobos Cinzentos, mas atraindo conservadores e islamitas — executaram grandes massacres sectários.

O conflito sírio tem implicações complexas para a Turquia. Os dois países têm uma fronteira muito extensa; a Síria é uma importante rota de comércio turca para a região central árabe, e os turcos sunitas têm muitas relações comerciais ao longo do caminho. Acima de tudo, o possível nascimento de mais um pequeno Estado curdo assombra a ordem dominante da Turquia. No norte da Síria, o Partido da União Democrática (PYD), a ala síria do PKK, é a mais bem implantada e a mais organizada das forças curdas. No verão de 2011, quando o governo Erdoğan deu seu apoio ao ELS, Assad ofereceu um acordo de cidadania aos curdos sírios e parou de compartilhar informações sobre o PKK com a Turquia. Ancara tentou levar Barzani, o governante do Curdistão iraquiano, a impor sua hegemonia sobre os curdos sírios, mas os resultados tiveram curta duração. Quando Assad retirou suas forças das fronteiras norte e sul para expulsar o ELS de Aleppo, em julho de 2012, o PYD foi deixado no controle de uma série de cidades fronteiriças curdas: Ayn al Arab, partes de Qamishli, Efrin, Amude. De modo danoso para a exemplaridade da Turquia, os protestos dos curdos sírios contra o papel de Ancara foram um dos motivos para as altercações no Conselho Nacional Sírio, o agrupamento de oposição apoiado pelo Ocidente, junto com diferenças sobre a intervenção externa e a democracia interna28. Na verdade, enquanto prisioneiros políticos eram libertados no Egito e na Tunísia, prisioneiros civis curdos — bem como jornalistas, estudantes e professores não curdos — continuavam a povoar prisões turcas. Em dezembro de 2011, agindo com base em informações obtidas por drones dos Estados Unidos, jatos turcos lançaram um ataque aéreo contra um grupo de curdos pobres que carregavam cigarros contrabandeados através das montanhas perto da fronteira com o Iraque, matando três dúzias deles. Como poderia um país que tratava seus próprios cidadãos curdos dessa forma servir como um modelo para aqueles de seu vizinho?

MIRANDO O IRÃ

Finalmente, qualquer revisão das relações da Turquia com a Síria também significa uma redefinição das relações com outro vizinho, o Irã. Nos anos que antecederam a Primavera Árabe houvera uma aproximação importante entre Ancara e Teerã, apesar do ceticismo americano (e israelense). O surgimento do Curdistão iraquiano ajudou os governantes de ambos os países a convergir na luta contra a insurgência curda. O comércio bilateral aumentou significativamente nos últimos dez anos; o Irã é hoje o segundo maior fornecedor de gás natural da Turquia, só ficando atrás da Rússia29. Em maio de 2010, a Turquia e o Brasil intermediaram um acordo de processamento de urânio de baixo teor com o Irã, ambos aparentemente pensando que tinham sinal verde de Washington. Em setembro de 2011, porém, a Turquia havia concordado em instalar um sistema de radar de defesa contra mísseis da Otan perto de sua fronteira com o Irã, alegando que não haveria nenhuma menção ao programa nuclear do Irã como justificativa. Joost Lagendijk, ex-codiretor da delegação de parlamentares Turquia-ue, sugeriu que os Estados Unidos "precisam da Turquia" não apenas para derrubar Assad, mas também para desafiar o controle iraniano sobre o Iraque30.

No rescaldo da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos, a campanha de longa data de Israel para manter seu monopólio nuclear na região se amalgamou à hostilidade saudita ao Irã e ao "crescente xiita" que, aos olhos de Riad, se estende desde o Irã, através do Iraque de Maliki, até a Síria e o sul do Líbano controlado pelo Hezbollah. Com a sectarização crescente, a Turquia parece estar desempenhando um papel cada vez mais aberto em uma coalizão sunita apoiada pelo Ocidente cujo alvo final é o Irã. Se havia rumores de descontentamento nos Estados Unidos, e entre círculos seculares e conservadores na Turquia, de que Ancara estava ficando muito íntima do Irã e até do próprio Ahmadinejad em 2009-2010, o pêndulo agora oscilou de volta, ganhando mais impulso da base sunita do AKP e do movimento islâmico em geral. Há conversas crescentes sobre uma possível guerra com o Irã, em especial se a Turquia decidir enviar tropas para a Síria. Ao mesmo tempo, a imprensa árabe sunita tem celebrado, com alguma cautela, o advento da "Turquia sunita". Comentaristas árabes, e alguns de seus colegas turcos, gostam de invocar as rivalidades históricas entre os impérios Otomano e Persa, como se o regime do AKP precisasse inflar suas pretensões imperiais31. Alguns intelectuais islâmicos afirmam que jáhá uma guerra sectária em curso, e que o Irã, o Iraque e a Síria a começaram. Eles estão embarcando na onda de sectarização, alegando que não podemos ignorar esse "fato" e que a Turquia deveria estar se preparando para travá-la como uma guerra sunita-xiita32.

