19 de maio de 2018

Os Estados Unidos vs. Democracia

A política de Trump em relação à Venezuela tornou-se cada vez mais agressiva às vésperas das eleições de amanhã.

Alexander Main


Nicolas Maduro se dirige à Assembléia Geral das Nações Unidas em 29 de setembro de 2015 na cidade de Nova York. John Moore / Getty Images

Tradução / Costumava ser censurável apelar abertamente para golpes militares e intervenção dos EUA na América Latina. Não mais. Ao menos quando se trata da Venezuela, um país onde – de acordo com a narrativa dominante na mídia – um ditador brutal está deixando a população faminta e aniquilando qualquer oposição.

Em agosto passado, o president Trump casualmente mencionou uma “opção militar” para a Venezuela em seu campo de golfe em Nova Jersey, provocando um alvoroço na América Latina, mas nem um pio em Washington. Paralelamente, Rex Tillerson, então Secretário de Estado, manifestou-se favoravelmente a uma possível deposição militar do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Recentemente, artigos de opinião sugerindo que um golpe um uma intervenção militar estrangeira na Venezuela pode ser uma boa coisa pontilharam o terreno da mídia: do Washington Post ao Project Syndicate ao The New York Times. Ocasionalmente um especialista argumenta que um golpe de Estado poderia ter consequências indesejáveis, por exemplo se o regime do golpe decidisse aprofundaras relações com Rússia e China.

Raramente alguém aponta que esse debate é insano, em especial com relação a um país onde as eleições ocorrem frequentemente e são, com poucas exceções, consideradas competitivas e transparentes. No domingo, 20 de maio, Maduro será candidato à reeleição. Pesquisas sugerem que, se o comparecimento for alto, ele poderá ser retirado do posto.

O fato de que golpe, não eleições, são o tema quente é um triste reflexo do rumo distorcido que a discussão mainstream sobre a Venezuela tomou. Durante vários anos, a maior parte das análises e reportagens sobre a nação, rica em petróleo mas conturbada economicamente, tem apresentado uma representação em preto e branco, sensacionalista, de uma situação interna complexa e cheia de nuances. Além disso, tem havido pouca discussão séria sobre as políticas dos governo Trump em relação à Venezuela, mesmo quando estas causam mais danos à economia do país, agravando a carência de alimentos e remédios que salvam vidas, e minando a paz e a democracia.

Lados radicalizados

Não nos esqueçamos, Maduro – frequentemente descrito por especialistas e políticos dos EUA como um ditador – foi eleito democraticamente em eleições relâmpago realizadas um mês após a morte de seu predecessor, Hugo Chávez, no início de 2013. Como o período presidencial na Venezuela é de seis anos, seu mandato constitucional atual terminará no início de 2019.

Desde o início, alguns setores da oposição venezuelana rejeitaram a legitimidade de Maduro e exigiram sua saída imediata do governo. Em 2014 e novamente em 2017, endossaram movimentos de protesto explicitamente voltados a gerar grandes tumultos em áreas urbanas chave, para tentar forçar a queda do governo — por exemplo, exacerbando a pressão popular ou pela intervenção militar interna ou externa.

Embora muitos desses protestos fossem pacíficos, alguns tornaram-se violentos e resultaram em dezenas de mortes, algumas atribuíveis a forças de segurança do Estado e outras a membros do movimento de protesto, de acordo com relatórios confiáveis e provas documentais. Centenas de manifestantes foram detidos e algumas figuras da oposição, incluindo o ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López, foram condenados à prisão por supostamente incitar á violência. López atualmente está em prisão domiciliar, depois de cumprir três anos de pena.

Apoiadores da oposição acreditam que os direitos processuais de López e outros envolvidos com os protestos foram violados, e certamente há motivos para esse argumento. Entretanto, alguns adeptos do governo acreditam que esses indivíduos mereceram penas mais pesadas pela tentativa de usurpar o poder popular por meio da desestabilização e da violência, de uma forma que lembra a preparação para o golpe militar de curta duração em 2002 contra Chávez — em que López e outros líderes da oposição estavam envolvidos.

No final de 2015, a oposição da Venezuela conquistou uma grande maioria de cadeiras nas eleições para a Assembleia Nacional. Mas o Executivo e Legislativo do país ficaram logo em desacordo sobre supostos casos de fraude eleitoral que levaram a Suprema Corte da Venezuela, um órgão amplamente visto como leal ao governo, a desqualificar três legisladores da oposição. A remoção desses legisladores significou a perda da maioria de dois terços da aliança de oposição, que lhe dava amplos poderes para intervir no nível executivo.

A oposição gritou e recusou-se a cumprir a decisão do tribunal. Em resposta, a corte recusou-se a reconhecer a legitimidade do parlamento. As instituições da Venezuela deixaram de interagir de acordo com o manual constitucional e os dois lados adotaram táticas cada vez mais radicais para tentar obter superioridade.

Líderes da oposição apoiaram uma nova série de protestos, que foram ficando cada vez mais violentos, paralisando vias públicas em Caracas e outras cidades durante vários dias, a cada vez. Grupos de manifestantes confrontaram-se frequentemente com as forças de segurança e dezenas de pessoas foram mortas, incluindo manifestantes, agentes de segurança do Estado e transeuntes.

O governo Maduro respondeu ao crescente caos nas ruas chamando eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte que iria desenhar uma nova Constituição e, de acordo com Maduro, trazer “ordem, justiça, paz” à Venezuela.

A oposição, denunciando a iniciativa como uma manobra destinada a mudar a Assembleia Nacional, boicotou as eleições. Desse modo, o novo órgão é quase inteiramente pró-governo e os EUA e governos aliados recusam-se a reconhecê-lo. Em seguida às eleições para a Assembleia Constituinte, o movimento de protesto desentendeu-se e a oposição tornou-se mais dividida, com radicais chamando outro boicote eleições seguintes, regionais e municipais. Como resultado desse e de outros fatores, os eleitores da oposição fracassaram na mobilização e o governo venceu a maioria das disputas, tanto regionais quanto municipais, no final de 2017.

A economia

O pano de fundo da prolongada crise política da Venezuela foi, é claro, o atoleiro econômico do país, que se agrava cada vez mais. Embora a queda dos preços do petróleo tenha certamente desempenhado um papel, Maduro sem dúvida tem parte da responsabilidade pela profunda depressão e hiperinflação que levou centenas de milhares de venezuelanos a emigrar e causaram sua queda nas pesquisas.

Enquanto muitos ideólogos culpam o “socialismo” pelos problemas econômicos do país, a maioria dos economistas aponta uma série de erros políticos que têm pouco ou nada a ver com socialismo. Mais devastador tem sido o disfuncional sistema de taxa de câmbio, que levou a uma espiral de “inflação-depreciação” cada vez pior no decorrer dos últimos quatro anos, e agora à hiperinflação. A gasolina quase gratuita e um controle de preços que não funcionou também contribuíram para a crise. As sanções financeiras do governo Trump – mais do que todos os esforços de desestabilização anteriores, que foram significativos – tornaram praticamente impossível para o governo sair da confusão sem ajuda externa.

Como se essa situação profundamente agônica não fosse suficiente, a mídia publicou com frequência relatos exagerados sobre as condições na Venezuela, apontando por exemplo fome generalizada. Para ser claro, a escalada de preço dos alimentos aumentou a subnutrição no país, mas isso é bem distante de uma fome em larga escala.

Mais importante, tem havido escassas reportagens na mídia dos EUA sobre os danos econômicos adicionais provocados pelas sanções financeiras do governo Trump, anunciadas em agosto do ano passado (logo depois da declaração sobre uma “opção militar” para a Venezuela).

Como meu colega Mark Weisbrot explicou, o embargo unilateral e ilegal – que exclui a Venezuela da maioria dos mercados financeiros – tem tido duas consequências principais, ambas implicando aumento das dificuldades econômicas para o povo venezuelano. Primeiro, porque causa uma escassez ainda maior de bens essenciais, incluindo alimentos e remédios. Segundo, porque torna a recuperação da economia quase impossível, uma vez que o governo não pode tomar empréstimos ou reestruturar sua dívida externa, e em alguns casos até mesmo realizar transações normais de importação, inclusive para medicamentos.

Além de fomentar maior devastação econômica na Venezuela, Trump e sua corte de conselheiros sobre a Venezuela, incluindo o senador republicano Marco Rubio, têm apoiado opositores de linha dura em seus esforços para impedir tentativas de diálogo e minar as eleições, mesmo quando estas oferecem a possibilidade de uma transição política pacífica.

No caso em questão: as eleições presidenciais deste domingo. O líder da oposição Henri Falcón – um ex-governador e organizador de campanha para o candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2013, Henrique Capriles – concorre como candidato independente contra Maduro e outros três candidatos. Vários grandes partidos de oposição estão boicotando as eleições, entre outras razões porque fazem objeção à data próxima do pleito, que segundo eles não lhes dá tempo suficiente para organizar uma campanha forte. Contudo, a autoridade eleitoral concordou com o adiamento por um mês da data inicial. Dois partidos de oposição, Primeiro Justiça e Vontade Popular, também não conseguiram registrar candidatos porque, alega-se, não alcançaram os requisitos formais para fazê-lo.

Contudo, pesquisas eleitorais realizadas pelo Datanalysis, instituto mais frequentemente citado na Venezuela, indicam que Falcón pode vencer, se houver um grande comparecimento às urnas. Antes de confirmar sua candidatura, Falcón obteve fortes garantias junto à autoridade eleitoral do país, garantindo transparência, acessibilidade eleitoral e votação secreta, como houve em todas as contestadas eleições anteriores, desde que Chávez assumiu o poder em 1999.

Mas o governo Trump, depois de ameaçar Falcón com sanções financeiras individuais se não desistisse de sua candidatura, apoiou a o boicote eleitoral promovido por setores mais linha dura da oposição. Eles veem o candidato, que era aliado de Chávez até 2010, como alguém que, se eleito, estaria disposto a entrar em acordo com os chavistas. O governo dos EUA ameaçou até mesmo aumentar sanções contra o petróleo venezuelano, se as eleições forem realizadas. Fontes indicam que quando ambos, Falcón e o governo venezuelano, solicitaram que a ONU enviasse uma equipe observadora internacional para monitorar as eleições, funcionários dos EUA intervieram para garantir que esse esforço de monitoramento não acontecesse.

Com o governo norte-americano e a oposição da Venezuela fazendo todo o possível para reforçar a campanha dos linhas-duras pelo boicote, há uma grande possibilidade de que seja baixo o comparecimento às urnas no campo da oposição, e que Maduro vença as eleições por uma larga margem. Pode-se esperar que o governo Trump faça a imediata denúncia de um processo “fraudulento” e “ilegítimo”, tomando atitudes que tornarão a vida dos venezuelanos comuns ainda mais difícil.

Entre Obama e Trump

Vale notar que a política de Trump para a Venezuela é principalmente uma continuação da política de Obama para o país, embora o embargo financeiro e apelo a um golpe militar sejam particularmente ultrajantes e desprezem o direito internacional e as normas das nações civilizadas. As sanções de Trump aumentam o regime de sanções de Obama que identificam a Venezuela como uma “ameaça extraordinária à segurança nacional”. Quando Obama começou o processo de normalização de relações com Cuba, ele começou a mirar os bens de vários altos funcionários e indivíduos associados com o governo Maduro.

Sob Obama, o governo dos EUA continuou, como na era-Bush, a financiar organizações políticas de oposição na Venezuela, e mais uma vez fez lobby junto a governos regionais para censurar a o país em organizações multilaterais, como na Organização dos Estados Americanos (OEA). Washington também recusou-se a aceitar um embaixador venezuelano em Washington – embora convidasse um cubano – e alinhou-se a membros linha-dura da oposição quando recusou-se a reconhecer a vitória eleitoral de Maduro em abril de 2013.

Essencialmente, o governo de Obama – como o de Bush, que esteve envolvido no golpe de vida curta em 2002 contra Hugo Chávez – tinha uma política de promover uma “mudança de regime” na Venezuela. Com Trump, aquela política tomou uma direção mais agressiva, aberta e perigosa.

Infelizmente não tem havido praticamente nenhuma crítica aos esforços do governos dos EUA para derrubar o governo venezuelano na grande mídia. No Congresso dos EUA, onde um grande número de legisladores agora se opõem ao embargo contra Cuba, por exemplo, há pouco clamor, com a importante exceção do um pequeno grupo de democratas progressistas que se opuseram às sanções contra a Venezuela, sob Obama e Trump. A maior parte do establishment político e da mídia parece acreditar que Trump tem a agenda política certa para a Venezuela, com vários liberais justificando as duras medidas com casos de corrupção, violação de direitos humanos e outros crimes que supostamente envolvem funcionários venezuelanos.

Entretanto, nenhuma dessas críticas pede sanções econômicas contra países latino-americanos com registro de muito mais violência e repressão. Contra Honduras, por exemplo, onde os militares recentemente reprimiram violentamente manifestações pacíficas após eleições fraudulentas, que o governo dos EUA reconheceu. Ou contra a Colômbia e o México, onde nos últimos meses dezenas de candidatos políticos e líderes sociais foram assassinados com impunidade.

A Venezuela é tratada de modo diferente pelos EUA por razões óbvias: tem um governo que busca ser independente de Washington e se encontra sobre reservas de centenas de bilhões de barris petróleo, que – quando a economia da Venezuela finalmente se recuperar – irão possibilitar ao governo ter influência regional de longo alcance.

