28 de setembro de 2021

População e políticos perderam a paciência com fracasso das promessas farialimers

Brasil permaneceu estagnado entre 2017 e 2019 e, depois do choque da Covid, voltará à estagnação em 2022

Nelson Barbosa



Bruno Santos/Folhapress

O debate macroeconômico brasileiro virou papo de maluco, com vários analistas defendendo recessão por arrocho fiscal para evitar recessão por arrocho monetário.

Especificamente, os defensores do teto Temer de gasto dizem que a decisão do ministro Paulo Guedes (Economia) em gastar mais R$ 90 bilhões em 2022 causará recessão, devido ao aumento da Selic (a taxa básica de juros) necessário para combater a depreciação cambial e seu impacto na inflação.

Para nossos fiscalistas do "morra quem morrer", o governo federal deveria cortar seu gasto primário, de 18,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021, para 17,5% do PIB em 2022. Uma contração fiscal de 1,4 ponto do PIB, em uma economia com alto desemprego, aumento da pobreza e risco de recessão para... Não pode rir... Ajudar os mais pobres!


O que nossos fiscalistas de planilha esqueceram de dizer é que, para manter o atual teto de gastos, o governo teria que cortar ainda mais os recursos de investimento, saúde e educação, além de diminuir o valor do auxílio emergencial e tirar mais de 10 milhões de pessoas do programa de transferência de renda do governo.

Entre receber auxílio emergencial ou nada em 2022, é racional que essa entidade chamada "eleitor" prefira receber a transferência adicional do governo, mesmo que sob risco de mais juro e inflação, pois até agora todas as projeções de melhora social feitas pelo "mercado" deram errado.

Estamos completando cinco anos de promessas farialimers de que "era só tirar a Dilma", de que o paraíso estava logo ali, desde que os mais pobres aceitassem um pouco de sacrifício, uma rodada de reformas de redução do papel do Estado na proteção social.

Houve várias reformas, na Previdência, no mercado de trabalho, nas concessões e no preço de combustível, e ainda assim o Brasil não decolou. O Brasil permaneceu estagnado entre 2017 e 2019 e, depois do choque da Covid, voltará à estagnação em 2022.

Diante do fracasso da agenda de política econômica de Temer e Bolsonaro, que nada mais é do que o projeto tucano de um "Brasil para poucos", é natural que a população brasileira e nossa classe política percam a paciência com o discurso financista.

O problema é que só perder a paciência não resolve. Para sair do buraco em que os tucanos, Temer e Bolsonaro nos meteram é preciso ter nova proposta de política econômica com duração de mais de um ano.

O governo Bolsonaro fez certo em furar o teto Temer de gasto em 2022, mas para que isso não tivesse impacto desfavorável no câmbio e na inflação, também é necessário garantir que o gasto adicional será bem aplicado, bem como apresentar nova regra fiscal para 2023 em diante. Como Bolsonaro não fez a segunda e terceira partes, houve reação exagerada dos mercados financeiros à mudança fiscal.

Para ser construtivo, o governo ainda pode resolver a situação com duas medidas. Primeiro, sinalizar claramente qual e onde será o gasto adicional de 2022, pois as estimativas atuais variam de R$ 85 a R$ 135 bilhões, em coisas meritórias como Bolsa Família e duvidosas como emendas de relator. Segundo, mudar permanentemente a regra do teto de gasto, criando novo limite fiscal para a despesa primária, com permissão para crescimento real de gastos essenciais em investimento, saúde e educação, mesmo que seja com emissão de dívida no curto prazo (dois anos), a ser financiado com tributação mais progressiva no médio prazo (quatro a oito anos).

Sei que a proposta acima é pedir demais à atual equipe econômica, mas quem sabe alguém no Congresso resolve intervir no governo e fazer o que é certo, como ocorreu em 2020. Ainda dá tempo de diminuir o estrago.

27 de setembro de 2021

O Partido Comunista acaba de ganhar as eleições na segunda maior cidade da Áustria

Nas eleições de domingo em Graz, Áustria, o Partido Comunista conquistou a vitória pela primeira vez na história. A Jacobin falou com um de seus candidatos vencedores sobre como o partido construiu uma “fortaleza vermelha” na cidade.

Uma entrevista com
Robert Krotzer


A cidade de Graz. (Isiwal / Wikimedia Commons)

Tradução / Se as experiências sociais da "Viena Vermelha" há muito associaram a Áustria aos pontos altos históricos da social-democracia, nas últimas décadas esta república alpina tornou-se, em vez disso, um laboratório para o populismo de direita. Mas em Graz - a segunda maior cidade do país depois de Viena - existe uma alternativa à tendência reacionária. Nas eleições deste domingo, o Partido Comunista da Áustria (KPÖ) assegurou uma vitória sem precedentes, conquistando 29 por cento dos votos. Com a derrota do conservador Partido Popular Austríaco (ÖVP), espera-se agora que a comunista Elke Kahr se torne presidente da câmara.

O sucesso notável do KPÖ nesta cidade - em contraste com a sua presença marginal na política nacional - deve-se a anos de envolvimento comunitário enraizado numa firme política de classe. O seu progresso não teria sido possível sem ativistas dedicados como Robert Krotzer, de 34 anos de idade, que foi o segundo na lista do KPÖ nesta eleição. Em 2017, ele tornou-se a pessoa mais jovem de sempre a ser eleita para o Senado da cidade de Graz, desde então está a liderar o Departamento de Saúde e de Cuidados no Departamento de Serviços Sociais.

Antes da votação de domingo, Krotzer falou com Adam Baltner, da Jacobin, sobre como o KPÖ construiu esta improvável "fortaleza vermelha".

Nas eleições nacionais da Áustria, o KPÖ consegue normalmente cerca de 1 por cento dos votos. Em Graz, porém - a capital do estado da Estíria - o partido sai-se consideravelmente melhor, com cerca de 20% desde o início dos anos 2000. Porque é que o KPÖ é tão bem sucedido em Graz, em particular?

Isto tem a ver com uma orientação política que remonta ao início dos anos 1990 - uma época de profunda crise para o movimento comunista. Nessa altura, um dos lemas do KPÖ na Estíria era "Um partido útil para a vida quotidiana e para os grandes objetivos do movimento operário". De acordo com esta máxima, o partido prosseguiu uma orientação política muito concreta, especialmente para os inquilinos.

Em particular, [o ex-político do KPÖ e presidente do partido em Graz] Ernest Kaltenegger fez aqui um trabalho tremendo, ganhou uma reputação muito positiva entre a população. Kaltenegger esteve sempre presente para ajudar os outros e para dar ouvidos aos seus problemas. Ainda hoje as pessoas contam histórias sobre ele, incluindo ir arranjar coisas nos seus apartamentos. Mas ele também politizou a questão da habitação.

No início dos anos 1990, muitos promotores tentaram esvaziar prédios inteiros de inquilinos, por vezes com métodos extremamente draconianos, como a remoção de janelas das entradas dos edifícios em janeiro, alegando que os estavam a tirar para serem reparados. Em 1991, foi criada uma linha direta de emergência para inquilinos como primeiro ponto de contacto para pessoas que tinham problemas com os seus senhorios. Foi também criado um aconselhamento jurídico para "vítimas de especuladores" - como eram então chamados - por iniciativa de Kaltenegger. A partir desta combinação de ajuda muito concreta e apoio jurídico, o KPÖ foi capaz de ganhar protagonismo.

Anos depois, seguiu-se uma grande campanha contra os elevados preços das rendas na habitação pública. Na altura, mesmo em habitações públicas, não era raro as pessoas pagarem até 55 por cento dos seus rendimentos em renda de casa. Assim, o KPÖ apresentou uma lei na Câmara Municipal estipulando que ninguém que vivesse em habitação pública teria de pagar mais de um terço do seu rendimento em renda. Como tantas outras propostas do KPÖ, foi rejeitada por todos aos outros partidos. Posteriormente, o KPÖ reuniu assinaturas, em especial em habitações públicas e em conjunto com inquilinos. O partido apresentou então à Câmara Municipal uma "Petição de acordo com a Lei Popular da Estíria" contendo dezassete mil assinaturas e reintroduziu o projeto de lei. Desta vez, foi aprovada por unanimidade.

As eleições seguintes em 1998 marcaram o primeiro grande avanço do KPÖ nas urnas com 7,9% dos votos. A Kaltenegger foi atribuído o Departamento de Habitação pelos partidos no poder, que esperavam que ele falhasse neste papel. Mas as coisas correram de forma diferente. De facto, ele conseguiu fazer boa parte do que se propôs, como assegurar que cada unidade habitacional pública tivesse o seu próprio lavabo e casa de banho. E depois, nas eleições de 2003, o partido alcançou 20,8 por cento.

Tudo isto mostra que a política de esquerda requer resistência e trabalho de base. Mostra também que os parlamentares podem usar a pressão extra-parlamentar para fazer avançar coisas que de outra forma não seriam possíveis devido às relações de forças existentes.

Acabou de abordar não só a forma como o KPÖ construiu apoio em Graz, mas também como influenciou a política da cidade a partir do seu papel como partido de oposição. Que outros exemplos existem disso?

Um dos feitos mais duradouros do KPÖ aconteceu em 2004, quando impediu a privatização do parque imobiliário público de Graz. Na altura, o [conservador] ÖVP, o SPÖ [Partido Social Democrata da Áustria], e de facto todos os outros partidos da Câmara Municipal concordaram com a privatização. Infelizmente, por essa altura, um governo "vermelho-vermelho" em Berlim [uma coligação entre o Partido Social Democrata da Alemanha e o antecessor do Die Linke] privatizou apartamentos que eram propriedade do município.

Apesar de ainda sermos um pequeno partido na altura, conseguimos reunir mais de dez mil assinaturas para a nossa petição contra a privatização, que de acordo com a lei da Estíria é o número necessário para um referendo oficial organizado pela cidade. Nas urnas, cerca de 96 por cento votaram contra a venda das unidades habitacionais. Até hoje, todos os partidos não se arriscam a pôr em causa a habitação pública - a questão da privatização nunca voltou a emergir.

Apesar de nunca termos sido um dos partidos da coligação no poder, temos tido pelouros no executivo da cidade desde 1998. Isto deve-se ao sistema de representação proporcional, que atribui lugares no Senado da cidade com base nas percentagens de voto dos partidos. Atualmente, a nossa presidente do partido, Elke Kahr, lidera o Departamento de Estradas e o Departamento de Planeamento dos Transportes, e eu sou responsável pela Saúde e Cuidados. Tivemos êxitos em ambas estas áreas - apesar das difíceis condições dos últimos quatro anos e meio sob o governo de coligação de direita entre o ÖVP e o FPÖ [Partido da Liberdade da Áustria, extrema-direita].

Construímos novas ciclovias e melhorámos os transportes públicos, expandindo a rede de elétricos e criando novas linhas de autocarros. E introduzimos o chamado Modelo Graz de Cuidados, segundo o qual os idosos dependentes de cuidados recebem subsídios da cidade para que possam ser atendidos em casa e não tenham de se mudar para lares de idosos.

Quando foi nomeado responsável pela Saúde e Cuidados em 2017, ninguém estava à espera que chegasse a crise da covid-19. Como foi capaz de utilizar o seu cargo para enfrentar a crise a nível local?

O Departamento de Saúde de Graz é um departamento relativamente pequeno mas, no entanto, importante. Em comparação com Viena, que é simultaneamente uma cidade e o seu próprio estado, Graz é apenas uma cidade. Por este motivo, ao contrário do nosso homólogo vienense, faltam-nos certas responsabilidades, tais como a administração de associações hospitalares. Ao assumir o departamento, as pessoas nos círculos do Partido da Juventude [organização juvenil do ÖVP] conservador diziam: "Krotzer vai ficar com o Departamento de Saúde porque, assim como assim, lá não pode causar estragos". Isto mostra bem a seriedade com que o ÖVP trata as questões de saúde e de cuidados. Em comparação, elas sempre foram de importância crucial para nós no KPÖ.

A política de saúde urbana em relação à crise da covid significa, acima de tudo, rastrear os contactos, ou seguir e quebrar cadeias de infeção. Esta é, evidentemente, uma tarefa enorme para qualquer agência de saúde pública. Em Fevereiro de 2020, o Gabinete Graz de Epidemiologia consistia precisamente em dois funcionários a tempo inteiro e um a tempo parcial. Em Novembro de 2020, tínhamos duzentas pessoas a trabalhar no local.

