Os "socialistas do esgoto" de Milwaukee constituíram a organização socialista mais bem-sucedida da história dos EUA, comandando a prefeitura e o movimento sindical organizado durante décadas. A experiência deles demonstra a viabilidade de um marxismo não doutrinário que alia a campanha eleitoral por reformas à organização do poder da classe trabalhadora, orientado para a social-democracia e o socialismo.
Eric Blanc
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Vol 9 No 4 Winter
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A campanha de alarmismo contra o socialista democrático Zohran Mamdani — que agora é prefeito da cidade de Nova York — guarda grande semelhança com as tentativas da elite, há mais de um século, de impedir que socialistas vencessem a eleição para a prefeitura de outra grande cidade. Às vésperas da eleição de abril de 1910 em Milwaukee, um anúncio de jornal do Partido Democrata alertava que, sob uma administração socialista, “o capital ficará ocioso. O trabalhador, sem emprego. Nenhum homem ou partido que tenha defendido o uso de armas e balas deve receber a confiança para governar nossa cidade. Isso arruinará o crédito da cidade”. Outro anúncio de campanha resumia a questão de forma mais direta: “PROMESSAS e DINAMITE ou EXPERIÊNCIA e REALIZAÇÕES!”1
Felizmente, a maioria dos eleitores ignorou esses alertas. O socialista Emil Seidel venceu a eleição para prefeito, e os socialistas de Milwaukee assumiram o poder em massa. Longe de cair em ruína, Milwaukee — e o estado de Wisconsin como um todo — prosperou sob a gestão socialista ao longo dos cinquenta anos seguintes, sendo pioneira em muitas das políticas progressistas e pró-trabalhador que culminaram no New Deal americano. Em 1936, até mesmo a revista Time sentiu-se compelida a publicar uma matéria de capa sobre esse sucesso, intitulada "Prefeito Marxista", observando que, sob a administração socialista, "Milwaukee tornou-se, talvez, a cidade mais bem administrada dos EUA".
Essa história é rica em lições para Mamdani e para os ativistas de esquerda contemporâneos que buscam pressionar a prefeitura para construir uma alternativa da classe trabalhadora ao neoliberalismo democrata e ao autoritarismo de Donald Trump. No entanto, a história dos chamados "socialistas do esgoto" de Milwaukee — um apelido inicialmente pejorativo que fazia referência ao empenho deles em melhorar os serviços públicos — é muito mais do que um relato sobre uma gestão de esquerda bem-sucedida. A ascensão e a eficácia dos governos socialistas da cidade dependeram, em grande medida, da força e da capacidade de persuasão de uma organização política radical enraizada nos sindicatos de Milwaukee.
O "socialismo de esgoto" exercia um poder excepcional, tanto dentro quanto fora do governo. Além de abrigar a única grande cidade americana governada por socialistas ao longo de várias décadas, Wisconsin era o estado com o maior número de autoridades socialistas eleitas e, de longe, o maior contingente de legisladores socialistas (ver figura 1). Wisconsin também era o único estado americano onde os socialistas lideravam todo o movimento sindical; de fato, foram principalmente suas raízes no movimento trabalhista organizado que viabilizaram seu sucesso eleitoral e político, incluindo a aprovação, em nível estadual, de 295 projetos de lei de autoria socialista entre 1919 e 1931.[2]
Por trás dessas vitórias havia uma organização de base poderosa e disciplinada que, como observou um contemporâneo, “seria a inveja de qualquer máquina política de hoje”. Em 1912, cerca de uma em cada cem pessoas em Milwaukee era membro do Partido Social-Democrata (SDP). Em contrapartida, a cidade de Nova York — outro reduto socialista — contava com um membro para cada mil habitantes. Se o Partido Socialista da América (SPA) tivesse a mesma força que o SDP de Milwaukee, teria cerca de um milhão de membros — um contingente praticamente igual ao da Social-Democracia alemã, o maior partido socialista do mundo.
Ao contrário do que grande parte da literatura sobre o "socialismo de esgoto" sugeriu, o crescimento do partido não ocorreu à custa do abandono de políticas radicais ou de objetivos socialistas. Diferentemente dos progressistas, o horizonte do SDP nunca se limitou à expansão dos serviços públicos e do Estado de bem-estar social. Pelo contrário, os líderes e a base do socialismo de Wisconsin mantiveram-se motivados pela análise marxista, por uma estratégia de luta de classes e pelo objetivo de uma revolução de maioria para instaurar o socialismo. O fato de não terem chegado mais perto de alcançar seus objetivos mais ambiciosos deveu-se a circunstâncias fora de seu controle — notadamente uma opinião pública relativamente conservadora e, consequentemente, a incapacidade de conquistar cargos no Executivo além do nível municipal, tanto em Wisconsin quanto em outras regiões. Após a eleição de Daniel Hoan para a prefeitura de Milwaukee em 1916, a imprensa do partido explicou: "O prefeito Hoan e os onze vereadores socialistas não implementarão o socialismo em Milwaukee nos próximos quatro anos. Não será por falta de vontade, mas por impossibilidade". E o fato de terem alcançado tanto deveu-se à maneira flexível como concretizaram o socialismo científico para o contexto singular dos Estados Unidos.
Num momento em que a esquerda em Nova York — e além — se depara com enormes oportunidades de crescimento, bem como com os desafios de governar enquanto socialistas organizados (e não apenas como progressistas que atuam por conta própria), faríamos bem em adotar e adaptar a abordagem dos "socialistas de esgoto" de Milwaukee: um marxismo não doutrinário que combina a disposição para disputar eleições — com o objetivo de vencer e entregar resultados — com o foco em construir o poder organizado da classe trabalhadora, rumo à social-democracia e ao socialismo.
O contexto de Milwaukee
As condições para o crescimento do socialismo eram um pouco mais favoráveis em Milwaukee do que na média das cidades americanas da virada do século. No entanto, não devemos exagerar esse ponto nem — como normalmente se faz na literatura — atribuí-lo exclusivamente à herança alemã da cidade.
Já na década de 1900, a população alemã de Milwaukee estava passando por um processo de assimilação e apresentava declínio numérico, ao passo que a classe trabalhadora não qualificada tornava-se predominantemente polonesa. Em 1910, cerca de metade dos habitantes de Milwaukee eram filhos de imigrantes alemães ou os próprios imigrantes alemães. E, embora seja verdade que a maioria dos primeiros socialistas de Milwaukee fosse alemã, a maioria dos alemães da cidade não era socialista. Um estudo quantitativo sobre o voto de imigrantes nos EUA no período pré-guerra constatou uma correlação negativa entre alemães e votos socialistas em nível nacional: "Não podemos falar em uma afinidade entre alemães e o voto socialista"3. Victor Berger, o fundador do "socialismo de esgoto" (*sewer socialism*), observou em 1910 que, "em regra, os socialistas não conseguem fazer com que nem os alemães nem os poloneses de primeira geração [votem em nós]... Temos de esperar pela segunda geração, a nascida na América".
Ao contrário dos primeiros imigrantes veteranos da fracassada revolução de 1848, as grandes ondas migratórias alemãs das décadas de 1880 e 1890 tendiam a ser compostas por pessoas relativamente conservadoras oriundas de áreas rurais. Berger nasceu em uma família politicamente monarquista e em declínio socioeconômico, proveniente da zona rural do Império Austro-Húngaro. Ao chegar à América em 1878, aos dezoito anos, Berger trabalhou lavando caldeiras e cuidando de gado, vindo a aderir ao socialismo na década de 1880. Essa decisão política escandalizou seus pais que, segundo o biógrafo de Berger, Edward Muzik, ficaram "horrorizados com o radicalismo do filho, que eles achavam que seria enforcado — e talvez merecidamente"4.
Ainda assim, um grande impulso para a ascensão dos socialistas do "socialismo de esgoto" foi a existência de uma comunidade operária grande e relativamente homogênea (os teuto-americanos) onde podiam criar raízes, seguida por outro grupo expressivo (os polaco-americanos). Os trabalhadores de outras cidades americanas — incluindo Chicago e St. Louis, onde o radicalismo germano-americano era tão ou mais forte do que em Milwaukee até a década de 1880 — tendiam a estar fragmentados em meia dúzia ou mais de blocos políticos de base étnica, religiosa e racial, o que facilitava o enraizamento de máquinas políticas de cunho étnico e de um sindicalismo corporativista de ofício, ao mesmo tempo que minava os esforços socialistas para formar uma coalizão majoritária.
Transformar a classe trabalhadora de Milwaukee em um bastião do socialismo, no entanto, não foi algo automático, rápido ou simples. Levou muitos anos até que a corrente liderada por Berger ganhasse força suficiente para lançar seus próprios candidatos. E o primeiro "socialista do esgoto" a concorrer à prefeitura — um operador de máquinas chamado Robert Meister, em 1898 — obteve apenas 5% dos votos. A Figura 2 ilustra a ascensão lenta, porém constante, do partido nos anos seguintes. Eis como Berger descreveu essa dinâmica em um discurso após a grande vitória na eleição para a prefeitura em 1910:
Levou quarenta anos para conquistarmos um prefeito e uma administração socialistas em Milwaukee, desde que um grupo de camaradas se uniu pela primeira vez... Isso não aconteceu de forma rápida ou fácil para nós. Exigiu trabalho. Gota a gota, até que o cálice transbordasse. Voto a voto, rumo à vitória. Trabalho não apenas durante as poucas semanas da campanha, mas todos os meses, todas as semanas, todos os dias. Trabalho nas fábricas e de casa em casa.
Americanizando o marxismo
A história de Milwaukee constitui um experimento natural útil para testar a viabilidade de estratégias socialistas concorrentes nos Estados Unidos. Tanto as vertentes moderadas quanto as intransigentes do marxismo estavam presentes, sendo que estas últimas largaram na frente com quase duas décadas de vantagem. O Socialist Labor Party (SLP) foi a única força em cena de 1875 em diante, até que Berger — um ex-membro do SLP — fundou, em 1893, um jornal socialista rival e mais pragmático: o Vorwärts (Avante).
No início da década de 1890, o SLP, sob a liderança de Daniel De Leon, havia consolidado sua estratégia: propagar os princípios fundamentais do marxismo nas eleições e construir sindicatos industriais revolucionários para substituir a reformista American Federation of Labor (AFL). Se os trabalhadores americanos tivessem uma inclinação mais radical, a estratégia do SLP poderia ter vingado — de fato, algo próximo a essa abordagem orientou tanto a social-democracia alemã em seus primórdios quanto os marxistas revolucionários em toda a Rússia imperial.5 No entanto, o SLP de De Leon nunca conseguiu crescer além de uma pequena seita com alguns milhares de membros em todo o país. Uma matéria de capa da revista Time, de 1936, observou que, sem a incansável iniciativa de organização de Berger, o "socialismo" de Milwaukee "poderia ter permanecido nada mais do que conversas acaloradas em mesas de bar". Por volta de 1900, o SDP — relativamente moderado — havia claramente eclipsado seus rivais radicais.
