A chegada de uma feira de livros soviéticos deu vida à minha cidade natal, na Índia.
Palash Krishna Mehrotra
Allahabad, ÍNDIA — Cresci em Allahabad, uma cidade no norte da Índia, às margens do Ganges, durante a década de 1980. Pouca coisa acontecia por lá, exceto pelos dois festivais sazonais: o Holi, que marca o fim do inverno, e o Diwali, que dá as boas-vindas à chegada do inverno.
O resto do mundo parecia muito distante. Aprendíamos pouco sobre história mundial na escola; o currículo era voltado quase exclusivamente para a luta da Índia pela independência. Tínhamos uma noção vaga da Guerra Fria, de que a Índia mantinha relações amistosas com a União Soviética e de que um astronauta indiano havia ido ao espaço acompanhado por dois russos.
Dois eventos culturais agitavam a vida em Allahabad: a estreia de um novo filme de Bollywood e a chegada de uma exposição de livros soviéticos.
Era a era da propaganda inofensiva, e os soviéticos levavam vantagem. Embora a Índia se declarasse não alinhada durante a Guerra Fria, o país pendia fortemente para o lado da União Soviética. A Índia adotava o modelo econômico socialista, e os soviéticos investiam pesadamente no país — desde a defesa até a infraestrutura.
Meu pai cresceu em Bhilai, uma cidade no centro da Índia onde os russos ajudavam a instalar uma siderúrgica. Certa tarde, alguns funcionários russos chegaram; cadeiras foram rapidamente reunidas e fotos foram tiradas. Nenhuma palavra foi trocada, mas todos sorriram para a câmera. Uma foto apareceu na edição seguinte da revista Sovietland, destacando a cordialidade entre as famílias russas e indianas.
Os indianos tinham uma paranoia em relação à interferência americana em nossos assuntos políticos internos. Em Allahabad, corria o boato de que os americanos extraíam as vitaminas do arroz antes de enviá-lo como ajuda humanitária à Índia.
Já os soviéticos, nós adorávamos. Enquanto a tecnologia de impressão na Índia se limitava ao preto e branco, a Rússia nos deslumbrava com revistas e histórias em quadrinhos coloridas. Balés e circos russos apresentavam-se em cidades indianas e eram frequentemente transmitidos pela televisão estatal da Índia.
Os centros culturais soviéticos eram polos sociais ativos nas cidades indianas, oferecendo aulas de música, dança e xadrez. Os russos adoravam Bollywood. Raj Kapoor — que produzia e estrelava musicais sobre personagens de bom coração que sorriam diante das adversidades — era recebido com grande entusiasmo na União Soviética.
A exposição de livros soviéticos ocupava um vasto terreno no centro da cidade com estandes que vendiam livros e revistas para todas as idades, em inglês e em vários idiomas indianos. A revista Sovietland era publicada em 13 idiomas indianos. Ela trazia imagens da vida soviética, da agricultura coletiva e de colaborações indo-soviéticas em projetos como a usina siderúrgica de Bhilai.
Os livros soviéticos eram baratos e tinham uma bela apresentação, impressos em papel cuchê brilhante. Seu baixo custo e excelente qualidade de produção combinavam com a expressão favorita da Índia socialista: "barato e o melhor".
O esforço cultural americano, comparativamente modesto, limitava-se em grande parte ao envio de exemplares gratuitos da revista Span a professores universitários. Meu pai, poeta e professor de literatura inglesa na Universidade de Allahabad, recebia um exemplar da Span. A revista trazia fotos de cheeseburgers salpicados de gergelim e de campos de milho dispostos com precisão geométrica.
Uma edição típica trazia Ronald Reagan na capa, um conto de John Gardner, fotografias de Ansel Adams, um debate sobre a estratégia nuclear dos EUA e uma longa reportagem sobre a busca americana por gás natural.
“Os russos estão muito à frente dos americanos nesse jogo de esconde-esconde... Eles atacam na base”, observou um artigo no The Christian Science Monitor em 1982. “Eles estão em contato com as massas, não com a elite.”
Depois das feiras de livros, uma van itinerante carregada de clássicos russos percorria as ruas estreitas de Allahabad e de outras pequenas cidades da Índia.
Acredita-se que a literatura infantil russa tenha diluído as fronteiras entre propaganda e arte, talvez como nenhuma outra literatura do gênero. Não me lembro de títulos questionáveis que glorificassem a eletrificação ou a agricultura. Li inúmeros contos folclóricos e livros infantis publicados por editoras de Moscou — Raduga e Progress.
Eu já havia começado a ler as séries The Hardy Boys, Nancy Drew e os livros de Enid Blyton quando os livros soviéticos chegaram. Mesmo sendo criança, dava para perceber que os livros americanos e ingleses seguiam uma fórmula. Com o tempo, a gente não os lia pela história, mas pelas descrições de comida de dar água na boca — os exóticos scones com manteiga e a cerveja de gengibre nas histórias de fazenda de Blyton; os ice cream sodas nos quadrinhos do Archie.
Comida e propaganda estavam curiosamente ausentes dos livros russos. O livro Quando o Papai Era Pequeno, de Alexander Raskin, foi publicado pela primeira vez em 1966. É um relato de infância discretamente engraçado e comicamente grotesco: um menino é mordido por um cachorro nas duas bochechas.
Encontrei alguns ecos da minha infância indiana nos contos russos. Ler obsessivamente, até mesmo debaixo das cobertas; detestar e não comer pão; ter aulas de piano ou cítara, mesmo sem talento; a ênfase na boa caligrafia; criar versinhos bobos e recitá-los, sem que ninguém pedisse, para todas as visitas. A arrogância devia ser evitada a todo custo.
Os casais dos contos populares ou não tinham filhos ou estavam envelhecendo com filhas lindas e solteiras. Algumas histórias giravam em torno de avós que viviam com as netas. Havia um toque de macabro: duas irmãs matam a terceira por maldade, antes que o poder redentor da magia a ressuscite. Deparei-me com palavras que eu não entendia: sarafans, kavach. Isso não importava.
Nessas histórias pulsantes e selvagens, encontrei Baba Yaga, a bruxa russa por excelência. Às vezes, ela vivia no meio da floresta, numa cabana giratória; outras vezes, numa "grande casa de pedra branca com quarenta e uma colunas no portão".
Nem todos os contos populares terminavam com uma moral clara e definida. Muitos tratavam do caleidoscópio em constante mudança da natureza humana. O avarento pede emprestado um copeque a um camponês para dar a um mendigo. O camponês obstinado não larga do pé do avarento; ele quer seu copeque de volta. Ambos vivem tentando superar a esperteza um do outro. Ao final do conto, ambos estão mais ricos graças à astúcia do camponês. O camponês — ingênuo, mas nem tanto — continua preocupado com o copeque que emprestou ao avarento.
Os russos vinham à Índia e distribuíam suas histórias praticamente de graça. Se aquilo era propaganda, ninguém guarda más lembranças de tê-la absorvido.
Minha parte favorita da noite — depois de comprar vinte livros de capa dura por dez rúpias na Feira de Livros Soviéticos — era ir ao Hotstuff, o único estabelecimento em estilo americano da cidade. Eu folheava as ilustrações de Igor Yershov, ouvia Wham, tomava um milk-shake de morango e comia um hambúrguer Big Boy.
Palash Krishna Mehrotra é autor de "Eunuch Park", uma coletânea de contos, e de "The Butterfly Generation: A Personal Journey into the Passions and Follies of India's Technicolour Youth".

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