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24 de setembro de 2019

Porque o capitalismo e o feminismo não podem coexistir

A força do feminismo está em lutar por uma vida igualitária para todos, independentemente de sexo, raça ou renda. Não podemos alcançar isso sob o capitalismo.

Nicole Aschoff

Jacobin

Trabalhadoras de uma fábrica de lã operam grandes máquinas de tecelagem, por volta de 1930. Foto: FPG / Arquivo Hulton / Getty


Tradução / A seguir, uma versão ligeiramente editada das observações feitas por Nicole Aschoff, membra do conselho editorial da Jacobin, em um debate no Instituto Cato, em Washington, DC. O tema: “O capitalismo ajuda ou prejudica as mulheres?

Há muito tempo que tanto feministas quanto não-feministas debatem sobre o capitalismo: se é ou não é bom para as mulheres. Mas cada aumento no interesse sobre esse tema está integrado em um contexto particular. Sendo assim, quais são as condições que favorecem um exercício como este no momento presente?

Para começar, o capitalismo está em crise. Não necessariamente uma crise econômica, no sentido de uma recessão completa. Mas temos testemunhado mais de uma década de estímulos que incluem resgates multitrilionários pelos bancos centrais, anos de flexibilização quantitativa e um novo padrão de juros baixos projetados para evitar que investidores se atirem coletivamente de um penhasco.

Apesar desses esforços, os salários e o crescimento econômico continuam estagnados. As empresas parecem mais interessadas em apostar no mercado de ações do que em investir no mundo real. Enquanto isso, o capitalismo neoliberal — as normas, ideias e políticas que estão por trás do status quo das últimas quatro décadas — está passando por uma profunda crise de legitimidade. Há uma perda generalizada de confiança no governo, uma crescente descrença no capitalismo e um ressurgimento do populismo tanto à esquerda quanto à direita.

Um segundo ponto de referência é o ressurgimento do feminismo na última década. Este ressurgimento vem acontecendo de diversas maneiras, sob diferentes perspectivas sobre como melhor desenvolver uma agenda feminista, e tem sido uma constante no discurso público, mais recentemente com o movimento #MeToo (#EuTambém).

A derrota de Hillary Clinton nas eleições estadunidenses de 2016, diante da crise de legitimidade do capitalismo neoliberal, colocou em xeque o modelo dominante do feminismo neoliberal — a ideia de que os objetivos feministas seriam melhor alcançados por meio do esforço individual de cada mulher que conquista uma posição de poder e sucesso dentro do capitalismo. As mulheres, especialmente as mais jovens, estão clamando por um tipo diferente de feminismo, muitas vezes implícita ou explicitamente anticapitalista. Pesquisas revelam que cerca da metade dos jovens adultos estadunidenses prefere o socialismo ao capitalismo e, de acordo com Pew Research Center, 53% dos apoiadores de Bernie Sanders são mulheres.

É neste contexto de crise, que pode ser considerado como um momento de transformação e não de ruptura em si, que olhamos para frente e perguntamos como as feministas devem orientar suas posições e suas lutas.

Eu digo “olhar para frente” deliberadamente. Este é o momento de avaliar as vitórias duramente conquistadas e de elaborar uma estratégia para que todas as mulheres possam realmente desfrutá-las, e de avançar com novas demandas concretas que satisfaçam os amplos objetivos do feminismo.

Primeiramente, no entanto, a serviço da clareza, algumas ressalvas: não falo por todas as mulheres, obviamente, mas também não falo por todas as mulheres de esquerda, ou todas as feministas, ou todas as socialistas, ou todas as socialistas-feministas. Além disso, há muitas críticas feministas ao capitalismo. Dadas as restrições de tempo e de minha própria base de conhecimento, me dirijo apenas a algumas delas.

Chelsea Follett – nossa moderadora, analista política da Cato, e editora executiva da Human Progress — teve a gentileza de trazer algumas perguntas orientadoras para a discussão.