Contudo, não cumprimos apenas os nossos deveres administrativos. Trabalhando com organizações de migrantes e idosos, bem como com instituições de assistência social, iniciámos uma corrente de telefonemas em Março de 2020, a fim de divulgar informação e de descobrir o que as pessoas sabiam e precisavam na altura. Apoiámo-los então de formas concretas, como por exemplo ligando-os a serviços de compras ou fornecendo-lhes vales de mercearia.

Os governos nacional e estatal fizeram inúmeras promessas de que disponibilizariam testes rápidos de antigénios ao público, mas no Outono de 2020 acabámos por pagá-los do nosso próprio bolso e enviá-los para lares de idosos, prestadores de cuidados de saúde ao domicílio e instituições de assistência social. A fim de levar a vacina à população, também realizámos campanhas especiais de vacinação - como para os vendedores do jornal de rua Megafon e na mesquita de Graz, nas igrejas, nas bibliotecas, e em diferentes partes da cidade. Tudo isto está de acordo com o nosso objetivo de sermos um partido útil para o dia a dia das pessoas.

A cobertura eleitoral foi dominada pela especulação sobre quais os partidos que irão juntar-se à coligação do governo municipal. Na sua opinião, quais são as questões decisivas?

Só muito raramente os eleitores me levantaram a questão de potenciais coligações. Em vez disso, as conversas nas bancas de rua tendem a ser sobre como as pessoas têm recebido ajuda da nossa parte de formas muito concretas. E isso é absolutamente uma grande vantagem que nós temos enquanto KPÖ.

Todos os anos, milhares de pessoas visitam Elke [Kahr] e eu próprio no nosso horário de expediente. Lá, vemos como melhor os podemos ajudar, seja fornecendo-lhes aconselhamento jurídico, ajudando-os a preencher pedidos, ou dando-lhes apoio financeiro directo - os representantes do KPÖ no Senado da cidade e do Parlamento da Estíria doam voluntariamente dois terços dos seus salários a pessoas necessitadas.

Para nós, isto não é, de forma alguma, caridade. Pelo contrário, é uma forma de política orientada em torno de um princípio socialista-comunista básico que remonta à Comuna de Paris. Penso que é difícil falar genuinamente com empatia com alguém que trabalha a tempo inteiro por 1.200 euros por mês, quando se ganha três, quatro, cinco vezes mais do que isso. Afinal de contas, como disse Marx: O ser determina a consciência.

Para além do fracasso da política social [da coligação governamental de direita], eu sublinharia a rápida expansão urbana como outra das principais questões. Em Graz, os planos de construção são aprovados e os espaços verdes cedidos de forma extremamente frívola porque o presidente da câmara do ÖVP Siegfried Nagl [que se demitiu este domingo] é bastante próximo dos investidores. Muitas pessoas ficam extremamente perturbadas com isto. Não foram poucos os que me disseram, a propósito do frenesim de construção dos últimos anos: "Toda a minha vida nunca votei em nenhum partido a não ser no ÖVP, mas já chega".

O programa do KPÖ na Estíria destaca a herança de Marx, Engels, e Lenine. Devido a este compromisso aberto com uma política radical, o conservador ÖVP tem vindo a denegrir-vos ao longo dos anos - aparentemente sem muito sucesso. Como lidam com os insultos anticomunistas?

Na Primavera deste ano, emitimos um comunicado de imprensa em comemoração do sexagésimo aniversário do primeiro voo espacial tripulado. Naturalmente, a primeira pessoa no espaço foi o cosmonauta soviético Yuri Gagarin. O ÖVP tentou criar uma armadilha, apresentando uma moção urgente à câmara municipal exigindo aos partidos que se distanciassem de todas as ideologias totalitárias, incluindo o comunismo soviético. Todos os outros partidos, incluindo o SPÖ e os Verdes, votaram a favor desta moção. O ÖVP expressou então a sua indignação pelo facto de termos recusado.

A nossa resposta acabou por ser bastante ponderada. Conhecemos o ÖVP há tempo suficiente para compreender o que eles querem alcançar com iniciativas deste tipo. A nossa vereadora Elke Heinrichs fez um discurso detalhando extensivamente que o KPÖ sempre foi a principal força de resistência contra o fascismo na Áustria e - em contraste com os outros partidos que existem desde o período pós-guerra - nunca teve camaradas com passados fascistas. Por outras palavras, quando se trata de questões de distanciamento, o ÖVP deve pôr a sua própria casa em ordem.

Claro que há muitos aspetos da história do socialismo realmente existente que nós, enquanto comunistas e marxistas, temos de discutir. Mas não temos de o fazer a mando do ÖVP, e especialmente através da lente com que eles veem a história.

Este comportamento anticomunista do ÖVP nunca foi um tópico de discussão em nenhuma das nossas bancas de rua. Penso que provavelmente passou em grande parte despercebido pela população em geral, porque muitas pessoas já têm uma ligação muito concreta com o KPÖ - ou conhecem um de nós, ou nos veem na rua, ou sabem que somos a razão pela qual a linha direta dos inquilinos existe. Estas coisas são muito mais importantes para as pessoas.

Até agora, o sucesso do KPÖ em Graz não foi reproduzido noutras cidades da Áustria. Mas pensa que um movimento político nacional ou mesmo internacional pode ser construído através da política municipal?

Naturalmente, não pregamos o socialismo numa só cidade ou algo parecido com uma transição municipal para o socialismo. Mas em geral, estou convencido de que a política de esquerda precisa de ser desenvolvida a partir de baixo. E isso significa estabelecer raízes ao nível do município, ou mesmo do chão de fábrica, e estar em contacto constante com as pessoas. É importante estarmos envolvidos em áreas onde se possa mostrar concretamente que se é uma força útil. E os partidos dos trabalhadores podem aprender muito com este tipo de envolvimento.

Nas últimas décadas, a Esquerda pode ter negligenciado um pouco esta percepção. As pessoas pensaram que temos os textos sofisticados, temos os volumes de Marx e Engels e Lenine, e com estes poderemos lidar com o mundo. Mas só através de uma troca constante com as pessoas é que se pode descobrir onde estão os verdadeiros problemas. Se você e os seus camaradas quiserem trabalhar em conjunto para mudar e melhorar as condições das pessoas, este conhecimento é central.

Há vários exemplos de políticas bem sucedidas de esquerda a nível municipal ou de chão de fábrica - por exemplo, no Alentejo em Portugal, onde há comunidades que têm sido administradas pelo Partido Comunista Português desde a Revolução dos Cravos de 1974, ou pela [organização sindical comunista] PAME na Grécia.

Um novo desenvolvimento interessante é o sucesso do Partido dos Trabalhadores(link is external) da Bélgica. Com base nas suas raízes de longa data na organização nas fábricas, este partido conseguiu tornar-se uma força na política municipal antes de dar o grande salto para a cena nacional em 2019. Este feito é realmente bastante impressionante. Mas também foi desenvolvido em pequena escala. Certamente não teria sido possível sem as raízes locais.

Sobre o autor

Robert Krotzer é um membro do Partido Comunista no Senado da cidade de Graz, onde ele é responsável pelo Departamento de Saúde e Divisão de Cuidados de Graz do Departamento de Serviços Sociais.

Sobre o entrevistador

Adam Baltner é professor e tradutor em Viena, Áustria. Ele é editor do mosaik-blog.at.

26 de setembro de 2021

Olaf Scholz não é seu amigo

As pesquisas para a eleição alemã de hoje apontam para uma vitória antes improvável para os sociais-democratas de Olaf Scholz. A campanha do partido se concentrou nas credenciais pessoais de Scholz como futuro chanceler — mas seu histórico sugere que ele nunca enfrentará os poderosos.

James Jackson

Jacobin

O ministro das finanças alemão e candidato do Partido Social-Democrata a chanceler Olaf Scholz fala com repórteres após votar em uma seção eleitoral em Potsdam, Alemanha, durante as eleições gerais em 26 de setembro de 2021. (MACDOUGALL/AFP via Getty Images)

Tradução / Ele é o "Tio Olaf", o "Smurf sorridente", o "Scholz-o-mat" e até mesmo "o homem mais chato da Alemanha". O atual favorito para se tornar o líder mais poderoso da Europa teve sua cota de epítetos. Mas com os Social-democratas (SPD) de Olaf Scholz liderando as pesquisas antes da eleição federal de hoje, mesmo um foco tão pessoal no possível próximo chanceler da Alemanha nos disse pouco sobre o que ele representa. No entanto, diferentemente da atual Angela Merkel, cuja ascensão através da União Democrata Cristã (CDU) para a chancelaria foi meteórica, Scholz tem um longo histórico político em níveis estadual e federal, com muito a nos dizer sobre o que ele fez e quem ele realmente é.

Scholz sempre foi um político de máquina altamente eficaz, capaz de manobrar estrategicamente quando melhor se adequava à sua carreira. Ele é amplamente creditado por usar sua flexibilidade ideológica, habilidade em fechar acordos de bastidores e estilo calmo para subir na hierarquia do problemático SPD — um partido que só agora está interrompendo seu declínio de décadas. Mas, ao lado de sua ascensão ao topo da política alemã, Scholz deixou rastros de escândalos que poderiam, e deveriam, voltar para assombrá-lo.

Às vezes, a famosa flexibilidade de Scholz levou a benefícios concretos para os trabalhadores — particularmente na pandemia. Em seu papel como ministro das finanças na grande coalizão CDU-SPD, ele usou provisões orçamentárias de emergência para abrir os cofres públicos para evitar o desemprego em massa, rompendo com a tradição de orçamentos "black zero" — ou seja, sem superávits. Mas Scholz também apoiou as reformas Hartz IV que destruíram o bem-estar social alemão, sufocaram o estado rangente de investimento por meio do fetichismo do orçamento equilibrado, endossaram métodos brutais de policiamento contra ativistas e migrantes em Hamburgo e falharam em regular empresas que roubaram os cofres do estado. Em alguns casos agora infames, essas empresas até cometeram fraudes financeiras e fiscais massivas.

Com um histórico como esse, podemos esperar que Scholz escolha a proximidade com interesses poderosos em vez de representar os interesses das pessoas comuns — inclusive quando se trata de formar um governo após a eleição de domingo.

Lei e Ordem: Hamburgo

Na preparação para as eleições, muitos perfis referiram o período de juventude de Scholz, nos anos 80, como um radical de esquerda de cabelo comprido. Durante o seu período de seis anos como vice-líder da juventude do SPD, fez parte da chamada ala StamoKap, dedicada à “superação do capitalismo”. Mas estes princípios de esquerda não sobreviveram ao contacto com a sua entrada na política profissional.

Depois de se ter tornado ministro do Interior de Hamburgo em 2001, um tradicional bastião social-democrata, Scholz sentiu um partido populista de direita a atacar os calcanhares do SPD. Para ser visto como duro no combate à droga, decretou que o emético ipecacuanha [xarope indutor de vómitos] poderia ser aplicado à força em suspeitos de tráfico de droga – contra os avisos da Câmara dos Médicos de Hamburgo de que poderia ser fatal. Poucos meses depois da sua introdução, o camaronês Achidi John, de dezanove anos, morreu depois de o xarope lhe ter sido brutalmente introduzido por um tubo no nariz, contra a sua resistência. As suas últimas palavras foram “Eu vou morrer”, mas a polícia não chamou imediatamente uma ambulância. Até à data, ninguém foi processado. Em 2006, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem declarou que os eméticos forçados eram tortura, altura em que tinham sido utilizados 530 vezes só em Hamburgo. Num recente debate televisivo, Scholz afirmou, com toda a naturalidade, que “não considerava isso uma tortura” e classificou-o como “o método mais suave”, apesar de, em 2005, ter sido causada outra morte pelo mesmo xarope na cidade vizinha de Bremen.

O SPD de Hamburgo continuou a bloquear uma investigação sobre a utilização de eméticos, enquanto em Bremen uma investigação dos Verdes revelou que nenhuma das pessoas contra quem os eméticos tinham sido utilizados era branca.

