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8 de outubro de 2020

O que de fato move o conflito entre Azerbaijão e Armênia

O conflito sangrento que eclodiu entre o Azerbaijão e a Armênia não é o resultado de ódios ancestrais ou animosidade profunda entre muçulmanos e cristãos. É o produto de uma longa história de colonialismo, nacionalismo e autoritarismo.

Djene Bajalan, Sara Nur Yildiz e Vazken Khatchig Davidian

Jacobin

Pessoas esperando perto de um ônibus em Goris, na Armênia, enquanto o conflito continua dentro e ao redor do território de Nagorno-Karabakh. (Brendan Hoffman / Getty Images).

Tradução / A eclosão de combates entre Armênia e Azerbaijão colocou a antiga disputa sobre Nagorno-Karabakh (Karabakh Montanhoso, chamado pelos armênios por seu nome histórico, Artsakh) no centro das atenções internacionais.

A retórica da violência – especialmente vinda de Azerbaijão e Turquia – é ensurdecedora, enquanto a linguagem racista, chauvinista e desumanizante empregada por azerbaijanos, turcos e armênios nas redes sociais está em polvorosa. Além dos sacos de cadáveres envoltos em bandeiras que transportam jovens recrutas e civis inocentes armênios e azerbaijanos para seus túmulos, há muitas outras vítimas em meio a todo esse barulho: a verdade, a informação e qualquer desejo concreto de resolver o conflito de uma vez por todas.

Os temores de que as tensões entre Armênia e Azerbaijão possam afundar o Cáucaso em uma guerra não são novidade. Por mais de um quarto de século, Armênia e Azerbaijão estão em um beco sem saída quanto ao status do Nagorno-Karabakh/Artsakh. Embora a escalada mais recente pareça ter pego muitos observadores desprevenidos, os mais atentos já previam o que estava por vir. Ao escrever sobre os quatro dias de intensos combates em abril de 2016, Laurence Broers, uma das principais autoridades no conflito, alertou sobre os perigos das negociações fracassadas e do nacionalismo desenfreado que levam a uma “dívida por guerra”.

A situação agora parece ser a cobrança dessa dívida. Ainda assim, seria um erro traiçoeiro ver o conflito como resultado de ódios ancestrais irreconciliáveis ​​ou como produto de um conflito civilizacional entre muçulmanos e cristãos. Em vez disso, devemos olhar para os legados do colonialismo, nacionalismo, autoritarismo e política das Grandes Potências para explicar a tragédia que se desenrola diante de nossos olhos.

Colonialismo e nacionalismo

As montanhas do Cáucaso são uma região de beleza natural estonteante e tremenda diversidade étnica, linguística e religiosa. Estendendo-se do Mar Negro ao Cáspio, é o lar de uma vasta gama de comunidades: georgianos, armênios, azerbaijanos, russos, turcos mesquécios e akhiska, curdos, iazidis, daguestanis, abcácios, circassianos, chechenos, talyshis, ossétios e inguches, para citar apenas alguns.

O atual alvoroço de posturas nacionalistas não deve, no entanto, obscurecer a enorme riqueza do patrimônio cultural que os povos incrivelmente diversos da região compartilham, de música à dança, do folclore à culinária.

Entre o início do século XVI e o começo do século XIX, a região formava a parte norte de uma vasta e mal definida zona fronteiriça que separava o Império Otomano sunita de seus rivais xiitas no Irã. Embora frequentemente fossem locais de conflito entre esses dois impérios muçulmanos, os territórios que hoje constituem a Armênia moderna e a República do Azerbaijão geralmente caíam sob a esfera de influência iraniana.

Dada a geografia e as limitações tecnológicas da época, as potências externas normalmente exerciam soberania com um leve toque. Em toda a região, os potentados locais gozavam de um grau significativo de autonomia, com as várias comunidades étnicas e religiosas vivendo lado a lado em relativa paz. No entanto, entre 1801 e 1828, a expansão militar russa expulsou os iranianos do Cáucaso Oriental e a região foi absorvida pelo Vice-Reino do Cáucaso, administrado a partir da cosmopolita cidade de Tbilisi (hoje capital da Geórgia).