1. A disseminação do capitalismo tem resultado em um saldo líquido positivo ou negativo para as mulheres?

Esta é uma pergunta difícil de responder, até porque acho estranho formular uma equação de custos humanos que atravesse os séculos de capitalismo. Podemos colocar a pergunta da seguinte forma: as melhorias mais recentes na expectativa de vida, alfabetização e autonomia das mulheres compensam o extermínio em massa de mulheres e crianças indígenas, as vidas desesperadas de mulheres presas e torturadas na escravidão, e a desfiguração e morte precoce de mulheres que passaram sua vida labutando em sweatshops [“fábricas de suor” com condições de trabalho muito precárias e socialmente inaceitáveis], cujos corpos são destruídos pelo trabalho fabril?

É um cálculo difícil de fazer com precisão. Mas se quiséssemos tentar, certamente precisaríamos temperar as alegações otimistas dos recentes sucessos do capitalismo global com a dura realidade de que mais de dois bilhões de pessoas sofrem de desnutrição, de que 95% da renda criada com o crescimento global não é compartilhada com os 60% mais pobres da população mundial e de que o número absoluto de pessoas que vivem na pobreza aumentou em um bilhão nas últimas décadas.

Estou disposta a dizer que concordo com Marx, sobre o capitalismo ser melhor que o feudalismo. Também podemos apontar para dados que sugerem um progresso agregado, por exemplo, em direção ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em relação à expectativa de vida, mortalidade e educação. As mulheres de classe média e alta em grande parte do mundo gozam de acesso e direitos que teriam sido invejados por suas irmãs há um século e meio atrás.

Contudo, ao celebrarmos esses ganhos, os quais devem ser celebrados, precisamos ser cautelosos com as setas causais que desenhamos. Embora alguns desses ganhos possam ser atribuídos ao desenvolvimento e à racionalização — que estão correlacionados com o capitalismo — muitos deles são resultado de uma persistente luta política, e não do capitalismo propriamente dito.

Leis e normas contra a discriminação, o direito de não sermos propriedade dos nossos maridos, o direito ao voto, o direito de podermos nos proteger e proteger nossos filhos da violência doméstica — estes e tantos outros não foram simplesmente transmitidos de cima para baixo por uma Câmara de Comércio. Eles foram conquistados por movimentos sociais, muitos deles liderados por socialistas e feministas, que lutaram com unhas e dentes e sofreram muitas derrotas pelo caminho.

Neste momento, porém, penso que seja importante olhar para frente. Mesmo que reconheçamos que o capitalismo tenha proporcionado um ganho líquido para as mulheres — o que eu não reconheço — é muito mais importante perguntar se o capitalismo levará a ganhos no futuro.

O feminismo não se trata apenas de eliminar a discriminação baseada no gênero. O feminismo se trata de lutar por e criar igualdade e uma boa vida para todos, independentemente de sexo, gênero, raça, etnia, educação, renda, religião, ou de onde vivem. Isto é o que há de melhor no feminismo — e é por isso que sou feminista.

Em síntese, estes objetivos não podem ser alcançados no capitalismo.

Recentemente houve a greve climática, então vamos considerar o exemplo das mudanças climáticas. Nada demonstra melhor o fracasso do chamado livre mercado do que a catástrofe climática que se aproxima. Embora o capitalismo possa ser racional no nível individual, em um nível sistêmico ele é altamente irracional. A busca imprudente por lucros dos capitalistas individuais, fortalecidos por elites e governos, criou o enorme problema coletivo do aquecimento global, para não mencionar o esgotamento dos recursos e a destruição de biomas.

Mas em vez de encarar este problema de frente — um problema que compreendemos há décadas — durante os últimos quarenta anos as elites e os empresários têm insistido no poder de cura dos mercados livres. Eles argumentam que mercados seriam naturais e que fariam parte de uma ordem espontânea, que indivíduos racionais que operam com informações perfeitas criam resultados ótimos, e que externalidades são triviais.