Esta não foi a última vez que Scholz apoiou um policiamento brutal na sua cidade natal. Depois de o SPD ter deixado o governo nacional em 2009, ele manobrou o seu caminho de regresso à cidade portuária, onde obteve uma vitória esmagadora na eleição para prefeito de 2011, tornando-se conhecido localmente como “rei Olaf”. Hamburgo chamou especialmente a atenção do mundo em 2017, quando a cúpula do G20 dos principais líderes mundiais foi realizada na cidade. Antes do evento, Scholz riu-se dos temores de escalada, comparando o G20 com as celebrações anuais do aniversário do porto de Hamburgo. Na verdade, o resultado foram motins, carros em chamas e brutalidade policial generalizada contra os manifestantes. Quando foi constituída uma comissão especial de investigação, insistiu em que “não houve violência policial“, pela qual recebeu aplausos do partido da extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD).

Embora esse mau planeamento tenha prejudicado a reputação de Scholz, ele foi apoiado pela chanceler Merkel e manteve o seu cargo como prefeito — admitindo que, se alguém tivesse morrido, ele teria que renunciar. Mas as consequências políticas foram dominadas por uma reação rápida e brutal contra os manifestantes, com 3.580 casos processados em Hamburgo. O site de esquerda Indymedia foi fechado pelo governo federal, que implementou uma caçada em todo o país a 135 participantes nos protestos.

Um Fetichista no governo

Mas Scholz não é apenas uma figura regional. Desempenhou um papel na cena nacional durante muitos anos, nomeadamente como secretário-geral do SPD entre 2002 e 2004, sob a presidência do Chanceler Gerhard Schröeder. Este governo nominalmente de centro-esquerda – uma coligação com os verdes – é conhecido ter introduzido as reformas da Agenda 2010 nas leis sobre trabalho e sobre o Estado Providência na Alemanha. Isso trouxe o maior corte para os benefícios da Previdência Social na Alemanha do pós-guerra, com medidas de bem-estar controversamente substituídas por um sistema baseado em sanções punitivas conhecido como Hartz IV.

Como braço-direito de Schröeder, Scholz defendeu firmemente esta agenda — insistindo que “mesmo o trabalho mal remunerado e desconfortável é melhor do que o Estado financiar o não trabalhar”. Scholz também defendeu a eliminação de qualquer menção ao” socialismo democrático ” do programa do partido, semelhante ao abandono de Tony Blair da Cláusula IV tradicional do Partido Trabalhista britânico, defendendo a propriedade comum. Ele insistiu que “no século XXI temos que mudar de perspetiva”. Martelando na sua visão de falcão neoliberal, mais tarde ele culpou os efeitos do aumento da pobreza e da desigualdade social pelo facto das “reformas serem incompletas.”

Após as eleições de 2017, a grande coligação entre o SPD e a CDU de Merkel continuou, apesar das promessas de campanha do partido de centro-esquerda. Voltando de Hamburgo para o governo nacional – tornando-se vice-chanceler de Merkel e ministro das Finanças – Scholz manteve lealmente os acordos feitos com a conservadora CDU. Ele apoiou a ortodoxia orçamental alemã e obteve um excedente orçamental aderindo à tradição do zero negro (equilíbrio orçamental), ou seja, de não contrair empréstimos. Ele deixou clara a sua colegialidade com a CDU em declarações ao semanário Der Spiegel em 2019: “não haverá ultimatos ou linhas vermelhas traçadas. Estamos num governo, não num bazar.”

No entanto, como muitos ministros das Finanças da esquerda e da direita, Scholz enfrentou os desafios da pandemia — e gastou como nunca antes. Na zona euro e também no cenário global, ele usou a sua influência como ministro das Finanças da maior economia da Europa para promover reformas que antes eram impensáveis: empréstimos europeus unificados e uma taxa mínima de imposto entre todos os países da OCDE.

Infelizmente, para aqueles que esperavam que este seria um ponto de viragem da política orçamental, Scholz continua a recusar considerar a hipótese de reformar o princípio do “travão da dívida” – uma emenda constitucional introduzida em 2008 que impõe limites estritos aos empréstimos do governo. Scholz disse ao semanário de negócios Handelsblatt que os fundos necessários viriam “predominantemente de investimentos privados”. Criticando as propostas verdes de ir aos mercados contrair empréstimos, Scholz afirmou que “aqueles que financiariam os seus programas pela via da ida aos mercados entrarão em colapso sobre si mesmos como um castelo de cartas”. Visto como uma abertura para o Partido Liberal Democrático Livre antes das negociações da coligação, isso vai contra a nova ortodoxia orçamental global e está à direita até de Joe Biden. Considerando os juros negativos dos empréstimos do governo alemão, isso só pode ser visto como privando a Alemanha de investimentos públicos tão necessários enquanto as infraestruturas estão em risco de se desintegrarem. Os efeitos prováveis foram visíveis na catástrofe que atingiu o oeste do país neste verão, com inundações mortíferas no verão exacerbadas por um sistema de alerta ultrapassado.

Siga o dinheiro

Os acordos de bastidores de Scholz não começaram por convencer a liderança mais à esquerda do seu partido a torná-lo candidato do SPD a chanceler, apenas um ano depois de terem vencido por pouco as eleições internas numa plataforma Anti-Scholz. Scholz tem sido associado a alguns dos maiores escândalos fiscais e financeiros da história alemã moderna. No entanto, através de uma combinação de estagnação burocrática, memória seletiva e obstrução política — bem como os próprios percalços dos seus opositores—, evitou principalmente repercussões na preparação para as eleições. No entanto, estes incidentes dizem-nos alguma coisa sobre a sua relação com o poder que não é responsabilizado.

Um exemplo proeminente é o caso “Cum-Ex“, no qual o banco Warburg utilizou lacunas fiscais complexas para roubar os cofres estatais em 440 milhões de euros. Antes do escândalo irromper, um executivo do Warburg encontrou-se com Scholz, então presidente da Câmara de Hamburgo, depois de receber uma enorme fatura fiscal da administração fiscal federal. Scholz pediu-lhes que enviassem exatamente os mesmos documentos ao senador das Finanças de Hamburgo. Dois dias depois, o Ministério das Finanças de Hamburgo renunciou a uma fatura fiscal de 47 milhões de euros. Warburg mais tarde teve de pagar a Hamburgo 155 milhões em impostos atrasados após um julgamento criminal. Estima-se que os danos totais causados aos cofres públicos em toda a Europa devido ao caso cheguem a 55 mil milhões de euros.

O gabinete de Scholz disse inicialmente a uma comissão de investigação que não tinha havido reunião com banqueiros — mas mais tarde descobriu-se que tinha ocorrido uma. Scholz foi repetidamente questionado numa comissão especial sobre outras reuniões, mas não respondeu. Depois de o seu diário ter sido examinado, ficou claro que havia pelo menos mais duas e uma conversa telefónica, da qual Scholz alegou não se lembrar. Scholz usou o lapso de memória como desculpa mais de quarenta vezes na reunião do Comité, observando que, como prefeito, ele “falou com muitas pessoas.”

Num outro escândalo financeiro, as autoridades anti-branqueamento de capitais, chefiadas por Scholz na qualidade de Ministro das Finanças, mantiveram silêncio sobre os relatórios da Wirecard sobre transferências no valor de mais de 180 milhões de euros e só mais tarde perceberam que eram operações suspeitas, preferindo acreditar numa start-up alemã aparentemente bem sucedida em vez de fazerem as devidas diligências. Através de manobras parlamentares, como a realização de reuniões confidenciais em vez de participar nas comissões, o ministério de Scholz atrasou a publicação de qualquer coisa que pudesse colocá-lo em perigo, apesar de anteriormente prometer a “máxima transparência”. Scholz também usou esta tática de obstrução para se recusar a responder a uma pergunta parlamentar dos verdes sobre quantas vezes se encontrou com a indústria do carvão como ministro das Finanças.

A soma das suas partes

Como um típico social-democrata na era neoliberal, um chanceler Scholz provavelmente traria alguns ganhos modestos para os trabalhadores, como um salário mínimo mais alto (uma proposta bloqueada pelo seu próprio partido em 2013). Mas ele também combinaria isso com uma forte colaboração com o capital (vendo o investimento privado como chave para vencer as mudanças climáticas) e com a aplicação de políticas duras de lei e ordem em nome de acalmar os adversários populistas de direita. Deve ser aplaudida uma ênfase na preservação do emprego e na solidariedade europeia no contexto da pandemia. No entanto, Scholz não mostra sinais de ter a independência necessária para romper com as normas orçamentais alemãs na medida necessária para enfrentar seriamente a emergência climática — nem para lidar com as enormes desigualdades na sociedade alemã.

Antes da eleição de domingo, debate-se sobre se um SPD vitorioso deve entrar no governo com os verdes ao lado do FDP de livre mercado, ou então com o sitiado Die Linke (o partido de esquerda) — ou mesmo buscar um pacto renovado com a CDU conservadora. Prevê-se que cada uma dessas coligações tenha assentos suficientes para formar uma maioria, mas tem havido um intenso alarmismo sobre uma coligação de esquerda do bloco de centro-direita, incluindo a própria Merkel. Ela usou a aparente abertura de Scholz a uma coligação com Die Linke como uma linha divisória entre ela e o seu provável sucessor.

Isto não significa que existam realmente relações calorosas entre os partidos de centro-esquerda e o Die Linke. Embora o ceticismo deste último em relação à NATO seja suficiente para o excluir do establishment político, o SPD e os verdes também estão felizes em atacar a esquerda, a fim de reforçar as suas próprias credenciais como responsáveis pela Economia. Scholz indicou que preferiria outra grande coligação com a CDU do que com o Die Linke, embora uma coligação de “semáforos” entre o SPD, os Verdes e o FDP ainda seja visto como o resultado mais provável.

Seja qual for a coligação que chefie, as prioridades de Scholz manterão a Alemanha no mesmo rumo estabelecido por Merkel através das suas repetidas grandes coligações. Trata-se de uma política de estabilidade acima da visão, de gestão acima da transformação, e de protecção dos interesses dos poderosos – ao mesmo tempo que faz reformas suficientes para manter a funcionar o Golias da indústria alemã alimentado a carvão.

Colaborador

James Jackson é um escritor, tradutor e jornalista de radiodifusão baseado em Berlim.

Angela Merkel foi ruim para a Europa e o mundo

As eleições alemãs de hoje marcam o fim efetivo do governo de 16 anos de Angela Merkel. Yanis Varoufakis escreve para Jacobin sobre como ela se tornou a líder mais dominante da Europa em tempos de paz - às custas da própria Europa.

Yanis Varoufakis

Jacobin
O longo mandato de Angela Merkel como primeira-ministra alemã chega ao fim com a realização das eleições na Alemanha. (John MacDougall / AFP via Getty Images)

Tradução / O mandato de Angela Merkel será lembrado como o paradoxo mais cruel da Alemanha e da Europa. Por um lado, ela dominou a política do continente como nenhum outro líder em tempos de paz - e está deixando o governo alemão consideravelmente mais poderosa do que antes. Mas a maneira como ela construiu esse poder condenou a Alemanha ao declínio secular e a União Europeia à estagnação.

Declínio movido pela riqueza

Não há dúvida de que a Alemanha é hoje mais forte política e economicamente do que era quando Merkel se tornou primeira-ministra em 2005. No entanto, os motivos pelos quais a Alemanha é mais forte são os mesmos pelos quais seu declínio está garantido em uma Europa estagnada.

O poder da Alemanha é o resultado de três superávits: seu superávit comercial, o superávit estrutural do governo federal e os fluxos de dinheiro de outras pessoas para os bancos de Frankfurt, por causa da crise do euro que continua carburando lentamente e sem fim.

Enquanto a Alemanha está nadando em dinheiro, graças a esses três excedentes, esse dinheiro é quase todo desperdiçado. Em vez de ser direcionado para a infraestrutura do futuro, pública ou privada, ele é exportado (por exemplo, investido no exterior) ou usado para comprar ativos improdutivos dentro da Alemanha (por exemplo, apartamentos em Berlim ou ações da Siemens).

Por que as empresas alemãs, ou o governo federal, não podem investir esse rio de dinheiro de forma produtiva na Alemanha? Porque – e aqui reside parte do cruel paradoxo – a razão pela qual esses excedentes existem é que eles não são investidos! Em outras palavras, sob o reinado de Merkel, a Alemanha fez uma barganha faustiana: ao restringir os investimentos, adquiriu excedentes do resto da Europa e do mundo, que não pode investir sem perder sua capacidade futura de extrair mais excedentes.