Qual era a orientação política da nova corrente de Berger? Suas divergências em relação aos socialistas mais à esquerda giravam fundamentalmente em torno de estratégias e táticas, e não de princípios ou objetivos. Infelizmente, a maior parte da literatura retratou erroneamente Berger e seus camaradas como reformistas avessos à revolução, cujos horizontes estratégicos não iam além do Estado de bem-estar social.
Pelo contrário, Berger era — e permaneceu — um marxista convicto que via a luta por reformas como um meio necessário não apenas para melhorar a vida dos trabalhadores, mas, acima de tudo, para fortalecer a consciência, a organização e o poder da classe trabalhadora rumo ao socialismo, nos Estados Unidos e em todo o mundo.
Foi assim que Berger articulou essa visão na edição de lançamento, em 1911, do Milwaukee Leader, seu novo jornal diário socialista em língua inglesa: "O traço distintivo dos socialistas é que eles compreendem a luta de classes" e que "visam ousadamente à revolução, pois desejam uma mudança radical em relação ao sistema atual". Sua resposta à pergunta “evolução ou revolução?” foi clara: “Optamos por ambas.”
Reagindo ao doutrinarismo e à marginalidade do SLP, Berger buscou conscientemente americanizar o socialismo científico. Escrevendo em 1893, Berger argumentou que os socialistas nos Estados Unidos “devem abandonar para sempre a imitação servil da forma ‘alemã’ de organização e dos métodos ‘alemães’ de campanha eleitoral e agitação”. O primeiro prefeito do SDP, o marceneiro Emil Seidel, recordou mais tarde que “Berger não acreditava que o movimento operário se desenvolveria segundo um padrão fixo e igual em todos os países. Esse movimento deveria, naturalmente, ser diferente nos Estados Unidos em comparação com qualquer outro país, pois todas as condições eram diferentes”. O ponto central, argumentava Berger, não era rejeitar o materialismo histórico, mas sim rejeitar o que ele chamava de “materialismo histérico”, o qual sugeria erroneamente que a intransigência revolucionária, por si só, bastava para promover a transformação socialista.
Como não era óbvio o que exatamente deveria ser feito nos Estados Unidos, esse ponto de partida estratégico favoreceu um grau útil de humildade política e curiosidade empírica. “Temos muito a aprender”, insistia Berger. A evolução do chamado “socialismo de eagoto é, fundamentalmente, a história desse processo de aprendizado, no qual os organizadores ajustavam iterativamente sua agitação e suas táticas à luz da experiência acumulada.
Tendo começado como um editorialista defensor do socialismo, Berger acabou percebendo que a propaganda socialista não encontraria ampla ressonância enquanto a maioria dos trabalhadores americanos permanecesse resignada com seu destino. Essa, explicou ele, era a falha fundamental na premissa do SLP de que a pregação paciente do socialismo acabaria por conquistar a maioria:
o obstáculo mais formidável ao progresso — e, em particular, à propaganda do socialismo — não é o fato de as pessoas não possuírem conhecimentos suficientes de economia política ou carecerem de inteligência. É que as pessoas não têm esperança... O desespero é o principal adversário do progresso. Nossa maior necessidade é a esperança.
Foi precisamente para superar o sentimento generalizado de resignação popular que os chamados "socialistas do esgoto" passaram a concentrar-se tanto na luta por reivindicações imediatas, tanto nos locais de trabalho quanto na esfera governamental. Visto que "a classe trabalhadora aprende na escola da experiência", lutas bem-sucedidas — mesmo em torno de questões relativamente menores — tendiam a elevar a confiança e as expectativas dos trabalhadores, bem como sua receptividade às ideias socialistas. Por isso, os socialistas precisavam avaliar com rigor o estado da consciência popular para escolher batalhas viáveis, capazes de repercutir amplamente entre as grandes massas de trabalhadores. Como afirmou a primeira edição do Vorwärts:
Ao formularmos nossas reivindicações, somos obrigados a levar muitos fatores em consideração. Àqueles que nos consideram moderados demais, respondemos que, se exigirmos tudo de uma só vez, é provável que não consigamos nada... Um jornal diário não deve perder de vista, nem por um instante, o sentimento real das massas.
Embora fosse importante continuar difundindo as grandes ideias do marxismo, o que os socialistas americanos precisavam, acima de tudo, eram "conquistas políticas concretas, não tratados teóricos... menos discurso e mais trabalho de campo".
Munidos dessa orientação, Berger e seus camaradas empenharam-se em conquistar uma maioria popular — começando pelos ativistas sindicais de Milwaukee.
Enraizando o socialismo nos sindicatos
Em nenhum outro lugar dos Estados Unidos os socialistas alcançaram tamanha hegemonia no movimento trabalhista quanto em Wisconsin. Quando Berger surgiu no cenário, Milwaukee já possuía uma rica tradição de militância no local de trabalho e de sindicalismo, exemplificada pela greve geral de 1886 em toda a cidade pela jornada de oito horas — ocasião em que seis pessoas foram mortas após a milícia estadual abrir fogo contra uma multidão de grevistas. No entanto, foi necessária mais de uma década de trabalho paciente junto às bases e às lideranças sindicais para obter o apoio delas ao SDP. Um aspecto crucial é que a corrente de Berger buscava transformar os sindicatos já estabelecidos, em vez de competir com eles criando novos sindicatos liderados por socialistas — prática adotada pelo SLP e, mais tarde, pelos "Wobblies". O pequeno, porém crescente, grupo de camaradas de Berger — formado praticamente em sua totalidade por trabalhadores braçais qualificados — reunia-se em seu escritório antes das assembleias sindicais para planejar seus argumentos e intervenções.
Esse foco em conquistar os trabalhadores sindicalizados para o socialismo — e o desafio contínuo de fazê-lo — foi um fator significativo que levou Berger e seus camaradas a priorizar reivindicações imediatas. Como observa o perspicaz historiador do SDP, Marvin Wachman: “Sem o apoio dos sindicatos, os socialistas eram líderes sem seguidores. Consequentemente, eles agiam com tato em suas relações com os sindicatos e enfatizavam, em suas plataformas, as questões imediatas que interessavam aos trabalhadores”.6
Anos de trabalho árduo nos sindicatos deram frutos. Em dezembro de 1899, o Federated Trades Council de Milwaukee elegeu um comitê executivo composto inteiramente por socialistas, incluindo Berger. Ao longo do quarto de século seguinte, a liderança do partido e dos sindicatos em nível estadual formou uma "diretoria interligada" de socialistas da classe trabalhadora atuantes em ambas as organizações.
Enquanto, de modo geral, o movimento sindical organizado em todos os Estados Unidos se recusava a construir uma voz política independente, Berger estava certo ao descrever Wisconsin como um estado que agora possuía “um movimento trabalhista de dois braços — um movimento trabalhista com um braço político e um braço econômico”. O SDP e os sindicatos tinham o cuidado de não ditar condutas uns aos outros. No entanto, dali em diante, a maioria dos sindicatos passou a apoiar apenas candidatos socialistas, e o Social Democratic Herald — um semanário editado por Berger a partir de 1901 — era financiado e oficialmente patrocinado pelo Federated Trades Council de Milwaukee e pela Wisconsin State Federation of Labor.
Um historiador dos sindicatos de Milwaukee destaca a “herança que os socialistas deixaram para o movimento trabalhista”: normas democráticas, apoio ao sindicalismo industrial, ausência de corrupção, incentivo à educação dos trabalhadores e uma forte atuação política.7 Por sua vez, o SDP colocava as questões trabalhistas sistematicamente no centro de sua atuação, incentivava todos os seus membros a se sindicalizarem, ajudava a liderar greves e boicotes, apoiava esforços para organizar trabalhadores não sindicalizados e — como veremos adiante — lutou com sucesso por uma legislação que facilitasse a sindicalização da classe trabalhadora. No que dizia respeito ao apoio aos sindicatos, não se deixava passar nenhum detalhe: em 1908, por exemplo, vereadores socialistas recusaram-se a participar de um desfile de inauguração de um novo auditório porque a banda que o liderava não era sindicalizada.
O SDP não teria alcançado grandes feitos sem a sua base sindical. E, justamente por terem conseguido transformar sindicatos estabelecidos da AFL por meio de uma estratégia de atuação interna — a tática de "minar por dentro" —, os líderes sindicais socialistas de Wisconsin travaram uma guerra implacável em duas frentes em nível nacional: de um lado, contra os esforços de sindicalismo revolucionário e de isolamento voluntário de socialistas de esquerda e dos Wobblies; de outro, contra a liderança de visão limitada da AFL, encabeçada por Samuel Gompers. "O momento de combater [Gompers] é sempre", escreveu Berger, "pois o movimento trabalhista americano permanecerá reacionário enquanto ele exercer qualquer influência."
Construindo o partido
Mesmo os inimigos do socialismo em Milwaukee acabaram por ter de tirar o chapéu à sua máquina política excepcional e bem organizada. A Milwaukee Free Press, por exemplo, escreveu em 1910 que “não haveria hoje vitórias social-democratas tão arrebatadoras em Milwaukee se esse partido não possuísse uma solidariedade de organização e propósito que é inigualável pela de qualquer outro partido no condado, ou, nesse caso, no estado”.
A construção dessa máquina exigiu anos de experimentação e aprimoramento sob a orientação de Edmund Melms, um operário afável. Wachman observa que “Melms insistia incansavelmente na organização interna do partido, semana após semana. Ele enfatizava as reuniões das seções locais, o pagamento de contribuições, a obtenção de assinaturas para o Herald, a organização nos distritos eleitorais, a realização de piqueniques, festas, etc.; e seu trabalho deu resultados. Suas tentativas de transformar cada membro do Partido Social-Democrata de Milwaukee em um militante ativo foram, em grande medida, bem-sucedidas”. Esse foco na organização, acompanhado pelo desenvolvimento de novas lideranças da classe trabalhadora, foi fundamental para ajudar os “socialistas do esgoto” a evitar a constante rotatividade e a perda de membros que minaram tantas outras seções do SPA.