De fato, isso é exatamente o que aconteceu durante o governo Chávez. Aumentou a popularidade da Venezuela na América Central e no Caribe graças em grande parte à generosa iniciativa Petrocaribe do governo, que trouxe benefícios econômicos tangíveis a muitos países da região. Ela teve também influência na construção de instituições regionais tais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac) e a União das Nações Sul Americanas (Unasur), que eram muito mais independentes dos EUA do que a Organização dos Estados Americanos, localizada em Washington.

A despeito de como cada um se sinta, em relação ao atual governo da Venezuela, é tempo de se dar conta de que a política dos EUA com relação a esse pais está tornando as coisas piores. Está gerando maior sofrimento econômico, instabilidade e polarização política e minando as chances de alcançar uma solução pacífica para a crise política do país.

Os comentários sobre golpe e intervenção militar na Venezuela, ou em qualquer outro lugar da América Latina, precisam retornar a seu prévio status de tabu, particularmente por causa da receptividade a ideias absurdas da atual liderança dos EUA. Em vez disso, é hora de esfriar as cabeças em todo o espectro político para trabalhar juntos por uma mudança na direção política em relação à Venezuela. Primeiro, os cidadãos dos EUA que se importam com os Estados Unidos devem organizar-se para forçar Trump a levantar o embargo financeiro; depois, é preciso encorajar os esforços para construir confiança e diálogo entre os setores políticos, ao mesmo tempo em que marginalizamos linhas-duras que se opõem a qualquer forma de acordo.

18 de maio de 2018

Os longos anos sessenta no Japão

Uma liga comunista de estudantes fundada em 1948 no Japão, os Zengakuren acumularam poder ao longo de duas décadas, criando tremendas tensões na aliança da Guerra Fria EUA-Japão ao desafiar os conceitos padrão de democracia, paz e a história do imperialismo.

Naoko Koda


Tradução / Narrativas convencionais sobre o movimento estudantil japonês começam a partir dos protestos de massa contra a revisão do Tratado de Mútua Cooperação e Segurança EUA e Japão de 1960, e acabam com o sectarismo do movimento estudantil e os crimes violentos de pequenos grupos esquerdistas, como a Facção do Exército Vermelho [1]. Entretanto, esse recorte cronológico, amplamente difundido, falha grosseiramente em contabilizar as complexidades multifacetadas na história do movimento estudantil japonês. Elas também o analisam a partir de noções Ocidentais e recortes históricos da Nova Esquerda.

Mark Kurlansky, por exemplo, localiza a origem da revolta global dos estudantes de 1968 no protesto “As Sentadas”, iniciado por quatro estudantes afro-americanos em Greensboro, Carolina do Norte, em 1º de fevereiro de 1960. Ele argumenta, “por volta de 1968, em todo o mundo, pessoas com causas queriam copiar o Movimento dos Direitos Civis. O hino do movimento, a música ‘We Shall Overcome’ [2] de Pete Seeger – uma música folk convertida em música de trabalhadores que Seeger transformou em um hino dos direitos civis quando “As Sentadas” começaram em 1960 – era cantada em inglês no Japão, África do Sul e no México”. [i]

Enquanto o Movimento dos Direitos Civis teve uma tremenda influência nos movimentos de protestos globais, incluindo o Japão, não se pode negar que esse retrato da revolta mundial dos anos 1960 falha não distinguir algumas diferenças históricas e contrastes locais de nações atípicas como o Japão. Contudo, o movimento estudantil japonês compartilha características importantes com a Nova Esquerda Ocidental, tendo sido um movimento anti-imperialista que possui raízes cronológicas tão profundas que datam da segunda metade dos anos 1940. Como resultado, o movimento foi muito mais influenciado por um sentimento antifascista resultante de memórias da Segunda Guerra Mundial e do ethos democrático dos EUA nessa guerra – absorvida pelos japoneses após a ocupação norte-americana –, influenciado pela Nova Esquerda Americana.

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Durante a ocupação norte-americana no Japão, o movimento estudantil de esquerda se apropriou das causas da democratização e desmilitarização, se articulando no país inteiro em uma organização chamada Zengakuren, formalmente nomeada Zen-Nihon Gakusei Jichikai Sōrengō (Federação Japonesa das Associações Autônomas de Estudantes). Em meados dos anos 1940, as crescentes tensões Russo-Americanas forçaram Washington a moderar a visão de democracia e desmilitarização que havia advogado no decorrer da guerra. Ao longo da ocupação, um poderoso surto democrático e popular, inspirado pelos programas sociais dos EUA (como o New Deal), prosseguiu sem perder intensidade, inclusive quando os ocupantes mudaram suas prioridades para o combate ao Comunismo e o estabelecimento de um centro econômico anticomunista autossuficiente na Ásia. Os Zengakuren emergiram como uma vanguarda de um movimento popular que finalizaria a “revolução inacabada” iniciada durante a ocupação norte-americana.

Ao longo dos anos 1950 o foco do movimento estudantil japonês se tornou a aliança entre os Estados Unidos e o Japão durante a Guerra Fria. O Tratado Mútuo de Segurança EUA-Japão (abreviado Anpo, em japonês), foi assinado no mesmo dia que o tratado de paz que acabou com a ocupação das terras do Japão pelos Estados Unidos em 1951, o Tratado de São Francisco – que garantia segurança aos japoneses por meio da presença de bases militares e instalações dos EUA em terra e com a ocupação das Ilhas Ryukyu, no extremo sul do arquipélago japonês.

Com a escalada da Guerra da Coréia, a importância geoestratégica das bases militares no Japão cresceu gradativamente conforme o comprometimento dos EUA com a segurança do Pacífico aumentava. Em 1955, os dois governos concordaram em estender a pista de decolagem da base aérea de Tachikawa por dentro da pequena cidade de Sunagawa, para acomodar os modernos jatos norte-americanos. Esse foi o começo da luta por Sunagawa. Muitos moradores locais temiam que estacionar novos jatos naquela localização faria da cidade um alvo, no caso de uma destrutiva – possivelmente nuclear – guerra entre as superpotências. E então, eles resistiram ao plano.

Os Zengakuren, juntamente com sindicatos e partidos de esquerda, se aliaram aos moradores nos protestos contra a extensão da pista. Apesar do fato de que muitos manifestantes, incluindo os Zengakuren, estavam advogando a desmilitarização pela paz, eles foram vistos pelas autoridades locais como grupos a serviço da causa comunista. O jornal Los Angeles Times chamou os protestos em Sunagawa de “desordem antiamericana” que estavam “obviamente encorajados, se não patrocinados, pelo reorganizado Partido Comunista”. [ii] O movimento contra o plano de extensão foi um gatilho para debates públicos sobre o Tratado Mútuo de Segurança EUA-Japão, armando o palco para a crise da Anpo de 1960.

A crise de 1960 é uma das histórias da Guerra Fria mais contadas no Japão. No outono daquele ano, foi relatado que 16 milhões de japoneses participaram dos protestos contra a revisão do Tratado de Mútua Cooperação e Segurança EUA e Japão. [iii] À medida que 1960 seguiu, os Zengakuren começaram a coordenar algumas ações diretas, tentando bloquear a assinatura do tratado de segurança. Na noite de 15 de janeiro, cerca de mil estudantes invadiram o Aeroporto de Haneda, onde 700 deles ocuparam o saguão principal, montando barricadas com cadeiras e mesas, na tentativa de impedir o Primeiro Ministro Kishi Nobuske de partir para os Estados Unidos assinar o documento. [iv]

Em 19 de maio, a luta anti-Anpo entrou em uma nova fase quando o PLP (Partido Liberal Democrata), de Kishi, teve que interromper a revisão do tratado no Congresso. No lado de fora da Dieta japonesa [3], uma multidão cercou as dependências do edifício, protegido por 3 mil policiais. [v] O primeiro relatório da polícia declarou que o número era de 7 mil pessoas, enquanto os grupos de oposição alegavam ser mais de 20 mil. Os manifestantes criticavam a postura antidemocrática de Kishi ao lidar com a situação. Agora, o movimento de oposição ao tratado de segurança havia levantado a questão da democracia no pós-guerra. Maruyama Masao, um dos mais proeminentes filósofos políticos desse tempo, afirmou que a luta anti-Anpo apontava para a lógica de que “ou se era anti-Anpo ou antidemocrático”. [vi] Para os estudantes japoneses, os efeitos dos protestos resultaram em sentimentos mistos – a confiança conquistada por conta do tamanho da adesão popular, que finalmente forçou o Primeiro Ministro Kishi a renunciar, mas ao mesmo tempo, o desespero por terem falhado enquanto movimento, sendo incapazes de impedir a promulgação da revisão do tratado.

Em meados da década de 1960, o mundo dos jovens/estudantes estava se revoltando contra a política “imperialista” dos EUA no Vietnã. Em oposição à guerra, movimentos locais, nacionais e internacionais convergiram e transformaram os estudantes radicais nos players globais de 1968. Num mundo engolido por uma nova onda de radicalismo, o comprometimento nas lutas locais contra o poder norte-americano dependia de uma consciência global sobre a existência dos estudantes radicais japoneses, questão que os estimulou a construir alianças transnacionais com seu homólogos na Europa e nos Estados Unidos.

As bases militares no Japão ficaram marcadas como postos avançados do novo imperialismo, mas sua presença no país também continha potencial para facilitar um fluxo transnacional de novos pensamentos radicais. A Vietnam Veterans Against the War. Winter Soldier Organization [4] originalmente fundada em 1967, em Nova Iorque, publicava o jornal quinzenal Freedom of the Press [5], tendo montado uma livraria perto da Base Naval de Yokosuka para permitir que soldados norte-americanos tivessem acesso à panfletos e filmes que não eram permitidos pelo exército. Jornais alternativos publicados por soldados americanos floresceram nas áreas que abrigavam as bases militares dos EUA no Japão. Entre eles, estavam o Kill for Peace [6] e o Freedom Rings [7] em Tóquio, o Semper Fi em Iwakuni, Omega Press e Demand for Freedom em Okinawa, para citar alguns. Esses periódicos se transformaram não somente em fonte de informação para soldados anti-guerra e ativistas, mas também proporcionavam críticas radicais sobre as estruturas sociais existentes no imperialismo. Um soldado negro em Yosuka escreveu: “Nós temos liberdade, menos os direitos iguais. Essa [a Guerra do Vietnã] é a guerra do homem branco, não a do homem negro”, criticando a opressão racial em casa, em uma edição do Long Road to Freedom [8], publicado por soldados na Base Naval de Yosuka. [vii]

Por volta de 1970, os estudantes radicais japoneses estavam cada vez mais envolvidos na importação de ideias e táticas dos movimentos do exterior. O Terceiro Mundo e os EUA haviam se tornado as duas maiores fontes de inspiração para eles. Victor Passy, reportando para o National Guardian, observou, “O Presidente da Terceira Facção Zengakuren, Akiyama Katsuyuki, me levou para o enorme quartel-general dos Zengakurens aqui. As paredes estavam cobertas com os cartazes de Che Guevara, do Vietnã e do Comitê Não Violento de Coordenação Estudantil (SNCC)”. [viii] Os revolucionários do Terceiro Mundo e o radicalismo negro nos EUA tiveram um papel crucial na transformação do conceito de subjetividade revolucionária entre os radicais japoneses. Eles ofereceram um meio de lidar com as limitações do marxismo clássico por meio do emprego de categorias culturais, como a raça. A convergência local-global de ativismo radical foi crucial na criação de um novo sentido de poder entre os japoneses.

Emergindo no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, o nascido movimento de estudantes Zengakuren concentrou poder e energia, tendo se beneficiado dos movimentos populares a favor da democratização na época. Por duas décadas, o movimento estudantil criou grandes tensões na aliança EUA-Japão durante a Guerra Fria, desafiando conceitos hegemônicos de democracia, paz e história do imperialismo, que foram gradualmente moldados pelo possível conflito nuclear. O movimento de estudantes anti-imperialista dos “Longos Anos Sessenta” parece ter atingindo seu fim em 1973. A revisão do Tratado de Mútua Cooperação e Segurança EUA e Japão foi automaticamente ratificada em 1970, e a ocupação norte-americana de Okinawa acabou oficialmente em maio de 1972. Parece que não foi preciso de muito esforço dos EUA para ajustar a aliança com o Japão no período após a ocupação. O consenso nacional dos japoneses se provou fortemente a favor da aliança com os EUA e da manutenção de suas bases militares, que estavam predominantemente em Okinawa. O resultado desses dois grandes eventos diplomáticos permeou o sentimento de que as dificuldades na aliança entre os velhos guerreiros americanos e os conservadores japoneses haviam finalmente acabado.

Notas:

[i] Mark Kurlansky, 1968: O ano que abalou o mundo (New York: Ballantine Books, 2004), 84.

[ii] Los Angeles Times, 14 de setembro de 1955.

[iii] Wesley Sasaki-Uemura, Organizando o espontâneo: Protestos populares no Japão pós-guerra (Honolulu: University of Hawai’i Press, 2001), 16.

[iv] O jornal Tokyo Daigaku Shimbun (The Japan Times) reportou que o número de manifestantes em Haneda foi de mil e quinhentas pessoas, em 20 de janeiro de 1960; a Agência de Inteligência e Segurança Pública do Japão reportou que mil estudantes estiveram no Aeroporto de Haneda em Kōan Chōsachō, Anpo Tōsō no Gaiyō: Tōsō no Keika to Bunseki, 165.

