19 de maio de 2017

O Sul é nosso Norte

A trajetória da TeleSUR nos lembra que a tarefa de criticar a esquerda não pode ser abandonada à direita.

Patrick Iber


Ilustração por Sam Taylor.

Seria o 222º aniversário de Simón Bolívar. Em 24 de junho de 2005, uma nova estação de televisão começou a transmitir quatro horas de programação original. Até outubro, era um canal de notícias de vinte e quatro horas a serviço do projeto bolivariano.

Para o presidente venezuelano, Hugo Chávez, o bolivarianismo significava integração latino-americana, antiimperialismo e o que chamou de "socialismo do século XXI". O novo canal, teleSUR, foi um esforço colaborativo de vários governos de esquerda: no início, Venezuela, Cuba, Argentina e Uruguai. (O Equador e a Bolívia se juntaram mais tarde, enquanto a Argentina saiu em 2016 depois de eleger um governo de direita.) O jornalista uruguaio Aram Aharonian, primeiro diretor-geral da TeleSUR, descreveu o objetivo inicial do canal como "nos ver como realmente éramos. ... Nós somos apresentados através de uma mentalidade colonial como loiros e altos e europeus, e alguns de nós são, mas também somos baixos, escuros, Zambos, indianos. Precisamos sacudir nosso complexo de inferioridade e contar nossas próprias histórias".

Na visão de Aharonian, a TeleSUR funcionaria como uma fonte de notícias e informação que acompanharia os esforços dos novos governos progressistas para a inclusão social. "Nosso Norte é o Sul", era o slogan do canal, abraçando uma reordenação de prioridades e valores, não apenas a geografia.

O problema que a teleSUR identificou foi real. Em toda a região, grandes conglomerados de televisão e mídia quase todos tinham vínculos com a direita. A CNN acenou a bandeira para a guerra após a guerra, e até mesmo a mais crítica BBC representava as perspectivas do Norte. Os dois gigantes latino-americanos, a TV Globo do Brasil e a Televisa do México, pertenciam, respectivamente, a partes bem unidas da ditadura brasileira e do sistema semi-autoritário do México. Mesmo quando a política nesses países mudou, as corporações permaneceram próximas das antigas elites econômicas e políticas. O mesmo padrão em outros países - na Venezuela, quatro canais de mídia eram alinhados com a oposição política a Chávez, agitando o golpe de Estado contra ele em 2002 e assumindo um estridente perfil de oposição nos anos que se seguiram.

Quando o teleSUR foi lançada, afirmou que proporcionaria um serviço público, não propaganda. Além da programação de notícias, realizou documentários, filmes e programas culturais que mostram a diversidade da região. Os primeiros anúncios eram essencialmente anúncios de serviço público para programas sociais na Venezuela e Cuba. Em 2007, tinha dez agências nas Américas, garantido-lhe uma presença provavelmente incomparável com qualquer organização internacional de mídia.

Em tudo isso, seguiu um caminho bem desgastado de diplomacia cultural. Os defensores e os críticos também a reconheceram nesses termos. O ex-guerrilheiro e crítico de Chávez, Teodoro Petkoff, descreveu isso como parte dos esforços de Chávez para se tornar um "Gramsci do Caribe" ocupando os "órgãos intermediários da sociedade".

No final de 2006, Chávez escalou seu conflito com a mídia da oposição, recusando-se renovar a licença de transmissão terrestre para um canal popular, a RCTV. Em um ambiente de "guerra de mídia", tornou-se mais difícil para a TeleSUR operar de forma autônoma. Aharonian foi forçado a sair no final de dezembro de 2008, amargurado, e muitos outros funcionários originais partiram. Sobre o novo presidente da teleSUR, Andrés Izarra (que serviu três vezes como ministro da informação da Venezuela), Aharonian diz: "não se tratava de promover uma identidade latino-americana e fazer algo diferente com a televisão, mas servir a agenda doméstica de Chávez e ser um instrumento político. ... O mesmo lixo do inimigo, mas do outro lado." Izarra, por sua vez, diz que está tentando "construir uma hegemonia de comunicação e informação que permita uma batalha ideológica e cultural para promover o socialismo".

Mas a causa do socialismo está bem servida por essa abordagem? O canal tornou-se inquestionavelmente mais propagandístico ao longo dos anos. As vozes críticas costumavam aparecer como parte da conversa - configuradas, claro, contra oponentes com apropriadas opiniões bolivarianas - mas quase desapareceram. O antropólogo Robert Samet disse-me que está preocupado com o fato de que os meios de comunicação estatais da Venezuela passaram gradualmente de ser "guardiões" para se tornarem "cadáveres" para o estado.

Atualmente, a TeleSUR reproduz o pensamento conspiratório de alguns líderes venezuelanos. Cobre extensivamente o crime em lugares como o México e os Estados Unidos - mas não na Venezuela. A taxa de homicídio do país neste momento é quatro vezes maior que a do México.

O sociólogo Hugo Pérez Hernáiz acredita que a teleSUR é "uma fonte de informação totalmente inútil sobre quase tudo no mundo, exceto o que o governo venezuelano está pensando". O historiador Alejandro Velasco escreve que os chavistas urbanos que ele conhece dependem da teleSUR não para obter informações mas como forma de reforçar formas de sentir." Ver a teleSUR e a VTV [televisão estatal venezuelana] são atos políticos conscientes - como ir a uma manifestação".

Mas com Chávez fora e o futuro da Revolução Bolivariana incerto, até mesmo muitos chavistas sentem que o projeto ficou muito desconectado da realidade e precisa de renovação. Os problemas das mídias privadas são claros. Construir um sistema de mídia de esquerda que seja informativo, profundo e analiticamente sofisticado continua sendo uma tarefa vital. Mas sem a salvaguarda da independência editorial do estado, a pressão para evitar desafios aos patrocinadores provavelmente impedirá a missão do jornalismo, especialmente em situações em que a crítica é confundida com a oposição.

A TeleSUR pode fazer um trabalho importante que poucos outros podem, mas não pode analisar seus próprios patrões. A tarefa de criticar a esquerda não pode ser abandonada à direita, mesmo em momentos de crise - talvez especialmente em momentos de crise.

El Diego

Assim como todo partido na Argentina tenta reivindicar o legado de Juan Perón, todo governo tenta trazer Maradona para seu rebanho.

Mike Meehall Wood

Jacobin

Ilustração de Sam Taylor


Tradução / Os fãs de futebol costumam chamar Leo Messi de o melhor jogador de sua geração, se não de todos os tempos. Para a maioria dos argentinos, no entanto, Messi só consegue ficar em segundo lugar – afinal, tudo o que ele fez já foi feito por outro craque.

Diego Maradona sempre foi mais do que um atleta: ele é um ícone cultural, um peso-pesado político e um ótimo jogador de futebol, nessa ordem. Ele se tornou El Diego, um demagogo do esporte – e, se você for assinante da Iglesia Maradoniana, ele também é um semideus de verdade.

O menino do subúrbio de Buenos Aires que chegou ao topo, Diego escalou as alturas e trouxe todo o subúrbio com ele. À medida que Maradona melhorava seus companheiros de equipe, ele restaurou a autoimagem do país após uma guerra devastadora e anos de ditadura violenta.

Diego segue a grande tradição dos populistas latino-americanos. Sua política vem de emoções viscerais e não de nuances “neutra” – são imperfeitas e mal pensadas, mas também não são exatamente. Ele cultiva uma imagem de homem comum que se mistura com seu amor por carrões, mulheres e cocaína. Suas habilidades em campo desafiavam a lógica; suas manobras políticas o fazem ainda mais.

Ele se safa porque desfruta de um nível de popularidade que nenhum político de verdade jamais poderia alcançar. Assim como todo partido na Argentina tenta reivindicar o legado de Juan Perón, todo governo tenta trazer Maradona para seu legado, sabendo que trará as massas com ele.

Quando menino, Diego idolatrava o Boca Juniors, o clube das favelas, os rivais perenes dos milionários do River Plate. Quando ele se juntou ao time, ele conquistou campeonatos, mas, mais importante, os fãs viram um deles em campo – um hooligan com as bolas no pé.

Quando ele se mudou para Napoli, suas jogadas era tão idolatradas que apareceram grafites nas paredes de um cemitério que diziam: “Você não sabe o que está perdendo”. Seus demônios pessoais nunca o deixaram, entretanto, e sua carreira na Itália terminou depois que ele testou positivo por uso de cocaína, tendo passado uma boa parte de seu tempo em festas e boates de camorra. Seu compromisso com a justiça social nunca o motivou a pagar impostos, uma violação pela qual as autoridades italianas ainda estão atrás dele.

Diego alcançou a imortalidade com a seleção argentina. No início dos anos 1980, o país perdeu a Guerra das Malvinas para o Reino Unido. Em 1986 – ainda com o frescor dos anos sangrentos da ditadura do general Jorge Rafael Videla – faltava moral aos argentinos. Quando seu time pegou a Inglaterra na Copa do Mundo daquele ano, Diego os levou sozinho à vitória – sério, olhe seus lances naquele jogo – conseguindo uma conquista histórica para o orgulho nacional em uma tarde que jamais será esquecida. No final, eles venceram o torneio.

O momento não poderia ter sido melhor. Diego não foi contaminado pela ditadura, pois, era muito jovem para apoiá-la ou resisti-la. Pertencia à mesma geração dos meninos mandados para lutar nas Malvinas. Desta vez, porém, ele venceu os britânicos, e em um estilo usando todos os ardis das quebradas. Ele se tornou a personificação viva de viveza criolla, a “astúcia crioula” que subverte as regras. Claro, ele era um playboy, mas se tivesse a mesma trajetória, não seríamos todos?

O culto político de Diego foi construído com base nessa reputação. O presidente peronista Carlos Menem compartilhou laços com Maradona e explorou alegremente a conexão. No universo futebolista, ele reconheceu um companheiro lutador contra a aristocracia argentina, um lutador como ele.

Menem, filho de um imigrante sírio, gabou-se de suas origens humildes e usou a glória refletida de Diego para se lançar como o campeão do povo. Ele nomeou Maradona “embaixador do esporte” e deu-lhe um passaporte diplomático, que Diego aceitou de bom grado porque o protegia dos processos de drogas e impostos contra ele na Europa. Em troca, ele ajudou a dar cobertura a Menem para implementar um programa infame de reestruturação neoliberal.

