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22 de maio de 2020

A crise não deveria gerar bilionários, muito menos um trilionário

Jeff Bezos está a caminho de se tornar o primeiro trilionário do mundo. Essa é uma perversão econômica grotesca em nossa sociedade — e a única maneira de mudar isso é organizar os trabalhadores para recuperar o extraordinário poder e riqueza que Bezos está acumulando.

Mindy Isser

Jacobin

O CEO da Amazon, Jeff Bezos, participa da festa pós-Globo de Ouro da Amazon Prime Video em 6 de janeiro de 2019 em Beverly Hills, Califórnia. Emma McIntyre / Getty.

Tradução / Jeff Bezos pode se tornar o primeiro trilionário do mundo. O patrimônio líquido do fundador da Amazon cresceu em média 34% nos últimos cinco anos e, de acordo com uma análise recente, ele está a caminho de alcançar o status de trilionário até 2026.

As notícias nauseantes chegaram em meio a uma pandemia que colocou milhões de pessoas no desemprego, com taxas que rivalizavam às da Grande Depressão. Faz tempo que Bezos já é o homem mais rico do planeta, mas o fato de ele continuar acumulando montes intermináveis de dinheiro, ao estilo Scrooge McDuck, durante uma crise econômica tão profunda, expõe novamente as depravações do nosso sistema econômico. O fato de alguém ser tão obscenamente rico enquanto muitas pessoas estão penduradas por um fio, não é apenas perturbador e imoral, é um ataque aos princípios democráticos e à capacidade de todos viverem uma vida digna.

A Amazon, que emprega quase um milhão de pessoas no mundo todo, é o segundo maior empregador privado nos EUA. Enquanto a empresa se vangloria da maneira como trata seus funcionários — um salário mínimo de 15 dólares por hora, “plano de saúde abrangente”, folga remunerada — a versão contada pelos funcionários é muito diferente. De profissionais de tecnologia a trabalhadores de depósito, os funcionários de Jeff Bezos têm nos alertado sobre suas condições de trabalho e práticas mais amplas da empresa.

Nos “centros de atendimento” da Amazon, os funcionários ficam de pé durante toda a jornada de trabalho, procurando e selecionando os produtos que chegam na casa dos clientes. Um trabalhador pode caminhar 20 quilômetros por turno, e não é incomum as pessoas entrarem em colapso ou passarem mal por calor ou exaustão. A empresa “sugere” que os trabalhadores usem o banheiro apenas durante intervalos designados, o que levou alguns a recorrer a garrafas ou usar fraldas durante a jornada de trabalho. Como esses depósitos são enormes — variando entre 37.000 e 93.000 metros quadrados — caminhar até o banheiro acaba tendo uma boa quantidade de “intervalos“, rastreados automaticamente pela Amazon. Passar muito tempo sem cumprir tarefas pode resultar em rescisão, mesmo que esse tempo tenha sido usado apenas para ir ao banheiro. E como muitos trabalhadores são funcionários temporários, na esperança de serem efetivados, enfrentam uma enorme pressão para serem o máximo produtivos.

Para os trabalhadores de colarinho branco, as condições são menos perigosas fisicamente, mas podem ser igualmente desanimadoras. Um relatório de 2015, publicado no New York Times, cita um ex-funcionário da área de marketing de livros cuja “visão permanente”, escreveu, “era de pessoas chorando no escritório, algo que outros funcionários também descreveram. ‘Você sai de uma sala de reunião e vê um homem adulto cobrindo o rosto’, disse ele. ‘Quase todas as pessoas com quem trabalhei lá, vi chorando pelo menos uma vez em suas mesas”. Outros relataram ter passado por eventos traumáticos como câncer ou aborto espontâneo (ou até mesmo eventos felizes, como o nascimento de filhos) e serem chutados para fora. Um executivo do RH lembra de ter sido forçado a colocar uma mulher que tinha acabado de ter um filho natimorto em um plano de melhoria de desempenho.