Com relação especificamente a Nagorno-Karabakh/Artsakh, a conexão armênia com a região pode ser traçada desde a antiguidade. A região ainda é pontilhada por mosteiros armênios medievais e outros monumentos arquitetônicos importantes. No entanto, embora seja um importante centro da cultura e religião armênias, a região possui há muito um caráter cosmopolita.

Nos séculos XVIII e XIX, a cidade de Shushi/Shusha emergiu como um local de renascimento cultural para armênios e turcos azerbaijanos. Na época da sovietização, censos mostram que os armênios cristãos superavam os azerbaijanos na proporção de nove para um nas terras altas (ou seja, Nagorno-Karabakh), enquanto nas terras baixas circundantes a população era predominantemente muçulmana.

Como acontece com muitos regimes coloniais, as políticas de administração russa aumentaram as tensões entre os vários povos do Cáucaso, uma tendência exacerbada pela ascensão do nacionalismo. Gradativamente, no final do século XIX e início do século XX, as relações intercomunitárias foram colocadas sob pressão cada vez maior à medida que as populações passaram a se considerar membros de comunidades nacionais distintas.

Isso foi particularmente verdadeiro para os armênios cristãos e turcos caucasianos muçulmanos que, no início do século XX, adotaram o nome azerbaijanos (Azerbaijão refere-se, historicamente, à província predominantemente de língua turca do noroeste do Irã e não à moderna república do Azerbaijão).

Até certo ponto, as tensões étnico-nacionais foram mantidas sob controle pela autocracia tsarista, mas à medida que a Rússia imperial começou a se desfazer, o mesmo aconteceu com o Cáucaso. Em 1905, com o império em turbulência revolucionária, uma onda de derramamento de sangue intercomunitário opondo armênios aos turcos do Azerbaijão varreu a região, deixando centenas de mortos. Então veio a barbárie da Primeira Guerra Mundial.

Para a comunidade armênia, a guerra foi especialmente traumática devido à decisão do governo otomano em 1915 de iniciar uma campanha genocida de deportação, estupro e massacre contra a comunidade armênia do império que deixou, possivelmente, 1,5 milhão de mortos.

Embora os armênios do Império Russo tenham sido poupados da aniquilação, o genocídio moldou profundamente o povo armênio. Uma proporção significativa da população da Armênia moderna é descendente de refugiados sobreviventes do genocídio e, portanto, os eventos de 1915 passaram a ser uma lente através da qual o conflito com os azerbaijanos é visto.

A guerra teve um significado monumental por outro motivo: precipitou, após as revoluções de 1917, a destruição da autocracia tsarista e o colapso da autoridade russa no Cáucaso. Imediatamente após o colapso da administração colonial, a Alemanha, o Império Otomano e, com a derrota das Potências Centrais, a Grã-Bretanha pretendiam (sem sucesso) estender sua influência sobre a região.

O rescaldo das revoluções de 1917 também testemunhou a crescente fragmentação política com a formação – após uma breve experiência de unidade federativa na primavera de 1918 – das repúblicas independentes de Geórgia, Armênia e Azerbaijão.

A consequência: guerra. Nacionalistas procuraram fazer valer as reivindicações sobre o que muitas vezes eram regiões etnicamente mistas, com hostilidades entre Azerbaijão e Armênia. A primeira guerra armênio-azerbaijana, que durou dois anos, só chegou ao fim quando os soviéticos invadiram a região em 1920.