Sabemos o que precisa ser feito, mas os imperativos do lucro e as prerrogativas arraigadas das elites têm impedido os países de adotar projetos e programas que nos libertem de economias destrutivas baseadas em combustíveis fósseis, e de desenvolver e instituir soluções sustentáveis para atender às nossas necessidades.

Somente um projeto coletivo, ancorado na solidariedade e na cooperação, e organizado em torno do princípio de retomar o nosso planeta das mãos das corporações vorazes, nos dará uma oportunidade de lutar para alterar a nossa trajetória atual.

2. Podemos dizer que o capitalismo é um sistema econômico intrinsecamente explorador, opressor e patriarcal interconectado com a subjugação das mulheres?

Vamos analisar um pouco essa questão. O capitalismo é explorador? Na economia política, a exploração descreve uma relação pela qual uma pessoa vende sua força de trabalho a alguém que possui os meios de produção e que lucra pagando a ela, a trabalhadora, menos do que o valor daquilo que ela produz. Portanto, sim, a maioria das pessoas, inclusive as mulheres, são exploradas no sentido de que trabalham por um salário e que não poderiam comprar comida ou pagar aluguel sem trabalhar em troca de um salário.

Esta exploração é opressiva, ou seja, constitui um tratamento cruel ou injusto? Bem, isso depende. Nos Estados Unidos, por exemplo, nem todas as mulheres são oprimidas. (Algumas feministas e socialistas rejeitariam esta avaliação.) No entanto, não acho que mulheres brancas altamente remuneradas que possuem respeito, segurança e autonomia na organização de suas vidas profissionais sejam oprimidas — ou pelo menos não o suficientemente oprimidas para que eu vá às ruas lutar por elas.

O problema é que este cenário feliz não descreve a situação da grande maioria das mulheres. Uma mulher que trabalha em tempo integral por um salário mínimo e não tem condições de ir ao médico, nem de comprar legumes, nem de pagar aluguel é oprimida. Uma jovem recém formada mergulhada em dívidas de crédito estudantil, que trabalha mais de sessenta horas semanais em uma startup de tecnologia — daquelas que complementam os péssimos salários que pagam aos funcionários com cerveja grátis e uma mesa de pebolim na sala de descanso — é oprimida.

Boa parte desta opressão está ligada ao patriarcado, ou, mais precisamente, ao sexismo, já que não vivemos em uma sociedade formalmente patriarcal. Ainda não existe consenso sobre o capitalismo ser inerentemente sexista, e o sexismo certamente existe fora do capitalismo. Podemos imaginar um modelo de capitalismo que não seja sexista ou racista. Mas o capitalismo é uma forma real de organização das normas, prioridades, estruturas e atividades da sociedade que evoluem ao longo do tempo e do espaço.

Como um sistema histórico, o sexismo e o racismo têm sido centrais na estratégia de acumulação no capitalismo. O sexismo faz com que o trabalho doméstico não remunerado das mulheres, essencial para a sociedade, pareça natural, fruto de seu amor. O sexismo e o racismo também continuam sendo ferramentas extremamente úteis no repertório dos empresários para dividir e oprimir os trabalhadores, para desencorajar as demandas por melhores salários e benefícios, ou para obstruir esforços de formação de sindicatos.

3. Ou será que o capitalismo não contribui para o empoderamento das mulheres, aumentando seu bem-estar material e promovendo a paridade de gênero?

Em vez de formularmos nossas perguntas e respostas como um ou outro, deveríamos optar por uma discussão mais matizada sobre ambos. Como eu disse anteriormente, as mulheres têm sido empoderadas no capitalismo. Embora precisemos ter cuidado para não confundir correlação com causalidade — tendo em mente aquelas variáveis escondidas, tais como os movimentos de mulheres, de direitos civis, o movimento trabalhista e o ambiental — os mercados ainda podem empoderar as mulheres.