Sua política ficou mais consistente depois que ele se aposentou, quando começou a apoiar figuras que vestiam as armaduras da classe trabalhadora e lutavam por seus interesses. Ele dedicou sua autobiografia ao povo cubano, fez tatuagens de Fidel Castro e Che Guevara e chamou Hugo Chávez de amigo íntimo. Em 2005, ele gerou polêmica ao usar uma camiseta com os dizeres “Stop Bush” – com o nome do presidente escrito com uma suástica. Tampouco sua visão firmemente católica o impediu de criticar o Papa João Paulo II, quando se viu incapaz de conciliar a opulência do Vaticano com a pobreza que os católicos enfrentam em todo o mundo.

Até politizou seu legado esportivo, já que raramente esconde o desprezo por Pelé, o único outro candidato legítimo ao título de “maior jogador de todos os tempos”. Diego coloca Pelé como um figurão do establishment que faz propagandas de pílulas para ereção e é próximo a cúpula da FIFA. Já El Diego é o campeão popular.

Claro, a legitimidade que importa para Maradona vem das pessoas que o produziram, e seu status ali é inquestionável. Nas ruas de Nápoles e nos bairros pobres de Buenos Aires, El Diego continua sendo um dos maiores ícones.

Sobre o autor

Mike Meehall Wood é um jornalista que mora em Amsterdã, especializado em esportes, cultura, política e nos pontos onde se encontram. Ele escreve para a Forbes, VICE e uma série de outras publicações.

Os Panteras Negras e os Jovens Patriotas

A história de como um grupo de brancos pobres de Chicago se uniu aos Panteras Negras para combater o racismo e o capitalismo.

Michael McCanne 

Jacobin

Os Panteras Negras e os Jovens Patriotas realizam uma conferência de imprensa em 1969. Foto de Linn Ehrlich.

Tradução / Em julho de 1969, o Partido dos Panteras Negras convocou uma grande reunião em Oakland que atraiu grupos radicais de todo o país. Eles a chamaram de “Conferência para uma Frente Unida Contra o Fascismo”.

Numa tarde de sábado, entre discursos de representantes do Partido Comunista, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e dos Estudantes para uma Sociedade Democrática (SDS), um homem usando uma enorme fivela de cinto com pistolas subiu ao palco. Óculos escuros cobriam seus olhos, e sua jaqueta e boina de estilo militar ostentavam bandeiras confederadas.

“Nós viemos de um monstro”, disse ele com um forte sotaque do sul. “E as mandíbulas do monstro em Chicago estão moendo carne humana e cuspindo o sangue das pessoas pobres e oprimidas, os negros no sul, no oeste; os marrons no norte; e os vermelhos e amarelos; e sim, os brancos – pessoas brancas oprimidas.”

O nome do orador era William “Preacherman” [Pregador] Fesperman, e pertencia à organização dos Jovens Patriotas, um grupo radical formado por jovens da zona norte, empobrecida, de Chicago. Sua missão era organizar os brancos pobres para lutarem coletivamente, em solidariedade com as comunidades não-brancas.

Embora a organização tenha sobrevivido por apenas alguns anos, ela encarnava uma ideia radical: que brancos marginalizados poderiam se libertar dos grilhões do racismo e lutar ao lado de negros e pardos para criar uma nova sociedade.

Décadas depois, a “Coalizão Arco-Íris” criada pelos Panteras Negras e os Jovens Patriotas ainda oferece um modelo notável para a política de esquerda.

Um Harlem Caipira

Os Jovens Patriotas tinham suas raízes no bairro de Uptown, uma favela densamente habitada, formada por brancos pobres que haviam migrado do sul rural após a Segunda Guerra Mundial. A maioria estava fugindo do declínio da indústria de carvão do Appalachia, e trouxe consigo sua cultura: bandeiras confederadas penduradas nos bares, música country inundando os salões da sinuca. Em meados da década de 1960, os jornais locais se referiam a Uptown como o “Harlem Hillbilly”, em referência ao bairro de Nova York conhecido pela herança cultural afro-americana, e à maneira como são chamadas as pessoas, em geral pobres, das regiões montanhosas dos apalaches americanos – e retratavam o bairro como um antro de crime e depravação.

Hy Thurman era um típico jovem desse bairro empobrecido. Havia crescido em Dayton, Tennessee, onde a família inteira trabalhou na agricultura, ganhando a vida colhendo feijão, milho e morangos. A pobreza assombrou toda sua juventude. “Minha mãe e minha irmã mais velha tinham o mesmo tamanho de pé”, ele lembrou em uma entrevista, “mas elas só tinham um par de sapatos decente. Minha irmã saia para estudar com eles e voltava para casa, então minha mãe os usava para ir à cidade”.

Seu irmão mais velho, Rex, foi para Chicago na época em que Hy abandonou a nona série. Em 1967, Hy seguiu seu irmão para o norte. “Pensávamos em Chicago como uma espécie de terra prometida”, disse ele. “Era onde você poderia começar de novo. Mas descobri muito rapidamente que na verdade não era assim”. Quando conseguia encontrar trabalho, pegava serviços de curta duração como diarista. Quando não conseguia, vendia o próprio sangue para sobreviver.

Quando Hy chegou a Uptown, seu irmão havia ingressado em um grupo de rua chamada Goodfellows [Bons Companheiros], que havia recentemente desenvolvido laços com a organização comunitária “Jobs or Income Now” (JOIN) [Empregos ou Renda Já]. Iniciativa criada pela SDS [Estudantes por uma Sociedade Democrática, a organização radical do movimento estudantil americano], a JOIN fazia campanhas de agitação por questões como direito à moradia e reformas para o bem-estar social. E lutava contra a imensa máquina política do prefeito Richard J. Daley, que usava de clientelismo e brutalidade policial para controlar os moradores e estimular a gentrificação.

A mobilização contra o assédio policial estava no topo da lista de prioridades dos Bons Companheiros: os jovens pobres sofriam revistas policiais constantes, além de espancamentos e humilhações nas mãos da polícia local. Os ativistas do SDS insistiram em cautela, mas ainda assim ofereceram solidariedade aos Goodfellows para organizar uma marcha até a delegacia do bairro em agosto de 1966. Quase trezentos moradores compareceram para a manifestação.

Mas a polícia rapidamente revidou, invadindo o escritório da JOIN e uma igreja que apoiava os esforços dos ativistas. Alguns dias depois, um policial matou um dos membros dos Bons Companheiros, atirando pelas costas enquanto ele fugia de uma briga.

A marcha e suas consequências levaram à ebulição as tensões que já se acumulavam na JOIN. Sentindo-se sufocados pelos organizadores de classe média da SDS, os Bons Companheiros partiram para o ataque por conta própria e fundaram a Organização dos Jovens Patriotas: um movimento que eles orgulhosamente proclamaram como sendo por e para os “caipiras”. Elaboraram um programa de onze pontos e adotaram símbolos: a bandeira confederada, pendurada por botões pretos na lapela.

Em pouco tempo, Thurman, seu irmão e os outros patriotas estavam agitando os bares e as mesas de bilhar da Uptown, recrutando membros de gangues e divulgando sua doutrina de autodeterminação radical de caipiras – uma mistura de Hank Williams [cantor e compositor ícone da música country] e Frantz Fanon [psiquiatra da Martinica e intelectual negro radical].

A primeira Coalizão Arco-íris

No outono de 1968, uma igreja metodista convidou os Jovens Patriotas para fazerem uma apresentação sobre o trabalho da organização ao lado de Bob Lee, do Partido dos Panteras Negras de Illinois. A platéia – em sua maioria branca, liberal e classe média – tratou os Panteras com curiosidade, mas expressou hostilidade aberta aos Patriotas. Lee nunca tinha visto nada semelhante: brancos atacando brancos pobres. E se levantou em defesa dos Patriotas. Em seguida, sugeriu que os dois grupos iniciassem uma colaboração.

Era um empreendimento ambicioso. À época, como agora, Chicago estava fortemente segregada em termos raciais e étnicos. Lee passou três semanas em Uptown para conhecer os Patriotas e seus vizinhos antes de sugerir a ideia de uma aliança a Fred Hampton, presidente dos Panteras em Illinois.

Mas Hampton ficou entusiasmado ao ouvir a proposta de Lee, e apelidou a aliança incipiente de “Coalizão Arco-Íris”. E até aceitou o uso da bandeira Confederada pelos Patriotas. De acordo com Thurman, Hampton disse: “Se podemos usar isso para organizar, se podemos usar para transformar as pessoas, então temos que fazê-lo.”

A partir dessa parceria inicial, a Coalizão Arco-Íris cresceu para incluir os Young Lords, um grupo porto-riquenho radical. Recrutando grupos de jovens de gangues de rua, a coalizão tentou se organizar em torno de pontos de solidariedade, como a brutalidade policial e a pobreza. Realizaram manifestações de unidade em Grant Park, condenando o programa do prefeito Daley de gentrificação, pobreza e brutalidade policial. E ocuparam prédios para exigir melhores cuidados de saúde e moradia para suas comunidades.

O Jovens Patriotas também se expandiram, conquistando novos membros – incluindo “O Pregador” Feserpman, cujas habilidades retóricas ajudaram a espalhar a mensagem dos Patriotas para públicos mais amplos – e construindo relacionamentos com a comunidade indígena, nativa-americana, de Uptown. Iniciaram um programa de café da manhã gratuito e abriram uma clínica do bairro, aproveitando as lições que os Panteras ensinaram aos membros da Coalizão Arco-íris sobre o estabelecimento de serviços básicos em bairros negligenciados.

A administração de Daley sabia reconhecer uma ameaça quando avistava uma. O prefeito rapidamente se moveu para reprimir a coalizão emergente. O Departamento de Polícia de Chicago interrompeu o programa de café da manhã dos Patriotas e pressionou o proprietário a fechar a clínica de saúde. Os oficiais trabalharam com o FBI para se infiltrar e interromper a coalizão inter-racial em crescimento.

E então veio o pior golpe de todos: dia 4 de dezembro de 1969, apenas cinco meses após a conferência em Oakland, um destacamento da polícia de Chicago, operando como uma força-tarefa especial a serviço do promotor público local, assassinou Fred Hampton em um ataque surpresa na madrugada. Hampton tinha 21 anos e era uma das principais lideranças dos Panteras Negras à época.