Olhando mais profundamente em sua origem, os superávits que deram poder à Alemanha sob Merkel são o resultado natural por ter forçado os contribuintes alemães e, mais tarde, europeus a resgatar os banqueiros fúteis de Frankfurt sob a condição de engendrar uma crise humanitária na periferia da Europa (Grécia em particular) – um meio pelo qual o governo de Merkel impôs uma austeridade sem precedentes aos trabalhadores alemães e não-alemães (desproporcionalmente, é claro).

Em suma, baixo investimento doméstico, austeridade generalizada e colocar orgulhosos povos europeus uns contra os outros foram os meios pelos quais sucessivos governos de Merkel transferiram riqueza e poder para a oligarquia alemã. Infelizmente, esses meios também levaram a uma Alemanha dividida que agora está perdendo a próxima revolução industrial dentro de uma União Europeia fragmentada.

Três episódios oferecem insights sobre como Merkel exerceu seu poder em toda a Europa para construir, passo a passo, o paradoxo cruel que será seu legado.

Socialismo pan-europeu para os banqueiros da Alemanha

Em 2008, enquanto os bancos em Wall Street e na cidade de Londres desmoronavam, Angela Merkel ainda estava promovendo sua imagem como a primeira-ministra de Ferro conservadora e financeiramente prudente. Apontando um dedo moralizador para os banqueiros perdulários da anglosfera, ela ganhou as manchetes em um discurso em Stuttgart, onde sugeriu que os banqueiros dos EUA deveriam ter consultado uma dona de casa alemã, que lhes teria ensinado algumas coisas sobre como administrar suas finanças.

Imagine seu horror quando, pouco depois, recebeu uma enxurrada de telefonemas do Ministério das Finanças, Banco Central e seus próprios consultores econômicos, todos transmitindo uma mensagem insondável: Primeira-ministra, nossos bancos também estão falidos! Para manter os caixas eletrônicos funcionando, precisamos de uma injeção de € 406 bilhões do dinheiro dessas donas de casa – para ontem!

Era a definição de como se destila o veneno político. Enquanto o capitalismo mundial estava tendo seu espasmo, Merkel e Peer Steinbrück, seu ministro das Finanças social-democrata, estavam anunciando austeridade para a classe trabalhadora alemã, defendendo o mantra padrão e autodestrutivo de apertar o cinto no meio de uma recessão poderosa. Como ela poderia agora aparecer na frente de seus próprios membros do parlamento – a quem ela havia dado palestras sobre as virtudes da austeridade quando se tratava de hospitais, escolas, infraestrutura, seguridade social e meio ambiente – para implorar que assinassem um cheque colossal para banqueiros que até segundos antes nadavam em rios de dinheiro? Sendo a necessidade a mãe da humildade forçada, Merkel respirou fundo, entrou no esplêndido Bundestag [Congresso alemão] projetado por Norman Foster, transmitiu as más notícias a seus estupefatos parlamentares e saiu com o cheque assinado.

Pelo menos está feito, ela deve ter pensado. Exceto que não foi. Poucos meses depois, outra enxurrada de telefonemas exigiu um número semelhante de bilhões para os mesmos bancos. Por que? O governo grego estava prestes a falir. Se o fizesse, os € 102 bilhões que devia aos bancos alemães desapareceriam e, logo depois, os governos da Itália, Grécia e Irlanda provavelmente estariam inadimplentes em cerca de meio trilhão de euros em empréstimos a bancos alemães. Entre eles, os líderes da França e da Alemanha tinham uma participação de cerca de € 1 trilhão e não permitiam que o governo grego falasse a verdade; isto é, confessar sua falência.

Foi então que a equipe de Angela Merkel entrou em ação, encontrando uma maneira de resgatar os banqueiros da Alemanha pela segunda vez, sem dizer ao Bundestag que era isso que eles estavam fazendo: eles retratariam o segundo salvamento de seus bancos como um ato de solidariedade com os “gafanhotos da Europa”, o povo da Grécia. E fazer outros europeus, mesmo os muito mais pobres eslavos e portugueses, pagar um empréstimo que iria momentaneamente para os cofres do governo grego antes de acabar nas contas dos banqueiros alemães e franceses.

Sem saber que estavam realmente pagando pelos erros dos banqueiros franceses e alemães, os eslavos e os finlandeses, como os alemães e os franceses, acreditavam que estavam tendo que arcar com as dívidas de outro país. Assim, em nome da solidariedade com os insuportáveis gregos, Merkel plantou as sementes do ódio entre os orgulhosos povos da Europa.

Austeridade pan-europeia

Quando o Lehman Brothers quebrou em setembro de 2008, seu último CEO implorou ao governo dos Estados Unidos (EUA) por uma linha de crédito gigantesca para manter seu banco funcionando. Suponha que, em resposta, o presidente dos EUA tenha respondido: “Sem resgate e, também, não estou permitindo que você peça falência!” Seria totalmente absurdo. E, no entanto, foi exatamente isso que Angela Merkel disse ao primeiro-ministro grego em janeiro de 2010, quando ele implorou desesperadamente por ajuda para evitar a declaração de falência do Estado grego. Era como dizer a uma pessoa que estava caindo: eu não vou segurar você, mas você também não pode cair no chão.

Qual era o sentido deste duplo nein [não] tão absurdo? Dado que Merkel sempre iria insistir que a Grécia tomasse o maior empréstimo da história – como parte do segundo resgate oculto dos bancos alemães – a explicação mais plausível é também a mais triste: seu duplo nein, que durou alguns meses, conseguiu infundir tamanho desespero no primeiro-ministro grego que, por fim, ele concordou com o programa de austeridade mais esmagadores da história. Assim, dois pássaros foram mortos com um tiro de resgate: Merkel sorrateiramente socorreu os bancos alemães pela segunda vez. E a austeridade universal começou a se espalhar por todo o continente, como um incêndio florestal que começou na Grécia antes de se espalhar por toda parte, inclusive na França e na Alemanha.

Até o amargo fim

A pandemia ofereceu a Angela Merkel a última chance de unir a Alemanha e a Europa.

Uma nova grande dívida pública era inevitável, mesmo na Alemanha, à medida que os governos buscavam repor as rendas perdidas durante o bloqueio. Se houve um momento de ruptura com o passado, foi esse. O momento era de clamar para que os superávits alemães fossem investidos em uma Europa que, ao mesmo tempo, democratizasse seus processos decisórios. Mas o último ato de Angela Merkel foi garantir que esse momento não acontecesse.

Em março de 2020, em um ataque para gerar pânico após nossos bloqueios em toda a União Europeia (UE), treze chefes de governos da UE, incluindo o presidente da França, Emmanuel Macron, exigiram da UE a questão da dívida comum (o chamado eurobônus) que ajudaria a mudar a rota da crescente dívida nacional dos membros mais fracos da UE para evitar a austeridade maciça ao estilo grego nos anos pós-pandemia. A primeira-ministra Merkel, sem surpresa, disse mais um nein e ofereceu a eles um prêmio de consolação na forma de um fundo de recuperação que não faz nada para ajudar a arcar com as crescentes dívidas públicas nacionais – ou para ajudar a pressionar os excedentes acumulados da Alemanha para os interesses de longo prazo da sociedade alemã.

No típico estilo de Merkel, o objetivo do fundo de recuperação era parecer fazer o mínimo necessário daquilo que é do interesse da maioria dos europeus (incluindo a maioria dos alemães) – sem realmente fazer isso! O ato final de sabotagem de Merkel teve duas dimensões.

Primeiro, o tamanho do fundo de recuperação é, intencionalmente, macroeconomicamente insignificante; isto é, muito pequeno para defender as pessoas e comunidades mais fracas da UE da austeridade que virá quando Berlim der luz verde para a “consolidação fiscal” a fim de controlar as crescentes dívidas nacionais.

Em segundo lugar, o fundo de recuperação irá, na realidade, transferir riqueza dos nortistas mais pobres (por exemplo, os alemães e holandeses) para os oligarcas do sul da Europa (por exemplo, empreiteiros gregos e italianos) ou para corporações alemãs que administram os serviços públicos do sul (por exemplo, Fraport, que agora opera os aeroportos da Grécia). Nada poderia garantir mais eficientemente a contaminação da guerra de classes da Europa e da divisão Norte-Sul do que o fundo de recuperação de Merkel – um ato final para sabotar a unidade econômica e política europeia.

Um lamento final

Ela casualmente arquitetou uma crise humanitária em meu país, a Grécia, para camuflar o resgate de banqueiros alemães que beiram a criminalidade, enquanto colocava orgulhosas nações europeias umas contra as outras.

Ela sabotou intencionalmente todas as oportunidades de reunir europeus.

Ela habilmente conspirou para minar qualquer transição verde genuína na Alemanha ou em toda a Europa.

Ela trabalhou incansavelmente para castrar a democracia e impedir a democratização de uma Europa desesperadamente antidemocrática.

E, no entanto, observando o bando de políticos toscos e burocráticos lutando para substituí-la, espero não ter que sentir falta de Angela Merkel. Mesmo que minha avaliação de sua gestão permaneça analiticamente a mesma, suspeito que, em breve, estarei pensando em sua gestão com mais carinho.

Colaborador

Yanis Varoufakis foi ministro das Finanças da Grécia durante os primeiros meses do governo liderado pelo Syriza em 2015. É autor dos livros "Minotauro Global", "E os fracos sofrem o que devem?" e "Adultos na sala", todos publicados pela editora Autonomia Literária.

24 de setembro de 2021

Fim dos impérios

Como a Segunda Guerra Mundial mudou o mundo

John Darwin


Tropas japonesas entrando na Manchúria, 1931

BLOOD AND RUINS 
The great imperial war 1931-1945
1,040pp. Allen Lane. £40.
Richard Overy

RICHARD OVERY é o principal historiador da Segunda Guerra Mundial e do que ele chama de "era mórbida" que a precedeu. Este livro é sua obra-prima (em todos os sentidos da frase). É uma história global abrangente do conflito que reúne seus elementos geopolíticos e geoestratégicos com uma análise rigorosa de suas múltiplas dimensões: o extraordinário nível de mobilização que a guerra exigiu; os meios pelos quais foi travada; as "economias de guerra" que criou; as questões morais e jurídicas que suscitou; o papel dos civis; as variadas respostas emocionais à guerra e seu impacto na saúde mental; e a escala e a natureza dos crimes e atrocidades que a seguiram. O livro conclui com um capítulo que argumenta (de forma incontroversa) que a guerra sinalizou o fim iminente da "velha ordem imperial", cujas regras e normas governaram o mundo durante o século anterior. É preciso acrescentar, é claro, que não foi o fim do império, como tantos comentaristas da época e desde então ingenuamente imaginaram. O império é um fenômeno mutável que está sempre conosco: novos colonialismos surgem tão rapidamente quanto os antigos desaparecem.

Uma das muitas virtudes de Blood and Ruins é nos forçar a questionar por que uma guerra de tamanha magnitude e de tamanha barbárie apavorante eclodiu naquele momento específico da história mundial. O que, se é que houve algo, no século anterior acendeu o estopim para um conflito tão cataclísmico, muito mais sangrento e destrutivo do que a "guerra para acabar com todas as guerras" apenas vinte anos antes? Teria sido a guerra o produto final medonho do que Eric Hobsbawm certa vez rotulou de "dupla revolução" – a revolução industrial na Grã-Bretanha, a revolução política na França – sua interação volátil e (eventualmente) impacto global? Ou teria sido (meramente?) a mais recente e sangrenta de uma série de guerras pela supremacia global que pontuaram a história mundial desde o século XVII – guerras que podem ser contidas por um tempo pelo poder hegemônico ou por uma grande coalizão do status quo, mas que inevitavelmente se seguem quando surgem desafiantes, fortes o suficiente para refazer o mundo de acordo com seus próprios desígnios?