Dinheiro é poder. Se as mulheres da atualidade tiverem a sorte de ter pais ricos, ou de terem nascido com habilidades ou inteligência excepcionais que as permitam conseguir um emprego bem remunerado e gratificante, elas serão empoderadas. Mais do que isso, elas serão capazes de empoderar outras pessoas em suas redes sociais, como seus próprios filhos.

Porém, observar que algumas mulheres têm bastante poder no capitalismo não implica que o caminho tenha sido traçado e que, se simplesmente o seguirmos, os objetivos do feminismo serão alcançados. A incrível riqueza dos poucos que estão no topo da pirâmide não é um acidente ou uma pontinha inofensiva sobre uma base saudável de pessoas que vivem uma boa vida. As reformas favoráveis ao mercado das últimas décadas tornaram um punhado de pessoas (na maioria homens) absurdamente ricas, enquanto a grande maioria teve seu sustento estagnado e suas oportunidades reduzidas.

Os incríveis avanços tecnológicos e científicos dos últimos quarenta anos poderiam ter sido canalizados para reduzir drasticamente a pobreza, melhorar os resultados dos cuidados de saúde e a sustentabilidade ecológica de nossos processos de produção, e para garantir a segurança no fornecimento e distribuição de água limpa, alimentos nutritivos e moradia adequada. São coisas que todas as pessoas valorizam, e que dariam grande poder às mulheres que sofrem desproporcionalmente por não as terem.

Nós temos todos instrumentos necessário para melhorar enormemente a vida das mulheres, e de todas as outras pessoas. No entanto, não direcionamos nossos recursos, conhecimento e energia para atingir este objetivo. Por quê? Porque o objetivo do capitalismo não é melhorar o mundo — é gerar lucro.

Colaborador

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

29 de fevereiro de 2016

O socialismo e o feminismo, às vezes, não entram em conflito?

Em última análise, os objetivos do feminismo radical e do socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas.

Nicole Aschoff

Jacobin

Ilustração por Phil Wrigglesworth

Tradução / Socialismo e feminismo têm uma relação longa, e por vezes conturbada.

Socialistas são muitas vezes acusados de enfatizarem demais a questão de classe – de colocar a divisão estrutural entre aqueles que precisam trabalhar em troca de um salário para sobreviver e aqueles que possuem os meios de produção no centro de cada análise. Até pior, eles ignoram ou inferiorizam o quão centrais outros fatores – como sexismo, racismo ou homofobia – são na formação de hierarquias de poder. Ou eles admitem a importância destas normas e práticas negativas, mas defendem que elas somente poderão ser extirpadas depois que a gente se livrar do capitalismo.

Ao mesmo tempo, socialistas acusam feministas hegemônicas de se focar demais em direitos individuais ao invés da luta coletiva, e ignorar as divisões estruturais entre as mulheres. Eles acusam as feministas hegemônicas de se alinharem com projetos políticos burgueses que diminuem a capacidade de ação de mulheres trabalhadoras, ou de pressionar por demandas de classe média que ignoram as necessidades e desejos de mulheres pobres, tanto no Norte Global quanto no Sul.

Estes debates são antigos e datam da metade do século XIX e da Primeira Internacional, e giram em torno de questões políticas profundas sobre poder e as contradições da sociedade capitalista.

Turvando ainda mais as águas está a forma com que as políticas do feminismo são complicadas pela natureza histórica do Capitalismo – a forma como o sexismo está integrado tanto no processo de lucro quanto no de reprodução do sistema capitalista como um todo é dinâmico.

Este dinamismo é muito aparente hoje, quando uma mulher candidata à presidência, Hillary Clinton, é a principal escolha entre os milionários estadunidenses. Mas a divisão entre Socialismo e Feminismo é, em definitivo, desnecessária.
Por que Socialistas deveriam ser Feministas

A opressão às mulheres, tanto na sociedade dos EUA quanto globalmente, é multi-dimensional – divisões de gênero nas esferas política, econômica e social sublinham por que, para nos libertar das tiranias do Capital, os Socialistas precisam ser também Feministas.