O legado do stalinismo

Asovietização de Armênia e Azerbaijão fez pouco para reconciliar os dois lados. Na verdade, foi Josef Stalin quem decidiu aglutinar as terras altas de maioria armênia de Nagorno-Karabakh/Artsakh – um local de intensa competição entre as forças armênias e azerbaijanas durante a guerra – na República Socialista Soviética do Azerbaijão, apesar da oposição da esmagadora maioria dos sua população local. Como acontece com outras regiões da recém-formada URSS, em vez de resolver conflitos nacionais, as políticas soviéticas exacerbaram a desconfiança.

Até certo ponto, o status de Nagorno-Karabakh/Artsakh como um oblast autônomo dentro do Azerbaijão protegeu a população armênia de alguns dos piores excessos da engenharia demográfica da era soviética.

No exclave de Naxcivan/Nakhichevan administrado pelo Azerbaijão, espremido entre Armênia, Turquia e Irã, a população armênia – que constituía quase metade da população no início dos anos 1920 – foi reduzida a quase nada à época do colapso da URSS.

No entanto, em Nagorno-Karabakh/Artsakh, as autoridades em Baku seguiram uma política de colonização da região com azerbaijanos, na tentativa de diluir a maioria armênia – e investiram nas comunidades que recém-chegados, enquanto deixavam cidades e vilas armênias sem infraestrutura básica. Décadas de pouco investimento e discriminação alimentaram mais ressentimento – ressentimento que transbordou durante os últimos dias da União Soviética.

Em fevereiro de 1988, a administração local em Nagorno-Karabakh/Artsakh votou a favor da independência do Azerbaijão como um passo preliminar para a unificação com a Armênia. Após a votação, realizada em desafio a Baku, um pogrom antiarmênio eclodiu na cidade azerbaijana de Sumgait. Dezenas de armênios foram mortos e a eclosão preparou terreno para um ciclo crescente de violência em toda a região, incluindo um massacre de civis azerbaijanos em Khojaly/Xocalı em 1992 que deixou centenas de mortos.

Após a dissolução da URSS, em dezembro de 1991, esse ciclo de violência se transformou em uma guerra em grande escala entre os novos Estados independentes de Azerbaijão e Armênia. Cerca de 30 mil pessoas foram mortas e mais de um milhão deslocadas por limpeza étnica, com armênios forçados a sair do Azerbaijão e um número ainda maior de azerbaijanos expulsos da Armênia e das regiões ao redor de Karabakh.

O status quo após o cessar-fogo foi uma vitória para a Armênia, que por meio da ocupação dos distritos de Kalbajar e Lachin – habitados principalmente por azerbaijanos e curdos – estabeleceu uma zona de controle contígua ligando a autoproclamada república armênia de Artsakh à própria Armênia.

Desde 1994, uma solução permanente para o conflito permaneceu indefinida. Fracassaram as negociações mediadas pelo grupo de Minsk da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), um órgão composto por onze Estados e liderado por França, Rússia e EUA. Desde então, os confrontos ao longo da fortemente militarizada “Linha de Contato” criada após o cessar-fogo de 1994, bem como em outras partes da fronteira Armênia-Azerbaijão, têm sido uma ameaça perene à paz na região.

A escalada para a guerra

Todos os lados no conflito carregam, sem dúvida, a culpa pela não resolução. Para a Armênia, o status quo é satisfatório e, portanto, teve poucos incentivos para abrir mão de sua vantagem militar e territorial, frustrando os azerbaijanos. O nacionalismo e a ameaça azerbaijana, ostensivamente sempre presentes, serviram como uma ferramenta conveniente de legitimidade para a elite pós-soviética que, até recentemente, dominou o país durante grande parte de sua história pós-independência.

Para a Rússia, que busca manter o Cáucaso dentro de sua esfera de influência, as tensões persistentes entre a Armênia e o Azerbaijão permitiram à ex-potência colonial manter o controle sobre os dois lados. De fato, para Putin, a eclosão do conflito pode ser vista como um lembrete útil para o governo armênio de Nikol Pashinyan – que chegou ao poder após a pacífica Revolução de Veludo em 2018 – da indispensabilidade do apoio russo em conflito com o muito mais rico e populoso Azerbaijão, apoiado pela Turquia.