Entre as inovações organizacionais de Melms, duas se destacam em particular. A primeira foi a "brigada dos pacotes" da cidade, que logo se tornaria famosa. Durante as campanhas eleitorais, nas manhãs de domingo, entre quinhentos e mil membros do partido retiravam o jornal eleitoral de quatro páginas da legenda às 6 da manhã e o entregavam em todas as casas e apartamentos da cidade até as 9 horas. "A primeira coisa que os habitantes de Milwaukee veem ao abrir a porta para pegar a garrafa de leite ou o jornal, aos domingos, durante as seis semanas que antecedem a eleição, é o Voice of the People", vangloriou-se um membro do SDP em 1911. Nenhum outro partido tentou algo tão ambicioso; faltava-lhes capacidade de voluntariado suficiente, não apenas para a entrega, mas também para identificar o idioma falado em cada residência. Os membros do SDP percorriam seus bairros com antecedência para determinar se a casa deveria receber material impresso em alemão, inglês ou polonês.
A segunda inovação de Melms foi a realização de um carnaval socialista todo inverno. Eram eventos grandiosos, com mais de dez mil participantes, que atraíam — e angariavam fundos de — membros da comunidade muito além das fileiras do SDP. Além desses carnavais anuais, o partido promovia todo tipo de evento social que ajudava a expandir e a fortalecer a coesão do movimento. Entre eles, havia piqueniques, desfiles, torneios de cartas, bailes de gala, festas, concertos, jogos de beisebol e basquete, peças de teatro e espetáculos de variedades. O prefeito Seidel recordava com carinho que, nos desfiles socialistas, "todos os que tinham um instrumento de sopro tocavam". Como disse um observador:
Nesses eventos sociais, os membros do partido podiam proporcionar às suas famílias — fossem elas favoráveis ou contrárias ao movimento — as amenidades de uma vida social normal, talvez como compensação pela negligência imposta pela dedicação a atividades partidárias mais sérias. Simpatizantes e amigos podiam ser convidados para tais ocasiões, sendo assim expostos aos prazeres e ao espírito de camaradagem, bem como à propaganda impressa no programa e incorporada às apresentações de líderes e candidatos do partido.
Embora a imprensa burguesa denunciasse constantemente o “Chefe Berger”, o partido de Milwaukee combinava a disciplina hierárquica de uma máquina política com práticas profundamente democráticas. Um comitê central, composto por membros eleitos pelas seções locais, deliberava e decidia sobre todas as questões importantes; suas decisões eram vinculantes para todos os membros e organizações partidárias, embora pudessem ser revertidas por meio de referendos entre os filiados. Os candidatos do SDP a cargos públicos também eram sempre escolhidos mediante referendos dos filiados, prática que também vigorou no SPA a partir de 1916.
Embora a construção de uma máquina política socialista tenha sido um processo relativamente autônomo e iterativo, a capacidade organizacional do partido não pode ser dissociada de sua ideologia política. Por exemplo, uma das diferenças mais significativas entre o SDP e a maioria das outras seções do SPA em âmbito nacional foi a ausência de grandes disputas entre facções em Wisconsin. Enquanto o faccionalismo frequentemente dificultava o recrutamento ou a retenção de trabalhadores em outras partes dos Estados Unidos, a coesão do SDP de Wisconsin refletia o forte foco dos membros em atividades voltadas para o exterior, bem como a confiança (e as responsabilidades) decorrentes das sucessivas vitórias eleitorais e da liderança sindical do partido. Como observou Berger: "O doutrinarismo e o dogmatismo levam a rupturas e à formação de seitas políticas. Mas, quando as pessoas estão constantemente absorvidas pela ação e pela preparação para empreendimentos ainda maiores, as mesquinhas invejas e os pequenos motivos de conflito e dissensão desaparecem". Berger também acreditava que uma das razões pelas quais o movimento de Wisconsin mantinha um grau tão elevado de unidade e propósito era o fato de contar com poucos membros oriundos da classe média, com sua propensão a debates excessivamente teóricos.
Enquanto o clientelismo e a corrupção lubrificavam as engrenagens de outras máquinas partidárias, os socialistas precisavam contar com o altruísmo nascido do compromisso político. Embora a maioria dos eleitores do SDP estivesse interessada principalmente em conquistar mudanças imediatas, outras motivações sustentavam a decisão de tantos homens, mulheres e crianças da classe trabalhadora de realizar tarefas ingratas, como levantar-se às 5h30 da manhã em domingos frios para distribuir literatura socialista. Sentimentos de camaradagem e solidariedade, reforçados pelos apelos dos líderes locais, eram um grande fator de atração. Mas também o era o objetivo inspirador do partido de construir um futuro socialista livre das inúmeras indignidades do capitalismo. Assim como tantos de seus camaradas, Berger acreditava nisso quando escreveu que "lutar pelo novo mundo" é a "missão sublime desta geração e, possivelmente, também da próxima".
O que manteve tantos membros motivados a dedicar seu tempo como voluntários foi a sensação de que mesmo tarefas e campanhas aparentemente modestas faziam parte de algo muito maior. As representações dos "socialistas do esgoto" como reformadores puramente pragmáticos deixam escapar essa essência fundamental do movimento.
Assim como as igrejas em seu melhor momento, o SDP proporcionou aos trabalhadores uma comunidade envolvente e um poderoso senso de propósito e significado. Nesse sentido, o historiador e participante Elmer Beck tem razão ao afirmar que “os sonhos, as visões e as profecias dos socialistas [de Milwaukee]... foram um fator extremamente vital na ascensão da onda socialista”.[8]
Mensagem e reivindicações
Com o objetivo de conquistar a maioria dos habitantes de Milwaukee e de Wisconsin para o socialismo, o SDP estava obcecado em difundir sua mensagem. Entre 1893 e 1939, o partido publicou doze jornais semanais, dois diários e uma revista mensal, além de inúmeros panfletos e folhetos — só a sua campanha eleitoral de 1912 produziu mais de seiscentas mil peças de material impresso. E, quando surgiam novas oportunidades de mídia, eles as aproveitavam. No início da década de 1930, os moradores de Milwaukee podiam ouvir o programa Socialist Quarter Hour todos os domingos ao meio-dia, apresentado por um encanador socialista e orador eloquente, Anthony King.
A consciência de classe era o ponto político central enfatizado em todas as atividades de agitação e publicações do partido. Isso levou David Rose — o prefeito democrata corrupto de Milwaukee, que governou de 1898 a 1906 e novamente de 1908 a 1910 — a reclamar que o SDP estava sempre "tagarelando sobre os direitos dos trabalhadores, sempre apelando em defesa do trabalhador oprimido".9 Rose não estava errado: praticamente tudo era apresentado como uma luta dos trabalhadores contra os capitalistas.
Associado a essa análise de classe, havia um foco incessante nas necessidades materiais dos trabalhadores. Por exemplo, um dos panfletos mais impactantes do SDP em 1910 era dirigido às mulheres da classe trabalhadora: "Senhora — como a senhora pagará suas contas?". O programa do partido de 1898 incluía reivindicações relacionadas à redução das tarifas de água para os consumidores, à oferta de trabalho para os desempregados, à ampliação da assistência médica gratuita e à tributação de grandes empresas para custear esses serviços. Quando Oscar Ameringer — o dinâmico líder socialista teuto-americano de Oklahoma — escreveu sobre as lições que seu estado poderia aprender com Milwaukee, um dos pontos-chave que ele destacou foi que o SDP sempre "colocava as questões básicas de subsistência em primeiro plano".
Uma das limitações inevitáveis de qualquer reivindicação modesta era que políticos oportunistas de outros partidos podiam — e periodicamente o faziam — tentar roubar o protagonismo dos socialistas ao incorporar pautas semelhantes às suas campanhas. Um socialista brincou dizendo que os republicanos do estado "tinham roubado toda a madeira e as áreas florestais do estado e agora haviam descido ao nível do furto de pequena monta, roubando tábuas do programa social-democrata". Embora essa absorção oportunista de políticas por vezes dificultasse para o SDP diferenciar-se de seus rivais, ela acabou sendo um mecanismo de avanço programático — e os socialistas não deixavam de lembrar ao público quem havia concebido essas ideias originalmente.
O SDP também se diferenciava ao defender métodos baseados na luta de classes para conquistar suas reivindicações e ao pregar abertamente o fim do capitalismo. Em 1902, Berger criticou o novo governador republicano progressista, Robert M. La Follette, classificando-o simplesmente como um "reformador superficial". Além disso, o SDP propôs uma série de reformas radicais mais amplas que outros partidos evitavam abordar, como a democratização do sistema político dos EUA em âmbito nacional. Visto que a estrutura política americana apresentava inúmeros pontos de veto que favoreciam minorias, Berger defendia a abolição do Senado, o fim dos poderes da Suprema Corte sobre a legislação, a concessão ao Congresso da prerrogativa de convocar uma convenção constitucional e a extinção do exército permanente em favor do armamento da população. E, enquanto Democratas e Republicanos tendiam, no máximo, a prometer a regulamentação de setores industriais, os "socialistas do esgoto" de Wisconsin lutavam pela propriedade pública de recursos, indústrias e serviços.
A corrupção era outro importante fator de diferenciação. Milwaukee, assim como outras cidades americanas da virada do século, estava profundamente mergulhada em esquemas de corrupção. Escândalo após escândalo minava a confiança da população nos políticos locais, tanto republicanos quanto democratas. Os socialistas não estavam manchados por essa corrupção e articulavam uma visão clara de como acabar com ela. Como o partido declarou em 1902:
a raiz da corrupção nos assuntos municipais reside, geralmente, no fato de que alguns vereadores ou autoridades têm o poder de conceder ou vender concessões de serviços públicos a capitalistas, que, com isso, lucram milhões. A tentação a que nossos funcionários públicos são assim expostos — a de tentar garantir uma fatia desses milhões distribuídos — é grande demais para que o cidadão comum a resista. Se a cidade administrasse seus próprios serviços públicos, o motivo e a oportunidade para o suborno deixariam de existir.
Evolução eleitoral
Embora o SDP sempre tenha dado mais ênfase a demandas imediatas do que seus rivais de extrema-esquerda, o partido também passou por uma mudança de foco entre sua primeira disputa eleitoral, em 1898, e seu grande avanço, em 1910. No início, quando o partido ainda obtinha parcelas muito pequenas dos votos, não priorizava vencer as eleições; considerava-se vitorioso desde que conseguisse atrair mais trabalhadores para o socialismo e obter mais votos do que na disputa anterior.