A possibilidade de uma mulher finalmente se tornar presidenta dos EUA joga luz sobre a rígida falta de lideranças femininas, tanto nos EUA quanto ao redor do mundo. Apesar de mulheres poderosas como Angela Merkel, Christine LeGarde, Janet Yellen e Dilma Rousseff, o equilíbrio de gênero nos mundos político e corporativo permanece altamente enviesado. Apenas 4% dos CEOs nas empresas da Fortune 500 são mulheres e a maioria das mesas diretoras de corporações têm poucos membros femininos, quando têm algum.

Globalmente, 90% dos Chefes de Estado são homens, e no Fórum Econômico Mundial de 2015 apenas 17% dos 2500 representantes eram mulheres, enquanto 2013 marcou a primeira vez que as mulheres conquistaram 20 cadeiras no Senado dos EUA.

Diferente de muitos países, as mulheres nos Estados Unidos possuem, a grosso modo, direitos igualitários e proteção legal, além de tanto acesso a educação, nutrição e cuidados de saúde quanto os homens. Mas as divisões de gênero são aparentes através da sociedade.

As mulheres se saem melhor que os homens na educação superior, mas elas não atingem níveis comparáveis de sucesso ou riqueza e permanecem estereotipadas e sub-representadas na mídia popular. Ataques aos direitos reprodutivos femininos [2] continuam sem diminuir e, depois de uma longa e contínua queda nos anos 90, as taxas de violência contra as mulheres não se movem desde 2005.

Ao mesmo tempo, decisões sobre como balancear a vida doméstica e de trabalho, diante de custos sempre crescentes de moradia e cuidado infantil, são tão difíceis quanto sempre foram. Nos 50 anos desde a passagem do Ato de Pagamento Igualitário de 1963 as mulheres penetraram na força de trabalho em massa; hoje 60% das mulheres trabalham fora de casa. Mães solteiras e casadas têm mais chance de trabalhar, incluindo 57% de mães de crianças de menos de 1 ano.

Mas mulheres que trabalham em jornada completa ainda ganham apenas 81% do que os homens ganham – um número inflado pelo declínio mais rápido nos salários de homens nos últimos anos (com exceção dos que possuem diploma superior) nos anos recentes.

Diferenças de pagamento são comparáveis às divisões de gênero no trabalho. Os setores de varejo, serviços e alimentação – o centro do crescimento de novos empregos – são dominados por mulheres, e a feminização do trabalho de “assistência” é ainda mais pronunciado. Apesar de ganhos recentes, como a extensão do Ato de Padrões Justos de Trabalho aos trabalhadores domésticos, trabalho de assistência [3] ainda é visto como trabalho de mulher e sub-valorizado. Números desproporcionais de empregos de cuidados são contingentes, pagam pouco e onde humilhações, assédio, agressões sexuais e roubo de salário são comuns.

Em adição a estas diferenças claras entre as experiências de homens e mulheres nos EUA, existem efeitos mais perversos e de longo alcance do sexismo. Feministas como bell hooks argumentam que o sexismo e o racismo impregnam todos os cantos da sociedade e que narrativas dominantes de poder glorificam visões de vida brancas e heteronormativas.

Desde o nascimento, meninos e meninas são tratados diferentemente e estereótipos de gênero são introduzidos em casa, na escola, e na vida cotidiana e perpetuados através das vidas das mulheres, dando forma às suas identidades e escolhas de vida.

O sexismo também exerce um papel menos óbvio, mas crítico, na criação de lucros. Desde o começo, o Capitalismo tem dependido de trabalho não-pago fora do mercado de trabalho (principalmente no lar) que provê ingredientes essenciais para a acumulação de capital: trabalhadores – que precisam ser criados, vestidos, alimentados, socializados e amados.