No Iraque, sugere-se, isso poderia significar uma coalizão de sunitas iraquianos e forças curdas, com maior apoio sunita árabe e turco, alinhados contra o governo dominado por xiitas de Maliki em Bagdá. Houve uma insinuação disso em abril de 2012, quando o vice-presidente (sunita) do Iraque, Tariq Hashemi, se refugiou na Turquia depois de primeiro "visitar", ou fugir para, o Qatar e a Arábia Saudita, após o regime de Maliki ter emitido um mandado de prisão contra ele33. O governo iraquiano reagiu com um ataque verbal, e a Turquia revidou na mesma moeda. No meio dessa disputa de gritos transfronteiriça, Massoud Barzani decidiu visitar a Turquia e as tensões aumentaram ainda mais. Apesar da posição oficial do AKP contra a divisão do Iraque em três Estados, especulações febris proliferaram: o verdadeiro projeto de Erdoğan era a criação de uma confederação curda, sob tutela turca34? Não havia dúvida de que o governo do AKP descera de seu trono suprassectário autoatribuído quando decidiu abrigar uma figura destacada acusada internacionalmente de massacres sectários, mesmo que algumas das acusações sejam forjadas (e que outras possam ser atribuídas a Maliki). O regime confirmou, mais uma vez, a autoidentificação sunita do Estado turco.

RETROCESSOS

A Turquia precisa enfrentar seus próprios problemas de repressão sectária e étnica, coerção estatal e desigualdade econômica antes que possa se oferecer como um modelo para qualquer outro país. Não se pode esperar que as bolhas imobiliária e de crédito que elevaram suas taxas de crescimento nos últimos anos durem; sua oferta de serviços sociais é escassa, e sua distribuição de renda é a mais desigual da OCDE, pior que a do Egito ou a da Tunísia35. No front das liberdades civis, é verdade que o AKP travou uma luta decidida contra os enormes poderes que o Alto Comando militar usufruía sob o antigo regime; mas esta tem cada vez mais tomado a forma de substituir o militarismo kemalista por um novo Estado policial. A mais poderosa organização religiosa da Turquia, a fechada comunidade Gülen, exerce vasta influência na polícia e no Judiciário; alguns sugerem que ela agora está sendo estendida ao mit, o serviço de inteligência. Acredita-se que Gülen seja o responsável pela prisão de vários jornalistas críticos ao longo dos últimos dois anos36. Em 2010, o governo Erdoğ an forçou a aprovação de um conjunto notavelmente ambíguo de emendas à autoritária Constituição de 1980, mantendo alguns de seus componentes mais nacionalistas e repressivos: "insultar a nação turca", prontamente estendido a qualquer crítica ao Estado, continua a ser uma ofensa criminosa.

Em 2002, muitos liberais turcos tinham imaginado que o AKP era a melhor aposta do país para a "modernização" e a "integração com o mundo", e especialmente para o ingresso na UE. Círculos intelectuais da "esquerda libertária", ou özgürlükçü sol , desempenharam um papel decisivo no reforço da aprovação ao projeto de liberalização conservadora do AKP. Eles se lançaram atrás do AKP durante sua luta com as forças armadas, e por um longo período estenderam esse apoio incondicional também a outras políticas do governo, inclusive a suas emendas constitucionais. Intelectuais liberais influentes comemoraram o papel da polícia na "democratização" da Turquia — leia-se, retirar gradualmente o poder dos militares — e descobriram a face humana dos novos quadros da polícia. Essa ingenuidade traía uma leitura reducionista do Estado turco, cujo autoritarismo era atribuído à "tutela militar", e uma incapacidade de analisá-lo como um conjunto diferenciado de instituições e atores sociais com preocupações e interesses ora coincidentes, ora conflitantes. A estratégia dos liberais de ignorar as tendências autoritárias do governo Erdoğan se voltaram contra eles quando as emendas constitucionais foram seguidas pela mais pesada onda de repressão em muitos anos. Alguns agora se tornaram críticos do regime AKP-Gülen.

