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3 de novembro de 2025

A economia global pode ser recuperada?

Um renomado economista de Harvard apresenta uma visão otimista de um mundo pós-Donald Trump.

John Cassidy


Guindastes pórticos e contêineres no Porto de Nansha, em Guangzhou, China. Fotografia: Bloomberg/Getty

Horas antes do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na Coreia do Sul, na semana passada, conversei com Dani Rodrik, economista da Universidade de Harvard, sobre seu novo livro, Shared Prosperity in a Fractured World, no qual ele discute maneiras de criar algo positivo sobre os destroços da ordem econômica global do pós-guerra. Embora os EUA e a China tenham concordado em não intensificar sua guerra comercial, as tarifas generalizadas de Trump e o restante de sua agenda “América Primeiro” permanecem em vigor, e muitos economistas estão desesperados com o fim de um sistema de livre comércio que consideram um fator-chave para a prosperidade. Mas Rodrik, que ganhou destaque na década de 1990 como crítico da globalização desenfreada que ajudou a impulsionar a carreira política de Trump, está mais otimista. "Há motivos para ter esperança", escreve ele. "Ideias e práticas na economia global atual ainda estão em constante mudança. Uma alternativa progressista para criar economias inclusivas e sustentáveis ​​existe."

Conversamos no escritório de Rodrik na Kennedy School, onde ele leciona há muitos anos. Seu otimismo se baseia, em parte, na convicção de que as políticas de Trump não conseguirão restaurar a indústria manufatureira americana à sua antiga glória nem elevar os padrões de vida, o que abrirá espaço para uma abordagem diferente. Mas Rodrik também acredita que não pode haver retorno ao sistema global pré-Trump, que se baseava em regras comerciais uniformes impostas por agências transnacionais como a Organização Mundial do Comércio. Longe de lamentar o fim desse sistema, Rodrik argumenta que ele cria um novo espaço no âmbito nacional para abordar o que ele considera os três principais desafios econômicos da nossa época: restaurar a classe média nos EUA e em outros países ocidentais; reduzir a pobreza em países que ainda sofrem com a pobreza; e combater as mudanças climáticas. “Gastamos muito tempo com a economia global e os acordos globais”, explicou-me. “Mas há muito que pode ser feito internamente.”

Entre as recomendações de Rodrik estão aprender com a notável ascensão industrial da China, focar em serviços em vez de manufatura e explorar ainda mais a queda drástica no custo da energia verde. Ele enfatiza o papel que os governos precisam desempenhar em áreas como aprimoramento das habilidades dos trabalhadores, fortalecimento do poder de negociação dos trabalhadores de baixa renda, direcionamento de recursos para setores estratégicos e financiamento de investimentos socialmente necessários, porém arriscados. Mas ele defende o que chama de abordagem “experimental”, em vez de uma abordagem dirigista. Ele rejeita o argumento, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, de que precisamos começar do zero. “As sementes dessas abordagens inovadoras já existem nas práticas predominantes em todo o mundo”, escreve ele. “O que precisamos não é de uma revolução, mas de uma reconfiguração de nossas prioridades e políticas.”

O pensamento de Rodrik sobre a economia global evoluiu. Em seu livro de 1997, “A Globalização Foi Longe Demais?”, ele argumentou que a perda de empregos, a estagnação salarial e outras perturbações associadas à crescente integração econômica global corriam o risco de provocar a “desintegração social”. Embora alguns manifestantes antiglobalização estivessem apresentando argumentos semelhantes, era inédito ouvi-los vindos de um economista formado em uma universidade da Ivy League que havia trabalhado no Fundo Monetário Internacional, que há muito promove o livre comércio e a globalização. Sugeri a Rodrik que a reação contra o que ele chamou de “hiperglobalização” — uma reação que populistas de direita como Trump exploraram avidamente — o havia justificado. “Não me consola em nada”, respondeu ele. “O que eu estava dizendo parecia bastante óbvio.”

Agora que muitos governos ao redor do mundo estão se mobilizando para proteger setores que consideram vitais, e instituições internacionais como o FMI e a Organização Mundial do Comércio estão sendo marginalizadas, Rodrik acredita que caberá em grande parte aos EUA e à China, como as duas potências econômicas dominantes do mundo, definir as novas regras do comércio global após a saída de Trump. Ele está particularmente entusiasmado com o esforço de duas décadas da China para promover energia renovável, que, segundo ele, poderia servir de modelo para outros países e setores da economia. Em grande parte como resultado do progresso tecnológico na China, a energia solar agora é tão barata que até mesmo um estado conservador como o Texas está expandindo rapidamente sua capacidade de geração de energia solar. E graças ao crescimento da indústria de veículos elétricos na China, que agora é o maior mercado automobilístico do mundo, veículos elétricos chineses baratos estão sendo exportados para muitos outros países. “Estamos muito mais avançados nisso”—na transição verde—“do que qualquer um considerava possível, e isso aconteceu por meio de um mecanismo que ninguém previu”, disse Rodrik.

Em seu livro, ele argumenta que a chave para o sucesso da iniciativa de energia verde da China foi a amplitude das ferramentas empregadas e a flexibilidade com que foram aplicadas. O governo chinês forneceu às startups de veículos elétricos capital de risco, subsídios, infraestrutura personalizada, treinamento especializado e acesso preferencial à matéria-prima. Mas, em vez de impor um plano de produção de cima para baixo, deixou muitos detalhes a cargo das empresas. “A marca registrada do desenvolvimentismo chinês é uma abordagem experimental”, escreve Rodrik. “O governo nacional define objetivos amplos. Em seguida, uma variedade de políticas industriais são implementadas em diferentes setores e locais, seguidas por monitoramento rigoroso, iteração e revisão quando necessário.”

Rodrik também viu muitos pontos positivos nas políticas industriais do governo Biden, que visavam acelerar a transição verde oferecendo subsídios, créditos fiscais e apoio público à pesquisa industrial. Trump está ocupado desmantelando muitas dessas políticas. Rodrik apoiaria sua restauração no futuro. Ele também defende que os países, incluindo os EUA, possam usar tarifas direcionadas para proteger setores específicos que consideram vitais, mas insiste que é um erro focar apenas na indústria manufatureira, que emprega menos de 10% da força de trabalho americana. O verdadeiro desafio, argumenta ele, é aumentar os salários no vasto setor de serviços, que emprega mais de 80% dos trabalhadores americanos. "Quer queiramos ou não, os serviços continuarão sendo o principal motor de empregos da economia", escreve ele. Alguns empregos no setor de serviços, como os de gerência, são bem remunerados, mas muitos deles, particularmente em áreas como varejo e cuidados, são de baixa remuneração. "Uma conclusão inescapável se segue: uma boa economia de empregos depende criticamente da nossa capacidade de aumentar a produtividade e a qualidade dos empregos nesses serviços."

Rodrik reconhece que não existe uma fórmula comprovada para alcançar esse objetivo. A abordagem que ele defende imita o modelo chinês, abrangendo agências governamentais em nível nacional e local, bem como instituições de ensino, empresas privadas e trabalhadores. Ele apoia os esforços para organizar os trabalhadores do setor de serviços em sindicatos e discute a possibilidade, levantada por Arin Dube, economista da Universidade de Massachusetts, Amherst, de estabelecer comissões salariais para definir salários mínimos que variem entre setores, ocupações e localidades. Rodrik, citando o contraste entre enfermeiros, que ganham um salário anual médio de cento e vinte e seis mil dólares, e cuidadores de baixa renda, também argumenta que treinamento, tecnologia e reforma regulatória podem desempenhar um papel importante — assim como a pesquisa científica direcionada.

Ele defende a criação de um equivalente operário da DARPA, a agência do Pentágono que ajudou a financiar o desenvolvimento da internet, do GPS e das tecnologias de mRNA usadas para produzir vacinas contra a COVID-19. Enquanto a DARPA se concentra em pesquisas que potencialmente têm implicações militares, a “ARPA-W” proposta por Rodrik se concentraria no desenvolvimento de “tecnologias favoráveis ​​aos trabalhadores”, incluindo algumas que empregam inteligência artificial. Como alguns observadores preveem, a IA Rodrik, ecoando os economistas do MIT David Autor, Daron Acemoglu e Simon Johnson, argumenta que o progresso tecnológico precisa ser reorientado, o que poderia eliminar um grande número de empregos, muitos deles bem remunerados. Referindo-se à sua proposta para uma ARPA-W, ele escreve: “O objetivo principal seria permitir que os trabalhadores fizessem o que atualmente não conseguem fazer, em vez de substituí-los assumindo as tarefas que já executam”.

Nos últimos setenta anos, o chamado modelo asiático de crescimento impulsionado pelas exportações na indústria manufatureira obteve enorme sucesso. Mas o avanço implacável da automação, incluindo o rápido progresso na robótica e na impressão 3D, significa que, para os países mais pobres, muitos deles na África, essa manufatura pode não ser mais uma forma viável de gerar emprego para um grande número de pessoas. A única alternativa, diz Rodrik, é abraçar a economia de serviços e aumentar a produtividade e os salários nesse setor. Ele reconhece que isso não será fácil, mas cita vários casos de sucesso, incluindo dois da Índia. No estado de Haryana, o governo e duas grandes empresas de transporte por aplicativo, Uber e Ola, firmaram uma parceria para oferecer empregos de motorista a milhares de jovens desempregados. Em Uttar Pradesh, uma iniciativa de desenvolvimento forneceu aos agentes comunitários de saúde um aplicativo para smartphone que combinava instruções de diagnóstico e tratamento com um programa de gestão de pacientes. Conforme o programa avançava, os agentes se tornaram mais capacitados e “mais proficientes em aconselhar os beneficiários e identificar recém-nascidos doentes que precisavam de atendimento médico imediato”. Em termos econômicos, sua produtividade aumentou. “O modelo de serviços pode não gerar um crescimento muito rápido, mas o crescimento que ele proporciona é mais inclusivo e equitativo”, escreve Rodrik. “É também o caminho mais direto para a construção de uma grande classe média no mundo em desenvolvimento.”

Assim como o movimento da “abundância”, Rodrik propõe uma receita para a prosperidade compartilhada que abraça o objetivo de liberar o potencial produtivo da sociedade. De fato, ele denomina sua abordagem de “Paradigma Produtivista”. Mas, enquanto muitos defensores da abundância geralmente falam sobre a remoção de entraves governamentais ao crescimento, como restrições de zoneamento, Rodrik se concentra em intervenções governamentais. Ele expressa algum apoio a reformas regulatórias, como a eliminação de regras que impedem profissionais de saúde de administrar cuidados médicos de rotina, mas enfatiza principalmente a necessidade de os governos ajudarem a financiar áreas como educação, treinamento, pesquisa científica, infraestrutura e o desenvolvimento de tecnologias verdes — todas áreas em que a iniciativa privada tende a falhar se deixada por conta própria. Ao mesmo tempo, ele se distancia de algumas formas anteriores de intervencionismo, afirmando que sua abordagem privilegia “soluções colaborativas e experimentais em vez de tecnocráticas”.