[v] Tokyo Daigaku Shimbun, 11 de julho de 1960.

[vi] Maruyama Masao, “Sentaku no Toki,” [A hora de escolher]. Tokyo Daigaku Shimbun, 11 de julho de 1960.

[vii] “Mensagem de um soldado negro dentro do porão de Yokosuka”, Long Road to Freedom. [A data da publicação é desconhecida, a mensagem foi escrita em 9 de setembro de 1970]. Endō Yōichi Papers. S-3-408. Box 19. Research Center for Cooperative Civil Societies, Rikkyo University, Tokyo, Japan.

15 de maio de 2018

Relembrando a Revolução de Saur

Quarenta anos atrás, os comunistas assumiram o controle do Afeganistão na esperança de trazer modernização e progresso social ao país. Suas reformas radicais estavam fadadas ao fracasso?

Jonathan Neale

Jacobin

Dia após a Revolução de Saur em Cabul, Afeganistão. Cleric77 / Wikimedia

Quarenta anos atrás, em 28 de abril de 1978, os comunistas fizeram uma revolução no Afeganistão. Meu amigo Tahir Alemi era um deles. Ele era um homem bom, amável e gentil, e queria mudar o mundo.

Tahir era professor de literatura pashto na Universidade de Cabul. Ele percorreu um longo caminho. Seu pai era um pequeno camponês em uma aldeia em Nangrahar, perto da fronteira com o Paquistão. A família trabalhava em sua própria terra e tinha um meeiro, então estava se saindo melhor do que a maioria. Tahir chegou à universidade e conseguiu seu emprego por meio de inteligência bruta. Ele amava seu pai, seus irmãos e sua mãe. Mas ele teve que enfrentar os valores de seu pai.

O Afeganistão na década de 1970 era um país feudal. O poder não estava com os empresários urbanos, mas com grandes proprietários de terras que viviam em fortes no campo. Às vezes havia dois grandes senhores em uma aldeia, às vezes um, e em alguns lugares um homem dominava várias aldeias. Havia muitos camponeses intermediários, homens como o pai de Tahir, talvez com um meeiro, mas ainda trabalhando em suas próprias terras.

Abaixo deles estavam os meeiros, talvez metade da população, que tinham permissão para ficar com um terço da safra que colhiam. Na aldeia de Tahir era um quinto, porque a terra era melhor.Em toda parte, meeiros, trabalhadores e pastores eram pagos apenas o suficiente para comprar três pães naan, um para ser dividido entre dois adultos e um para cada filho. Isso era 2.000 calorias por adulto e 1.300 por criança. Eles não podiam pagar por qualquer outra comida.

Fui antropólogo no Afeganistão no início dos anos 1970. As pessoas com quem me envolvi eram nômades com ovelhas, mas passaram por tempos difíceis. Seu padrão de vida era bastante típico dos afegãos pobres. As mulheres tinham dois vestidos em suas vidas, um quando atingiam a puberdade e um segundo quando se casavam. Uma família comum tinha uma pequena xícara de chá. Elas comiam carne, com grande entusiasmo, uma vez por ano na Festa do Profeta. Para acompañar el pan, hacían sopa hirviendo trébol y otras verduras que recolectaban. Duas das três famílias mais ricas da pequena aldeia de trinta e três famílias competiram para mostrar hospitalidade a mim e minha esposa. Uma família fritou um ovo para mim em uma ocasião especial. O outro me deu ensopado com minha própria batata pequena. Ninguém mais tinha uma.

Exploração nessa escala — dois terços a quatro quintos da colheita para o proprietário da terra — exigia crueldade e violência.

Fotografia de estúdio de Mohammad Zaher Khan em uniforme militar. Haji Amin Qodrat, Cabul / Wikimedia

A exploração nessa escala - dois terços a quatro quintos da safra para o proprietário de terras - exigia crueldade e violência. A maior parte disso vinha dos senhores locais e seus guarda-costas e bandidos, apoiados pelo governo. Mohammed Zahir Shah, o rei de Cabul, e sua família construíram seu poder favorecendo um senhor em cada distrito e governando por meio deles. "Às vezes temos tirania", Tahir me disse uma vez. "Então eles vêm e matam você e toda a sua família. Agora temos democracia. É só você, e eles só arrancam seus olhos." Era uma piada. Nós rimos.

O Afeganistão era um país pobre, principalmente árido, desértico ou montanhoso. O governo não tinha poder para tributar os grandes senhores ou os pequenos camponeses. Em vez disso, confiavam em direitos alfandegários limitados. Desde 1842, diferentes governos afegãos contavam com alguma forma de subsídio estrangeiro, geralmente dos britânicos. A partir da década de 1950, o Afeganistão teve "desenvolvimento". Como parte da Guerra Fria, a ajuda russa e americana pagou cerca de 80% do orçamento civil e a maior parte do orçamento militar. Os russos pagavam cerca de dois terços e os americanos cerca de um terço. Havia muito pouca indústria ou desenvolvimento econômico. O dinheiro da ajuda foi para o exército, escolas e o serviço público. Agora havia alguns milhares de alunos na Universidade de Cabul e centenas de milhares nas escolas. A velha classe dominante de proprietários de terras era minúscula e não havia como eles fornecerem professores e funcionários públicos. Os recém-educados eram homens como Tahir, filhos de camponeses médios. Seus pais e avós odiavam em silêncio os grandes senhores e o governo, e os recém-educados também os odiavam.

Eles sonhavam, esses jovens professores, com um Afeganistão desenvolvido e moderno. Uma vez, na província de Helmand, Tahir e eu estávamos em uma multidão silenciosa de curiosos assistindo a uma demonstração de algumas dezenas de garotos do ensino médio. Os alunos se revezavam em pé na caixa para gritar seu slogan: “Morte aos Khans”. Khan era a palavra local para os grandes senhores. O slogan dos meninos não era abstrato. Seu programa político era matar aqueles homens em seu distrito.

"Você tem essas coisas na América?" Tahir me perguntou.

Eu disse a ele que sim, e eu fiz parte de alguns. Ele me contou sobre o Third of Akrab, em 1965, quando os estudantes em Cabul protestaram em frente ao parlamento recém-eleito, e três manifestantes foram mortos a tiros. Ele tinha estado lá.

Os rapazes e moças dessa nova classe urbana, a maioria deles professores como Tahir, estavam todos se voltando para os partidos islâmicos ou comunistas. A Irmandade era islâmica. Eles tinham formação universitária, da mesma classe de Tahir, e seus jovens ativistas se tornariam os líderes da resistência aos russos. Os comunistas eram divididos em dois. Parcham (o Banner) era mais educado, urbano e moderado. Khalk (o Povo) era menos educado, mais frequentemente de famílias rurais, mais frequentemente pashtuns. Tahir se juntou a Parcham. Em 1973, os comunistas estavam crescendo mais rápido do que a Irmandade.

Sentei-me com Tahir na sala de recepção de seu pai na aldeia, e caminhamos e viajamos de ônibus para as aldeias ao redor de Nangrahar. Tahir foi selecionado pela universidade para ser minha “contraparte” durante a parte inicial de meu trabalho de campo. Paguei a ele quatro vezes o seu salário mensal de 1.500, três vezes o que um trabalhador ganhava. Eu ainda estava aprendendo o idioma e ele traduzia para mim. Ele também escreveu relatórios regulares sobre mim para a polícia secreta. Nós dois sabíamos disso, mas não mencionávamos.

O casamento de Tahir foi arranjado. Sua esposa nunca tinha ido à escola. Havia muita coisa que ele não podia falar com ela. Mas ele se casou para agradar sua família. Eles haviam escolhido uma garota local para ele na esperança de que isso o mantivesse ligado à aldeia, e durante os primeiros anos do casamento ela morou com seus pais e ele a visitava quando podia. Ele tentou desenvolver um relacionamento real com ela. Muitas outras meninas iam à escola, porém, nas cidades e nas aldeias. Tanto Parcham quanto Khalk estavam cheios de camaradas mulheres. A libertação das mulheres foi fundamental para seu sonho de um mundo melhor. Tahir esperava que um dia pudesse mudar sua esposa para morar com ele em Cabul. Quando isso acontecesse, ele me prometeu, eu poderia conhecê-la, porque ele nunca a isolaria.

Em 1972 houve uma seca, um efeito precoce da mudança climática. A fome envolveu partes do norte. A ajuda alimentar veio da América. Nas cidades do distrito, os oficiais do governo empilharam os sacos de grãos nas praças. Os soldados guardavam os grãos e os oficiais os vendiam dez vezes o preço normal. Os pequenos camponeses venderam suas terras por quase nada aos cãs feudais e compraram os grãos. Os sem-terra sentaram e esperaram pela morte. Um jornalista francês perguntou-lhes por que não atacavam as pilhas de grãos. "O rei tem aviões", disseram, "e eles nos bombardeariam".

O rei e seu governo perderam quase todo o apoio. O primo do rei, Mohammed Daoud, foi um primeiro-ministro brutal até 1963. Ele se inclinou mais para os soviéticos e o rei mais para os americanos. Agora os EUA estavam cortando a ajuda depois do Vietnã, e a maior parte do dinheiro vinha da Rússia. Daoud encenou um golpe militar, com apoio soviético. O golpe não encontrou oposição. Depois da fome, ninguém estava preparado para morrer pelo rei.

O trabalho real de organização do golpe foi feito por oficiais militares comunistas, principalmente da ala Khalk. Como os professores, os oficiais eram de origem camponesa média, geralmente os primeiros de suas famílias a serem educados e, muitas vezes, treinados na União Soviética.

O golpe não mudou nada importante. O poder permaneceu com os grandes senhores, embora a retórica de Daoud fosse de esquerda. A universidade, escolas secundárias e escolas primárias tornaram-se locais intensamente políticos, especialmente nas cidades. Alguns professores faziam proselitismo pela Irmandade, outros por Khalk e Parcham. Os alunos debateram. Parcham defendeu trabalhar com a ditadura de Daoud. Khalk queria uma revolução completa.

Os comunistas estavam crescendo. Em abril de 1978, Daoud ordenou o assassinato de um líder comunista, Mir Akbar Khyber. As duas alas dos comunistas se reuniram para uma grande manifestação pública em seu funeral em Cabul. Daoud prendeu todos os líderes de ambas as alas, e eles sabiam que logo seriam mortos. Um líder, Amin, conseguiu dar a palavra para colocar um golpe planejado em movimento. Os mesmos oficiais do exército e da força aérea que levaram Daoud ao poder agora mataram o líder e toda a sua família. Tal como aconteceu com o rei, ninguém lutaria por Daoud, e os comunistas tiveram sucesso.

O golpe não encontrou resistência. Depois da fome, ninguém estava disposto a morrer pelo rei.

No dia seguinte à Revolução de Saur em Cabul, Afeganistão, 28 de abril de 1978.

Os comunistas anunciaram uma revolução - eles a chamaram de “Grande Revolução de Abril”, como a Revolução de Outubro na Rússia. Eles aprovaram dois decretos para transformar o golpe em uma revolução. O primeiro foi a reforma agrária - a terra seria tirada dos proprietários e entregue aos meeiros. Em muitas áreas, o governo não tinha meios de fazer cumprir a reforma agrária, mas em Helmand, onde os meninos gritaram "Morte aos Khans" de sua caixa de sabão, os comunistas locais começaram a tomar as terras e redistribuí-las.

O segundo foi a abolição dos pagamentos do preço da noiva dados pela família do noivo em troca da mão da noiva. Eram somas substanciais, geralmente de dois a cinco anos de renda para uma família. Mais importante, o preço da noiva estava aos olhos de todos como um sinal da sujeição das mulheres.

As relações entre homens e mulheres não eram a caricatura sexista que conhecemos agora na propaganda islamofóbica. Nas aldeias, talvez quatro ou cinco famílias em cada duzentas mantivessem suas mulheres reclusas, permitindo-lhes sair apenas envolvidas com burcas. Na maioria das famílias pobres, as mulheres tinham que trabalhar nos campos com os homens. Mas se a opressão das mulheres não era como retratada hoje, era bastante real, como era em outros países. Os comunistas estavam determinados a mudar tudo isso. O decreto sobre o preço da noiva era amplamente formal em vigor, embora em algumas áreas as meninas fossem incentivadas a dançar em público.

As medidas sobre a terra e o casamento desencadearam uma rebelião liderada por mulás locais. Os mulás não eram iguais aos islâmicos da Irmandade. Esses eram homens instruídos, engenheiros e teólogos. Os mulás eram, em sua maioria, aldeões pobres, educados apenas o suficiente para ler farsi e recitar o Alcorão em árabe. Eles eram tratados com desdém pela elite. Mas eles tinham uma história de liderança na resistência popular.

O preço da noiva era visto por todos como um sinal de submissão das mulheres.

Mulheres afegãs, 1927. Wikimedia

O Afeganistão nunca foi conquistado. Os britânicos o invadiram em 1838-42 e novamente em 1878-1880. Nas duas vezes, a elite afegã levou o ouro do invasor - literalmente, em bolsas - e não resistiu. Em ambas as vezes, porém, os mulás pregaram nas cidades e vilas, levantando uma revolta popular da jihad que expulsou os britânicos. Então, na década de 1920, um novo governo reformador sob o rei Amanullah tentou "modernizar" o país, como Ataturk havia feito na Turquia e Reza Shah no Irã. Amanullah insistiu no fim da reclusão para mulheres da elite e insistiu que usassem vestidos ocidentais. Em seguida, ele tentou tributar as terras dos grandes senhores e pequenos camponeses do sudeste, provocando uma revolta liderada pelos mulás. Então, um trabalhador que se tornou bandido social, Habibullah, liderou uma insurreição popular em Cabul. Com a ajuda britânica, a família real reprimiu a revolta, mas o experimento social de Amanullah estava no fim.