Essa abordagem mudou parcialmente depois que o SDP constatou, na prática, que conquistar cargos públicos poderia impulsionar significativamente sua mensagem, seu quadro de filiados e sua legitimidade. Suas primeiras vitórias eleitorais ocorreram em 1904, quando elegeu nove vereadores para a Câmara Municipal de Milwaukee e seis membros para a legislatura estadual. Embora os eleitos pelo SDP constituíssem uma minoria reduzida, eles aproveitaram ao máximo a visibilidade e a tribuna que o cargo lhes proporcionava — por exemplo, ao apresentar a primeira lei estadual de indenização trabalhista por acidentes. Essa luta facilitou demonstrar aos trabalhadores quem estava realmente ao lado deles, mesmo que o projeto de lei dos socialistas tenha sido derrotado todos os anos até ser finalmente aprovado em 1911, tornando-se a primeira lei do gênero nos Estados Unidos.
O SDP passou gradualmente a enfatizar a disputa eleitoral com o objetivo de vencer. Berger explicava que as convicções socialistas do partido permaneceriam inalteradas, "independentemente de vencermos ou perdermos as eleições. No entanto... prefiro lutar e vencer". As demandas imediatas também se tornaram cada vez mais concretas; por exemplo, a plataforma de 1910 incluía exigências para que a prefeitura realizasse, a preço de custo, a instalação de encanamento e rede de esgoto em todas as residências, e para que a cidade parasse de despejar esgoto no Lago Michigan. Como a legislação estadual de Wisconsin impedia as cidades de municipalizar suas linhas de bonde e outros serviços públicos, o SDP decidiu ajustar sua oposição anterior — que era irrestrita — à concessão de direitos de exploração (franquias) a empresas privadas de serviços públicos. Em vez disso, passou a exigir que tais concessões só fossem aceitas se as empresas concordassem com uma série de cláusulas favoráveis aos trabalhadores e aos consumidores. Paralelamente, os "socialistas do esgoto" intensificaram a luta pela concessão de autonomia administrativa ("home rule") às cidades, permitindo assim que Milwaukee municipalizasse seus serviços públicos. Embora o SDP continuasse a fazer propaganda do socialismo e a propor reformas ambiciosas — ainda inviáveis de serem conquistadas no curto prazo —, as reivindicações imediatas passaram a ocupar um lugar cada vez mais central nas campanhas eleitorais. Na esperança de alcançar um público mais amplo, o partido começou a apresentar seus objetivos de curto e longo prazo de maneira mais consistente, buscando torná-los o mais acessíveis e menos ameaçadores possível.
Pela primeira vez, a campanha de 1910 do SDP para a prefeitura concentrou-se não apenas nos princípios e reivindicações do partido, mas também no argumento de que Seidel — que havia demonstrado seu valor para a cidade como vereador desde 1904 — era "o homem mais capaz para o cargo e que republicanos e democratas deveriam votar nele com base nisso". Da mesma forma, foi em parte graças às suas realizações práticas no combate a empresas privadas de serviços públicos, enquanto atuava como promotor distrital, que Daniel Hoan — ex-lavador de pratos e açougueiro — foi eleito prefeito em 1916. A partir de 1910, as campanhas eleitorais do SDP enfatizaram consistentemente as conquistas concretas que haviam proporcionado à cidade.
Visando vencer eleições estaduais e para o Congresso em Wisconsin, Berger também lutou para que o SPA incorporasse uma plataforma voltada aos agricultores. Sua tentativa, em 1899, de convencer o SPA a adotar tal proposta foi amplamente derrotada, uma vez que outras correntes — especialmente a ala esquerda do partido — defendiam a posição ortodoxa de que tal medida obscureceria as divisões de classe.
Em 1908, Berger retomou sua iniciativa pouco ortodoxa. Finalmente, em 1912, o partido adotou uma plataforma voltada aos agricultores. Em Wisconsin, o partido empreendeu esforços significativos para expandir sua atuação para as áreas rurais — inclusive contratando Ameringer, um organizador excepcional, para liderar essa iniciativa de aproximação. Apesar disso, o SDP permaneceu, em grande medida, um partido essencialmente urbano.
Bem mais bem-sucedidos, com o tempo, foram os esforços do SDP para conquistar os trabalhadores poloneses, o único segmento da classe trabalhadora de Milwaukee que ainda resistia à adesão ao partido. Influenciados por seus padres e vistos com desdém por alguns sindicalistas alemães — devido ao fato de serem frequentemente utilizados como fura-greves —, os trabalhadores poloneses pareciam, durante anos, destinados a permanecer à margem do movimento. No entanto, a partir de 1905, os sindicatos e o partido começaram a organizar os trabalhadores poloneses não qualificados. Além disso, socialistas que integravam o conselho escolar travaram uma batalha pública para permitir o ensino da língua polonesa nas escolas. Em 1909, o SDP começou a publicar um jornal em língua polonesa, e uma nova geração de jovens socialistas poloneses tomou a iniciativa de convencer os mais velhos a votar nos socialistas.
No final das contas, foram os enormes ganhos do partido entre os trabalhadores poloneses — e não os seus apelos a setores da classe média — que lhe permitiram obter uma vitória avassaladora nas eleições municipais de Milwaukee em 1910 e eleger Berger para o Congresso no mesmo ano. Como aponta um estudo: “Os socialistas dependiam quase totalmente da classe trabalhadora, tanto qualificada quanto não qualificada, para o seu sucesso eleitoral”.10 Os únicos distritos eleitorais que não lhes deram vitória foram os mais ricos e os mais pobres. O secretário do prefeito Seidel observou: “Nunca vencemos em um distrito rico, nem elegemos ninguém na zona de cortiços da cidade”.
A “onda social-democrata” de 1910 em Milwaukee — como a descreveu o New York Times — entusiasmou trabalhadores e socialistas em todo o país, inspirou inúmeras iniciativas eleitorais socialistas que buscavam replicar esse modelo e contribuiu para o grande aumento no número de filiados do SPA, passando de cerca de 58.000 em 1910 para aproximadamente 113.000 em 1912.
Oportunismo?
Nem todos os socialistas viam com bons olhos a ascensão do "socialismo de esgoto". Pregando a "sentença de morte do trabalhismo de fachada", o jornal dos Wobblies sugeriu, em 1911, que Berger e seus camaradas eram "pseudossocialistas" interessados apenas em "consolidar seu prestígio político". E, no órgão oficial do SLP, o antigo adversário de Berger, De Leon, insistia que o chamado socialismo de Milwaukee era, na verdade, "a mesma velha conversa fiada reformista burguesa, apenas vestida com a roupagem do socialismo".
Vale a pena levar essas críticas a sério, especialmente porque tantos socialistas ao redor do mundo acabaram abandonando o compromisso com a luta de classes e a revolução socialista em nome da viabilidade eleitoral. Teriam os socialistas de Milwaukee sido absorvidos pelo sistema? Ou teria Berger razão ao argumentar que as divergências com seus críticos radicais giravam em torno de táticas, e não de princípios?
De modo geral, as evidências corroboram a posição de Berger. Visto que todos compreendiam ser impossível estabelecer uma ilha municipal de socialismo em meio a um oceano de capitalismo, os debates sobre reforma versus revolução careciam de significado prático imediato. Em âmbito local e num período não revolucionário, qual teria sido o benefício político de priorizar apelos à revolução em detrimento de demandas imediatas durante a campanha eleitoral do SDP? Os críticos de esquerda consideravam tal postura essencial para orientar os trabalhadores rumo à sua missão histórica de eliminar o capitalismo. Contudo, mesmo sob esse critério unilateral de avaliação das táticas socialistas, não há muitas provas de que uma abordagem supostamente mais revolucionária fosse mais eficaz em conquistar trabalhadores para o objetivo final do socialismo.
Embora as plataformas eleitorais do SDP se concentrassem em demandas imediatas, o partido mantinha-se consistentemente empenhado em ampliar os limites das reformas transformadoras e em atrair indivíduos para as ideias marxistas. Os socialistas de Milwaukee acreditavam que concorrer para vencer — e lutar seriamente pela aprovação de mudanças políticas uma vez no poder — permitia recrutar um número maior, e não menor, de trabalhadores para o socialismo científico. E os dados comparativos sobre a filiação partidária confirmam essa hipótese.
Não apenas o SLP de De Leon permaneceu marginal em Milwaukee e além, como também a ala esquerda do SPA recrutou menos trabalhadores para o socialismo do que seus rivais relativamente moderados. Nenhuma cidade de grande porte no país apresentava algo próximo à proporção de cerca de um socialista para cada cem habitantes que Milwaukee já havia alcançado em 1912. A seção local de Cleveland — um reduto da ala de extrema-esquerda do SPA a partir de 1912 — contava com apenas um socialista para cada quinhentos habitantes em meados de 1917. Comparações internas às cidades confirmam o mesmo padrão: em Nova York, apenas a ala direita do SPA conseguiu construir uma base sólida junto à classe trabalhadora. De fato, o marxismo pragmático e a base sindical de massa do socialismo dos imigrantes judeus assemelhavam-se muito ao modelo de Milwaukee.11
O fato de a corrente de Berger situar-se na ala direita do socialismo americano diz mais a respeito do SPA do que de sua seção em Wisconsin. O historiador britânico Henry Pelling observa que o traço distintivo do SPA, em comparação com os partidos socialistas de outros países, era o fato de ser, "em grande medida, mais dogmaticamente marxista e, ao mesmo tempo, menos vinculado a um apoio generalizado da classe trabalhadora".12
A dificuldade do socialismo em criar raízes na América não foi nem efêmera nem acidental. Pelo contrário, foi produto de fatores estruturais profundos, como a ausência de uma herança feudal, a concessão precoce de sufrágio universal masculino para brancos, o legado da escravidão e da supremacia branca, as divisões étnico-religiosas generalizadas, a oposição patronal excepcionalmente intensa ao sindicalismo e um sistema partidário particularmente desafiador. Essa herança não apenas dificultou a expansão de terceiros partidos para além do âmbito local, mas também tornou a opinião pública relativamente moderada e pragmática, em comparação com países como a Alemanha imperial ou a Rússia czarista. E, como os socialistas americanos tiveram poucas oportunidades de vivenciar a influência moderadora de uma liderança sindical contínua ou do exercício de cargos eletivos — situações que exigem avaliações realistas da consciência popular —, o socialismo americano tornou-se excepcionalmente propenso a um sectarismo político que o marginalizava ainda mais.13
O SDP de Milwaukee percebeu, mais cedo e com mais firmeza do que a maioria de seus camaradas nos Estados Unidos, que o crescimento do socialismo no país dependia, em grande medida, de proporcionar melhorias concretas por meio da liderança de sindicatos de massa e da condução de campanhas eleitorais viáveis. Isso exigia que os radicais lutassem por demandas imediatas e realizassem campanhas que ressoassem com a maioria dos trabalhadores tal como eles eram, e não como os socialistas gostariam que fossem num futuro distante.