Sem dúvida, o esforço de Rodrik para ver o lado positivo pode parecer ingênuo, a começar pela premissa básica de que haverá uma oportunidade para reparar os danos causados ​​por Trump e que o sistema político americano estará à altura da tarefa. Em um painel que precedeu nossa conversa, Rebecca Henderson, professora da Harvard Business School, lembrou ao público que os magnatas bilionários da tecnologia estão ocupados comprando propriedades de mídia e que grandes corporações estão fazendo doações substanciais para projetos relacionados a Trump. Esses acontecimentos dificilmente são um bom presságio para a perspectiva de persuadir grandes corporações a redirecionar seus investimentos em IA para uma direção que beneficie os trabalhadores. As perspectivas incertas para grandes iniciativas multilaterais, como o Protocolo de Kyoto, no qual quase cento e noventa países se comprometeram a reduzir suas emissões de carbono, representam outro desafio. Sem um acordo internacional vinculativo, perguntei a Rodrik, como vamos colocar em prática o tão defendido grande acordo, no qual os países ricos concordam em financiar a transição para energia verde nos países pobres em troca de compromissos destes últimos em restringir suas emissões? “Você tocou justamente na área em que eu não conseguia encontrar nenhum motivo para otimismo”, respondeu Rodrik. Em seu livro, ele cita a proposta, apoiada pela França e pelo Brasil, de um imposto global sobre os super-ricos para ajudar a financiar a transição para energias renováveis, escrevendo: “A lógica por trás de tal imposto é impecável”. Mas também parece estar muito distante.

Rodrik admitiu que a eleição de Trump e suas ações subsequentes o deixaram menos otimista do que quando começou a escrever seu livro, no ano passado, quando as políticas industriais de Biden lhe pareceram uma ruptura importante e permanente com o passado. Ainda assim, ele se recusa a sucumbir ao pessimismo. Particularmente na área de energia verde, disse ele, o “trabalho de demolição de Trump não é tão prejudicial quanto eu temia”. Embora o chamado Projeto de Lei “Big Beautiful”, aprovado pelos republicanos a pedido de Trump, vá eliminar, no final deste ano, os créditos fiscais para a compra de painéis solares residenciais, isso não interrompeu a construção de usinas solares de escala industrial em todo o país, inclusive no Texas. “Essas coisas estão muito baratas agora”, disse ele. “A economia virou de cabeça para baixo.”

Na visão de Rodrik, isso é um sinal de que, se as políticas apropriadas forem adotadas e tiverem tempo para se desenvolver, o progresso também poderá ser feito em outras áreas. As políticas industriais da era Biden podem não ter gerado apoio imediato aos democratas, mas ele atribui esse fracasso não à sua natureza intrínseca, e sim ao momento em que foram implementadas. “Levará mais de quatro anos para que uma alternativa coerente surja e conquiste a imaginação do público”, escreve ele. Seu livro certamente não é a palavra final sobre a construção de tal alternativa, e ele não afirmaria que seja. Mas é uma contribuição estimulante para o projeto. ♦

30 de junho de 2025

O argumento a favor da zohranomia

Enquanto alguns bilionários de Wall Street se enfurecem com a plataforma política de Zohran Mamdani, uma importante economista progressista argumenta que ela é adequada ao momento.

John Cassidy


Foto de Madison Swart / AFP / Getty

O pânico sobre a suposta ameaça do socialismo ou do comunismo não é novidade na história americana, então a reação de alguns setores à suposta vitória de Zohran Mamdani, um autodenominado socialista democrata, nas primárias para prefeito de Nova York na semana passada não foi surpreendente. "É oficialmente o verão quente dos comunistas", escreveu o bilionário dos fundos de hedge Dan Loeb no X. Um pouco mais chocante, talvez, foi a resposta do economista de Harvard Larry Summers, ex-secretário do Tesouro durante o governo Clinton, que acusou Mamdani de defender "políticas econômicas trotskistas", o que provavelmente era uma referência aos seus pedidos por congelamento de aluguéis, viagens de ônibus gratuitas, supermercados administrados pelo governo e impostos mais altos para milionários e corporações. (Summers também disse que Mamdani demonstrou grande capacidade de aprendizado durante a campanha e expressou a esperança de que ele "oferecesse a tão necessária segurança" aos que acreditam na economia de mercado.)

Certamente, essas reações ao que poderia ser chamado de "Zohranomics" não surpreenderam exatamente os apoiadores de Mamdani, muitos dos quais encaram as críticas de financistas e democratas centristas como uma confirmação de que estão no caminho certo. Summers "nunca decepciona, não é?", disse-me Isabella M. Weber, professora de economia da Universidade de Massachusetts, em Amherst, que assinou uma carta pública endossando as propostas de campanha de Mamdani, durante uma longa conversa na semana passada. Weber ganhou destaque durante a pandemia de COVID-19, quando defendeu o controle de preços pelo governo e publicou pesquisas detalhadas sobre como grandes empresas estavam se aproveitando da emergência global para aumentar seus preços e margens de lucro. Respondendo aos comentários de Summers, ela disse que descrever o programa de Mamdani como trotskista era "absurdo" e não nos dizia nada "sobre o que a agenda de Mamdani pretende alcançar".

Na carta aberta, publicada pelo The Nation alguns dias antes das primárias, mais de duas dúzias de economistas progressistas dos Estados Unidos e de outros países descreveram a plataforma política de Mamdani como "um projeto ousado, porém prático, para enfrentar alguns dos desafios mais urgentes da cidade de Nova York — acima de tudo, o custo de vida". Weber me disse que sentia que Mamdani "se saiu muito bem ao se apresentar como alguém que defende a acessibilidade da vida e se concentra no que venho chamando de 'essenciais' — as coisas sem as quais as pessoas não podem viver: moradia, alimentação, transporte e creche. Se você não pode pagar por essas coisas, você é realmente empurrado para as margens da sociedade".

Weber contrastou as propostas de Mamdani com os equívocos do governo Joe Biden durante a crise nacional do custo de vida, que Donald Trump e outros republicanos exploraram com sucesso na eleição do ano passado. Ela relatou como Biden, em seu discurso do Estado da União de 2024, denunciou as corporações por capitalizarem em um período de crise aumentando seus preços ou reduzindo o tamanho de suas ofertas, mas não fez muito a respeito. Depois que Kamala Harris substituiu Biden na chapa democrata, ela propôs uma proibição federal à prática de preços abusivos por fornecedores de alimentos e supermercados. Mas ela posteriormente voltou atrás na questão, lembrou Weber, "com base na pressão de setores semelhantes que têm criticado a campanha de Mamdani".

A crítica à proposta de Harris foi que os controles de preços não funcionam, e a mesma acusação está sendo lançada contra o pedido de Mamdani por um congelamento do aluguel de cerca de um milhão de apartamentos com aluguel estabilizado. (O congelamento não se aplicaria aos cerca de um milhão de apartamentos com preços de mercado da cidade.) Em uma coluna polêmica que favoreceu Andrew Cuomo em detrimento de Mamdani, mas criticou ambos, o conselho editorial do New York Times afirmou que um congelamento dos aluguéis "poderia restringir a oferta de moradias e dificultar o acesso de nova-iorquinos mais jovens e recém-chegados à moradia". O argumento é que, se proprietários e incorporadores presenciarem um congelamento dos aluguéis, serão dissuadidos de investir em novas moradias populares. Quando apresentei esse ponto a Weber, ela disse que era importante perceber que o apelo de Mamdani por um congelamento dos aluguéis vem acompanhado de uma promessa de construir mais duzentas mil unidades com aluguéis estabilizados nos próximos dez anos; sua campanha planeja alcançar isso expandindo os investimentos públicos, alterando as leis de zoneamento e acelerando as aprovações de planejamento. "Se você apenas congela os aluguéis sem garantir que também construa, não acho que seja uma boa ideia", disse Weber. “Dada a gravidade da crise de acessibilidade na cidade de Nova York, a combinação de um congelamento de aluguéis e uma construção agressiva de moradias populares é uma boa ideia.”

Criar mais moradias populares dificilmente é uma nova meta radical para um prefeito, é claro. Em 2014, no início de seu mandato de oito anos, Bill de Blasio também revelou um plano para construir ou preservar duzentos mil apartamentos populares e, em 2021, sua administração anunciou que havia alcançado essa meta. Indiscutivelmente, a expansão mais bem-sucedida do estoque de moradias populares da cidade ocorreu com a construção de projetos de habitação pública, que começaram durante a Grande Depressão sob o prefeito Fiorello La Guardia, que criou a Autoridade de Habitação da Cidade de Nova York (NYCHA) e continuaram nas décadas do pós-guerra. Posteriormente, o financiamento federal secou e a habitação pública passou a ser associada à criminalidade e a outros problemas. Nas últimas décadas, os prefeitos de Nova York construíram moradias populares principalmente por meio de parcerias público-privadas, nas quais incorporadoras com e sem fins lucrativos recebem incentivos fiscais e outras formas de apoio para construir edifícios administrados pela iniciativa privada. O site de Mamdani afirma que ele "renovará o compromisso" com a habitação pública, dobrando o investimento da cidade em "grandes reformas de moradias da NYCHA" e usando terrenos de propriedade da NYCHA, como estacionamentos, como locais para moradias mais acessíveis — uma proposta que de Blasio também defendeu.

Isso parece sensato e já deveria ter sido feito, mas a escassez de moradias que a cidade enfrenta é formidável: alguns estudos recentes indicam que é necessário construir até meio milhão de novas casas. Mamdani tem dado menos ênfase ao incentivo ao desenvolvimento a preços de mercado. Ele tem dado algumas indicações à ala "abundância" do Partido Democrata, como prometer eliminar vagas mínimas de estacionamento e incentivar o desenvolvimento em torno de estações de metrô e outros centros de transporte. Mas o objetivo principal de seu plano é "libertar o setor público para construir moradias para a maioria".

Outro objetivo é fornecer aos moradores da cidade alimentos baratos e saudáveis. A campanha de Mamdani afirma que seus novos supermercados funcionariam em prédios de propriedade da cidade em áreas de baixa renda que atualmente carecem de opções adequadas — os chamados desertos alimentares. E prosseguia: "Sem ter que pagar aluguel ou IPTU, eles reduzirão as despesas gerais e repassarão a economia aos consumidores". Antes de se mudar para Massachusetts, Weber morou no bairro de Sunset Park, no Brooklyn, onde às vezes tinha dificuldade para comprar alimentos saudáveis. "A dimensão do preço" — da proposta de Mamdani — "é importante, mas a outra é a acessibilidade a alimentos nutritivos", disse ela.

É importante notar, algo que alguns veículos de comunicação não mencionaram, que Mamdani está propondo um projeto piloto com apenas cinco novas lojas — uma em cada distrito. Em uma metrópole com mais de quinze mil supermercados e mercearias privadas, isso parece insignificante. Mesmo assim, Weber disse que o experimento poderia ser valioso. Se der certo, poderá ser expandido, observou ela, e, em última análise, poderá incentivar preços mais competitivos em lojas privadas: "Se você tiver uma alternativa que seja confiável e barata e não aproveite as oportunidades de aumentar os preços quando elas ocorrerem, isso pode mudar a dinâmica de preços para setores inteiros. Essa é potencialmente uma vantagem importante de se ter uma opção pública."

Na mente de muitas pessoas, o termo “opção pública” está associado à saúde. Mas o transporte público também é uma opção pública e, como Weber apontou, a proposta de tornar as viagens de ônibus gratuitas se encaixa na ênfase de Mamdani nas necessidades básicas. “Opções de transporte acessíveis são essenciais para o seu bem-estar material básico, para chegar a um emprego, ganhar dinheiro e ganhar a vida”, disse ela. Alguns pensadores e grupos progressistas estenderam o conceito de opção pública a outras áreas, incluindo comunicações, serviços financeiros e varejo de alimentos. Em um artigo recente que citou a proposta de Mamdani sobre supermercados, Becky Chao, diretora de políticas e pesquisa do Projeto de Segurança Econômica, escreveu: “As opções públicas mostram o que é possível quando os governos respondem às necessidades das comunidades locais e criam alternativas reais para seus eleitores, quando lidamos com o desequilíbrio de poder em nossa economia e nos concentramos em soluções de modelagem de mercado que limitam o poder corporativo e, ao mesmo tempo, constroem poder para todos os americanos”. É claro que as opções públicas só terão sucesso se cumprirem o que prometem. Por exemplo, não há garantia de que os supermercados administrados pela cidade consigam fornecer alimentos mais baratos e nutritivos. "É por isso que precisamos de um projeto piloto", reconheceu Weber. "Para ver se conseguimos."