Depois dos anos 1930, os mulás continuaram a ser os guardiões da ortodoxia, embora o islamismo dos afegãos fosse de um tipo relaxado e não muito ortodoxo. Os mulás teceram um islamismo conservador e uma oposição à libertação das mulheres, juntamente com uma oposição ao imperialismo cristão da Grã-Bretanha e da América e ao imperialismo ateu da União Soviética. Para a maioria dos afegãos, também, homens e mulheres, o Islã também era o coração moral de suas vidas.

Depois da Revolução Saur, os mulás começaram a organizar resistência ao governo. Como haviam feito contra os britânicos e Amanullah, eles conclamaram oposição ao domínio estrangeiro. A revolta começou nas montanhas e nas fronteiras, onde o governo sempre foi mais fraco, e se espalhou pelos vales e cidades. Ao enfrentar essa resistência, os comunistas enfrentaram um problema terrível. Eles não tiveram o apoio da maioria, então eles recorreram à crueldade.

A Revolução Saur foi baseada em um golpe liderado por jovens oficiais. Mas o Afeganistão tinha um exército conscrito, com homens de todos os cantos do país, principalmente de famílias de pequenos camponeses e meeiros. Esses soldados seguiram as ordens, mas não estavam politicamente convencidos. Não houve levantes urbanos e nenhuma guerra camponesa por terra. Nesse sentido, a Revolução Saur foi um golpe de cima para baixo com pouco apoio rural.

Os comunistas tinham apoio real nas cidades. Nas eleições livres realizadas antes de Daoud assumir o poder em 1973, eles conquistaram a maioria das cadeiras em Cabul. Eles contavam com o apoio de crianças em idade escolar, estudantes universitários, funcionários públicos e outros nas grandes cidades. Em um país predominantemente rural, isso não foi suficiente. Confrontado com pregações inflamadas e revoltas rurais, o novo governo comunista só pôde enviar soldados para prender pessoas. Isso provocou mais inquietação e eles começaram a torturar as pessoas, o que gerou mais revolta. Nos vinte meses seguintes, os comunistas e seu exército perderam o controle da maior parte do país. Em dezembro de 1979, eles dominavam completamente apenas três das trinta e quatro províncias. Em 28 províncias, os quartéis do exército asseguravam o controle das cidades e vilas maiores, enquanto os insurgentes controlavam o campo. Em três províncias, os insurgentes controlavam até as cidades.

Sob essa pressão, os comunistas se dividiram amargamente em três campos. O grupo Parcham, liderado por Baback Karmal, defendeu a construção de uma aliança com todas as forças progressistas nacionais. Na prática, isso significava proferir devoções muçulmanas, calar a boca sobre o preço da noiva e as mulheres e suspender a reforma agrária. Essa política estava em conformidade com o conselho da KGB e dos generais soviéticos, que consideravam a ideia de revolução social prematura e temerária. O problema com essa abordagem é que os mulás - e o resto do Afeganistão - não se deixaram enganar.

Para os militantes mais radicais do grupo Khalk, isso também foi uma traição ao sonho compartilhado de um Afeganistão moderno e o fim do sexismo e da pobreza opressora. Em poucos meses, eles limparam o Parchamis. Alguns, como Karmal, foram para o exílio na Europa Oriental e na União Soviética. Os Khalkis enviaram muitos dos demais para a prisão.

Mas ainda assim o parafuso da resistência apertou em torno das cidades. O grupo Khalk se dividiu em dois. Taraki, o líder mais velho, um romancista de um clã de pastores e nômades, não viu outra saída a não ser convidar as tropas soviéticas para suprimir a resistência. O líder mais jovem, Mohammed Amin, de uma área rural nos arredores de Cabul, estudou educação na Universidade de Columbia, em Nova York. Ele era um nacionalista afegão e não aprovaria as tropas soviéticas em nenhuma circunstância.

A KGB aconselhou Taraki a matar Amin. Taraki tentou e falhou, porque a maioria dos radicais Khalki também era contra as tropas russas. Em vez disso, Amin mandou matar Taraki.

Para os militantes mais radicais do grupo Khalk, isso também foi uma traição ao sonho compartilhado de um Afeganistão moderno e o fim do sexismo e da pobreza opressora. Em poucos meses, eles limparam o Parchamis. Alguns, como Karmal, foram para o exílio na Europa Oriental e na União Soviética. Os Khalkis enviaram muitos dos demais para a prisão.

Mas ainda assim o parafuso da resistência apertou em torno das cidades. O grupo Khalk se dividiu em dois. Taraki, o líder mais velho, um romancista de um clã de pastores e nômades, não viu outra saída a não ser convidar as tropas soviéticas para suprimir a resistência. O líder mais jovem, Mohammed Amin, de uma área rural nos arredores de Cabul, estudou educação na Universidade de Columbia, em Nova York. Ele era um nacionalista afegão e não aprovaria as tropas soviéticas em nenhuma circunstância.

A KGB aconselhou Taraki a matar Amin. Taraki tentou e falhou, porque a maioria dos radicais Khalki também era contra as tropas russas. Em vez disso, Amin mandou matar Taraki.

A resistência rural ainda crescia. Amin estendeu a mão para os americanos, pedindo seu apoio para contrabalançar os soviéticos. Os americanos recusaram. O governo soviético, com medo de que Amin conseguisse construir uma aliança com os americanos ou caísse nas mãos da insurgência, continuou tentando assassiná-lo. Nenhum comunista afegão no país faria isso por eles. Diante desse ataque violento, Amin valeu-se cada vez mais da crueldade, das prisões, da tortura e das execuções.

Os tanques soviéticos cruzaram a fronteira em 24 de dezembro de 1979. A Revolução Saur acabou. Os soviéticos atiraram em Amin e substituíram-no por Babrak Karmal, trazido do exílio em Moscou. As prisões começaram a se encher de Khalkis. Tudo o que os mulás e os islamitas educados diziam sobre os comunistas serem as ferramentas dos estrangeiros ateus se provou verdadeiro.

Na primavera de 1980, os protestos noturnos começaram na cidade de Herat, no oeste, se espalharam rapidamente para Kandahar, no sul, e depois para Cabul. Os funcionários públicos em Cabul, uma das bases comunistas mais fortes, entraram em greve contra a ocupação russa. Os alunos do colégio para meninas em Cabul, sempre partidários da libertação das mulheres e dos comunistas, reuniram-se no pátio e gritaram para que os homens do Afeganistão se levantassem contra o invasor.

Tudo o que os mulás e os islamitas educados diziam sobre os comunistas serem instrumentos de estrangeiros ateus foi provado verdadeiro.

Soldados viajam a bordo de um veículo de combate aerotransportado BMD soviético, 25 de março de 1986. Departamento de Defesa dos EUA / Wikimedia

A ocupação russa duraria oito anos, com base em tanques nas cidades e bombardeios aéreos pelo interior. Em uma população de vinte milhões, até um milhão foram mortos, outro milhão perdeu um membro e seis milhões foram levados ao exílio. Quando tudo acabou e os tanques soviéticos partiram, os senhores da guerra islâmicos assumiram o poder. O sonho do feminismo e do socialismo estava morto.

O efeito político foi o mesmo que teria sido nos Estados Unidos se os esquerdistas tivessem se aliado a um invasor para matar entre oito e quinze milhões de americanos com um bombardeio aéreo e levar noventa milhões ao exílio. As ideias de libertação das mulheres foram contaminadas.

Alguns dos comunistas eram cruéis por natureza. Outros eram como Tahir, pessoas decentes que queriam um mundo melhor. Assim que começaram a impor o socialismo contra a oposição da maioria, eles se perderam.

A ideia de que o comunismo ou socialismo exigia uma ditadura por uma minoria foi amplamente aceita entre os radicais nas décadas de 1960 e 1970. Karmal aprendera sua política na prisão em Cabul, Taraki aprendera a dele em Bombaim e Amin passara anos em Nova York. Os comunistas afegãos estavam simplesmente fazendo o que a esquerda globalmente sabia que deveria ser feito se realmente quisessem mudar o mundo. Sua tragédia é, de forma aguda e terrível, a mesma replicada em outros lugares.

Quando eu o conheci, os olhos de Tahir se encheram de lágrimas enquanto ele falava sobre a ignorância e o sofrimento dos aldeões que encontramos. Ele os entendia, os amava e sabia por que era tão difícil convencê-los. Há alguns anos, eu estava tomando uma cerveja com um amigo afegão em Londres e perguntei se ele conhecia Tahir. Sim, disse ele, um homem bom, gentil.

"Um Parchami", ele disse.

"Sim", eu disse, "um Parchami".

Meu amigo estava na prisão com Tahir em Jalalabad no outono de 1978, pouco antes da invasão soviética. Ele saiu, e Tahir não. Meu amigo não tinha informações definitivas, mas tinha certeza de que Tahir havia sido executado.

Espero que ele esteja errado. Eu sei que ele não estava.

Colaborador

Os livros de Jonathan Neale incluem A People's History of the Vietnam War, Tigers of the Snow, What's Wrong with America e Stop Global Warming. Ele bloga com Nancy Lindisfarne no Anne Bonny Pirate.

14 de maio de 2018

As apostas da Grande Marcha do Retorno

Por setenta anos, a violência israelense permeou todos os aspectos da vida dos palestinos. Mais uma vez, os palestinos estão resistindo.

Greg Shupak

Jacobin

Milhares de palestinos estão ao longo da fronteira com Israel, enquanto manifestações em massa continuam em 14 de maio de 2018, na Cidade de Gaza, em Gaza. Spencer Platt / Getty

Tradução / Em 14 de maio de 1948, setenta anos atrás, Israel lançou sua “declaração de independência”. Desde então, todo dia 15 de maio tem sido o Dia Nakba quando os palestinos marcam a limpeza étnica sofria por seu povo depois da criação de Israel. Este Dia Nakba foi marcado pela Grande Marcha do Retorno, uma grande mobilização em massa até a cerca que Israel ergueu para separar Gaza e Israel, para manifestar seu desejo de passar pela barreira. Até o momento, Israel já matou pelo menos 52 manifestantes palestinos, no que a Anistia Internacional chamou de “uma violação repugnante da lei internacional”, envolvendo “o que parecem ser assassinatos intencionais, que constituem crimes de guerra”.

Como outros estados coloniais, Israel pretende asfixiar a vida social das populações dos territórios ocupados que procura dominar. Esse imperativo é particularmente urgente no caso de Israel, onde as populações judias e não-judias são de tamanho equivalente e a terra em questão é relativamente pequena. A negação discriminatória de direitos estende-se aos palestinos em outros países - são cidadãos de segunda classe em Israel, sob ocupação, na diáspora ou em campos de refugiados. Todos são impedidos de retornar às suas casas através do uso da violência e com a ajuda decisiva dos EUA.

A mensagem inconfundível para os palestinos de todas as gerações, desde antes da Nakba até a Grande Marcha de Retorno, é que a menor resistência ao etnoestado erigido em sua terra natal será combatido com prisões e mortes.

Anatomia da repressão

A violência israelense permeia todos os aspectos da vida dos palestinos, com estratégias de controle que assumiram uma variedade de formas ao longo do tempo. Para criar o Estado em 1948, as forças sionistas expulsaram 750.000 palestinos de suas casas. No processo, realizaram cerca de dez massacres em grande escala, cada um com pelo menos cinquenta vítimas, juntamente com cerca de cem massacres menores. As forças dos paramilitares israelenses mataram palestinos em quase todas as suas aldeias, despejando repetidamente os corpos das vítimas em covas, antes da oficialização do Estado de Israel. Em várias ocasiões, milícias sionistas mataram crianças e estupraram mulheres palestinas.

Atrocidades semelhantes continuaram nos primeiros anos do Estado de Israel. Em 1953, as forças israelenses massacraram 69 aldeões palestinos em Qibya, depois de alegarem “infiltração” do território israelense por refugiados palestinos. Durante o conflito de Suez, três anos depois, eles mataram 48 trabalhadores palestinos em Kafr Kassim; 275 civis palestinos em Khan Yunis e num campo de refugiados próximo; em seguida, mais 111 palestinos no campo de refugiados de Rafah.

Depois de 1967, com o estado de Israel consolidado, o governo começou a perseguir o que Tariq Dana e Ali Jarbawi chamam de “sonho de uma ‘Grande Israel’ com o máximo de terra e o mínimo de árabes”. Mais de 350.000 palestinos foram expulsos de suas casas, enquanto Israel ocupava a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental (assim como as Colinas de Golan da Síria e o Sinai do Egito). Quase 600.000 colonos adentraram ilegalmente nos territórios ocupados com o apoio do Estado. E os massacres de palestinos em Israel continuaram desde então: no verão de 2014, Israel matou 2.251 palestinos – incluindo 1.462 civis e 556 crianças – durante a fúria assassina chamada Operação Margem Protetora. Como observou o estudioso canadense Nahla Abdo, a violência dos palestinos deve ser vista no contexto dessa “relação assimétrica” entre os dois lados.