Em suma, as táticas cada vez mais moderadas dos socialistas de Milwaukee foram impostas mais pelas circunstâncias do que pela ideologia. Um estudo perspicaz de 1911 sobre o socialismo americano, realizado pela Universidade de Chicago, observou que "parece haver uma lei definida de desenvolvimento do Socialismo que se aplica tanto ao indivíduo quanto ao grupo. A lei é esta: o caráter doutrinário e a falta de moderação do Socialismo, mantidas as demais condições, variam na razão inversa de sua idade e responsabilidade".[14]
Era uma tarefa desafiadora — que exigia constantes apostas e ajustes — atrair a massa de trabalhadores para o socialismo sem comprometer esse processo ao avançar precipitadamente. "Nunca oscile para a direita nem longe demais para a esquerda", aconselhava Hoan, prefeito pelo partido entre 1916 e 1940. No entanto, transformar esse axioma em prática política era mais fácil falar do que fazer. Visto que a base do partido nutria visões políticas e motivações distintas das do público em geral, era frequentemente necessário adotar abordagens diferentes para públicos diferentes. E esse dilema tornou-se ainda mais acentuado quando o partido assumiu o governo.
Governar Milwaukee com sucesso
Qualquer avaliação equilibrada das administrações socialistas de Milwaukee precisa situar seus sucessos e limitações no contexto das circunstâncias políticas relativamente adversas em que foram obrigadas a atuar. O SDP não dispunha de maioria na Câmara Municipal na quase totalidade dos anos, o que impediu a aprovação de muitas de suas propostas políticas. Além disso, Milwaukee não contava com autonomia administrativa — o direito de uma cidade de implementar uma ampla gama de políticas sem a aprovação do estado — até 1924, o que tornava ilegal, inicialmente, a execução de grande parte da agenda proposta pelo partido. E, já em meados da década de 1920, o entusiasmo da opinião pública por reformas ambiciosas havia diminuído consideravelmente.
Como era de se esperar, o establishment político e os jornais burgueses recorreram a todo tipo de manobra para minar e restringir as administrações socialistas. Parte disso manifestou-se por meio de uma intensa campanha de alarmismo. Além da ladainha constante de que as políticas socialistas arruinariam a cidade ao forçar a fuga das empresas, o principal adversário do SDP na disputa pela prefeitura durante a eleição de 1918 — realizada em meio à guerra — sugeriu que, caso os socialistas vencessem, o governo federal reagiria impondo a lei marcial na cidade.
A obstrução também se manifestou na esfera jurídica. Parte da dificuldade em formar uma maioria na câmara municipal deveu-se ao fato de que, diante da crescente ameaça socialista, o estado de Wisconsin impôs, em 1908, uma nova lei exigindo que as eleições para as câmaras municipais fossem apartidárias — o que minava o voto partidário em bloco para o SDP — e realizadas em âmbito municipal (com voto em toda a cidade), em vez de por distritos. Para evitar a fragmentação do voto antissocialista em disputas a três pela prefeitura, o legislativo de Wisconsin decretou, em 1914, que todas as eleições para prefeito passariam a exigir uma eleição primária aberta e apartidária, seguida de um segundo turno entre os dois candidatos mais votados. Minando ainda mais a ameaça socialista, o legislativo estadual reduziu, em 1911, o controle do prefeito sobre vários departamentos municipais — incluindo a polícia, cujo chefe hostilizou abertamente as administrações socialistas durante muitos anos. Da mesma forma, o comissário de impostos da cidade, que não era socialista, sabotou a administração Seidel às vésperas da eleição de 1912 ao promover uma reavaliação impopular de imóveis residenciais, fazendo com que os trabalhadores pagassem mais impostos e os ricos, menos. Eleitores pouco informados culparam a própria administração, abrindo caminho para a derrota do prefeito Seidel naquele ano.
Diante de todos os obstáculos enfrentados pela administração do "socialismo de esgoto", é notável o quanto eles ainda conseguiram realizar. Aqui estão alguns dos destaques.
Sob a gestão do SDP, Milwaukee melhorou drasticamente as condições de saúde e segurança de seus cidadãos, tanto no ambiente de trabalho quanto na vida cotidiana. Por meio de novas regulamentações e inspeções, as taxas de doenças contagiosas, como varíola e escarlatina, foram reduzidas drasticamente. A mortalidade infantil despencou à medida que a cidade passou a oferecer assistência pré-natal e materna, visitas de enfermeiros, vacinação e serviços médicos básicos. E, pela primeira vez, inspetores de saúde passaram a atuar dentro das fábricas para avaliar as condições e exigir reformas.
Milwaukee criou a primeira cooperativa habitacional pública para população de baixa renda do país e foi pioneira no planejamento urbano por meio de códigos de zoneamento abrangentes. Os prefeitos socialistas ampliaram a infraestrutura urbana, especialmente com a modernização do porto. E, embora o SDP não tenha avançado tanto quanto desejava no sentido de acabar com contratos privados para todos os serviços públicos, conseguiu construir uma usina de energia municipal e estatizar a pedreira, a iluminação pública, o sistema de esgoto e o tratamento de água. Outro grande destaque do "socialismo do saneamento" foi a expansão significativa de parques e áreas de lazer, bem como a criação de mais de quarenta centros sociais pela cidade. A cidade utilizou a infraestrutura escolar para instalar esses centros, que ofereciam bilhar para adolescentes, aulas educativas e eventos públicos para adultos, além de esportes, jogos e entretenimento
para todos.
Os prefeitos socialistas de Milwaukee cumpriram rigorosamente suas promessas de acabar com a corrupção na prefeitura. Uma gestão íntegra era uma das marcas registradas das novas administrações, razão pela qual amplas camadas do eleitorado votavam com tanta frequência nos prefeitos do SDP. Não se contentando apenas em eliminar a corrupção, as administrações socialistas também fizeram todo o possível para garantir que a cidade fosse melhor gerida e mais eficiente. Hoan explicou a lógica ideológica e anticapitalista por trás
da rejeição ao clientelismo na contratação e da adesão estrita a um sistema de mérito: Ao fazer nossas escolhas, vasculhamos toda a cidade — e o país, se necessário — para encontrar o profissional mais experiente para a função, independentemente de ser socialista ou não, desde que fosse honesto e não tivesse atuado politicamente contra os socialistas. Essa política é absolutamente necessária para se obter êxito. É preciso demonstrar aos trabalhadores e aos cidadãos que a administração municipal é um empregador tão bom quanto — ou até melhor do que — a iniciativa privada, caso se queira avançar na tarefa de convencê-los de que o município é um gestor de serviços públicos e indústrias superior às empresas privadas.
Com o objetivo de aumentar a eficiência da cidade, a administração Seidel criou imediatamente um Departamento de Economia e Eficiência — o primeiro do país. O órgão recorreu aos maiores especialistas do estado, liderados por John Commons — pesquisador da área trabalhista da Universidade de Wisconsin-Madison —, e implementou rapidamente suas propostas, destacando-se a implantação de um sistema abrangente de contabilidade de custos em todos os departamentos municipais.
Esses esforços trouxeram resultados positivos, tanto no âmbito fiscal quanto no político. O aumento da confiança da população nas iniciativas governamentais acabou permitindo que Hoan ampliasse os limites do que era considerado aceitável em termos de intervenção municipal no livre mercado. Tanto antes quanto depois da Primeira Guerra Mundial, Hoan — sem a aprovação da Câmara Municipal — comprou do Exército dos EUA grandes quantidades (transportadas em vagões ferroviários) de alimentos e roupas excedentes e os vendeu ao público, em repartições municipais, a preços muito abaixo dos praticados no mercado. O projeto tinha um escopo ambicioso: somente em janeiro de 1920, Hoan adquiriu 72.000 latas de ervilhas, 33.600 latas de feijão cozido, 100.000 libras de sal e 20.000 pares de luvas de tricô e meias de lã, entre outros itens.
Essa iniciativa foi tão eficaz quanto controversa. Hoan celebrou o sucesso do projeto: “A venda de alimentos realizada por mim ofereceu uma oportunidade de demonstrar a teoria socialista de gestão de negócios. Ela deveria demonstrar, de uma vez por todas, que a teoria socialista de conduzir muitos de nossos empreendimentos sem fins lucrativos pode ser posta em prática de maneira grandiosa e benéfica se for gerida por aqueles que acreditam no seu sucesso.”15 Motivada por essa experiência, a prefeitura criou uma ambiciosa cozinha comunitária e refeitório públicos durante a Grande Depressão. No auge do programa, em 1934, a cidade fornecia alimentos a uma em cada cinco pessoas em Milwaukee.
A oferta excepcional de lazer, serviços e assistência material pela cidade foi, segundo Hoan, o motivo de ela apresentar uma das taxas de criminalidade mais baixas entre as grandes cidades do país. Em seu fascinante livro de 1936, City Government: The Record of the Milwaukee Experiment, Hoan escreve que, em “Milwaukee, sustentamos que a prevenção do crime [ao atacar suas raízes sociais] é tão importante quanto — se não mais, caso uma comparação seja possível — a detecção e a punição do crime”.
Isso não significava que a cidade cogitasse cortar verbas da polícia. Na verdade, Hoan defendia melhores salários e condições de trabalho para os policiais, numa tentativa relativamente bem-sucedida de afastar a base da corporação de seu chefe reacionário, John Janssen. Ao mesmo tempo, porém, prefeitos socialistas vetavam, ano após ano, tentativas de criar uma unidade de polícia montada, temendo que ela fosse utilizada
para reprimir trabalhadores em greve. Tanto Seidel quanto Hoan estavam profundamente empenhados em impedir que a polícia interviesse em greves trabalhistas.
Como procurador municipal durante a gestão de Seidel, Hoan recusou-se, em 1911, a processar grevistas detidos durante uma greve combativa no setor de vestuário. Por sua vez, o prefeito Seidel ameaçou nomear os grevistas como policiais auxiliares caso o chefe de polícia tentasse intimidá-los.
Essa postura em relação à polícia era apenas uma faceta do apoio da prefeitura ao movimento trabalhista. Mão de obra sindicalizada era utilizada em todos os projetos municipais de construção e impressão. Com o apoio da prefeitura, uma onda de sindicalização varreu as categorias de bombeiros, garis, carregadores de carvão e operadores de elevador da cidade, entre outras. A administração municipal chegou a utilizar seu contrato com uma empresa privada de pavimentação de ruas para forçá-la a aceitar a sindicalização de seus trabalhadores tanto em Milwaukee quanto em Chicago, a cidade-sede da empresa. Paralelamente, o SDP aprovou uma série de leis favoráveis aos sindicatos e à organização trabalhista na legislatura estadual, e Berger usou sua tribuna no Congresso para apoiar greves de grande repercussão — destacando-se, sobretudo, a projeção nacional que deu à greve dos trabalhadores têxteis de 1912, conhecida como "Pão e Rosas" (Bread and Roses), liderada pelos "Wobblies" em Lawrence, Massachusetts.