Outra proposta de Mamdani é mais familiar aos formuladores de políticas democratas tradicionais e provavelmente mais consequente em todos os aspectos: creche universal. Durante a campanha eleitoral de 2020, Biden defendeu creches financiadas pelo governo federal para todas as crianças de três e quatro anos. Após ser eleito, ele incluiu uma versão dessa proposta em seu plano Build Back Better, que não foi aprovado no Congresso após a oposição de Joe Manchin e Kyrsten Sinema. Mamdani, de acordo com seu site, promete fornecer "creche gratuita para todos os nova-iorquinos de 6 semanas a 5 anos, garantindo programação de alta qualidade para todas as famílias". Este plano se baseia no estabelecimento de pré-escola universal por de Blasio, que foi a principal conquista de sua prefeitura. Weber destacou estudos que mostram que programas de creche — que já existem em lugares como França, Suécia e sua Alemanha natal — geram resultados positivos tanto para pais quanto para crianças. Ela disse que a cidade como um todo também se beneficiaria deles, porque menos famílias seriam forçadas a sair quando tivessem filhos. “Posso pensar em três de cabeça que se mudaram porque era completamente impossível”, disse ela. “É muito importante para Nova York como cidade.”

Isso certamente é verdade, mas quão realistas são as propostas de Mamdani? Uma questão óbvia é o custo. No início deste ano, o grupo New Yorkers United for Child Care divulgou um plano para cobertura universal em todo o estado que, segundo ele, custaria US$ 12,7 bilhões por ano. A campanha de Mamdani não informou quanto custaria seu plano para a cidade, mas se fosse metade desse valor, o orçamento municipal seria expandido em cerca de 5%. Para ajudar a financiar suas propostas de gastos, Mamdani afirma que aumentaria a alíquota do imposto de renda municipal em dois pontos percentuais para indivíduos que ganham mais de um milhão de dólares por ano e aumentaria a alíquota do imposto de renda corporativo estadual para 11,5%. Cuomo, contestando as propostas de Mamdani, alegou que os aumentos de impostos levariam muitos ricos e empresas a fugir, minando assim a base tributária da cidade. Pelo menos um estudo recente sobre padrões de migração de milionários sugere que a ameaça de fuga de impostos foi exagerada, mas é certamente verdade que Mamdani, para que suas propostas tributárias sejam aprovadas, precisaria do apoio da governadora Kathy Hochul e da legislatura estadual. "Eles não apenas teriam que apoiar, como também teriam que iniciá-las", disse-me uma antiga autoridade estadual e observadora da política de Albany. "E é ótimo dizer que você vai implementar viagens de ônibus gratuitas na cidade de Nova York, mas não comanda a M.T.A., que administra os ônibus. O governador nomeia a maior parte do conselho da M.T.A.."

Especialistas financeiros dizem que Mamdani também teria que obter a aprovação do estado para os setenta bilhões de dólares extras em emissões de títulos municipais que ele está propondo para financiar seu programa de moradias populares. Essas realidades da política de Nova York refletem, em parte, a constituição do estado, adotada originalmente em 1777, que delegou alguns, mas não todos, poderes de autogoverno à cidade. O próximo prefeito, como muitos de seus antecessores, terá que se envolver em negociações difíceis com políticos em Albany. Esta não é necessariamente uma situação desesperadora. A autoridade observou que de Blasio, após ser eleito em 2013, acabou recebendo uma boa parte do financiamento estadual para sua plataforma eleitoral, que incluía a pré-escola universal. E esse sucesso de Blasio ocorreu apesar de ele ter um relacionamento constrangedor com Cuomo, então governador. "É a política normal de Albany — a pechincha, o vai e vem", disse o observador, acrescentando que Mamdani "tem uma boa chance de aprovar boa parte de sua agenda, mas é improvável que consiga tudo".

Essa é apenas uma avaliação, é claro. Kathryn Wylde, diretora executiva da Partnership for New York City, um grupo de liderança empresarial que representa cerca de trezentas empresas da cidade, me deu outra. Desde as eleições primárias, disse Wylde, ela tem dedicado bastante tempo a tranquilizar os executivos seniores de que Mamdani não teria autoridade para aprovar suas propostas, especialmente as tributárias, "para que eles não surtem e se mexam". Wylde continuou: "Temos plena confiança de que o governador deixará claro para ele que sua agenda tributária é inviável."

Weber questionou a ideia de que pessoas ricas pudessem deixar Nova York em massa. Ela disse que ter um apartamento em uma área desejável de Manhattan é um símbolo de status que elas valorizam muito e acrescentou que pessoas com rendas mais modestas são mais sensíveis ao aumento dos custos. "Se o aluguel ficar muito alto, assim como o transporte e a alimentação, elas acabam indo embora. Para os super-ricos, o cálculo é completamente diferente."

Ela admitiu que Mamdani enfrentará alguns obstáculos importantes se for eleito, mas isso não diminuiu seu entusiasmo pela candidatura dele, que ela considera um modelo não apenas para candidatos à prefeitura de Nova York, mas para qualquer político que busque conter a ascensão de Trump e outros populistas de direita.

No final da nossa conversa, perguntei a Weber como ela descreveria a Zohranomics. Como socialismo municipal, talvez? Ou rooseveltismo municipal? "Não tenho certeza se precisamos procurar 'ismos' aqui", respondeu ela. No mínimo, é uma forma muito eficaz de política econômica antifascista. Estamos em um momento em que a crise de segurança econômica, de acessibilidade, que acompanha questões básicas de dignidade e identidade, está sendo usada pela extrema direita de maneiras que alimentam o retorno de tendências fascistas. Acredito que precisamos de uma agenda focada exclusivamente nas necessidades das pessoas comuns, e foi basicamente aí que os democratas fracassaram no ano passado. Em nível federal e global, estamos lidando com as consequências dessa falta de visão agora mesmo. ♦

4 de fevereiro de 2025

A guerra comercial de Trump está apenas começando

Para o alívio de Wall Street, o presidente concordou em pausar suas tarifas contra o México e o Canadá, mas ele continua tão determinado quanto sempre a derrubar a ordem comercial internacional.

Por John Cassidy


Dois homens cercados por telas com Trump em uma delas.Foto de origem por Angela Weiss / Getty

Em Wall Street, isso é chamado de volatilidade induzida por Trump, e a mensagem dos últimos dias é que os investidores — e todos os outros — devem se acostumar com isso. No fim de semana, o presidente cumpriu uma promessa de campanha, impondo impostos de 25% sobre produtos mexicanos e canadenses e 10% sobre importações chinesas. Na segunda-feira, depois que Claudia Sheinbaum, a presidente mexicana, disse que enviaria 10 mil soldados para combater o contrabando de drogas na fronteira sul, a Casa Branca disse que estava suspendendo as tarifas por um mês. Mais tarde no dia, Trump falou com Justin Trudeau, o primeiro-ministro cessante do Canadá, que fez uma promessa semelhante e saiu com uma pausa semelhante.

Tanto o México quanto o Canadá são extremamente vulneráveis ​​a essa pressão: os EUA respondem por cerca de 80% de seu comércio. Trump, por sua vez, estava sob muita pressão do mundo dos negócios para recuar, e quando o presidente suspendeu as tarifas, a página editorial pró-livre comércio do Wall Street Journal publicou a manchete "Trump pisca". Nos mercados, notícias de tarifas levaram a uma liquidação antecipada; o mercado se recuperou com as notícias da pausa. No fechamento do pregão, o índice S. & P. ​​500 caiu menos de um por cento. Na terça-feira, os mercados não se moveram muito.

Alguns investidores ainda esperam que a ameaça de sanções de Trump seja apenas uma tática de negociação para forçar concessões de parceiros comerciais. Ou, como Scott Bessent, o ex-gerente de fundos de hedge que agora é secretário do Tesouro, disse ao Financial Times em outubro, "é escalar para desescalar". Talvez. Mas desde sua posse, Trump deixou claro que planeja derrubar o sistema de comércio internacional e afirmar o poder econômico dos EUA de maneiras que são fundamentalmente antitéticas à forma como a economia mundial tem sido organizada desde depois da Segunda Guerra Mundial — um período em que o PIB per capita ajustado pela inflação dos EUA aumentou de aproximadamente quinze mil dólares para quase setenta mil dólares, enquanto, nas últimas décadas, os salários dos trabalhadores estagnaram e a desigualdade aumentou drasticamente.

Trump fez campanha usando a política comercial para proteger os trabalhadores americanos, mas sua disposição de pressionar os vizinhos da América, México e Canadá, bem como Groenlândia, Colômbia e Panamá, faz parte de uma agenda mais ampla que é mais precisamente descrita como imperialismo econômico do que como mero protecionismo. Uma definição de imperialismo econômico é um país forte usando seu poder para exercer controle sobre os recursos econômicos e políticas dos mais fracos. O pretexto que Trump citou para as tarifas sobre o México e o Canadá foi a entrada de fentanil. Este é certamente um problema sério, colocado particularmente pelos cartéis de drogas mexicanos: no ano passado, as autoridades apreenderam noventa e seiscentos quilos da droga na fronteira sul. No entanto, a quantidade total de fentanil apreendida na fronteira norte em 2024 foi de meros dezenove quilos, de acordo com o New York Times. O Canadá não é uma grande fonte de fentanil que mata americanos, e a verdadeira razão para a animosidade de Trump em relação ao país parece ser que ele tem um superávit comercial com os Estados Unidos e que seu líder não tem sido suficientemente deferente com ele.

No fim de semana, Trump afirmou em sua conta Truth Social: “Pagamos centenas de bilhões de dólares para SUBSIDIAR o Canadá. Por quê? Não há razão.” E na segunda-feira, falando com repórteres no Salão Oval, ele repetiu sua afirmação de que o Canadá deveria se tornar o quinquagésimo primeiro estado. Claro, os Estados Unidos não gastam um dólar para subsidiar o Canadá. Assim como acontece entre muitas economias avançadas, muito comércio acontece na fronteira EUA-Canadá. Em 2023, o Canadá importou US$ 440,9 bilhões em bens e serviços dos EUA. Com certeza, também importamos muitos bens e serviços do Canadá: US$ 481,6 bilhões. Isso criou um déficit comercial bilateral de US$ 40,7 bilhões, equivalente a menos de 0,15% do PIB dos EUA — dificilmente um número alarmante.

Além disso, o comércio de bens e serviços é apenas parte da relação econômica EUA-Canadá. O capital financeiro também se move pela fronteira norte em busca de oportunidades de investimento lucrativas, como compras de empresas ou imóveis. Em 2022, de acordo com o Escritório do Representante Comercial dos EUA, o estoque total de investimento direto canadense nos Estados Unidos foi de US$ 589,3 bilhões, em comparação com o investimento direto dos EUA no Canadá de US$ 438,8 bilhões. Em outras palavras, os Estados Unidos estavam com um superávit em capital de investimento. É bem possível que o próprio Trump tenha se beneficiado dessa entrada vendendo condomínios para canadenses ricos. Se ele fez isso, ele não mencionou.