Enquanto isso, aos palestinos nos territórios ocupados é sistematicamente negado o devido a processo legal: mantidos sem julgamento em detenções administrativas ou submetidos a processos militares e rotineiramente torturados. Tal tratamento estende-se às crianças palestinas, sujeitas a práticas que, nas palavras da UNICEF, “resultam em tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante, de acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção contra a Tortura”, incluindo ameaças de “morte, violência física, confinamento solitário e agressão sexual, contra si mesmos ou um membro da família”. Atualmente, existem mais de 6.000 presos políticos palestinos em prisões israelenses.

Quando os palestinos não estão sendo algemados, torturados, bombardeados ou abatidos, eles vivem sob a ameaça contínua de tais ações. Depois da guerra de 1967, Israel estabeleceu um regime para examinar tudo, desde oficinas palestinas que fabricam móveis, sabão, tecidos, produtos de azeitonas e doces, até listar quantos televisores, refrigeradores, fogões a gás, pomares, animais e tratores os palestinos possuem, muitas vezes censurando livros, romances, filmes, jornais e panfletos políticos.

Expropriação econômica

A violência econômica – a expropriação da riqueza palestina e a destruição da capacidade dos palestinos de se sustentarem – marcou o tratamento de Israel aos palestinos desde o início do Estado israelense. Nos anos imediatamente posteriores a 1948, Israel adotou políticas destinadas a confiscar e controlar a terra palestina, destacadamente com a Lei da Propriedade Desocupada de 1950, pela qual Israel garantiu para si 90% da terra, designando como “desocupada” toda terra que os palestinos tivessem sido obrigados a abandoar devido repartição conduzida pelas Nações Unidas em 1947.

Os assentamentos israelenses são construídos em áreas ricas em recursos, projetados para explorar a água palestina e a terra arável – uma política que aumenta os recursos de Israel e priva os palestinos de desenvolvimento econômico. Após a ocupação de 1967, Israel construiu um regime econômico destinado a incorporar a economia palestina à economia de Israel, tornando seu governo colonial um empreendimento barato e, ao mesmo tempo, frustrando o desenvolvimento econômico palestino. Entre as medidas adotadas estavam o fechamento de instituições financeiras e monetárias árabes, a imposição da moeda israelense, a proibição de exportações e importações, exceto através de fronteiras controladas por Israel, a imposição de altos impostos (alfândega, imposto de renda, IVA), quase nenhum investimento em infraestrutura nas áreas palestinas, licenciamento restrito para atividades industriais e controle sobre comunicações, recursos de eletricidade, água e recursos naturais. As políticas israelenses transformaram o mercado palestino num mercado cativo, que se tornou um conveniente lixão para produtos industriais israelenses de má qualidade que não podiam competir com os fabricantes dos países industrializados da Europa e EUA. Isso não só trouxe grande lucro para a economia israelense, mas igualmente formou uma nova classe de capitalistas israelenses, cujas principais atividades industriais foram projetadas para os territórios ocupados.

Assim, as políticas israelenses provocaram uma deterioração da base econômica palestina e criaram uma dependência estrutural à economia de Israel, na medida em que o Estado ocupante controla os principais pontos nodais da atividade econômica, como fronteiras, terras, recursos naturais, comércio, movimentação de mão-de-obra, gestão fiscal e zoneamento industrial. Por mais de uma década, além disso, um brutal cerco militar combinado entre EUA e Israel e o Egito dizimou Gaza, a ponto de em breve a região ser inabitável. Militares e colonos de Israel arrancaram centenas de milhares de oliveiras palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e nos primeiros anos do milênio o exército israelense arrasou quatro milhões de metros quadrados de terra cultivada.

A Grande Marcha do Retorno

Desde o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março, Israel matou dezenas de palestinos e feriu quase 4.000. Nenhum israelenses foi morto ou ferido. O poder da Marcha é que ela chama a atenção para a ilegitimidade de manter artificialmente uma maioria demográfica judaica na Palestina histórica. Enquanto massas de palestinos aproximam-se da cerca entre Gaza e Israel, os manifestantes personificam a “ameaça” de palestinos retornando a seus lares e vivendo em uma Palestina-Israel que não pode ter como premissa manter os palestinos fora e perpetuamente apátridas -como refugiados ou como uma minoria oprimida dentro de Israel.

Os manifestantes estão, em suma, tentando afirmar, pelo menos temporária e simbolicamente, seu direito à sua terra, identidade, nacionalidade, liberdade -o que as negociações com Israel e seu patrono norte-americano não produziram até hoje.

Colaborador

Greg Shupak leciona estudos de mídia na Universidade de Guelph, no Canadá. Ele é o autor de The Wrong Story: Palestine, Israel, and the Media (OR Books).

12 de maio de 2018

A morte de uma classe

O ilustre cineasta marxista italiano Bernardo Bertolucci morreu na semana passada. Seus filmes exploraram a morte da burguesia; seu legado nos aponta para a morte do autor masculino chauvinista.

Luca Peretti

Jacobin

Bernardo Bertolucci em 1990. Wikimedia Commons.

Tradução / Bernardo Bertolucci foi o último dos mestres do cinema italiano, parte de um grupo intergeracional de diretores que estreou entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o boom econômico da Itália, no início dos anos 60. Em cinco décadas, Bertolucci teceu uma complexa ligação entre o local (particularmente Parma, onde ele nasceu e Roma) e o global e transnacional. Ele fez filmes em diferentes continentes, desde produções de baixo orçamento a Hollywood, tendo enorme sucesso de público e de crítica.

Mas Bertolucci não era um mero observador e narrador da história que se desenrolava na Itália, ou mesmo no passado do país. Em vez disso, numa época em que os filmes tinham muita importância, ele mesmo influenciou a história, quer “antecipando” 1968 (com o filme “Antes da Revolução”, de 1964); ou analisando consequências de um mundo cada vez mais dependente do petróleo (“La via del petrolio”, 1965), ou lidando com o legado complexo e não resolvido do fascismo na Itália (“O Conformista” e “The Spider’s Stratagem”, ambos de 1970).

Próximo dos movimentos da esquerda da década de 1960 e, depois de 1968, como membro do Partido Comunista Italiano (PCI), Bertolucci não pode ser definido como um diretor militante. Com algumas exceções, ele não fez filmes sobre política. Com o seu falecimento, podemos começar a avaliar com maior distância crítica uma certa tendência de fazer, assistir e entender o próprio cinema.

Uma educação

Bertolucci veio de um contexto burguês. Ele era filho do poeta Attilio Bertolucci e irmão do talentoso e ainda negligenciado cineasta Giuseppe Bertolucci. Em uma entrevista ele observou que “como todas as crianças, assim que aprendi a escrever, tentei imitar meu pai. E assim, de acordo com o costume antigo da burguesia, de acordo com o qual o filho de um advogado se torna advogado, o filho de um engenheiro trabalha como engenheiro, o filho de um poeta tinha que ser poeta”.

Como poeta, em 1962 ele ganhou um dos mais importantes prêmios literários italianos, o Prêmio Viareggio, com o livro “In cerca del mistero” (“Procurando pelo mistério”). Mas então, “parei de escrever poesia. Não pude continuar. Pareceu-me não ter encontrado minha identidade. Então, a procurei em outra área da esfera da expressão estética”. Muitos dos filmes de Bertolucci apresentam simbólicos assassinatos de pai: sua própria decisão de trocar a poesia pelo cinema foi, em certo sentido, a primeira deles.

Na década de 1960, o nome de Bertolucci estava fortemente ligado a dois outros mestres do cinema, Jean-Luc Godard e Pier Paolo Pasolini, aos quais ele se referiu como dois “pais putativos”. De fato, sua primeira experiência real no set foi como assistente de direção. No primeiro filme de Pasolini, “Accattone” (no Brasil, “Accattone – Desajuste Social”), e em seu próprio filme de estréia, “The Grim Reaper”, baseado em um pequeno roteiro de Pasolini, que era seu vizinho no distrito de Monteverde, em Roma, e amigo íntimo de seu pai. Bertolucci afirmaria mais tarde que o filme está “longe daqueles que Pier Paolo fez”, mas este filme de estréia forte e sombrio, sobre a investigação do assassinato de uma prostituta, ambientado no submundo romano – a crescente periferia da capital italiana em meio ao boom econômico do país – pode realmente ser chamado “pasoliniano”.

Como disse numa de suas últimas entrevistas, “quando dirigi ‘The Grim Reaper’, eu certamente era o mais novo da trupe. Estava dormindo em um quarto com meu irmão, ele acordava e ia para a escola, e eu iria para o set.” Este conjunto deve ter sido bastante estranho para um intelectual bem-educado, nascido em uma província do norte, tranquila, e criado em Roma”; a foto agora icônica de um jovem Bertolucci de terno e gravata, sentado perto de um Pasolini aparentemente elegante em um subúrbio romano, parece testemunhar isso.

No entanto, Bertolucci conseguiu realisticamente fazer um filme surpreendentemente maduro para um diretor inexperiente, de 21 anos de idade. Este primeiro filme é parte de um pequeno cânone de filmes pasolinianos sobre os subúrbios romanos, rodados entre o final da década de 1950 e o início da década de 1960, que hoje ainda são assistidos e discutidos, incluindo o próprio “Accattone” e “Mamma Roma”, de Pasolini, “La notte brava”, de Mauro Bolognini, e “Una vita violenta”, de Paolo Heusch e Brunello Rondi, baseado no romance homônimo de Pasolini. Com o “Grim Reaper”, o nome e a obra de Bertolucci chegaram ao mapa, juntando-se a uma nova onda de jovens diretores europeus que estavam mudando a linguagem e o estilo do cinema. O mais importante deles continua sendo Jean-Luc Godard, outro pai putativo de Bertolucci.

Se seu primeiro filme foi o pasoliniano, seu último filme daquela década – “Partner” (“Parceiro”), lançado em 1968 – é quintessencialmente godardiano. Um filme bizarro e exagerado que relata a vida rotineira e frustrada de Giacobbe (o ator é o francês Pierre Clementi), que encontra um doppelgänger (duplo ambulante, em tradução livre) que gradualmente toma seu lugar. O próprio Bertolucci posteriormente rejeitou esse filme, reconhecendo o fracasso de sua tentativa de adequar seu próprio estilo ao de seu amigo e mentor francês. Visto hoje, “Parceiro”, se é datado, também parece ser um teste interessante em um ano de experimentos.

Não é de admirar que no filme seguinte, "O Conformista" - possivelmente o primeiro filme verdadeiramente bertoluciano - ele tenha matado simbolicamente seu suposto pai. No filme Quadri, um professor antifascista exilado na França é morto por um de seus ex-alunos, que se tornou fascista- e Bertolucci deu a esse personagem assassinado o endereço residencial verdadeiro de Godard. Se, assim, ele tentava atacar por conta própria, em 1983, Bertolucci prestou uma homenagem incomum a seu mentor, quando ele era presidente do júri do Festival de Cinema de Veneza.

Tornando o júri a favor de Godard, ele disse a seus colegas da New Wave: “Em nosso primeiro encontro eu disse a eles: ‘Vocês estão aqui comigo para dar o Leão de Ouro a Jean-Luc Godard. Não importa como é o filme dele, agradeceremos a ele por existir. Vamos discutir os outros prêmios, mas o Leão de Ouro já está dado’... Esta foi uma pequena operação de ‘máfia’ cultural da qual eu ainda estou muito orgulhoso.” Abuso de poder de lado, este episódio condensou um dos principais componentes da abordagem cinematográfica: o autor vem antes dos filmes únicos; a obra deve ser defendida e valorizada. “Prénom Carmen”, o filme de Godard que acabou ganhando aquele festival, dificilmente é o melhor do diretor francês.

Do petróleo à política

Entre seus trabalhos pasolinianos e godardianos, Bertolucci fez dois filmes que evidenciaram sua capacidade de falar e de diferenciar círculos eleitorais, mundos, lugares e pessoas: “Antes da Revolução”, o filme de 1964 que realmente o tornou conhecido e amplamente discutido (especialmente no exterior, graças aos influentes “Cahiers du cinema”), e “The Path of Oil” (O Caminho do Petróleo”), um filme geralmente negligenciado que recentemente foi redescoberto graças principalmente à Petroculture e aos ambientalistas. Esses dois filmes já apresentavam uma série de temas que retornariam ao longo de sua carreira, como a oscilação entre uma abordagem local e global da cultura e do cinema que caracterizava o cinema de Bertolucci.

“Antes da Revolução” é a história de um jovem problemático em Parma que tem problemas em conciliar sua militância política e suas origens burguesas. Junto com “Fists in the Pocket” (1965), de Marco Bellocchio, este trabalho é visto como um precursor de 1968. Um filme político, então – uma intervenção no clima rígido de uma pequena província italiana, com um forte Partido Comunista. Mas também um filme muito autobiográfico, como ele contou em uma entrevista para os “Cahiers du cinema”:

“Eu precisava exorcizar certos medos. Eu era marxista com todo o amor, toda a paixão e todo o desespero de um burguês que escolhe o marxismo. Naturalmente, em todo marxista burguês, que é conscientemente marxista, devo dizer, há sempre o medo de ser sugado de volta para o meio de que ele saiu, porque ele nasceu e as raízes são tão profundas que um jovem burguês acha muito difícil ser marxista”.

Alguns anos depois, ele reconheceu em outra entrevista que esse tema seria exibido em seus filmes:

A dor e o sofrimento de ser burguês. O sentimento de pertencer a uma classe moribunda, um culpado sem um amanhã. Assim, eu queria ter um fechamento desse assunto. Mas não tive sucesso, então esse assunto me perseguiu, continua em “Agonia” [o episódio do filme coletivo “Love and Anger”, 1969], em “Partners”, em “The Spider’s Stratagem”, e até mesmo em “The Conformist”. São todos filmes sobre a morte da classe burguesa.