Antes da Primeira Guerra Mundial, o SDP era composto quase exclusivamente por trabalhadores brancos, e Berger defendia, de forma notória, a supremacia branca. No entanto, como já escrevi detalhadamente em outra ocasião, após 1917 ele e seus camaradas tornaram-se combatentes excepcionalmente dedicados contra a injustiça racial e o nativismo. Por sua vez, os eleitores negros votaram majoritariamente nos socialistas, e militantes negros radicais — incluindo membros da seção local do movimento de Garvey — filiaram-se ao partido.16
Nessa e em muitas outras questões, os trabalhadores de Milwaukee demonstravam — para os padrões americanos — uma consciência, uma solidariedade e um orgulho de classe excepcionalmente difundidos. Visto que a ampla gama de melhorias progressistas na cidade era encarada como conquistas vindas da base, e não como concessões vindas do alto, um membro do partido observou em 1911 que muitos trabalhadores sentiam orgulho, tanto pessoal quanto coletivo, dessas realizações: "Essa é, de fato, a grande contribuição que a eleição dos socialistas para o governo da cidade e do condado trouxe aos trabalhadores — ou melhor, que os trabalhadores conquistaram para si mesmos."
Compromissos e alianças
Os avanços socialistas em Wisconsin não ocorreram facilmente. Foram conquistados por meio de lutas sucessivas, nas quais membros e líderes do SDP precisaram avaliar quais alianças e compromissos eram necessários ou evitáveis. Visto que a correlação de forças de classe, expressa nos blocos legislativos, normalmente impedia os socialistas de obter tudo o que desejavam, tratava-se sempre de um terreno pantanoso e frustrante de concessões mútuas. Com essa experiência, aprenderam que não existem fórmulas atemporais para partidos políticos da classe trabalhadora. Uma política de massas eficaz depende sempre do contexto específico.
Um dilema recorrente dizia respeito a compromissos envolvendo propostas legislativas. Se os socialistas de Wisconsin se recusassem, por princípio, a apoiar versões atenuadas de seus projetos de lei, os eleitores poderiam tirá-los do cargo por não entregarem resultados. Por outro lado, se os eleitos pelo SDP cedessem sempre que as forças do establishment pressionassem por um acordo, corriam o risco de desmoralizar a base do partido e, ao mesmo tempo, minar sua capacidade de negociação em batalhas futuras.
Obrigado a avaliar possíveis compromissos caso a caso, o partido frequentemente mantinha sua posição firme. Por exemplo, quando a empresa privada de iluminação pública — então sob forte pressão — propôs, em 1916, reduzir em 1,4 milhão de dólares os custos para a cidade ao longo dos vinte anos seguintes, os "socialistas do esgoto" de Milwaukee mantiveram sua defesa da municipalização do serviço.
No entanto, os legisladores do SDP também aceitavam compromissos de forma pragmática quando não dispunham de votos ou poder para algo melhor. Ao colaborar com os republicanos progressistas liderados pelo governador Philip La Follette, conseguiram, em 1932, ajudar a aprovar o primeiro projeto de lei de seguro-desemprego do país. Embora a medida ficasse aquém da versão mais ambiciosa pela qual os socialistas lutavam desde 1921, declararam que o compromisso "pode, apesar de suas fragilidades, ser apontado como um marco inovador no campo legislativo e como mais uma conquista pioneira dos trabalhadores em Wisconsin... [Ele] constitui a base para uma futura legislação abrangente".
Um dilema correlato era como se diferenciar dos partidos tradicionais — e combatê-los — ao mesmo tempo em que era necessário trabalhar com eles para aprovar políticas progressistas. Hoan, por exemplo, não podia se dar ao luxo de antagonizar todos os outros políticos da Câmara Municipal, uma vez que precisava de alguns de seus votos para realizar qualquer coisa. Essa dinâmica era ainda mais acentuada em nível estadual, visto que os socialistas sempre constituíam uma pequena minoria na legislatura do estado. E, ao contrário do que ocorria no Congresso — onde Berger concentrava esforços em promover o socialismo e apresentar propostas ambiciosas sem chance de sucesso imediato —, o SDP precisava de aliados em nível estadual para aprovar a legislação pró-sindicatos exigida por sua base sindical. Além disso, precisavam que a legislatura aprovasse a autonomia municipal para que pudessem implementar com êxito sua agenda em Milwaukee.
Até a década de 1920, o equilíbrio do partido entre independência política e alianças pendia quase inteiramente para o primeiro aspecto. Embora houvesse certa divisão de tarefas — já que Hoan era obrigado a colaborar com políticos e administradores de diferentes espectros partidários —, a recusa do SDP em apoiar candidatos de outros partidos — ou em deixar de lançar candidaturas contra aliados progressistas — ajudou a consolidar sua estrutura partidária independente e sua identidade política.
Essa rigidez, no entanto, acabou se mostrando um ponto fraco quando Berger e seus camaradas reagiram com frieza à iniciativa, em 1919–20, da radical e rural Nonpartisan League (NPL) de construir uma aliança eleitoral entre trabalhadores e agricultores em Wisconsin. Esse fracasso político decorreu principalmente da expectativa do SDP de se tornar diretamente o partido majoritário em todo o estado ao conquistar os agricultores. Além disso, o SDP desconfiava da disposição da NPL em lançar campanhas insurgentes nas primárias utilizando as legendas dos partidos tradicionais. A NPL, na Dakota do Norte, havia empregado essa tática para assumir o controle do Partido Republicano em nível estadual e vencer as eleições para governador em 1916, 1918 e 1920. Em Minnesota, a NPL e sindicatos aliados utilizaram a mesma estratégia por alguns anos para preparar o terreno para um novo e independente Farmer-Labor Party, que viria a governar o estado na década de 1930. O desfecho foi diferente em Wisconsin, onde, rejeitado pelos socialistas de Milwaukee, o movimento militante de agricultores do estado acabou se abrigando, após 1921, na ala progressista do Partido Republicano.17
Em nível nacional, Berger e seus aliados no SPA também desperdiçaram uma oportunidade propícia para apoiar os movimentos incipientes de criação de partidos trabalhistas que surgiram por todos os Estados Unidos após 1918. Nos primeiros anos dessa insurgência eleitoral, lideranças nacionais importantes do SPA, como Berger, mantiveram uma postura de distanciamento em relação ao movimento trabalhista partidário, pois há muito previam que a radicalização eleitoral dos trabalhadores seria canalizada diretamente para o seu próprio partido. Seções do Partido Socialista em Chicago, Ohio e outras regiões foram ainda mais longe em 1919–20, opondo-se ativamente às iniciativas locais de criação de partidos trabalhistas — assim como fez o movimento comunista nascente. Forçados a escolher entre o SPA e os esforços sindicais para construir um novo partido de massas, muitos dos camaradas de longa data de Berger, fora de Wisconsin, optaram pela segunda alternativa.
Berger acabou percebendo que a estratégia do SDP para conquistar os agricultores de Wisconsin não daria certo. Tampouco o SPA, fora de Wisconsin, tinha dimensão suficiente para absorver tamanha energia voltada para uma terceira via partidária. Com certo atraso, ele pressionou por um ajuste nas táticas do partido, orientando-as para uma postura mais favorável a alianças. A partir de 1922, Berger convenceu o partido em nível nacional a finalmente apoiar de forma ativa os esforços para criar um partido de base ampla para os trabalhadores em todo o país. Em Wisconsin, ele surpreendeu alguns quadros do SDP em 1922 ao defender que o partido não lançasse candidato ao Senado dos EUA, uma vez que isso poderia comprometer as chances eleitorais de Robert La Follette. Em resposta a intensas divergências internas no SDP, Berger argumentou que "não se trata de uma questão de princípios, mas de tática. Até pouco tempo atrás, o Partido Socialista da América era o único que proibia a medida que estamos considerando".
A nova abordagem do SDP mostrou-se bem-sucedida em Wisconsin durante a década de 1920. Conforme demonstrado no excelente trabalho do historiador Joshua Kluever sobre a legislatura estadual, a maior flexibilidade do SDP permitiu que o partido fosse consideravelmente mais eficaz na aprovação de leis estaduais ao longo da década, apesar da redução de sua própria bancada legislativa.
Com os socialistas atuando, na prática, como parceiros minoritários dos Progressistas de La Follette na legislatura, o SDP conseguiu — em um período que, de outra forma, teria sido desafiador — continuar proporcionando melhorias concretas à sua base, transformando Wisconsin em um bastião de políticas progressistas que apontava o caminho a seguir para o país como um todo. Além disso, o SDP continuou tentando elevar as expectativas dos trabalhadores ao defender reformas transformadoras que dificilmente seriam aprovadas em curto prazo. Kluever observa que a bancada legislativa do SDP acabou aprovando 525 de seus 1.904 projetos de lei propostos, uma taxa de sucesso de aproximadamente 28%.[18]
Dentro e fora do Estado
Outro dilema central enfrentado pelos "socialistas do esgoto" era como combinar a governança de esquerda com a pressão de movimentos externos. Uma das principais diferenças entre os socialistas e até mesmo os melhores progressistas era que estes últimos não deviam satisfações a organizações políticas baseadas na filiação de membros, como o SDP e os sindicatos.
A máquina política de base do SDP, combinada com sua influência sobre o movimento sindical organizado, conferia ao partido grande parte de sua força para aprovar legislação e moldar a opinião pública. De fato, em City Government, Hoan ressaltou que, se outras cidades quisessem emular o sucesso de Milwaukee, eleger "homens honestos e competentes" não bastava: "É preciso formar um partido político permanente para oferecer incentivo e assistência ativa ao chefe do Executivo e à sua administração, bem como para garantir que os sucessores deem continuidade às políticas desejadas."
Uma das principais razões pelas quais alguns democratas e republicanos de Wisconsin ocasionalmente chegavam a acordos com os socialistas no Legislativo e na Câmara Municipal era o receio de que, caso não o fizessem, o SDP e os sindicatos convencessem seus eleitores a tirá-los do cargo na eleição seguinte. Essa abordagem tornou-se cada vez mais urgente depois que o partido perdeu seu controle — de curta duração — sobre a Câmara Municipal. Diante da falta de maioria de Hoan, o historiador Todd Fulda observa que o prefeito adotou "uma abordagem populista de governo, apelando diretamente aos cidadãos de Milwaukee para que apoiassem suas reformas e pressionassem os vereadores apartidários a apoiá-las também"19. A mesma lógica orientou a atuação do partido em nível estadual, levando o SDP a mapear as relações de poder no Legislativo para identificar pontos de pressão capazes de conquistar o voto de parlamentares indecisos.