Quanto ao déficit comercial, grande parte dele é contabilizado por produtos energéticos, particularmente petróleo bruto e gás natural, que o Canadá exporta para os Estados Unidos em grandes quantidades. Se as tarifas entrarem em vigor, o preço desses produtos aumentará para os americanos. No fim de semana, a Irving Energy, uma empresa canadense que fornece propano para Maine, New Hampshire e Vermont, alertou que repassaria os impostos para seus clientes. É o que acontece em guerras comerciais.

A indústria automobilística desempenha um papel fundamental no comércio dos EUA com o México e o Canadá. Desde que o Acordo de Livre Comércio da América do Norte foi assinado em 1993, as montadoras americanas e estrangeiras reconstituíram suas operações de fabricação. A General Motors, por exemplo, agora monta cerca de quarenta por cento dos veículos que vende nos Estados Unidos no México e no Canadá. E o nível de integração transfronteiriça vai muito além da montagem final. Grande parte da cadeia de suprimentos da indústria é organizada em uma base continental, algumas peças cruzando uma fronteira várias vezes antes de serem enviadas como parte de um carro ou caminhão acabado. Como Paul Krugman apontou em uma postagem do Substack, as tarifas de Trump ameaçam explodir todo esse modelo.

E para quê? A retórica de Trump às vezes sugere que seu objetivo é tornar os Estados Unidos autossuficientes em praticamente tudo; a última grande economia capitalista a atingir tal objetivo foi a Alemanha nazista. Em outras ocasiões, inclusive no fim de semana, ele comemorou as tarifas como uma fonte de receita para o governo federal e sugeriu que elas são melhores do que impostos de renda. Mas, se as tarifas se tornassem uma grande fonte de receita, elas teriam que ser substanciais e permanentes. O que dizer, então, de "escalar para desescalar"?

É certamente suficiente saber que Trump considera as tarifas uma ferramenta eficaz para intimidar outros países e que sua experiência recente com a Colômbia parece ter fortalecido essa convicção. (Depois que o governo da Colômbia se recusou a aceitar voos militares de migrantes deportados dos Estados Unidos, Trump aplicou pesadas tarifas ao país, provocando uma rápida reversão por parte da Colômbia.)

No domingo, Trump sinalizou que o próximo passo seria o anúncio de tarifas punitivas sobre produtos da União Europeia, que há muito tempo é uma de suas bêtes noires. Do jeito que as coisas estão indo, não seria surpreendente se ele destacasse a Dinamarca, que exporta muitos produtos médicos, incluindo Ozempic, para os Estados Unidos, para tratamento especialmente punitivo, como um meio de pressioná-la a fazer concessões na Groenlândia rica em minerais, que figura proeminentemente em suas ambições imperialistas. (Ele já teve um telefonema com a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen. O Financial Times relatou que "tinha ido muito mal".)

Até agora, a China, o principal alvo da guerra comercial do primeiro mandato de Trump, saiu relativamente leve, com uma tarifa geral de dez por cento. (Durante a campanha de 2024, ele ameaçou uma taxa de até sessenta por cento.) Na terça-feira, a China anunciou tarifas retaliatórias sobre as exportações dos EUA de petróleo bruto e gás natural, equipamentos agrícolas e certos outros veículos. Como muitas grandes empresas dos EUA, incluindo Apple, Intel e Tesla, continuam fortemente dependentes das cadeias de suprimentos chinesas, o governo em Pequim tem a capacidade de infligir muito mais danos à economia dos EUA, mas sua resposta comedida sinalizou que está aberto a negociações, e alguns dos aliados comerciais de Trump podem muito bem estar aconselhando-o a ter cautela. Enquanto isso, ele está ocupado intimidando os vulneráveis ​​e descobrindo até onde pode levar as coisas sem criar um colapso financeiro. ♦

20 de janeiro de 2025

Um antigo conselheiro de Biden faz uma defesa final da Bidenomics

Jared Bernstein, o presidente cessante do Conselho de Assessores Econômicos, diz que Donald Trump está herdando uma economia forte, mas com menos liberdade de manobra do que teve durante seu primeiro mandato.

John Cassidy


Fotografia de origem por Tom Brenner / Getty

Desde 6 de novembro, os críticos apontaram as políticas econômicas de Joe Biden como uma explicação para a vitória de Donald Trump. Muitas autópsias se concentraram nos preços crescentes que azedaram os eleitores. Enquanto isso, Jonathan Chait, do The Atlantic, argumentou na semana passada que os esforços dispendiosos de Biden para estimular a manufatura no coração do país não conseguiram reconquistar os democratas da classe trabalhadora. Dylan Matthews, da Vox, culpou a incapacidade de Biden de priorizar e escolher entre seus objetivos políticos, o que resultou em uma "presidência fracassada que deixou Biden sem muito legado duradouro de política interna".

Há uma tendência de longa data nos Estados Unidos para que presidentes de um mandato — Jimmy Carter, George H. W. Bush — sejam descartados como fracassos, mesmo que algumas de suas conquistas políticas acabem sendo consequentes. (Carter criou os Departamentos de Energia e Educação; nenhum presidente republicano desde Bush impulsionou amplos aumentos de impostos sobre corporações e os ricos.) Mas a propensão a caracterizar o tempo de Biden no cargo como um fracasso é especialmente problemática. O que quer que se pense sobre sua decisão de concorrer novamente ou sobre sua gestão de Gaza, o esforço de sua Administração para criar uma economia de baixo carbono subsidiando o crescimento da energia verde e da manufatura verde foi um desenvolvimento histórico, e seus registros de empregos e crescimento do PIB são muito fortes. O relatório de emprego de dezembro do Departamento do Trabalho mostrou que os empregadores criaram mais um quarto de milhão de empregos no mês passado, elevando o total desde que Biden foi eleito para mais de 17,5 milhões, enquanto a taxa de desemprego caiu para 4,1%. PIB expandiu a um ritmo rápido de 3,1 por cento no terceiro trimestre do ano passado e, de acordo com o modelo GDPNow do Federal Reserve Bank de Atlanta, o crescimento do quarto trimestre deve atingir três por cento. (Uma estimativa inicial do número real será anunciada no final do mês.)

Na semana passada, liguei para Jared Bernstein, presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Biden, para suas considerações finais enquanto ele se preparava para deixar o cargo. O homem de 69 anos disse que já havia embalado seu escritório, incluindo uma foto de Biden em pé sob uma placa "Bidenomics", que agora estava pendurada na sala de ginástica de sua casa, ao lado de sua bicicleta ergométrica. Compreensivelmente, ele estava ansioso para enquadrar o registro de Biden em uma luz positiva. Mais cedo naquela manhã, ele havia falado em um painel na Brookings Institution, um think tank situado a cerca de seis quarteirões ao norte da Casa Branca. O evento foi realizado para marcar a publicação da edição de 2025 do Relatório Econômico do Presidente (E.R.P.), uma atualização anual obrigatória do Congresso. Em seus comentários na sessão, Bernstein observou que, em termos de emprego e crescimento, a economia "superou até mesmo as previsões mais otimistas nos últimos anos". Ele também reconheceu o que descreveu como "um pico inflacionário de quarenta anos", que viu a taxa de inflação subir para 9,1% em junho de 2022. No que soou como uma mensagem de despedida para a equipe econômica de Trump, ele defendeu um "meio-termo" na política comercial.

Em uma ruptura com as políticas de administrações democratas anteriores, a administração Biden manteve as tarifas sobre produtos chineses que Trump havia introduzido durante seu primeiro mandato e impôs novas restrições próprias às exportações de chips semicondutores e outros produtos de alta tecnologia para a China. Bernstein defendeu essas restrições alegando que o domínio industrial da China ameaçava os trabalhadores americanos e também citou questões de segurança nacional. Ele observou que as importações reduzidas da China foram compensadas por maiores entradas do México, Vietnã e outros países. Sem mencionar Trump diretamente, ele disse que a Administração Biden rejeitou “visões reducionistas como ‘O déficit comercial é um placar, e se ele ficar maior, você está perdendo.’”

Durante nossa conversa, Bernstein foi mais explícito ao criticar as promessas eleitorais populistas que Trump fez campanha, em sua tentativa de um segundo mandato, que incluem tarifas universais sobre importações e deportações em massa de trabalhadores sem documentos. “Tarifas direcionadas podem ser úteis, mas não acho que seja o caso de tarifas abrangentes”, disse ele. “Deportações em massa impactariam a oferta de mão de obra, particularmente em setores como construção. A combinação de tarifas abrangentes, deportações em massa e talvez até mesmo comprometer a independência do Federal Reserve — tudo isso é potencialmente muito inflacionário, como outros apontaram.”

Bernstein começou a aconselhar o então vice-presidente Biden em 2008. Ele se juntou ao Conselho de Consultores Econômicos no início da Administração e assumiu a presidência em fevereiro de 2023. Como economista de longa data no liberal Economic Policy Institute, em Washington, ele construiu sua reputação durante os anos noventa ao ser coautor, junto com seu colega, o economista Lawrence Mishel, de um inestimável relatório bienal sobre o "Estado da América Trabalhadora", que monitorava salários, desigualdade, desemprego e cobertura de assistência médica, entre outras coisas. Ele me disse que seu interesse em questões trabalhistas e desigualdade foi provavelmente a razão pela qual Biden o escolheu como consultor. "Economia de fatia justa — isso sempre me uniu e ao presidente", disse ele.

Quando perguntei a Bernstein de qual elemento do histórico de Biden ele mais se orgulhava, ele apontou para a manutenção do pleno emprego, mesmo quando o Federal Reserve aumentou drasticamente as taxas de juros para trazer a inflação de volta à sua meta de dois por cento. “Muitos especialistas nos disseram que, para reduzir a inflação, teríamos que aceitar uma taxa de desemprego muito maior”, disse ele. “Essa foi uma troca que não estávamos dispostos a fazer.” Em sua palestra na Brookings Institution, Bernstein citou alguns dos benefícios mais amplos das baixas taxas de desemprego: um mercado de trabalho forte pode encorajar os empregadores a contratar de um grupo maior de candidatos, proporcionando assim mais oportunidades para trabalhadores minoritários, e o aumento da competição por mão de obra pode incentivar as empresas a fazer investimentos que aumentem a produtividade. Ele também enfatizou para mim a importância da maior alavancagem de negociação salarial que os mercados de trabalho restritos dão aos funcionários. Aumentar o poder de barganha dos trabalhadores era um elemento central da Bidenomics, disse ele. “É também por isso que ele tem sido um presidente tão pró-sindicato — o primeiro a andar em uma linha de piquete.”

A preocupação de Biden com questões trabalhistas era genuína o suficiente. (A pedido dos líderes do sindicato United Steelworkers, ele recentemente bloqueou uma aquisição japonesa da U.S. Steel.) Mas, mesmo com uma maioria estreita no Senado durante o mandato de Biden, os democratas não conseguiram reunir os sessenta votos que seriam necessários para aprovar o PRO Act, o que tornaria a organização sindical mais fácil, e não conseguiram aumentar o salário mínimo federal, que ainda é de apenas US$ 7,25 por hora. Mais consequentes do que os gestos de Biden para o trabalho organizado foram quatro grandes peças de legislação que o Congresso aprovou durante seus dois primeiros anos no cargo, que Bernstein saudou como sem precedentes.