No entanto, para entender os detalhes da escalada mais recente do conflito, é necessário olhar para Baku e Ancara. Foram as forças do Azerbaijão que partiram para a ofensiva no final de setembro, sustentadas por apoio ativo do governo do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em forma de equipamento militar e mercenários sírios.

Sem legitimidade democrática, o presidente do Azerbaijão Ilham Aliyev – que herdou sua posição em 2003 de seu pai Heydar Aliyev – está nutrindo o ressentimento nacionalista sobre o status quo desfavorável em Nagorno-Karabakh/Artsakh como distração do crescente descontentamento com a aumento da desigualdade econômica, da ostentação da riqueza petrolífera do país e da cleptocracia que ele preside. Há poucas dúvidas de que ele também sinta a necessidade de reforçar suas credenciais nacionalistas, depois que manifestantes pró-guerra invadiram o parlamento após confrontos na linha de frente no início deste verão.

No mesmo sentido, a retórica pan-turquista e antiarmênia também reforça a base de direita de Erdoğan em um momento de grave crise econômica – ao mesmo tempo que divide a oposição em elementos pró-guerra – incluindo o maior partido da oposição, o Partido do Povo Republicano (CHP) – e partidos antiguerra – principalmente o perseguido e marginalizado Partido Democrático dos Povos (HDP).

Além disso, isso alimenta as pretensões de Ancara ao status de Grande Potência, encaixando-se em um padrão mais amplo aventureiro de política externa que é visto nas intervenções armadas turcas na Síria e na Líbia, além de uma postura militar cada vez mais agressiva no Mediterrâneo Oriental, dissipando atenção sobre os crescentes problemas domésticos.

Em suma, a guerra está sendo usada – como tantas vezes é – como um instrumento de consolidação política autoritária.

O que acontece agora?

Eagora? Se o bom senso prevalecesse, os lados largariam as armas, imediatamente, e concordariam com negociações sérias.

Azerbaijão e Turquia precisam entender que, sem permitir ao povo de Nagorno-Karabakh/Artsakh o direito de decidir seu próprio futuro, não pode haver solução. Tem havido violência demais para que o povo da região se sinta seguro sob um regime tão antidemocrático e corrupto como o de Ilham Aliyev.

Tudo que os armênios de Nagorno-Karabakh/Artsakh precisam para ver seu próprio esquecimento é olhar para Naxcivan/Nakhichevan, onde o regime Aliyev executou uma campanha que muitos especialistas descreveriam como um genocídio cultural dirigido à destruição de sítios históricos armênios na região. Ao mesmo tempo, aqueles que insistem em um retorno completo às fronteiras da era soviética precisam entender que estão pedindo pela legitimação do colonialismo arrogante de Stalin, desafiando os desejos de autodeterminação da população local.

Os armênios precisam entender que sem um tratado de paz final o status quo será constantemente desafiado. Isso é especialmente verdade no caso do regime de Aliyev sobreviver e precisar distrair seu povo dos problemas domésticos. No entanto, os armênios também devem reconhecer que o descontentamento e a exasperação do Azerbaijão com a falta de progresso são justificados.

As centenas de milhares de refugiados azerbaijanos alvos de limpeza étnica nos combates e mantidos reféns em condições miseráveis ​​pelo seu próprio regime, para serem instrumentalizados para fins de propaganda, devem ter permissão para retornar às suas cidades e aldeias nas regiões atualmente controladas pelas forças armênias. Entretanto, pode ser impossível para os refugiados armênios retornar ao Azerbaijão.

Finalmente, deve haver um processo genuíno de verdade e reconciliação para discutir todas as violações dos direitos humanos por ambos os lados, de Sumgait à Khojaly/Xocalı.