A resposta de Richard Overy, apresentada em seus três primeiros capítulos, é ver a guerra principalmente como a grande luta final de imperialistas rivais. Seu agressivo imperialismo expansionista, manifesto a partir do final do século XIX, foi impulsionado por duas pressões irresistíveis: a modernização (e desestabilização) do mundo em geral pela industrialização da Europa; e o medo das principais potências europeias de que, sem garantir grandes extensões de terras globais, seriam condenadas a um status de segunda classe e ao declínio terminal. Esse medo foi inflamado pela associação entre imperialismo e nacionalismo: a construção de uma nação na Europa exigia autoafirmação no exterior, o teste decisivo da virilidade nacional. Aqueles que ainda leem essas coisas podem se lembrar do famoso tratado de Lenin, Imperialismo: O Estágio Superior do Capitalismo, publicado em 1916 para tranquilizar os revolucionários céticos. Para Lenin, também, tal luta era inevitável, pois as potências capitalistas em ascensão competiam pelas zonas vitais onde superlucros poderiam ser obtidos para evitar a revolução social interna. O resultado seria a destruição mutuamente assegurada e a queda do capitalismo. Overy, é claro, não concorda com a história científica de Lênin e, ao contrário deste, insiste em um papel para o nacionalismo. Mas ele vê a guerra como uma abertura para o fim dos impérios e sua substituição por um "mundo de Estados-nação". Ao longo de seus três primeiros capítulos, em particular, onde o curso da guerra é analisado, há uma forte analogia entre a expansão alemã na Europa Oriental e a antiga atividade colonizadora das potências europeias no mundo extraeuropeu.

Dada a sua premissa sobre as suas causas, faz sentido para Overy ver a guerra como tendo começado não em 1939, nem (como alguns argumentam) em Xangai em 1937, mas com a invasão japonesa da Manchúria em 1931 e a sua gradual expansão pela China. De fato, uma das características mais impressionantes do livro é a tentativa de dar igual atenção a todos os principais participantes: os seus objetivos e pensamento estratégico, bem como a sua condução da guerra. O ataque do Japão à China pode ter sido desencadeado pela sua extrema exposição à depressão global, mas a sua resposta violenta foi – tal como a dos seus mentores europeus – moldada pela mesma combinação de nacionalismo e autoafirmação. O mesmo se aplica à Itália, cuja invasão da Etiópia Overy ridiculariza como um “ato de desespero”. Para a Alemanha, com o confisco brutal das suas colónias ultramarinas em 1919 e a proibição do poder marítimo, o resultado “por omissão” foi voltar o seu impulso colonizador para o leste, palco desde a Idade Média da atividade comercial alemã e da migração efetiva. De fato, no que se tornariam os três estados bálticos da Estônia, Letônia e Lituânia, partes do império czarista até 1918, a casta dominante era a dos chamados "bálticos", a elite fundiária de língua alemã que havia colonizado a burocracia czarista.

Os três primeiros capítulos poderiam ser considerados, por si só, uma história da guerra. Seria difícil exagerar o brilhantismo com que a argumentação e a perspicácia se entrelaçam em uma narrativa de ritmo acelerado. Se o esboço for familiar, Overy constantemente ilumina, ajusta e, às vezes, desafia nossas noções convencionais. "Apaziguamento", argumenta ele, é uma péssima escolha de palavra para a política externa à qual Chamberlain sempre foi associado. Ela é melhor descrita como de "contenção e dissuasão", necessariamente limitada tanto para a Grã-Bretanha quanto para a França por seus compromissos globais e imperiais. Foi, paradoxalmente, sua busca por um império que enfraqueceu sua capacidade de conter as ambições imperiais da Alemanha, Itália e Japão. Overy argumenta que foi a firmeza de Chamberlain em Munique que forçou Hitler a recuar e aceitar um compromisso sobre a Tchecoslováquia em 1938.

O leitor pode não concordar com todos os seus comentários. Teria sido "uma aliança temporária entre elites imperiais e antifascistas democráticos que tornou possível uma nova guerra mundial"? Não está claro em qual categoria Clement Attlee, um ferrenho defensor da contínua influência britânica na Índia, ou Ernest Bevin, a fortissime, deveriam ser colocados. Churchill, o imperialista arquetípico, era "sentimentalista em relação ao império": essa não era a experiência dos primeiros-ministros dominantes. Grã-Bretanha e França viam a guerra como uma guerra contra a "construção violenta de impérios". Mas certamente na Europa, pelo menos, sua principal ansiedade era a derrubada do acordo do pós-guerra e o ressurgimento do pesadelo de 1914 de uma Alemanha dominante sobre o continente. Pode-se argumentar também que, em sua insistência na perspectiva imperial de Hitler, Overy minimiza o elemento irredentista no expansionismo nazista, a recuperação de terras e volk perdidos, e a influência da mentalidade Grossdeutsch à qual Hitler, como austríaco, era suscetível. Outra curiosidade é a omissão da União Soviética na lista de agressores imperialistas, como se sua pureza doutrinária fosse um guia para sua prática. No entanto, Stalin, o antigo comissário das nacionalidades, havia conquistado rapidamente a autodeterminação nacional após 1919. E quando a oportunidade surgiu, ele foi um predador imperialista tão implacável quanto Hitler.

Mas esses são apenas detalhes. A narrativa de Overy sobre a guerra, com sua cuidadosa atenção às relações tensas e às diferentes prioridades tanto das alianças do Eixo quanto das anglo-americanas, sua evocação da experiência humana individual e sua habilidade em combinar detalhes dos campos de batalha com uma visão “global”, é extraordinariamente cativante e escrita com notável fluência. Ele nos lembra que grande parte do fracasso da invasão alemã à Rússia, assim como o fracasso japonês na China, decorreu das vastas extensões territoriais que tentaram controlar e da falta de transporte e comunicações adequados. No caso russo, isso foi agravado pela obsessão de Hitler em conquistar território — criar um “império” — em vez de, como desejavam seus generais, destruir rapidamente os exércitos russos. Para os japoneses, o momento crucial foi o fracasso em manter Guadalcanal: a partir daí, eles passaram à defensiva, com seus recursos sendo drenados pela “úlcera” chinesa. Já no final de 1942, as “realidades imperiais” começaram a superar suas “fantasias imperiais”. No entanto, a conclusão arrastada daquela que, para o Eixo, havia se tornado, em 1943, uma guerra impossível de vencer, foi longamente postergada pelaquilo que, em retrospectiva, parece uma resiliência quase inacreditável, tanto dos militares quanto dos civis, diante de uma derrota certa — um fenômeno que, por si só, exige explicação (e ao qual Overy se dedica em capítulos posteriores).

Mas a maior parte do livro é ocupada por seus sete capítulos temáticos, que examinam a guerra sob uma variedade de pontos de vista. Em "Mobilizando uma Guerra Total", ele argumenta convincentemente que a capacidade de reunir e armar exércitos tão vastos de combatentes marcou um momento peculiar na história mundial, quando armas de relativa simplicidade podiam ser fabricadas em escala impressionante e empregadas por recrutas de habilidade limitada, mas, pelo menos no Ocidente, de considerável alfabetização. O contraste com os sistemas de armas modernos é óbvio. A ideologia do nacionalismo – aliada ao medo do que a derrota poderia trazer – sobrecarregou os laços do patriotismo e garantiu que nem as dificuldades nem a certeza da derrota provocassem a agitação revolucionária vista na Rússia e na Alemanha na Primeira Guerra Mundial. "Lutando na Guerra" examina as técnicas mutáveis ​​de guerra terrestre, marítima e aérea, os usos da inteligência e o equilíbrio mutável da inovação tecnológica. Os horrores da guerra de tanques, especialmente para aqueles que se depararam com o mortal canhão antitanque de 75 mm da Alemanha, e as perdas impressionantes sofridas por todas as forças blindadas, são um lembrete gráfico de que o conflito mecanizado não era mais seguro do que seus equivalentes mais primitivos. Em "Economias de Guerra", encontramos o reconhecimento precoce de Hitler de que a produção em massa de armas era crucial, mas que o desempenho alemão foi prejudicado pela interferência do exército, pela proliferação de tipos de armas e pela falta de racionalização até 1944, quando já era tarde demais. Tanto para a Alemanha quanto para o Japão, a escassez de combustível tornou-se uma desvantagem devastadora.

Os quatro capítulos temáticos restantes se voltam para o que poderia ser chamado de lado civil da guerra. “Guerras justas, guerras injustas” destaca as justificativas defendidas pelos propagandistas alemães, italianos e japoneses: a ênfase na ameaça do “perigo nacional”; o senso de direito como nações imperiais em pé de igualdade com as outras potências coloniais; a menosprezação de suas vítimas como povos inferiores, indignos de autogoverno (ou mesmo de sobrevivência). Nos Estados Unidos, em maior medida do que na Grã-Bretanha, a guerra foi apresentada como uma luta ideológica pela liberdade e pela democracia – talvez porque nem os argumentos a favor do equilíbrio de poder nem o medo de invasão tivessem o mesmo impacto. Em “guerras civis”, é a escala sem precedentes de envolvimento e sofrimento civil que a guerra infligiu que precisa de explicação: um produto talvez tanto da mudança tecnológica quanto das barbáries que as ideologias de raça e nacionalismo agora autorizam – crimes e atrocidades são investigados em detalhes em um capítulo separado. Por fim, talvez com base em seu interesse anterior pela “era mórbida” do período entre guerras, Overy

A conclusão devastadora de uma guerra invencível, adiada por muito tempo pela resiliência quase inacreditável de militares e civis diante da derrota certa, oferece um panorama fascinante de como as consequências psicológicas e emocionais para civis e militares foram compreendidas e (em alguns casos) tratadas pelos vários combatentes.

Talvez isso seja suficiente para demonstrar que Sangue e Ruínas oferece um panorama soberbo da guerra que captura tanto a natureza épica do conflito quanto os elementos que tornaram sua importância histórico-mundial tanto sociológica e cultural quanto geopolítica. A massa de informações detalhadas, baseada em uma vasta gama de fontes, é suficiente para satisfazer o mais cauteloso dos anoraques. Resta examinar a descrição deliberada de Overy da guerra como "a grande guerra imperial" e sua afirmação de que a agressão imperialista das décadas de 1930 e 1940 foi apenas um eco da ideologia e prática dos impérios coloniais anteriores a 1914. Por mais sugestivo que seja, há várias razões para qualificar, se não rejeitar, esse argumento. Ao contrário da lenda de uma imperialismo "vermelho nos dentes e nas garras", as rivalidades coloniais da era anterior não levaram a um conflito aberto entre as potências europeias. Elas preferiram resolver suas diferenças após alguns empurrões e vaias, principalmente porque se recusaram a arriscar uma guerra geral em nome da selva e do mato – o que Lord Salisbury chamou de "solo leve". Tampouco estavam dispostas a investir grandes recursos públicos na aquisição, governo ou desenvolvimento de seus impérios ultramarinos. A guerra sul-africana da Grã-Bretanha de 1899-1902 não foi uma guerra por território colonial (e certamente não por ouro), mas pela segurança geoestratégica de sua rota para o leste – o mesmo motivo por trás da ocupação do Egito em 1882. As guerras de 1898 e 1904-1905 não foram travadas entre as potências europeias. Embora nenhuma potência colonial fosse isenta de atrocidades periódicas, às vezes com consequências genocidas, e o deslocamento de povos indígenas fosse comum nas sociedades de colonos, a liquidação deliberada de populações subjugadas raramente era tentada, mesmo porque, em regiões subpovoadas, sua mão de obra era muito valiosa. Nem, em sua maioria, os governantes coloniais tinham meios para coagir os governados diretamente: eram obrigados a confiar nesses intermediários cruciais, a "elite colaboradora", e a evitar aliená-los ou minar sua influência. O quadro administrativo britânico na Índia, um subcontinente de 350 milhões de pessoas, contava com menos de 1.000; na Presidência de Madras, uma província com cerca de 50 milhões, havia sessenta policiais britânicos. A "guarda pretoriana" do Raj, a guarnição totalmente britânica, somava, na melhor das hipóteses, cerca de 70.000 homens, a maioria deles vigiando a turbulenta Fronteira Noroeste.

Nas décadas de 1930 e 1940, vivemos em um mundo diferente. As tensões pré-guerra haviam sido amenizadas em parte pelo enorme crescimento do comércio e pela promessa de prosperidade comercial. Isso terminou em 1931. A guerra ideológica desempenhou um papel menor na diplomacia das grandes potências antes de 1914: na década de 1930, sua influência estava em toda parte. Antes Em 1914, nenhuma grande potência estava empenhada em destruir a ordem mundial existente. Na década de 1930, Alemanha, Japão, União Soviética e (mais equivocadamente) Itália denunciaram sua injustiça e buscaram sua derrubada: os Estados Unidos foram, na melhor das hipóteses, um defensor morno. Os imperialismos resultantes tinham pouco em comum com seus precedentes nominais. Não reconheciam limites nem regras comuns. Mesmo o imperialista mais fervoroso antes de 1914 não poderia ter sonhado com uma guerra colonial na escala de "Barbarossa", ou com uma presença administrativa e de segurança equivalente a um décimo daquela infligida à Rússia ocupada. Uma "guerra total" por ganhos coloniais, impondo enormes custos à população local, era fantasia. Os imperialismos da década de 1930 foram um novo imperialismo, produto de uma era geopolítica, geoeconômica e geoideológica muito diferente: de fato, foi precisamente seu caráter revolucionário que pegou os defensores da velha ordem desprevenidos.