Como explica o E.R.P., o American Rescue Plan Act de US$ 1,9 trilhão de 2021, que incluiu pagamentos em dinheiro de mil e quatrocentos dólares para indivíduos em famílias de baixa e média renda, fortaleceu as finanças familiares. O bipartidário Infrastructure Investment and Jobs Act de 2021 de US$ 1,2 trilhão levou a um aumento nos projetos de construção nos níveis estadual e local. O Ato de Redução da Inflação de 2022, de oitocentos e noventa e um bilhões de dólares, que forneceu subsídios e bolsas para fabricantes de veículos elétricos, baterias elétricas e outras tecnologias verdes, gerou um aumento nos investimentos em manufatura. O mesmo aconteceu com o Ato de CHIPS e Ciência de 2022, de duzentos e oitenta bilhões de dólares, que foi projetado para incentivar a terceirização da manufatura de semicondutores. A construção de fábricas atingiu níveis recordes em 2024, e algumas novas instalações, incluindo uma planta de última geração no Arizona, de propriedade da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, já estão funcionando. "Se houver alguma justiça à história, o aumento temporário da inflação não será o legado duradouro de Biden", disse Bernstein para mim. "Acho que o maior legado de Biden será a adoção do que ele chama de economia de baixo para cima e do meio para fora, e de uma agenda de investimentos que está criando novas indústrias de manufatura nos Estados Unidos."

Em vez de dar crédito a Biden por esses desenvolvimentos, muitos eleitores o culparam pelo alto custo de tudo, desde mantimentos até taxas de seguro de automóveis e empréstimos hipotecários. Desde que a inflação disparou, os economistas têm debatido se a causa principal foram as interrupções relacionadas à pandemia na cadeia de suprimentos ou a forte demanda criada pelos programas de gastos federais. "Não quero dar um passe livre à política fiscal", disse Bernstein. "Foi a colisão de forte demanda e oferta restrita. Você não pode explicar o que aconteceu sem se referir a ambas as coisas." Tendo admitido esse ponto, no entanto, Bernstein então defendeu as políticas de gastos de Biden, particularmente o Plano de Resgate Americano, como necessárias para garantir que a recuperação da pandemia fosse forte. "A quantidade de incerteza que havia meio que desapareceu no buraco da amnésia da COVID", observou ele. "Lembre-se, quando chegamos lá, quase ninguém estava vacinado." Bernstein também destacou que o aumento cumulativo nos preços durante o surto de inflação foi semelhante em todos os países avançados, embora suas políticas de gastos divergissem amplamente. “Isso mostra que o Plano de Resgate Americano recebe uma culpa desproporcional”, ele disse.

Como já escrevi antes, concordo amplamente com essa análise. O fato de a inflação ter começado a cair no segundo semestre de 2022, antes que os aumentos das taxas de juros do Fed tivessem muito impacto na demanda, é outra forte indicação de que os emaranhados na oferta foram os principais culpados pelo pico anterior. No entanto, sugeri a Bernstein que o governo poderia ter feito um trabalho melhor, desde o início, ao reconhecer que os preços crescentes estavam minando o poder de compra dos americanos e causando dificuldades e raiva consideráveis. Por que, por exemplo, não criou uma força-tarefa contra a inflação para coordenar os esforços para conter o aumento dos preços e manter o público informado? A pergunta motivou uma defesa vigorosa. “Tínhamos uma força-tarefa de interrupção da cadeia de suprimentos que provavelmente fez mais do que qualquer outra coisa para reduzir a inflação”, disse Bernstein, com um toque de frustração na voz. “Ele fez muito trabalho, em parceria com o setor privado, para desemaranhar as cadeias de suprimentos.” Ele também me lembrou que o governo Biden administrou a Reserva Estratégica de Petróleo para estabilizar os preços do gás, estabeleceu o princípio de que o Medicare deveria ter o poder de negociar com a Big Pharma sobre os preços dos medicamentos e reprimiu pesadas "taxas inúteis", como grandes cobranças por cheques a descoberto e pagamentos atrasados ​​em cartões de crédito.

Claro, nada disso teve muito impacto no preço dos ovos ou da carne. Bernstein disse que havia uma tendência em certos setores de pensar que, se o governo tivesse puxado alguma outra alavanca, poderia ter reduzido o custo dos mantimentos. "Simplesmente não funciona assim", disse ele. Em um sistema capitalista, ele continuou, há muitas partes da economia, incluindo o setor alimentício, onde o governo federal tem muito pouca influência sobre os preços. "Energia, assistência médica e taxas inúteis eram áreas onde poderíamos fazer a diferença, e fizemos", disse ele. "Mercearias — essa é uma história diferente."

Ao concorrer à reeleição, Trump aproveitou essa história, é claro. Mais recentemente, ele admitiu que reduzir os preços dos alimentos será "muito difícil", e Bernstein sugeriu que esse não seria o único desafio que o novo presidente enfrentará. Embora ele esteja herdando uma economia forte com crescimento recorde de empregos e renda familiar crescente, a experiência dos últimos oito anos significa que ele está muito mais limitado, em um sentido econômico, do que estava após sua eleição em 2016, argumentou Bernstein. "Acho que ele tinha mais graus de liberdade para brincar naquela época do que tem agora."

Quando Trump foi empossado pela primeira vez, em janeiro de 2017, a inflação estava em 2,5% e, nos cinco meses seguintes, caiu para 1,6%, abaixo da taxa-alvo do Fed. A taxa de desemprego era baixa — 4,8% — mas, como se viu, ainda havia uma boa quantidade de capacidade ociosa na economia. A dívida federal havia aumentado rapidamente desde a crise financeira global de 2007-08, mas as taxas de juros dos títulos do Tesouro estavam baixas — cerca de três por cento — indicando que os investidores não estavam muito preocupados com a perspectiva fiscal. Nesse ambiente, Trump tinha flexibilidade considerável para perseguir sua agenda econômica, que, então como agora, incluía cortes de impostos, repressão à imigração e protecionismo.

O ambiente econômico atual é muito diferente, observou Bernstein. Embora a inflação tenha diminuído, ela ainda está acima da taxa-alvo do Fed e, recentemente, aumentou ligeiramente. A economia está operando em ou perto da capacidade máxima. E, nos últimos meses, o rendimento dos títulos do Tesouro de trinta anos aumentou de menos de quatro por cento para perto de cinco por cento — um salto considerável. Os economistas estão divididos sobre as causas desse desenvolvimento. Bernstein disse que isso pode refletir a incerteza sobre as políticas do Fed, preocupações com a inflação ou preocupações sobre o impacto de tarifas, deportações e perspectivas fiscais. Seja qual for a causa, ele observou, "o mercado de títulos tem precificado um prêmio que não existia seis meses atrás".

Nada disso necessariamente pressagia uma crise iminente, e muitos em Wall Street permanecem otimistas sobre as perspectivas econômicas de uma segunda presidência de Trump. Mas isso levanta sérias questões sobre como os mercados financeiros e o Fed reagirão se Trump adotar o MAGA completo em tarifas, cortes de impostos e imigração. Durante seus comentários na Brookings Institution, Bernstein revelou que havia conversado com alguns dos novos conselheiros econômicos de Trump. Quando perguntei a ele sobre essas conversas, ele se recusou a dar detalhes, mas disse: "Acho que eles reconhecem que estamos entregando a eles uma economia forte, e tenho certeza de que não querem ver alta inflação ou altas taxas de juros. Acho que eles querem ter cuidado." Trump quer ter cuidado? As próximas semanas responderão a essa pergunta. ♦

John Cassidy é redator da equipe do The New Yorker desde 1995. Ele escreve The Financial Page, uma coluna sobre economia e política.

2 de novembro de 2024

A filosofia econômica de Donald Harris

A campanha de Trump retratou o pai do vice-presidente como um marxista. Ele insiste que foi caricaturado.

Por John Cassidy


Ilustração de Ricardo Tomás; Fotografias de origem de Alamy

No final de julho, logo após Kamala Harris se tornar a candidata democrata à presidência, The Economist descreveu seu pai, Donald Harris, um professor emérito de economia em Stanford com quem ela supostamente tem pouco contato, como "um marxista combativo". No debate presidencial de setembro, Donald Trump repetiu e expandiu a acusação, chamando pai e filha de marxistas. "Ele a ensinou bem", disse Trump. Recentemente, perguntei a Donald Harris, que cresceu na Jamaica e agora tem oitenta e seis anos, como ele se descreveria. Harris respondeu: "O próprio Marx disse: 'Eu não sou marxista'. Ele estava expressando sua objeção à distorção de suas ideias por seus contemporâneos que usaram seu nome como um rótulo para suas ideias e práticas. Falando por mim e meu trabalho, eu poderia dizer o mesmo hoje que Marx disse naquela época. Mas não preciso fazer isso. Não posso aceitar a responsabilidade por, ou a necessidade de responder à, ignorância e analfabetismo daqueles na mídia ou em outros lugares.” Harris, que não se envolveu com a imprensa em anos, concordou em responder a uma série de perguntas escritas minhas. Sua resposta continuou, “Todo o meu trabalho é de domínio público. Qualquer um que reserve um tempo e se dê ao trabalho de revisá-lo verá aí o significado.”

Nas últimas semanas, li o máximo que pude desse material — artigos acadêmicos, resumos de políticas, artigos que apareceram em um jornal jamaicano, um tratado de 1978 chamado “Acumulação de capital e distribuição de renda” — e também conversei com alguns dos antigos colegas e alunos de Harris. O que surgiu foi o retrato de um acadêmico profundamente sério, e um que não é facilmente rotulado, embora, é claro, a campanha de Trump tenha feito o melhor para transformar seu trabalho acadêmico em uma arma e associar sua filha a ele também, apesar de seu relacionamento distante. (A falecida mãe de Harris e Kamala, Shyamala Gopalan, se divorciaram em 1972, e Kamala disse que sua mãe a criou.) Deixando de lado a política presidencial, Harris é uma figura notável por direito próprio e, ao longo de sua longa carreira, participou de uma série de debates econômicos que continuam a ter repercussões muito além da academia.

Na década de 1970, Harris se tornou o primeiro economista negro titular em Stanford. Ele lecionou cursos de economia marxista, que era então um campo ativo de pesquisa, argumentando que fornecia uma estrutura mais útil para analisar a dinâmica de longo prazo do capitalismo — como as economias crescem e como a riqueza é distribuída — do que as teorias promulgadas em livros didáticos e cursos padrão. Harris, em seu livro de 1978, que pesquisou uma série de abordagens diferentes para o desenvolvimento econômico, escreveu que o sistema marxista, embora incompleto em alguns aspectos essenciais, "permanece hoje como uma base poderosa para construir uma teoria do crescimento da economia capitalista apropriada às condições modernas". No entanto, muito de seu próprio trabalho teórico surgiu de uma tradição intelectual distinta, mas relacionada, a escola pós-keynesiana, que foi originalmente associada a alguns seguidores britânicos de esquerda de John Maynard Keynes. Harris estendeu a abordagem pós-keynesiana para economias em desenvolvimento e argumentou que uma característica fundamental do capitalismo como um sistema econômico era o "desenvolvimento desigual", tanto dentro quanto entre os países.

Nas décadas de 1960 e 1970, ele foi um combatente em uma longa e acalorada disputa transatlântica que colocou dois bastiões da erudição keynesiana — Cambridge, Inglaterra, e Cambridge, Massachusetts — um contra o outro, levantando questões fundamentais sobre como o bolo é dividido em economias capitalistas. E, a partir dos anos 1980, ele adotou uma estratégia de crescimento econômico para sua Jamaica natal que o colocou do lado dos apoiadores da globalização e o distanciou dos esquerdistas que rejeitavam o capitalismo internacional e favoreciam um salto revolucionário para o socialismo. "A história após a época de Marx mostra o dano que pode advir das alternativas escolhidas e implementadas em nome de Marx", escreveu Harris em um artigo autobiográfico que ele concluiu recentemente, uma cópia do qual ele me encaminhou. "Na minha opinião, o maior erro histórico e desorientação do século XX veio da ideia de construir uma sociedade 'socialista/comunista' em um país economicamente atrasado, o que é uma inversão grosseira das ideias de Marx. As pessoas que viveram (e morreram) sob o punho de ferro de seus líderes nesses países sofreram as consequências desses erros.”