Por outro lado, “The Path of Oil” segue a jornada do petróleo, dos poços nas montanhas persas até uma grande refinaria na Alemanha. Único documentário que Bertolucci produziu, o filme foi patrocinado pela estatal italiana ENI, cuja revista interna foi editada por seu pai Attilio. A ENI, cujo presidente carismático Enrico Mattei, foi morto em circunstâncias misteriosas em 1962, foi uma das protagonistas do boom econômico que transformou a Itália de uma grande área agrícola em um dos países mais industrializados do mundo.

A ENI também era muito ativa no exterior e tinha importantes investimentos em países recém descolonizados, como Irã e Argélia, em oposição direta e aberta às Sete Irmãs (as companhias petrolíferas mais importantes da época) e, portanto, aos Estados Unidos, França, e aos interesses britânicos no Oriente Médio e na África.

Quando os Bertoluccis – Bernardo e seu primo Giovanni, que trabalhava como produtor do filme – solicitaram vistos iranianos para seus passaportes, ainda eram descritos como “estudantes”. No entanto, eles deveriam desempenhar um papel importante ao relatar o trabalho de uma empresa pública no transporte de petróleo do Irã para o Egito de Nasser, através do Mar Mediterrâneo, e para a Baviera, o coração de uma Europa unificada.

Normalmente, completamente ignorado, “The Path of Oil” é possivelmente o filme mais pessoal de Bertolucci: repetidamente ouvimos sua voz, e viajamos com ele claramente em busca de algo – não apenas para óleo, mas para um estilo cinematográfico e para uma voz como cineasta, experimentando estilos e formatos. E mesmo no exterior, ele procurou sua casa: os trabalhadores com quem fala na distante Pérsia vieram do Vale do Pó, sua própria região, para trabalhar para a ENI em vários locais do mundo. Ele descreve a população local com um olho curioso, apaixonado, mas ainda assim eurocêntrico, que também está discutivelmente presente em seus filmes posteriores na Ásia e na África. Como ele disse em uma entrevista de 2000:

“hoje ainda sou grato por esse trabalho, pois desencadeou em mim o prazer de viajar. Foi minha primeira jornada real. Descobri que existiam outras culturas e imediatamente me apaixonei por elas. Esse sentimento tem estado comigo desde então, na China, no Saara, na Índia... e tem sido um elemento fundamental da minha produção artística.”

Bertolucci como marxista

A relação de Bertolucci com o Partido Comunista Italiano (PCI) e com a esquerda em geral raramente é investigada, se é que é mencionada. Ele era um marxista autodeclarado, próximo dos movimentos de esquerda e por algum tempo também foi membro do PCI. Tornou-se membro de carteirinha após o Maio de 1968, em certo sentido porque sentiu o fracasso de 1968: “Tornei-me membro porque compreendi a estreiteza dos eventos de maio... Eu senti nos intelectuais, nos cineastas, nos meus amigos uma espécie de grande onda anticomunista, mascarada com um anticomunismo de esquerda, mas muito perigoso”.

Tal reação correspondia ao fato de que o PCI nem sempre tomava o lado dos novos movimentos; muitos grupos e organizações contestaram abertamente a linha partidária, sua estratégia reformista e sua perspectiva paternalista.

Para Bertolucci, esse período também trouxe a consciência de que o cinema não é uma arma revolucionária. Ele agora começou a trabalhar nos termos de uma forma de arte burguesa, emancipando-se do cinema d’essai (ou cinemas de arte, que se tornaram “guetos para o cinema de autor”) a fim de encontrar uma “relação dialética com um público mais amplo”. Isso poderia ser visto como uma posição reacionária, especialmente na Europa pós-1968, mas podemos perguntar se o cinema mainstream mudou o marxista burguês Bertolucci, ou se era ele quem estava mudando o cinema convencional.

Bertolucci permaneceu próximo ao Partido Comunista. Em 1984, quando o líder eurocomunista do PCI Enrico Berlinguer morreu, ele estava entre os muitos cineastas que prestaram homenagem no Addio Berlinguer (Adeus Berlinguer). Já em 1971 havia feito dois filmes para a produtora do partido Unitelefilm: “La saute è malata”, filme sobre as condições dos hospitais na Itália, filmado nas seções do PCI e entre trabalhadores e sindicalistas e, junto com seu irmão, Franco Arcalli e Marlisa Trombetta, “I poveri muiono prima” (“Os pobres morrem primeiro”), que usa algumas das mesmas imagens do filme anterior, mas se concentra apenas em Roma.

Dois filmes tipicamente militantes, do tipo que muitos diretores famosos e desconhecidos estavam fazendo na época, “mostrados nas ruas, usando paredes como telas”, como ele contou. Estas foram pequenas exceções na carreira de um homem que estava interessado em fazer filmes de uma maneira política, e não política.

O relacionamento de Bertolucci com o PCI nem sempre foi otimista. A velha guarda do partido teve uma reação hostil ao “Novecento” (1900) (a palavra italiana também significa “século XX”), a saga de Bertolucci sobre a primeira metade do século passado. Líderes do PCI, como Giorgio Amendola e Gian Carlo Pajetta, condenaram o filme, desafiando uma das características estilísticas mais importantes de Bertolucci: a mistura de realismo e ideologia com uma inspiração poética. Eles não gostaram do filme mostrando um filho de camponês sendo amigo do filho do senhor, ou mesmo do fato de corpos estranhos (Robert De Niro, Gérard Depardieu, Burt Lancaster, Donald Sutherland, Dominique Sanda) interpretarem camponeses italianos.

Embora Bertolucci fosse definitivamente um narrador, ele não era um narrador da experiência da classe trabalhadora ou uma voz da esquerda que contava a história da esquerda. Acreditando que “o homem comum era fascista”, ele narrava a vida de “pessoas comuns que são conscientes de serem medianas, e ficam desconfortáveis por estarem cientes disso”, como ele disse à “Rolling Stone” numa entrevista em 1973. Isto é especialmente verdadeiro para os dois filmes que lidam mais diretamente com o passado fascista da Itália, “The Conformist” e “The Spider’s Stratagem”, ambos baseados em fontes literárias (Moravia e Borges, respectivamente), e cada um altamente influenciado pela psicanálise.

Se em “O Conformista” vemos como o fascismo penetrou na alma nacional italiana, identidade e até mesmo nas roupas, em “A Estratagema da Aranha” encontramos uma das mais claras representações em seus filmes do que ele quis dizer com a ideia de que o homem comum é fascista. Em uma cena profética, vemos um grupo de antifascistas tramando um ataque improvável contra Mussolini, que deve visitar a cidade na ocasião da abertura do teatro local.

Enquanto os outros fantasiam sobre como matar o Duce, um dos personagens realista e profeticamente diz “lembre-se, o fascismo continuará, o fascismo já está dentro das pessoas”, ao que Magnani, o protagonista, responde “por isso, temos que matar ele.” Aqui, Mussolini ainda era outro pai para ser morto, embora em vez disso (sem estragar o final...) parece que o fascismo mata o próprio pai de Magnani. Mesmo enquanto tentava se globalizar, nesse período Bertolucci continuava sendo um diretor ligado às suas próprias raízes.

Um apartamento em Paris

A partir de 1972, ano do “Último Tango em Paris”, Bertolucci tornou-se outra coisa: um autor autenticamente global, talvez o único realmente. O único autor que poderia fazer filmes com atores de Hollywood, extras chineses, monges budistas tibetanos, filas de camelo e, mais tarde em sua vida e carreira, voltar para os pequenos apartamentos romanos de “Besieged” (1998) e “Me and You” (2012) ou 1968 em Paris, em “The Dreamers”.

A história do encontro entre dois estranhos na capital francesa, “Último Tango em Paris”, tornou-se um culto instantâneo e causou polêmica instantaneamente, com a censura e cópias dos filmes sendo fisicamente apreendidos e queimados. Essa capacidade de chocar mal ainda existe, agora que sequências muito mais chocantes estão disponíveis gratuitamente on-line. No entanto, o filme ainda causa controvérsia, e nos últimos tempos a atriz Maria Schneider descreveu a famosa cena de estupro como uma experiência traumática, acusando o ator Marlon Brando e o próprio Bertolucci de cumplicidade.

Os diretores dos filmes que influenciaram o mundo cinéfilo na Europa do pós-guerra estão quase todos mortos. Sua compreensão eurocêntrica do cinema, em grande parte masculina, também está sob ataque. Não há espaço, aqui, para negação ou mera nostalgia.

Em uma famosa entrevista de 2007, Schneider explicou: “Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, apesar de Marlon não ser real, eu estava chorando de verdade. lágrimas” e, além disso, “me senti humilhada e, para ser honesta, me senti um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou nem pediu desculpas. Felizmente, havia apenas um take”.

As respostas do diretor foram insensíveis. Ele contou, brincando, como eles (dois homens mais velhos) tiveram a ideia de usar manteiga: “Estava no roteiro que ele tinha que estuprá-la de alguma forma. E estávamos tomando café da manhã com Marlon no chão do apartamento onde estávamos filmando. E havia uma baguete e havia manteiga, e nos entreolhamos e, sem dizer nada, sabíamos o que queríamos”.

Em 2003, ele afirmou que não contou a Schneider “o que estava acontecendo, porque eu queria a reação dela como mulher, não como atriz. Eu queria que ela reagisse humilhada”, e em maio passado (em uma entrevista para o italiano Wired), ele se defendeu de maneira bizarra e contorcida: “É uma história triste, porque ela não está mais entre nós e eu ainda estou. Um dia, talvez, eu desenterre uma entrevista que Maria Schneider deu ao The New York Times em 1973, onde fala sobre si mesma e disse que é lésbica e heterossexual, e lista com precisão o número de homens e mulheres com quem ela dormiu... Se for necessário, eu a publicarei, para que eles possam parar de me ligar com essas notícias falsas”.

Claro, a entrevista de Schneider está prontamente disponível no site do New York Times; seu número de parceiros sexuais claramente não é justificativa alguma para as ações de Bertolucci.

A controvérsia sobre essa cena não é uma consequência do movimento #MeToo, como alguns críticos têm sugerido em tentativas de retratar essa discussão como inoportuna e desrespeitosa com a morte do artista. Em seu obituário para o NYT, Dennis Lim (diretor de programação da Film Society of Lincoln Center, uma das mais importantes instituições cinematográficas do mundo) observou como logo após o lançamento do “Último Tango em Paris”,citando a abundância de nudez feminina, Judith Crist, escrevendo na revista New York Times, colocou-a na “tradição machista-chauvinista”. Grace Glueck, no The New York Times, descartou-a como “a perfeita novela macho”. Pode-se concordar ou não com tais declarações , mas eles existiram.

Se na época o filme foi atacado por conservadores, também pode ser criticado hoje com diferentes ferramentas. Como Malvina Giordana escreve em Dinamopress, “a questão não é colocar o filme e seu autor sob julgamento, como em 1973, mas recontar o custo silenciosamente pago por uma jovem que permaneceu oprimida pelo peso de sua imagem obtida sem permissão...” Aprendemos com os movimentos feministas que a falta de consentimento é violência. Não deveria haver realmente nada para acrescentar.

Se dificilmente será útil reduzir cinquenta anos de uma carreira complexa, heterogênea e multifacetada a uma única cena, não deixa de ser inegável que esse episódio, e o tratamento que Bertolucci faz de Maria Schneider em geral, acabará com seu legado para sempre. Este legado – e o legado de uma certa tendência de autor masculina – é o que as necessidades precisam enfrentar; questionar a “normalidade” do abuso no set e, na verdade, a ideia de que um diretor deve poder fazer o que quiser (sem pedir consentimento) por causa de seu gênio real ou pretendido.

Volta ao mundo e retorno à Itália

O sucesso de o “Último Tango em Paris” permitiu a Bertolucci fazer um filme de mais de cinco horas, como “1900”, no qual “as bandeiras vermelhas [do filme] eram pagas por dólares americanos, uma situação de êxtase... “1900” é um épico único, onde Bertolucci recuperou “o tipo de épico “Gone with the Wind” (“... E o vento levou...”), filtrando-o através do estilo de Visconti (“The Leopard”), o exemplo de Sergio Leone, mas com uma agitação incongruente e estranha – as bandeiras vermelhas no final, como escreve o crítico Gabriele Gimmelli.

Mas a investigação de Bertolucci sobre a história recente e antiga da Itália continuou. No início dos anos 80, com o filme “Tragédia de um homem ridículo”, Bertolucci foi um dos poucos diretores que tentaram chegar a um acordo com os “anos de chumbo”, a turbulência política que durou de 1969 até o começo dos anos 80, muitas vezes descrito como uma guerra civil de baixa intensidade.

Situado perto de sua terra natal, Parma, o filme retrata o sequestro do filho do dono de uma fábrica de queijos (interpretado por Ugo Tognazzi). Fazer filmes sobre esse assunto era, de fato, muito difícil, pois enquanto a maior parte do mundo cultural de esquerda havia condenado a violência de grupos como as Brigadas Vermelhas, de extrema esquerda, a questão permanecia em estado bruto. Figuras deste meio – inclusive cineastas – ficaram chocadas ao descobrir quantos dos envolvidos eram ex-companheiros do PCI, pessoas com quem eles tinham compartilhado suas vidas e lutas – o que Rossana Rossanda chamou de “o álbum de família”.