Talvez não seja surpreendente que o tempo médio de permanência na Amazon seja apenas de um ano e a rotatividade nos depósitos ultrapasse 100%. Essa agitação constante dificulta a organização — os trabalhadores não ficam tempo suficiente para formar os relacionamentos necessários para construir organizações duradouras, muito menos para ter eleições sindicais. E os trabalhadores da Amazon que se manifestaram sobre suas condições e tentaram se organizar foram vítimas de retaliação e muitas vezes demitidos. No início desta primavera, Chris Smalls, funcionário da Amazon em Nova Iorque, foi posto para fora após organizar uma paralisação em um depósito em Staten Island, protestando contra a falta de pagamento de um adicional de insalubridade e de equipamentos de proteção durante a pandemia da COVID. A Amazon nega que Smalls tenha sido demitido por sua causa da mobilização. Os designers de experiência do usuário que se manifestaram contra as condições nos depósitos da Amazon em solidariedade com seus colegas com salários mais baixos também foram encaminhados à porta da rua.

Embora a retaliação pela organização seja ilegal, é difícil de se provar e as consequências são negligenciáveis, por isso permanece desenfreada nos EUA. Quando os trabalhadores veem seus colegas sendo demitidos por se manifestarem, é menos provável que tentem se organizar — especialmente quando o desemprego está alto. É por isso que os chefes fazem o que fazem, e é uma das razões pelas quais Jeff Bezos é o chefe mais rico do mundo.

Apesar dessas adversidades, grupos de trabalhadores da Amazon se uniram, como Amazonians United e Amazon Workers International, e formaram coalizões com outros trabalhadores de salários baixos — reconhecendo que a organização na ponta da produção é a única maneira de recuperar a riqueza e o poder de Bezos. Eles precisarão do apoio dos sindicatos existentes e da esquerda organizada (inclusive conseguindo empregos na própria Amazon). Formar sindicatos ou mesmo lutar por demandas é difícil nas melhores circunstâncias, mas esses trabalhadores enfrentam um dos homens mais poderosos do mundo.

O império de Jeff Bezos se estende muito além da Amazon: ele é dono da rede de supermercados Whole Foods e do Washington Post, assim como muitas outras empresas de varejo online e mídia social. Ele possui investimentos no Airbnb, Uber, Google e Business Insider, entre outros. Seu alcance já é enorme, o que significa que sua mão-de-obra também é — e a acumulação da mais-valia desses trabalhadores é o que o tornou tão abominavelmente rico.

Imagine se a riqueza de Bezos, em vez de ser usada para comprar a casa mais cara já vendida na Califórnia, fosse direcionada para o financiamento à assistência médica universal, moradia, creches e muito mais para milhões de trabalhadores. Imagine se Bezos fosse derrubado de seu pedestal plutocrático e os trabalhadores sindicalizados da Amazon se tornassem a âncora de uma economia em que bilionários não têm utilidade, e muito menos trilionários.

Isso, sim, seria digno de comemoração.

Sobre o autor

Mindy Isser trabalha no movimento trabalhista e vive na Filadélfia.

25 de março de 2020

Os trabalhadores são mais importantes que os CEO's

A pandemia do coronavírus revelou um fato muito simples: são os trabalhadores de baixa remuneração que fazem nossa sociedade funcionar cotidianamente — e não banqueiros, grandes proprietários de terras ou CEO's.

Mindy Isser

Jacobin

Trabalhadores reabastecem itens em horários especiais, abertos apenas para idosos e deficientes no Northgate Gonzalez Market, um supermercado especializado em produtos hispânicos, em 19 de março de 2020 em Los Angeles, Califórnia. Mario Tama / Getty.

Tradução / Trabalhadores de baixa remuneração estão na linha de frente na batalha contra o coronavírus. Embora muitos trabalhadores tenham começado a fazer “teletrabalho” – e muitos outros infelizmente foram demitidos – trabalhadores com baixos salários estão ocupados limpando nossas ruas, certificando-se de que temos o suficiente para comer e, é claro, nos trazendo a saúde de volta se contrairmos o coronavírus. Apesar de serem os pilares de uma sociedade funcional, esses trabalhadores são frequentemente tratados como dispensáveis ou descartáveis por conta da “falta de qualificação”. Mas, nas últimas semanas, vimos o quão insubstituíveis eles são.