Um último pensamento subversivo. A Segunda Guerra Mundial foi, de fato, em parte, uma guerra por impérios. Mas talvez tenha sido, afinal, principalmente uma guerra pela Europa e pela supremacia nela. A Europa ainda era “de onde vinha o tempo”, na expressão de Churchill, ainda (apenas) o centro do mundo. E o império seguia sendo uma periferia.

John Darwin foi, até 2017, Professor de História Global e Imperial em Oxford, onde agora é Pesquisador Sênior do Nuffield College. Seu livro mais recente é "Unlocking the World: Port cities and globalization in the age of steam 1830–1930", 2020.

Uma Copa do Mundo a cada dois anos seria devastadora para o futebol

Os dirigentes da Fifa, órgão regulador do futebol, estão pedindo que a Copa do Mundo seja realizada a cada dois anos, em vez de quatro. O plano é uma grana nua - e mostra que as autoridades esportivas antidemocráticas sempre colocarão as chances de vender publicidade acima da qualidade do jogo.

Dave Braneck

Jacobin

Cristiano Ronaldo de Portugal sendo marcado por Christopher Martins Pereira e Leandro Barreiro de Luxemburgo durante um jogo das eliminatórias da Copa do Mundo FIFA 2022, que será realizada no Qatar. (Sylvain Lefevre / Getty Images)

Tradução / "Eu recordo que, quando criança, meu sonho era jogar em uma Copa do Mundo. Para todos meus amigos, todos que conheci durante minha vida, esse era o nosso sonho", declarou recentemente o ex-jogador da seleção brasileira Ronaldo. Se existe qualquer um que sabe da importância de uma Copa, é ele. Ele jogou em quatro delas – levantando o troféu em duas delas, enquanto se estabelecia como um dos jogadores mais icônicos do esporte durante a virada do milênio.

Respondendo às sugestões de que o torneio deveria acontecer o dobro de vezes, Ronaldo continua ”Com esta mudança, mais e mais pessoas poderão transformar este sonho em realidade”. Tudo que o mundo precisa é de mais Copas e o mundo será agraciado com outros Ronaldos? Ele não pareceu preocupado como exatamente mais torneios como este ajudariam mais jogadores a alcançar seus sonhos – ou simplesmente ver os mesmos jogadores dos países habituais que já se classificam, agora com mais frequência.

Não considerar isso seria compreensível se Ronaldo estivesse apenas pensando em voz alta sobre como realizar sonhos. No entanto, na verdade, ele estava avaliando o que poderia ser uma batalha decisiva para o futuro do esporte.

A FIFA, órgão que governa o futebol internacional, realiza atualmente um estudo de viabilidade sobre a realização da Copa do Mundo a cada dois anos, ao invés do intervalo atual de quatro. A princípio, isso pode parecer uma tentativa benéfica, embora equivocada, de dar aos fãs mais do que eles amam e democratizar a participação. Mas, como a maioria dos órgãos governamentais esportivos no capitalismo, a FIFA tem apenas uma coisa em mente: lucro. Se aprofundarmos a análise, veremos que isso não é apenas uma ideia idiota, mas o último subterfúgio na guerra de classes em que as maiores organizações e clubes de futebol travam há anos contra torcedores, jogadores e funcionários.

Neste sentido, isso também indica um aprofundamento do apodrecimento no esporte: os “vampiros” interessados no futebol o veem apenas como um produto que pode ser espremido para retirar todo lucro possível, mesmo que isso seja extremamente impopular ou prejudique a qualidade do próprio jogo. E mais importante que isso, essa visão do jogo fundamentalmente não compreende o fato de que os jogadores não são somente estrelas que podem ser usados para vender camisas e promover produtos – eles são trabalhadores cujo trabalho torna tudo isso possível.

Duas vezes mais, o dobro da diversão?

Você não precisa ser um anticapitalista ferrenho para ser contra a estratégia da FIFA de realizar tanto a Copa do Mundo masculina quanto a feminina a cada dois anos. Muito da magia da Copa do Mundo está em ser um evento raro e sísmico. A espera de quatro anos para cada torneio pode ser agonizante, mas isso torna cada jogo mais significativo – tornando cada Copa do Mundo uma marca inigualável de um momento específico na vida dos torcedores. Jogadores sonham em alcançar o maior palco do mundo porque sabem que suas chances de aparecer nele – quanto mais de vencer – são limitadas a raras oportunidades.

Em sua última edição, mais da metade do planeta acompanhou os jogos – com mais de 1 bilhão de espectadores assistindo a final. Então, com a FIFA decidindo dobrar a frequência do torneio, poderia hipoteticamente ajudar a dobrar o prazer que traz a Copa do Mundo. Ou poderia arruinar o evento esportivo mais prestigiado e popular na Terra?

Quando o lendário técnico do Arsenal Arsène Wenger, agora chefe de desenvolvimento global da FIFA, pressionou pela primeira vez por uma Copa do Mundo bienal em março do ano passado, ele citou a importância de uma competição significativa, dizendo “as pessoas precisam entender o que está em jogo e apenas ter jogos importantes”. É difícil de compreender como a concepção de Wenger, oficialmente proposta pela Arábia Saudita em maio, atingiria esse objetivo, ao invés de simplesmente diluir seu significado.

O montante de jogos oferecidos atualmente já é esmagador, desde competições de clubes nacionais e internacionais até torneios regionais cada vez maiores e torneios internacionais de seleções.

Normalmente um marco do fim de cada temporada (embora raramente seja o último jogo), a final da Liga dos Campeões de 2021 caiu em 29 de maio. Menos de duas semanas depois, a Eurocopa havia começado (além de outros torneios internacionais em outros continentes). A Itália conquistou o título da Eurocopa em 11 de julho. A maioria dos times da liga inglesa já haviam começado sua pré-temporada, e as maiores ligas do mundo deram aos torcedores um intervalo enorme de quatro semanas de respiro (mesmo que esse espaço tenha sido preenchido com jogos amistosos) antes da temporada 2021/2022 da Premier League começar com a humilhante derrota do Arsenal para o mais novo time da primeira divisão, Brentford.

O futebol simplesmente não tem intervalo e os torcedores não clamam por mais jogos. Se eles conseguem evitar a exaustão por tempo suficiente para clamar por qualquer coisa, eles tendem a clamar por uma pausa. De acordo com o CIES Football Observatory, a maioria dos torcedores acha que há muitos jogos, principalmente entre seleções. Os fãs não estão apenas cansados ​​de todos os jogos. Pelo contrário, muitos já deixaram claro o quanto são contrários à ideia de uma Copa a cada dois anos.

Lucrando com o jogo por todo o mundo

Ofato de a FIFA estar agindo diretamente em desacordo com os torcedores que tornam o futebol possível está perfeitamente alinhado com a forma como ela e outras partes interessadas veem o esporte. Aos seus olhos, o futebol existe somente para encher os bolsos de seus organizadores, geralmente extorquindo os fãs. Isso corresponde há décadas de comercialização escancarada do futebol mundial, uma guerra pelo futuro do esporte travada e amplamente vencida por instituições antidemocráticas como a FIFA e a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA).

Espremendo qualquer possibilidade de lucro que saia deste jogo não é um fenômeno recente, muito menos limitado ao futebol internacional. Os torcedores acabaram de se recuperar da tentativa insensível e ridiculamente executada dos maiores clubes da Europa de formar sua própria Superliga Europeia; agora, eles têm que aceitar a última tentativa da FIFA de reordenar o futebol para gerar mais lucro.

Se a FIFA fosse motivada pelo interesse dos torcedores, nunca teria se incomodado com um estudo de viabilidade em primeiro lugar, dado o quão impopular o plano provou ser. A FIFA se preocupa com a renda acima de qualquer coisa. E dado que 95% dos US$ 5.6 bilhões acumulados de 2015 até 2018 foram gerados pela Copa de 2018. Não é surpresa que a FIFA comece a pensar que dobrar o número de torneios seja uma boa ideia.

O desdém dos fãs por esta proposta não será o suficiente para impedir a FIFA ou que várias estrelas aposentadas como Ronaldo de se expressarem favoráveis a ideia – quase todos os quais permanecem ligados à organização ou se beneficiam indiretamente do plano.

Depois de décadas de subornos e direitos de transmissão de torneios comprados abertamente, a FIFA se tornou sinônimo de corrupção – e mostrou uma resistência impressionante a qualquer reforma ou melhoria significativa. O futebol como a própria organização já levou diretores à prisão. A Copa do Mundo de 2022 no Catar foi a culminação de uma década de lavagem esportiva na ditadura do Golfo – e demonstrou o quão longe a FIFA irá para proteger sua vaca leiteira.

Conceder o torneio ao Catar (nada surpreendente, com base em propina e não em suas tradições futebolísticas nulas ou status como uma escolha lógica para o anfitrião) desencadeou uma explosão no mercado de construções, dependente de migrantes trabalhando em condições abomináveis. Mais de 6.500 trabalhadores morreram desde que o Catar foi escolhido como sede há mais de dez anos, incluindo 37 trabalhadores diretamente envolvidos na construção de estádios para o torneio.

O elenco da seleção alemã vestiu camisetas para demonstrar o apoio aos direitos humanos, chamando atenção a abusos de direitos trabalhistas no Catar, seleção que sediou a Copa em 2022 (@DFB_Team_EN / Twitter)

A resposta da FIFA para esta tragédia tem sido uma indiferença devastadora. A decisão pelo Catar como sede foi, aparentemente, grande demais para encontrar outro anfitrião só porque o torneio foi construído sobre os túmulos de milhares de trabalhadores. E enquanto protestos tanto de fãs e jogadores contra a Copa cresciam, ficou claro que a FIFA não teve nenhum interesse em mudar de posição.

Os jogadores também são trabalhadores

Aaposta da FIFA não está apenas enraizada em seu papel na comercialização do futebol – só é possível devido à recusa da organização em reconhecer que, em última análise, os jogadores que ajudam a obter lucros são trabalhadores. Claro, pode ser difícil reconhecer que jogadores de futebol estejam trabalhando por causa de seus elevados ganhos, especialmente dado que muitos são alguns dos mais ricos e famosos atletas do mundo. Mas sem eles, não haveria Copa do Mundo para capitalizar.

E refletindo que o grande negócio do futebol é dependente de seus jogadores, nem todo jogador é Leonel Messi. Mesmo em um torneio prestigiado como a Copa do Mundo, muitos participantes representam nações menores em termos futebolísticos, operam seu negócio entre clubes mais pobres e preenchem a independência financeira dos maiores nomes do esporte. E sejam eles super-estrelas ou não, esses jogadores merecem uma pausa, para não serem forçados a se preparar para torneios cada vez mais frequentes durante o que deveria ser o período entre temporadas.

A FIFA e outros interessados pelos jogadores, que tem uma visão deles como mero capital, foram expostos durante a pandemia. Em muitos países, o futebol foi uma das primeiras atividades a retornar após um período inicial de lockdowns em 2020, mesmo antes de ficar claro quando seria seguro ou não. Enquanto as competições domésticas continuaram, reclamando da que na receitas da TV, até as competições internacionais voltaram rapidamente em meio ao surto global. Não importa como, o show tem que continuar.

Jogadores – assim como técnicos, auxiliares e equipe técnica que fazem o jogo e sua transmissão possível – seguiram enquanto o mundo desmoronava ao seu redor, mesmo que muitos se sentissem desconfortáveis com isso. De acordo com a associação internacional de jogadores FIFPRO, a pandemia potencializou o congestionamento de jogos. Isso não se limitou às ligas mais ricas do mundo, ocorreu da base até o topo da pirâmide e levou a terríveis exemplos, como o time da segunda divisão alemã Dynamo Dresden tendo que jogar nove jogos no intervalo de 29 dias para terminar a temporada após o fim da quarentena ser interrompida.