Em última análise, este ciclo de ódio e guerra deve terminar para que ambos os povos possam se curar e aceitar um futuro como vizinhos pacíficos. Para isso, o poder de líderes corruptos e inescrupulosos que exploram e propagam o ressentimento nacionalista e o ódio étnico para manter o poder deve ser interrompido.

Somente com paz e democracia significativa podem ser feitos investimentos para melhorar a vida das pessoas, em vez de obter os instrumentos da morte. Não há vencedores na guerra, salvo os autoritários e vendedores de armas.

Sobre os autores

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Missouri State University. Sua pesquisa se concentra nos assuntos do Oriente Médio e ele já ensinou e estudou no Reino Unido, Turquia e Curdistão do Iraque.

Sara Nur Yildiz é uma historiadora do mundo turco-iraniano e do império otomano.

Vazken Khatchig Davidian é pós-doutorado no Oriental Institute, University of Oxford.

8 de outubro de 2019

A aniquilação de Rojava

Uma retirada dos EUA da Síria que abriu caminho para a destruição do experimento democrático radical dos curdos não serviria à causa da paz - e não seria um golpe ao imperialismo dos EUA.

Djene Bajalan e Michael Brooks


Tropas curdas das Forças Democráticas da Síria estão em uma base operacional avançada observando a linha de frente em 10 de novembro de 2015, perto da cidade de Hole, mantida pelo ISIL, na região autônoma de Rojava. John Moore / Getty.

Tradução / No fim de Setembro, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan disse à Assembleia Geral das Nações Unidas: “Nossa intenção é estabelecer um corredor de paz com a profundidade de 30 quilômetros e extensão de 480 quilômetros na Síria para que a comunidade internacional possa estabelecer dois milhões de Sírios ali.” Na segunda feira, com o anuncio de Donald Trump de que os Estados Unidos podem retirar suas tropas do Norte da Síria, a proposta do “corredor de paz” de Erdoğan se tornou mais próxima da realidade.

Entretanto, apesar das palavras aparentemente humanitárias de Erdoğan, o desejo da Turquia de ocupar o norte da Síria é movido por razões cínicas e malévolas. O “corredor da paz” seria um local conveniente para descartar refugiados sírios, cuja presença na Turquia tem sido vista, crescentemente, como um peso político. Promoveria também a oportunidade de acabar com o controle curdo no Norte da Síria (também conhecida como Rojava) para destruir seus sonhos democráticos radicais.

“Syrians Fuck Off”

Desde a erupção da guerra civil síria, entre três a quatro milhões de sírios tem encontrado um santuário na Turquia. Em 2016, Erdoğan assinou um acordo multimilionário com a União Europeia para abrigar refugiados no país ao invés de envia-los à Europa. Porém, como o fluxo de pessoas fugindo do combate continua, o sentimento anti-refugiados da Turquia tem crescido e autoridades turcas estão cada vez mais obstinadas em buscar maneiras de remover os sírios do país.

A oposição, fragmentada na Turquia, tem se beneficiado do pico de ânimo anti-sírio, particularmente os partidos de centro e conservadores. Enquanto o partido de esquerda pró-Partido Democrático Curdo e resolutamente pluralista está impulsionando uma agenda social e economicamente progressista, muitos dos outros oponentes de Erdogan são nacionalistas seculares que tem pouca simpatia com aqueles que fogem do governo Assad.

A vitória do Partido Republicano do Povo (CHP) na eleição presidencial de Istambul, em junho passado, foi, em parte, causado pela xenofobia anti-síria. Na noite da vitória da oposição, a hashtag racista #SuriyelilerDefoluyor (“Syrians are fucking off”) se tornou trend topic no Twitter e assim que assumiu o gabinete, o novo presidente do CHP reclamou da suposta onipresença de sinais árabes em alguns distritos da cidade.

Enquanto Erdoğan e seus aliados estiverem empenhados em alardear seus objetivos benevolentes, existe uma lógica política doméstica mais sinistra por trás de seu esforço para despejar milhões de refugiados sírios do outro lado da fronteira.