Essa estratégia de atuação interna e externa foi um pré-requisito para o sucesso do socialismo do esgoto. No entanto, ela também trouxe consigo todo tipo de transtorno tático, uma vez que as bases do partido nem sempre concordavam com seus líderes eleitos ou acatavam suas decisões. Por exemplo, muitos membros exigiam que Hoan nomeasse apenas socialistas para cargos na administração. Na visão deles, era injusto e desnecessário conceder cargos desejáveis a pessoas de fora, enquanto tantos militantes socialistas — que labutavam em empregos extenuantes nas fábricas — haviam demonstrado suas capacidades de liderança por meio do trabalho partidário e sindical.
De modo geral, o partido mantinha um controle rigoroso sobre seus representantes eleitos. Para desencorajar oportunistas em busca de cargos, o SDP exigia que todos os seus candidatos fossem filiados ao partido há pelo menos três anos e assinassem cartas de renúncia sem data; o partido poderia acionar essas cartas caso o eleito descumprisse promessas de campanha ou rompesse com as decisões da bancada eleitoral socialista. Tal ameaça tinha peso real, visto que esses homens dependiam inteiramente do partido e dos sindicatos liderados por socialistas para serem reeleitos. Nesse sentido, Berger utilizava frequentemente a imprensa partidária para criticar hesitações significativas entre os eleitos e lembrá-los de que conquistar um cargo não era um fim em si mesmo, mas apenas um meio de lutar de forma mais eficaz pelo socialismo. Berger praticava o que pregava: devido à sua postura antiguerra, o Congresso dos EUA negou-lhe, em 1918 e novamente em 1919, a cadeira para a qual havia sido legitimamente eleito. Além disso, sua oposição à guerra em 1919 resultou em uma sentença de 20 anos de prisão. (Essa sentença de tribunal federal foi anulada pela Suprema Corte em 1921.)
As raízes profundas do "socialismo do esgoto" de Wisconsin na classe trabalhadora permitiram-lhe resistir tanto à repressão governamental quanto às turbulências políticas do pós-guerra. No entanto, poucas outras seções do SPA sobreviveram. Após 1918, muitos dos líderes sindicais e políticos relativamente moderados do partido aderiram a movimentos mais amplos, como o Farmer-Labor Party (Partido dos Agricultores e Trabalhadores). Paralelamente, a ala esquerda do SPA — impulsionada pela chegada de socialistas do Leste Europeu — radicalizou-se ainda mais com a Revolução Russa, a repressão em tempos de guerra e o Primeiro Red Scare (o primeiro grande pânico anticomunista nos EUA). Resgatando alguns dos métodos doutrinários do antigo SLP, esses esquerdistas fundaram um novo Partido Comunista que buscava importar as táticas intransigentes e a estratégia insurrecional desenvolvidas pelos bolcheviques no contexto de uma Rússia autocrática e devastada pela guerra. Inspirados pelo exemplo da Rússia e fascinados por crenças infundadas de que um levante armado de trabalhadores era iminente nos Estados Unidos, setores significativos de ativistas afastaram-se do marxismo pragmático. Foi somente quando a Grande Depressão já estava bem avançada, no entanto, que os comunistas começaram a ganhar terreno de forma significativa em Wisconsin.
Não foi pouca coisa o fato de o SDP ter sobrevivido à desmoralizante década de 1920. No entanto, no final de 1928, Hoan queixava-se em particular a Norman Thomas, presidente nacional do SPA, de que alguns socialistas eleitos em Wisconsin estavam se acomodando demais em seus cargos: "Velhos camaradas que conquistaram cargos no serviço público e algumas posições eletivas foram 'anestesiados' — no que diz respeito às atividades socialistas — pelo fato de suas condições econômicas terem melhorado. [...] Temos tentado manter a posição aqui [em Wisconsin] há anos, devido à sua influência positiva sobre o restante do movimento nacional, mas isso está corroendo lentamente as nossas forças vitais." Da mesma forma, alguns líderes sindicais socialistas mais antigos começaram, lenta mas firmemente, a se afastar do partido, assim como o movimento sindical organizado como um todo. Embora a tradição de não interferência mútua entre sindicatos e partido tenha protegido o SDP de ser arrastado para a extrema-direita pelo movimento sindical, ela também tornou mais difícil para o partido conter o afastamento dos trabalhadores em relação ao socialismo naquele período.
A depressão e o declínio
A Depressão injetou uma dose repentina de energia e novos membros — incluindo muitos jovens trabalhadores radicalizados — nos "socialistas do esgoto" e nos sindicatos de Wisconsin. Impulsionado por esse ressurgimento, Hoan foi reeleito com uma vitória esmagadora em 1932, e o partido ficou a apenas dois votos de conquistar a maioria na Câmara Municipal. Em seu discurso de posse como prefeito, Hoan declarou que viviam "em meio a uma revolução econômica e social mundial... [vivendo] a agonia de um sistema moribundo e as dores do parto da construção de um mundo novo e melhor". O capitalismo, anunciou ele, precisava dar lugar ao "próximo estágio do desenvolvimento humano, que é o socialismo".
Apesar da tendência à moderação observada em alguns líderes sindicais e socialistas eleitos nas décadas anteriores, o partido, de modo geral, manteve seu espírito radical e, em certos aspectos, até o aprofundou durante a década de 1930. Os "socialistas do esgoto" empenharam-se ao máximo e com rapidez para liderar greves, organizar os trabalhadores não sindicalizados e conquistar reformas transformadoras na cidade e no estado. Superando a intensa oposição dos empregadores, Wisconsin aprovou, em 1931, o primeiro código trabalhista unificado do país, fortalecendo os direitos dos trabalhadores à greve, ao boicote e à sindicalização.
Hoan utilizou consistentemente todos os poderes à sua disposição para apoiar paralisações locais — inclusive durante uma greve explosiva, em 1934, dos funcionários da empresa privada Milwaukee Electric Railway and Light Company, que paralisou o transporte da cidade, fechou temporariamente a usina elétrica e custou a vida de um apoiador da greve. Responsabilizada pelo prefeito e pelo público por esse derramamento de sangue, a direção da empresa cedeu logo depois. Com o objetivo de evitar mais violência, o SDP conseguiu, no final de 1935, aprovar a legislação trabalhista mais forte dos EUA: a Portaria Boncel, que autorizava a administração municipal a fechar as instalações de qualquer empresa que se recusasse a negociar coletivamente, gerando aglomerações de mais de duzentas pessoas por dois dias consecutivos. Empregadores que se recusassem a cumprir a norma estariam sujeitos a multas ou prisão.
Com impulsos vindos de cima e de baixo — incluindo a ascensão do Comitê de Organização Industrial (CIO), com considerável liderança comunista —, a taxa de sindicalização no Condado de Milwaukee multiplicou-se por dez entre 1929 e 1939. No final da década de 1930, cerca de 60 por cento dos trabalhadores eram sindicalizados. Em contrapartida, a cidade de Nova York atingiu, em seu auge, uma taxa de sindicalização de, no máximo, 33 por cento.
Apesar do fortalecimento do movimento trabalhista e dos esforços contínuos do SDP para educar o público sobre o socialismo, o avanço do movimento foi contido e, por fim, revertido pela oposição dos empregadores; pelo apelo do New Deal de Franklin D. Roosevelt junto aos eleitores e líderes sindicais; por uma "guerra civil" entre a AFL e o CIO; pelo crescimento do Partido Comunista de Wisconsin em meados da década de 1930; pelo entusiasmo, atrativo e faccionalismo em torno da criação de uma Farmer-Labor Progressive Federation mais ampla, em parceria com os progressistas; e, talvez o fator mais decisivo, pela opinião pública, que, mesmo durante a Depressão, mantinha-se muito aquém das expectativas socialistas. Mesmo após décadas de propaganda socialista e vitórias políticas, a maioria dos habitantes de Milwaukee — e a maioria dos trabalhadores da cidade — não havia se tornado socialista.
Os socialistas de Milwaukee e de outras regiões queriam ir muito além de uma governança local aprimorada e do New Deal em nível nacional. No entanto, eles não dispunham de força organizacional ou apoio popular suficientes para isso. Sem maioria na câmara municipal, o SDP fracassou em sua tentativa de combater o desemprego em massa instituindo uma jornada de seis horas e uma semana de trabalho de cinco dias. Da mesma forma, os socialistas e os sindicatos aliados não conseguiram concretizar seu objetivo de criar um sistema hospitalar cooperativo robusto para oferecer à população de Milwaukee assistência médica e tratamento de qualidade a baixo custo.
Irritados com a recusa de Hoan em impor um orçamento de austeridade, os empregadores travaram uma batalha para revogar seu mandato em 1933. Embora tenham perdido essa disputa, a elite empresarial de Milwaukee conseguiu convencer a maioria dos eleitores a rejeitar o referendo do SDP, em 1936, que propunha a municipalização do serviço de energia elétrica. Naquele mesmo ano, o SDP sofreu uma derrota avassaladora nas eleições para a câmara municipal, à medida que os eleitores puniam os socialistas pelo radicalismo percebido em relação à propriedade pública e à "Lei Boncel". Em 1940, Hoan perdeu a disputa pela prefeitura para um centrista de boa aparência, porém politicamente vazio, chamado Carl Zeidler. O reinado do "socialismo do esgoto" chegava ao fim. (O irmão mais novo de Zeidler, Frank — também socialista —, viria a ser prefeito de Milwaukee entre 1948 e 1960, mas, nessa altura, o partido e o movimento de massa já haviam praticamente desaparecido.)
Infelizmente, a reação negativa contra as greves de ocupação militantes e o radicalismo político tornou-se a tendência dominante no final da década de 1930, não apenas em Milwaukee, mas em todos os cantos dos Estados Unidos.20 Embora a historiografia radical tenda a explicar o final da década de 1930 principalmente sob a ótica da cooptação pelo Partido Democrata, os socialistas foram afastados de cargos públicos até mesmo em locais como Wisconsin e Minnesota, onde haviam construído partidos e perfis políticos distintos, situados à esquerda dos Democratas. Em 1938 — uma eleição de meio de mandato marcada pela reação negativa à militância grevista e às ambições do New Deal — o Partido Farmer-Labor de Minnesota perdeu o controle do governo estadual para um republicano, à medida que os eleitores rejeitavam as iniciativas ambiciosas do socialista Elmer Benson, a autoridade eleita mais radical a governar um estado dos EUA. Naquele ano, Wisconsin também tirou do poder o governador progressista (de um terceiro partido) Philip La Follette e elegeu um republicano.