Mesmo sem a COVID-19, jogadores de futebol já esperam jogar um calendário numeroso de jogos. Se é muita coisa para os fãs, certamente é muito para os jogadores. O meio campista da Espanha e do Barcelona Pedro González López, conhecido como Pedri, jogou incríveis setenta e dois jogos pelo clube e seleção na temporada 2020/21. Mesmo a FIFA reconhecendo que isso é um problema. Mudar para uma Copa do Mundo bienal visa ostensivamente aliviar o congestionamento de jogos: o plano de Wenger envolve menos intervalos internacionais, embora mais longos, e removeria partidas desnecessárias ou não competitivas.

Parece improvável que isso realmente reduza o número de jogos internacionais sendo disputados, especialmente porque a FIFA não tem solução para o que acontecerá com torneios continentais imensamente apreciado, normalmente quadrienais com suas eliminatórias, se a Copa do Mundo ocorrer a cada dois anos. É apenas uma tentativa descarada de aumentar a receita gerada que também diminuiria a importância de um torneio extremamente popular.

Ao invés de ser uma solução, tornaria tudo pior. Mas ainda assim, a FIFA está feliz em permitir que a qualidade do esporte sofra se isso puder permitir que algumas pessoas fiquem mais ricas, como quando expande torneios sob o pretexto de “democratizar” o esporte apenas para gerar mais lucrativas transmissões para uma maior base de regiões participantes. Novamente, se a FIFA se importasse com a preservação da qualidade do futebol, nós não deveríamos estar prestes a presenciar a Copa do Mundo de 2026 com uma expansão de 32 para 48 nações participantes.

Ao invés de abordar as desigualdades gritantes de recursos entre as seleções – ou fazer qualquer coisa para contenção de um sistema de clubes quebrado que vê jogadores talentosos e quase todo dinheiro canalizado para apenas algumas ligas na Europa – a solução da FIFA é simplesmente realizar mais partidas e deixar que os problemas se resolvam sozinhos.

Confrontando a investida da FIFA

Reconhecidamente, a resposta inicial à proposta da FIFA tem sido massivamente negativa. E embora ainda não tenha cedido, a FIFA enfrenta forte resistência. Grandes ligas ao redor do mundo têm se posicionado contrárias a esse movimento, enquanto o presidente da UEFA Aleksander Čeferin expressou “preocupações graves” sobre a iniciativa. Vale a pena notar que tanto a UEFA, ao lado de outros grupos associativos, provavelmente estão mais preocupados com a pressão que as Copas do Mundo bienais colocariam em torneios continentais como a Eurocopa do que com a santidade do esporte.

Tendo em mente que muitos fãs são contra a proposta, a resposta mais clara veio de outros interessados, impacientes em manter sua fatia a nlucratividade do futebol ou fazer o possível para manter o já frágil equilíbrio entre as competições domésticas e internacionais. A rápida rejeição da Superliga Europeia demonstra a importância dos torcedores – e a pressão que colocam em clubes e confederações – em fiscalizar organizações como a FIFA quando elas apenas tem como objetivo aumentar seus lucros.

No entanto, existem alguns sinais promissores. Football Supporters Europe, uma rede independente de torcedores ao redor da Europa, recentemente soltou uma nota apoiada por fãs do mundo todo contra a ideia de Copa a cada dois anos. Ações como essa serão extremamente necessárias para manter a beleza da Copa do Mundo, o grandioso espetáculo que os fãs conhecem e amam. Uma organização de suporte adicional é igualmente necessária se houver alguma chance de reverter anos de mercantilização. Isso significa garantir que aqueles que tornam o esporte mais popular do mundo o que ele é – os torcedores que lotam os estádios, os jogadores que entram em campo e os trabalhadores que tornam tudo isso possível – possam opinar sobre sua direção futura.

Desistir da proposta cínica de organizar uma Copa do Mundo a cada dois anos e encontrar uma solução real para o excessivo número de jogos seria um bom começo.

Colaborador

Dave Braneck é jornalista em Berlim, cobrindo esportes e política.

Não há substituto para os partidos de massa da classe trabalhadora

Robert Michels desenvolveu sua “lei de ferro da oligarquia” depois de ver a burocratização do movimento socialista inicial. Suas advertências são relevantes hoje - mas o caminho para a transformação social ainda passa pela construção de partidos políticos de massa da classe trabalhadora.

Loren Balhorn

Jacobin

O líder do Partido Social Democrata da Alemanha, August Bebel, fala na conferência de 1907 da Segunda Internacional em Stuttgart, Alemanha. (Ullstein Bild / Getty Images)

Tradução / Os partidos políticos já não são o que eram. Seja do proletariado ou da burguesia, os dias em que o que o discípulo da Escola de Frankfurt, Otto Kirchheimer, chamou de partidos de “massa” galvanizou milhões com visões ousadas de um futuro melhor já passou muito tempo. O poderoso senso de comunidade outrora ligado à política partidária deu lugar a um ritual estéril, com organizações de massa reduzidas a redes de patrocínio e clubes sociais para uma pequena comunidade de verdadeiros seguidores.

Este desenvolvimento estava para acontecer há muito tempo. Nos anos 60, Kirchheimer assistiu com apreensão à época em que os partidos de massa do início do século XX deram lugar aos partidos “catchall“, cuja única missão era maximizar os votos por qualquer meio necessário. Enquanto os laços dos velhos partidos com os meios sociais coerentes e as visões de mundo concorrentes tinham assegurado um grau de responsabilidade democrática, nos Estados de bem-estar social do pós-guerra eles ameaçavam tornar-se pouco mais do que “transmissores de consenso” ideologicamente maleáveis. Em vez de dar poder às massas, a agência política seria reduzida ao ato isolado de votar a cada poucos anos em máquinas de campanha com pouco a oferecer no caminho de alternativas concretas.

Seu prognóstico não estava longe da verdade. Cinquenta anos depois, os principais partidos são mais indistinguíveis do que nunca. Em democracias antigas e novas, eles são esmagadoramente domínio dos operadores políticos que consideram o envolvimento das “massas” como um incômodo a ser evitado. A filiação partidária caiu precipitadamente, enquanto a adesão às urnas está atingindo mínimos históricos em muitas partes do mundo. A esquerda, cuja força política repousa há décadas nos partidos de massa, tem sido particularmente atingida por seu declínio, criando uma profunda “crise de representação” na qual as vias para os trabalhadores influenciarem as políticas governamentais crescem restritas e a desilusão pública se prolifera.

Diversas formas políticas alternativas surgiram na esteira dos partidos de massa, começando com os “novos movimentos sociais” dos anos 60 e 70 e seguido, duas gerações mais tarde, por movimentos “sem líderes” como o Occupy Wall Street nos EUA e os Indignados na Espanha. Alguns conseguiram mudar as atitudes públicas e pressionar os governos, mas nenhum se mostrou capaz de desenvolver as duradouras instituições de massa que fizeram dos velhos partidos de trabalhadores uma força social a ser considerada.

Reconhecendo as limitações deste tipo de militância, nos últimos anos, uma nova esquerda começou a abordar com renovada urgência a questão da estruturação de partidos. No entanto, se estamos tentando reivindicar os velhos partidos para o socialismo ou construir novos a partir do zero, vale a pena perguntar: o que causou o declínio deles em primeiro lugar? E podemos evitar que isso aconteça novamente?

Tendências oligárquicas

Meio século antes de Kirchheimer, o sociólogo germano-italiano e ex-socialista Robert Michels publicou uma das mais influentes tentativas de teorizar como os partidos políticos se desenvolvem. Impresso pela primeira vez em 1911, seu livro Political Parties: A Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of Modern Democracy [Partidos Políticos: Um Estudo Sociológico das Tendências Oligárquicas da Democracia Moderna], que se propôs a identificar e explicar os obstáculos estruturais à democracia que, como escreveu no prefácio da tradução inglesa de 1915, foram “não meramente impostos de fora, mas espontaneamente surgidos de dentro”. Acima de tudo, ele estava preocupado com a oligarquia interna das maquinas partidárias.

Parceiro de Max Weber, Michels conduziu sua pesquisa em uma época em que as ciências sociais ainda estavam em sua fase embrionária. Hoje em dia, algumas de suas terminologias soam fora de lugar e, como estudioso, ele tendia a jogar rápido e solto com os fatos. Grande parte de suas evidências é anedótica. Ele costumava generalizar cada observação que sustentava sua hipótese em uma “lei sociológica”, uma realidade objetiva “além do bem e do mal”. Entretanto, os partidos políticos continuam sendo uma obra fundamental da sociologia moderna, e seu argumento central – que as grandes organizações são vítimas de uma “lei de ferro da oligarquia” inata que inexoravelmente empodera uma elite corrupta e manipuladora – continua a informar influenciar pessoas pensam sobre como a política funciona em geral.

O objeto de observação de Michels não era outro senão o Partido Social Democrata da Alemanha (SPD), o maior e mais poderoso partido de trabalhadores de sua época e o modelo para os socialistas em todo o mundo. Ao contrário dos outros partidos, a social-democracia alemã lutou ostensivamente pela “democratização au lendemain du socialisme“. No entanto, ela havia se tornado rígida e complacente desde sua fundação na década de 1860, exibindo uma rígida divisão entre líderes e liderados. Se ele pudesse provar que uma lei de ferro da oligarquia operava aqui, ele raciocinava, então certamente ela deveria se aplicar a outras áreas da “vida social” ainda mais.

A base da análise de Michels foi em grande parte extraída do marxismo revolucionário de sua juventude, quando ele pertencia à ala sindicalista do SPD e desacreditou a moderação do centro partidário, defendendo, em vez disso, uma ação espontânea e radical vinda de baixo. Os primeiros capítulos dos partidos políticos refletem esta influência, explicando a necessidade de uma divisão técnica do trabalho para administrar os assuntos de uma organização de massas cada vez mais complexa. Quanto mais sofisticada a produção, comunicação e administração crescia, mais a democracia direta se tornava inviável: o grande número de decisões necessárias para manter as coisas funcionando exigia que elas fossem delegadas a pequenos grupos de profissionais.

O modelo delegacional de representação havia encontrado sua forma nas democracias parlamentares que estavam surgindo em toda a Europa Ocidental na época. A democracia representativa, argumentou Michels, era conveniente para a antiga aristocracia, pois permitia às elites usar os adereços do parlamento para reforçar sua posição social ao mesmo tempo em que invocava princípios aristocráticos. A social-democracia, por outro lado, havia adotado a representação apenas por necessidade. Então, por que este grande movimento de massa pela emancipação universal foi sobreposto por uma burocracia esclerosada?

A nova classe

Aexplicação de Michels não foi particularmente original e repercutiu parcialmente em outros social-democratas de esquerda, como Rosa Luxemburgo. Michels partiu do que ele chamou de “embourgeoisement” do SPD, pelo qual ele se referia às tentativas do partido de formar uma aliança tática com setores da classe média, bem como – e mais crucialmente – o surgimento de um novo segmento governante na liderança do partido que foi cada vez mais “retirado da classe proletária e elevado à classe burguesa”.

A liderança controla o aparato de expansão do SPD e a imprensa do partido, resultado do crescimento explosivo do movimento nas décadas anteriores. O SPD era agora um partido no qual a maioria das operações cotidianas eram conduzidas não por voluntários, mas por trabalhadores assalariados do partido. Embora seus estilos de vida não fossem de forma alguma luxuosos, a “prática de pagar pelos serviços prestados à festa de seus funcionários cria um vínculo que muitos dos camaradas hesitam em romper”. Sua dependência material instalou disciplina e roubou muito do dinamismo do partido:

"Em outros lugares, a atividade socialista é baseada no entusiasmo individual, na iniciativa individual e na devoção individual; mas na Alemanha ela se apoia na lealdade, na disciplina e no sentimento de dever, incentivada pela remuneração pecuniária".

Implementando uma linha de argumentação que seria repetida por gerações de anarquistas, trotskistas e outros críticos, Michels se lançou contra a “elite proletária” no leme do partido, que cada vez mais via a política não como um veículo para a revolução socialista, mas como uma “chance de se assegurar um elevação na escala social”. Enquanto essa elite consolidava sua posição e se acostumava aos privilégios da vida no topo, os objetivos políticos utópicos recuaram para segundo plano:

"Que interessa para eles tem agora a ideia da revolução social? Sua própria revolução social já foi realizada. No fundo, todos os pensamentos desses líderes estão concentrados na única esperança de que continuará a existir por muito tempo um proletariado para escolhê-los como seus delegados e para lhes proporcionar um meio de subsistência"”.