Rojava e a politica do grande-poder

O primeiro obstáculo para o plano de Erdoğan para Rojava são as Forças Democráticas Sírias (SDF). A Turquia considera há tempos as forças da SDF uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), no qual Ankara tem combatido desde 1984 e vê como uma organização terrorista.

Às vezes, Erdoğan tentou cortejar os eleitores curdos entrando em contato com o PKK. Antes da eleição presidencial de Istambul em junho, o governo permitiu que a imprensa publicasse uma carta de Abdullah Öcalan, na esperança de dissuadir os eleitores curdos de apoiarem a oposição.

Mas, na maioria das vezes, Erdoğan tem tomado sua má sorte entre os eleitores curdos (particularmente desde o verão de 2015) como razão para adotar medidas agressivas contra os curdos na Turquia – agredir cidades curdas, atacar estabelecimentos curdos, prender e aprisionar líderes políticos curdos, remover oficiais curdos eleitos e etc.

Erdoğan também adotou uma postura cada vez mais belicosa em relação ao movimento curdo do outro lado das fronteiras turcas. Por exemplo, apesar das estreitas conexões econômicas e políticas entre Turquia e Governo Regional do Curdistão no Iraque (KRG) – uma relação cimentada por mutuo desdém pelo PKK e seus afiliados – a Turquia se opôs veementemente ao referendo de independência de setembro de 2017 no Iraq. Após o referendo, Ancara alocou seus aliados curdos no KRG sob um esmagador bloqueio econômico.

A hostilidade de Erdoğan em relação SDF tem sido ainda mais acentuada, mesmo com movimento na Síria evitando os pedidos de independência curda. Embora a hostilidade esteja parcialmente enraizadas nas relações entre o SDF e o PKK, também pode ser entendido como produto do sucesso dos curdos sírios.

Seguindo o surgimento do ISIS e sua expansão dramática em vastas regiões da Síria e do Iraque, os sírios curdos emergem como um dos grupos-chave na coalizão construída pelos Estados Unidos para combater o avanço do autoproclamado Califado. Esta aliança sempre foi uma comunhão de conveniência. Em termos ideológicos, levou a situação peculiar em que o suporte militar norte-americano facilitou a formação de um experimento de esquerda baseado na interpretação de Öcalan baseado no trabalho do anarquista nova iorquino Murry Bookchin: o confederalismo democrático. Mais seriamente pela perspectiva de Washington, este pacto enfraqueceu as relações com a Turquia, aliada dos EUA, a medida que Erdoğan se tornava mais hostil aos curdos sírios. Em suma, a parceria dos Estados Unidos com os curdos se criou tensões insustentáveis na politica externa dos Estados Unidos.

Pareceu inevitável que, em algum momento, o Estados Unidos tivessem que escolher entre Ancara e Rojava. Enquanto a guerra com o ISIS continuasse, esta decisão poderia ser adiada. Mas, com a derrota efetiva do ISIS, a razão da presença norte-americana na Síria chegou ao fim. Agora, com o anuncio de Trump de que os EUA poderiam se retirar da Síria – decisão prevista em dezembro de 2018 -, esta contradição na politica estadounidense pode se desdobrar em favor de Erdogan.

Twitando em resposta as criticas, o presidente declarou “NOS LUTAREMOS ONDE NOS BENEFICIARMOS E APENAS LUTAREMOS PARA VENCER”. O compromisso de Trump com Ancara poderá abrir o caminho para a Turquia marchar até Rojava para varres a população e transformar a demografia do norte da Síria.

Arabização e reengenharia de Rojava

As tentativas de redesenhar o balanço demográfico no norte da Síria tem uma longa historia. Após a independência da Síria, houveram esforços para diluir o caráter curdo no norte do país por governos nacionalistas árabes em Damasco. Em 1962, estima-se que 20% da população curda síria tenha sido privada de sua cidadania, uma medida que os negou o direito de comprar terras ou trabalhar em setores estatais. Nos anos de 1970, o regime de ba’athist tentou construir um “cinturão árabe” para tirar os curdos de comunidades curdas em países vizinhos.