Internacionalmente, os defensores de um modelo turco para o mundo islâmico frequentemente o contrapõem aos exemplos do Irã ou da Arábia Saudita, situados no extremo oposto do espectro. Os eventos de 2011 sugerem um quadro diferente. As principais linhas de demarcação na região estão ficando menos ideológicas e já não são traçadas entre "islâmicos moderados" e conservadores. A exacerbação do conflito sírio começou a cristalizar diferenças sectárias supostamente "primordiais". Por mais dessemelhantes que possam ser em alguns aspectos, Arábia Saudita e Turquia encontram-se agora no mesmo campo, com o Irã como o inimigo comum. Mas, ainda que a situação possa mudar, é a Arábia Saudita, com apenas um terço da população da Turquia, que parece estar tendo o maior sucesso na moldagem do atual fluxo político a seus próprios interesses. Nem um murmúrio é emitido pela "comunidade internacional" quando ela submete sua população xiita ao mesmo tratamento que Assad dá aos manifestantes sírios. Erdoğan fez grande estardalhaço de sua turnê em setembro de 2011 pelas capitais do Egito, da Tunísia e da Líbia, acompanhado de 280 empresários turcos dispostos a aproveitar fontes baratas de mão de obra e declarando sua intenção de triplicar o investimento turco37. Mas a visita também demonstrou os limites da influência turca. A Irmandade Muçulmana não tinha nenhuma objeção a citar a Turquia do AKP como um modelo econômico, mas a demanda de Erdoğ an de um Estado secular incitou uma amarga resposta "anti-imperialista" dos Irmãos: a organização disse a ele que não se intrometesse nos assuntos internos do Egito. Enquanto isso, a primeira visita externa do presidente Morsi foi a Riad.

A política de "zero problemas com os vizinhos" do AKP está arruinada, enquanto a campanha insultuosa do rei Abdullah contra o Irã está agora na ordem do dia, promovida não só por Washington, Israel, o mundo sunita e a UE, mas também por Wall Street, com apenas a Rússia e a China resistindo à rixa internacional. Embora a convulsão da Síria confronte Ancara com o repentino fortalecimento de seu inimigo interno, o PKK, a Família Saud pode esperar ver o Líbano voltar ao seu bolso se o Hezbollah for debilitado pela fraqueza ou queda de Assad. Além disso, a liderança turca tem demonstrado constantemente sua vontade de priorizar a realpolitik sectária em detrimento dos princípios da democratização e da autodeterminação. Bahrein, com sua maioria xiita e sua monarquia autocrática sunita, serviu como um teste decisivo. Não só a Turquia fechou os olhos quando a monarquia esmagou violentamente os protestos; nos primeiros meses de 2012, como um prelúdio a uma crescente cooperação com os regimes do Golfo, Gül visitou os Emirados Árabes Unidos e exigiu democracia para a Síria durante seus encontros amigáveis com os autocratas lá. Nada poderia ilustrar melhor a natureza dos compromissos de Ancara com a democracia e a não intervenção na região. Ao longo da Primavera Árabe, a Turquia só fez solidificar suas relações com os sauditas; está seguindo de perto não apenas as políticas de Washington e Israel, mas também as de Riad — reforçando ainda mais as forças da reação na região.