Em suma, Harris é uma figura mais interessante e idiossincrática do que foi retratado em alguns setores. Suas visões econômicas foram moldadas por sua criação na Jamaica da era colonial. Ele nasceu em 1938, em Orange Hill, uma pequena vila perto da costa norte da ilha, onde sua família possuía uma fazenda. Em um artigo publicado em 2018, ele disse que seu interesse em economia e política foi despertado ao observar a rotina diária de sua avó, conhecida como Miss Chrishy, ​​que era dona de uma loja de produtos secos. Os pais de Harris o fizeram frequentar a escola dominical e aprender o catecismo. Ele foi um aluno diligente no ensino médio e garantiu uma vaga no University College of the West Indies, que havia sido estabelecido logo após a Segunda Guerra Mundial em um terreno fora da capital, Kingston. Lá, Harris obteve um diploma de bacharel geral, com especialização em economia, inglês e latim. Ele também ganhou mais exposição ao mundo exterior.
Embora a Grã-Bretanha tivesse aderido ao autogoverno limitado na Jamaica durante a guerra, a ilha ainda era governada, em última análise, por Londres, como era desde 1655. O mundo estava mudando, no entanto. No início de 1959, enquanto Harris estava na faculdade, uma revolução na vizinha Cuba derrubou Fulgencio Batista, o ditador apoiado pelos EUA. Harris, em seu ensaio autobiográfico, relatou como os acontecimentos em Cuba dominaram a mídia na Jamaica, que tinha uma herança semelhante: colonialismo, plantações de açúcar e escravidão. "Palavras como capitalismo, socialismo, comunismo, imperialismo estavam sendo lançadas, em discursos políticos que ouvi no campus e nas notícias locais e internacionais", escreveu Harris. "Mas, para mim, eram apenas palavras. Eu não tinha nenhum significado ou raciocínio estruturado sobre elas. Sobre capitalismo, eu sabia o pouco que aprendi lendo os livros didáticos de economia." E em sua mente, esses livros tendiam a obscurecer tanto quanto a esclarecer.

Mesmo depois que Harris se mudou para Berkeley, em 1961, para se matricular no programa de doutorado em economia, ele ficou frustrado com as teorias que encontrou em muitos de seus livros didáticos, que apresentavam uma imagem harmoniosa da economia: as forças de mercado alocavam recursos de forma eficiente, e os conflitos entre trabalhadores e empregadores eram ignorados. Essa abordagem, que era conhecida como economia neoclássica, pareceu a Harris uma parábola irrealista que não refletia o mundo real. Enquanto fazia algumas leituras na biblioteca da universidade, ele se deparou com um livro dos anos trinta que representava uma tradição intelectual rival: "Economia Política e Capitalismo", uma coleção de ensaios de Maurice Dobb, um historiador econômico marxista da Universidade de Cambridge. "Ele oferecia uma perspectiva sobre 'Economia Política' muito diferente daquela apresentada nos cursos padrão, o que achei bastante revelador e fiquei ansioso para acompanhar", Harris me disse. Enquanto a economia neoclássica se apresentava como uma ciência universalmente aplicável com base em certos axiomas fundamentais, Dobb enfatizava a história, o conflito de classes e o imperialismo.

Harris já estava familiarizado com as obras de dois economistas mais proeminentes de Cambridge: Keynes e Joan Robinson, ambos muito influenciados pela Grande Depressão. Na magnum opus de Keynes de 1936, "The General Theory of Employment, Interest, and Money", ele desafiou a velha ortodoxia de que as economias capitalistas tinham propriedades de autocura e que o papel adequado do governo era simplesmente ficar fora do caminho. Períodos de recessão, ele argumentou, exigiam políticas de estímulo fiscal — uma percepção que ajudou a criar a base intelectual para uma era pós-guerra de capitalismo administrado em países ocidentais.

Robinson levou as coisas um passo adiante; ela acreditava que a Grande Depressão havia desacreditado completamente a economia de livre mercado, que precisava ser substituída por atacado. (Quando ela era professora assistente em Cambridge, em 1933, ela publicou um livro inovador sobre como mercados supostamente competitivos passaram a ser dominados por grandes empresas que têm o poder de definir preços acima dos níveis competitivos e salários abaixo deles.) Durante as décadas do pós-guerra, ela e seus colegas tentaram estender a percepção básica de Keynes — de que não se podia confiar apenas nas forças de mercado para estabilizar a economia — para teorizar sobre questões de longo prazo, como crescimento e desigualdade. Em vez de confiar em teorias neoclássicas, eles inventaram novas.

O interesse crescente de Harris pela economia de Cambridge foi aprofundado quando Amartya Sen, que agora é um dos economistas mais conhecidos do mundo, mas era então um jovem professor no Trinity College, Cambridge, chegou a Berkeley como professor visitante. Harris, depois de saber que Sen havia obtido seu doutorado sob a supervisão de Dobb, pediu-lhe para se juntar ao comitê examinador de sua própria tese, uma investigação sobre inflação, acumulação de capital e crescimento na economia jamaicana. Sen conversou com Harris sobre a economia de Cambridge e o apresentou a um livro de Piero Sraffa, um italiano enigmático que foi membro do Trinity College da escola desde a década de 1930, depois de fugir do regime de Mussolini.

O livro de Sraffa, publicado em 1960, representava um esforço ambicioso para ir além da teorização neoclássica: ele usou técnicas matemáticas modernas para ressuscitar e estender as teorias de David Ricardo, um inglês do início do século XIX cujos escritos sobre aluguéis e salários influenciaram muitos economistas de sua época, incluindo Marx. Ricardo dividiu a sociedade em três classes rivais — proprietários, capitalistas e trabalhadores — e mostrou como os proprietários eram capazes de ficar com a maior parte do excedente econômico em virtude de possuir e cobrar aluguel de um recurso escasso e valioso: a terra. Depois de ler o livro de Sraffa e também uma longa introdução às obras coletadas de Ricardo escritas por Sraffa e Dobb, "eu sabia que tinha que ir para Cambridge", Harris me lembrou.


Em 1966, o mesmo ano em que Harris obteve seu Ph.D. em Berkeley, e dois anos após o nascimento de sua filha mais velha, Kamala, ele passou algum tempo como pesquisador visitante na antiga cidade universitária às margens do Rio Cam. Ele visitou o idoso Dobb em sua casa, nos arredores de Cambridge, e tomou chá e bolinhos com Robinson em um café com vista para o rio, o que ele descreveu como "um deleite especial". Robinson e alguns de seus colegas estavam então envolvidos na chamada controvérsia do capital de Cambridge, que os colocou contra vários economistas neoclássicos proeminentes, mais notavelmente Paul Samuelson e Robert Solow, que lecionavam no M.I.T. Embora ambos os lados fossem nominalmente keynesianos — o que significa que aderiam às doutrinas de política ativista de Keynes, que havia morrido em 1946 — uma boa dose de animosidade e amargura havia se desenvolvido entre eles.

Na superfície, a controvérsia do capital de Cambridge era uma disputa recôndita sobre a natureza do capital físico — edifícios de fábricas, máquinas-ferramentas, computadores e assim por diante — e se é possível, para fins teóricos e empíricos, agregar essas partes em um único todo e anexar um valor em dólar a elas. A equipe de Cambridge, EUA, disse que sim. A equipe de Cambridge, Reino Unido, disse que não. As batalhas foram travadas em artigos acadêmicos repletos de símbolos gregos e, lendo-os a uma distância de mais de meio século, é difícil entender o calor que eles geraram.

Mas, espreitando sob a álgebra, havia profundas diferenças metodológicas e ideológicas. No modelo neoclássico da economia em que Samuelson, Solow e muitos outros keynesianos do estilo M.I.T. se baseavam, os salários são determinados pela produtividade dos trabalhadores, e os lucros refletem a produtividade do capital: trabalhadores altamente produtivos recebem mais do que trabalhadores moderadamente produtivos, e novos investimentos que aumentam a produtividade geram uma taxa de retorno maior. De fato, essas relações podem ser capturadas em uma equação matemática, conhecida como “função de produção”. Nessa estrutura, trabalhadores e capitalistas, longe de serem antagônicos, são colocados em pé de igualdade como “fatores de produção”. As forças de mercado garantem que ambos sejam recompensados ​​com base em sua produtividade, que é determinada, em última análise, pelo estado da tecnologia. A exploração e a luta de classes não têm nada a ver com isso. Os keynesianos de Cambridge, Reino Unido, recusaram essa teoria. Robinson, em particular, passou a considerar a abordagem neoclássica como uma racionalização mal disfarçada para as instituições e desigualdades do capitalismo. Indignada com os membros da Equipe M.I.T. se apropriando do apelido keynesiano, ela começaria a se referir a eles como “keynesianos bastardos”.

Para um jovem acadêmico ambicioso e de esquerda como Harris, o choque de ideias era atraente. Ele descreveu o "chá da tarde" com o corpo docente de economia como uma "experiência emocionante":

Era um momento, todos os dias, para o corpo docente e os visitantes se reunirem na "Sala Comum" e se envolverem ou ouvirem discussões informais e animadas sobre as questões mais abstratas e práticas da economia ou as notícias do dia. O destaque para mim foi assistir e ouvir atentamente Joan Robinson (diva pós-keynesiana) brigando com Frank Hahn (divo neoclássico), em golpes e estocadas brincalhões, mas sérios.

Embora as visões econômicas de Harris estivessem cada vez mais alinhadas com Robinson e seus colegas, o que mais o impressionou nessas trocas, ele me disse, foi o dar e receber intelectual. "O pensamento crítico sobre ideias era uma norma cultural, abraçado e bem-vindo por todos os lados em qualquer questão em debate", disse ele. Este ambiente, continuou ele, “estava em nítido contraste com a minha experiência de reações (mentalidade fechada, condescendência, até mesmo hostilidade) de alguns dos meus colegas, tanto conservadores quanto liberais, na América”.

Os keynesianos do Reino Unido também gostaram do visitante. John Eatwell, um veterano economista britânico que era então um membro do corpo docente do primeiro ano em Cambridge, lembrou que Harris era curioso, tecnicamente adepto e atualizado sobre a literatura mais recente em ambos os lados do Atlântico. "Acho que uma de suas vantagens era que ele era muito melhor em entender as sensibilidades econômicas na América do que o povo de Cambridge", Eatwell me disse. "Eles tendiam a ler a si mesmos e Samuelson e Solow, mas era só isso." Harris foi rapidamente bem-vindo "à equipe de economia de Cambridge", Eatwell lembrou. "Ele se tornou um dos escritores mais analiticamente precisos dentro desse corpo de trabalho."