Estes esforços físicos de arabizar o norte da Síria – também lar de inúmeras minorias étnicas e religiosas – foram acompanhados por uma guerra ideológica. Os nomes dos lugares foram arabizados, a linguagem curda foi restrita e manifestações culturais de especificidade curda foram proibidas.

De maneira mais abrangente, o governo da Síria procurou retratar consistentemente a comunidade curda como se fosse composta por estrangeiros intrusos, refugiados fugindo da repressão na Turquia. Durante os anos de 1980 e 1990, o PKK, que recebeu apoio do regime de Assad, estava disposto a seguir essa narrativa. Mas, o surgimento de uma coalização mais radical liderada pelos curdos no norte da Síria, após o início da guerra civil síria, demonstrou a fraqueza da campanha de arabização na Síria. Agora, parece que Erdoğan planeja intervir onde sucessivos governos sírios falharam.

O presidente turco já deixou clara sua opinião sobre quem ele considera ser os verdadeiros donos do norte da Síria – e são os árabes. Também não precisamos adivinhar como seria um ataque turco ao norte da Síria. Em janeiro de 2018, as forças turcas lançaram uma invasão sem um motivo real na cidade de Afrin, de posse de curdos sírios, destruindo a cidade e deslocando centenas de milhares de pessoas.

Na época, os pronunciamentos da Turquia eram notavelmente semelhantes, com Erdoğan declarando Afrin como uma cidade árabe majoritariamente. Desde a ocupação da cidade, as milícias islâmicas apoiadas pelas forças turcas se envolveram em um reinado de terror que viu as autoridades tomarem terras curdas e entregare-las às famílias árabes. Se a Turquia puder invadir e ocupar o resto de Rojava, é provável que os curdos sofram o mesmo destino deplorável.

Uma vitória para o anti-imperialismo?

Como sugere a resposta à (abortada) retirada de dezembro de 2018, muitos da esquerda anti-imperialista sem dúvida veriam a saída dos EUA da Síria como positiva. E certamente, o militarismo oposto dos EUA e a superação imperial são louváveis. Mas será que uma retirada dos EUA que permitiu à Turquia acabar com um dos experimentos recentes mais dinâmicos no governo socialista e empreender uma campanha genocida contra os curdos realmente beneficiaria a esquerda internacional?

A ameaça que a Turquia apresenta aos curdos sírios é de proporções existenciais. Se a Turquia ocupar o norte da Síria, o progresso social feito na região, incluindo os avanços na libertação das mulheres e no autogoverno popular, seria destruído. Já vimos a Turquia e as milícias islâmicas que eles apoiam reverter esses ganhos em África.

Em termos mais gerais, o plano da Turquia de reinstalar milhões de refugiados sírios árabes na região seria realizado as custas da população curda. Erdoğan está determinado a não apenas acabar com o governo curdo, mas também anular o potencial dos curdos de desempenhar um papel decisivo nos assuntos do norte da Síria com um grau de perpetuidade. Mais uma vez, as ações da Turquia na África – apreendendo terras curdas e expulsando curdos de suas casas – fornecem um presságio sinistro do destino potencial do restante de Rojava.

Então, deixamos outro conjunto importante de perguntas: uma retirada dos EUA que facilita uma invasão turca seria realmente uma vitória pela paz? E considerando a longa adesão da Turquia à OTAN, seria um golpe ao imperialismo dos EUA?

Sobre os autores

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Missouri State University. Sua pesquisa se concentra nos assuntos do Oriente Médio e ele já ensinou e estudou no Reino Unido, Turquia e Curdistão do Iraque.

Michael Brooks é apresentador do The Michael Brooks Show e co-apresentador do The Majority Report.

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