Sua morte deixou o movimento devastado e espalhou medo em Chicago.

Thurman e os outros Patriotas se esconderam. “Ninguém sabia o que estava acontecendo”, disse ele, descrevendo os dias frenéticos após o assassinato. “Você não sabia se eles viriam atrás de você em seguida, se você seria o próximo”.

O assassinato de Hampton também aumentou as tensões dentro da coalizão, que já começava a se fragmentar. Fesperman e a liderança dos Panteras queriam que os Patriotas começassem a se organizar em nível nacional, mas os Patriotas insistiram em permanecer no nível local, ao menos por um tempo.

Em 1970, Fesperman rachou com o grupo e formou o Partido Patriota, estabelecendo sede em Nova York e montando um punhado de diretórios por todo o país. Mas a repressão seguiu Fesperman, com a polícia invadindo os escritórios em Nova York e ao longo de toda a costa leste.

Em Chicago, a polícia acusou os Jovens Patriotas de planejar um atentado e prendeu suas lideranças. Também foram detidas pessoas de igrejas aliadas e grupos comunitários. Aqueles que não foram presos sumiram de vista e muitos se afastaram, efetivamente colocando um fim aos esforços dos Patriotas.

A Coalizão Arco-Íris sobreviveu em nome, ainda que não em sua forma original. Em 1983, usando o modelo de coalizão inter-racial, Harold Washington derrotou a máquina de Daley para se tornar o primeiro prefeito negro da cidade. Jesse Jackson, ativista negro e aliado de Martin Luther King na campanha pelos direitos civis, se apropriou do nome e da abordagem para a organização que cresceu a partir da sua campanha presidencial insurgente durante as primárias do Partido Democrata em 1984, e que o levou para a disputa de 1988. David Axelrod, aproveitando o que aprendeu durante a campanha de reeleição de Washington em 1987, reformulou-a para ajudar Barack Obama a ser eleito presidente.

No entanto, quando operadores do partido democrata como Axelrod adotaram a estratégia, descartaram o apelo à solidariedade de classe. Impulsionaram uma política que promovesse uma mistura de cores e etnias, mas com poucos benefícios materiais – para não falar de transformações radicais.

Um outro caminho

Desde a eleição presidencial de novembro de 2016, que elegeu Donald Trump, uma batalha pela raça e pela classe está sendo travada, tão dura quanto equivocada. Os Jovens Patriotas, os Panteras Negras e seus aliados oferecem outro caminho.

“A Coalizão Arco-íris era política de identidade”, disse o estudioso Jakobi Williams, autor de “Da bala à urna: o capítulo de Illinois do Partido dos Panteras Negras e a política de coalizão racial em Chicago”. “As pessoas não foram requisitadas a abandonar suas identidades, mas a usá-las como uma maneira de construir pontes para formar alianças em torno do combate à pobreza ou qualquer outra pauta que considerassem importante”.

Apesar de terem tido vida curta, os Jovens Patriotas e a Coalizão Arco-Íris mostraram que os movimentos da classe trabalhadora podem superar divisões significativas para se unirem em torno de questões como pobreza, corrupção e brutalidade policial. O feroz ataque que enfrentaram das elites, tanto liberais quanto conservadoras, demonstra a potência de seu projeto radical.

Alguns anos atrás, Hy Thurman reiniciou dois diretórios dos Jovens Patriotas no Alabama – e já atraiu um grupo mais jovem de apoiadores. Um grupo multirracial de adolescentes e jovens de vinte e poucos anos, depois de ouvirem a história de Thurman, entrou em contato com ele e passaram a ser colaboradores. Thurman também se conectou a Chuck Armsbury, um ex-membro do Partido Patriota que vive na zona rural do estado de Washington. Seu objetivo: reviver a organização como um antídoto para o desespero generalizado nas comunidades brancas pobres e da classe trabalhadora.

É uma tarefa difícil. Mas podemos ter certeza de uma coisa: Fred Hampton e “O Pregador” Fesperman ficariam orgulhosos.

Sobre o autor

Michael McCanne é um escritor que se concentra em cultura e história.

Os três argumentos teóricos de Lênin sobre a ditadura do proletariado

Étienne Balibar

Em fevereiro de 1976, o 22º congresso foi o de Georges Marchais, que queria acelerar a transformação das concepções comunistas de revolução. Foto: Mémoires d'Humanité/Arquivos Departamentais de Seine-Saint-Denis

Tradução / Em 1976, o Partido Comunista Francês abandonou formalmente a ditadura do proletariado como fase estratégica na transição para o comunismo na Europa ocidental. "Nada nem ninguém, nem mesmo o Congresso de um Partido Comunista, pode abolir a ditadura do proletariado. Esta é a conclusão mais importante desse livro de Etienne Balibar", escreve Grahame Locke, em sua introdução a "Sobre a Ditadura do Proletariado", que ele traduziu para a edição da Verso, publicada em 1977.

A razão para tal é que a ditadura do proletariado não é uma política ou uma estratégia que implica o estabelecimento de uma forma particular de governo ou instituição mas, ao contrário, uma realidade histórica. Mais precisamente, trata-se de uma realidade que tem suas raízes no próprio capitalismo e cobre todo o período de transição ao comunismo, a "realidade de uma tendência histórica", uma tendência que se desenvolve no interior do próprio capitalismo, na luta contra ele (capítulo 5). Não se trata de "uma transição possível para o socialismo", um caminho que pode ou deve ser "escolhido" sob certas condições históricas (e.g., na Rússia "atrasada" de 1917) mas que pode ser rejeitado em prol de uma opção "diferente", do caminho "democrático", na Europa ocidental política e industrialmente "avançada". Não se trata de uma questão de escolha, de política - portanto, a ditadura do proletariado não pode ser "abandonada", assim como não se pode abrir mão da luta de classes, a não ser no discurso e ao custo de muita confusão.

No excerto abaixo, Balibar esboça a arquitetura teórica da concepção leninista da ditadura do proletariado.


Todos sabem que nem Lênin nem Marx e Engels jamais escreveram um “tratado” sobre a ditadura do proletariado (o que veio a ser feito depois). Quanto a Marx e Engels, a razão é óbvia: exceto as breves e fragmentárias experiências das revoluções de 1848 e da Comuna da Paris, cujas principais tendências eles descobriram e analisaram, os dois pensadores nunca tiveram oportunidade de estudar “exemplos reais” dos problemas da ditadura do proletariado. No caso de Lênin, o motivo é outro: o pensamento político confrontou-se pela primeira vez com a verdadeira experiência da ditadura do proletariado. No entanto, essa experiência foi extraordinariamente difícil e contraditória. São as contradições da ditadura do proletariado, como estava começando a desenvolver na Rússia, que formam o objeto da análise e dos argumentos de Lênin. Se esquecemos esse fato, nos tornamos presa fácil do dogmatismo e do formalismo: o leninismo será representado como uma teoria acabada, um sistema fechado – como de fato o foi, por muito tempo, pelos partidos comunistas. Mas se, por outro lado, nos contentarmos com uma visão superficial dessas contradições e de suas causas históricas, se nos limitarmos à ideia simplista e falsa segunda a qual temos que “escolher” entre teoria e história, vida real e prática, se interpretarmos os argumentos de Lênin simplesmente como reflexo de circunstâncias em permanente mutação, tanto menos aplicáveis quanto mais distantes dos eventos históricos que lhes deram origem, então as causas reais dessas contradições históricas tornam-se ininteligíveis e nossa própria relação com elas torna-se invisível. Estaremos, portanto, no domínio da fantasia subjetiva. Nas análises concretas de Lênin, em seus slogans táticos, expressa-se um esforço permanente para compreender tendências históricas genéricas e formular seu conceito correspondente. Se não compreendermos esse conceito, não poderemos estudar, de maneira crítica e científica, a experiência histórica da ditadura do proletariado.

A fim de ser o mais claro possível, examinarei en bloc o que me parece constituir a base de tal teoria como elaborada por Lênin.

A teoria da ditadura do proletariado pode ser resumida, em linhas gerais, em três argumentos, ou três grupos de argumentos, que são incessantemente repetidos e postos à prova por Lênin. Eles podem ser encontrados de forma idêntica, explícita ou implicitamente, em cada página dos textos que cobrem o período da revolução russa, aparecendo, em particular, sempre que uma situação crítica ou um momento decisivo na revolução necessita de retificação no nível da tática, com base nos princípios do marxismo, a fim de realizar a unidade entre teoria e prática. Quais sãos esses três argumentos?

O primeiro deles trata do poder estatal.

Pode-se resumi-lo dizendo que, do ponto de vista histórico, o poder estatal é sempre o poder político de uma única classe, que o detém na sua capacidade de classe dominante. Isso é o que Marx e Lênin querem dizer quando afirmam que toda forma de poder estatal é uma “ditadura de classe.” A democracia burguesa é uma ditadura de classe (a ditadura da burguesia); a democracia proletária da classe trabalhadora é também uma ditadura de classe. Sejamos mais precisos: esse argumento implica que, na sociedade moderna, que baseia-se no antagonismo entre a burguesia capitalista e o proletariado, o poder estatal é controlado de maneira absoluta pela burguesia, que não o compartilha com nenhuma outra classe, nem mesmo entre suas próprias frações. Este fato é verdadeiro quaisquer que sejam as formas históricas particulares em que se realiza a dominação política da burguesia, quaisquer que sejam as formas particulares das quais a burguesia lança mão, na história de cada formação capitalista, a fim de preservar seu poder estatal, que é constantemente ameaçado pelo desenvolvimento da luta de classes.

A primeira tese tem a seguinte consequência: a única alternativa histórica possível ao poder estatal da burguesia é um domínio igualmente absoluto do poder do estado pelo proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados explorados pelo capital. Assim como a burguesia não pode dividir o poder estatal, também o proletariado não pode dividi-lo com as demais classes. E esse controle absoluto do poder estatal é a essência de todas as formas da ditadura do proletariado, quaisquer que sejam suas transformações e variantes históricas. Falar de uma alternativa, no entanto, é bastante impreciso: deveríamos afirmar, ao invés, que a luta de classes conduz inevitavelmente ao estado controlado pelo proletariado. Mas é impossível prever com precisão tanto o momento em que o proletariado será capaz de tomar o poder do estado quanto as formas particulares em que irá fazê-lo. Também não podemos garantir o sucesso da revolução proletária, como se ele fosse automático. O desenvolvimento da luta de classes não pode ser planejado nem programado.