A trilogia que ele dirigiu entre o final da década de 1980 – “O Último Imperador”, “O Céu Que Nos Protege” (ambientado em uma comunidade de viajantes / expatriados no Norte da África após a Segunda Guerra Mundial) e “Little Buddha” ( “O pequeno Buda”) – faria dele um autor verdadeiramente global , como atestam os nove prêmios da Academia obtidos por seu filme sobre o último imperador da China.

Tanto “Stealing Beauty” (1996, sobre uma garota americana que chega a uma vila habitada por um grupo heterogêneo de pessoas na Toscana) quanto “La Luna” (1979, mãe e filho que se mudam do Brooklyn para Roma) também são filmes transnacionais com um elenco internacional, enquanto no pouco discutido “Besieged” (1998) uma certa visão eurocêntrica emerge mais claramente, com a África aparecendo centralmente no enredo, mas apenas como um pano de fundo sem traços.

Suas experiências com o “outro” não eram todas tão desajeitadas (para usar um eufemismo). Na última cena de “O Último Imperador”, por exemplo, ele magnificamente captura o mundo que está prestes a mudar drasticamente. Por mais de duas horas, vemos Pu Yi evoluindo através dos eventos do século XX, de tornar-se imperador aos três anos de idade, até morrer sob o comunismo, como jardineiro, em 1967.

No final do filme, rodado na Cidade Proibida, vemos Pu Yi como um jardineiro dizer a um jovem pioneiro que ele também morava na Cidade Proibida. As duas Chinas, a tradicional e a “nova” China comunista, coexistem nessa cena. Mas então, com um corte rápido, estamos repentinamente no final dos anos 80, e vemos um guia turístico gritando: a Cidade Proibida é mercantilizada, já que o capitalismo está prestes a varrer tanto o mundo comunista quanto a velha China tradicional.

Adeus Novecento

Após a morte de Bertolucci, o histórico jornal diário esquerdista Il Manifesto publicou uma de suas capas icônicas com o rosto de Bertolucci e as palavras “Adeus Novecento”. O adeus de Bertolucci no século passado foi provavelmente “The Dreamers”, seu filme de 2003 ambientado em uma das chaves do século: os eventos de maio de 1968 em Paris. Os acontecimentos que se desenrolam nas ruas da capital francesa são, no entanto, o pano de fundo e não o centro da ação, que é um pastiche erótico ambientado num apartamento com três jovens e belos protagonistas, com uma citação direta e lúdica de Godard e muitos outros.

A cena final do filme é uma das mais autênticas e genuinamente políticas na obra de Bertolucci, e reflete sua própria perspectiva político-poética. No final, o trio finalmente sai do apartamento onde os vemos ao longo de todo o filme e desce para as ruas. O personagem interpretado por Louis Garrel (o filho de Philippe, um dos principais diretores franceses) quer lançar um coquetel molotov na polícia francesa, mas seu amigo tentou detê-lo, argumentando que é errado, enquanto Garrel responde: Não, isso é maravilhoso!... É maravilhoso.” Não é certo ou errado, mas esteticamente bonito, algo para admirar – o coquetel Molotov fugaz. Para Bertolucci, e possivelmente para os que estavam nos cinemas protestando contra a “guerra ao terror” global no momento do lançamento do filme, o cinema foi finalmente uma arma outra vez.

Com a morte de Bertolucci podemos dizer adeus ao Novecento, e também questionar radicalmente a ideia do autor no cinema. Apenas o padrinho (Godard) e a madrinha (Agnès Varda) dessas novas ondas ainda estão conosco, sobrevivendo ao longo do tempo e mudando.

Mas Bertolucci foi verdadeiramente um dos últimos autores do cinema global. Ainda há autores e livros estão sendo publicados sobre o auto-empreendimento no novo século, mas eles não são expressões do momento histórico em que o conceito de autor surgiu.

Os diretores dos filmes que influenciaram e geraram o mundo cinéfilo na Europa do pós-guerra (essencialmente na Itália e na França) estão mortos, ou perto disso. Sua compreensão eurocêntrica do cinema, em grande parte masculina, também está sob ataque. Não há espaço, aqui, para negação ou mera nostalgia. Uma problematização do trabalho de Bertolucci e uma análise crítica do papel desempenhado pelo autor, nos permitem rediscutir o mundo cultural das décadas do pós-guerra.

Sobre o autor

Luca Peretti é professor visitante na Ohio State University, nos Estados Unidos. Ele pesquisa sobre a mídia italiana, a história do cinema e a história cultural italiana. Ele é co-editor do livro Pier Paolo Pasolini, Framed and Unframed: A Thinker for the Twenty-First Century.

10 de maio de 2018

Contra a "anticorrupção"

Se a esquerda fala sério sobre usar o poder do Estado e transformá-lo, ela precisa ir além de uma compreensão moralista da corrupção.

Benjamin Fogel

Jacobin

Um brinquedo mostrando Lula com um macacão de prisioneiro em um protesto contra o Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro, Brasil, em 2016. José Roitberg / Flickr

Tradução / A luta contra a corrupção tornou-se um tema definidor da política contemporânea. Todo mundo, desde o Banco Mundial até Donald Trump, dizem ser necessário limpar o pântano e expulsar os malfeitores do poder. Contudo, do golpe que derrubou a ex-presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, à campanha assassina do filipino Rodrigo Duterte contra supostos criminosos, o discurso “anti-corrupção” assumiu tonalidades nitidamente reacionárias.

A esquerda tem penado para oferecer uma resposta coerente para este problema, especialmente quando as políticas “anti-corrupção” são mobilizadas contra governos progressistas. Ela tem muitas vezes dispensado a corrupção como uma mera expressão mais aparente do capitalismo, que não precisaria ser abordada nos seus próprios termos; frequentemente tem tratado alegações de infrações como nada mais que uma campanha difamatória da direita; ou pior, tem se juntado de forma oportunista com a retórica anti-corrupção da direita.

No entanto, se a esquerda fala sério sobre empunhar e transformar o poder do Estado, ela precisa ir além de uma compreensão moralista dessa questão. Ninguém poderia argumentar razoavelmente “à favor” da corrupção. No entanto, é somente compreendendo adequadamente as fontes desse mal e as razões de sua relevância contínua que podemos abordá-lo como um problema político.

O que é corrupção?

A corrupção tende a prosperar em meio a uma cultura de impunidade e um baixo grau de desenvolvimento. Na Era moderna, os remanescentes de oligarquias pré-capitalistas que perpetuam fontes personalizadas de poder são uma importante fonte de corrupção nas relações entre Estado e Capital. Mas essa tendência é reforçada sempre que os movimentos de massa não são poderosos o suficiente para forçar as elites a ter de responder e prestar contas à sociedade. Precisamente por essa razão, a corrupção não é o destino inevitável de nações empobrecidas ou pecadoras, mas um produto de forças históricas e de lutas de classes específicas.

De fato, a própria noção de corrupção tem mudado ao longo do tempo. Essa categoria tem sido central para o pensamento e a prática política há milênios, ocupando um lugar central em obras desde os Discursos Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, de Nicolau Maquiavel, até As Paixões e os Interesses, de Alfred Hirschman. A teoria política clássica enxergava a corrupção como um processo predeterminado que faz com que as instituições se degenerem, a menos que algo intervenha para promover a sua renovação. Na tradição filosófica republicana, a corrupção enfraqueceria a saúde moral da sociedade como um todo; a luta contra ela exigiria, assim, um retorno à “virtude cívica” através de um projeto político comum.

Isso diverge da definição de corrupção usada atualmente na política anticorrupção promovida por instituições internacionais como o Banco Mundial, que a define como “comportamento (s) que quebra(m) as regras que regem os agentes públicos no que diz respeito à busca de interesses privados, tais como riqueza, poder ou status.” Curiosamente, esta definição negligencia os atores não-estatais que geralmente estão envolvidos em tais trocas corruptas – o empresário corrupto tentando influenciar um formulador de políticas públicas através de suborno é deixado de lado, pois ele é reduzido a um papel meramente passivo. Mas essa mudança nas definições de corrupção reflete um movimento mais amplo na compreensão da política, deixando para trás uma visão dela como uma esfera de paixões e de virtude cívica por outra que a vê como não mais do que um terreno de interesses concorrentes.

Na verdade, a corrupção é mais do que simplesmente um conjunto de trocas ilícitas. Mais do que isso, é uma estratégia política que interesses específicos utilizam para capturar ou influenciar instituições ou o Estado. É, em essência, a privatização da vida pública.

Para constatar isso, precisamos apenas dar uma olhada no exemplo recente dos Guptas, um clã indiano de negócios que conseguiu capturar o Estado sul-africano. Com a ajuda do ex-presidente Jacob Zuma (que eles haviam comprado), os Guptas puderam dirigir as nomeações do governo, a estratégia de licitações e os orçamentos do Estado para canalizar fundos públicos para seus cofres privados.

De fato, os atores privados não são apenas agentes passivos que sofrem com a corrupção – eles a geram ativamente. Isso varia desde empresários subornando políticos para votar pela desregulamentação de um setor até atividades possivelmente não-ilegais, como a “porta giratória” entre o setor privado e a política. Atores privados podem corromper as instituições ao longo do tempo, até o ponto em que códigos e práticas não-escritas incentivem os funcionários públicos a se engajarem em trocas corruptas (ou a fecharem os olhos para elas). Quando esse se torna o funcionamento normal de uma instituição, podemos dizer que ela foi corrompida.

Ao mesmo tempo, práticas mencionadas por seus oponentes na linguagem da “corrupção” às vezes podem desempenhar um papel redistributivo – por exemplo, quando o patrocínio é trocado por votos na forma de infraestrutura, de gastos do Estado ou moradia pública. Isto está resumido na famosa expressão “rouba mas faz”. Se alguém se vê forçado a escolher entre um político neoliberal que pode não ser corrupto, mas que vai cortar gastos sociais, ou um demagogo corrupto que garante que sua comunidade receba algo de volta, podemos realmente dizer que o primeiro é melhor?

Corrupção e desenvolvimento

Isso, no entanto, carrega perigos próprios. A corrupção sistêmica faz mais do que apenas afetar o funcionamento de instituições: Ela desencadeia um ciclo de expectativas decrescentes, produzindo apatia e desmoralização política. Se os indivíduos vêem um partido ou um movimento político como “corrupto” e, portanto, incapaz de efetuar uma mudança significativa, esse cinismo os levará muitas vezes a se voltar para seus próprios interesses privados ou, no máximo, a ver a política em termos puramente transacionais. Se a mudança política for impossível, fazer o quê senão cuidar da sua família e do seu próprio bem-estar pessoal?

Esse cinismo é tóxico. E a corrupção sistêmica, em qualquer caso, tornará mais fácil para um funcionário público justificar as trocas corruptas como se elas próprias fossem parte da política normal; subornos são transformados em “presentes” e “favores” e transações ilícitas se tornam expressões de “amizade” e “solidariedade” ao invés de auto-interesse.

Esse ciclo vicioso é tal que hoje o Banco Mundial denuncia a corrupção como o maior obstáculo ao desenvolvimento global. Como resultado, políticas anticorrupção tornaram-se uma característica padrão dos projetos de desenvolvimento no pós-Guerra Fria, institucionalizados como uma característica da ordem mundial neoliberal. No entanto, na verdade, a corrupção nem sempre foi vista como um impedimento ao desenvolvimento. De fato, a mudança da visão da corrupção de uma questão doméstica para uma preocupação internacional é um aspecto particular da era pós-Guerra Fria.

Durante o auge da teoria da modernização nas décadas de 1950 e 1960, os principais teóricos do desenvolvimento, como Samuel Huntington, argumentavam sobre como na verdade a corrupção propiciaria o desenvolvimento, pois ela poderia reduzir a burocracia e permitir que os mercados operassem com mais suavidade – facilitando o ambiente para as corporações multinacionais fazer negócios. A corrupção não ficava de fora do processo de modernização; antes, era vista como seu produto inevitável.

Conforme grande parte do Terceiro Mundo entrava na crise da dívida dos anos 80 e 90, em grande parte como consequência de terem sido obrigados a seguir as políticas neoliberais estabelecidas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional como condição para ter acesso a empréstimos, o Ocidente passa a invocar a “corrupção” para se livrar da culpa pela miséria, pobreza e sofrimento que infligiu por todo o mundo. Neste retrato, o fracasso das nações empobrecidas em se modernizar não seria culpa dos especialistas tecnocratas que introduziram políticas de ajuste estrutural, mas sim da corrupção endêmica própria desses países, que seriam atrasados demais para aderir aos padrões internacionais.

As falhas do socialismo do Bloco da Europa Oriental e da social-democracia (tanto as falhas verdadeiras quanto aquelas declaradas por seus inimigos) também têm sido explicadas em termos de corrupção. Nos anos 90, conforme os ideólogos liberais se apressavam em proclamar que o socialismo havia se provado inviável, eles insistiam em que todos os projetos coletivistas estariam fadados ao fracasso por causa da ganância individual e da busca racional do interesse próprio, que inevitavelmente corromperiam esses sistemas. Nesse argumento, essas energias só poderiam ser controladas e colocadas para funcionar através do livre-mercado.