O excepcionalismo prussiano e o socialismo internacional

Michels provavelmente teria sido esquecido se sua discussão tivesse parado ali, ofuscada pelas críticas mais contundentes de Vladimir Lenin, Leon Trotsky e outros contemporâneos. Mas o que deu aos partidos políticos seu status de aparato clássico foi sua insistência de que a burocratização da social-democracia era também culpa das próprias massas, que aceitaram ou até mesmo acolheram a nova elite.

Para explicar a “confiança cega” dos trabalhadores em seus líderes, Michels mudou de terreno do marxismo clássico para a psicologia humana, adotando muitas ideias do tratado de 1895 do psicólogo francês Gustave Le Bon, The Crowd: A Study of the Popular Mind [A Multidão: Um Estudo da Mente Popular]. Um pensador decididamente reacionário, Le Bon acreditava que grandes grupos de pessoas eram incapazes de pensar racionalmente e eram propensos à impulsividade e à manipulação. Michels, que deixou o SPD amargamente desapontado por suas ideias sindicalistas não terem conseguido obter apoio popular, descobriu nas teorias de Le Bon uma explicação tanto para a burocratização do partido quanto para suas próprias frustrações políticas – as massas não haviam rejeitado suas ideias por si, mas não eram capazes de compreendê-las em primeiro lugar.

Em sua opinião, as massas proletárias demonstraram um desejo profundo, quase primário, de elevar alguns de seus membros e estabelecer um “culto de veneração” ao seu redor. Sem instrução e incapazes de agir por conta própria, os trabalhadores instintivamente gravitaram em direção a líderes carismáticos que lhes proporcionaram orientação e tranquilidade psicológica. Deram aos seus filhos o nome de seus líderes e penduraram retratos de Karl Marx e do líder do SPD, Wilhelm Liebknecht, onde um dia o crucifixo se encontrava. O “culto” se reforça mutuamente: as massas cada vez mais identificavam o partido com seus líderes, e os líderes, animados por sua recepção entusiasmada, confinavam seus próprios interesses com os da organização como um todo.

Embora fosse visível em toda a Europa, Michels acreditava que esta tendência era particularmente pronunciada entre os alemães, cuja “psicologia racial” naturalmente os inclinava a tal arranjo. Um povo que “exibe em grau extremo a necessidade de alguém indicar o caminho e emitir ordens”, escreveu ele, “fornece um chão psicológico sobre o qual uma poderosa hegemonia direcional pode florescer exuberantemente”. Além disso, a profunda reverência da cultura alemã pela velhice e séculos de socialização prussiana havia transmitido um respeito instintivo pela autoridade que até mesmo os democratas mais apaixonados não conseguiram abalar.

O strasserismo al Dente

Proibido de lecionar na Alemanha devido a sua breve carreira como militante do SPD, Michels entregou sua carteira partidária em 1907 e aceitou um cargo na Universidade de Turim. Lá, ele gravitou em direção à escola de teoria de elite surgida em torno dos sociólogos italianos Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca.

As ideias de Pareto e Mosca – particularmente sua ênfase na incapacidade das massas em governar a si mesmas e na centralidade de uma “classe política” em avançar ou impedir o desenvolvimento social – se encaixavam bem no crescente cinismo de Michels em relação à classe trabalhadora europeia. Os alemães podem ter sido especialmente propensos à oligarquia, mas a doutrina da elite provou que a cultura poderia na melhor das hipóteses retardar, e não impedir, a ascensão de novos segmentos governantes dentro da social-democracia. Ele respondeu a um de seus críticos franceses em 1912 afirmando que os socialistas franceses “teriam mais dificuldade em se submeter… do que os prussianos”, mas “para o bem ou para o mal, eles se submeterão [à lei de ferro da oligarquia] de qualquer forma”.

Sua análise teve implicações devastadoras não só para o socialismo, mas para a própria democracia. Contra sua antiga crença marxista de que “num futuro mais ou menos distante será possível alcançar uma ordem genuinamente democrática”, Michels postulou agora que “a democracia tem uma preferência inerente pela solução autoritária de questões importantes”. Qualquer nova ordem social vomitaria uma nova elite governante, que inevitavelmente procuraria fazer valer seus próprios interesses contra as massas. “Os socialistas poderiam conquistar”, admitiu ele, “mas não o socialismo, que pereceria no momento do triunfo de seus adeptos”.

O pessimismo de Michels o levaria a tornar-se um membro entusiasmado do Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini em 1924, dois anos depois que o ditador italiano tomou o poder e aprisionou a maioria de seus antigos camaradas. Convencido de que os carismáticos homens fortes eram mais ou menos inevitáveis, ele viu em Mussolini uma chance de estabelecer, se não um socialismo, então pelo menos um governo “social” que pudesse aproveitar a devoção das massas ao seu líder para fazer um compromisso entre capital e trabalho, incorporando os interesses dos trabalhadores italianos em um poderoso Estado fascista. Ele morreu em 1936, não muito antes do fascismo europeu ter levado o país – e o continente – à beira da aniquilação total.

Duas tendências não fazem uma Lei de Ferro

Já se passou mais de um século desde que Robert Michels publicou sua posição sobre o futuro do socialismo. Assim como ele previu, nas décadas que se seguiram a Social Democracia se enraizou com o Estado capitalista, apoiou as guerras imperialistas e finalmente abandonou qualquer pretensão de ser socialista – reformista ou não. O movimento comunista que se separou em 1917, jurando defender a visão revolucionária da social-democracia, acabou produzindo sua própria – muitas vezes mais brutal – oligarquia.

Não surpreende, portanto, que os partidos políticos continuem a repercutir hoje, uma vez que foi uma das primeiras análises dos desafios que enfrentam qualquer um que tente construir um poderoso movimento social. Concorrer em eleições e construir organizações de massa foram trampolins cruciais no caminho da construção do poder da classe trabalhadora há cem anos. Eles trouxeram ao movimento destaque, influência e, pelo menos por algum tempo, milhões de seguidores dedicados que poderiam apoiar as demandas do movimento com protestos em massa e ações de greve. Ao mesmo tempo, eles inegavelmente lançaram as bases para sua incorporação ao sistema capitalista. Será que Michels tinha razão afinal de contas?

Como qualquer movimento de massa, a social-democracia clássica era anfitriã de uma grande variedade de correntes e opiniões sobre as quais a liderança tinha apenas um controle limitado. Como o excessivamente moderado Max Weber apontou em uma crítica à Michels, os trabalhadores nas grandes cidades eram, frequentemente, decididamente mais radicais e dispostos a se envolver em confrontos diretos – um fato tornado dramaticamente claro pela onda de revoluções que irrompeu em toda a Europa no final da Primeira Guerra Mundial, quando trabalhadores de Belfast a Bialystok se engajaram em ações de massa para parar a matança sem sentido e derrubar os governos responsáveis por ela. O surgimento do Partido Social Democrata Independente da Alemanha (USPD) em 1917 e a formação da Internacional Comunista dois anos mais tarde demonstraram que a noção de Michels de uma classe trabalhadora dócil pode ter sido verdadeira em alguns casos, mas certamente não em todos.

De fato, foi somente após as revoluções do pós-guerra terem falhado ou sido derrotadas que uma perspectiva amplamente “reformista” se tornou o consenso social-democrata. É tentador denunciar esta mudança como uma traição da liderança do partido – afinal, a história está cheia de social-democratas colaborando com suas respectivas classes dirigentes – mas a realidade é um pouco mais complicada. Em última análise, nenhum dos movimentos revolucionários fora da Rússia conseguiu conquistar a maioria da classe trabalhadora e se manter no poder por mais de alguns meses. Mesmo na Alemanha, onde os revolucionários foram particularmente fortes e levaram anos para serem derrotados, eles se viram constantemente superados em número. Os líderes da social-democracia podem não ter tido interesse na “revolução social” de Michels, mas em última análise a maioria dos trabalhadores também parecia preferir os modestos ganhos do reformismo a um salto para o desconhecido revolucionário.

E quem poderia culpá-los? Mesmo no período entre as duas guerras, a social-democracia europeia impulsionou planos ousados de moradia popular, saúde pública e outros componentes do que agora chamamos de Estado de bem-estar social. Estas reformas sempre foram limitadas e enfrentaram dura oposição da direita, mas melhoraram a vida de milhões através de melhores condições de trabalho, salários mais altos, acesso à educação e um grau de seguridade social que lhes permitiu participar da sociedade de uma forma que as gerações anteriores não podiam.

Ao fazer isso, eles também levantaram gerações de militantes e líderes locais que compreendiam seus interesses de classe e se comprometeram a defendê-los, entrando para os sindicatos e partidos socialistas. Mesmo depois que o fascismo dizimou suas fileiras, a força contínua dos partidos social-democratas (e às vezes comunistas) lançou as bases para a prosperidade compartilhada do compromisso do pós-guerra – uma era que, apesar de seus muitos problemas, parece quase utópica hoje. A social-democracia não conseguiu derrubar o capitalismo, mas a vida nunca havia sido melhor para os trabalhadores que trabalhavam sob ele – graças ao movimento.

Voltando a construir melhor

Se a ciência social aprendeu alguma coisa desde a época de Michels, é que os desenvolvimentos sociais não prosseguem em linha reta ou aderem às leis universais. A história está cheia de lutas pelo poder entre diferentes grupos sociais, alguns dos quais fazem um trabalho melhor de organização e emergem no topo. Mas sua regra raramente fica sem oposição, mesmo que possa parecer assim, depois de décadas de derrota. Mais cedo ou mais tarde, os atores políticos tentam coexistir essa oposição em uma forma organizada. Às vezes, eles conseguem e às vezes fracassam.

O exemplo mais recente deste fato é o ressurgimento de um pequeno, mas notável movimento socialista que, em pouco mais de uma década, conseguiu influenciar o discurso público e estabelecer bases políticas em países do mundo inteiro. Embora muito tenha mudado desde o primeiro julgamento do socialismo, muitos de seus dilemas organizacionais continuam os mesmos.

As armadilhas que vêm com qualquer organização socialista democrática são reais, mas a frustração política que moldou os partidos políticos não oferece um guia particularmente útil para pensar sobre como superá-los. Por toda sua investida contra o materialismo histórico e o “dogma do socialismo”, Michels simplesmente inverteu o que afirmava se opor: o socialismo, outrora inevitável, era agora impossível. Se o socialismo é possível só pode ser respondido quando a sociedade chega lá, mas até lá, o capitalismo poderia definitivamente usar algumas grandes reformas social-democratas. E por todas as suas falhas, os partidos políticos provaram ser os veículos mais eficazes para organizar grandes grupos de pessoas para lutar por esse tipo de reformas. Para utilizar esta ferramenta de forma eficaz, os socialistas devem ser sensíveis às suas fraquezas e às suas vantagens.

Embora a representação delegacional esteja longe de ser perfeita, podem ser criados mecanismos dentro das organizações para assegurar a responsabilidade e dar aos membros a oportunidade de anular decisões impopulares, juntamente com fóruns, publicações e outros canais para expressar opiniões. Líderes carismáticos podem ter um efeito pacificador sobre os membros, mas também podem servir como poderosos pontos de encontro para pessoas que, de outra forma, poderiam não ter levado em conta. Na melhor das hipóteses, os partidos podem aproveitar a popularidade de um líder para atrair novos apoiadores para suas fileiras, onde eles mesmos podem se tornar líderes. A campanha eleitoral pode abrir a porta para o compromisso, mas também traz ideias socialistas para o mainstream político e, potencialmente, para a política governamental.

No mundo de hoje, onde a política foi encaixada nos limites do que Angela Merkel uma vez chamou de democracia “em conformidade com o mercado”, a questão da democracia é de extrema importância – não apenas para garantir a responsabilidade entre os socialistas, mas também para responder aos sentimentos generalizados de impotência e privação de direitos entre a classe trabalhadora.

Sobre o autor

Loren Balhorn is a contributing editor at Jacobin and coeditor, together with Bhaskar Sunkara, of Jacobin: Die Anthologie (Suhrkamp, 2018).

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