O segundo argumento diz respeito ao aparato estatal.

Podemos sumariá-lo da seguinte maneira: o poder estatal da classe dominante não existe na história, nem pode ser realizado e mantido senão por sua materialização no desenvolvimento e funcionamento do aparato estatal – ou, para usar uma das metáforas de Marx que Lênin toma emprestada a todo momento – no funcionamento da “máquina estatal,” cujo núcleo (o principal aspecto, mas não o único – Lênin jamais afirmou tal exclusividade) é constituído pelo(s) aparato(s) repressivo(s) do estado. São eles: o exército, bem como a polícia e os aparatos legais; de outro lado, a administração estatal ou “burocracia” (Lênin usa os dois termos mais ou menos intercambiavelmente). Essa tese tem a seguinte consequência, com a qual está absolutamente vinculada: a revolução proletária, isto é, a derrubada do poder estatal da burguesia, é impossível sem a destruição do aparato estatal existente, em que o poder estatal da burguesia realiza-se materialmente. A menos que esse aparato seja destruído – o que é uma tarefa difícil e complexa – a ditadura do proletariado não pode se desenvolver e cumprir sua tarefa histórica: a eliminação das relações de exploração e a criação de uma sociedade sem exploração de classe. A menos que esse aparato seja destruído, a revolução proletária será inevitavelmente derrotada e a exploração será mantida, quaisquer que sejam as formas históricas no interior das quais esse fenômeno ocorra.

Está claro que os argumentos de Lênin têm consequências imediatas para ambos o estado e a ditadura do proletariado. Os dois problemas são inseparáveis. Na teoria marxista, não temos de um lado uma teoria geral do estado e de outro uma teoria (particular) da ditadura do proletariado. Há apenas uma teoria.

Os dois primeiros argumentos, examinados acima, já estão presentes de forma explícita em Marx e Engels. Eles não foram descobertos por Lênin, embora o revolucionário russo os tenha resgatado da deformação e censura às quais haviam sido sujeitados na versão da teoria marxista ensinada oficialmente pelos partidos social-democratas. O que não significa que, nesse ponto, o papel de Lênin e da Revolução Russa não tenham sido decisivos. Mas se restringirmos nossa atenção àquele núcleo teórico que venho debatendo, é verdade que tal papel consistiu sobretudo numa aplicação da teoria de Marx e Engels pela primeira vez, de forma efetiva, no campo da prática. A revolução permitiu que houvesse uma fusão entre a prática revolucionária do proletariado e das massas, de um lado, e da teoria marxista do estado e da ditadura do proletariado, de outro – uma aliança inédita. O que significa que, embora tenha havido progressos importantes no movimento trabalhista depois da época de Marx, eles foram acompanhados de uma diminuição considerável em sua autonomia, em sua independência prática e teórica da burguesia e, portanto, em sua força política. Foi a transformação do marxismo em leninismo que permitiu ao proletariado superar essa regressão histórica.

Isso nos leva ao terceiro argumento, que tem a ver com o socialismo e o comunismo.

Trata-se de um argumento com alguns precedentes, com elementos preparatórios na obra de Marx e Engels. Obviamente não é por acaso que Marx e Engels apresentaram sua posição como comunista, e somente adotaram explicitamente o termo “socialista” (e ainda mais o termo “social-democrata”) como uma concessão. Podemos mesmo afirmar que, na ausência dessa posição (e da tese que ela implica), a teoria de Marx e Engels seria ininteligível. Mas eles não tiveram oportunidade de desenvolvê-la plenamente. Essa tarefa coube a Lênin e, ao levá-la a cabo, ele baseou-se no desenvolvimento da luta de classes no período da revolução russa – da qual sua obra é, portanto, o produto, no sentido forte do termo. Tal argumento está agora encontrando o destino a que foram condenados os dois primeiros na época anterior a Lênin e à revolução russa: tem sido “esquecido” e deformado (com consequências dramáticas) ao longo história do movimento comunista e do leninismo, assim como padeceram de esquecimento e deformação, através da história do marxismo, os dois argumentos anteriores.

Uma primeira formulação, bastante abstrata, foi esboçada por Marx no Manifesto Comunista e na Crítica ao Programa de Gotha: somente o comunismo é uma sociedade sem classes, uma sociedade em que todas as formas de exploração desaparecem. E, uma vez que as relações capitalistas constituem a última forma histórica possível de exploração, isso implica que somente relações sociais comunistas, no campo da produção e na vida social como um todo, estão de fato em antagonismo com as relações capitalistas; somente elas são realmente incompatíveis, irreconciliáveis com as relações capitalistas. Isso implica uma série de consequências imensamente importantes, ao mesmo tempo práticas e teóricas. Primeiramente, temos que o socialismo não é senão a ditadura do proletariado. A ditadura do proletariado não é simplesmente uma forma de “transição para o socialismo,” não é um “caminho de transição para o socialismo” – é, na verdade, idêntica ao socialismo. Não há, portanto, dois objetivos diferentes, a serem alcançados separadamente: primeiro o socialismo e depois – uma vez que o socialismo tenha sido construído, completo, uma vez que tenha se “desenvolvido” (ou “desenvolvido a um estágio elevado”), i.e., aperfeiçoado, uma vez que tenha, como se diz, criado “as bases do comunismo” – em segundo lugar, um novo objetivo, a transição ao comunismo, a construção do comunismo. Há, na verdade, apenas um objetivo, cujo conquista se estende por um longo período (muito mais longo e contraditório, sem dúvida, que imaginado pelos trabalhadores e seus teóricos). Mas esse objetivo determina, desde o princípio, a luta, a estratégia e as táticas do proletariado.

O proletariado, as massas proletárias e toda a multidão que o proletariado arrasta consigo não lutam pelo socialismo como um objetivo independente. Elas lutam pelo comunismo, para o qual o socialismo é somente o meio, não passando de sua forma inicial. Nenhuma outra perspectiva interessa a tais atores, no sentido materialista do termo. Eles lutam pelo socialismo somente porque essa é a maneira de chegar ao comunismo. E lutam pelo socialismo com os meios fornecidos pelas ideias comunistas, pela organização comunista (na verdade, pelas organizações comunistas, já que o Partido é apenas uma delas – embora seu papel seja obviamente decisivo). Em última instância, as massas estão lutando para fortalecer a tendência ao comunismo, que está objetivamente presente na sociedade capitalista, e que o desenvolvimento do capitalismo reforça e fortalece.

Segue-se uma consequência muito importante, que colocarei de forma abstrata: a teoria do socialismo é somente possível quando desenvolvida a partir da perspectiva do comunismo, com base numa práxis comunista. Se deixarmos de lado essa posição, se a perdermos de vista, se as dificuldades extraordinárias para atingi-la nos levarem a ignorá-la ou abandoná-la na prática – ainda que lhe reservemos um lugar em nossa teoria ou que falemos dela como um ideal distante – então o socialismo e a construção do socialismo se tornam impossíveis, ao menos na medida em que representa uma ruptura revolucionária com o capitalismo.

Trata-se agora não de desenvolver todas as implicações desses argumentos mas simplesmente de preparar uma análise mais completa, de explicar a maneira como são formulados, e de opor-se a certas interpretações falsas e objeções infundadas.

Temer cairá?

A explosão de novas denúncias de corrupção pode significar o fim do presidente interino do Brasil. O que isso significa para a esquerda?

Ella Mahony


Um protesto anti-Temer em Recife, Brasil, em outubro de 2016. Héllyda Cavalcanti/Mídia NINJA

Um canto popular pode ser ouvido em muitos protestos de esquerda recentes no Brasil: "Vai cair, vai cair, vai cair, o Temer vai cair!" "Ele vai cair", afirma, "Temer vai cair!" Meses atrás, este canto tinha um cheiro de ilusões, mas as revelações bombásticas de ontem à noite sobre o presidente interino poderiam torná-lo realidade.

Às 7 da noite de ontem, o jornal O Globo revelou que Temer foi capturado em fita incentivando Joesley e Wesley Batista, dois irmãos que dirigem a empresa de processamento de carne JBS, para que continuassem os pagamentos a seu ex-aliado, Eduardo Cunha, a fim de comprar o seu silêncio. Cunha, como ex-presidente da Câmara dos Deputados, foi um dos mais devotados defensores do impeachment de Dilma Rousseff, líder do Partido dos Trabalhadores (PT), e está enfurnado na prisão por conta de corrupção, lavagem de dinheiro, e evasão fiscal desde outubro.

A JBS, por sua vez, estava sob pressão legal desde março, quando a Polícia Federal lançou uma investigação conhecida como "Carne Fraca", sobre a prática da empresa de misturar carne podre em carne vendida no Brasil e no exterior. Os irmãos entregaram as fitas - registradas em 7 de março de 2017, seis meses após o início do mandato de Temer - como parte de um acordo com a Polícia Federal.

Nelas, Temer indica para a JBS conversar com o político Rodrigo Roucha Loures, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que recentemente foi filmado recebendo 500 mil reais do representante da JBS, Joesly Batista, sobre um assunto relacionado à sua holding. Depois de ouvir o empresário comentar que eles têm enviado ao preso Cunha uma mensalidade em troca de seu silêncio, Temer responde: "Você tem que manter isso, viu?"

Temer não foi o único alvo das revelações da noite passada. Aécio Neves, presidente do conservador Partido da Social Democracia brasileira (PSDB) e oponente de Dilma Rousseff nas últimas eleições presidenciais, foi registrado pedindo dois milhões de reais de Joesley para pagar sua defesa nas investigações de corrupção da "Lava Jato".

O PT de Rousseff também foi citado, embora sem gravações para fundamentar as acusações. Joesley afirma que Guido Mantega, ministro da Agricultura dos governos de Rousseff e do ex-presidente Lula, foi seu contato para distribuir os pagamentos aos políticos do PT e seus aliados. Antonio Palocci, que também atuou em ambos os governos do PT, e atualmente está preso por causa da "Lava Jato", também foi acusado de solicitar apoio financeiro para as campanhas eleitorais da PT.