Após o colapso da União Soviética, a corrupção passou a ser vista como o obstáculo essencial ao desenvolvimento do Terceiro Mundo. Por volta de 1993, a anticorrupção havia sido adotada como um componente-chave da política de desenvolvimento internacional pelo Banco Mundial, pelo FMI e pelas Nações Unidas. A política anticorrupção tornou-se centrada em algo chamado de “transparência” – ou seja, a adesão aos padrões que atendam aos interesses do capital internacional. O nível de facilidade com que as corporações transnacionais e o capital financeiro movimentam dinheiro livremente e fazem negócios tornaram-se as pedras angulares da política de fiscalização da corrupção. De fato, isso tem significado pouco mais do que uma luta para aumentar a autonomia das burocracias locais em relação às suas populações, as isolando da influência “corrupta” da política de massas e, ao invés, as tornando mais dependentes das instituições internacionais que as vigiam.

Tecnocratas e populistas

As políticas que se afirmam “contra a corrupção” podem ser divididas amplamente em dois tipos principais, dependendo se elas são predominantemente tecnocratas ou populistas. As primeiras são um elemento da ordem econômica e política internacional promovida por instituições multilaterais como o Banco Mundial e o FMI, ou ONGs com muito dinheiro, como a Transparência Internacional. O populismo anticorrupção é uma forma de política baseada na promoção da salvação nacional da praga da corrupção através de uma figura messiânica localizada fora do sistema, que “limpará a política”.

A política anticorrupção tecnocrata visa transferir o poder do eleitorado para “elites responsáveis”; ela estabelece padrões internacionais sobre o que deve ser considerado corrupção, muitas vezes em consonância com a abertura dos países ao capital internacional. Intervenção estatal na economia, reformas redistributivas e Estados de Bem-Estar Social são retratados como sendo ou vulneráveis a serem capturados por interesses corruptos ou às vezes como sendo eles mesmos formas de corrupção (particularmente para os “libertários” de direita, que consideram todos os impostos como roubo). Aqui, precisamos apenas pensar nas condenações rituais de “burocracias inchadas”.

Já a política anticorrupção populista surge em resposta a sistemas políticos percebidos de maneira ampla como presos no lamaçal da corrupção, que mancha todos os políticos e partidos políticos, independente de sua ideologia. Surge um outsider carismático, que não carrega a mancha do establishment, prometendo varrer o sistema e purificar a elite corrupta que domina o país, já que ele – invariavelmente ele – oferece uma política messiânica de redenção.

A anticorrupção desempenha um papel central na antipolítica: o sentimento de que a política não é mais um veículo para mudanças significativas. Qualquer tentativa de realizar mudanças através da Política inevitavelmente será vitimada pela corrupção; todo o sistema é corrupto e somente alguém ou algo de fora do sistema será capaz de exercer mudanças significativas. Somente um partido, um líder ou um movimento de fora do sistema – ou seja, de fora da “política” – será capaz de realizar mudanças, alguém como um oficial militar ou um empresário de sucesso. A rejeição generalizada da Política ou do sistema não abre o caminho para uma tomada do poder ao estilo bolchevique pelos socialistas revolucionários; em vez disso, leva ao surgimento de outsiders políticos carismáticos e autoritários que prometem acabar com a corrupção, como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, ou Jair Bolsonaro, no Brasil.

A anticorrupção populista, embora não seja necessariamente sempre de tendência conservadora, tende a favorecer as forças reacionárias. Isto é especialmente verdadeiro no contexto contemporâneo de uma perda generalizada de legitimidade para os partidos de centro-esquerda ou social-democratas. O populismo anticorrupção de direita, como a Frente Nacional na França ou a Liga Norte na Itália, preencheu o vazio deixado pelo colapso da centro-esquerda.

O populismo anticorrupção é uma forma de moralismo encoberto pelo véu da antipolítica; a solução seria apenas chutar os bandidos para fora do governo. A corrupção tende a ser individualizada e personificada na figura de algum político de uma elite distante ou de centro-esquerda, que se torna o símbolo de tudo o que é corrupto e errado. Isso funciona especialmente bem quando é plausível (como no caso de Hillary Clinton), mas também pode funcionar em termos do ódio de classe, sexismo, racismo e sentimento anti-pobre, como no caso de Dilma Rousseff. A anticorrupção individualiza a Política, ao mesmo tempo em que ignora os incentivos estruturais que produzem a corrupção sistêmica; ironicamente, isso fortalece líderes corruptos voltados para os seus próprios interesses, como Donald Trump ou Silvio Berlusconi.

Políticas anticorrupção populistas e tecnocratas compartilham impulsos antidemocráticos semelhantes. O populismo anticorrupção tende a desconsiderar os sistemas políticos democráticos como corruptos, retratando direitos ou o devido processo legal como coisas que apenas atrapalhariam o combate à corrupção. “É só atirar nos filhos-da-mãe”, “basta prender todos eles” e outras bravatas do tipo são características comuns dessa retórica. A política anticorrupção tecnocrata vê a mobilização popular e o debate ideológico sobre políticas públicas como ilegítimos e, portanto, como uma influência corruptora.

Às vezes, formas populistas e tecnocratas de política anticorrupção podem até se fundir. O exemplo mais ilustrativo desse fenômeno é o Movimento Cinco Estrelas da Itália, que defende uma forma antipolítica de populismo em que o poder deve ser tirado de uma classe política corrupta e colocado nas mãos de especialistas, controlados por uma audiência online de ativistas. Na prática, esse utopismo tecnológico substitui a mobilização de massa, o debate público e outras formas de vida política inclusiva por pesquisas online incessantes. De fato, dado o vácuo de organização e de debate político verdadeiros, a massa online atomizada invariavelmente vai apenas carimbar as políticas decididas pelos líderes do Movimento como se fossem “a vontade do povo”.

Esse movimento de fato combina as formas tecnocrática e populista de política anticorrupção. Mesmo além dos impulsos antidemocráticos que unem essas duas abordagens, também descobrimos que eles compartilham um mesmo núcleo milenarista no qual a força redentora da tecnologia ou da liderança poderia eliminar a mancha da corrupção e redimir o país em questão.

Ironicamente, ao remover a Política dos freios e contrapesos da responsabilidade democrática, a política anticorrupção tecnocrata leva exatamente à desilusão com a Política que ajuda a corrupção a prosperar. Ela isola as autoridades corruptas, evitando que tenham de prestar contas às massas e deixa a política pública sobre corrupção nas mãos do setor privado, que muitas vezes não tem interesse em combatê-la. O populismo anticorrupção transforma a luta política num simples moralismo, muitas vezes deslegitimando a luta de massas como um veículo para uma mudança significativa.

Criminalizando a social-democracia

Para ilustrar mais concretamente o fracasso das políticas anticorrupção, vale a pena contemplar o exemplo específico de seus efeitos no Brasil. Aqui, protestos de massa anticorrupção contra Dilma Rousseff e seu governo do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2015 ajudaram a introduzir um golpe suave, “parlamentar”, que fez o país retroceder décadas nos direitos sociais. Os protestos seguiram a histórica investigação de corrupção Lava-Jato, que levou à prisão do ex-presidente Lula baseada em evidências frágeis, e que virtualmente implicou toda a classe política brasileira. No entanto, seu verdadeiro alvo estava em outro lugar.

Com o apoio da mídia corporativa, dominada pela Rede Globo, a Lava-Jato foi transformada em um evento nacional, com manchetes todos os dias focando nos processos e investigações dos principais membros do PT. O protagonista central da Lava-Jato, o juiz Sergio Moro, foi transformado numa super-estrela internacional messiânica na luta anticorrupção.

Seguindo convocações na mídia, centenas de milhares de brasileiros, em sua maioria da classe média, tomaram as ruas em protestos contra a corrupção. De maneira crucial, foi a classe média-alta que liderou esses protestos, mesmo que as manifestações incluíssem setores da classe trabalhadora e até mesmo do trabalho organizado. Os protestos foram apoiados por sombrios movimentos anticorrupção, como o Movimento Brasil Livre, financiado pelos irmãos Koch e pela teia obscura de dinheiro “libertário” e partidos internacionais de direita.

A anticorrupção tornou-se assim um grito de guerra para os inimigos do PT. Mas o mais notável é que ela foi usada como uma expressão guarda-chuva para toda a hostilidade às políticas sociais do partido. Embora não tenha rompido com o neoliberalismo, o período do PT no poder apresentou medidas sociais históricas, como o aumento do salário mínimo, de benefícios de assistência social e a introdução de cotas em universidades de elite, que permitiram a entrada de muitos alunos pobres.

Mesmo essas políticas sociais bem moderadas foram interpretadas como perturbadoras da ordem natural – uma suposta “meritocracia” – ao elevar as condições dos pobres de maneira supostamente imerecida. A mídia de direita, portanto, projetou a seguridade social como um “suborno” para os pobres e para a classe trabalhadora. As tentativas neo-desenvolvimentistas de estimular o setor industrial brasileiro (há tempos em péssimas condições), promovendo certos setores de capital – principalmente a indústria da construção e as empresas estatais – se tornaram alvos especialmente visados pelos ativistas anticorrupção. A Lava-Jato paralisou esses esforços e, com a ajuda dos partidos da oposição, impediu o PT de responder à crise econômica; ela foi usada para retratar a própria intervenção do Estado na economia como uma forma de corrupção.

O efeito foi a criminalização da social-democracia moderada e da esquerda através da retórica anticorrupção. O presidente pós-golpe, Michel Temer – que alcançou o menor índice de aprovação já registrado – e seu governo foram manchados por escândalos de corrupção. Porém, embora ele esteja fortemente envolvido na Lava-Jato, não enfrentou nenhum processo durante seu governo. Os protestos anticorrupção visavam apenas o PT, enquanto a criminalidade nua do governo Temer encontrou a indiferença das mesmas forças que exigiam a cabeça de Dilma.

Moralidade e democracia

Uma convocação para que o povo se una contra uma elite corrupta é uma característica padrão da retórica política de esquerda; por exemplo, isso desempenhou um papel fundamental na histórica vitória eleitoral de Andrés Manuel López Obrador no México. No entanto, esse tipo de política geralmente planta as sementes da sua própria queda. Um governo de centro-esquerda ou socialista que chegue ao poder sobre uma plataforma anticorrupção certamente arriscará a desmoralização e a desmobilização se ele próprio acabar sendo vítima de escândalos. Por essa razão, a esquerda precisa ir além de uma retórica anticorrupção moralista e fácil, especialmente se levamos a sério a ideia de assumir o poder.

A esquerda enfrenta o desafio específico de convencer as pessoas comuns não apenas de que a ordem existente é indesejável, mas também de que ela pode ser transformada substancialmente através da ação coletiva, numa luta que certamente exigirá sacrifícios. A direita tem um fardo muito menor a esse respeito, porque tudo o que ela precisa fazer geralmente é persuadir as pessoas a ficar em casa e perseguir seus próprios interesses privados. Tanto a corrupção quanto os movimentos anticorrupção representam um perigo significativo para a esquerda porque reorientam a Política para esse terreno, ao mesmo tempo em que alimentam um cinismo mais amplo sobre como a Política jamais poderia ser mais do que um terreno da busca de interesses próprios.

Assumir o poder necessariamente exige concessões em algum grau; alguns elementos de um projeto político serão absorvidos pelo Estado, e qualquer um governando instituições que são administradas de acordo com seus próprios códigos não-escritos dependerá da troca de favores ou de influência. Muitas vezes, como no caso do Syriza na Grécia, um governo de esquerda dependerá de parceiros de coalizão repugnantes. Isso faz com que quadros e intelectuais fundamentais sejam absorvidos por uma burocracia que incentiva não apenas a negociação, mas também a negociata. Ao mesmo tempo, oportunistas invariavelmente se aproximarão em manada de um partido de sucesso, mesmo sem compartilhar dos seus princípios fundamentais, buscando avançar com suas próprias carreiras.

A corrupção, portanto, representa um desafio específico para a esquerda interessada em assumir o poder. É muito fácil para uma esquerda concentrada em manter sua própria pureza, sempre na oposição, abraçar um cinismo moralista sobre os que estão no poder, sem refletir sobre o efeito rebote que isso pode ter na própria crença na mudança política. Relatos formulaicos sobre líderes traindo a luta dos trabalhadores ou a revolução muitas vezes não são tão diferentes das narrativas míopes dos conservadores sobre os efeitos corruptores do poder sobre projetos que visam usar o Estado para objetivos progressistas.

Uma política de esquerda para enfrentar a corrupção precisa, portanto, realizar duas tarefas centrais. Em primeiro lugar, precisa politizar a corrupção de uma maneira que não seja nem moralista nem tecnocrática. Em segundo lugar, ela deve se concentrar na redução das fontes de corrupção sistêmica – o poder da elite e a desigualdade. A fonte da corrupção sistêmica só pode ser combatida através de lutas políticas para alcançar reformas significativas em conjunto com políticas sociais igualitárias.

Se a esquerda no governo pretende não ser cooptada pelos mecanismos corruptores próprios do Estado, ela precisa começar a construir um legado institucional que futuros governos de esquerda possam usar como base. Isso exige uma reforma política significativa e medidas para enfraquecer o poder de seus inimigos dentro da máquina do Estado. No entanto, impor essa mudança – que talvez seja o maior desafio que uma política anticorrupção de esquerda precisa enfrentar – também depende da construção de controle democrático por meio da mobilização de massa. Devemos enfrentar a corrupção não simplesmente nos gabando de nossa moralidade superior, mas através da luta para expandir o alcance da própria democracia.

Colaboraor

Benjamin Fogel é historiador e editor colaborador de Africa is a Country e Jacobin.

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