Notas

[1] "In Turkey's example, some see map for Egypt".
New York Times , 5/02/2011. Ver também International Crisis Group (icg). "Turkey and the Middle East: ambitions and constraints", 7/04/2010, p. 20. Eu gostaria de agradecer a Aynur Sadet por comentários sobre o texto.
[2] Ramadan, Tariq. "Democratic Turkey is the template for Egypt's Muslim Brotherhood". New Perspectives Quarterly, vol. 28, nº 2, 2011.
[3] Cagaptay, Soner. "The empires strike back". New York Times, 14/01/2012.
[4] Ver Tuğal, Cihan. "NATO's Islamists". New Left Review, 44, mar.-abr.
[5] Laçiner, Sedat. "Neden Afganistan'dayız?. Star, 22/03/2012.
[6] Kösebalaban, Hasan. "Making of enemy and friend: Fethullah Gülen's national-security identity". In: Yavuz, M. Hakan e Esposito, John L. (orgs.). Turkish Islam and the secular state: the Gülen Movement. Syracuse: Syracuse University Press,
[7] Ver, por exemplo, Stepan, Alfred e Robertson, Graeme. "An 'Arab' more than 'Muslim' democracy gap". Journal of Democracy, vol. 14, nş 3,
[9] Em 2010, o comércio da Turquia com o Iraque havia subido para US$ 7,4 bilhões, dos quais US$ 6 bilhões correspondiam a exportações turcas, quase todas para o Curdistão iraquiano, onde a Turquia controla agora 95% do mercado de construção. Ver Kiri şci, Kemal. "Turkey's 'demonstrative effect' and the transformation of the Middle East". Insight Turkey, vol. 13, nş 2, 2011,
[12] "Reclusive Turkish imam criticizes Gaza Flotilla". Wall Street Journal, 4/06/2010.
[13] A coordenação entre as forças aéreas turca e israelense foi suspensa, mas reiniciada no fim de 2011: "Turkey, Israel reinstate air force coordination mechanism". Today's Zaman, 22/12/2011.
Para comentários internacionais sobre o Mavi Marmara, ver Baruh, Lemi e Popescu, Mihaela. "Communicating Turkish-Islamic identity in the aftermath of the Gaza flotilla raid". New Perspectives on Turkey, 45, 2011, pp. 76-
[14] "Erdoğan's Cairo speech". Blog da Foreign Policy, postado em 2 de fevereiro de 2011,
[15] "Erdoğan: 'Suudi Arabistan'la tam bir iş birligği içindeyiz'". Milliyet, 20/03/2011.
[16] Fattah, Khaled. "Yemen: A social intifada in a republic of dheikhs". Middle East Policy, vol. 18, nş 3, 2011,
[17] "US teaming with new Yemen government on strategy to combat Al Qaeda". New York Times, 26/02/2012.
[19] Tuğal, Cihan. Passive revolution: absorbing the Islamic challenge to capitalism. Stanford: Stanford University Press,
[20] Aydınta şbaş, Aslı. "Davutoğlu'yla zor sohbet". Milliyet, 5/05/2011.
[21] Strauss, Delphine. "Erdoğan urges Assad to hasten reform". Financial Times, 28/03/2011.
[22] Cebeci, Erol e Üstün, Kadir. "The Syrian quagmire: what's holding Turkey back?". Insight Turkey, vol. 14, n ş 2, 2012,
[23] Hannah, John. "Syria: the king's statement, the president's hesitation". Blog da Foreign Policy, 9 de agosto de 2011.
[24] Em abril de 2011, Hannah escreveu, com referência ao homem de Riad em Washington, o príncipe Bandar bin Sultan: "Trabalhando em conjunto com os Estados Unidos, Bandar [...] pôde se revelar um grande trunfo nos esforços para moldar as revoltas do Oriente Médio de 2011, em uma direção que serve aos interesses dos eua [...] Bandar trabalhando sem referência aos interesses dos eua é claramente motivo de preocupação. Mas Bandar trabalhando como um parceiro de Washington contra um inimigo comum iraniano é um grande trunfo estratégico. Baseando-se em recursos e prestígio sauditas, a engenhosidade e a inclinação de Bandar para uma atuação ousada poderiam ser utilizadas de forma excelente em toda a região de maneiras que reforcem a política e os interesses dos eua: através de medidas econômicas e políticas que enfraqueçam os mulás iranianos [e] solapem o regime de Assad". Hannah, John. "Bandar's return". Foreign Policy, 22/04/2011.
[26] "Suriye'ye Yemen modeli". Sabah, 3/03/2012;
Mu'arada Tunisiyya-Turkiyya li ay Tadakhkhul min Kharij al-Mintiqa fi Suriyya. Sharq al-Awsat, 9/03/2012.
[27] Ver Karagül, İbrahim. "Suriye için 'Misak-ı milli'. Yeni Şafak, 27/03/2012;
e Emre, Akif. "S uriye açmazında yeni dönemeç. Yeni Şafak, 27/03/2012.
[28] "Akrad Suriyya yatawaqq'un fashal mu'tamar Istanbul al-muqbil", Sharq al-Awsat, 29/03/2012.
[29] McCurdy, Daphne. "Turkish-Iranian relations: when opposites attract". Turkish Policy Quarterly, vol. 7, n ş 2,
[30] Lagendijk, Joost. "Using Turkey's expertise to deal with Iran". Today's Zaman, 29/02/2012.
[31] 'Adil al-Tarifi, "Turkiyya 'al-Sunniyya' [...] wa Fashal siyasa al-Ihtiwa". Sharq al-Awsat, 25/04/2012.
[32] Por exemplo, ver Karagül, İbrahim. "Korkulan oldu, bölündük...", Yeni Ş
afak; Ünal, Ali. "Terör ve dış gelişmeler". Zaman, 26/03/2012.
[33] "Baghdad turji' muhakama al-Hashemi mujaddadan". Sharq al-Awsat, 11/05/2011.
[34] Çakır, Ru şen. "Özal'ın hayali gerçekleşiyor mu?", Vatan, 24/04/ 2012.
[35] "Social Justice in the oecd How do the member states compare?". Gütersloh,
[36] A comunidade Gülen recebeu cobertura notavelmente simpática nos principais meios de comunicação ocidentais. Ver, por exemplo, "Turkish schools offer Pakistan a gentler vision of Islam". New York Times, 4/05/2008;
Global Muslim networks: how far they have travelled. Economist, 6/03/2008;
Meet Fethullah Gülen, the world's top public intellectual. Foreign Policy, 4/08/2008.
[37] "Turkey, Egypt form strategic cooperation council". Today's Zaman, 13/09/2011.

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