A oposição, composta pelo PT e seus aliados, já pede a abertura de processos de impeachment, e seus pedidos têm uma base jurídica forte. Eles precisam de dois terços da câmara baixa do Congresso para abrir os procedimentos. Se tiverem sucesso, o Congresso será obrigado a convocar eleições indiretas, nas quais apenas os legisladores votarão para um sucessor.

Eleições diretas são menos prováveis e seu caminho legal mais obscuro. Mas o Brasil, cuja população chega a duzentos milhões de habitantes, já vive sob um presidente não eleito há nove meses. As eleições indiretas garantiriam um ano e meio mais de uma presidência aprovada por apenas algumas centenas de legisladores, muitos dos quais estão sob investigações de corrupção.

Com ou sem eleições diretas, as acusações contra Temer solidificaram a resistência da esquerda contra ele e abriram espaço para contestar sua aposentadoria privilegiada e reformas dos direitos trabalhistas. Enquanto a greve geral de abril solidificava a oposição popular à reforma, as vias institucionais para derrotá-la permaneceram, até agora, frustrantemente fechadas.

Temer já estava impedido de reeleição com base em acusações de corrupção anteriores; mais recentemente, ele tem pairado entre uma taxa de aprovação de 4 e 10 por cento. Há muito que ele desistiu de cortejar o público. Em vez disso, sua estratégia tem sido empurrar tantas reformas difíceis de reverter quanto possível antes que um presidente responsável perante o eleitorado tome posse. Mas a tensão de uma investigação no Supremo Tribunal Federal e a possibilidade de impeachment pode empurrar seus aliados restantes no Congresso para longe de seu programa.

O Impeachment daria aos movimentos sociais do Brasil um enorme impulso, o potencial cumprimento do que hoje é uma demanda onipresente de "Fora Temer!". Este slogan é rabiscado em todas as superfícies concebíveis nas cidades brasileiras. É raro participar de uma feira, debate, bar, ou mesmo boate onde o canto não começa em algum momento.

Por outro lado, os protestos contra a "corrupção" anti-PT, que comandaram grandes multidões no período preparatório para a cassação de Dilma, tornaram-se cada vez menores e isolados (embora isso não impeça a imprensa corporativa de documentar apaixonadamente cada um de seus movimentos).

Ao mesmo tempo, as acusações colocam a esquerda institucional em uma posição difícil. Com o usurpador de Rousseff, Temer, e seu antigo oponente, Neves, enfrentando o mesmo, é cada vez mais difícil pintar o Judiciário como usando investigações de corrupção para promover uma conspiração contra o PT. Embora as investigações em curso contra Lula ainda não tenham produzido evidências definitivas de irregularidades, a percepção de corrupção é muitas vezes mais importante do que sua prova, como mostrou o impeachment de Rousseff.

Rousseff foi afastada do cargo por motivos extremamente frágeis. No entanto, a imagem da corrupção do PT foi o que levou as multidões a exigir seu impeachment, não o fato.

O PT está atualmente defendendo Lula, seu político mais popular, das acusações relacionadas à investigação "Lava Jato". Os acontecimentos da noite passada significam que eles serão menos capazes de confiar na ideia de que eles são vítimas de um judiciário partidário. Isso poderia eventualmente prejudicar Lula em sua candidatura à presidência em 2018. No entanto, ele continua a ser o candidato mais forte. Se acontecerem eleições diretas imediatas, o PT terá a urgência de seu lado, fazendo dele o vencedor mais provável.

Quanto à esquerda socialista, algumas facções oferecem apoio ao judiciário, com a crença de que a esquerda deve participar plenamente na luta contra a corrupção. Outros desconfiam dessa estratégia, desconfiados de cooperar com uma instituição tão ligada à burguesia brasileira, cujas investigações têm sido facilmente manipuladas pelos meios de comunicação e pelos políticos, em benefício da direita. A primeira estratégia corre o risco de alienar a base petista sindicalizada, que defende Lula e despreza a "Lava Jato" em igual medida. A segunda arrisca encadear a esquerda à fortuna do PT enquanto cede o discurso anti-corrupção aos oportunistas de direita. Um impeachment de Temer forçará provavelmente ambos os lados a recalibrar sua posição.

As revelações de corrupção de ontem à noite abriram amplamente o leque de possibilidades políticas no Brasil. Por um lado, a esquerda do país acaba de conseguir uma enorme vitória apenas algumas semanas depois de ter realizado a maior greve geral da história do Brasil. Por outro lado, está uma burguesia extraordinariamente unida e incompreensível que provou estar disposta a fazer o que for preciso para atingir seus objetivos e derrotar a esquerda. E, além de Lula, nenhuma figura, de qualquer partido, parece capaz de capturar o impulso criado pela bomba de O Globo. O resultado será muita disputa.

No curto prazo, o impeachment seguido por eleições indiretas parece o curso mais provável. Se o Congresso puder, rapidamente, escolher um novo sucessor eles retardarão a disputa acima mencionada. Mas essa rota também evitará abordar, institucionalmente, as questões mais urgentes do país - ao mesmo tempo em que estão despedaçando a sociedade civil brasileira. Esta dinâmica poderia criar consequências imprevisíveis.

Mais importante ainda, as eleições indiretas ainda garantiriam um caminho para a aprovação das reformas regressivas propostas. Não é de admirar que movimentos de direita como o Movimento Brasil Livre (MBL) estão agora dispostos a jogar Temer sob o ônibus, desde que leve apenas as eleições indiretas.

Se Temer não for acusado, as conseqüências são ainda mais imprevisíveis. Tal rejeição insensível da vontade popular e das normas democráticas poderia produzir uma explosão social comparável aos protestos em massa em 2013, em que os protestos contra aumentos das passagens de ônibus se transformaram em uma revolta generalizada ou em desengajamento em massa da política ou em ambos.

O que quer que aconteça, em menos de vinte e quatro horas, a esquerda do Brasil voltou a estar no terreno de novo.

16 de maio de 2017

Iluminismo dialético

O projeto socialista não é sobre se rebelar contra os valores de liberdade, igualdade e fraternidade, mas mostrar como o capitalismo não é capaz de cumpri-los.

Harrison Fluss e Landon Frim


Imagem: Bob May / Flickr


Tradução / Uma certa revolta contra o legado do Iluminismo marcou a cultura acadêmica de pelo menos uma geração. Hoje é frequente na esquerda a crítica à tese do “Iluminismo Radical”, argumentando que aqueles que a promovem privilegiam a força das idéias na História acima das forças materiais. Acusam seus proponentes de elevar a filosofia escrita por homens da elite europeia acima dos sacrifícios feitos pelas pessoas comuns no curso da luta de massas.

Por exemplo, um artigo de Asad Haider na revista Viewpoint alega que a série de livros sobre o Iluminismo Radical, de Jonathan Israel, paradoxalmente rejeitaria a teoria por manter as ideias em tão alta conta. Como a maioria das críticas aos estudos de Israel, a intervenção de Asad Haider é o resultado de uma câmara de eco: ele recita resenhas de livros proeminentes, em vez dos próprios textos.

Na verdade, mesmo uma leitura superficial de Israel desmente esses truísmos. Como historiador intelectual, ele se concentra no papel que as ideias desempenham na História, mas também dedica páginas e mais páginas a tópicos como “mulheres, filosofia e sexualidade”, “liberdade sexual”, “censura e cultura”, “conspiração revolucionária”, “julgamentos criminais”, “colonialismo holandês na Ásia”, “o Iluminismo no Japão”, “antifilosofia e a difusão de literatura radical”, “sociedades secretas”, “movimentos de libertação no exílio” e a “‘Revolução Geral’ como um processo global.”

Israel destaca tanto os efeitos das forças materiais quanto o poder das lutas vindas de baixo. É um argumento de espantalho caracterizar sua posição como dando crédito a filósofos como Baruch Spinoza, ou mesmo os leitores de Spinoza, como os autores mais próximos da revolução. Em vez disso, Israel afirma que a filosofia de Spinoza expressava da maneira mais articulada as energias democráticas e radicalmente igualitárias da época.

Infelizmente, o elogio à tese de Iluminismo Radical muitas vezes também perdem o ponto: celebra o trabalho de Israel por “problematizar” o Iluminismo, “desestabilizar” o conceito ou revelar a pluralidade de tendências dentro do movimento intelectual. Mas a tese de Iluminismo Radical não apenas problematiza ou demonstra a complexidade desse período: ela analisa suas características essenciais. Ela vê o Iluminismo como um projeto que luta por igualitarismo, secularismo e emancipação política.

Quando essas características essenciais são delineadas, podemos distinguir entre as tendências iluministas moderadas e as tendências radicais, reconhecendo que as últimas manifestam de forma mais consistente esses ideais.

No entanto, nossa recepção a essa tese implica uma política ainda mais radical do que a visão política do próprio Israel. Nossa abordagem foi antecipada em obras como Universal Emancipation: The Haitian Revolution and the Radical Enlightenment (“Emancipação Universal: A Revolução Haitiana e o Iluminismo Radical”), de Nick Nesbitt, em que o autor amplia os horizontes da tese de Israel para incorporar o jacobinismo europeu e não-europeu.

Também rastreamos o Iluminismo Radical até os nascentes movimentos socialistas na Europa do final do século XVIII. O julgamento de Gracchus Babeuf, seu testamento final e sua execução, um dos últimos episódios da Revolução Francesa, é especialmente revelador a esse respeito. Em sua defesa, Babeuf invoca não só Rousseau, mas também Mably, Helvetius e Diderot. Ele diz aos jurados que esses autores inspiraram seu socialismo revolucionário e o imperativo de derrubar uma sociedade baseada na propriedade privada. Como disse Babeuf, “foi por causa desses venenos filosóficos que me perdi”.

Materialismo real

Nossa ênfase nas idéias não significa que abandonamos o materialismo. No fim das contas, o próprio materialismo é uma ideia filosófica. Longe do empirismo ou do pragmatismo do “senso comum”, o materialismo implica em um universo inteligível, exige leis naturais uniformes e relações de causa e efeito previsíveis; não deixa espaço para a intervenção divina, a espontaneidade das vontades ou o mal radical. As conquistas metafísicas de Spinoza, há muito lutadas, nos permitem ser materialistas. Alguns podem desejar “jogar fora a escada filosófica”, mas essa atitude não é intelectualmente sofisticada – é superficial.