Este trabalho não-pago é altamente marcado pelo gênero. Enquanto mais homens tomam parte nas tarefas domésticas e na educação infantil do que no passado, a reprodução social ainda cai primariamente sobre as mulheres, de quem se espera que carreguem nos ombros o fardo mais pesado no trabalho doméstico. A maioria das mulheres também faz trabalho pago fora de casa, tornando o seu trabalho em casa um “segundo turno.” Desta forma, mulheres são duplamente oprimidas – exploradas no espaço de trabalho e não-reconhecidas como trabalhadoras na reprodução social da força de trabalho.

Por que feministas deveriam ser socialistas

Estas divisões de gênero que atravessam as classes e persistem – nas esferas política, econômica e social – dão combustível ao ponto de vista feminista dominante de que o sexismo é uma coisa separada do Capitalismo, algo com que precisamos lidar separadamente.

Através de numerosas ondas de luta feminista, ativistas tem perseguido uma variedade de estratégias no combate ao sexismo e a divisões de gênero. Hoje, feministas hegemônicas gravitam rumo a um foco em colocar a mulher no poder – tanto na esfera política quanto econômica – como um caminho para resolver a série de problemas que as mulheres encaram, tais como desigualdade salarial, violência, equilíbrio entre vida e trabalho e socialização sexista.

Eminentes porta-vozes femininas [4] como Sheryl Sandberg, Hillary Clinton, Anne-Marie Slaughter e muitas outras defendem esta estratégia feminista de “tomada de poder.” Sandberg – uma das mais influentes defensoras desta estratégia – argumenta que as mulheres precisam parar de ter medo e começar a “desbaratar o status quo.” Se elas fizerem isso, ela acredita que esta geração pode diminuir a lacuna de lideranças e, ao fazer isso, tornar o mundo um lugar melhor para todas as mulheres.

O impulso do argumento de tomada de poder é que se as mulheres estivessem no poder elas, diferente dos homens, iriam dar conta de implementar políticas que beneficiariam mulheres e aquela divisão de gênero que atravessa classes nas esferas econômica, política e cultural somente será eliminada se as mulheres mantiverem um número de posições de liderança igual ao dos homens.

A ênfase em avanços individuais como o caminho para atingir os objetivos do Feminismo não é nova, e tem sido criticada por numerosas feministas, incluindo Charlotte Bunch e Susan Faludi, que questionam a noção de solidariedade entre irmãs como um remédio para divisões de gênero muito enraizadas. Como Faludi diz, “Você não pode mudar o mundo para as mulheres apenas inserindo rostos femininos no topo de um sistema intacto de poder social e econômico.”

Feministas-Socialistas como Johanna Brenner também apontam para como o feminismo hegemônico encobre tensões profundas entre mulheres:

“Nós podemos generosamente caracterizar como ambivalentes as relações entre mulheres da classe trabalhadora/pobres e as mulheres profissionais de classe média cujos trabalhos são erguer e regular aqueles que vêm a serem definidos como problemáticos – os pobres, os não-saudáveis, os que não se encaixam culturalmente, os sexualmente não-conformistas, os pouco-educados. Estas tensões de classe vazam nas políticas feministas, enquanto feministas de classe-média afirmam representar as mulheres trabalhadoras.”

Então, enquanto é certamente necessário reconhecer o quão dividida por gênero a sociedade contemporânea permanece, também é necessário manter os olhos abertos sobre como superar essas divisões e, igualmente importante, reconhecer as limitações de um Feminismo que não desafia o Capitalismo.

O Capital se alimenta sobre normas existentes de sexismo, compondo a natureza exploradora do trabalho assalariado. Quando as ambições e desejos das mulheres são silenciados ou sub-valorizados, é mais fácil de tomar vantagem delas. O sexismo é parte da caixa de ferramentas da companhia, permitindo às empresas pagar menos para as mulheres – particularmente negras – e discriminá-las de outras maneiras.