Depois que Harris retornou aos Estados Unidos, ele se concentrou em aplicar a abordagem pós-keynesiana — desenvolvida principalmente no modelo de países avançados como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha — a regiões em desenvolvimento, como o subcontinente indiano e o Caribe. Em seus artigos, ele destacou certas características estruturais das economias em desenvolvimento, como um grande setor agrícola e uma escassez de fundos para importar maquinário avançado, o que, ele acreditava, poderia conter o crescimento. Tais características não apareciam em modelos neoclássicos simples, e o objetivo de Harris era ir além desses modelos.
Em 1968, Harris mudou-se para um cargo estável na Universidade de Wisconsin. Ele também viajou para o exterior, visitando Cambridge novamente e, em 1970, obtendo uma bolsa da Fundação Ford para a Escola de Economia de Delhi, o principal departamento de economia da Índia. Nessa fase, a controvérsia sobre o capital de Cambridge estava diminuindo — com ambos os lados reivindicando vitória —, mas a economia ainda estava agitada por debates contenciosos sobre questões como inflação, sindicatos e pobreza no mundo em desenvolvimento. Durante uma de suas visitas a Cambridge, Harris ficou com Eatwell, que contou: "Don debate qualquer coisa. Eram longas discussões noite adentro". Harris também se reconectou com Joan Robinson, que estava se aproximando da aposentadoria do ensino, mas que continuava sendo uma voz proeminente em debates públicos. (Ela era uma crítica aberta da Guerra Fria, da guerra do Vietnã e das doutrinas econômicas de livre mercado associadas a Milton Friedman, da Universidade de Chicago.) Harris "se dava bem com Joan, mas não era um acólito", disse Eatwell. “Don sempre quis questionar as coisas e descobrir as alternativas."

Em 1972, Harris aceitou uma oferta para lecionar em Stanford, que o pedia para ajudar a criar um novo campo no programa de pós-graduação chamado Alternative Approaches to Economic Analysis. Stanford não era exatamente Berkeley, mas o tumulto político da época havia chegado ao campus em Palo Alto. Houve protestos antiguerra, e alguns alunos estavam exigindo uma ampliação do currículo de economia para incluir abordagens radicais ao assunto. O Stanford Daily relatou a notícia de que Harris recebeu uma oferta de professor titular em sua primeira página sob o título “Marxist Offered Economics Post”. (Deve-se notar que, durante os anos setenta, o interesse nas teorias de Marx não se limitava à extrema esquerda. Paul Samuelson introduziu uma seção sobre Marx em seu popular livro didático, escrevendo: "É um escândalo que, até recentemente, até mesmo os formandos em economia não aprendessem nada sobre Karl Marx, exceto que ele era um sujeito doentio.")

Além de dar aulas em sua área de especialidade, desenvolvimento econômico, Harris deu aulas em um curso de graduação chamado Teoria do Desenvolvimento Capitalista, que enfatizava a economia marxista. Ele também dirigiu um seminário de pós-graduação sobre economia política, que atraiu um grupo dedicado de alunos de pós-graduação, nem todos do departamento de economia. Toda quarta-feira à tarde, um palestrante diferente fazia uma apresentação. Alguns dos tópicos eram teóricos; muitos eram históricos, como escravidão, trabalho escravo e o impacto do colonialismo sobre os povos indígenas. Depois que a palestra terminava, havia uma longa discussão, que frequentemente se estendia para um restaurante chinês próximo, o Chef Chu's.

Recentemente, conversei com dois economistas que fizeram doutorado em Stanford e participaram do seminário de Harris: Chiranjib Sen e Gita Sen, que são casados. “O ensino normal em Stanford era muito neoclássico, muito convencional, e muitos de nós achamos que não era realista”, disse Chiranjib Sen, que leciona na B.M.L. Munjal University, nos arredores de Déli. “A abordagem que Don adotou foi como uma lufada de ar fresco. Ela abriu nossas mentes para uma série de fatos históricos sobre a evolução histórica do capitalismo.” Gita Sen, que se tornou uma renomada especialista em economia da saúde e gênero, e consultora sênior nas Nações Unidas, lembrou que Harris “não tolerava generalizações soltas de bom grado. Ele realmente pressionava as pessoas a não fazerem besteiras em nome da economia política, mas realmente trabalharem o que um argumento significava. Eu pessoalmente o considero meu professor mais brilhante.”

Na época, muitos economistas de esquerda estavam associados ao movimento antiguerra e à Union for Radical Political Economics, fundada em 1968 por estudantes e professores da Universidade de Michigan, Harvard e Radcliffe. Harris não se juntou à organização nem participou de protestos públicos. "Acho que ele sempre teve o cuidado de manter distância do radicalismo mais fervoroso do corpo estudantil", me disse Duncan Foley, um teórico econômico matemático e colega de Harris que fez seu seminário e que lecionou em Barnard e na New School por muitos anos. No entanto, a raça de Harris fez dele uma figura notável no campus. "Eu nunca tinha tido um professor negro antes", lembrou Chiranjib Sen. "Isso certamente fazia parte de sua imagem e presença. Ele carregava isso com grande dignidade." Gita Sen disse que o fato de Harris não ser apenas negro, mas também jamaicano, era particularmente notável para ela e outros estudantes estrangeiros em Stanford, muitos dos quais também eram oriundos de antigas colônias. "Sentimos um senso de comunidade com ele", observou ela.

No trabalho teórico de Harris, ele não se concentrou muito em raça, mas escreveu sobre isso ocasionalmente, e suas contribuições demonstraram sua disposição em desafiar panacéias da moda. Em um artigo de 1972 na Review of Black Political Economy, ele discordou de um argumento que havia sido apresentado por vários líderes negros, incluindo Martin Luther King Jr. e Stokely Carmichael, e também alguns acadêmicos de esquerda, de que bairros negros pobres poderiam ser considerados "colônias internas", que estavam sendo exploradas por empresários brancos ausentes. Harris reconheceu "semelhanças de forma entre a situação colonial clássica e a posição dos negros na sociedade americana", mas argumentou que a comparação obscurecia importantes "condições históricas particulares" e levava a conclusões errôneas sobre a melhor maneira de elevar as comunidades negras. "Falava-se, por exemplo, sobre uma economia negra e uma nação negra, todas baseadas na ideia de manter o status segregado dos negros e isolar os negros do resto do sistema", ele me disse. “O que não fez sentido para mim, porque como você pode sobreviver se não tiver uma ligação com o resto da economia?”

Em vez de focar em bairros específicos e seus problemas, Harris direcionou a atenção para o papel geral que os negros desempenhavam na economia dos EUA. Após o fim da escravidão, eles foram excluídos de bons empregos e forçados a aceitar cargos de baixa qualificação e baixa remuneração, independentemente de seus talentos e hábitos de trabalho. E isso se eles tivessem um emprego: as taxas de desemprego eram muito maiores entre os negros do que entre os brancos. A luta para superar a discriminação e fechar a lacuna de renda racial, argumentou Harris, dependia de “equalizar a distribuição de emprego e desemprego” entre trabalhadores brancos e negros e de “fortalecer a posição dos trabalhadores como classe”. Criar mais empresas de propriedade de negros — um remédio fortemente favorecido pelos proponentes da teoria das “colônias internas” — não teria muito impacto se essas questões mais amplas não fossem abordadas.


Most of Harris’s research remained devoted to theoretical questions investigating how economic value is created and distributed, which had animated the Cambridge capital controversy. Looking back on that episode, in an article published in 1980, he wrote that Robinson and her colleagues had conclusively demonstrated the invalidity of the claim that profits were determined by productivity. “There is, in general, no analytical connection which can be drawn between the technical productivity of factors (capital goods) and the income which capitalists receive from the total product that would be consistent with the requirements of the neo-classical theory,” he wrote.

Harris had a point. In 1966, at the height of the dispute, Paul Samuelson himself conceded that the neoclassical theory of production was a “parable” that shouldn’t be taken literally. Team Cambridge, U.K., took Samuelson’s concession as a major victory. In practical terms, though, the M.I.T. Keynesians came out on top. Despite the holes that their opponents had picked in their theoretical framework, most workaday economists continued to rely on it. “It was very odd,” John Eatwell commented. “It was as if someone proved that the earth was round, and everybody just went on assuming it was flat.”

One reason that the neoclassical approach survived was that, regardless of its theoretical legitimacy, assigning a dollar value to different forms of capital—from tractors to memory chips—made conducting empirical research a lot easier. “The Cambridge points were profound. You can’t aggregate capital,” Joseph Stiglitz, the Nobel-winning Columbia University economist, told me recently. “But it was a simplifying assumption that enabled you to do a lot.” In one much cited paper, Solow, by using the neoclassical tool kit, was able to estimate and highlight the huge contribution that technological progress makes in economic growth—a finding that suggested governments should do all they can to encourage scientific research and innovation. As Duncan Foley, the New School economist who knew Harris at Stanford in the seventies, explained to me, Robinson and her colleagues didn’t have such “a decisive empirical counterexample.” By the eighties, the theoretical models that they had put forward were being largely ignored.

Harris, meanwhile, continued to focus on critiquing and finding replacements for the neoclassical parable. In his 1978 book, which he dedicated to his two daughters, he examined a broad range of theories of economic development, from Ricardo and Marx to Sraffa and Robinson and the neoclassicals. As his title, “Capital Accumulation and Income Distribution,” indicated, he placed the question of how the economic pie gets distributed front and center. “In 1978, when Don published his book, in many mainstream economics texts you simply couldn’t find the terms ‘inequality’ and ‘distribution,’ ” Foley said. This elision of distributional questions didn’t merely have theoretical impact, he went on. It had important, real-world consequences: “All of the models that Don worked with, whether from a Sraffian or Marxian perspective, had the property of an antagonistic relationship between labor and capital. Mainstream economists just weren’t there. They thought that wages were technologically determined. That was a major reason they had such difficulty in the nineties and two-thousands in understanding the impact of neoliberalism and globalization.”

Solow’s neoclassical model of economic growth, for example, predicted that the shares of over-all income that accrued to labor and capital would remain constant over the long term. For decades, the data for the U.S. economy indicated that it did. But, between 2001 and 2010, labor’s share of over-all income fell by about five percentage points, a major drop in such a short period. Economists are still debating what caused the dramatic shift, but one seemingly plausible explanation is that the threat and reality of offshoring jobs to developing countries gravely undermined the bargaining position of American workers, making it harder for them to extract wage increases from their employers. On the flip side, globalization boosted corporate profits. The distribution of income tilted sharply against labor, which arguably helped to spark a populist political revolt. History trumped the neoclassical theory.

Harris didn’t predict these outcomes, and he wasn’t the only one to query the Solow model. (In the eighties and nineties, some neoclassical economists created new growth models that were, in certain respects, more realistic.) But his skepticism of the ruling orthodoxy was vindicated, and Foley’s point also stands. Harris emphasized distributional conflict at a time when few orthodox economists were doing so. In his responses to me, he said that he included “Income Distribution” in the title of his book to highlight the fact that many mainstream economists were ignoring it, and to emphasize the principle “enunciated by Ricardo (and further developed by Marx) that distribution and use of the surplus are the key to understanding the structure and motion of the economy.”


During the eighties, Harris moved away from theorizing and started to engage in policy debates, particularly in Jamaica, which had struggled economically since gaining its independence from Britain, in 1962. “I felt called to the task by a strong sense that national independence and self-government was failing to make much difference in the livelihood of the Jamaican people,” Harris told me. Successive Jamaican governments had tried to reduce poverty and income inequality by expanding redistributive programs and making other interventions in the economy. But this strategy hadn’t led to markedly higher living standards for the majority of the population, and government indebtedness had ballooned. (In 1984, the ratio of government debt to G.D.P. reached more than two hundred per cent.) Jamaica entered a series of painful “structural adjustment programs” under the supervision of the International Monetary Fund and the World Bank, which involved budget cuts and tax increases.