Os grandes conflitos da história, os motores do conflito de classes, são todos materiais. A tensão entre os modos como produzimos e as relações de produção subjaz as mudança históricas, incluindo as mudanças revolucionárias. No entanto, as descrições empíricas da economia não podem nos dizer de que lado das barricadas devemos ficar.

Em momentos revolucionários, as ideias em nossas cabeças importam. Como o filósofo pessimista Arthur Schopenhauer, você pode emprestar seus óculos de ópera aos soldados prussianos para que eles possam atirar em trabalhadores rebeldes na Revolução de 1848; ou, como Friedrich Engels, você pode se juntar às fileiras desses mesmos levantes democráticos e reabastecê-los com cartuchos de rifle.

Alguns auto-intitulados materialistas podem argumentar que as forças econômicas determinariam sozinhas as lealdades de classe, mas essa posição não representa um genuíno materialismo, muito menos descreve a História com precisão.

O capitalismo consolida setores cada vez maiores da humanidade em dois grandes campos opostos, o proletariado e a burguesia. A auto-emancipação da classe trabalhadora continua sendo o elemento central da derrubada do capitalismo. Mas se a posição social sozinha determinasse de que lado você fica na guerra de classes, então nenhum membro das classes média ou alta poderia apoiar de maneira autêntica a luta dos trabalhadores. Isso incluiria Marx, Rosa Luxemburgo e Lênin, entre outros.

A opressão dos trabalhadores não tem nada de misterioso ou inescrutável. Tampouco sua vitória final será puramente específica à sua condição: o triunfo da classe trabalhadora será a emancipação da própria sociedade de classes. Um economicismo crasso, que imagina a identidade do trabalhador como algo permanente, interpreta erroneamente essa luta como trágica, infinita, um trabalho de Sísifo. Daí a tendência de evitar as contribuições daqueles sem um pedigree da classe trabalhadora, como se as idéias de Engels fossem automaticamente envenenadas pelo tamanho de sua conta bancária.

As ideias devem ser julgadas pelo seu mérito revolucionário e não pelo sua origem. Negar isso é um mero tribalismo.

O universal e o específico

Mesmo se admitirmos que as condições econômicas de fato decidiriam o lugar de uma pessoa na luta, isso não significa que a consciência revolucionária emerge apenas da posição de classe. Salários em queda, pobreza e desemprego alienaram milhões, os afastando do sistema e de suas ortodoxias neoliberais, mas o descontentamento não produz uma resposta política única.

Para isso, ainda precisamos das ideias certas. A insatisfação por si só poderia produzir um protesto socialista ou um pogrom racista. Certamente importa se alguém decide participar de um partido internacionalista dos trabalhadores ou se ela se identifica apenas com a “classe trabalhadora branca”.

Os líderes autoproclamados da extrema direita têm explorado pressões econômicas reais a serviço de sua ideologia. Eles inflam estatísticas duvidosas sobre crimes, e surfam na islamofobia e baboseiras racistas e sexistas em geral, canalizando o sofrimento real que as políticas neoliberais criaram durante os últimos trinta anos.

As pessoas seduzidas pela extrema direita vivenciam essa guerra econômica, mas compreendem essa luta em termos raciais ou civilizacionais. Assim, elas não conseguem perceber seu interesse comum com os oprimidos de outras raças e nacionalidades. Simplesmente responder à pressão econômica obviamente não é o bastante; precisamos compreender essas pressões.

Contra a extrema direita, como podemos afirmar que a luta de classes é mais fundamental do que o pertencimento a uma determinada comunidade racial ou étnica? Como podemos argumentar que todos deveriam se preocupar com a exploração e o sofrimento daqueles que possuem diferentes origens culturais? Promovendo aquela premissa que os ideólogos racistas e xenófobos rejeitam com mais veemência: uma natureza humana em comum.

É claro que postular uma natureza humana compartilhada também não vai garantir a luta política. Gritar alegremente que “estamos todos juntos nessa” não vai estabelecer paz e harmonia entre todos os povos. Oferecer um refrigerante para um policial não vai abolir o racismo. Na melhor das hipóteses, essa maneira de pensar pertence ao socialismo utópico do século XIX; na pior, ela reforça o liberalismo consumista da atualidade.

A esquerda precisa reconhecer nossa humanidade comum e realizar uma análise meticulosa sobre as contradições históricas das sociedades opressivas. Ao reconhecermos os impulsos invariáveis compartilhados por todos os seres humanos – impulsos pelo bem-estar físico, por educação e por comunidade – podemos medir o progresso relativo da sociedade no atendimento dessas demandas. Ao mesmo tempo, ao compreendermos as contradições existentes e os movimentos históricos atuais, podemos traçar uma rota em direção a um maior florescimento humano.

Precisamos determinar cuidadosamente a relação entre a natureza humana – aquilo que Marx chamava de “ser-espécie” – e seu desenvolvimento no tempo e no espaço. Assim, a natureza humana não é elevada a algum ideal celestial que nunca poderia ser alcançado em mundo material decaído. Em vez disso, por natureza humana, queremos dizer todas as capacidades reais e ainda latentes da espécie humana. Precisamos criar as condições sociais onde essas capacidades latentes possam ser realizadas.

Com esses critérios, podemos distinguir aqueles movimentos que encarnam o progresso e os interesses universais daqueles que não o fazem. Temos, então, uma base fixa e universal para apoiarmos o nacionalismo de alguns movimentos anti-imperialistas ao mesmo tempo em que condenamos o nacionalismo de plataformas anti-imigrantes. Podemos nos solidarizar com os protestos do movimento Black Lives Matter ao mesmo tempo em que nos posicionamos contra as marchas de supremacistas brancos.

Uma sucessão de lutas específicas promoverá os interesses da humanidade, e devemos apoiá-las com base nisso. Devemos lutar para erradicar o racismo, o sexismo, a homofobia e a transfobia. A esquerda não pode ver esses locais de conflito de maneira cínica – como meros instrumentos para a luta de classes – mas reconhecer o papel que desempenham na construção da consciência de classe. Ao demonstrar como as diversas formas de opressão têm uma raiz comum no capitalismo, essas lutas reforçam o fato de que a abolição do capitalismo é a condição necessária para a superação dessas formas de injustiça.

Por um iluminismo dialético

Ao negar o dualismo entre pensamento e matéria, e ao afirmar uma identidade humana alicerçada em um universo inteligível, devemos retornar a Spinoza. Seu sistema é o que traça de maneira mais nítida as conexões entre pensamento e ação, teoria e prática. As ideias de um Iluminismo Radical desse filósofo não foram nenhum milagre europeu; pelo contrário, o racionalismo de Spinoza argumenta que as idéias mais importantes são universais e, portanto, inatas aos seres humanos em todo o mundo.

Precisamente por causa daquilo que afirmamos em Spinoza, vemos sua recepção francesa no século XX com ceticismo. Pensadores como Deleuze e Althusser rejeitam amplamente o racionalismo, monismo e determinismo de Spinoza, reduzindo sua substância a um redemoinho de forças anárquicas, seja nos nômades de Deleuze ou no materialismo aleatório de Althusser. Essas leituras realizam uma espécie de “abuso de substâncias“, substituindo a metafísica objetiva de Spinoza por um jogo de forças nietzschiano.

No entanto, uma outra tradição de um spinozismo-marxista não cai nessa armadilha. Começando com Joseph Dietzgen e Georgi Plekhanov e continuando com os spinozistas soviéticos, A. M. Deborin e Evald Ilyenkov, esses autores tratam Spinoza como um pensador dialético antes desse termo ser usado. Eles participam da tradição dos hegelianos de esquerda como Heine, Feuerbach e Hess, que saudaram Spinoza como o verdadeiro padrinho do Idealismo Alemão. Como tal, não rejeitaram o humanismo de Spinoza em nome de um anti-humanismo inspirado em Heidegger. Em vez disso, procuraram afirmar a força e a dignidade humanas por meio de uma compreensão do mundo material.

Aceitar ou rejeitar a tese do Iluminismo Radical não é, como colocou Michel Foucault, uma questão de “chantagem” intelectual. Como o projeto possui um conteúdo filosófico específico, concordar com ele não é uma questão de gosto, mas de cosmovisão. Não é como escolher entre diferentes sabores de sorvete, quando se pode responder inocentemente “morango” ou “baunilha”. Em vez disso, representa opções genuínas. Tomar uma decisão sobre elas não é opcional.

Insistir que as pessoas decidem – e que existe sim uma resposta certa – não é uma chantagem. Ou aceitamos um universo inteligível ou o rejeitamos; ou afirmamos uma humanidade comum ou a negamos; ou vemos a revolução social como necessária ou permanecemos cegos para esse fato.

A esquerda atual tende a evitar respostas filosóficas tão definidas, satisfeita em “problematizar” sem nunca chegar a uma conclusão. Geralmente, os pensadores fazem isso sob o pretexto de uma falsa humildade. Eles substituem compromisso teórico por um pluralismo teórico, representando o primeiro como pura arrogância.

E, no entanto, eles parecem não ter tal aversão a insistir em um programa político definido, como se uma política coerente pudesse ser imaculadamente concebida por meio da própria luta, sem a mediação de idéias. Essa posição é claramente autodestrutiva e limita o conhecimento teórico para abrir espaço para a fé política – em última análise, manchando ambas.

Nós não temos todas as respostas, mas reafirmamos o imperativo de encontrá-las. Nosso projeto precisa superar o ceticismo sobre o Iluminismo por meio de um Iluminismo dialético, que não apenas critique os valores do “secularismo, republicanismo, direitos, liberdades e igualdade”, mas que mostre como o capitalismo é incapaz de cumpri-los.

Para materializar os ideais das seções mais radicais da burguesia, incluindo os ideais do próprio Spinoza, a sociedade burguesa precisa ser superada. Essa é a essência do Iluminismo dialético.

Sobre os autores

Harrison Fluss é editor correspondente na revista Historical Materialism e professor de filosofiana Universidade St. John's e na Manhattan College.

Landon Frim é professor assistente de filosofia na St. Joseph’s College, em Nova Iorque.

15 de maio de 2017

A revolução na Finlândia

A esquecida revolução talvez tenha mais lições para nós hoje do que os eventos na Rússia de 1917.