Mas mesmo se nós extirparmos o sexismo, as contradições inerentes ao Capitalismo vão persistir. É importante e necessário que as mulheres assumam posições de poder, mas apenas isso não vai mudar a divisão fundamental entre trabalhadores e proprietários – entre mulheres no topo e mulheres na base. Não vai mudar o fato de que a maioria das mulheres se encontra em empregos precários, de baixo salário, que representam uma barreira bem maior ao avanço e a uma vida confortável que o sexismo na esfera econômica ou política. Não vai mudar o poder da busca pelo lucro e a compulsão das companhias por dar às trabalhadoras e trabalhadores tão pouco quanto as normas econômicas, sociais e culturais permitirem.

É claro, a sociedade não é redutível a relações salariais e as divisões de gênero são reais e persistentes. Levar a questão de classe a sério significa ancorar a opressão feminina dentro das condições materiais em que elas vivem e trabalham, enquanto reconhecendo o papel do sexismo na formação das vidas das mulheres tanto no trabalho quanto em casa.

O movimento feminista – tanto sua encarnação de “Bem-Estar Social” quanto a radical contemporânea – tem tido ganhos significativos. O desafio agora é duplo: defender essas duras vitórias e tornar possível a todas as mulheres realmente aproveitá-las; e pressionar adiante por demandas novas e concretas que lidem com as relações complexas entre o sexismo e a busca por lucro.

Não há resposta simples sobre como atingir estes objetivos gêmeos. No passado, mulheres tiveram os maiores ganhos ao lutar tanto por direitos das mulheres quanto direitos dos trabalhadores simultaneamente – ligando a luta contra o sexismo à luta contra o Capital.

Como Eileen Boris e Anelise Orleck argumentam, durante os anos 70 e 80 “feministas sindicalistas ajudaram a revitalizar o movimento das mulheres que deflagrou novas demandas de direitos femininos em casa, no trabalho e dentro de sindicatos.” Aeromoças, trabalhadoras do setor têxtil, da igreja e domésticas desafiaram os movimentos sindicais dominados por homens (uma mulher não sentou na mesa executiva da AFL-CIO até os anos 80) e no processo forjaram um novo Feminismo, mais expansivo.

Mulheres sindicalistas criaram um novo campo de possibilidades ao demandar não apenas salários mais altos e oportunidades iguais, mas também creches, escalas de trabalho flexíveis, licença-maternidade, e outros ganhos normalmente negligenciados e subvalorizados por seus irmãos sindicalistas.

Esta é a direção em que tanto Socialistas e Feministas deveriam estar se orientando – rumo a lutas e demandas que desafiem tanto as tendências do Capital quanto as normas arraigadas do sexismo que estão enraizadas tão fundo sob o Capitalismo.

Lutas e demandas que atingem isso são concretas e estão atualmente sendo travadas. Por exemplo, a luta por um sistema público e gratuito de saúde – que proveria cuidados de Saúde como um Direito para toda pessoa, do berço ao túmulo, independente de sua capacidade de pagar – é uma demanda que mina ambos o sexismo e o poder do Capital de controlar e reprimir a ação trabalhadora. Há muitas outras demandas concretas de curto-prazo que misturam os objetivos do Feminismo e do Socialismo também, incluindo Educação Superior gratuita, creches gratuitas, e uma Renda Básica Universal combinados com uma rede robusta de segurança social.

Estas reformas estabeleceriam as bases para objetivos mais radicais que iriam longe na extirpação do sexismo, da exploração e da mercantilização da vida social. Por exemplo, projetos para aumentar o controle coletivo e democrático sobre instituições centrais para nossas vidas em casa, na escola ou no trabalho – escolas, bancos, espaços de trabalho, prefeituras, agências estatais e locais – dariam a todas as mulheres e homens mais poder, autonomia e a possibilidade de uma vida melhor.

Esta estratégia anticapitalista é uma que contém a possibilidade de mudanças radicais de que as mulheres precisam.

Em última análise, os objetivos do Feminismo radical e do Socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas, não simplesmente oportunidades iguais para as mulheres ou participação igual por mulheres em um sistema injusto.

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