Os governos estaduais têm lançado ordens cada vez mais rigorosas para impor o distanciamento social e fechar todos os negócios, exceto aqueles considerados “essenciais” ou “que sustentam a vida”. Embora estas listas variem de estado para estado, cada uma inclui mercearias, lavanderias, restaurantes (servindo comida para viagem e entrega), fábricas que produzem alimentos e outros produtos, postos de gasolina, farmácias e hospitais.

E o que todas estas empresas têm em comum? Elas dependem do trabalho de empregados de baixos salários que, em muitos casos, trabalham sem benefícios, sindicatos e proteções no local de serviço. Os funcionários públicos ainda estão de plantão, também, limpando nossas ruas, entregando nossas cartas, e garantindo o nosso acesso a serviços públicos e sociais. Embora muitos funcionários do governo tenham sindicatos, eles geralmente recebem a mesma falta de respeito que seus colegas de baixos salários do setor privado.

Entretanto, imagine uma pandemia global que não haja trabalhadores dos correios ou motoristas de entregas recebendo nossas correspondências e pacotes; sem caixas e estoquistas mantendo os supermercados funcionando e cheios de alimentos; sem cuidadores e empregados domésticos fornecendo apoio médico e emocional que salva vidas de algumas das pessoas em maior risco da sociedade; sem trabalhadores de serviços públicos garantindo o fornecimento de água, eletricidade e gás; sem trabalhadores de lavanderia que nos permitam limpar nossas roupas, toalhas e lençóis; sem garis coletando nosso lixo e retardando a propagação de germes.

Embora muitos indivíduos tenham expressado apreço por esses trabalhadores da linha de frente – deixando o higienizador para mãos do lado de fora para o uso dos carteiros; pedindo aumento nos salários dos professores depois de terem que ensinar as matérias da escola em casa para seus filhos por alguns dias – nossa sociedade há muito os desvaloriza, tanto monetariamente quanto de outras formas. Isto está começando a mudar, graças à crise e à organização dos trabalhadores que aumentou a pressão sobre os patrões.

Em Minnesota, Michigan e Vermont classificaram os funcionários dos supermercados como trabalhadores de emergência, tornando-os elegíveis para cuidados infantis e outros serviços. Os trabalhadores da Stop & Shop (rede norte-americana de supermercados) receberam um aumento salarial de 10% e duas semanas adicionais de licença médica remunerada. Os funcionários da Safeway, Target e Whole Foods ganharam um aumento de 2 dólares por hora. E os trabalhadores sindicalizados em Kroger, no estado de Washington, receberam gratificação no salário por conta do risco em face da pandemia, uma demanda conquistada por muitos trabalhadores de redes varejistas e outros empregados da linha de frente em todo o país. Essas vitórias, embora pequenas, nos aproximaram de uma sociedade onde trabalhadores de baixa renda finalmente recebem a remuneração e o respeito que merecem.

Mas o que dizer sobre o nosso país (EUA) quando os empregos mais essenciais para sustentar a vida em seu nível básico também são alguns dos mais mal pagos e menos valorizados? Trabalhadores de supermercados e socorristas estão se expondo a uma enorme crise de saúde, a fim de manter o resto de nós funcionando o mais normalmente possível. Muitos deles trabalham por um salário mínimo ou algo equivalente – e sem benefícios de saúde – o que significa que eles podem contrair o novo coronavírus e ficarem endividados para pagarem o tratamento ou sem qualquer assistência médica. Enquanto isso, com muitos distritos escolares fechados indefinidamente, os pais de crianças estão perdendo o trabalho essencial e desafiador feito todos os dias por babás, trabalhadores de creches e educadores de todos os tipos.

Esses trabalhadores têm direito a salários mais altos, benefícios integrais, garantias de saúde e segurança, além de sindicatos fortes – tal como qualquer outro trabalhador.

Felizmente, esta crise não somente elevará o status dos empregados com baixos salários, como também desencadeará uma nova onda de organização para melhorar os padrões e construir mais poder ao trabalhador nestas indústrias “essenciais”. O motivo: é porquê são os trabalhadores de baixa remuneração – e não os banqueiros, grandes proprietários de terras ou CEO’s – que fazem nossa sociedade funcionar.

Sobre a autora

Mindy Isser trabalha no movimento trabalhista e vive na Filadélfia.

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