Eric Blanc

Jacobin

Multidões durante a greve geral em Helsinque, Finlândia, 1905. Conselho Nacional de Antiguidades, Arquivos para Impressões e Fotografias

Tradução / No último século, histórias sobre a revolução de 1917 geralmente focaram em Petrogrado e nos socialistas russos. Mas o Império Russo era predominantemente composto por não-russos – e os levantes na periferia imperial frequentemente eram tão explosivos quanto aqueles do centro.

A queda do czarismo em fevereiro de 1917 desencadeou uma onda revolucionária que imediatamente engoliu toda a Rússia. E talvez a mais excepcional dessas insurgências tenha sido a Revolução Finlandesa, que um estudioso definiu como “a mais nítida guerra de classes na Europa do século XX”.

A exceção finlandesa

Os finlandeses eram uma nação diferente de todas as outras que estavam sob o domínio czarista. Pertencente à Suécia até 1809, quando foi anexada pela Rússia, a Finlândia tinha autonomia governamental, liberdade política e, com o passar do tempo, até mesmo um parlamento próprio com eleições democráticas. Ainda que o czar tentasse limitar essa autonomia, a vida política de Helsinque lembrava mais Berlim do que Petrogrado.

Numa época em que os socialistas de toda a Rússia imperial eram obrigados a se organizar em partidos clandestinos e eram caçados pela polícia secreta, o Partido Social Democrata Finlandês (PSD) atuava de forma aberta e legal. Como a social-democracia alemã, de 1899 em diante, os finlandeses construíram um partido operário massivo e uma densa cultura socialista, com seus próprios salões, grupos de mulheres trabalhadoras, corais e associações esportivas.

Politicamente, o movimento operário finlandês estava comprometido com uma estratégia de orientação parlamentar, educando e organizando pacientemente os trabalhadores. Inicialmente a sua política era moderada: falar de revolução era algo raro e a colaboração com liberais era algo comum.

Mas o PSD era singular dentre os grandes partidos socialistas de massas da Europa, pois ele tornou-se mais militante nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Se a Finlândia não fosse parte do império czarista, é provável que a social democracia finlandesa tivesse uma história semelhante a de outros partidos socialistas da Europa Ocidental, nos quais os radicais foram cada vez mais marginalizados pela integração parlamentar e pela burocratização do partido.

Contudo, a participação da Finlândia na Revolução de 1905 acabou levando o partido mais para a esquerda. Durante a greve geral de novembro de 1905, um líder socialista finlandês viu-se maravilhado com o levante:

“Nós vivemos numa época maravilhosa... Povos que suportavam o fardo da escravidão com conformismo e humildade de repente se libertaram de seu jugo. Comunidades que até agora comiam casca de pinheiro, estão exigindo pão”.

Na esteira da Revolução de 1905, parlamentares socialistas moderados, dirigentes e funcionários públicos se tornaram minoria no PSD. Seguindo a orientação formulada pelo teórico marxista alemão Karl Kautsky, a partir de 1906, a maioria do partido procurou fundir suas táticas legalistas e seu foco parlamentar com uma aguda política voltada para a luta de classes. “O ódio de classe deve ser celebrado, ele é uma virtude”, dizia uma publicação do partido.

O PSD anunciava que somente um movimento operário independente poderia avançar em direção aos interesses dos trabalhadores, defendendo e até mesmo expandindo a autonomia finlandesa em relação à Rússia, ganhando assim total democracia política. Uma revolução socialista era, com o tempo, a ordem do dia, mas até lá o partido deveria se fortalecer cautelosamente e evitar conflitos prematuros com a classe dominante.

Essa estratégia de social democracia revolucionária – com sua mensagem militante e com seu método sem pressa, mas sem pausa – teve um sucesso espetacular na Finlândia. Em 1907, quase cem mil trabalhadores tinham se filiado ao partido, tornando ele a maior organização per capita no mundo. Em julho de 1916, o PSD entrou para a História ao tornar-se o primeiro partido socialista a conquistar maioria parlamentar. Contudo, devido aos anos recentes de “russificação”, a maior parte do poder estatal na Finlândia estava sob controle de uma administração russa. Somente em 1917 o PSD enfrentou os desafios de manter uma maioria parlamentar socialista em uma sociedade capitalista.

Os primeiros meses

As notícias da insurreição de fevereiro na vizinha Petrogrado foram recebidas com surpresa na Finlândia, mas tão logo os rumores foram confirmados, os soldados russos que estavam estacionados em Helsinque se amotinaram contra os seus oficiais, como descrevia uma testemunha da época:

“Pela manhã, soldados e marinheiros marcharam pelas ruas com bandeiras vermelhas, parte deles em desfile cantando a Marselhesa, parte em grupos separados, distribuindo fitas e pedaços de pano vermelhos. Patrulhas de marinheiros de baixa patente armados vagaram pelo entorno da cidade desarmando todos os oficiais, que, ao menor sinal de resistência ou recusa em aceitar o símbolo vermelho, eram mortos e deixados caídos no local”.

Os administradores russos foram expulsos, os soldados russos estacionados declararam sua lealdade ao Soviete de Petrogrado e a força policial finlandesa foi destruída por baixo. O escritor conservador Henning Söderhjelm, ao comentar a revolução em 1918 – uma expressão valiosíssima da visão das elites finlandesas –, lamentava a perda do monopólio estatal da violência:

“A destruição total da polícia era a política expressa do PSD. A força policial, que havia sido eliminada pelos soldados russos logo no início da revolução, nunca mais voltou a existir. O “povo” não confiava nessa instituição e, em seu lugar, foram estabelecidas milícias locais para a manutenção da ordem, compostas por homens que deviam pertencer ao Partido Trabalhista”.

O que deveria substituir a antiga administração russa? Alguns radicais pressionaram por um Governo Vermelho, mas eles eram minoria. Como nas outras partes do Império, em março a Finlândia foi tomada por um chamado pela “unidade nacional”. Esperando alcançar ampla autonomia com relação ao novo governo provisório da Rússia, uma ala de dirigentes moderados do PSD rompeu com a antiga posição do partido e se uniu a um governo de coalizão com liberais finlandeses. Diversos radicais socialistas denunciaram a manobra como “traição” e flagrante violação dos princípios marxistas do PSD. Outros líderes importantes, no entanto, aceitaram a entrada no governo para evitar uma divisão no partido.

A lua de mel política durou pouco. O novo governo de coalizão entrou rapidamente no fogo cruzado da luta de classes quando uma agitação sem precedentes irrompeu nos locais de trabalho, ruas e áreas rurais da Finlândia. Alguns socialistas finlandeses concentraram esforços na construção de milícias operárias armadas, outros promoveram greves, militância sindical e ativismo no chão de fábrica. Söderhjelm descreveu a dinâmica:

“O proletariado deixou de implorar e rogar, ele agora reivindica e exige. Acredito que o operário, especialmente o mais bruto, nunca se sentiu tão inflado de poder como na Finlândia de 1917”.

A elite finlandesa acreditou inicialmente que a entrada dos socialistas moderados no governo de coalizão obrigaria o PSD a abandonar sua linha de luta de classe. Söderhjelm lamentou que essa esperança tenha sido frustrada:

“O domínio da turba se desenvolveu com rapidez inesperada. A culpa, acima de tudo, é da tática do Partido Trabalhista. (...) Ainda que o Partido Trabalhista tenha observado uma certa dignidade em sua conduta mais oficial, ele permaneceu em sua política de agitação contra a burguesia com um zelo incansável”.

Enquanto os socialistas moderados do novo governo, assim como seus aliados trabalhistas, buscavam arrefecer a insurgência popular, a extrema esquerda do partido demandava sistematicamente que rompessem com a burguesia. Oscilando entre os dois polos socialistas, havia uma corrente amorfa de centro que garantia um apoio limitado à nova administração. E apesar de que a maior parte dos dirigentes do PSD continuasse a priorizar a arena parlamentar, a maioria do partido apoiava – ou pelo menos acatava – a onda que vinha de baixo.

Diante do inesperado acúmulo de resistência, a burguesia finlandesa foi ficando cada vez mais beligerante e intransigente. O historiador Maurice Carrez observa que a elite finlandesa nunca se resignou a “compartilhar o poder com uma formação política vista por ela como o diabo encarnado”.

A polarização de classe

A implosão do governo de coalizão finlandês começou no verão. Em agosto, o abastecimento de alimentos do império russo entrou em colapso e o espectro da fome se apossou dos trabalhadores finlandeses. Motins de fome eclodiram no início daquele mês e a organização do PSD de Helsinque denunciou a recusa do governo em tomar medidas decisivas para lidar com a crise. “As massas de trabalhadores famintos logo perderam a confiança no governo de coalizão”, notou Otto Kuusinen, o principal teórico de esquerda do PSD, que fundaria o movimento comunista finlandês no ano seguinte.

A insistência socialista na luta pela liberação nacional intensificou ainda mais a polarização de classe. Socialistas finlandeses lutavam arduamente para suprimir a interferência do governo russo nos assuntos internos da nação. Conquistando a independência, esperavam fazer uso de sua maioria parlamentar – e do controle das milícias operárias – para avançar rumo a um ambicioso programa de reformas sociais e políticas.

Em julho, um líder socialista explicara que “até agora nós fomos obrigados a lutar em dois fronts – contra a nossa própria burguesia e contra o governo russo. Para que nossa guerra de classes seja bem-sucedida, se quisermos unificar nossas forças num front só, contra a nossa própria burguesia, nós precisamos de independência e para tal, a Finlândia já está madura”.

Por suas próprias razões, os conservadores e liberais finlandeses também queriam fortalecer a autonomia nacional. Entretanto, eles não estavam dispostos a recorrer a métodos revolucionários para atingir esse objetivo e nem apoiavam, em geral, o esforço do PSD pela independência plena.

O choque inevitável veio em julho. A maioria socialista no parlamento propôs o histórico projeto de lei valtalaki (Lei do Poder), que proclamou unilateralmente a plena soberania finlandesa e foi aprovado em 18 de julho, apesar de intensa oposição da minoria conservadora. O governo provisório russo, capitaneado por Alexander Kerensky, indeferiu de imediato a validez do valtalaki e ameaçou ocupar a Finlândia caso sua decisão não fosse respeitada.

Quando os socialistas finlandeses se recusaram a recuar ou renunciar ao valtalaki, os liberais e conservadores aproveitaram o momento. Na esperança de isolar o PSD e reconquistar a maioria, eles cinicamente apoiaram e legitimaram a decisão de Kerensky numa manobra para dissolver o parlamento democraticamente eleito. Novas eleições foram convocadas e partidos de direita ganharam uma exígua maioria.