Progressistas e esquerdistas dentro do Partido Democrata não tiveram desempenho muito melhor em 1938. Em Washington, onde a Commonwealth Federation — ligada à esquerda — havia conseguido se tornar uma voz dominante no Partido Democrata, seu candidato à prefeitura de Seattle sofreu uma derrota acachapante. Governadores democratas favoráveis aos trabalhadores e ao New Deal em Michigan, Colorado, Connecticut, Rhode Island e Kansas, além de oitenta congressistas democratas, foram igualmente derrotados por republicanos naquele ano. Percebendo a mudança nos ventos políticos, o presidente Roosevelt começou a recuar da visão de cunho social-democrata que havia articulado em aliança com um movimento trabalhista industrial em ascensão. O fato de Norman Thomas, candidato socialista à presidência por seis vezes, ter recebido apenas 0,4% dos votos em 1936 e 0,2% em 1940 sugere ainda que não havia uma grande reserva de radicalismo político de massa inexplorada por líderes sindicais vendidos e reformistas.
Embora o New Deal não tenha chegado a estabelecer a social-democracia nos Estados Unidos — muito menos o socialismo —, ele proporcionou um nível sem precedentes de segurança econômica e liberdade no ambiente de trabalho a dezenas de milhões de trabalhadores. Esse não foi um feito pequeno em um cenário excepcionalmente desafiador. Se não fosse pelos radicais pragmáticos, os Estados Unidos não teriam avançado tanto na transferência de poder e recursos para a classe trabalhadora. E em nenhum lugar os trabalhadores foram tão longe quanto em Milwaukee.
Conclusão
A experiência de Milwaukee demonstra não apenas que a esquerda pode governar, mas que pode fazê-lo de maneira consideravelmente mais eficaz do que os políticos do establishment. Essa é a verdadeira razão pela qual os defensores do status quo estão tão preocupados com o prefeito socialista democrático Zohran Mamdani.
Embora a história do "socialismo de esgoto" ofereça um roteiro para os radicais de hoje que buscam construir um movimento socialista de maioria, seria contrário ao espírito não dogmático de Berger e seus companheiros tentar simplesmente copiar e colar suas táticas no contexto distinto da atualidade. O espaço para terceiros partidos nos Estados Unidos, por exemplo, encolheu devido à polarização partidária sem precedentes e à ascensão do autoritarismo de extrema-direita (aumentando o risco de dispersão de votos), à nacionalização da política (reduzindo o espaço para terceiros partidos locais) e à consolidação, ao longo de um século, das eleições primárias (aumentando a capacidade de candidatos insurgentes agirem de forma autônoma dentro dos partidos existentes).
No entanto, como Mamdani sofrerá enorme pressão para governar — na melhor das hipóteses — como um progressista que atua isoladamente, é importante ressaltar que o sucesso contínuo do "socialismo de esgoto" dependeu da construção e do apoio em uma organização radical independente, enraizada em um movimento operário de massa; uma organização poderosa e autônoma o suficiente para ameaçar de forma crível os políticos tradicionais com a derrota eleitoral, caso não aderissem às demandas políticas socialistas. Depender principalmente de acordos de bastidores e de uma comunicação estratégica não bastará hoje em Nova York — ou em qualquer outro lugar — para manter o entusiasmo popular, construir poder suficiente para forçar políticos de centro a aprovar demandas transformadoras ou alterar fundamentalmente a correlação de forças de classe.
É por isso que os prefeitos de esquerda de hoje precisarão utilizar sua plataforma e legitimidade para incentivar ativamente a organização da classe trabalhadora e construir organizações políticas independentes, como os Democratic Socialists of America. Enquanto os prefeitos socialistas de Milwaukee — adeptos do chamado "socialismo de esgoto" — foram eleitos por um partido socialista de massa ancorado no movimento sindical e nos bairros da classe trabalhadora, as insurgências eleitorais de hoje foram muito além do poder organizado de trabalhadores e radicais na base. Tudo depende de o nosso campo conseguir aproveitar as grandes vitórias eleitorais recentes e os cargos públicos para superar essa lacuna, reconstruindo o poder organizado da classe trabalhadora a partir da base.
Toda essa discussão sobre o "socialismo de esgoto" certamente parecerá insuficientemente revolucionária para alguns críticos radicais. Mas, como sugere a experiência de Milwaukee, a melhor aposta da esquerda para conquistar mais trabalhadores para o socialismo é proporcionar melhorias reais na vida das pessoas no aqui e agora, ao mesmo tempo em que defende e se organiza em torno de ideias anticapitalistas. Mesmo pequenas vitórias conquistadas por meio da luta organizada elevam as expectativas, geram esperança e ajudam a construir o partido. Precisamos que os trabalhadores vejam e sintam que o socialismo atende aos seus interesses. Argumentos ideológicos, por si sós, têm alcance limitado.
Disputar eleições para vencer e entregar resultados por meio do Estado capitalista traz o risco de cooptação? Sem dúvida. Mas não há como expandir seriamente a esquerda nos Estados Unidos sem tentar equilibrar essa equação. Análises históricas comparativas da esquerda americana mostram, de fato, que todos os exemplos mais bem-sucedidos de política de massa da classe trabalhadora nos EUA adotaram alguma versão desse radicalismo pragmático — desde o Partido Farmer-Labor de Minnesota e o socialismo dos imigrantes judeus de Nova York até os comunistas da Frente Popular no final da década de 1930.
Uma orientação radical e pragmática não significa abandonar os objetivos de um futuro socialista nem se dissolver nas águas turvas do progressismo. Mas exige disputar eleições para vencer e entregar resultados, adotando simultaneamente o foco de Berger no fortalecimento da organização dos trabalhadores: "Devemos promover o fortalecimento moral, físico e intelectual do proletariado, acima de tudo". Compromissos que nos movem nessa direção são úteis; aqueles que nos afastam dela, não.
Para derrotar a extrema-direita, conquistar a social-democracia e, eventualmente, superar o capitalismo, o que os trabalhadores precisam, acima de tudo, é de mais poder organizado. A construção desse poder de base só ocorrerá se os socialistas, dentro e fora do Estado, começarem a entregar resultados concretos para milhões de pessoas.
1 Salvo indicação em contrário, as principais fontes deste artigo são os dois jornais editados por Victor Berger — The Social Democratic Herald e The Milwaukee Leader — bem como as seguintes obras: Marvin Wachman, History of the Social-Democratic Party of Milwaukee, 1897–1910 (Urbana: University of Illinois Press, 1945); Arnold Kaltinick, “Socialist Municipal Administration in Four American Cities: Milwaukee, Schenectady, New Castle, Pennsylvania, and Conneaut, Ohio, 1910–1916” (tese de doutorado, New York University, 1982); Edward John Muzik, “Victor L. Berger: A Biography” (tese de doutorado, Northwestern University, 1960); Floyd J. Stachowski, “The Political Career of Daniel Webster Hoan” (tese de doutorado, Northwestern University, 1966); e Elmer A. Beck, The Sewer Socialists: A History of the Socialist Party of Wisconsin, 1897–1940, 2 vols. (Fennimore, WI: Westburg Associates, 1982). As referências bibliográficas completas estão disponíveis mediante solicitação ao autor.
2 Joshua Kluever, “The Golden Age of Pragmatic Socialism: Wisconsin Social- ists at the State Level, 1919–37,” Journal of the Gilded Age and Progressive Era 22, no. 2 (2023).
3 Gary Marks and Matthew Burbank, “Immigrant Support for the American Socialist Party, 1912 and 1920,” Social Science History 14, no. 2 (1990): 191.
4 Muzik, “Victor L. Berger,” 21.
5 Eric Blanc, Revolutionary Social Democracy: Working-Class Politics Across the Russian Empire (1882–1917) (Leiden: Brill, 2021).
6 Wachman, History of the Social-Democratic Party of Milwaukee, 35. O partido de Wisconsin mudou seu nome de SDP para Partido Socialista em 1916, mas, para minimizar a confusão do leitor, utilizo aqui a sigla SDP para o período posterior a 1916.
7 Thomas W. Gavett, Development of the Labor Movement in Milwaukee (Madison: University of Wisconsin Press, 1965), 206.
8 Beck, The Sewer Socialists, 26.
9 Quoted in William J. Reese, “‘Partisans of the Proletariat’: The Socialist Working Class and the Milwaukee Schools, 1890–1920,” History of Education Quarterly 21, no. 1 (1981): 9.
10 Quoted in Kaltinick, “Socialist Municipal Administration,” 37.
11 Melvyn Dubofsky, “Success and Failure of Socialism in New York City, 1900–1918: A Case Study,” Labor History 9, no. 3 (1968).
12 Henry Pelling, “The Rise and Decline of Socialism in Milwaukee,” Bulletin of the International Institute of Social History 10, no. 2 (1955): 91.
13 Seymour Martin Lipset and Gary Marks, It Didn’t Happen Here: Why Socialism Failed in the United States (New York: W. W. Norton, 2000).
14 Robert F. Hoxie, “‘The Rising Tide of Socialism’: A Study,” Journal of Political Economy 19, no. 8 (1911): 631.
15 Quoted in Michael E. Stevens, “‘Give’em Hell, Dan!’: How Daniel Webster Hoan Changed Wisconsin Politics,” Wisconsin Magazine of History 98, no. 1 (2014): 25.
16 Eric Blanc, “Don’t Cancel Sewer Socialism,” Labor Politics, December 22, 2025, laborpolitics.com/p/from-white-supremacy-to-anti-racism.
17 James J. Lorence, “‘Dynamite for the Brain’: The Growth and Decline of Socialism in Central and Lakeshore Wisconsin, 1910–1920,” Wisconsin Magazine of History 66, no. 4 (1983).
18 Kluever, “Golden Age of Pragmatic Socialism,” 218.
19 Todd J. Fulda, “Daniel Hoan and the Golden Age of Socialist Government in Milwaukee,” American Journal of Economics and Sociology 75, no. 1 (2016): 254.
20 Eric Schickler and Devin Caughey, “Public Opinion, Organized Labor, and the Limits of New Deal Liberalism, 1936–1945,” Studies in American Political Development 25, no. 2 (2011); Anthony Michael Daniel, “From Wagner to Taft-Hartley, Revisited,” PhD Dissertation (Columbia University, 2017).
21 Lipset and Marks, It Didn’t Happen Here.