In Jamaica, and in many other former colonies, some politicians and left-leaning commentators attributed economic difficulties to the colonial legacy, which had left newly independent countries with little capital of their own and still heavily dependent on foreign-owned firms. Indeed, there was an entire school of leftist economics known as dependency theory, and some of its followers argued that developing countries should break with international capitalism entirely. Harris, in his articles and policy briefs, acknowledged the historical challenges facing Jamaica’s economy, including a lack of capital, a weakness in manufacturing, and an overreliance on the exports of primary products, such as bauxite and sugar. But he placed some of the blame for the country’s problems on its own shoulders. “It is also evident that the state itself, through its own actions, has contributed in many ways to the continued underperformance of the economy, in particular by creating market distortions, allocative inefficiencies, avenues for rent-seeking and corruption,” he wrote in a 2012 article that formed part of a lengthy report on how to stimulate long-term growth. “Nowhere is such failure of governance more evident than in the lack of fiscal discipline which accounts for the large accumulation of public debt that now severely restricts the options for promoting growth and development in the economy.”

Given the challenges facing Jamaica, Harris believed that a new economic strategy was needed. For inspiration, he looked to fast-growing island economies like Singapore, Taiwan, and Mauritius, which had thriving private sectors and governments that adopted policies designed to integrate their economies into global capitalism on more favorable terms. In a series of policy papers, some of which he co-wrote with others, Harris advocated a program that he believed would place Jamaica on this path. It included cutting the budget deficit but also providing financial incentives for private investment, expanding public infrastructure, and developing manufacturing industries that had the potential to generate export growth. “I saw clearly that the over-all objective was to build a properly functioning capitalist economy, with an entrepreneurial profit-seeking private sector managing production and investment in partnership with a state that proactively provides the enabling environment and political leadership,” Harris told me.

Some of the policies he recommended, such as fiscal retrenchment and openness to foreign investment, are ones that pro-capitalist, pro-free-market publications like The Economist have long advocated. Others, including targeting the development of individual industries, were inspired by the interventionist Asian Tiger model—and have recently been adopted by the Biden Administration. Harris insists that there is no inconsistency between his policy advice and his prior theoretical work, including his study of Marxian economics. Although Marx was committed to replacing capitalism with socialism, he also emphasized the productive power of an economic system based on private property and the profit motive. In the classic Marxist theory of history, capitalism had to develop fully before it became practical to replace it with socialism and, ultimately, communism. “The basic lesson that I learned from my close reading of Marx is that it takes capitalism to ‘ripen the productive powers of social labor’ (his words),” Harris wrote in the autobiographical article that he shared with me. If this premise is accepted, it inevitably leads to skepticism about efforts to create a socialist economy in developing countries, productivity is low, and technological progress has been stifled.

In my final question for Harris, I asked him about his views on the appropriate policies for economies where “the productive powers of social labor” are already highly developed, such as this one. He said that he didn’t want to be drawn into current political debates, but he was interested in how the development of artificial intelligence might accentuate existing social divisions. The U.S., he said, was in the midst of a “fourth industrial revolution,” which could create an economy where people with A.I. skills make lots of money and those lacking them earn very little. The big policy challenge was in trying to more evenly distribute those gains, and avoiding group conflicts. But this was “a very difficult question, and the political discourse doesn’t have the ability to address it very effectively,” Harris went on. “You get caught up in an extraordinary degree of gamesmanship and partisanship.” Was that a political answer? Perhaps. But it also highlighted how the thorny questions of income distribution and inequality that Harris focussed on in his theoretical work now play a prominent role in political and policy debates. Indeed, if the past few decades have demonstrated anything, it is surely that the term “uneven development” accurately describes our high-tech, globalized economy. The heterodox school of economics that Harris is part of certainly didn’t have all the answers. But it was asking some of the right questions. ♦

2 de fevereiro de 2016

Bernie Sanders mudou o Partido Democrata

John Cassidy sobre o que o sucesso de Bernie Sanders em Iowa significa para o Partido Democrata.

John Cassidy

Joshua Lott/Getty

Depois de uma noite impressionante em Iowa, que serviu como uma espécie de “repreensão” tanto para Trump quanto para os institutos de pesquisa de opinião, o Partido Democrata pode ter que lidar, em novembro, com um candidato jovem e bem articulado pelo Partido Republicano: o Senador Marco Rubio, que terminou em um fortíssimo terceiro lugar, atrás de Cruz e Trump. Até lá, no entanto, os Democratas também terão que lidar com delicados problemas internos: Bernie Sanders, através da promoção de uma América governada “pelo poder do povo”, confirmou que tomou conta da fatia de eleitores com menos de 40 anos no partido, o que significa que Hillary terá problemas.

Estritamente faland, as prévias do Partido Democrata terminaram empatadas. Nas primeiras horas da manhã de terça, com noventa e nove por cento dos distritos já contados e somados, o número de delegados estava em seiscentos e sessenta e cinco para Clinton e Seiscentos e sessenta e dois para Sanders (por alguma razão, os Democratas revelam apenas o número de delegados, não o número total de votos de cada candidato). Em termos de percentagem, foi 49,8 por cento a 49,6 por cento, o que na prática quer dizer 50/50. Salvo imprevistos, os 44 delegados de Iowa para a Convenção Nacional do Partido Democrata serão dividido de forma igualitária.

O resultado das prévias de Iowa não significa que Clinton não conseguirá a indicação. Embora pareça que ela provavelmente perderá em New Hampshire na próxima semana, continua uma forte candidata e mesmo favorita para a indicação: nos sites de aposta, se você quiser ganhar vinte dólares apostando que Hillary surgirá no final como candidata do Partido Democrata, terá que apostar um total de 100 dólares. Ocorre que se Clinton quiser unir o partido e entusiasmá-lo para favorecer a sua candidatura e para uma luta pela presidência que se anuncia dura, ela precisa encontrar uma maneira de conquistar os eleitores jovens, mais vinculados à mensagem anti establishment que é a marca de Sanders.

A diferença de idade entre os apoiadores de Hillary e de Sanders é enorme. De acordo com as pesquisas de boca de urna que previam contundentemente uma vitória de Hillary, Sanders teve oitenta e seis por cento dos votos democratas entre os eleitores no grupo com 17 a 24 anos de idade, oitenta e um por cento nos que tem idade entre 25 a 29 anos, e sessenta e cinco por cento entre os que têm entre 30 e 39 anos. Em contraste, Clinton vence com larga margem entre os eleitores de idade mediana e entre os idosos. Entre os cinquentões, ela vence com uma diferença de vinte por cento.

Quando se torna evidente que você depende de maneira tão pesada do voto dos eleitores mais velhos, fica difícil se apresentar como “a voz do futuro”. Por volta das 11h30min, ao lado do marido e da filha, discursou para apoiadores falando sobre o alívio que sentia por não ter perdido a prévia – referindo-se ao fato de que em 2008 chegou em terceiro em Iowa, atrás de Barak Obama e de John Edwards. As redes de televisão relataram que Clinton tinha vencido as prévias, mas essa menção foi evitada pela própria candidata, que preferiu falar sobre sua disposição para uma longa batalha à frente. “Estou bastante animada para entrar em debate real com o senador Sanders sobre a melhor maneira de lutar pelo povo americano e pelos Estados Unidos”, disse ela.

Às 11h45min foi a vez de Sanders se dirigir a seus correligionários, que eram mais bem animados em sua torcida que os apoiadores de Hillary. “Muito obrigado, Iowa”, começou ele, com a voz rouca. “Há nove meses, chegamos a este belo Estado. Não estávamos politicamente organizados, não tínhamos dinheiro, éramos praticamente desconhecidos e fazíamos frente a uma das mais poderosas organizações políticas dos Estados Unidos. E apesar de tudo, nesta noite, embora os resultados ainda não sejam totalmente conhecidos, parece que temos um empate virtual”.

Essa história explica porque Sanders emergiu como o grande vencedor da noite no lado Democrata. Ele não só saiu de uma história de vida de “subir pelos próprios esforços”, mas fez disso a base de uma mensagem que é mais radical que qualquer política presidencial que temos visto em décadas – uma mensagem que ele repete com regularidade, a ponto de ter se tornado familiar para muitos americanos.

Para levar adiante sua luta em New Hampshire, depois de Iowa, ele usou muitas de suas frases favoritas, já dirigidas para os eleitores da próxima prévia: “Já passou o tempo de uma política e uma economia dirigida apenas para o establishment”. “Não representamos os interesses da classe bilionária, de Wall Street ou dos corporações dos Estados Unidos. Não queremos o seu dinheiro”. “O povo americano está dizendo não para uma economia claramente manipulada”. “Criaremos uma economia que funcione para as famílias trabalhadoras e não só para os bilionários”.

Frente a tal ataque de retórica populista, recheado com promessas do mesmo naipe, o que pode fazer um político claramente vinculado ao establishment como Clinton? Caso as pesquisas que lhe mostravam com grande vantagem sobre Sanders fossem corretas ela poderia despreocupadamente ignorar Sanders como um político de momento, com apelo restrito à Nova Inglaterra e entre liberais brancos com nível universitário. Agora terá uma luta dura a ser travada em New Hampshire, na qual terá que buscar uma vitória incontestável, promovendo uma reviravolta, repetindo o que fez em 2008. Se isso falhar em New Hampshire, já que as pesquisas – se estiverem certas desta vez – mostram Sanders bem à frente por lá, então ela tentará mudar as coisas em Nevada, onde uma prévia Democrata será realizada em 20 de fevereiro, bem como nas primárias Democratas na Carolina do Sul, uma semana a seguir.

A sequência será sem dúvida bem difícil para Sanders, vez que as votações seguintes seguem para Estados com maior número de eleitores entre os não brancos. Baseada em seu sobrenome, seus bem estabelecidos laços organizacionais e seu charme pessoal, a vantagem de Clinton sobre Sanders nestes Estados parece grande. Dois meses atrás, no entanto, a liderança dela em Iowa também parecia substancial. Com o passar do tempo, Sanders conseguiu destruir essa vantagem e revertê-la, eliminando-a literalmente.

Algum tempo depois, falando na CNN, David Axelrod, que foi comandante das campanhas do presidente Obama, enfatizou uma faceta da questão: um dos problemas que Hillary enfrenta nesta caminhada é que a campanha se desenvolve basicamente sobre ela mesma – sua experiência, sua elegibilidade, sua firmeza. “Continuarei fazendo o que fiz minha vida inteira” disse ela em seu discurso de admissão da derrota. “Continuarei aqui para vocês”. Sanders, por outro lado, raramente faz menções sobre si mesmo nos seus discursos. Sua campanha está baseada na mensagem de um país que não funcione apenas para os bilionários. Acrescente-se, disse Axelrod, que é muito mais fácil inspirar as pessoas – mormente os jovens – com temas edificantes que com currículos.

Isto, naturalmente, também foi um problema para Clinton em 2008, quando Obama se baseou em uma mensagem de esperança, com o ótimo slogan “Sim, nós podemos”. Em semanas recentes, a campanha de Clinton para responder às promessas e ações políticas de Sanders parece ser algo como “Não, nós não podemos”. Pelo menos em Iowa essa mensagem mostrou ser perdedora.

Sobre o autor

John Cassidy has been a staff writer at The New Yorker since 1995. In 2012, he began writing a daily column about politics and economics on newyorker.com. He has covered two Presidential elections, and has written extensively about the Trump Administration. He is also a regular contributor to The New Yorker’s political podcast, “Politics and More.” He has written many articles for the magazine, on topics ranging from Alan Greenspan and Ben Bernanke to the intelligence failures before the Iraqi War and the economics of John Maynard Keynes. He is the author of two books: “How Markets Fail: The Logic of Economic Calamities” and “Dot.Con: How America Lost Its Mind and Money in the Internet Era.” Before joining The New Yorker, he worked for the Sunday Times of London and the Post. He graduated from Oxford University in 1984 and from the Columbia School of Journalism in 1986. He grew up in Leeds, West Yorkshire.

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