A dissolução do parlamento finlandês marcou um ponto de inflexão decisivo. Até aquele momento, havia entre a classe trabalhadora e seus representantes um forte sentimento de que o parlamento podia ser usado como um meio para a emancipação social. Segundo Otto Kuusinen,

“Nossa burguesia não tinha um exército, não contava nem mesmo com uma força policial. (...) Por isso, parecia que tínhamos toda razão em nos mantermos na já surrada trilha da legalidade parlamentar, no qual, aparentemente, a social democracia poderia conseguir uma vitória atrás da outra”.

Mas para um número crescente de trabalhadores e dirigentes do partido ia ficando evidente que o parlamento perdera sua utilidade.

Os socialistas denunciaram o golpe antidemocrático e criticaram o conluio da burguesia com o Estado russo contra os direitos nacionais da Finlândia e as instituições democráticas. De acordo com o PSD, a nova eleição parlamentar era ilegal, tendo sido vencida graças a fraudes eleitorais generalizadas. Em meados de agosto, o partido ordenou a renúncia de todos os seus membros do governo e, sintomaticamente, os socialistas finlandeses foram cada vez mais se aliando aos Bolcheviques, o único partido russo a apoiar sua luta pela independência. Todas as forças do tabuleiro haviam lançado suas fichas e a Finlândia, até então pacífica, precipitava-se para uma explosão revolucionária.

A luta pelo poder

Em outubro, a crise que assolava todo o império russo, tinha chegado em seu ponto de ebulição. Trabalhadores finlandeses da cidade e do campo furiosamente exigiam que seus líderes tomassem o poder. Choques violentos começaram a borbulhar pela Finlândia. Ainda assim, muitas das lideranças do PSD continuavam acreditando que o momento revolucionário poderia esperar até que a classe trabalhadora estivesse mais bem organizada e armada. Outros, por sua vez, temiam abandonar a arena parlamentar. Nas palavras do líder socialista Kullervo Manner, em fins de outubro:

“Nós não podemos evitar a revolução por muito tempo... a fé no valor das ações pacíficas está perdida e a classe trabalhadora começa a confiar apenas na sua própria força… se estivermos equivocados quanto à rápida aproximação da revolução, eu ficaria muito contente”.

Depois de os Bolcheviques conquistarem o poder no fim de outubro, parecia que a Finlândia seria a próxima da fila. Privada do apoio militar do Governo Provisório russo, a elite finlandesa estava perigosamente isolada. A maioria dos soldados russos – estacionados na Finlândia em dezenas de milhares – apoiavam os Bolcheviques e seu clamor por paz. “A onda vitoriosa do bolchevismo dará combustível para a engrenagem socialista, e eles seguramente serão capazes de colocá-la em marcha”, avaliava um liberal finlandês.

A base do PSD e os Bolcheviques em Petrogrado imploraram às lideranças socialistas que tomassem o poder imediatamente, mas a direção do partido vacilou. Ninguém podia ter certeza se o governo Bolchevique duraria mais que alguns dias. Socialistas moderados se apegaram à esperança de encontrar uma solução parlamentar pacífica, enquanto alguns radicais defendiam que a tomada do poder era não apenas possível, mas também urgentemente necessária. A maioria dos dirigentes hesitavam entre as duas opções. Kuusinen rememora a indecisão do partido nesse momento crítico: “Nós, social democratas, ‘unidos com base na luta de classes’, oscilamos primeiro para um lado depois para o outro, tendendo fortemente para revolução primeiro, mas só para depois recuar novamente no momento seguinte”.

Incapazes de chegar a um acordo quanto a um levante armado, o partido acabou convocando uma greve geral em 14 de novembro em defesa da democracia contra a burguesia, pelas necessidades econômicas urgentes dos trabalhadores e pela soberania finlandesa. A resposta da base foi avassaladora – foi de fato muito além do esperado diante do cauteloso chamado à greve.

A Finlândia parou. Diretórios locais do PSD e a Guarda Vermelha tomaram o poder em diversas cidades, ocupando locais estratégicos e prendendo os políticos burgueses.

Parecia que esse padrão insurrecional se repetiria também em Helsinque. Em 16 de novembro, o Conselho da Greve Geral votou pela tomada do poder. Mas quando sindicatos e dirigentes socialistas moderados criticaram a decisão e renunciaram ao órgão, o Conselho voltou atrás no mesmo dia. “Já que uma minoria tão expressiva está em desacordo, o Conselho não pode começar agora a tomar o poder para as mãos dos trabalhadores, mas continuará a pressionar ainda mais a burguesia”. Logo em seguida a greve foi desmobilizada.

O historiador finlandês Hannu Soikkanen destaca que a greve de novembro foi uma enorme oportunidade perdida:

“Não há dúvidas de que esse foi o melhor momento para as organizações de trabalhadores tomarem o poder, a pressão das bases era enorme e a vontade de lutar estava no auge. A greve geral convenceu a burguesia, com poucas exceções, do contundente perigo representado pelos socialistas. Ela usou esse tempo até o início da guerra civil para se organizar em torno de uma liderança firme”.

Apontando a hesitação do PSD em voltar-se para a ação de massas, Anthony Upton argumentou que “os revolucionários finlandeses foram os mais infelizes revolucionários da História”. Essa afirmação, contudo, faria sentido se nossa história terminasse em novembro, mas os eventos seguintes mostram que o coração revolucionário da social democracia finlandesa prevaleceu.

Após a greve geral, os frustrados trabalhadores passaram a buscar armas e voltarem-se à ação direta. De forma semelhante, a burguesia preparou-se para a guerra civil, criando sua milícia chamada “Guarda Branca” e pedindo apoio militar ao governo alemão.

Apesar do acelerado colapso na coesão social, muitos líderes socialistas continuaram com as infrutíferas negociações parlamentares. Só que dessa vez a ala esquerda do PSD enrijeceu sua posição e declarou que não iria mais adiar a ação revolucionária, pois isso só levaria ao desastre. Após uma longa série de batalhas internas em dezembro e janeiro de 1918, os radicais finalmente venceram a disputa interna.

Em janeiro, as palavras revolucionárias do PSD finalmente foram traduzidas em ações. Ao dar o sinal para o início da insurreição, os líderes partidários acenderam uma lanterna vermelha, na noite de 26 de janeiro, na torre do Salão dos Trabalhadores de Helsinque. Nos dias seguintes, os socialdemocratas e suas organizações sindicais tomaram o poder facilmente nas grandes cidades da Finlândia – o norte rural, em contrapartida, permaneceu nas mãos da elite dominante.

Os insurgentes da Finlândia lançaram uma proclamação histórica anunciando que a revolução era necessária já que a burguesia finlandesa, em conluio com o imperialismo estrangeiro, tinha dado um “golpe” contrarrevolucionário contra a democracia e contra as conquistas dos trabalhadores:

“A partir de agora, o poder revolucionário na Finlândia pertence à classe trabalhadora e suas organizações (...) A revolução proletária é nobre e severa (...) severa para os insolentes inimigos do povo, mas pronta para ajudar os oprimidos e marginalizados”.

Inicialmente, o recém-estabelecido Governo Vermelho tentou traçar uma rota política relativamente cautelosa, mas a Finlândia rapidamente afundou em uma sangrenta guerra civil. A demora na tomada do poder custou caro à classe trabalhadora finlandesa, porque grande parte das tropas russas já havia retornado ao seu país em janeiro. A burguesia aproveitou os três meses desde a greve de novembro para organizar suas tropas na Finlândia e na Alemanha. Ao fim e ao cabo, vinte e sete mil revolucionários finlandeses foram mortos na guerra. Depois que a direita destruiu a República Socialista Operária Finlandesa em abril de 1918, aproximadamente mais oitenta mil trabalhadores e socialistas foram enviados a campos de concentração.

Não há consenso entre os historiadores sobre um possível triunfo da revolução finlandesa caso tivesse começado mais cedo e tomado uma postura mais ofensiva nos campos político e militar. Alguns argumentam que o real fator decisivo foi a intervenção militar imperialista da Alemanha em março e abril de 1918. Kuusinen segue essa lógica em seu balanço:

“O imperialismo alemão deu ouvidos aos lamentos dos nossos burgueses e se ofereceu prontamente para engolir a recém-conquistada independência que, a pedido dos socialdemocratas finlandeses, havia sido concedida pela República Soviética da Rússia. O sentimento nacional da burguesia não sofreu nenhum arranhão nesse episódio; o jugo do imperialismo estrangeiro não lhe causava terror naquele momento em que parecia que a sua “pátria” estava a ponto de se tornar a pátria dos trabalhadores. A burguesia estava disposta a sacrificar um povo inteiro ao grande bandido alemão, desde que pudesse manter para si a indigna função de capataz”.

As lições aprendidas

O que devemos aprender sobre a Revolução Finlandesa? O mais óbvio é que ela nos mostra que a revolução operária não foi apenas um fenômeno localizado no centro da Rússia. Mesmo na Finlândia, parlamentar e pacífica, a classe trabalhadora progressivamente se convenceu de que apenas um governo socialista poderia oferecer uma saída para a crise social e opressão nacional.

Os Bolcheviques não foram o único partido do império capaz de levar os trabalhadores ao poder. Em muitos aspectos, a experiência do SDP finlandês confirma a ideia tradicional da revolução defendida por Karl Kautsky: por meio de uma conscientização de classe pacientemente erigida sobre educação e organização, os socialistas conquistaram maioria no parlamento. Por sua vez, isso levou a direita a dissolver tal instituição, fato que acabou gerando a revolução conduzida pelos socialistas.

A preferência do partido por uma estratégia parlamentar defensiva não lhe impediu de acabar derrubando o poder capitalista e avançar em direção ao socialismo. Em contraponto, a burocratizada socialdemocracia alemã – que há muito abandonara a estratégia de Kautsky – sustentou ativamente o poder capitalista em 1918-19 e reprimiu violentamente aqueles que lutaram para superá-lo.

Contudo, a Revolução Finlandesa nos mostra não somente os pontos fortes, mas também as potenciais limitações da socialdemocracia revolucionária: hesitação em abandonar a arena parlamentar, subestimação da ação de massa e, por fim, a tendência a ceder aos socialistas moderados em nome da unidade do partido.

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